Mostrando postagens com marcador Chile. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chile. Mostrar todas as postagens

27/10/2013

Mapa da desigualdade em 2013: 0,7% da população detém 41% da riqueza mundial

À revolta entre a mocidade é um blogue gerido coletivamente que elabora, traduz e partilha artigos para a formação e o conhecimento. Também estamos em Facebook (aqui). Este artigo foi tirado do portal luso Esquerda.net (aqui). Artigo publicado originalmente em Opera Mundi.

Nova investigação revela que PIB mundial atinge maior valor da história, mas a sua divisão continua extremamente desigual. Os 10% mais ricos do planeta detêm atualmente 86% da riqueza mundial. Destes 0,7% tem posse de 41% da riqueza mundial. 
Em Hong-Kong e na Alemanha, os salários dos presidentes das grandes empresas chegaram a aumentar 25% de 2007 a 2011, chegando a ser de 150 e 190 vezes maiores que o salário médio dos trabalhadores do país – Foto Hong-Kong - Wikimedia
Cinco anos depois do início da crise económica mundial, marcada pela falência do banco norte-americano Lehman Brothers, os indicadores financeiros continuar a apontar para uma concentração da riqueza ao redor do globo. De acordo com o relatório "Credit Suisse 2013 Wealth Report"(leiarelatório completo, em inglêsum dos mapas mais completos sobre o assunto divulgados recentemente, 0,7% da população concentra 41% da riqueza mundial.
Em valor acumulado, a riqueza mundial atingiu em 2013 o recorde de todos os tempos: 241 biliões de dólares (biliões na escala longa usada em Portugal e triliões na escala curta usada nos EUA e no Brasil). Se este número fosse dividido proporcionalmente pela população mundial, a média da riqueza seria de 51.600 dólares por pessoa. No entanto, não é o que acontece. Veja abaixo o gráfico da projeção de cada país se o PIB fosse dividido pela população:
A Austrália é o país com a média de riqueza melhor distribuída pela população entre as nações mais ricas do planeta. De acordo com o estudo, os australianos têm média de riqueza nacional de 219 mil dólares.
Apesar de serem o país mais rico do mundo em termos de PIB (Produto Interno Bruto) e capital produzido, os EUA têm um dos maiores índices de pobreza e desigualdade do mundo. Se dividida, a riqueza dos EUA seria, em média, de mais de 110 mil dólares. No entanto, é atualmente de apenas 45 mil dólares - menos da metade.
Entre os países com património médio de 25 mil a 100 mil dólares, destacam-se países emergentes como Chile, Uruguai, Portugal e Turquia. No Oriente, Arábia Saudita, Malásia e Coreia do Sul. A Líbia é o único país do continente africano neste grupo. A África, aliás, continua com o posto de continente com a menor riqueza acumulada.
Mesmo com o crescimento da riqueza mundial, a desigualdade social continua com índices elevados. Os 10% mais ricos do planeta detêm atualmente 86% da riqueza mundial. Destes 0,7% tem posse de 41% da riqueza mundial.
Veja no gráfico abaixo a pirâmide da riqueza. Apenas 0,7% da população detém  98,7 biliões de dólares (triliões no gráfico do site Opera Mundi em que é usada a chamada escala curta):
Os investigadores do Credit Suisse também fizeram uma projeção sobre o crescimento dos milionários ao redor do mundo nos próximos cinco anos. Polónia e Brasil, com 89% e 84% respetivamente, são os países que mais vão multiplicar os seus milionários até 2013. No mesmo período, os EUA terão um aumento de 41% do número de milionários, o que representa cerca de 18.618 de pessoas com o património acima de 1 milhão de dólares.
Em meados deste ano, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) divulgou um estudo sobre o crescimento da desigualdade social nos países desenvolvidos, como consequência da crise financeira.
A organização diz que o número de pobres cresceu entre 2010 e 2011 em 14 das 26 economias desenvolvidas, incluindo EUA, França, Espanha e Dinamarca. Nos mesmos países, houve forte aumento do desemprego de longa duração e a deterioração das condições de trabalho. Atualmente, o número de desempregados no mundo supera os 200 milhões.
Em contrapartida, entre os países do G20, o lucro das empresas aumentou 3,4% entre 2007 e 2012, enquanto os salários subiram apenas 2,2%.
Segundo informações da imprensa europeia, na Alemanha e em Hong Kong, os salários dos presidentes das grandes empresas chegaram a aumentar 25% de 2007 a 2011, chegando a ser de 150 e 190 vezes maiores que o salário médio dos trabalhadores do país. Nos Estados Unidos, essa proporção é de 508 vezes.
América Latina
Ao contrário das grandes potências, a situação económica e social da América Latina melhorou. Entre 2010 e 2011, 57,1% da população dos países da região estava empregada, um ponto percentual a mais que em 2007, último levantamento antes da crise financeira internacional.
Em alguns países, como Colômbia e Chile, o aumento superou quatro pontos percentuais. Com o aumento do trabalho assalariado, cresceu também a classe média. Na comparação entre 1999 e 2010, a população dentro do grupo social cresceu 15,6% no Brasil e 14,6% no Equador.
No entanto, a OIT destaca que a região ainda enfrenta como desafios a desigualdade social, maior que a média internacional, e o emprego informal. A média da região é de 50%, sendo que em países mais pobres, como Bolívia, Peru e Honduras, supera os 70%.
Em todo o mundo, a organização afirma que há mais de 200 milhões de desempregados. A expectativa é que, ao final de 2015, esse número chegue a 208 milhões.

16/09/2013

Frente Ampla, socialismo democrático e unidade popular

Antom Fente Parada. Editor do blogue À revolta entre a mocidade e militante de Anova-Irmandade Nacionalista.

Eu traballo,
ti traballas,
el traballa,
nós traballamos,
vós traballades.
Eles comen.1

A Coordenadora Nacional de Anova-Irmandade Nacionalista acordou, no passado dia 14 de setembro, contribuir para a criação duma Frente Ampla não excluínte para as eleições europeias como ensaio da quebra democrática com a II Restauração bourbónica. O acordado afunda no acordo da nossa I Assembleia Nacional celebrada em junho de contribuir a acelerar a queda com este regime apodrecido mediante a soma de forças que multiplique.

Em maio de 2014 a esquerda não resignada tem que demonstrar que o é mediante uma escolha bem simples: pode antepor o eleitoral e o partidismo à necessidade de iludir à cidadania com uma proposta que trairia consigo uma baixa abstenção e que, aliás, barra nas urnas os partidos dinásticos deixando-os em minoria como em abril de 1931 dando pé a um novo ciclo político; ou pode apostar por uma Fronte Ampla POLÍTICA e não apenas partidária. Sem unidade será impossível começar, em qualquer naçao das que compõem o Estado espanhol, programas realmente transformadores que vençam o férreo poder da bancocracia e as elites políticas e económicas de Eurolândia.

Política e integral, de toda a cidadania, que conte com os partidos políticos, mas também com os movimentos cívicos. Com as forças políticas galegas nacionalistas e de esquerda ruturista, mas também com as forças políticas e as plataformas cívicas doutras nações do Estado. Uma Frente Ampla que artelhar-se-há, já que logo, em base à unidade popular, sobre um programa amplo e de comum denominador que permita somar o máximo espectro de organizações populares.

E nesse programa, na leitura de Anova, o fundamental é:
a.- a quebra democrática com a II Restauração bourbónica, cujo correlato é mudar o modelo político, económico e social imposto por 40 anos de fascismo e quase outros 40 de franquismo sem Franco com umas elites herdeiras da ditadura que pilotaram uma “Transição” de costas à maioria social.
b.- A demanda duma democracia real, em sintonia com amplos setores da sociedade civil, que, antes de mais, para ser merecente do seu nome deve assentar-se em três frentes complementares: no político a reconquista da soberania popular; no económico o combate contra a ortodoxia ultraliberal da troika; no social, o respeito pelos direitos da cidadania onde se inclui o direito a decidir de todas as nações do Estado espanhol e o respeito ao feito diferencial de galegos, bascos e catalães (mas também doutros territórios com línguas de seu e/ou feitos diferenciais como Asturies, Aragão, Andaluzia...).

Em definitiva, uma Frente Ampla que faça ver a incompatibilidade manifesta entre o respeito e a garantia dos nossos direitos com a hegemonia do livre mercado, ou entre a democracia e o capitalismo ultraliberal. Uma Frente Ampla que permita um amplo processo de ruturas com a arquitetura institucional da democracia burguesa e com o capitalismo.

Uma Frente Ampla que aguardamos chegue a Galiza e ao Estado espanhol 40 anos após o golpe de Estado que pus fim ao ensaio de socialismo democrático impulsado por Salvador Allende em Chile. Um ensaio, a primeira vista truncado e fracassado, mas cujo eco se sente com força hoje na emancipação de América do Sul: em Uruguai, em Equador, em Bolívia, em Venezuela...

A aposta de Anova exige tecer uma nova conceção estratégica de como construir um novo Estado para um novo tipo de sociedade e, em sintonia também com o que expunha Allende, tal conceção deve ter presentes (ao menos) três cousas: a particularidade nacional de cada processo (neste momento especialmente importante em Catalunya, Euzkadi e a Galiza), uma política de alianças que permita a independência dos explorados e oprimidos e, por fim, o caráter democrático do processo revolucionário sendo este último ponto indispensável e fundamental para avançar coletivamente alimentando e legitimando o processo desde o conjunto da classe trabalhadora e os sectores atacados pela ofensiva ultraliberal.

Salvador Allende foi um militante socialista que advogou por uma ampla convergência popular que fizera frente ao Imperialismo (hoje denominado como globalização ou mundialização -na escola francesa-) e à oligarquia que acumulou e acumula capital com a suor da classe trabalhadora. Allende procurou sempre chegar ao Governo por meio do sufrágio universal, opondo-se ao seu próprio partido que em Chillán (1967) quis deixar de lado a via institucional e apostar pela conquista armada do poder. O dia do seu triunfo eleitoral assinalou:
Hemos triunfado para derrotar definitivamente la explotación imperialista, para terminar con los monopolios, para hacer una seria y profunda reforma agraria, para controlar el comercio de importación y exportación, para nacionalizar, en fin, el crédito, pilares todos que harán factible el progreso de Chile, creando el capital social que impulsará nuestro desarrollo.2

Assim, os mil dias da Unidad Popular foram para o povo chileno um inédito processo que significou um grande sacrifício para atingir um histórico empoderamento das classes populares que apenas assim podiam confrontar – desde a unidade mais ampla possível – o capital foráneo e os interesses imperialistas. Uma via através da unidade popular, do socialismo democrático, que voltam percorrer hoje os povos de América do Sul, embora seja hodierno uma correlação de forças e um contexto evidentemente diferentes.

No entanto, tanto hoje como ontem, o caminho que propunha Allende não é doado. Ao igual que na proposta de Anova exige fazer uma leitura do presente como história, um olhar a longo prazo por cima do cálculo eleitoral e uma audácia e uma teimosia sustentada no tempo que poucos partidos e organizações têm na voragem do curto-prazismo predominante na política. No entanto, toda a esquerda deve antepor por cima de qualquer consideração o seu alvo estratégico fundamental: a superação do capitalismo e a emancipação social e nacional de todos os povos do mundo:

Como decía Allende, la lucha del pueblo de Chile no es una lucha de generaciones, menos el monopolio de un sólo partido, la lucha debe ser de los trabajadores, de los estudiantes, de los profesionales y de las múltiples organizaciones sociales y políticas dispuestas a asumir el desafío de la unidad a pesar de las diferencias porque han comprendido la labor histórica en la que vivimos.3

Esta Frente Ampla, no entanto, não deve ver-se tampouco como um ponto de chegada. É tão só o ponto de partida dum processo que medirá a capacidade da esquerda não resignada para acumular forças e demonstrar na praxe quê é o que é o socialismo para o século XXI. O socialismo democrático, com uma visão de fundo, compreende que toda verdadeira rutura com a ordem estabelecida é um processo e não um acontecimento único que se dá um 15 de maio ou um 14 de abril. E, finalmente, quê é o que xebra o socialismo democrático de Allende do social-liberalismo ou ainda da socialdemocracia? Que no horizonte que guia o quê fazer atual mantêm-se todos e cada um dos alvos revolucionários inerentes a todo socialismo revolucionário.

Notas: 

1Xosé Lois García, “Dun poema francés” em Borralleira pra sementar unha verba [Monforte de Lemos: Xistral], 1974.

2Discurso de Salvador Allende na madrugada do 5 de setembro de 1970.

3Camila Vallejo, “Los estudiantes desenpolvan un icono” em Le Monde Diplomatique en español, nº 215, setembro 2013, pp. 16-18.

10/07/2012

Hayek e Pinochet: amor infinito.

Tirado de aquí. Tradución de Adrián Levices Casal para Revolta Irmandiña.



Alguén deixou unha ligazón a este interesante artigo sobre os eloxios de Hayek a Pinochet na miña última entrada:

Corey Robin, “Hayek von Pinochet,” Coreyrobin.com, 8 July 2012.

Chamoume particularmente a atención este comentario de Hayek quen, entendo, o fixo nunca entrevista a un xornal chileno:

Como institucións a longo prazo, son totalmente contrario ás dictaduras. Pero unha dictadura pode ser un sistema necesario nun período transicional. Ás veces é necesario que un país, durante un tempo, conte con algunha forma ou outra de poder dictatorial. Como comprenderedes, é posible que un dictador governe de xeito liberal. E tamén é posible que unha democracia governe cunha ausencia total de liberalismo. Personalmente, prefiro un dictador liberal a un governo democrático falto de liberalismo. A miña impresión persoal… é que en Chile… imos ser testemuñas dunha transición dende un governo dictatorial cara un governo liberal… e durante esta transición se callar ha ser necesario manter certos poderes dictatoriais, non coma algo permanente se non coma un arranxo temporal".

Así eran as cousas: á hora da verdade, Hayek ó parecer prefería as dictaduras no canto dun estado rexido polas leis e cunha economía democrática social ou socialista democrática.

Un pregúntase, se daquelas cando era presionado, ¿tería expresado as súas preferencias polo Chile de Pinochet (onde a xente “desaparecía” de seguido) en lugar de pola democracia social sueca?

En contraste, un punto obvio que cita Hayek é que un dictador pode perseguir ós “liberais” ou ás políticas do “laissez faire”. Isto é totalmente certo: Mussolini orixinariamente perseguiu ós estándares do libre mercado e das políticas neoclásicas:

Dende 1922 ata 1925, o réxime de Mussolini perseguiu a política económica do “laissez faire” do ministro de finanzas liberal Alberto de Stefani. De Stefani reduciu os impostos, as regularizacións e as restriccións comerciais e posibilitou que as empresas competisen entre elas. Pero esta oposición ao proteccionismo e aos subsidios a empresas alineou a varios líderes industriais e De Stefani foi finalmente obrigado a dimitir”.

Sheldon Richman, “Fascism,” Concise Encyclopedia of Economics
http://www.econlib.org/library/Enc1/Fascism.html

Se callar debamos de ter isto presente cando revisemos os comentarios de Mises sobre o fascismo de Mussolini: 

Non se pode negar que o Fascismo e movementos similares cuxo obxectivo é o establecemento de dictaduras están cheos das mellores intencións e que a súa intervención ten, polo momento, salvado a civilización europea. O mérito que o Fascismo así gañou para si mesmo vivirá por sempre na historia. Mais aínda que a súa política trouxo a salvación polo momento, non é algo que poida prometer un éxito continuado. O Fascismo foi un paliativo de emerxencia. Velo como algo máis sería un erro fatal.”
Mises, 1978 [1927]. Liberalism: A Socio-Economic Exposition (2nd edn; trans. R. Raico), Sheed Andrews and McMeel, Mission, Kansas. p. 51.

Polo xeral, non se ven moitos austríacos falando sobre estes inoportunos comentarios de Hayek e Mises.

21/12/2011

O segundo fôlego do movimento mundial de justiça social

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado de aqui.



Temos de pensar numa luta mundial como uma corrida de fundo, na qual os corredores têm de usar a sua energia com sabedoria.

Durante os protestos da praça Tahrir em novembro de 2011, Mohamed Ali, 20 anos, respondeu da seguinte forma a um jornalista que lhe perguntava por que estava ali: "Queremos justiça social. Nada mais. É o mínimo que merecemos."

A primeira vaga de movimentos assumiu formas múltiplas em todo o mundo – a chamada Primavera Árabe, os movimentos Ocupar que começaram nos Estados Unidos e se espalharam a um grande número de países, Oxi na Grécia e os Indignados em Espanha, os protestos estudantis no Chile e muitos outros.

Foram um sucesso fantástico. O grau de êxito pode ser medido por um extraordinário artigo escrito por Lawrence Summers no Financial Times em 21 de novembro, sob o título "A desigualdade já não pode ser evitada pelas ideias habituais". Não é um tema em que Summers se tenha antes destacado.

Nele, o colunista faz duas observações notáveis, considerando que ele foi pessoalmente um dos arquitetos da política económica mundial dos últimos 20 anos que nos pôs a todos na profunda crise na qual o mundo se encontra.

A primeiro afirmação é que houve mudanças fundamentais nas estruturas económicas mundiais. Summers diz que "a mais importante delas é o forte aumento da recompensa de mercado para uma pequena minoria de cidadãos, em relação às recompensas disponíveis para a maioria dos cidadãos."

A segunda diz respeito a dois tipos de reações públicas a esta realidade: a dos manifestantes e a dos que se opõem aos protestos. Summers diz que é contra a "polarização", que é o que, segundo ele, os manifestantes estão a provocar. Mas diz em seguida: "Ao mesmo tempo, os que se apressam a classificar como inadequada, ou um produto do conflito de classe, qualquer preocupação acerca da crescente desigualdade estão ainda mais fora da realidade."

O que o artigo de Summers indica não é que ele se tenha tornado um expoente da mudança social radical – longe disso – mas antes que se preocupa com o impacto político do movimento mundial de justiça social, especialmente no que ele chama de mundo industrializado. Eu chamo a isso o sucesso do movimento mundial de justiça social.

A resposta a este sucesso foram algumas concessões menores aqui e ali, e logo uma crescente repressão por todo o lado. Nos Estados Unidos e no Canadá, houve uma sistemática iniciativa da polícia para acabar com as "ocupações". A simultaneidade destas ações parece indicar algum nível de coordenação em alto nível. No Egito, os militares têm resistido a qualquer diluição do seu poder. Alemanha e França impuseram políticas de austeridade na Grécia, Irlanda, Portugal e Itália.

Mas a história está longe de terminada. Os movimentos estão a desenvolver um segundo fôlego. Os manifestantes reocuparam a praça Tahrir e estão a ameaçar o chefe de Estado-Maior Tantawi com o mesmo desprezo com que trataram Mubarak. Em Portugal, o apelo a um dia de greve geral paralisou todo o sistema de transportes. Uma anunciada greve na Grã-Gretanha contra o corte das pensões esperava reduzir o tráfego em Heathrow em 50%, causando grandes repercussões em todo o mundo, dada a centralidade de Heathrow no sistema mundial de transportes. Na Grécia, o governo tentou apertar mais os pensionistas pobres, aplicando uma grande taxa de propriedade na sua conta de eletricidade, ameaçando cortar a luz se não pagarem. Mas há resistência organizada. Os eletricistas estão a religar a luz ilegalmente, contando com a incapacidade dos reduzidos efetivos do governos municipais para aplicar a lei à força. É uma tática que já foi usada com sucesso no Soweto, subúrbio de Johannesburgo, há uma década.

Nos Estados Unidos e no Canadá, o movimento de ocupação expandiu-se dos centros das cidades para as cidades universitárias. E os "ocupantes" estão a discutir lugares alternativos para ocupar durante os meses de inverno. A rebelião dos estudantes do Chile alastrou-se às escolas secundárias.

É preciso destacar duas coisas na situação atual. A primeira é o facto de os sindicatos – como parte do que está a acontecer, como resultante de que está a acontecer – se terem tornado muito mais militantes e abertos à ideia de que deviam ser participantes ativos no movimento mundial de justiça social. Isto é verdade no mundo árabe, na Europa, na América do Norte, na África do Sul, mesmo na China.

A segunda coisa a destacar é o facto de os movimentos em todo o lado terem sido capazes de manter a ênfase numa estratégia horizontal. Os movimentos não são estruturas burocráticas mas coligações de múltiplos grupos, organizações, setores da população. Ainda estão a debater empenhadamente sobre a base atual da sua tática e prioridades, e resistem a ser excludentes. Será que isto funciona sempre bem? Claro que não. Será que funciona melhor do que reconstruir um novo movimento vertical, com liderança clara e disciplina coletiva? Até agora, funcionou sem dúvida melhor.

Temos de pensar numa luta mundial como uma corrida de fundo, na qual os corredores têm de usar a sua energia com sabedoria, para evitar ficarem exaustos ao mesmo tempo em que não perdem de vista o objetivo final – um diferente tipo de sistema-mundo, muito mais democrático, muito mais igualitário que qualquer outro que exista atualmente.

08/12/2011

Líder do movimento estudantil chileno perde eleição

Por João Paulo Charleaux, Opera Mundi, tirado de Outras Palavras (aqui).
Gabriel Boric será o novo presidente da Federação de Estudantes do Chile; analista vê sinal de radicalização



Camila Vallejo, o rosto mais conhecido e carismático do movimento estudantil chileno – que nos últimos sete meses abalou o governo de Sebastián Piñera com protestos, choques e greves – foi derrotada nesta terça-feira (06/12) na eleição para presidente da Fech (Federação de Estudantes da Universidade do Chile), a entidade mais importante do setor.

O resultado, publicado na madrugada de hoje, revela um desejo de radicalizar os protestos estudantis em 2012, já que a corrente vencedora, mais radical, rechaça a via parlamentar como espaço de resolução das demandas estudantis, de acordo com analistas ouvidos pelo Opera Mundi. O novo presidente, o estudante de Direito Gabriel Boric, falou em estabelecer alianças com outros movimentos sociais em 2012.

“Nossa proposta é construir novos setores políticos. A atual institucionalidade no Chile não tem largura para conter as demandas do movimento estudantil e nossa proposta será de confluir com diversos atores sociais. Não estamos dispostos a seguir delegando nossa vocação transformadora aos políticos de ontem. Chegamos para ficar”, disse Boric.

Oito listas concorreram na eleição, realizada na segunda e terça-feira. A lista vencedora, F, Criando Esquerda, recebeu 4.053 votos. A lista J, Esquerda Estudantil, de Camila Vallejo, terminou com 3.964, uma diferença de apenas 89 votos.

O sistema eleitoral adotado pela Fech, entretanto, prevê que o candidato mais votado da lista mais votada assuma a presidência. E o segundo candidato mais votado, de qualquer lista, assuma a vice-presidência. Assim, embora Camila tenha perdido a presidência, ficará com a vice-presidência da Fech.

Outros representantes de listas menos votadas também farão parte da direção do movimento, assumindo cargos de secretaria geral e comunicação, por exemplo. Nenhum candidato de direita conseguiu votos suficientes para compor a direção e pelo menos um anarquista, da lista I, conseguiu entrar.

O novo presidente [foto ao lado] expressou sua admiração por Camila e elogiou sua “entrega (à causa) a todo custo”. Boric é da região mais austral do Chile, Magalhães. Ele diz que quer liderar “um movimento que não mude apenas a educação, mas que mude o Chile”.

Comunista, Camila era a menos radical



A derrota de Camila, que é membro da Juventude Comunista, é vista pelo analista político chileno Nibaldo Mosciatti como uma opção dos estudantes pelo radicalismo. “De forma aproximada, podemos dizer que a eleição na Fech reproduziu um movimento parecido com o que ocorreu no Chile com a Unidade Popular (governo do presidente socialista Salvador Allende, deposto por um golpe de Estado em 1973)”, disse ao Opera Mundi. “Naquela época, os comunistas representavam a ala menos radical, a ala que defendia a via parlamentar como foro adequado para a resolução dos conflitos, da mesma forma que acontece agora. Mas os setores mais radicais, neste caso, os anarquistas, os autônomos e mesmo os socialistas não veem o parlamento nem a política formal como instâncias representativas”, completou.

Depois de sete meses de paralização dos estudantes, protestos e choques com a polícia, Camila e seu vice, Giorgio Jackson, vinham privilegiando a opção de trasladar o debate político sobre as demandas estudantis para o Parlamento, especialmente para os trabalhos das comissões de Orçamento e Educação, como forma de pôr um fim ao impasse. Mas os setores mais radicais consideram a opção uma derrota.

“Os mais radicais têm a característica de apostar fortemente no assembleismo permanente, na mobilização social abrangente. Falam muito sobre o descrédito dos partidos políticos e culpam o Partido Comunista, de Camila, por ter se aliado à Concertação (coalizão governista de centro-esquerda que governou o Chile nos últimos 20 anos e, do ponto de vista dos estudantes, não promoveu as mudanças necessárias na educação)”, disse Mosciatti.

O Chile terá eleições locais em 2012 e parlamentares e presidenciais em 2013. Camila é uma das três personalidades políticas mais bem avaliadas do Chile – atrás apenas da ex-presidente chilena, Michelle Bachelet, e do ministro dos Transportes do atual governo, Laurence Golbourne, visto como o responsável pela operação de resgate dos 33 mineiros presos em Atacama, em agosto de 2010, quando então era ministro da Mineração. Para alguns analistas, Camila poderia candidatar-se a deputada em 2013.

25/09/2011

Ensinanza pública e democracia

Josep Fontana. Artigo tirado de Fírgoa (aquíe traducido por nós para o galego. Léanse tamén estoutros dous artigos, un sobre "O botín da educación secundaria" (aquí) e outro de Filipe Díez (aquí).


Nun artigo sobre a insensatez dunhas políticas de austeridade que en lugar de remediar a crise o que fan é perpetuala, Paul Krugman sinalaba que a parte fundamental dos recortes en gasto público recae sobre a educación, aínda que "deixar sen traballo por centos de miles de mestres non parece o mellor modo de conquistar o futuro".

O máis grave é que estes recortes preséntansenos como unha medida transitoria, como unha consecuencia obrigada da crise, superada a cal todo volverá ser como antes, cando en realidade hai motivos fundados para sospeitar que do que se trata é de aproveitar a crise para realizar unha "reforma da educación" en que só se manteña como gratuíta un ensino destinado a formar peonaxe, mentres a formación superior reservarase a quen poidan custearse as elevadas taxas que haberán de esixir unhas universidades que recibirán cada vez menos recursos públicos.

Isto púidose ver con claridade no caso de Estados Unidos, onde o movemento de "reforma" comezou moito antes da crise, co obxectivo declarado de substituír a educación pública pola concertada. Como declarou Teri Adams: "O noso obxectivo final é pechar as escolas públicas e deixar tan só escolas privadas, devolvendo a responsabilidade polo pago aos pais e a organizacións privadas de beneficencia".

Estas "organizacións privadas" son fundacións "benéficas" como a Bill and Melinda Gates Foundation, que figura en primeira liña na loita contra a escola pública e a favor de escolas xestionadas con criterios empresariais, onde os profesores, sometidos a unhas condicións de contratación precarias, están destinados á tarefa de comunicar uns contidos previamente fixados, nun ensino que aspira tan só a transmitir coñecementos puntuais, cuxa adquisición poida controlarse con exames e probas. Moitas destas escolas concertadas confían a empresas especializadas as tarefas de contratar ao profesorado, desenvolver os programas de estudo e manter a disciplina.

Con programas semellantes actúan a Walton Family Foundation (dos propietarios dos almacéns Wal-Mart, a maior empresa privada do mundo polo número dos seus empregados, que se distinguiu sempre pola súa oposición aos sindicatos), a Broad Foundation (ligada a AIG) ou a Dick and Betsy DeVos Foundation (dos propietarios de Amway; Betsy DeVos é irmá de Erik Prince, o fundador da empresa militar Blackwater, responsábel de numerosos crimes en Iraq e Afganistán).

Que o propósito da "reforma da educación" sexa desenvolver un sistema eficaz de adoctrinamiento de valores resulta aínda máis visíbel na universidade, onde a escaseza crecente dos recursos públicos favorece a actuación de fundacións empeñadas en realizar o programa, que a Universidade de Cervera defendía xa en 1827, de combater contra "a perigosa novidade de discorrer".

Neste terreo destaca a actuación de Charles Koch, propietario dunha das maiores fortunas de Estados Unidos, que rexeitou a suxestión de Warren Buffett de que os ricos pagasen máis impostos, porque prefire empregar o seu diñeiro en actividades como as de financiar candidatos de dereitas nas eleccións ou influír no ensino superior da economía e en combater desde a universidade os estudos achega do cambio climático, para evitar que se implanten uns controis ambientais que prexudicarían ás súas industrias, que figuran entre as máis contaminantes de Estados Unidos.

Díxose que controla na práctica a George Mason University, onde o vicepresidente executivo de Koch Industries, Richard Fink, insignia na facultade de Economía, e sábese que financia proxectos e bolsas noutras moitas. En Troy University, por exemplo, participou nunha doazón de 3,6 millóns de dólares destinada a crear un centro de economía dedicado a combater a idea de que as crises económicas pódense evitar regulando os mercados.

No caso da Florida State University consta que a Fundación Charles Koch ofreceu millóns de dólares para o departamento de Economía, a condición de que os candidatos contratados para ensinar debían ser aprobados por un comité designado pola fundación (que rexeitou a un 60% dos suxeridos pola universidade) e de que podería retirar os fondos se non estaba de acordo cos resultados alcanzados.

Ao que conduce unha evolución semellante do ensino pódese advertir no ocorrido en Chile, onde a privatización realizada por Pinochet, que os gobernos da Concertación deixaron sen emenda, deu lugar a que o que empezou como unha protesta dos estudantes, queixosos dunha educación que "séguese reducindo ao adestramento de habilidades funcionais para o mundo laboral e debilita a formación de persoas que poidan converterse en cidadáns e cidadás activos e críticos", acabou transformándose nun conflito social de grande amplitude.

Que as cousas se están planeando entre nós coas mesmas intencións revélano as palabras de Esperanza Aguirre, que anuncian un futuro en que, con crise ou sen ela, "non todo o ensino" vai ser gratuíto.

Defender hoxe a causa do ensino público contra unha reforma disfrazada de austeridade é unha condición necesaria para preservar mañá a democracia.

19/09/2011

Entrevista com o semiólogo galego Ignácio Ramonet

Ignácio Ramonet. Artigo tirado de Diário Liberdade (aqui). A entrevista ao sociólogo galego foi publicada originalmente em castelhano em Cubadebate. Ignacio Ramonet, semiólogo galego (Redondela, Galiza, 1943) formado em França e doutor honoris causa da universidade de Santiago de Compostela, é um dos principais analistas mundiais da comunicação, para além de liderar vários movimentos antiglobalização. Aqui, as suas ideias sobre os meios e os jornalistas. Mas também reflete sobre geopolítica e rebeliões.

Ignácio Ramonet.


-O senhor escreveu que “nos últimos 15 anos, a medida que se foram afianzando o ultraliberalismo e a globalização, o quarto poder -como contrapoder- foi sumindo”. Pergunto: Isto foi porque a mudança de escala que produziu a globalização fez que os meios locais deixassem de ter donos de carne e osso, dedicados só aos meios, e que además vivían e estavam comprometidos com o seu lugar, para passar a ser multinacionais com o seu capital atomizado; somado a que aqueles meios que não puderam competir com estas multinacionais terminaram sendo absorbidas por empresários doutras atividades economicamente muito maiores que os meios aos que usaram como ferramenta de lobby e pressão?

-Totalmente de acordo.

-Poderíamos dizer que as empresas verdadeiramente globais são as de entretenimentos, mas não as de produção de notícias?

-Depende, porque, por exemplo, a CNN, é de conteúdos. A News Corporation é de entretenimento e de conteúdo de informação.

-No caso da CNN, a distribuição é internacional mas a produção de conteúdos é norte-americana e a produção de conteúdos locais como a de CNN-Canal Plus no Estado espanhol fracassou, o outro caso é a Rússia com igual sorte.

-É. A CNN está em crise, mas também por outras razões que trato de explicar no livro.

-Analisemos News Corporation, então. O senhor cita Murdoch como exemplo do "Cidadão Kane", e embora os seus filmes ou seriados de TV se vejam em todo o planeta, não pode publicar imprensa escrita mais que em três países: onde nasceu, a Austrália; onde estudo e morou, Inglaterra, e onde mora e do qual é cidadão, os Estados Unidos. Quando quis publicar um diário em alemão, por exemplo, foi um grande falhanço. A produção de conteúdos de informação é algo local?

-Seguramente. Dificilmente pode ser feita uma informação que chegue a uma sociedade desde algo totalmente desencarnado.

-Eis uma proteção natural, cultural, frente à globalização dos grandes meios. As companhias tecnológicas são globais, mas não são produtoras de conteúdos jornalísticos, senão de lazer.

-Sim, mas o problema é que não há grande distinção.

12/09/2011

Havia alternativa? Revisitando o 11 de Setembro uma década depois

Noam Chomsky. Artigo tirado de aqui. Tradução de Luis Leiria e Paula Sequeiros para o Esquerda.net . Fonte original em inglês aqui. Noam Chomsky é Professor emérito do Instituto no Departamento de Linguística e Filosofia do MIT. É autor de numerosas obras políticas de topo de vendas, incluindo 9-11: Was There an Alternative? (Seven Stories Press), uma versão actualizada do seu relato clássico, que acaba de ser publicada esta semana juntamente com um novo ensaio destacado – a partir do qual esta postagem foi adaptada – levando em conta os 10 anos desde os ataques do 11 de Setembro. .

Estamos a aproximar-nos do 10º aniversário das horrendas atrocidades do 11 de Setembro de 2001, que, como se diz habitualmente, mudaram o mundo. No dia 1 de Maio deste ano, o presumível mentor do crime, Osama Bin Laden, foi assassinado no Paquistão por um comando militar de elite dos EUA, os SEALs da Marinha, depois de ter sido capturado, desarmado e indefeso, na Operação Geronimo.

Uma série de analistas observaram que Bin Laden, apesar de ter sido finalmente morto, obteve importantes sucessos na sua guerra contra os EUA. “Ele afirmou muitas vezes que a única maneira de expulsar os EUA do mundo muçulmano e derrotar os seus sátrapas era atrair os americanos para uma série de pequenas mas caras guerras, que acabariam por arruiná-los”, escreve Eric Margolis. “'Sangrar os EUA', nas suas próprias palavras. Os Estados Unidos, primeiro sob George W. Bush e depois sob Barack Obama, correram directamente para a armadilha de Bin Laden... Gastos militares grotescamente aumentados e dependência da dívida... pode ser o mais pernicioso legado do homem que pensou que poderia derrotar os Estados Unidos” – particularmente quando a dívida está a ser cinicamente explorada pela extrema-direita, com a conivência do establishment democrata, para minar o que resta de programas sociais, de educação pública, de sindicatos, e, em geral, das restantes barreiras à tirania empresarial.

Logo se tornou evidente que Washington estava inclinado a realizar os mais fervorosos desejos de Bin Laden. Como discuti no meu livro “9-11”, escrito pouco depois da ocorrência dos ataques, qualquer um que conhecesse a região poderia reconhecer “que um ataque maciço a uma população muçulmana era a resposta às orações de Bin Laden e dos seus seguidores, e conduziria os Estados Unidos e os seus aliados a uma 'armadilha diabólica', nas palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros francês”.

O analista sénior da CIA responsável por perseguir Osama Bin Laden desde 1996, Michael Scheuer, escreveu pouco depois que “Bin Laden tem dito com precisão as razões que o levaram a desencadear a guerra contra nós. [Ele] pretende mudar de forma drástica as políticas dos EUA e do Ocidente em relação ao mundo islâmico”, e com um amplo sucesso: “As forças e as políticas dos EUA estão a provocar a radicalização do mundo islâmico, algo que Osama Bin Laden vem tentando fazer com sucesso substancial, mas incompleto, desde o início dos anos 90. O resultado, parece-me justo concluir, é que os Estados Unidos da América continuam a ser o único aliado indispensável de Bin Laden.” E possivelmente continuam a sê-lo, mesmo após a sua morte.

O primeiro 11/9

Havia uma alternativa? Há todas as probabilidades de que o movimento jihadista, muito do qual altamente crítico a Bin Laden, pudesse ter sido dividido e minado após o 11/9. O “crime contra a humanidade”, como era correctamente chamado, poderia ter sido abordado como um crime, com uma operação internacional para deter os presumíveis suspeitos. Na época esta ideia foi reconhecida, mas a sua execução sequer foi considerada.

Em “9-11”, citei a conclusão de Robert Fisk de que “o crime horrendo” de 11/9 foi cometido “com maldade e crueldade impressionante,” um juízo exacto. É útil ter em mente que os crimes poderiam ter sido ainda piores. Suponham, por exemplo, que o ataque tivesse ido tão longe ao ponto de bombardear a Casa Branca, matando o presidente, de impor uma ditadura militar brutal que matasse milhares e torturasse dezenas de milhares, instalando ao mesmo tempo um centro de terror internacional que ajudasse a impor estados similares de tortura-e-terror noutros países, e executando uma campanha internacional de assassinato; e como um incentivo suplementar, tivesse trazido uma equipa de economistas – chamemos-lhes de “os Kandahar boys” – que rapidamente conduzissem a economia a uma das piores depressões da sua história. Claramente, teria sido muito pior do que o 11/9.

Infelizmente, nada disto é especulação. Aconteceu. A única inexactidão neste breve relato é que os números devem ser multiplicados por 25 para produzir equivalentes per capita, a medida apropriada. Refiro-me, naturalmente, àquilo que na América Latina é frequentemente chamado de “o primeiro 11/9”: o 11 de Setembro de 1973, quando os Estados Unidos culminaram com sucesso os seus esforços para derrubar o governo democrático de Salvador Allende, no Chile, com um golpe militar que levou ao poder o regime brutal do general Pinochet. O objectivo, nas palavras da administração Nixon, era matar o “vírus” que poderia estimular todos esses “estrangeiros [que] andam a querer tramar-nos” e que queriam assumir o controlo dos seus próprios recursos e aplicar uma política intolerável de desenvolvimento independente. A apoiar esta política estava a conclusão do Conselho de Segurança Nacional que, se os EUA não conseguiam controlar a América Latina, não se podia esperar que conseguissem realizar a sua Ordem “em qualquer outro lugar no mundo.”

O primeiro 11/9, ao contrário do segundo, não mudou o mundo. Não era “nada de grandes consequências”, como garantiu Henry Kissinger ao seu chefe poucos dias depois.

Estes eventos de poucas consequências não se limitaram ao golpe militar que destruiu a democracia chilena e pôs em movimento a história de horror que se seguiu. O primeiro 11/9 foi apenas um acto de um drama que começou em 1962, quando John F. Kennedy alterou a missão dos militares latino-americanos de “defesa hemisférica” – um resquício anacrónico da Segunda Guerra Mundial – para a “segurança interna”, um conceito com uma interpretação arrepiante nos círculos latino-americanos dominados pelos EUA.

Na “História da Guerra Fria”, recentemente publicada pela Universidade de Cambridge, o académico latino-americano John Coatsworth escreve que daquele tempo até “ao colapso soviético em 1990, o número de presos políticos, de vítimas de tortura, e de execuções de dissidentes políticos não violentos na América Latina excedeu amplamente os da União Soviética e seus satélites europeus do Leste,” incluindo também muitos mártires religiosos e massacres em massa, sempre apoiados ou iniciado em Washington. O último grande acto violento foi o assassinato brutal de seis importantes intelectuais latino-americanos, sacerdotes jesuítas, poucos dias depois da queda do Muro de Berlim. Os criminosos foram um batalhão de elite salvadorenho, que já tinha deixado um chocante rasto de sangue, recém saído de um treinamento na Escola de Guerra Especial JFK, que actua sob as ordens directas do Alto Comando do estado cliente dos Estados Unidos.

Evidentemente, as consequências desta praga hemisférica ainda ecoam.

Dos raptos à tortura e ao assassinato

Tudo isto, e muitas coisas semelhantes, são desvalorizadas como sendo de pouca importância, e esquecidas. Aqueles cuja missão é governar o mundo desfrutam de uma imagem mais reconfortante, muito bem articulada na actual edição do prestigiado (e valioso) jornal do Royal Institute of International Affairs, em Londres. O artigo principal discute “a ordem internacional visionária” da “segunda metade do século XX” marcada pela “universalização de uma visão americana da prosperidade comercial”. Eis uma visão que não chega a exprimir a percepção daqueles que estão do lado errado das armas.

O mesmo vale para o assassinato de Osama Bin Laden, que põe fim, pelo menos, a uma fase da “guerra contra o terror” re-declarada pelo presidente George W. Bush no segundo 11/9. Façamos algumas reflexões sobre esse evento e o seu significado.

Em 1 maio de 2011, Osama Bin Laden foi morto na sua praticamente desprotegida residência por uma incursão de 79 SEALs da Marinha, que entraram no Paquistão de helicóptero. Depois de muitas histórias sensacionalistas fornecidas pelo governo e retiradas, os relatórios oficiais tornaram cada vez mais claro que a operação foi um assassinato planeado, violando multiplamente as normas elementares do direito internacional, começando com a invasão em si.

Não parece ter havido qualquer tentativa de deter a vítima desarmada, como presumivelmente poderia ter sido feito por 79 comandos que não enfrentaram oposição – excepto, relatam, da sua esposa, também desarmada, contra a qual dispararam em legítima defesa, quando ela “arremeteu” sobre eles, de acordo com a Casa Branca.

A reconstrução plausível dos acontecimentos foi feita pelo veterano correspondente no Médio Oriente Yochi Dreazen e colegas na revista Atlantic. Dreazen, ex-correspondente militar do Wall Street Journal, é correspondente sénior do Grupo National Journal, cobrindo assuntos militares e de segurança nacional. De acordo com a sua investigação, o planeamento da Casa Branca não parece ter considerado a opção de capturar Bin Laden vivo: “O governo deixou claro ao clandestino Comando Conjunto de Operações Especiais que queria Bin Laden morto, de acordo com uma autoridade sénior dos EUA que teve conhecimento das discussões. Um oficial de alta patente militar que foi informado do assalto disse que os SEALs sabiam que a sua missão não era levá-lo vivo.”

Os autores acrescentam: “Para muitos, no Pentágono e na CIA, que tinham passado quase uma década a caçar Bin Laden, matar o militante foi um acto necessário e justificado de vingança”. Além disso, “a captura de Bin Laden vivo teria também posto a administração diante de uma série de incómodos desafios jurídicos e políticos”. Melhor, então, assassiná-lo, deitar o corpo ao mar sem a autópsia considerada essencial depois de uma morte – um acto que previsivelmente provocou raiva e cepticismo em grande parte do mundo muçulmano.

Como observa a investigação da Atlantic: “A decisão de matar Bin Laden sem rodeios foi a ilustração mais clara até agora de um aspecto pouco notado da política de contra-terrorismo da administração Obama. O governo Bush capturou milhares de militantes suspeitos e enviou-os para campos de detenção no Afeganistão, no Iraque e na Baía de Guantánamo. A administração Obama, em contraste, tem-se concentrado em eliminar terroristas individuais em vez de tentar capurá-los vivos.” Trata-se de uma diferença significativa entre Bush e Obama. Os autores citam o ex-chanceler da Alemanha Ocidental Helmut Schmidt, que “disse à TV alemã que a invasão dos EUA foi 'muito claramente uma violação do direito internacional' e que Bin Laden deveria ter sido detido e levado a julgamento”, contrapondo Schmidt ao Procurador Geral dos EUA, Eric Holder, que “defendeu a decisão de matar Bin Laden, embora este não representasse uma ameaça imediata para os SEALs, dizendo a um painel da Câmara ... que o assalto tinha sido 'legal, legítimo e adequado em todos os sentidos'”.

A eliminação do corpo sem autópsia também foi criticada por aliados. O eminente advogado britânico Geoffrey Robertson, que apoiou a intervenção e se opôs à execução em grande parte por razões pragmáticas, considerou no entanto a afirmação de Obama de que “fora feita justiça” como um “absurdo”, o que deveria ser óbvio para um ex-professor de direito constitucional. A lei do Paquistão “exige um inquérito sobre a morte violenta e a legislação internacional de direitos humanos insiste que o 'direito à vida' obriga a um inquérito sempre que ocorre uma morte violenta por acção de um governo ou da polícia. Os EUA têm, portanto, o dever de realizar um inquérito que satisfaça o mundo quanto às verdadeiras circunstâncias desta morte.”

Robertson, a propósito, recorda-nos que “nem sempre foi assim. Quando chegou a hora de decidir o destino de homens muito mais mergulhados na maldade que Osama Bin Laden – a liderança nazi – o governo britânico queria que eles fossem enforcados seis horas após a captura. O presidente Truman hesitou, citando a conclusão de Robert Jackson, do Supremo Tribunal, que a execução sumária “não se sentaria facilmente na consciência americana nem seria lembrada pelos nossos filhos com orgulho... o único caminho é determinar a inocência ou culpa do acusado depois de uma audiência tão desapaixonada quanto os tempos permitam e após um registo que vai deixar claros as nossas razões e motivos”.

Eric Margolis comenta que “Washington nunca publicou provas da sua afirmação de que Osama bin Laden esteve por trás dos ataques do 11 de Setembro”, presumivelmente uma razão pela qual “as sondagens mostram que pelo menos um terço dos americanos que responderam acredita que o governo de Estados Unidos e/ou Israel estiveram por trás do 11 de Setembro”, enquanto no mundo muçulmano o cepticismo é muito mais alto. “Um julgamento aberto nos Estados Unidos ou em Haia teria exposto essas afirmações à luz do dia”, continua, razão prática pela qual Washington deveria ter seguido a lei.

Em sociedades que professam algum respeito pela lei, os suspeitos são detidos e levados a um julgamento justo. Sublinho "suspeitos". Em Junho de 2002, o chefe do FBI Robert Mueller, no que o Washington Post descreveu como “entre os seus comentários públicos mais detalhados sobre a origem dos ataques”, pôde dizer apenas que “os investigadores crêem na ideia de que os ataques do 11 de Setembro ao World Trade Center e ao Pentágono vieram de líderes da Al Qaeda no Afeganistão, a maquinação efectiva foi feita na Alemanha, e o financiamento veio através dos Emirados Árabes Unidos a partir de fontes no Afeganistão.”

O que o FBI acreditou e pensou em Junho de 2002 não o sabia oito meses antes, quando Washington repeliu ofertas provisórias dos Taliban (quão sérias, não sabemos) para permitir um novo julgamento de Bin Laden se lhes fossem apresentadas provas. Assim, não é verdade, como o presidente Obama afirmou nas suas declarações da Casa Branca depois da morte de Bin Laden, que “rapidamente soubemos que os ataques do 11 de Setembro foram executados pela Al-Qaeda.”

Nunca houve alguma razão para duvidar do que o FBI acreditou em meados de 2002, mas isto deixa-nos longe da prova da culpa requerida em sociedades civilizadas – e quaisquer que as provas fossem, não justificam o assassinato de um suspeito que, parece, teria sido facilmente detido e levado a julgamento. O mesmo é mais ou menos verdade quanto às provas fornecidas desde então. Assim, a Comissão do 11 de Setembro forneceu provas circunstanciais extensas do papel de Bin Laden no 11 de Setembro, baseando-se principalmente no que lhe tinha sido dito sobre confissões de presos de Guantánamo. É duvidoso que muito disso se sustivesse num julgamento independente, tendo em conta as maneiras como as confissões foram extraídas. Mas, em qualquer caso, as conclusões de uma investigação autorizada pelo Congresso, por muito convincentes que se possam achar, claramente ficariam aquém de uma sentença por um tribunal credível, que é o que passa a categoria do acusado de suspeito para condenado.

Fala-se muito da "confissão" de Bin Laden, mas aquilo foi uma fanfarronice, não uma confissão, com tanta credibilidade quanto a minha "confissão" de que ganhei a maratona de Boston. A fanfarronice diz-nos muito do seu carácter, mas nada da sua responsabilidade pelo que ele considerou como um grande feito, do qual quis ficar com o crédito.

De novo, tudo isso é, de forma transparente, bastante independente do nosso juízo sobre a sua responsabilidade, que pareceu clara imediatamente, mesmo antes do inquérito do FBI, e que ainda parece.

Crimes de Agressão Vale a pena acrescentar que a responsabilidade de Bin Laden foi reconhecida na maior parte do mundo muçulmano e condenada. Um exemplo significativo é o do eminente clérigo libanês, xeique Fadlallah, muito respeitado em geral pelo Hezbollah e por grupos xiitas, também fora do Líbano. Ele tinha alguma experiência com assassinatos. Tinha sido visado para assassínio: por um camião-bomba fora duma mesquita, numa operação organizada pela CIA em 1985. Escapou, mas 80 outros foram mortos, na maior parte mulheres e meninas ao saírem da mesquita – um daqueles crimes inumeráveis que não entram para os anais do terror por causa da falácia “da agência errada.” O xeique Fadlallah condenou marcadamente os ataques do 11 de Setembro.

Um dos especialistas principais do movimento jihadista, Fawaz Gerges, sugere que o movimento poderia ter-se dividido, tivessem os Estados Unidos explorado a oportunidade, em vez de mobilizar o movimento, em particular com o ataque ao Iraque, um grande benefício para Bin Laden, que levou a um aumento acentuado do terror, como as agências de espionagem tinham antecipado. Nas audições Chilcot, ao investigar o contexto da invasão do Iraque, por exemplo, o antigo chefe da agência de informações internas britânica MI5 declarou que tanto a agência britânica como a dos Estados Unidos estavam conscientes de que Saddam não representava qualquer ameaça séria, que a invasão provavelmente aumentaria o terror e que as invasões do Iraque e do Afeganistão tiveram partes de uma geração radicalizada de muçulmanos que viram as acções militares como “um ataque ao Islão”. Como acontece muitas vezes, a segurança não foi uma prioridade alta para a acção do estado.

Poderia ser instrutivo perguntarmo-nos como estaríamos a reagir se comandos iraquianos tivessem aterrado no complexo militar de George W. Bush, o assassinassem e lançassem o corpo no Atlântico (depois dos rituais fúnebres devidos, naturalmente). Sem sombra de controvérsia, ele não era um "suspeito" mas sim o "decisor" que deu as ordens para invadir o Iraque – isto é, cometer “o crime internacional supremo que só se diferencia de outros crimes de guerra por conter dentro de si a maldade acumulada da totalidade” pelo qual os criminosos nazis foram enforcados: as centenas de milhares de mortes, os milhões de refugiados, a destruição da maior parte do país e do seu património nacional e o conflito sectário assassino que agora se estendeu ao resto da região. Igualmente de forma incontroversa, esses crimes excederam vastamente tudo o atribuído a Bin Laden.

Dizer que tudo isso é incontroverso, conforme é, não quer dizer que não seja negado. A existência de aplanadores da Terra não muda o facto de que, de forma incontroversa, a terra não é plana. De forma semelhante, é incontroverso que Estaline e Hitler foram responsáveis por crimes horrendos, embora os seus partidários o neguem. Tudo isto deveria, de novo, ser demasiado óbvio para ser comentado, e sê-lo-ia, excepto numa atmosfera de histeria tão extrema que bloqueasse o pensamento racional.

De forma semelhante, é incontroverso que Bush e seus parceiros cometeram mesmo o “crime internacional supremo” – o crime da agressão. Aquele crime foi definido de forma suficientemente clara pelo magistrado Robert Jackson, o Chefe do Conselho dos Estados Unidos em Nuremberga. "Um agressor", propôs Jackson ao Tribunal na sua declaração de abertura, é um estado que é o primeiro a cometer tais ações como a “invasão pelas suas forças armadas, com ou sem declaração da guerra, do território de outro estado”. Ninguém, nem mesmo o apoiante mais extremo da agressão, nega que Bush e parceiros fizeram precisamente isso.

Também faríamos bem em lembrar as palavras eloquentes de Jackson em Nuremberga sobre o princípio da universalidade: “Se certos atos na violação de tratados são crimes, são crimes sejam os Estados Unidos ou seja a Alemanha fazê-los e não estamos preparados para estabelecer uma regra da conduta criminal contra outros que não estivéssemos dispostos a ter invocado contra nós”.

É também claro que intenções anunciadas são irrelevantes, mesmo se nelas se acreditar verdadeiramente. Registos internos revelam que os fascistas japoneses aparentemente acreditaram que, ao assolar a China, se esforçavam por a converter “num paraíso terrestre”. E embora possa ser difícil imaginar, é concebível que Bush e companhia acreditassem que protegiam o mundo da destruição pelas armas nucleares de Saddam. Tudo irrelevante, embora partidários ardentes em todos os lados possam tentar convencer-se de outra coisa.

Deixam-nos duas escolhas: ou Bush e seus parceiros são culpados do “crime internacional supremo” incluindo de todos os males que se seguem, ou então declaramos que os processos de Nuremberga foram uma farsa e que os aliados eram culpados de assassinato judicial.

A Mentalidade Imperial e o 11 de Setembro

Alguns dias antes do assassinato de Bin Laden, Orlando Bosch morreu pacificamente na Flórida, onde viveu juntamente com o seu cúmplice Luis Posada Carriles e muitos outros parceiros do terrorismo internacional. Depois de ter sido acusado de dúzias de crimes terroristas pelo FBI, Bosch recebeu um perdão presidencial de Bush I, passando por cima das objecções do Departamento de Justiça que considerou a conclusão “inevitável de que seria prejudicial para o interesse público dos Estados Unidos fornecer um porto seguro a Bosch”. A coincidência dessas mortes imediatamente traz a doutrina de Bush II à lembrança – “já … uma regra de facto das relações internacionais”, segundo o notável especialista de relações internacional de Harvard Graham Allison – que renega “a soberania de estados que fornecem santuário a terroristas”.

Allison refere-se à declaração oficial de Bush II, dirigida aos Taliban, de que “aqueles que abrigam terroristas são tão culpados como os próprios terroristas”. Tais estados, portanto, perderam a sua soberania e são objectivos prontos para bombardeamento e terror – por exemplo, o estado que abrigou Bosch e o seu parceiro. Quando Bush emitiu esta nova “ regra de facto das relações internacionais,” ninguém pareceu notar que ele apelava à invasão e destruição dos Estados Unidos e ao assassínio dos seus presidentes criminosos.

Nada disto é problemático, claro, se rejeitarmos o princípio da universalidade do magistrado Jackson, e adoptarmos antes o princípio de que os Estados Unidos são auto-imunes contra o direito internacional e as convenções – como, de facto, o governo tornou frequentemente muito claro.

Vale a pena também pensar no nome dado à operação de Bin Laden: Gerónimo. A mentalidade imperial é tão profunda que poucos parecem capazes de perceber que a Casa Branca está a glorificar Bin Laden chamando-lhe “Gerónimo” - o chefe índio apache que conduziu a resistência corajosa aos invasores das terras Apache.

A escolha descuidada do nome lembra a tranquilidade com que damos nomes às nossas armas de assassinato a partir das vítimas dos nossos crimes: Apache, Blackhawk [1]… Poderíamos reagir diferentemente se a Luftwaffe tivesse chamado aos seus aviões de combate "Judeu" e "Cigano".

Os exemplos mencionados caem dentro da categoria “excepcionalismo americano,” não fosse o facto de uma supressão fácil dos crimes próprios ser virtualmente ubíqua entre estados poderosos, pelo menos naqueles que não são derrotados e obrigados a reconhecer a realidade.

Talvez o assassinato tenha sido percebido pela administração como “um acto de vingança,” como Robertson conclui. E talvez a rejeição da opção legal de um julgamento reflicta uma diferença entre a cultura moral de 1945 e a de hoje, como ele sugere. Qualquer que fosse o motivo, dificilmente podia ter sido apenas a segurança. Como no caso de “crime internacional supremo” no Iraque, o assassinato de Bin Laden é outra ilustração do facto importante de que a segurança é muitas vezes não uma alta prioridade da acção do estado, ao contrário da doutrina que recebemos.


[1] NT: Blackhawk, líder guerreiro dos nativos Norte-Americanos Sauk que demonstrou ser um poderoso opositor dos invasores colonizadores ingleses

10/09/2011

Dois 11 de setembro

Luis Hernández Navarro. Artigo tirado de Carta Maior, original aqui.



No dia 11 de setembro de 1973 um golpe militar derrubou no Chile o governo do socialista Salvador Allende. A partir desse momento, com o apoio dos falcões de Washington, caiu sobre a maioria dos países da América Latina a noite sombria das ditaduras militares, a repressão e o desmantelamento das conquistas sociais. O Chile se converteu no grande laboratório neoliberal de onde seriam exportadas suas políticas para todo o mundo. Sacrificando Allende se quis frear as lutas de libertação no continente.

O 11 de setembro de 2001, o ataque às Torres Gêmeas em Nova York serviu como pretexto para que o governo de George W. Bush fizesse da guerra contra o terrorismo o instrumento principal para instaurar um novo poder constituinte. No calor da tragédia, os EUA fixaram uma nova doutrina de segurança nacional na qual advertiram que não tolerariam desafios ao seu poder, defendem a ação militar solitária em defesa da unidade nacional, sustentam o direito de efetuar ataques preventivos em qualquer parte do mundo e advertem que a dissuasão contra inimigos que “odeiam os EUA e tudo o que representam” é inútil.

Os dois 11 de setembro são datas que marcam o início de ofensivas do Império para reforçar seus interesses e abrir no continente americano e no Oriente Médio um novo ciclo de dominação e de acumulação de capital. No primeiro caso, o golpe de Estado serviu para frear o avanço da esquerda e das forças nacional-populares no Cone Sul, aprofundar a penetração do capital estadunidense e ampliar a presença militar. No segundo, permitiu à Casa Branca, com o pretexto do combate ao fundamentalismo religioso, avançar no controle dos recursos petroleiros no Oriente Médio e fazer da guerra parte do ciclo de expansão e consolidação da globalização neoliberal. Seu objetivo foi impor uma nova ordem internacional unilateral; estabelecer, pela lógica do fato consumado, um governo autoritário da globalização.

Os dois 11 de setembro reafirmaram o “excepcionalismo” estadunidense. Em 1787, James Madison, conhecido como o “pai da Constituição” dos Estados Unidos, assinalou que o objetivo principal do governo devia ser “proteger a minoria opulenta da maioria”. Em plena Convenção Constitucional, expressou que temia que o número cada vez maior de habitantes que sofriam as desigualdades da sociedade “suspirasse secretamente por uma distribuição mais equitativa dos bens”. A democracia, sentenciou, devia ser reduzida.

Nessa época, outro dos “pais fundadores” desse país, Thomas Jefferson, afirmou: “Estou persuadido que nunca houve nenhuma constituição tão bem calculada como a nossa para a expansão imperial e o autogoverno”.

Quase dois séculos depois, primeiro Richard Nixon e depois George W. Bush se empenharam em tornar realidade em escala planetária a missão que Madison atribuía ao governo e que Jefferson atribuía à Constituição de seu país.

A 38 anos do primeiro 11 de setembro e dez do segundo, na América Latina os povos resistem. Derrubaram as ditaduras militares da década dos setenta e meados dos oitenta e abriram a porta para que candidatos de centro-esquerda ganhassem as eleições. Antes do triunfo eleitoral, já tinha se produzido uma vitória cultural. O que o Império quis evitar com o Golpe de Estado no Chile renasceu por outras vias. As aventuras imperiais de Washington no Oriente Médio debilitaram o controle sobre a área que era considerada o quintal dos Estados Unidos.

Os governos progressistas na América Latina impulsionaram um processo de reconstrução da arquitetura do poder e da geopolítica na região. Há no continente uma redefinição profunda das relações e da inserção com os Estados Unidos, que se expressa tanto no rechaço das políticas da Casa Branca como no surgimento de um novo tecido institucional para favorecer a integração regional. A Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) foi torpedeada e, no Equador, não se renovou o contrato para que os EUA utilizassem a base militar de Manta. Também na contramão de Washington, a solidariedade com Cuba e as relações diplomáticas ativas com o Irã tem sido uma constante. O investimento chinês cresceu vertiginosamente. Com dificuldades, uma proposta pós-neoliberal abre caminho na região.

Ironias da história, dois 11 de setembro depois, o legado de Salvador Allende na região está mais vivo do que nunca.

05/08/2011

Retrato urxente da loita dos estudantes chilenos

Andrés Figueroa Cornejo (collido de aquí e traducido ao galego por nós).

(Mentres se escribe este artigo, o 4 de agosto de 2011 ás 13:30 hrs., en todo Chile e en especial en Santiago, os estudantes de secundaria son duramente reprimidos, centos son detidos, os gases lacrimóxenos respíranse en todo o centro da capital e o goberno acaba de promulgar a prohibición de reunión de escolares en lugares públicos. Mentres se está a un paso do Estado de Excepción, os mozos que levan meses loitando pola educación pública, gratuíta e estatal, son vangarda social e expresión dun aberto ciclo de combate contra o mal goberno e o Estado ultraliberal que reina en Chile desde a tiranía militar).

1. O contido do Estado chileno corresponde ao libreto ultraliberal establecido polas institucións reitoras do capitalismo na súa fase mundializada e de preeminencia financeira. O seu programa é o dos intereses do capital transnacional e nativo, máis aló das disputas entre fraccións da mesma clase gran propietaria e sobre todo, polos lazos de dependencia histórica entre o capital criollo e os polos imperialistas.

Pero o Estado é un produto humano, resultado das relacións de poder, da loita de clases. Por iso é un terreo en disputa. Tanto para o sometemento dunha clase sobre outra, como para o establecemento de reformas progresivas ou limitadas, ou a transformación radical dos seus cimentos e proxecto, a loita de clases é movemento vivo que impacta no complexo estatal, na economía e, por tanto, na política.

O Estado non é un artefacto inmóbil de relacións sociais fatais. O Estado é un organismo ampliado que ten poros fráxiles e custodios blindados. E, a máis loita social, máis oportunidades de provocar cambios no seu comportamento. Así mesmo, o longo refluxo do movemento popular en Chile reverte con máis ou menos celeridade a súa conduta.

Naturalmente que os estudantes por si sós non realizan as sublevacións populares vitoriosas. Sen o concurso protagónico do pobo traballador e a necesaria formación orgánica dun instrumento político á altura do actual estadio de loita de clases e capaz de conducir-participando desde as veas profundas do movemento xeral, sintetizando a doutrina, proxecto e programa político dos intereses das grandes maiorías, só é posible esperar estalidos potentes, pero sen a mira posta no poder. No entanto, os levantamentos, neste caso, estudantís, son a condición sen a cal tampouco é probábel o anterior.

E só a converxencia máis ampla política e social, co límite na alianza imposíbel cos intereses dos representantes do gran capital, criollo, transnacional ou entreverado, é o paso subseguinte necesario para a construción dunha alternativa política entre a Concertación e a dereita tradicional.

2. A resposta do Executivo piñerista ás demandas estudantís está compilado no texto "Políticas e Propostas de Acción para o Desenvolvemento da Educación Chilena", datado o 1 de xullo de 2011. A contraproposta dos estudantes de secundaria, universitaria e os docentes agrupados no gremio maxisterial entregarase á Moeda o venres 5 de agosto.

O documento do Executivo, edulcorado con fraseoloxía democratista e republicana, na superficie e baixo o texto, mantén incólume estruturalmente a situación da educación do país. Mantense o curso da privatización do ensino, proponse maiores posibilidades de endebedamento crediticio para estudar nos Centros de Formación Técnica, Institutos Superiores e Universidades, tanto tradicionais como privadas. Fálase dunha reforma constitucional, vaga e abstracta, onde a educación agora sería "de calidade", polo demais, adxectivo que consagra o ensino como unha mercadoría calquera. Así mesmo, exponse unha Superintendencia e Subsecretaría de Educación -as existentes caracterízanse por rimar a súa actuación cos intereses dos donos de todo e as súas pobres facultades fiscalizadoras-, e unha Axencia de Calidade, é dicir, unha sorte de evaluadora de riscos no plano formativo. Os contidos das institucións propostas non son distintos ás políticas aplicadas desde hai décadas na realidade. Só se legalizaría de modo manifesto a supersegmentación do sistema educativo do país, a discriminación, e o ensino de clases propia dunha sociedade de clases tan nítida e desigual como a chilena.


O escrito do Executivo, mentres reprime con violencia a menores de idade, significa un "pacto pola educación", maior transparencia do modelo xeral de ensino; contenta aos reitores das universidades tradicionais cunha "achega basal" para o seu funcionamento. A última iniciativa rompe o vínculo de loita entre os mozos e as autoridades máximas das casas de estudos superiores, e a transparencia redúcese ao que xa existía: pór nota de acordo a parámetros non convidos aos establecementos, o que nas actuais condicións, beneficia ostensibelmente ao sector privatizado da educación. En materia técnico profesional, subordina os programas de estudo aos requirimentos do empresariado a cambio dunha eventual maior empregabilidade. O texto de goberno acolle a esixencia estudantil de desmunicipalizar a educación, pero nun sentido inverso e confuso. Os mozos buscan que o ensino público, dos municipios, volva ao Estado; pero o documento expresa a xeración dunha desmunicipalización parcial que quede en mans dunha opaca "institucionalidad baseada en organismos públicos".

O absurdo que está na base dos papelaxos, supón a creación dunha Superintendencia que "fiscalice o uso dos recursos e a non existencia de lucro nas universidades (privadas)". Pero se lucro significa "Ganancia, beneficio ou proveito que se consegue nun asunto ou negocio", e é a motivación primeira e última das institucións privadas, como podería "regular" contraditoriamente a natureza mesma que orixinou a educación privada, a cal xera utilidades até multimillonarias?

3. Finalmente, a resposta dos partidos da Concertación, que administraron o Estado durante 20 anos, di que "Pola nosa banda asumimos e somos autocríticos de que, nas políticas educativas implementadas, non logramos fortalecer de maneira eficaz o rol do Estado, a calidade da educación pública e o dereito á educación entendido como un ben público e dereito social". Logo de raxar vestiduras, a Concertación "a mesma componenda que creou as condicións para a presente crise- promete nun futuro posíbel goberno o que xamais fixo: "un sistema nacional e articulado (?) que estableza ao Ministerio de Educación como responsable final do seu funcionamento". O resto dos postulados non distan sustantivamente do proxecto piñerista. Con todo, para quen teñen memoria, o documento só é un conxunto de palabras pegadas. Que importa. A última enquisa Adimark de xullo deulle apenas un 20 % de aprobación cidadá aos partidos da Concertación.