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22/04/2012

No Afeganistão, os EUA à beira do adeus

Immanuel Wallerstein: guerra tornou-se insustentável e retirada quase certa diz algo sobre atual isolamento de Washington. Tradução: Daniela Frabasile




Os dois candidatos para a presidência dos Estados Unidos parecem estar tentando falar um mais alto que o outro, no que diz respeito ao Irã, Síria e Israel/Palestina. Cada um alega que está fazendo mais para apoiar os mesmos objetivos. Não é estranho que não exista a mesma competição verbal sobre o Afeganistão?

As coisas mudaram há pouco. Durante muito tempo, Democratas e Republicanos disputaram quem era mais macho do Afeganistão? Lembre-se de que o conceito de uma “ofensiva”, capaz de ganhar a guerra foi endossado pelo presidente Obama, em seu discurso na Academia Militar, em dezembro de 2009. De repente, desde março de 2012, parece que isso se tornou um assunto sobre o qual ninguém quer se posicionar de forma aberta. Existem algumas explicações simples. Os Estados Unidos têm pouco para mostrar, na guerra mais longa em que já se envolveram. O inimigo, o Talibã, é uma força de enorme resilência, principalmente nas áreas Pashtun, a maior zona étnica do país.

Os Estados Unidos impuseram, de forma mais ou menos solitária, o presidente Hamid Karzai – um pashtun, não aliado ao Talibã. Karzai não foi, e não é, bem aceito pelos líderes de várias outras zonas étnicas no norte e oeste do país, que tentaram retirá-lo do poder. Esses outros grupos têm apoio de potências externas: Rússia, Irã e Índia, todos tão dispostos quanto os Estados Unidos a evitar que o Talibã volte ao poder. Mas os Estados Unidos não vão trabalhar com o Irã, têm dúvidas quanto a trabalhar com a Rússia e não parecem estar dispostos a coordenarem-se com a Índia.

Em fevereiro de 2012, alguns exemplares do Alcorão foram queimados por soldados norte-americanos, o que levou a violentos protestos públicos no Afeganistão. Então, 16 crianças, mulheres e homens afegãos foram massacrados por um soldado americano. Os Estados Unidos desculparam-se por ambos os atos, mas isso não acalmou a tempestade. Em 18 de março, o presidente Karzai denunciou os americanos no Afeganistão como “demônios”, envolvidos em “atos satânicos”. Ele disse que o Afeganistão estava rodeado por dois demônios – o Talibã e os americanos.

O New York Times citou um diplomata europeu anônimo dizendo “nunca na história, uma superpotência gastou tanto dinheiro, enviou tantas tropas para um país, e teve tão pouca influência sobre o que o presidente desse país faz e fala”.

Os Estados Unidos, tentando salvar sua posição, começaram a se retirar. O secretário de Defesa, Leon Panetta, já tinha dito em fevereiro que o país sairia de uma posição de combate não no fim de 2014, como era planejado, mas em meados de 2013. No começo de abril, Washington foi além. Anunciou que estava entregando o controle de operações especiais – por exemplo, uso de aviões não-tripulados (drones) e ataques noturnos – para as forças afegãs. As tropas americanas exerceriam agora apenas um papel de apoio”.

O ministro das relações exteriores do Afeganistão, Zalmai Rassoul, não pareceu agradecido. Ele anunciou que, uma vez que as tropas dos EUA e da OTAN saíssem do país, em 2014, Kabul não iria permitir que seu território fosse base de lançamento para ataques de drones contra o Paquistão.

Os paquistaneses, então, desferiram outro golpe contra os Estados Unidos. Em 12 de abril, o parlamento aprovou de forma “unânime” uma lista de condições para melhorar as relações entre os dois países e reabrir a rota de suprimentos da OTAN no Afeganistão. Eles incluíram um fim aos ataques de drones no território do Paquistão e um pedido de “desculpa incondicional” pela morte de 24 soldados paquistaneses no ataque aéreo da OTAN em novembro de 2011. Os EUA resistem a essas condições. Mas dado que agora é evidente a divergência entre os objetivos políticos americanos e paquistaneses no Afeganistão, não fica claro se Washington poderá prevalecer.

Então, em 14 de abril, Lawrence Korb, que foi assistente do secretário da Defesa no governo Reagan, publicou um artigo intitulado “Hora de deixar que Karzai nos bote para fora”. Korb argumentou que os Estados Unidos são, desde 1945, “muito melhores em começar guerras do que em acabá-las satisfatoriamente”. Ele chamou atenção para o que considerava uma perda desnecessária de vidas, nos dois últimos dois das guerras da Coreia e do Vietnam.

Segundo ele, a exceção é o Iraque, em que os Estados Unidos se retiraram por que “o primeiro-ministro iraquiano, Nouri Al-Malik, não nos deixou escolha”. Ele diz: “no Iraque, o governo dos EUA deu sorte”. Sua conclusão: ”assim como Al-Maliki nos forçou a fazer a coisa certa, deveríamos permitir que Karzai tome o controle de seu próprio país tão cedo quanto ele quiser”. Korb é um analista republicano conservador, que vê máxima vantagem no fato de os Estados Unidos serem forçados a sair do Afeganistão assim que possível.

Korb não está sozinho. Uma pesquisa do Washington Post / ABC News, publicada em 12 de abril, mostra que apenas 30% da população concorda que a guerra tem valido a pena. Ainda mais impressionante: pela primeira vez, uma maioria de republicanos opõe-se ao conflito. Duas coisas influenciam a opinião pública estadunidense. Primeiro, os afegãos não parecem solidários com os esforços ou perdas militares dos EUA. Muito pelo contrário. Em segundo lugar, os custos da guerra no Afeganistão são astronômicos nesse momento, quando os Estados Unidos, e principalmente os republicanos conservadores, estão tentando reduzir gastos drasticamente.

Minha previsão: sem alardes, mas com certeza, o presidente Obama irá seguir o conselho de Korb.

05/01/2012

Os conflitos máis violentos de 2011

Artigo tirado de aquí e traducido por nós.
Soldado ugandés na fronte norte de Mogadiscio, Somalia. Setembro 2011. Foto: HERNÁN ZIN

Como xa escribimos nestas páxinas en varias ocasións, a guerra tradicional, entre estados e exércitos profesionais, pertence ao pasado. De feito, do dez conflitos que en 2011 provocaron máis de 1.000 mortos, ningún responde a estas características.

A violencia no século XXI pasa por aqueles territorios onde os gobernos apenas exercen o seu poder e grupos terroristas, insurxentes ou simplemente delituosos campan ás súas anchas. Enfrontamentos armados de lóxica difusa, sen frontes, onde a peor parte lévana os civís.

Nas próximas entradas repasaremos un a un este dez conflitos, a súa evolución ao longo do 2011 e as súas perspectivas para 2012.

Algúns dos cales narramos desde o terreo nestas páxinas como Somalia, Afganistán ou Sudán, e outros de novo cuño, provocados polas lexítimas ansias de liberdade e democracia, como Iemen, Libia ou Siria.

Unha lista de dez guerras que, en número de mortos, encabeza México con 12.539 asasinatos relacionados coas drogas en 2011. Un aumento do 6,3% con respecto a 2010.

Logo vén Afganistán. E despois Iraq. Aínda que a prensa xa case non lles dedique titulares, o certo é que 4.063 civís morreron o pasado ano na nación do Tigris e o Éufrates, que empeza o 2012 con apenas 200 soldados de EUA no seu territorio (os encargados de velar pola seguridade da embaixada, na chamada Zona Verde de Bagdad).

Paquistán e Colombia pechan esta listaxe ao que debemos sumar unha vintena de conflitos de longa duración se queremos realizar unha radiografía máis exhaustiva da violencia no noso mundo.

Entre estes últimos, que non superaron o milleiro de mortos en 2011, o máis antigo é o de Corea do Norte e do Sur, seguido polas loitas internas en Birmania, e logo a resposta á ocupación de Palestina.

20/12/2011

Os Estados Unidos contra todos

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Immanuel Wallerstein é professor-sênior do Departamento de Sociologia da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Seu saite é www.iwallerstein.com. Tradução: Daniela Frabasile.

Immanuel Wallerstein sustenta: giro estratégico de Washington rumo à Ásia parece precocemente comprometido. País coleciona série impressionante de fracassos diplomáticos


Houve um tempo em que Estados Unidos tinham muitos amigos, ou pelo menos seguidores relativamente obedientes. Hoje em dia, parece que não têm nada além de adversários, de todas as cores políticas. E parece que o país não vai muito bem na disputa com seus antagonistas.

Veja o que aconteceu em novembro de 2011 e tem acontecido na primeira metade de dezembro. O país sustentou divergências com a China, Paquistão, Arábia Saudita, Israel, Irã, Alemanha e América Latina. E não se pode dizer que deu-se bem em nenhuma das controvérsias.

O mundo interpretou a presença e os anúncios do presidente Barack Obama na Austrália como um desafio aberto à China. Ele disse ao Parlamento australiano que os Estados Unidos estão determinados a “alocar os recursos necessários para manter nossa forte presença militar na região”. Para finalizar, Washington está instalando 250 marines na base aérea australiana em Darwin — no futuro, possivelmente poderá aumentar o número para 2.500.

Essa é apenas uma de muitas jogadas similares que se executam no tabuleiro da exibição militar. Enquanto os Estados Unidos saem (ou são forçados a sair) do Oriente Médio, por razões tanto políticas como financeiras, estendem seus músculos em direção à região da Ásia-Pacífico. A estratégia seria viável, diante da urgente demanda por redução os gastos — mesmo com o exército — e da crescente relutância dos norte-americanos em relação ao envolvimento do país em questões externas? Até agora, a “resposta” da China tem sido virtualmente a não-resposta. É como se os governantes chineses soubessem que o tempo está ao lado de seu país — mesmo em suas relações com os Estados Unidos, ou especialmente nas suas relações com os Estados Unidos.

Há, também, o Paquistão. Os Estados Unidos lançaram os desafios: Islamabad deve acabar com os movimentos islâmicos. Deve parar de tentar sabotar o governo de Hamid Karzai, no Afeganistão. Deve parar de ameaçar a Índia com ações militares na Caxemira. Se não… o quê? Eis o problema. Ao que parece, pelos documentos que vazaram, os Estados Unidos acreditavam que o último amigo que lhe sobrou no Paquistão — o atual presidente Asif Ali Zardari —poderia demitir o líder do exército, o General Ashfaq Parvez Kayani. Como resposta, o General Kayani articulou para que Zardari realizasse tratamento médico em Dubai, nos Emirados Árabes. O potencial golpe arranjado pelos Estados Unidos falhou. E, se Washington tentar retaliar a manobra paquistanesa cortando ajuda financeira, sempre haverá a China, para tomar seu lugar.

No Oriente Médio, o que Obama mais quer é que nada dramático aconteça entre Israel e os palestinos até, pelo menos, sua reeleição. Isso não satisfaz realmente as necessidade da Arábia Saudita ou do primeiro-ministro israelense, Benyamin Netanyahu. Por isso, do ponto de vista norte-americano, ambos estão procedendo de maneira fazer marola. E os Estados Unidos estão muito mais numa posição de implorar a judeus e sauditas do que comandá-los ou controlá-los.

Ainda na Ásia, há o Irã, supostamente a principal preocupação imediata dos Estados Unidos — e também da Arábia Saudita e Israel. Washington está usando seus aviões supersecretos não-tripulados (os chamados drones) para espionar os iranianos. Nada surpreendente, exceto pelo fato de que, ao que parece, e de algum modo, um desses drones pousou no Irã — eu digo “pousou” porque a questão crucial é como e por que pousou.

A CIA, dona do avião, diz de maneira pouco convincente que o incidente deveu-se a alguma falha mecânica. Os iranianos, por sua vez, insinuam que derrubaram o drone com um ataque cibernético. Os Estados Unidos garantem que não, que seria “impossível” — mas Debka, a voz da internet israelense, diz que é verdade. Eu acredito que seja provável. Além disso, agora que os iranianos têm o avião, estão trabalhando em desvendar todos seus segredos técnicos. Quem sabe? Eles podem publicar esses segredos para que o mundo todo saiba. E então, quão secretos serão os drones supersecretos?

Ah, sim, a Alemanha. Como todos sabem, existe uma “crise” na zona do euro. E a chanceler alemã Angela Merkel tem trabalhado duro para que os países da zona do euro comprem uma “solução” que irá funcionar para ela — tanto politicamente, dentro da Alemanha, quanto economicamente, na Europa. Merkel tem pressionado um novo Tratado Europeu que iria impor automaticamente sanções aos países signatários que violem suas disposições.

Os Estados Unidos pensaram que essa seria uma abordagem equivocada. Para Washington, trata-se de uma ação de médio prazo que não resolveria imediatamente o problema financeiro da Europa. Obama enviou ao Velho Continente seu secretário do Tesouro, Timothy Geithner, a fim de insistir em suas sugestões alternativas. Os detalhes não importam, nem qual é a melhor opção. O importante é notar que Geithner foi totalmente ignorado e os alemães conseguiram o que queriam.

E, finalmente, os países da América Latina e do Caribe se encontraram na Venezuela para estabelecer uma nova organização: a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). Todos os países americanos assinaram o tratado, exceto os dois que não foram convidados — Estados Unidos e Canadá. A CELAC foi desenhada para suplantar a Organização dos Estados Americanos (OEA), que inclui os Estados Unidos e o Canadá, e que suspendeu Cuba. Pode levar algum tempo até que a OEA desapareça e que somente a CELAC permaneça. Ainda assim, não é exatamente algo que Washington esteja celebrando.

23/09/2011

O imperialismo, fase atual do capitalismo

Emir Sader. Artigo tirado de Carta Maior (aqui).

Mesmo sabendo que o Brasil não votou a favor da resolução da ONU sobre o ataque à Líbia, Obama teve a deselegância de dar a ordem de começo da operação militar em solo brasileiro, durante sua viagem relâmpago ao nosso país. Ao mesmo tempo, esbanjou charme, ele e sua mulher, fez elogios fartos ao Brasil e a Dilma – mesmo se muito parco nos acordos concretos.

A visita de Obama permitiu conhecer de perto as duas caras do mesmo do rosto da potência imperial. A fisionomia pode ser grosseira, como a do seu antecessor, Bush, ou ter a cara simpática de Obama, mas a politica continua sendo a mesma: imperial, belicista, agressiva.

Porque os EUA não são apenas um país rico. São a cabeça do sistema imperialista mundial. Um sistema que teve sua origem no sistema colonial, aquele que, desde a Europa, submeteu os países dos outros continentes, os explorou, os oprimiu – usando trabalho escravo da África –, dividiu-os entre si e constituiu um sistema internacional de poder que passou a controlar o mundo, sob hegemonia inglesa.

A decadência inglesa abriu campo para uma disputa de sucessão entre duas potências emergentes – a Alemanha e os EUA -, que as duas guerras mundiais resolveram a favor deste último. Ao mesmo tempo, as formas de dominação foram mudando. Da ocupação direta, que considerava que as colônias faziam parte dos territórios do país colonizador, foi se passando a formas de dominação que conviviam com a independência politica dos países dominados, mas submetidos a forte controle econômico, tecnológico e militar. Foi se passando do sistema colonial ao sistema imperialista, que tem nos EUA sua cabeça fundamental. Fundem-se no poder norteamericano o poder econômico, político, tecnológico, militar e ideológico.

O imperialismo e os monopólios são a consequência natural da concorrência capital no mercado, em que os mais fortes se tornam cada vez mais fortes, os poderosos cada vez mais poderosos. A concentração de renda e de poder é um resultado obrigatório das condições da concorrência, em que o Estado tem um papel estratégico, seja de favorecer os grandes grupos econômicos, seja de promover os interesses das grandes potências nos conflitos internacionais.

Os EUA passaram a defender os interesses do bloco capitalista em escala mundial, mediante sua força militar, sua capacidade de ação politica, de exportação global dos valores das suas formas de vida – o “modo de vida norteamericano”. Defendeu a esse bloco durante a Guerra Fria – do término da Segunda Guerra Mundial até o fim da URSS (de 1945 a 1991) – contra os “riscos do comunismo”. Terminado esse período, passaram a buscar inimigos que justificassem a manutenção e a contínua militarização da sua economia e dos conflitos. Encontraram no “terrorismo” esse novo inimigo. As guerras do Afeganistão, do Iraque e agora da Líbia, expressam a forma concreta que essa luta adquire – contra países árabes, portadores de recursos energéticos que os países ocidentais não dispõem ou dispõem de forma insuficiente.

Por que governantes de partidos distintos, com estilos diferentes, acabam defendendo os mesmos interesses: respeitando antes de tudo o poder dos bancos, da indústria bélica, mantendo as guerras iniciadas e começando outras? Porque, para além daquelas diferenças, se mentem o mesmo papel imperialista dos EUA? Porque é um Estado que tira sua legitimidade, sua força, dessa função de líder do bloco das potências capitalistas no mundo.

As guerras sempre foram parte integrante na afirmação da superioridade imperialista. Aproveitando-se da sua superioridade no plano militar, tratam de resolver os conflitos pela força, impõem-se a seus aliados valendo-se dessa superioridade militar. Assim os EUA se tornaram a potência mais bélica da história da humanidade, não apenas pelo seu poderio militar, mas também pela quantidade de invasões, agressões, desembarques, participações em golpes militares.

Mesmo com a economia em recessão, os EUA mantem sua capacidade de intervenção militar, de forma direta ou através de aliados, em quase todas as regiões do mundo, de que a Líbia agora é a confirmação. A luta pela democracia no mundo passa pela ruptura do mundo unipolar e a passagem a um mundo multipolar, em que o maior numero de vozes possíveis sejam ouvidas para decidir os destinos da humanidade, até aqui concentrados nas mãos do maior império e o mais agressivo que a história conheceu.

15/09/2011

Tariq Ali: ''EUA e seus aliados europeus estão presos em um pântano''

Tariq Ali.Artigo tirado de Diário Liberdade (aqui) e publicado em galego primeiramente no Esquerda.net

Um década depois dos atentados do 11 de Setembro, os EUA e os seus aliados europeus estão presos num pântano. Tirando a retórica de Obama, pouco divide esta administração da sua predecessora. Enquanto isso, os bons cidadãos da Euro-América que se opõem às guerras feitas pelos seus governos evitam olhar para os mortos, feridos e órfãos do Iraque e do Afeganistão, da Líbia e do Paquistão... a lista continua a crescer.


'Um soberano é aquele que decide em caso de exceção,' escreveu Carl Schmitt em tempos diferentes, quase há um século, quando os impérios e exércitos europeus dominavam a maioria dos continentes e os EUA desfrutavam de um sol isolacionista. O que o teórico conservador queria dizer com 'exceção' era um estado de emergência, necessário devido a cataclismos econômicos ou políticos, que requeriam a suspensão da Constituição, repressão interna e guerra no estrangeiro.

Um década depois dos atentados do 11 de setembro, os EUA e os seus aliados europeus estão presos num pântano. Os eventos daquele ano foram usados como um pretexto para refazer o mundo e punir os que não obedecessem. Hoje, enquanto a maioria dos cidadão euro-americanos vagueia por um deserto moral, infelizes com as guerras, propagandeadas como algo diferente do que realmente são: uma estratégia imperial abrangente, o General Petraeus (atualmente a comandar a CIA) diz-nos: “Temos de reconhecer também que não que vamos ganhar esta guerra. Penso que continuaremos a lutar. É um pouco como o Iraque, na verdade... Sim, tem havido enormes progressos no Iraque. Mas ainda existem ataques horríveis, e temos de continuar vigilantes. Temos de ficar depois de acontecerem. Este é o tipo de luta em que estamos para o resto das nossas vidas e provavelmente das vidas dos nossos filhos.” Assim fala a voz do poder soberano, determinando que, neste caso, a exceção é a regra.

Embora não concorde com a sua resposta, o filósofo alemão Jürgen Habermas colocou uma questão importante: 'Será que o universalismo que nós atribuímos aos direitos humanos apenas esconde um instrumento sutil e enganador da dominação ocidental?' 'Sutil' poderia ser apagado. As experiências nos territórios ocupados falam por si próprias. Dez anos de guerra contínua no Afeganistão, um impasse sangrento e brutal com um regime marionete e corrupto cujo presidente e sua família enchem os bolsos com ganhos duvidosos e um exército EUA/OTAN incapaz de derrotar os insurgentes.

Agora, estes atacam à vontade, assassinando o irmão corrupto de Karzai, acabando com os seus principais colaboradores e atingindo pessoal-chave da inteligência da OTAN via terrorismo suicida ou derrubando helicópteros. Entretanto, nos bastidores, sessões prolongadas de negociações entre os EUA e os neo-taliban têm ocorrido desde há vários anos. O objetivo revela desespero. A OTAN e Karzai estão desesperados por recrutar os taliban para um novo governo nacional.

Políticos conservadores e liberais euro-americanos que formam a estrutura das elites governantes e declaram acreditar em moderação, tolerância e fazer guerras para impor os mesmos valores nos Estados re-colonizados ainda estão cegos pela sua situação e não conseguem ver o que está escrito na parede. Não obstante a sua piedosa renúncia à violência terrorista, não têm problemas em defender a tortura, as prisões ilegais, o assassínio de indivíduos, estados de exceção ilegítimos para que possam prender qualquer um indefinidamente e sem julgamento. Entretanto, os bons cidadãos da Euro-América que se opõem às guerras feitas pelos seus governos evitam olhar para os mortos, feridos e órfãos do Iraque e do Afeganistão, da Líbia e do Paquistão... a lista continua a crescer.
A guerra – jus beli – é agora um instrumento legítimo conquanto seja usado com a aprovação dos EUA e de preferência usado pelas suas tropas. Hoje em dia, é apresentada como uma necessidade “humanitária”: um lado está ocupado a cometer crimes, o lado moralmente superior está simplesmente a administrar a punição necessária; e nega-se a soberania ao Estado a derrotar. A sua substituição é cautelosamente policiada tanto através de bases militares como através de uma combinação de ONGs e dinheiro. Esta colonização ou dominação do século XXI é auxiliada pelas redes midiáticas globais, um pilar essencial para conduzir operações políticas e militares.

Comecemos pela segurança interna nos EUA. Contrariamente ao que muitos liberais imaginavam em novembro de 2008, a degradação da cultura política americana continua rapidamente. Em vez de inverter a tendência, o advogado-presidente e a sua equipa aceleraram o processo. Houve mais deportações de imigrantes do que no mandato de Bush; poucos prisioneiros detidos sem julgamento foram libertados de Guantánamo, uma instituição que o advogado-presidente prometeu encerrar; o
Patriot Act e o seu conteúdo sobre o que constitui um amigo ou inimigo foi renovado, começou uma nova guerra na Líbia sem a aprovação do Congresso, utilizando como desculpa o fato de os bombardeios sobre um Estado soberano não constituírem um ato hostil; os denunciadores estão a ser vigorosamente perseguidos e por aí adiante – a lista cresce a cada dia que passa.

A política e o poder apagam tudo o resto. Os liberais que ainda acreditam que a administração Bush transcendeu a lei enquanto que os Democratas são exemplo de conduta estão cegos pelo tribalismo político. Tirando a retórica de Obama, pouco divide esta administração da sua predecessora. Ignorem, por um momento, o poder dos políticos e dos propangadistas para impor os seus tabus e preconceitos sobre a sociedade americana em geral, um poder muitas vezes usado agressiva e vindicativamente para calar a oposição em qualquer lado – Bradley Manning, Thomas Drake (libertado após uma grande indignação dos média liberais), Julian Assange, Stephen Kim, que estão a ser tratados como criminosos, inimigos públicos, sabem melhor do que ninguém.

Nada mostra melhor esta degradação do que o assassinato de Osama Bin Laden em Abbotabad. Poderia ter sido capturado e levado a tribunal, mas essa nunca foi a intenção. O humor liberal foi espelhado pelos cântico ouvidos em Nova Iorque: U-S-A. U-S-A. Obama apanhou Osama. Obama apanhou Osama. Não podes derrotar-nos (aplausos). Não podes derrotar-nos. Linchem o Bin-Laden. Linchem o Bin Laden.

Isto foi repetido numa linguagem mais diplomática pelos líderes da Europa, parceiros júniores na família imperial das nações, incapaz de auto-determinação. Vênias e hipocrisia tornaram-se o cunho da cultura política.

Vejamos o exemplo da Líbia, o último caso da 'intervenção humanitária'. A intervenção EUA-OTAN na Líbia, com a cobertura do Conselho de Segurança das Nações Unidas, é parte de um resposta orquestrada para demonstrar apoio a um movimento contra um ditador em particular e assim terminar as rebeliões árabes, colocando-as sob controle ocidental, confiscando a sua impetuosidade e espontaneidade e tentando restaurar o status quo ante. Como é agora evidente, os britânicos e os franceses gabam-se do seu sucesso e que controlarão as reservas de petróleo líbias como pagamento de seis meses de campanha de bombardeamentos.

Entretanto, os aliados de Obama no mundo árabe prometeram trabalhar arduamente para implementar a democracia.

Os sauditas entraram no Bahrein, onde a população está a ser tiranizada e onde estão a acontecer prisões em larga escala. Isto não está a ser muito divulgado pela
Al-Jazeera. Pergunto-me porquê? A estação parece ter sido posta na ordem e em sintonia com a política dos seus fundadores. Tudo isto com o apoio dos EUA. O déspota no Iêmen, odiado pela maioria do seu povo, continua a matá-los todos os dias através de controle remoto a partir da sua base saudita. Nem mesmo um embargo de armas, quando mais uma “zona de exclusão aérea” lhe é imposta.

A Líbia é mais um caso da vigilância seletiva pelos norte-americanos e pelos seus cães de ataque no Ocidente. O fato de os Verdes alemães, que estão entre os mais ardentes defensores europeus do neoliberalismo e da guerra, quererem fazer parte desta companhia revela mais sobre a sua própria evolução do que os méritos ou deméritos da intervenção.

As fronteiras do esquálido protetorado que o Oeste vai criar estão a ser decididas em Washington. Mesmo aqueles líbios que, em desespero, apoiaram o jatos da OTAN, poderão – como o seu equivalente iraquiano – arrepender-se.

Tudo isto desencadeará uma terceira fase a qualquer altura: uma crescente raiva nacionalista que chegará à Arábia Saudita e aí, sem dúvida, Washington fará tudo o que for necessário para manter a família real saudita no poder. Perder a Arábia Saudita significa perder todos os Estados do Golfo. O assalto à Líbia, fortemente ajudado pela imbecilidade de Khadafi em todas as frentes, foi desenhado para retirar a iniciativa das ruas, parecendo ser uma defesa dos direitos civis. Os bahreinianos, os egípcios, os tunisinos, os sauditas e os iemenitas não serão convencidos, e mesmo na Euro-America mais estão a opor-se a esta última aventura do que a apoiá-la. As lutas não estão terminadas.

O poeta alemão de século XIX Theodor Däubler, escreveu:
“O inimigo é a nossa questão encarnada
Ele perseguir-nos-á, e nós persegui-lo-emos com o mesmo propósito.”

O problema desta visão, hoje em dia, é que esta categoria de inimigo, determinada pelas necessidades políticas dos EUA, muda demasiadas vezes. Ontem Saddam e Khadafi eram amigos, regularmente ajudados pelas agências ocidentais de informações para lidar com os seus próprios inimigos. O último tornou-se amigo quando o primeiro se tornou inimigo. E assim continua a desordem mundial. O assassinato de Osama Bin Laden foi aplaudido pelos líderes Europeus como algo que faria do mundo um lugar mais seguro. Digam isso às fadas

13/09/2011

A China se beneficiou do 11-S?

Júlio Rios. Artigo tirado de Diário Liberdade (aqui) e publicado originalmente em castelhano em Rebelión.

A resposta só pode ser afirmativa, mas não se deve exagerar. A guerra contra o terrorismo debilitou o papel dos Estados Unidos no mundo, ao mesmo tempo que a ressurreição da China, passando da sexta posição no ranking econômico mundial (2001) à segunda (desde 2010), seguiu em ascensão. Em 2001, o PIB dos EUA foi de 10.14 trilhões de dólares e em 2010 ascendeu para 14.51 trilhões, em contraste com os 1.18 trilhões e os 5.88 trilhões da China em ambos anos.


Washington segue imerso nas custosas guerras do Afeganistão (desde outubro de 2001) e do Iraque (desde março de 2003), ambas desatadas no marco da guerra global contra o terrorismo anunciada pelo ex-presidente Bush no momento seguinte ao 11-S. Tais guerras, não obstante, com vitórias duvidosas, permitiram aos EUA satisfazer também objetivos estratégicos importantes (a guerra do Iraque nada teve a ver com o 11-S por mais que esse fosse um dos principais argumentos oficiais para conseguir a aceitação da população estadunidense), reafirmando sua hegemonia global, que segue sendo indiscutível no plano militar, por mais que tenha minguado na ordem econômica. O enorme gasto em defesa (segundo o SIPRI o dos EUA em 2009 foi seis vezes maior que o da China) contribuiu para aumentar o déficit orçamentário e a dívida nacional, e não conseguiu mitigar novos desafios como o próprio ressurgimento do Irã como ator regional de peso.

No plano político-ideológico, os excessos que acompanharam a cruzada contra o terrorismo, com sua sequela de gravíssimas violações dos direitos humanos, não acabam de se dissipar, inclusive aós o relevo democrata na Casa Branca. O Presidente Obama, com uma linguagem bem diferente de seu antecessor, desencantou muitos por sua inconsequência em ações como o fechamento da prisão de Guantánamo, mas ele não derivou em um maior atrativo para a China, por mais que afirme impulsionar uma nova ordem política e econômica internacional de perfil incerto e em qualquer caso não antagônico com as tendências globalizadoras promovidas por Washington.

Na China, o corrido nos EUA serviu para chamar a atenção internacional sobre a gravidade do desafio que encara em Xinjiang, região autônoma onde a nacionalidade uigur multiplicou de modo constante suas ações violentas para contestar a política de Pequim, que relaciona o secessionismo uigur com a rede al-Qaeda. Mas se diria que não encontrou complacência especial, aumentando as críticas a sua política em matéria de direitos humanos, alertando sobre a extensão do qualificativo "terrorista" a simples manifestações de dissidência.

Em um contexto mais geral, o 11-S acelerou o processo em virtude do qual se abre passo a um cenário de coexistência global de diferentes centros de poder econômico. Essa evolução era previsível de modo igual, se bem que poderia se dar em um ritmo diferente. Por outro lado, provavelmente a crise financeira iniciada em 2008 assegure um protagonismo de maior alcance ao dedutível do 11-S. Os investimentos diretos chineses no exterior subiram em 2010 para 68 bilhões de dólares, superando pela primeira vez o Japão e o Reino Unido.

Dez anos depois, a China apresenta um perfil mais incisivo em sua política exterior e, muito especialmente, multiplicou sua presença e influência no sudeste asiático e no entorno regional imediato, eclipsando tanto a presença do Japão como dos EUA, ambos em uma retirada dificilmente evitável pese as promessas de Hillary Clinton de "voltar" à região se servindo para isso das tensões no mar da China meridional. Neste sentido, pode se dizer que a China aproveitou o desvio de atenção de Washington, mas também deveu ajustar sua política em relação com áreas-chave (como Ásia Central) onde os EUA, em virtude da guerra contra o terrorismo, elevou a uma presença de grande valor estratégico e que facilitava o cerco à China. É o caso da Ásia Central, região-chave não só pela energia, mas também pelo comércio ou a segurança, ansiando a China diversificar os riscos com corredores que lhe una com a Europa, sua principal sócia comercial.

O poder suave da China e suas capacidades militares e estratégicas também progrediram após o 11-S, mas não até o ponto de supor um desafio iminente para os EUA, especialmente no segundo, apesar deste seguir muito de perto sua evolução. Em qualquer caso, faria mal Pequim em sobre-estimar o debilitamento do Ocidente. É de supor que essa será uma das principais conclusões do atuar de sua diplomacia na Líbia.

A guerra contra o terrorismo brindou a Washington um argumento de difícil contestação e grande utilidade para conter a China, principal preocupação estratégica da Administração estadunidense então e agora. Mas os fatos vieram demonstrar que as enormes capacidades potenciais da China são muito difíceis de conter operando no exterior sobre aqueles fenômenos ou espaços que poderão dificultar seu processo. No final das contas, sua capacidade de resistência é equivalente ou superior, dadas suas dimensões territoriais ou demográficas e a intensidade e pluralidade de suas relações externas.

É sabido que a única forma verdadeiramente eficaz de impedir a consolidação da China como superpotência do século XXI consiste em quebrar seu processo interno, incidindo em sua desmembração territorial ou em sua soberania ou estabilidade política (em um país cujo PIB per capita ocupa a posição 105 em nível global e em 92 em desenvolvimento humano), ambos aspectos, apesar de tudo, de difícil execução, ao menos no momento.

11/06/2011

O valentão mais perigoso do mundo

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado de aqui e traduzido do inglês por António Martins.


Immanuel Walleresten aponta novos sinais do declínio dos Estados Unidos, e lamenta: Obama é poderoso apenas para fazer o mal



O presidente dos Estados Unidos é considerado o indivíduo mais poderoso no mundo moderno. O que Barack Obama está aprendendo, para seu desapontamento, é que ele tem enorme poder para fazer o mal – mas quase nenhum, para fazer o bem. Imagino que ele perceba isso, e não saiba como o que fazer a respeito. O fato é que ele pode muito pouco.

Examinemos sua principal preocupação específica, no momento – a primaver árabe. Ele não a começou. Ele foi evidentemente pego de surpresa quando ela começou – como, aliás, quase todo mundo. Sua resposta imediata foi pensar, com razão, que o processo representava grande perigo para a já abalada ordem geopolítica da região. Os Estados Unidos procuraram, de todas as maneiras possíveis, limitar o dano, manter sua própria posição e restaurar a “ordem”. Ninguém pode afirmar que tiveram grande sucesso. A cada dia, a situação torna-se mais  incerta e fora do controle de Washington.

Barack Obama é, por convincção e personalidade, a quinta-essência do centrismo. Ele busca diálogo e compromisso entre “extremos”. Age com a devida reflexão, e tomas as grandes decisões com prudência. É partidário de mudanças lentas e ordenadas – que não ameacem as bases do sistema do qual ele é não apenas parte, mas a figura central e o mais poderoso ator.

Porém, ele encontra-se, hoje, constrangido de todos os lados para o exercício de seu papel. Ainda assim, continua tentando jogá-lo. Diz, obviamente, para si mesmo: que mais eu poderia fazer? O resultado é que outros atores (inclusive os que foram seus aliados subaltermos) desafiam-no aberta, desavergonhada e repetidamente – o que reduz ainda mais seu poder.

Benyamin Netanyahu, o premiê israelense, fala ao Congresso dos EUA, que aplaude seus absurdos interesseiros com entusiasmo e arrebatamento – como se ele fosse em George Washingto reencarnado. Foi um tapa na cara de Obama, mesmo que o presidente já tivesse, ao falar ao lobby pró-israelense AIPAC, retirado na prática sua tímida tentaiva de propor a volta às fronteiras que Israel e os palestinos mantinham em 1967, como base para a paz.

O governo saudita deixou muito clara que fará tudo a seu alcance para defender os regimes atuais do mundo árabe. Está irritadíssimo com as concessões ocasionais de Obama à linguagem dos “direitos humanos”.  O governo do Paquistão está avisando muito claramente a Obama que, se os EUA tentarem enquadrá-lo com dureza, encontrará na China uma amizade mais firme. Os governos russo, chinês e sul-africano lembraram sem reservas que, se Washington tentar obter decisões do Conselho de Segurança da ONU contra a Síria, não terá seu apoio. Provavelmente, sequer reunirá maioria de votos – um eco do fracsso de Bush, ao tentar obter, em 2003, uma segunda resolução sobre o Iraque. No Afganistão, o presidente Karzai está reivindicando da OTAN o fim dos ataques com aviões não-tripulados. E o Pentágono sofre pressões para deixar o país, onde sua aventura tornou-se muito cara.

Para que não se enxergue a fraqueza apenas no Oriente Médio, basta espiar Honduras. Os Estados Unidos virtualmente endossaram o golpe contra o ex-presidente Zelaya. Em consequência, Honduras foi suspensa da Organização dos Estados Americanos (OEA). Washington tem batalhado duro para restaurar a participação do aliado, alegando que um novo presidente foi formalmente eleito. Os governos latino-americanos resistiram, porque Zelaia, o chefe de Estado deposto, não era autorizado a regressar — com a retirada de todos os processos legais que o ameaçavam.

O que aconteceu em seguida? A Colômbia (supostamente o principal aliado dos EUA na América Latina) e a Venezuela (supostamente o satã dos EUA na região) acertaram-se e, juntas, negociaram com o governo hondurenho o retorno – nas condições definidas por Zelaya. A secretária de Estado Hillary Clinton sorriu amarelo, diante da derrota da diplomacia de Washington.

Por fim, Obama está em apuros com o Congresso dos Estados Unidos em torno da guerra na Líbia. A Lei dos Poderes de Guerra autoriza o presidente a comprometer tropas no país apenas por 60 dias, após os quais é necessária autorização explícita do Legislativo. Dois meses passaram, e não houve decisão do Congresso. A continuidade da ação é claramente ilegal, mas Obama é incapaz de obter o endosso. Ainda assim, permanece comprometido com a guerra e o envolvimento norte-americano pode crescer. Ou seja: ele pode fazer o mal, mas não o bem.

Enquanto isso, concentra-se em sua reeleição. Tem boas chances de obtê-la. Os republicamos estão caminhando cada vez mais para a direita e cometendo graves exageros políticos. Mas uma vez reconduzido, o presidente dos EUA terá ainda menos poder que hoje. O mundo está mudando rapidamente. Num tempo de tantas incertezas e atores imprevisíveis, os Estados Undios estão se convertendo no valentão mais perigoso do planeta.

07/04/2011

A guerra como farsa, numa vila afegã


Por Maiwand Safi, Institute for War and Peace Reporting (IWPR) | Tradução Coletivo Vila Vudu. Artigo tirado de aqui.


O distrito de Alasay da província de Kapisa, a nordeste da capital afegã Cabul, é cenário de um arranjo raro entre funcionários, polícia e exército do governo afegão e os talibãs, onde um lado vive como se o outro não existisse.

Tendo afinal reconhecido que, ali, um lado jamais derrotará o outro, os dois lados decidiram tentar conviver o mais pacificamente possível, conforme as circunstâncias permitam.

Guerrilheiros talibãs e policiais, ambos armados, andam pelo mercado no centro do distrito, tratando-se com respeitosa indiferença e sem que uns impeçam os movimentos dos outros. Há quem diga que os têm visto lado a lado em funerais e casamentos.

Para facilitar as relações e minimizar qualquer embaraço, decidiu-se recentemente que os guerrilheiros vão às comprar pela manhã e os policiais, à tarde.

“Muito melhor assim”, disse Reza, dono de banca no mercado, “porque antes todos tinham medo que, de repente, todos se pusessem a atirar uns contra os outros. Agora, há horários separados e eles só raramente se encontram.”

Um policial, que pediu que seu nome não fosse publicado, vem de ônibus todos os dias até o centro, de sua casa na vila, onde os talibãs ainda têm pleno controle do governo, mas nunca mais o perturbaram, apesar de ter de andar uniformizado e armado.

“Cruzo com os talibãs ao longo do caminho e no ônibus, e nos cumprimentamos. Às vezes, nos lamentamos de ter de acordar tão cedo para trabalhar. Mas vivo aqui desde criança, como eles. Nós não os perturbamos e eles não nos perturbam. É um arranjo local, informal”.

Mirzaman Mangarai, chefe de polícia do distrito de Alasay, disse que o pacto de não agressão é o reconhecimento tácito de que nenhum dos lados tem ou poderá vir a ter superioridade militar.

“Tenho vinte soldados e vinte policiais para fazer patrulha”, disse ele. “Temos de fazer respeitar a lei, mas não temos efetivo para fazer isso pela força. Os talibãs não têm meios aqui para nos expulsar. Talvez fosse melhor que vivêssemos em vilas separadas, porque representamos sistemas diferentes, mas não há para onde ir. E há vantagens para todos, se ficarmos. A única coisa indispensável é a paz.”

O pacto é resultado do trabalho de líderes comunitários informais em Alasay, um vale nas montanhas, onde um grupo de anciãos, há alguns anos, construiu o acordo com os guerrilheiros. Com momentos piores e momentos melhores, continua dando certo até hoje.

Dado que os anciãos também influenciam a indicação do chefe de polícia local e dos soldados, todos foram ouvidos no acordo e, de fato, firmaram um pacto de não agressão.

O governador local, Mullah Mohammad, disse que o acordo é informal, sem nada assinado. Disse também que toda sua equipe de governo foi instruída a manter a política do governo central de tentar persuadir os guerrilheiros a depor armas.

“Os grupos armados devem-se manter a alguns metros de distância do mercado central de Alasay, mas também têm de vir até aqui para abastecer-se de comida. Deixamos que venham, e eles não nos perturbam”, disse. “É o resultado de um esforço conjunto, com os mais velhos das tribos, nosso processo de paz local. Até que concordem em depor armas, como quer o governo”.

Outros entrevistados parecem menos interessados em conseguir que os talibãs deponham as armas e sugerem que as coisas como estão, estão bem. Importante, para esses, é manter longe os políticos e os estrangeiros.

Se a guerra continuasse, acabávamos mortos, ou pela polícia, ou pelo exército ou pelos talibãs, porque todos queriam nos obrigar a viver como parecia melhor a cada um deles. Se um policial, um soldado ou um talibã afegão é morto, todo o Afeganistão sofre. Então, os mais velhos de Alasai tomamos uma decisão, para que todos na nossa área possam viver em paz”.

O líder da vila disse que os talibãs comprometeram-se a não atacar soldados do Exército Nacional Afegão (ANA) ou da Polícia Nacional Afegã, a menos que sejam comandados por comandantes estrangeiros ou estejam na região especificamente para matar talibãs.

As Forças Internacionais de Segurança no Afeganistão (ISAF, em inglês) conduziram várias operações para “limpar a região”, o que significa tentar expulsar os guerrilheiros da região de Alasay, ao longo dos anos. Mas nunca conseguiram estabelecer-se no controle da região. Os soldados estrangeiros e o exército afegão instalaram bases e uma “linha de consolidação” no centro do distrito de Alasay. Mas a região, para o norte e para o leste, de montanhas escarpadas, não é favorável aos estrangeiros e é excepcionalmente favorável para as populações locais – avaliação com a qual concordam também as autoridades militares norte-americanas na área, como se ouve aqui e como também se leu em telegramas de militares dos EUA publicados por WikiLeaks.

Entrevistamos um soldado do exército afegão acampado na região, que se mostrou claramente relutante por ter de participar do esforço de contraguerrilha. Disse que sempre, na história do Afeganistão, os conflitos visam a atender interesses de outros países.

Os talibãs são nossos irmãos também” – disse ele. Têm seus projetos, suas ideias e suas demandas, e têm direito de apresentá-las. Não são doidos. Sabem por que lutam e lutam porque realmente desejam uma vida melhor. Nem todos pensam como nós pensamos. Não significa que estejam errados”.

E concluiu: “Espero sinceramente que os talibãs e o governo cheguem a acordos como esse também em outras regiões. Os verdadeiros inimigos do Afeganistão não são nem afegãos nem talibãs”.

Um comandante talibã, que também não quer ser identificado, disse que a guerra contra as forças internacionais continua e continuará até que todos saiam do Afeganistão. Mas que seus guerrilheiros respeitarão a trégua acertada com a população em Alasay e não atacarão, a menos que sejam atacados.

Decidimos não lutar contra forças do governo, porque somos irmãos, temos laços étnicos e religiosos, respeitamos os mais velhos de todas tribos e respeitamos o Islã. E todos somos muçulmanos e afegãos. Mas se formos atacados por ordem de comandantes estrangeiros, quem nos atacar será morto”.

Como outros entrevistados no governo também fazem, o comandante talibã faz clara separação entre os arranjos locais e a política nacional. “Esse acordo não significa que os talibãs aceitamos governos corruptos ou os assassinos norte-americanos. Significa exclusivamente que, se não formos atacados, não mataremos afegãos e muçulmanos”.

Para analistas de defesa e cientistas políticos afegãos, o acordo de paz de Alasay não passa de uma espécie de conundrum. – Será modelo de convivência pacífica a ser implantado noutras regiões, ou não passa de “empate”, na correlação de forças, sem implicações mais amplas?

O general reformado Hai Sulaimankhel não tem dúvidas: o que acontece em Alasay reflete o fracasso do governo central e do estado de direito.

“Essa situação mostra a fraqueza do governo, que é incapaz de implantar a lei em Alasay”, disse ele. “A oposição cresce, porque os problemas crescem. A realidade é que aqui há dois governos e isso é prova de que a guerrilha venceu o estado de direito, é vitória da guerrilha. É inadmissível.”

Para o general, os talibãs só aceitaram a paz local porque lhes é conveniente, mas atacarão a cidade, se lhe parecer vantajoso.

Outro analista, Abdul Ghafur Liwal, que preside o Centro Regional de Estudos Afegãos, discorda do general. Para ele, qualquer acordo que ponha fim à matança é bom acordo.

“Quando a guerra pára, a racionalidade e a lógica voltam a poder se manifestar”, diz. “Tenho certeza de que esse acordo informal ajudaria outras áreas a ver que a guerra não é solução nem caminho para coisa alguma.”

Diferente do general Sulaimankhel, Liwal entende que uma trégua prolongada com os talibãs interessa ao governo central afegão, porque cria condições para que o governo ponha em prática seus projetos. “Se tiver projetos, é claro” – concluiu.

27/10/2010

Gorbachev: "a única soluçom no Afeganistám é a retirada"

Mijail Gorbachev. Notícia tirada de aqui. A traduçom é de nosso.

O ex-líder soviético acusa aos EUA de treinar aos militantes que "hoje sementam o terror" no país. Vê em Putin um perigo para a democracia.

El ex presidente de la Unión Soviética, Mijail Gorbachov. EFE ARCHIVO
O ex-presidente da URSS, Mijail Gorbachov. EFE ARCHIVO

Envelhecido, mas com a eleqüência de sempre, o ex-líder soviético, Mijail Gorbachev, assegura esta quarta-feira numha entrevista que é impossível que a NATO ganhe no Afeganistám. Por isso, recomenda ao presidente dos EUA, Barack Obama, que cumpra a sua palavra de retirar as tropas.

Num bate-papo com a BBC británica, Gorbachev insistiu: "é impossível ganhar a guerra do Afeganistám. Obama tem a razom ao retirar as tropas. Nom importa o difícil que resulte".

En una conversación con la BBC británica, Gorbachov insistió: "Es imposible ganar la guerra de Afganistán. Obama tiene la razón al retirar las tropas. No importa lo difícil que le resulte". Porém a sua visom tem umha leitura dupla. Gorbachev assegura que os EUA tenhem um problema no Afeganistám hoje porque enquanto "estavam de acordo com que nós chegaramos a um acordo baseado em que o Afeganistám devia ser um país neutral, democrático e ter boas relaçons com os seus vizinhos, eles treinavam os militantes que hoje estám sementando o caos".

Assim, que dalgumha maneira, Gorbachev culpa a Washington da situaçom actual. Um problema para o que a única soluçom é a retirada:" qual é que é a alternativa?, outro Vietname?, enviar meio milhom de tropas? Isso nom funcionará".

Putin e a democracia

Gorbachev nom se cortou um pelo em falar da Rússia de hoje e acusa a Vladimir Putin de seguir manejando os fios do país. Aliás, recalca que os russos perdêrom a liberdade que ganhárom com ele. "Estou muito preocupado. Estamos a metade de caminho entre um regimem totalitário e a liberdade. Há gente ainda que tem medo à democracia e preferiria um regimem totalitário. Porém há muitas cousas que mudar. Por exemplo, a gente nom pode ainda elegir os seus representantes locais".

Sobre Putin, Gorbachev acredita que fixo de todo "para acabar com a democracia e seguir no poder". Embora o ex-presidente vê certos gestos que indicam mais independência de Dmitri Medvédev. Isto nom é necessariamente bom, di Gorbachev: "umha divisom entre ambos apenas pode ser mao".