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27/10/2013

Mapa da desigualdade em 2013: 0,7% da população detém 41% da riqueza mundial

À revolta entre a mocidade é um blogue gerido coletivamente que elabora, traduz e partilha artigos para a formação e o conhecimento. Também estamos em Facebook (aqui). Este artigo foi tirado do portal luso Esquerda.net (aqui). Artigo publicado originalmente em Opera Mundi.

Nova investigação revela que PIB mundial atinge maior valor da história, mas a sua divisão continua extremamente desigual. Os 10% mais ricos do planeta detêm atualmente 86% da riqueza mundial. Destes 0,7% tem posse de 41% da riqueza mundial. 
Em Hong-Kong e na Alemanha, os salários dos presidentes das grandes empresas chegaram a aumentar 25% de 2007 a 2011, chegando a ser de 150 e 190 vezes maiores que o salário médio dos trabalhadores do país – Foto Hong-Kong - Wikimedia
Cinco anos depois do início da crise económica mundial, marcada pela falência do banco norte-americano Lehman Brothers, os indicadores financeiros continuar a apontar para uma concentração da riqueza ao redor do globo. De acordo com o relatório "Credit Suisse 2013 Wealth Report"(leiarelatório completo, em inglêsum dos mapas mais completos sobre o assunto divulgados recentemente, 0,7% da população concentra 41% da riqueza mundial.
Em valor acumulado, a riqueza mundial atingiu em 2013 o recorde de todos os tempos: 241 biliões de dólares (biliões na escala longa usada em Portugal e triliões na escala curta usada nos EUA e no Brasil). Se este número fosse dividido proporcionalmente pela população mundial, a média da riqueza seria de 51.600 dólares por pessoa. No entanto, não é o que acontece. Veja abaixo o gráfico da projeção de cada país se o PIB fosse dividido pela população:
A Austrália é o país com a média de riqueza melhor distribuída pela população entre as nações mais ricas do planeta. De acordo com o estudo, os australianos têm média de riqueza nacional de 219 mil dólares.
Apesar de serem o país mais rico do mundo em termos de PIB (Produto Interno Bruto) e capital produzido, os EUA têm um dos maiores índices de pobreza e desigualdade do mundo. Se dividida, a riqueza dos EUA seria, em média, de mais de 110 mil dólares. No entanto, é atualmente de apenas 45 mil dólares - menos da metade.
Entre os países com património médio de 25 mil a 100 mil dólares, destacam-se países emergentes como Chile, Uruguai, Portugal e Turquia. No Oriente, Arábia Saudita, Malásia e Coreia do Sul. A Líbia é o único país do continente africano neste grupo. A África, aliás, continua com o posto de continente com a menor riqueza acumulada.
Mesmo com o crescimento da riqueza mundial, a desigualdade social continua com índices elevados. Os 10% mais ricos do planeta detêm atualmente 86% da riqueza mundial. Destes 0,7% tem posse de 41% da riqueza mundial.
Veja no gráfico abaixo a pirâmide da riqueza. Apenas 0,7% da população detém  98,7 biliões de dólares (triliões no gráfico do site Opera Mundi em que é usada a chamada escala curta):
Os investigadores do Credit Suisse também fizeram uma projeção sobre o crescimento dos milionários ao redor do mundo nos próximos cinco anos. Polónia e Brasil, com 89% e 84% respetivamente, são os países que mais vão multiplicar os seus milionários até 2013. No mesmo período, os EUA terão um aumento de 41% do número de milionários, o que representa cerca de 18.618 de pessoas com o património acima de 1 milhão de dólares.
Em meados deste ano, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) divulgou um estudo sobre o crescimento da desigualdade social nos países desenvolvidos, como consequência da crise financeira.
A organização diz que o número de pobres cresceu entre 2010 e 2011 em 14 das 26 economias desenvolvidas, incluindo EUA, França, Espanha e Dinamarca. Nos mesmos países, houve forte aumento do desemprego de longa duração e a deterioração das condições de trabalho. Atualmente, o número de desempregados no mundo supera os 200 milhões.
Em contrapartida, entre os países do G20, o lucro das empresas aumentou 3,4% entre 2007 e 2012, enquanto os salários subiram apenas 2,2%.
Segundo informações da imprensa europeia, na Alemanha e em Hong Kong, os salários dos presidentes das grandes empresas chegaram a aumentar 25% de 2007 a 2011, chegando a ser de 150 e 190 vezes maiores que o salário médio dos trabalhadores do país. Nos Estados Unidos, essa proporção é de 508 vezes.
América Latina
Ao contrário das grandes potências, a situação económica e social da América Latina melhorou. Entre 2010 e 2011, 57,1% da população dos países da região estava empregada, um ponto percentual a mais que em 2007, último levantamento antes da crise financeira internacional.
Em alguns países, como Colômbia e Chile, o aumento superou quatro pontos percentuais. Com o aumento do trabalho assalariado, cresceu também a classe média. Na comparação entre 1999 e 2010, a população dentro do grupo social cresceu 15,6% no Brasil e 14,6% no Equador.
No entanto, a OIT destaca que a região ainda enfrenta como desafios a desigualdade social, maior que a média internacional, e o emprego informal. A média da região é de 50%, sendo que em países mais pobres, como Bolívia, Peru e Honduras, supera os 70%.
Em todo o mundo, a organização afirma que há mais de 200 milhões de desempregados. A expectativa é que, ao final de 2015, esse número chegue a 208 milhões.

22/10/2013

Pepe Mujica na ONU: “O deus mercado financia a aparência de felicidade”

 Destoando dos discursos feitos pelos seus pares durante a 68ª Assembleia Geral da ONU, o presidente uruguaio José Mujica criticou veementemente o consumismo e defendeu que “enquanto o homem recorrer à guerra quando fracassar a política, estaremos na pré-história”. Artigo de Vanessa Silva, do portal Vermelho.

  O presidente uruguaio Pepe Mujica voltou a surpreender o mundo com o seu discurso desassombrado esta terça-feira na Assembleia Geral das Nações Unidas.
 
  Aos jornais uruguaios, Mujica prometera um “discurso exótico” e de facto fugiu do protocolo ao dizer que “tem angústia pelo futuro” e que a nossa “primeira tarefa é salvar a vida humana”. “Sou do Sul e carrego inequivocamente milhões de pessoas pobres na América Latina, carrego as culturas originárias esmagadas, o resto do colonialismo nas Malvinas, os bloqueios inúteis a Cuba, carrego a consequência da vigilância eletrónica, que gera desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego a dívida social e a necessidade de defender a Amazónia, nossos rios, de lutar por pátria para todos e que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, com o dever de lutar pela tolerância.”

 A humanidade sacrificou os deuses imateriais e ocupou o templo com o “deus mercado, que organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos a frustração, a pobreza, a autoexclusão”. No mesmo tom, sublinhou o fracasso do modelo adotado no capitalismo: “o certo hoje é que para a sociedade consumir como um americano médio seriam necessários três planetas. A nossa civilização montou um desafio mentiroso”. 

 Para o chefe de Estado, que já havia surpreendido o mundo com o seu discurso durante a cimeira Rio+20, criámos uma “civilização que é contra os ciclos naturais, uma civilização que é contra a liberdade, que supõe ter tempo para viver, (…) é uma civilização contra o tempo livre, que não se paga, que não se compra e que é o que nos permite ter tempo para viver as relações humanas”, porque “só o amor, a amizade, a solidariedade, e família transcendem”. “Arrasamos as selvas e implantamos selvas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insónia com remédios. E pensamos que somos felizes ao deixar o humano”.

 Mujica defendeu a utilidade da produção de recursos no mundo: temos que “mobilizar as grandes economias não para produzir descartáveis com obsolescência programada, mas para criar coisas úteis para a população mundial. Muito melhor do que fazer guerras. Talvez nosso mundo necessite de menos organismos mundiais, destes que organizam fóruns e conferências. E que no melhor dos casos ninguém obedece”. “O que uns chamam de crise ecológica é consequência da ambição humana, este é nosso triunfo e nossa derrota”.

 E defendeu que é através da ciência e não dos bancos que o planeta deve ser governado.
 

 Paz e guerra

 “A cada 2 minutos gastam-se 2 milhões de dólares em orçamentos militares. As investigações médicas correspondem à quinta parte dos investimentos militares”, criticou o presidente ao sustentar que ainda estamos na pré-história: “enquanto o homem recorrer à guerra quando fracassar a política, estaremos na pré-história”, defendeu o mandatário ao criticar a política da guerra.

 Assim, criamos “este processo do qual não podemos sair e causa ódio, fanatismo, desconfiança, novas guerras; eu sei que é fácil poeticamente autocriticarmos. Mas seria possível se firmássemos acordos de política planetária que nos garanta a paz”. Ao invés disso, “bloqueiam os espaços da ONU, que foi criada com um sonho de paz para a humanidade”.

 O uruguaio também abordou a debilidade da ONU, que “se burocratiza por falta de poder e autonomia, de reconhecimento e de uma democracia e de um mundo que corresponda à maioria do planeta”.

 “Nosso pequeno país tem a maior quantidade de soldados em missões de paz e estamos onde queiram que estejamos, e somos pequenos”. Dizemos com conhecimento de causa, garantiu o mandatário, que “estes sonhos, estes desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais para governar nossa história e superar as ameaças à vida”. Para isso é “preciso entender que os indigentes do mundo não são da África, ou da América Latina e sim de toda humanidade que, globalizada, deve se empenhar no desenvolvimento para a vida”.

 “Pensem que a vida humana é um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico é acima de todas as coisas, impulsionar e multiplicar a vida e entendermos que a espécie somos nós” e concluiu: “a espécie deveria ter um governo para a humanidade que supere o individualismo e crie cabeças políticas”.

Artigo de Vanessa Silva, do portal Vermelho.

09/05/2013

Discurso de Pepe Mujica na cimeira da Terra de Rio de Janeiro

Tradución para À revolta entre a mocidade  de David Balado.

Discurso dopresidente do Uruguay, Pepe Mujica, no cumio da Terra en Río de Janeiro.



Autoridades presidentes de todas as latitudes e organismos, moitas grazas.
Moitas grazas ao pobo de Brasil e á súa Sra. presidenta. 
E moitas grazas tamén á boa fe que manifestaron todos os oradores que me precederon.
Expresamos a íntima vontade como gobernantes de apoiar todos os acordos que, esta, a nosa pobre humanidade, poida subscribir.
Con todo, permítasenos facer algunhas preguntas en voz alta.
Toda a tarde falouse do desenvolvemento sustentable. De sacar ás inmensas masas da pobreza. Mais, que é o que rolda nas nosas cabezas? O modelo de desenvolvemento e de consumo que queremos é o actual das sociedades ricas? Fágome esta pregunta: que lle pasaría a este planeta se os hindús tiveran a mesma proporción de autos por familia que teñen os alemáns? Canto osíxeno nos quedaría para podermos respirar? Máis claro: ten o mundo os elementos materiais como para facer posible que 7 mil ou 8 mil millóns de persoas poidan ter o mesmo grao de consumo e de malgasto que teñen as máis opulentas sociedades occidentais? Será iso posible? Ou teremos que darnos outro tipo de discusión?
Creamos esta civilización na que hoxe estamos: filla do mercado, filla da competencia e que deparou un progreso material portentoso e explosivo. Pero o que foi a economía de mercado creounos sociedades de mercado. E deparounos esta globalización, cuxa mirada alcanza a todo o planeta.
Estamos a gobernar esta globalización ou a globalización gobérnanos a nós? É posible falar de solidariedade e de que “estamos todos xuntos” nunha economía baseada na competencia desapiadada? Até onde chega a nosa fraternidade?
Non digo nada disto para negar a importancia deste evento. Pola contra: o desafío que temos por diante é dunha magnitude de carácter colosal e a gran crise que temos non é ecolóxica, é política.
O home non goberna hoxe ás forzas que desatou, senón que as forzas que desatou gobernan ao home. E á vida. Non vimos ao planeta para desenvolvernos soamente, así, en xeral. Vimos ao planeta para sermos felices. Porque a vida é curta e escórresenos. E ningún ben vale tanto como a vida. Isto é o elemental.
Pero a vida váiseme escapar, traballando e traballando para consumir un “plus” e a sociedade de consumo é o motor disto. Porque, en definitiva, se se paraliza o consumo, detense a economía, e se se detén a economía, aparece a pantasma do estancamento para cada un de nós. Pero ese hiperconsumo é o que está "a agredir" ao planeta. E teñen que xerar ese hiperconsumo, motivo polo que as cousas duran pouco, porque hai que vender moito. E unha lampadiña eléctrica, entón, non pode durar máis de 1000 horas acesa. Pero hai lampadiñas que poden durar 100 ou 200 mil horas acesas! Pero esas non, non se poden facer; porque o problema é o mercado, porque temos que traballar e temos que soster unha civilización do “usar e tirar”, e así estamos nun círculo vicioso.
Estes son problemas de carácter político que nos están a indicar que é hora de comezar a loitar por outra cultura. Non se trata de propornos volver á época do home das cavernas, nin de ter un “monumento ao atraso”. Pero non podemos seguir, indefinidamente, gobernados polo mercado,senón que temos que gobernar ao mercado.
Por iso digo, na miña humilde maneira de pensar, que o problema que temos é de carácter político. Os vellos pensadores -Epicúreo, Séneca e tamén os Aymaras- definían: “pobre non é o que ten pouco senón o que necesita infinitamente moito, e desexa máis e máis”. Esta é unha clave de carácter cultural.
Entón, vou saudar o esforzo e os acordos que se fagan. E vounos acompañar, como gobernante. Porque sei que algunhas cousas das que estou a dicir renxen, pero temos que darnos conta de que a crise da auga e da agresión ao medio ambiente non é unha causa. A causa é o modelo de civilización que creamos. E o que temos que revisar é a nosa forma de vivir.
Pertenzo a un pequeno país moi ben dotado de recursos naturais para vivir. No meu país hai pouco máis de 3 millóns de habitantes. Pero hai uns 13 millóns de vacas, das mellores do mundo. E uns 8 ou 10 millóns de estupendas ovellas. O meu país é exportador de comida, de lácteos, de carne. É unha chaira e case o 90% do seu territorio é aproveitable.
Os meus compañeiros traballadores loitaron moito polas 8 horas de traballo. E agora están a conseguir as 6 horas. Pero o que ten 6 horas, consegue dous traballos e, polo tanto, traballa máis que antes. Por que? Porque ten que pagar grande unha cantidade de cousas: a moto, o auto, cotas e cotas e cando quere darse conta, é un vello reumático coma min ao que se lle foi a vida.
E faise un esta pregunta: Ese é o destino da vida humana? Só consumir?
Estas cousas que digo son moi elementais: o desenvolvemento non pode ser en contra da felicidade, ten que ser a favor da felicidade humana, do amor á terra, do coidado aos fillos, xunto aos amigos. E ter, si, o elemental. Precisamente, porque iso é o tesouro máis importante que temos.
Cando loitamos polo medio ambiente, temos que lembrar que o primeiro elemento do medio ambiente chámase “felicidade humana”.

14/04/2011

Uruguai anula lei que anistiava crimes da ditadura

Luciana Bertoia. Artigo tirado de Carta Maior, aqui. Aqui, no Estado espanhol como somos um estado de direitas e nom de direito nom acontece nada. Um exemplo de Transiçom (para os khadaffis de toda a parte).
http://www.cartamaior.com.br/arquivosCartaMaior/FOTO/62/foto_mat_27413.jpg


O Senado uruguaio aprovou na noite desta terça-feira o projeto interpretativo que anula a Lei da Caducidade. Durante 25 anos, essa norma impediu que fossem julgados os responsáveis por sequestros, torturas, desaparecimentos e assassinatos cometidos durante a ditadura que governou o país entre 1973 e 1985. Os opositores Partido Nacional e Partido Colorado votaram contra a iniciativa promovida pela Frente Ampla, que governa o país. Mas também houve discrepâncias dentro das fileiras dessa coalizão de centroesquerda. O histórico militante tupamaro Eleuterio Fernández Huidobro submeteu-se à disciplina partidária e votou a favor do projeto, mas anunciou que renunciava à sua cadeira.

A sessão começou por volta das 10 horas da manhã e se estendeu até tarde da noite, quando a Frente Ampla fez valer seus 16 votos frente aos quinze da oposição. Independentemente de sua cor partidária, a maioria dos senadores tinha algo a dizer a respeito da Lei de Caducidade que, desde 1986, impede que os repressores uruguaios sejam julgados. Há tempo que a lei ocupa o centro da discussão política no Uruguai. Um debate acalorado que divide aqueles que se manifestam a favor de extirpá-la do ordenamento jurídico do país e aqueles que querem mantê-la, alegando que foi ratificada pela cidadania em dois plebiscitos.

O Senado respirou esse clima. Pelo governo, coube ao senador Oscar López Goldaracena, um conhecido jurista e ativista dos direitos humanos, quebrar o gelo. “Esta Câmara tem a possibilidade de começar a corrigir o erro político de aprovar uma lei que ampara a impunidade de criminosos de lesa humanidade, removendo a carga que pesa sobre a sociedade uruguaia”, disse o advogado que representa o Movimento Independente pelos Direitos Humanos, na Frente Ampla. López Goldaracena observou que era importante eliminar os efeitos da Lei de Caducidade para evitar que as atrocidades perpetradas pelos militares voltem a se repetir.

Mas nem tudo foi uma postura uniforme dentro da coalizão de centroesquerda. Desde que foi aprovado na Câmara de Deputados, em outubro de 2010, o projeto estava paralisado no Senado, onde três senadores governistas se negavam a acompanhar a iniciativa de seu bloco. Em março, a Frente Ampla conseguiu destravar a situação e alcançou os votos necessários para aprovar o projeto. No entanto, os senadores dissidentes seguiram expressando sua divergência. O ex-vice-presidente Rodolfo Nin Novoa deixou da sessão e fez entrar seu suplente que votou a favor da Frente Ampla. O legislador frenteamplista Jorge Saravia se manteve firme em sua postura de não apoiar a iniciativa para interpretar a Lei de Caducidade e denunciou que se tratava de um “disparate jurídico”.

Mas a novidade do dia ficou por conta do ex-tupamaro Fernández Huidobro, que renunciou a sua cadeira porque teve que obedecer a determinação de votar a favor da iniciativa. “Diz-se com razão, dentro de nossa força política, que é preciso acatar a vontade da maioria. Acreditamos nisso e por isso estamos acatando a determinação e votaremos pela disciplina. Mas o povo também foi maioria duas vezes”, disparou, referindo-se aos plebiscitos de 1989 e de 2009, quando a maioria da sociedade se negou a anular a Lei de Caducidade. O presidente José Mujica foi à noite até o escritório de Huidobro e expressou sua solidariedade.

Pelo Partido Nacional, o primeiro a fazer uso da palavra para protestar contra a iniciativa governista foi o senador Francisco Gallinal. “Longe de ser interpretativa, esta lei é “inovativa”, reclamou. “Não votamos nela porque há dois pronunciamentos populares neste sentido. Esse é um argumento formal que, na nossa avaliação, é muito importante”, disse Gallinal ao jornal Página/12. “Entendemos que esta proposta traz grandes problemas para a sociedade, já que significa transportar toda a questão ao Poder Judiciário”, acrescentou. Gallinal invocou novamente o Pacto do Clube Naval, de 1984, quando as principais forças políticas e os militares no poder negociaram a abertura democrática. “Este projeto interpretativo rompe o equilíbrio que permitiu a solução institucional de 1985, quando duas anistias foram aprovadas: uma para os militares e outra para os presos políticos tupamaros”, assinalou o político conservador.

Os organismos de direitos humanos, as organizações estudantis e de trabalhadores fizeram pouco caso dos argumentos dos partidos tradicionais. Desde as galerias do Senado, alguns seguiram de perto a movimentação dos senadores. Outros ficaram do lado de fora escutando o debate transmitido por alto falantes. Todos concordaram que o dia de ontem foi um dia para celebrar. Mas sabem que ainda falta caminho percorrer até que a Câmara de Deputados ratifique, no dia 4 de maio, o projeto aprovado ontem pelos senadores.

O Uruguai vai se colocar em uma boa posição no que diz respeito à proteção dos direitos humanos frente à comunidade internacional. Após quase meio século de existência desta lei, com a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos pelo caso Gelman e com esta resolução aprovada hoje, estão nos dando a razão. Isso também demonstra ao movimento popular que a perseverança e a luta da sociedade terminam dando resultados”, ressaltou Raúl Olivera, da central operária PIT CNT. O Serviço de Paz e Justiça (Serpaj) foi mais cauteloso na hora das celebrações. “Nunca apeamos o cavalo da anulação. Não conseguimos. Certamente que apoiamos e acreditamos que é preciso fazer todo o necessário para acabar com a impunidade. O Estado não pode seguir sem dar respostas ao que disse a Corte Interamericana, que apontou a Lei de Caducidade como um obstáculo para a Justiça. Para nós, não é a melhor saída, mas é preciso seguir avançando no Nunca Mais e para que estas coisas sejam solucionadas”, afirmou Ana Aguerre.

Já a Associação de Ex-Presos Políticos do Uruguai definiu o dia de ontem como uma jornada de emoções. “Para nós, a anulação da Lei de Caducidade é uma das razões fundamentais de nossa luta. Estamos exigindo isso há muito tempo para que se investigue o que ocorreu com nossos companheiros desaparecidos e para que os torturadores sejam julgados, abrindo-se, assim, o caminho para conhecer a verdade”, disse Julio Martínez.