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03/04/2014

Santiago Alba Rico: "Se não fazemos asinha uma proposta desde a esquerda, a direita acabará explorando o desencanto

Entrevista a Santiago Alba Rico tirada de encubierta (aqui) e traduzida por nós. O negrito é de nosso.



Santiago Alba Rico alegrou e incendiou as manhãs de muitos meninos nascidos ao calor da Transição com os guiões Los Electroduendes. Nestes programas "infantis" falava-se do capital, do desemprego e da exploração laboral a modo de conto. "Fábulas marxistas" chamaram-no. Hoje muitos destes meninos são os que estão na rua -além de no desemprego- gritando os eslóganes de "Não nos representam" ou lutando em Gamonal. Alba Rico, autor de livros como Capitalismo e nihilismo, Dejar de pensar ou Volver a pensar analisa nesta entrevista a situação atual, as vitórias de Burgos ou La Marea Blanca, a ideia de que ainda é possível mudar as coisas porque o ser humano não está tão "nihilizado" como nos querem fazer achar. Só pede que tenha um impulso já por parte dos movimentos de esquerda porque se não, todo esse desencanto cairá em mãos da direita, a mais reacionária, populista e inclusive agressiva.


Você escreveu os guiões de "Los electroduendes", "fábulas de marxismo satírico para meninos". Algo fica dessa aprendizagem nos movimentos que vimos nos últimos anos?

A maior parte dos jovens que participam nestes movimentos não nascera no 88, data em que se suspendeu a emissão de Los Electroduentes. Mas sim é verdadeiro que há uma geração um pouco maior, muito ativa, nascida em torno do ano 80, que tem reelaborado a lembrança confusa das suas manhãs ante a televisão e vincula o seu compromisso político a essas fábulas marxistas, protagonizadas pela bruxa Avaria, das que em realidade não entendiam nada. Mas sento-me orgulhoso, desde depois, quando alguém mais jovem que eu se me acerca para me agradecer esses guiões, que hoje sem dúvida não emitiria nenhuma cadeia de televisão. Éramos mais livres nos anos 80 e havia ademais televisão pública.

Estamos nas manifestações, em Gamonal, e escutamos frases sobre mudar o sistema, mas a onde podemos ir com uma classe política inmovilista?

Gamonal, entre outros, é precisamente o sintoma de um mal-estar social que não conta já com a classe política, de uma sociedade a cada vez mais afastada das suas instituições e que sabe que para conservar o que lhe estão a tirar precisa auto-se organizar. Estamos a assistir, se querer, ao crepúsculo da transição começada em 1975. Há que começar outra, uma nova transição, a partir da consciência de que o regime político atual -monarquia e bipartidismo- não se sustenta. A desconfiança para a política está plenamente justificada, mas é perigosa: costuma ser a antessala dos destropopulismos e os fascismos. Por isso há que repolitizar o mal-estar e isso só pode se fazer desde fora do atual sistema de partidos.

Estão a escutar os partidos as mudanças que pede a sociedade?

Não, não o estão a fazer. E, como te dizia, o perigo é que surjam desde a direita ou inclusive desde a extrema-direita novas forças que explodam o merecido descrédito da maior parte dos partidos. "Não nos representam" era o grito unânime da sociedade espanhola que acordou com o 15-M. Se essa rejeição não se converte em uma proposta política bem articulada e realmente de esquerdas, veremos crescer as alternativas reacionárias, defensivas e agressivas.

Por certo, você publicou Capitalismo e nihilismo em 2007, mudou algo desde então? A priori poder-se-ia dizer que sim: o mal-estar saiu às ruas.

Capitalismo e niilismo analisa o que eu chamo o "niilismo espontâneo da perceção"; isto é, o relacionamento que existe entre o consumo de mercadorias -"consumo" quer dizer etimologicamente "destruição pelo fogo"- e a incapacidade para representar-nos a dor dos outros. Isto é, trato de explicar-me os mecanismos materiais de produção de indiferença. Não é que sejamos maus ou mais maus que em outras épocas. É que no-lo comemos tudo: as hamburguesas e os gelados, mas também as paisagens, os corpos e a miséria dos corpos. Inclusive ou sobretudo as imagens da miséria dos corpos. O supermercado e a televisão formataram-nos de maneira que não possamos estabelecer conexões, nem racionais nem emocionais, entre nós e as dores que ponteam o planeta. Mas estamos realmente formatados? O sujeito está a tal ponto "niilizado" que é impossível toda a reação? O que demonstrou o 15M é que, baixo essa construção de consumo indiferente, como no duplo fundo de um sombreiro de prestidigitador, tinha uma pomba: outro sujeito, ancorado na indignação e a solidariedade, que não se deixa subornar por mercadorias baratas e que reclama democracia, justiça social, Estado de direito.

Alguém me disse uma vez: "não sejas niilista, porque é o fácil". E, no entanto, como desterrar esse niilismo quando crescemos e mamado este sistema capitalista selvagem liberal que se apoia no conceito mais brutal da liberdade?

São as dissonâncias as que permitem as resistências. Hoje as novas gerações estão a descobrir a dissonância entre esse "conceito brutal de liberdade" e a pequena liberdade de curar-se uma doença, educar-se livremente, cuidar aos seres queridos, ter uma casa, expressar-se em voz alta. A crise, e as respostas políticas à mesma, aprofundam essa dissonância, da que a tua pergunta é já uma prova. Digamos que a cada vez se ajustam pior as nossas necessidades e as nossas representações. Por dizer de uma maneira cursi e simples: os humanos pedem amor e o capitalismo dá-lhes pornografia (e de pagamento). O niilismo acaba chocando com a finitude e pequenura dos corpos, que são muito frágeis e estão muito precisados de cuidados.


Outros livros teus são Dejar de pensar e Volver a pensar. Recordam-me, pelos títulos, aos que apareceram faz um par de anos Indignai-vos, Reacciona etc. Que de bom trouxeram estas receitas? calaram? A indignação e a reação estão a levar-nos a algo?


Não trouxeram por enquanto as transformações estruturais que precisamos, mas sim um murmullo de lutas e pequenas vitórias: pensemos em Gamonal ou na Marea Blanca em Madrid. As lutas alimentam-se de grandes indignações e pequenas vitórias. As grandes indignações coletivas obrigam a pensar em comum; as pequenas vitórias ajudam a seguir juntos. Esse é o processo de organização que se está gestando.

Recentemente publicaste uma coluna titulada Podemos sim, mas queremos?. Por que se propõe precisamente esse "queremos" a respeito da mudança? Que falha?

Não tenho uma resposta definitiva, mas me dá a impressão de que, desde a esquerda, o que falhou foi o vínculo com as maiorias sociais. A esquerda institucional tem-se alienado o seu apoio enredando-se em umas instituições contaminadas pelo oportunismo e a corrupção; a extrema esquerda fazendo questão de discursos e modelos que as maiorias não podem nem entender nem desejar. Em frente a esta rutura do vínculo com a sociedade, os átomos da esquerda procuraram uma unidade impossível, à margem da gente, impossível precisamente porque não estava ancorada na realidade. Como o dizer? O 15M demonstra que uma boa parte da sociedade quer; o problema é que a esquerda organizada não quer o mesmo. Digamos que a esquerda não pode -se unir- porque não quer unir ao exterior, à gente que quer outro modelo, outras práticas, outro discurso.

É Podemos o que se esperava após o 15M?

Não sê que esperava o 15M, que é mais uma constelação de impulsos que uma vontade homogénea. O que sim acho é que Podemos trata de recolher esse impulso, essa voz inesperada surgida entre e contra o que eu chamo os dois bipartidismos: o bipartidismo dirigente (PP e PSOE) e o bipartidismo da esquerda (IU e esquerda extraparlamentaria). O que sim é verdadeiro é que o impulso 15M precisava uma expressão pública e política. Podemos é uma boa oportunidade. Uma proposta. Mas que vá ou não mais longe dependerá precisamente das pessoas e coletivos implicados nela.

Vemos que nem o PSOE nem IU conseguem aunar à esquerda, a cada vez mais fragmentada... por que é impossível nos pôr de acordo? Nisto está a ganhar também a batalha o capitalismo, o individualismo, esse niilismo do desencanto?

Eu deixaria a um lado ao PSOE, que faz parte do coração do sistema e que -inclusive se alberga ainda a algum esquerdista extraviado- faz séculos que não tem nada que ver com a esquerda. Quanto ao resto, disse-o faz um momento: quando se pedaleia no ar, acelerar não nos acerca ao nosso objetivo: singelamente rebentamos. Não podemos seguir pensando que podemos pôr-nos de acordo entre nós quando se nos está dizendo desde fora: "não nos representam". A iniciativa tem que vir do exterior. Esse exterior, é verdade, é muito complexo e aí esse "niilismo" segue tendo vantagem; por isso mesmo, se não fazemos em seguida uma proposta, a direita, melhor organizada e com mais médios, acabará explodindo o "desencanto".


Alguém disse em algum momento também: "se o que não se entende é que ainda nada tenha estorado com os seis milhões de parados que há?. Vem esta parálise do torturante mensagem: "nada, nem uma manifestação nem nada, fará com que as coisas mudem?"

Sim, essa é a estratégia do governo: indiferença e criminalização, de maneira que os cidadãos acabem assumindo a impotência com a mesma naturalidade com que a aceitam ter uma perna ou uma parede no salão. Por isso são tão importantes as pequenas vitórias. A greve de lixos em Madrid, as lutas na previdência, a PAH e Gamonal demonstram, ao invés, que -aparte a dignidade- as mobilizações rendem fruto. Essas pequenas vitórias nossas são em realidade grandes derrotas do governo.

A cultura, a cada vez mais comercial, e se não autogestionada. Que opina de todos estes projetos "low cost", sacados com quatro euros? Algo ilusionante ou uma precarização da cultura (ou gestão cultural)?

As duas coisas. Um efeito da crise é que ficaram fora do mercado centos de milhares de jornalistas, escritores, músicos e artistas comprometidos e com vontades de fazer coisas. Esses projetos "low cost" permitem mobilizar e sacar à luz os seus talentos. O problema é que, em general, são costeados por outros jornalistas, escritores, músicos e artistas comprometidos que estão na mesma situação. Os trabalhadores culturais devem compreender que a sua situação é muito parecida à dos outros setores e que a solução é política e coletiva. A dificuldade, neste caso, reside na própria particularidade do trabalho cultural: com poucos meios obtêm-se grandes prazeres (pintar, escrever, compor, ao invés que pôr tijolos ou servir emburguesas, são atividades autosatisfactorias). Não há nada mais autenticamente alienante, mais alienantemente verdadeiro, que a autosatisfacción.

Confia em que de toda esta crise, deste mal-estar existente, sairá algo diferente, uma sociedade nova mais participativa? Confia em movimentos como a PAH?

Sim, confio muito em movimentos como a PAH, que introduzindo pequenos efeitos concretos a nível da solidariedade imediata educam politicamente de maneira bem mais efetiva que os grandes discursos abstratos (que não há que desdenhar). E que ademais mobilizam em torno de consignas de sentido comum nas que todos, salvo os bancos, se podem reconhecer.

Vive na Tunísia desde faz anos, como observa o que está a acontecer em Espanha desde ali? Para onde acha que vamos?

Com muita preocupação. Tunísia é um país que sai de uma ditadura, com limites muito parecidos aos de Espanha, e Espanha um país que retrocede para a ditadura. Espanha e Tunísia parecem-se bem mais do que se reconhecem. Seria bom que Tunísia não se obsedasse com seguir os passos de uma Europa que se desmorona e que a Europa do sul olhasse para a Tunísia e compreendesse de uma vez que a saída à crise -e a recuperação da democracia- tem uma dimensão mediterrânea inexcusável.

10/03/2014

Boaventura: a surpresa que vem da Índia

Boaventura de Sousa Santos. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui).

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Novo partido, que enfrenta sistema político e poder econômico, avança, reage a chantagens, mobiliza quem estava paralisado. Experiência pode ser reproduzida?

Escrevo esta crónica da Índia, onde tenho estado nas últimas três semanas. Na década passada, a Índia foi avassalada pelo mesmo modelo de desenvolvimento neoliberal que a direita europeia e seus agentes locais estão a impor no Sul da Europa. As situações são dificilmente comparáveis mas têm três características comuns: concentração da riqueza, degradação das políticas sociais (saúde e educação), corrupção política sistêmica, alastrando-se para todos os principais partidos envolvidos na governação e sectores da administração pública. A frustração dos cidadãos perante a venalidade da classe política levou um velho ativista neo-gandhiano, Anna Hazare, a organizar em 2011 um movimento de luta contra a corrupção que ganhou grande popularidade e transformou as greves de fome do seu líder num acontecimento nacional e até internacional. Em 2013, um vasto grupo de adeptos decidiu transformar o movimento em partido, a que chamaram o partido do homem comum (Aam Aadmi Party, AAP).

O partido surgiu sem grandes bases programáticas, para além da luta contra a corrupção, mas com uma forte mensagem ética: reduzir os salários dos políticos eleitos, proibir a renovação de mandatos, assentar o trabalho militante em voluntários e não em funcionários, lutar contra as parcerias público-privadas em nome do interesse público, erradicar a praga dos consultores, através dos quais interesses privados se transformam em públicos, promover a democracia participativa como modo de neutralizar a corrupção dos dirigentes políticos. Dada esta base ética, o partido recusou-se a ser classificado como de esquerda ou de direita, dando voz ao sentimento popular de que, uma vez no poder, os dois grandes partidos de governo pouco se distinguem.

Em dezembro passado, o partido concorreu às eleições municipais de Nova Déli e, para surpresa dos próprios militantes, foi o segundo partido mais votado e o único capaz de formar governo. O governo foi uma lufada de ar fresco, e em fevereiro o AAP era o centro de todas as conversas. Consistente com o seu magro programa, o partido propôs duas leis, uma contra a corrupção e outra instituindo o orçamento participativo no governo da cidade, e exigiu a redução do preço da energia elétrica, considerado um caso paradigmático de corrupção política. Como era um governo minoritário, dependia dos aliados na assembleia municipal. Quando o apoio lhe foi negado, demitiu-se em vez de fazer cedências. Esteve 49 dias no poder e a sua coerência fez com que visse aumentar o número de adeptos depois da demissão.

Perplexo, perguntei a um colega e amigo, que durante 42 anos fora militante do Partido Comunista da Índia e durante 20 anos membro do comitê central, o que o levara a aderir ao AAP: “fomos vítimas do veneno com que liquidamos os nossos melhores, favorecendo uma burocracia cujo objetivo era manter-se no poder a qualquer preço. É tempo de começar de novo e como militante-voluntário de base”. Outro colega e amigo, socialista e votante fiel do Partido do Congresso (o centro-esquerda indiano): “aderi quando vi o AAP enfrentar Mukesh Ambani, o homem mais rico da Ásia, cujo poder de fixar as tarifas de eletricidade é tão grande quanto o de nomear e demitir ministros, incluindo os do meu partido”.

Suspeito que tarde ou cedo vai surgir em Portugal o partido do homem e da mulher comuns. Já tem nome e muitos adeptos. Chamar-se-á Partido do 25 de Abril. Quarenta anos depois da Revolução, será a resposta política aos que, aproveitando um momento de debilidade, destruíram em três anos o que construímos durante quarenta anos. O 25 de Abril é o nome do português e da portuguesa comum cuja dignidade não está à venda no mercado dos mercenários, onde todos os dias se vende o país. Será um partido de tipo novo que estará presente na política portuguesa, quer se constitua ou não. Se se constituir, terá o voto de muitas e muitos; se não se constituir, terá igualmente o voto de muitas e muitos, na forma de voto em branco. Por uma ou por outra via, o Partido do 25 de Abril não esperará pelo próximo livro de Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel da Economia, onde ele explicará como o FMI destruiu o Sul da Europa com a conivência da UE.

12/02/2014

Dossier Ucrânia

 
Muito se tem falado na mídia nos últimos tempos sobre a Ucrânia. Se bem em Grécia ou em Bósnia existem protesto tanto ou mais importantes (aqui) a mídia centra-se na Ucrânia apresentando um estado ao borde da guerra civil como uma revolta cidadã pro-UE, a Eurolândia da austeridade. Ucrânia é uma dobradiça entre o imperialismo russo e o europeu (aqui) e desde Revolta Irmandinha fomos publicando diversos artigos para podermos entender com um mínimo de rigor que se passa realmente no estado ucraniano. Para além dos artigos que já incorporamos nesta apresentação do dossier recomendamos igualmente os seguintes:





Ucrânia: os neonazistas a um passo do poder

Oleg Yasinsky, tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel. O negrito é de nosso.

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Uma vez, já faz tempo, trabalhando com turismo, tínhamos que organizar um voo para uma ilha do Pacífico. Os pilotos explicaram que para obter permissão de decolagem, era preciso primeiro ter a confirmação da aterrizagem bem sucedida do avião que chegou antes, já que no caso de um acidente na pista, um segundo avião não teria onde aterrizar, e uma vez passado o ponto de não-retorno, definido pela distância e pela reserva de combustível, o avião a caminho simplesmente ficaria sem opções. Lembro-me o quanto me impressionou esse conceito de “ponto de não-retorno”, que escutei então pela primeira vez. Também me perguntei se o termo seria aplicável à historia das sociedades. Depois dos últimos acontecimentos no meu país, a Ucrânia, lembrei-me disso e voltei às mesmas perguntas.

Depois da trágica e fulminante queda da União Soviética, a Ucrânia, sua segunda república depois da Rússia em população e nível de desenvolvimento, entrou no turbulento período de sua história independente. Apesar de uma infinidade de problemas econômicos e políticos, à diferença dos seus vizinhos, a Ucrânia permaneceu neste quarto de século sob uma invejável paz social, e meus compatriotas reiteraram-me várias vezes o mito narcisista e sedutor do “caráter nacional pacífico” dos ucranianos, tão diferente do arco que vai dos bósnios aos chechenos, de gente capaz de tanta barbárie.

A partir de meados de janeiro deste ano, ninguém mais vai acreditar nesse conto. Derramou-se sangue. Desde a libertação de Kiev da ocupação nazista em 1944, a capital ucraniana não via cenas desse tipo. Os principais meios noticiosos do mundo mostraram Kiev em chamas, milhares de manifestantes, policiais, armas, bandeiras e outras figuras midiáticas, como sempre, praticamente sem qualquer contexto, entorpecendo o espectador com a sua usual anedota da luta do bem contra o mal ou da democracia contra o totalitarismo.

Sem dúvida estamos diante de um fenômeno que ainda não conseguimos entender por completo.

No território ucraniano se enfrentam hoje dois grandes predadores: o capital ocidental e o capital russo, diante dos quais os oligarcas ucranianos espreitam como chacais, à espera do momento certo para apostar no mais forte. Seguramente, no futuro vão se escrever vários livros sobre o trabalho dos serviços secretos estrangeiros na Ucrânia deste princípio de século. Desse tema já falam, e falarão ainda muito, mudando o foco de acordo com as colorações ideológicas.

Abordaremos, no entanto, outro tema, de momento menos midiático: as causas mais profundas do descontentamento popular na Ucrânia. Alguma coisa aconteceu nesse país, ainda ontem tão pacífico e tolerante, e que agora busca desesperadamente mudanças urgentes, sem distinguir os meios e as forças que hoje prometem assegurá-las.

Os protestos, cada vez mais violentos, contra um governo de direita, cada vez mais violento, são encabeçadas por grupos de ultra-direita também cada vez mais violentos. Lamentavelmente, essa ultra-direita tem agora cada vez mais aceitação social. Isso acontece porque a ultra-direita age contra um governo corrupto, que praticamente perdeu sua legitimidade frente à maioria dos ucranianos, enquanto uma outra direita, agora uma terceira, a da oposição democrática, a dos contos europeus e prantos por Yulia Timoshenkoi, não teve mérito e capacidade para encabeçar os protestos populares. Assim, melhorando os cálculos, essa guerra interna ucraniana já não seria sequer entre duas, senão entre três direitas.

Um jornalista ucraniano certa feita comparou o papel da ultra-direita nacionalista em sua luta contra o governo com o papel dos fundamentalistas muçulmanos na “Primavera Árabe”. Uma vez considerada a enorme diferença cultural e histórica entre os dois casos, a comparação parece interessante e digna de um estudo mais aprofundado.

Criticando ou defendendo o partido fascista ucraniano “Svoboda”, a mídia local usualmente ignora o fato de que, há não mais que quatro anos, esse partido não passava de um grupelho de fanáticos, cujo apoio eleitoral se expressou em tão apenas 0,12% dos votos. Ao ganhar a eleição presidencial, o atual mandatário do país, Vítor Yanukovich, pensando na sua futura reeleição, resolveu dar luz verde ao Svoboda e à sua propaganda porque, conforme seu cálculo, só poderia ser reeleito se seu futuro rival fosse um sinistro candidato fascista. Nas eleições parlamentares de 2012, o Svoboda obteve 10,44% dos votos e até o momento duplicou ou até mesmo triplicou o número de partidários.

O nível de aprovação do presidente Yanukovich, por sua vez, está em torno dos 12,6%. Se as eleições fossem hoje, com segurança Yanukovich perderia para um candidato neonazista. Entre outras coisas, essa seria uma prova a mais da destruição da memória histórica do povo ucraniano. Lembremos que na Segunda Guerra Mundial, que para nosso povo foi a Grande Guerra Pátria, morreu um de cada seis habitantes do país. Minhas congratulações às novas mídias: livres, divertidas, democráticas e anticomunistas. Uma frase típica, que ressoa nas ruas de Kiev, vaticina: “Não são fascistas, são apenas nacionalistas”. Outras parecem mais reflexivas: “Melhor os fascistas que os bandidos”. Uma das características dessa pós-modernidade neoliberal é o rápido retrocesso mental pelo qual se confunde a pátria com as bandeirinhas.

Para imaginar o pano de fundo social do drama ucraniano, tomemos em conta que os preços ao consumidor no país são similares aos da Europa Central e que a aposentadoria mínima é equivalente a 100 dólares mensais, com a média chegando a 170 dólares, que é paga com muito atraso. As aposentadorias que se pagam sem atraso são as dos ex-deputados, que, por sua vez, podem alcançar os 15.300 dólares mensais. A família do presidente Yanukovich, tal como a de Somoza na Nicarágua, controla grande parte da economia do país. Seu filho Aleksandr é a quinta pessoa mais rica da Ucrânia. Ele começou seus negócios há poucos anos, arrendando ao governo os helicópteros recém privatizados.

Na Ucrânia, fala-se bastante do seu atual presidente, que quando jovem foi um assaltante e esteve preso por roubos acompanhados de violência. Na realidade o jovem Vítor Yanukovich, criado pela avó, vivia nos subúrbios de um povoado mineiro, e aos 17 anos foi condenado a um ano e meio de prisão por pertencer a uma gangue que roubava gorros de pele dos transeuntes. Comparadas às fábricas, terras, palácios e somas milionárias do Estado roubados por tantos políticos ucranianos, as ternas lembranças de adolescência de seu presidente são uma piada que não mereceria maior atenção, ainda que a mídia assegure o contrário.

A propósito do curioso “sonho europeu” dos ucranianos, há seis meses estive na Ucrânia Ocidental, o berço do atual nacionalismo, e visitei cidadezinhas fantasmas: todos os seus habitantes se foram, para trabalhar na Europa Ocidental ou na Rússia. Pedreiros, motoristas, empregadas domésticas e prostitutas ucranianas continuam invadindo os mercados de trabalho formal e informal da Europa e do mundo. Enquanto muitos latino-americanos voltam para seus países de origem, saindo da Europa, os ucranianos não param de chegar. Em comparação com a realidade do país, a Europa para eles, mesmo em crise, continua sendo quase um paraíso. “Não tem comparação!” — dizem. Uma mulher de um povoado perto de Lvov, que tem seus quatro filhos e dois netos espalhados entre a Polônia e a Itália, me explicava: se pudéssemos ganhar aqui, trabalhando em qualquer coisa que fosse, pelo menos (o equivalente a) uns 150 dólares por mês, ninguém iria embora. Para sair do país rumo ao Ocidente, os ucranianos necessitam vistos. Os vistos para o paraíso europeu não são dados a todos. Para muitos ucranianos, essa é a verdadeira razão do misterioso desejo de que o país seja membro da União Europeia.

E o que estaria acontecendo com a esquerda ucraniana? Quase nada, porque quase não existe. O Partido Comunista da Ucrânia, que até a semana passada foi aliado do governo de direita de Yanukovich, agora, seguindo seu instinto oportunista, “se indignou com a repressão” e “rompeu com o regime”. Muitas vezes, acho que a última esquerda verdadeira do país foi, na verdade, aniquilada nos campos de concentração de Stálin. Os grupelhos da esquerda ucraniana, mais um punhado de indivíduos que organizações, estão completamente ultrapassados pela magnitude dos acontecimentos atuais. Frente aos fatos, encontram-se divididos: uns optam por “estar com o povo” e “primeiro acabar com o regime e depois ver o que se pode fazer”; outros dizem que “esta guerra não é nossa” e que a derrota do atual governo conduzirá o país a uma ditadura muito pior. Ambas as posturas são honestas e reconheço que me sinto esquizofrenicamente dividido, dando razão às duas e olhando comodamente de longe.

À microscópica esquerda ucraniana, que critica o povo por seguir as direitas, eu gostaria de recomendar que relesse o poema “Solução”, de um grande alemão e grande comunista chamado Bertolt Brecht: “Depois da revolta de 17 de junho / o secretário da União de Escritores fez distribuir panfletos na avenida Stálin / declarando que o povo havia rompido com a confiança do governo / e que só poderia recuperá-la redobrando o trabalho. / Não seria mais simples para o governo, nesse caso, / dissolver o povo e escolher outro?”

Muitos na Ucrânia falam de uma “ditadura fascista” de Yanukovich e quando tentam explicar a situação a um latino-americano, por exemplo, definem o presidente como um “Pinochet ucraniano”. Sem que eu sinta qualquer coisa de positivo com relação a essa figura, não hesito em afirmar que uma verdadeira ditadura é algo bem diferente, e significa níveis de repressão e bestialidade absolutamente diferentes, que tomara que os cidadãos da Ucrânia jamais cheguem a conhecer.

Meu amigo Andrei Manchuk, uma pessoa muito honesta, e além disso um dos poucos jornalistas ucranianos de esquerda, afirma com toda segurança que Vítor Yanukovich, sem dúvida, é um ladrão e delinquente, mas idiota não é — e jamais teria ordenado tortura e assassinato de opositores, porque realmente não lhe convém. Andrei disse que Yanukovich é um adversário débil e indeciso, e que seu governo não caiu há um mês apenas porque a “oposição” só busca o poder, mas não quer arcar com responsabilidade alguma em um país saqueado e em colapso. Os únicos que não têm medo são os neonazistas.

Vários analistas ucranianos afirmam que, pela mesma razão da debilidade do presidente, aliada a um repúdio cidadão generalizado a ele, Yanukovich deixou de representar uma solução e se converteu em um problema. Tanto Putin como vários oligarcas ucranianos (e outros atores) já teriam optado por desfazer-se dele e substituí-lo por alguém mais hábil e carismático.

Exponho a seguir um resumo de dois olhares ucranianos, que refletem bastante bem duas posturas internas, predominantes entre quem não se identifica com nenhuma das três ou mais direitas nacionais. Não se trata de una tradução literal, mas de uma síntese.

(texto 2 ucrânia)

Sem estar de acordo em tudo com essas opiniões, sinto que refletem bastante bem o sentimento geral das pessoas que não compartilham as paixões nacionalistas das novas “vanguardas” ucranianas.

Enquanto isso, em Kiev continuam circulando os rumores de todo tipo. Falam de centenas de sequestrados por órgãos de segurança, contam que o governo soltou todos os delinquentes perigosos. Das províncias chegam a Kiev, fora de horário, estranhos trens com jovens musculosos, contratados a 50 dólares por dia, para “ajudar a manter a ordem”. Desconhecidos matam um policial à paisana durante a noite. O ódio cresce e se expande. Grupos de manifestantes ocupam edifícios do governo regional e nacional. O movimento rapidamente se expande em direção ao sul e ao leste do país, territórios tradicionalmente pró-russos e politicamente mais passivos. Ao mesmo tempo, um ex-ministro da Defesa chama os cidadãos a se defender com as armas diante da violência policial. Os manifestantes anunciam a criação da “Guarda Civil”. Circulam listas oficiais com centenas de presos políticos. Uma recente investigação jornalística desmente como sendo uma falsificação o vídeo dos policiais que desnudam um manifestante; no entanto não sabemos se esse desmentido é correto ou não. Não obstante, outros mortos e torturados com certeza são reais. A maioria dos autores desses crimes são anônimos e temos muitas razões para desconfiar das “versões oficiais” de ambos os lados. Temos também, no entanto, todos os fundamentos para acreditar que os grupos econômicos que estão por trás da atual crise podem estar incentivando a divisão do país e o choque entre seus cidadãos, para, em seguida, substituir a besta Yanukovich por algum outro, mais sutil e carismático, mas talvez muito mais parecido a um ditador fascista que o atual presidente.

Concluindo, vejo entre os sinais mais dolorosos do drama ucraniano a expansão de uma epidemia galopante de cegueira e surdez completas, onde só se abre espaço à intolerância, matéria-prima para uma guerra civil.

O nome do meu país, Ucrânia, provem de duas palavras do eslavo antigo: “u kraia”, que significam “na beira”; coisa que refletia a localização geográfica de suas terras, no limite sudoeste dos territórios eslavos. Agora, o nome Ucrânia parece voltar a refletir sua localização, na historia dos tempos que correm.

i Ex-primeira ministra, proeminente figura da oligarquia do gás e petróleo e antiga líder política da chamada “Revolução Laranja”, de 2004; opositora ao atual presidente; hoje presa por conta de um polêmico processo judicial. (Nota do tradutor).


Quando a “Revolução” muda de rumos

Artigo de Aleksandr Karpets, jornalista ucraniano, tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel. O negrito é de nosso.

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Fora uma reação natural às ações autoritárias do governo, esta revolta insana foi consequência da incapacidade e da impossibilidade de resolver, de forma racional, os problemas catastróficos acumulados na Ucrânia após a desarticulação da União Soviética. Problemas que se agravaram com a chegada ao poder de Yanukovich. Por um lado, a revolta demonstrou a debilidade do seu governo e, por outro, que os líderes e as massas não têm nenhuma compreensão racional do que acontecerá depois, do mesmo modo como não sabem a que realmente aspiram, no caso de um eventual triunfo.

O problema principal está nas contradições que se acumularam no país durante quase um quarto de século: o saque dos bens nacionais por parte dos novos ricos, o aparecimento e o forte aumento da injustiça social, uma enorme desigualdade econômica e política e, como consequência de tudo isso, uma incrível decomposição moral de toda a sociedade, o que provocou a corrupção generalizada em todos os níveis.

Esse problema não tem solução nem em um protesto de rua, nem dentro dos procedimentos legais do Estado, incluindo todo tipo de negociação ou “mesas”, que servirão não mais que como válvulas de escape.

Em primeiro lugar, a solução do problema é impossível porque o atual Estado ucraniano é uma organização política da oligarquia financeira e econômica e da burocracia que representa seus interesses. O objetivo dessa organização é a exploração de outros grupos sociais, ora manipulando-os, ora reprimindo-os, para manter-se no poder. A mudança dos personagens no governo, o cumprimento formal de alguns procedimentos democráticos e inclusive a mudança de várias leis dentro de um Estado desse tipo não significam muito, já que não mudam a essência do modelo.

Em segundo lugar, a mudança fica impossível porque, com a crise econômica global, a situação degradou-se consideravelmente. Um relativo bem-estar e um boom consumista às vésperas da crise, graças ao sistema de crédito, geraram a ilusão da chegada ao “paraíso capitalista”. A crise destruiu essa ilusão, levando o país de volta à sua realidade, submergindo-o na pobreza e no desemprego. Da mesma maneira que no resto da resto de Europa, isso agudizou as contradições econômicas e sociais. A degradação rápida das condições econômicas de uma imensa maioria dos ucranianos foi acompanhada de um igualmente rápido enriquecimento dos clãs oligárquicos e de certas figuras.

Além disso tudo, chegou ao poder o grupo mais reacionário de toda a história da Ucrânia independente, grupo que instalou uma ditadura do capital de origem criminosa, e que se apóia na força da polícia e de delinquentes comuns, à semelhança de alguns regimes latino-americanos do século XX. Se o “fundador” do sistema oligárquico criminoso, o primeiro presidente da Ucrânia independente, Leonid Kuchma, compreendia e respeitava a existência de certos limites que não deviam ser ultrapassados — o que demonstrou os acontecimentos não violentos da “revolução laranja” de 2004 —, os representantes do clã de Yanukovich simplesmente não veem esses limites. Kuchma pôde aposentar-se politicamente, e agora é conhecido como mecenas, vendendo a imagem de um “avozinho generoso” que ajuda as crianças. As figuras do atual governo não podem deixar o poder, porque entendem que, se o abandonam, serão alcançados pelo castigo por aquilo que fizeram.

A construção de um regime fascistóide começou imediatamente depois da chegada de Yanukovich ao poder. Essas são algumas das etapas: a mal chamada reforma judicial, que permitiu ao governo tomar o controle total da justiça do país; um golpe constitucional no outono de 2010, que permitiu ao governo, e a Yanukovich pessoalmente, usurpar o poder, arregimentando prerrogativas excepcionais para as quais não fora eleito; a imposição de um novo Código Fiscal, contendo um ataque contra a pequena e média empresa, acompanhada da repressão policial dos seus tímidos protestos; a imposição de um Código de Trabalho abusivo e de um Código de Moradia expropriador, com o objetivo de suprimir ao máximo os direitos sociais e trabalhistas dos cidadãos; e, logo em seguida, uma série de expropriações arbitrárias de dinheiro e de imóveis em favor do capital oligárquico, que, como dissemos, é a base econômica e social do governo. A isso tudo acompanhou-se um permanente enriquecimento dos clãs oligárquicos, incluindo o mais próximo ao governo, chamado “A Família”, junto com a concentração dos bens públicos nas mãos de um pequeno grupo de novos ricos.

Antes de 19 de janeiro deste ano, os protestos se limitavam a declarações exaltadas, promessas, ameaças, festa e cantos na Praça da Independência de Kiev, que hoje é midiaticamente conhecida como Euro-Maidan (“maidan” é praça em ucraniano). Os “líderes” estavam preocupados com seus futuros ganhos eleitorais. Dava a impressão de que eles tinham medo de tomar decisões e depois ter que arcar com elas. A massa repetia o refrão delirante de uma “revolução apolítica”. A assembleia popular de 19 de janeiro, a poucas horas dos enfrentamentos, acabou com um escândalo: diante da verborreia dos “líderes”, o povo vaiou e exigiu a apresentação de um plano concreto de ações e a nomeação de um dirigente capaz de encabeçar o processo e tomar as responsabilidades.

Falou-se muito de formas não-violentas de protesto, das quais a mais forte deveria ser a greve geral. Ela foi prometida em reiteradas oportunidades, mas nunca se concretizou, por conta da mesma incapacidade organizativa e ideológica dos “líderes” “pró-europeus”.

Um dos traços mais repugnantes do atual governo é o fato que as forças da ordem pública começaram a incorporar maciçamente delinquentes e o lumpesinato na luta contra os ativistas. Os delinquentes, contratados pelo governo, realizaram vários ataques contra pessoas, bens públicos e privados, para que, em seguida, os manifestantes fossem acusados de tais fatos. A delinquência urbana aumentou enormemente. Os próprios manifestantes tiveram que organizar “guardas populares” para manter a ordem no centro da cidade.

A apoteose da reação ao governo seguiu-se, sem dúvida, à aprovação, em 16 de janeiro, da lei que proibia todo tipo de protesto cidadão. Esse foi um ato absurdo e ilegal, aprovado em poucos minutos pela unanimidade dos obedientes deputados. A mensagem parecia dizer o seguinte: somos uma elite, podemos decidir e fazer o que quisermos e o seu dever é obedecer ou ir presos. Essa atitude demonstra uma total incapacidade do poder ucraniano em ver a realidade, superestimando sua capacidade de controlar o país.

Nesses dias, muitos falam de uma aplicação na Ucrânia do sistema russo-bielo-russo, onde qualquer protesto se reprime já no seu surgimento. Mas isso não é possível. Na Rússia, o governo conta com uma potente base econômica, principalmente pela exportação de matéria-prima. A taxa de aprovação de Putin, depois de quase 15 anos de governos consecutivos com estabilidade, supera os 50%. Na Bielo-Rússia, apesar dos problemas, as empresas industriais e agrícolas funcionam, há praticamente pleno emprego, a saúde e a educação continuam gratuitas e estatais, os programas sociais, culturais e esportivos funcionam bastante bem, e Lukashenko tem o apoio da grande maioria da população. O atual governo da Ucrânia não tem forças nem meios comparáveis aos russos ou bielo-russos. Além disso, Yanukovich e seu grupo não têm o mesmo nível de aprovação cidadã que gozam Putin e Lukashenko.

Durante muito tempo, a Ucrânia, apesar da complexa situação econômica e política que se seguiu à desarticulação da URSS, se manteve em paz cidadã, à diferença de quase todos os vizinhos da região. Yanukovich e seu governo já entraram para a história como os que conseguiram quebrar essa tradição, levando o país à beira de uma guerra civil.

Causa surpresa e admiração o fato de que, em uma sociedade que há pouco parecia definitivamente sumida na corrupção, na indiferença e no individualismo, apareçam hoje tantas pessoas dispostas a lutar por uma ideia, chegando às últimas consequências.

Os protagonistas dos combates de rua são nacionalistas radicais, mas justamente eles parecem refletir agora os ânimos das massas indignadas. Durante os choques de 1º de dezembro de 2013, chamavam os ultranacionalistas violentos de “provocadores”. Agora, ninguém mais se atreve a criticá-los. O motivo dessa mudança é evidente: o poder cruzou um limite, e isso radicalizou os cidadãos. Um claro exemplo são as imagens de 19 de janeiro, durante os primeiros combates no centro: um senhor de idade, quase um velhinho, de aspecto claramente “não radical”, parecido com um operário, levantando um ferro de construção gritava: “—Basta! Vão à merda! Basta de aguentar essa corja! Agora é guerra!”

10/02/2014

Bósnia em revolta contra a miséria e o desemprego

Tirado do Esquerda.net (aqui).

Nos últimos dias explodiu uma revolta por toda a Bósnia-Herzegovina, com múltiplas ações de protesto, choques violentos entre manifestantes e polícia e vários edifícios governamentais em chamas depois de terem sido assaltados. Os protestos começaram na cidade de Tuzla, com uma manifestação contra o desemprego e o encerramento de empresas outrora estatais e entretanto privatizadas. Na origem dos protestos estão a miséria e o desemprego, que ultrapassa os 40%.
Protesto em Tuzla
 
Tuzla, manifestação contra o desemprego

Segundo o site “Le Courrier des Balkans”, a uma convocatória no facebook, “50.000 pessoas nas ruas por um futuro melhor”, milhares de pessoas manifestaram-se na passada quarta-feira 5 de fevereiro em Tuzla. Na quinta-feira as manifestações estenderam-se a outras cidades da Bósnia, nomeadamente Sarajevo, Zenica, Bihac e Prijedor e na sexta-feira os protestos ampliaram-se para outra cidades, incluindo da República Sérvia da Bósnia, aumentando os confrontos com a polícia.

Outro grupo do facebook (UDAR) também convocou as manifestações, nomeadamente em Tuzla, onde a organização sindical de quatro empresas antes públicas, depois privatizadas e agora encerradas (Konjuh, Polihem, Dita e Resod-Guming) teve um papel chave na mobilização e no protesto.

Em Tuzla, os manifestantes concentraram-se junto ao edifício de governo do cantão, exigindo medidas contra o desemprego e o encerramento das quatro empresas. Face à recusa do primeiro-ministro do cantão de se encontrar com os manifestantes, estes começaram a atirar pedras e ovos contra o edifício e tentaram forçar a barreira policial. Em comunicado oficial, o governo local disse que não podia fazer nada, porque as empresas que encerraram são privadas. Os confrontos entre manifestantes e polícia prolongaram-se na quarta-feira por mais de quatro horas nas ruas da cidade.

Tuzla desenvolveu-se como um centro industrial e cultural importante durante a época de Tito. Entre 2000 e 2010, as antigas empresas públicas que empregavam a maioria da população foram privatizadas pelas autoridades locais, sob controlo da agência cantonal para as privatizações.

Segundo o “Courrier des Balkans”, a empresa Dita de detergentes empregava 750 pessoas e foi privatizada em 2007, comprometendo-se o novo proprietário da empresa a manter os postos de trabalho durante três anos e a produção durante cinco. Porém, a empresa deixou de fazer descontos para a segurança social. As pessoas que trabalhavam na Dita ficaram sem emprego, sem direitos sociais e impossibilitados de pedir a reforma por não terem os descontos suficientes. Em 2010, um inquérito da polícia provou os atos criminosos do novo proprietário, mas o processo ficou bloqueado na procuradoria de Tuzla. Os trabalhadores lutam há anos pelos seus direitos, no entanto o primeiro ministro do cantão diz que o assunto não lhe diz respeito, porque se trata de uma empresa privada. A situação é semelhante nas outras três empresas.

O fundador do grupo do Facebook UDAR e um dos convocadores da manifestação em Tuzla, Aldin Širanović, foi preso na quinta-feira pela polícia e mais tarde libertado, tendo denunciado que foi espancado pela polícia. O presidente do sindicato da empresa Konjuh de Tuzla, Mevludin Trakić, foi preso no protesto de quarta-feira e declarou após a sua libertação: “Não viemos aqui para vandalizar. Há quatro anos que pedimos o reconhecimento dos nossos direitos mas, acreditem-me, ontem fomos surpreendidos quando fomos algemados e presos pelas forças especiais. Fomos libertados às 21.30h e multados em 300 marcos (150 euros), que certamente não poderemos pagar com os miseráveis 40 marcos (20 euros) por mês que temos para viver. Nos últimos dias, eu vi jovens de 15 anos serem espancados pela polícia especial. A polícia ataca pessoas indefesas, mas se for preciso, nós podemos armar-nos. Repito, não viemos aqui para isso, mas se nos obrigarem fá-lo-emos”.

Protestos na Federação da Bósnia e na República Sérvia da Bósnia
Protesto em Bihac

Depois da guerra dos Balcãs nos anos 90, a Bósnia-Herzegovina tornou-se um Estado composto por duas entidades: a Federação da Bósnia e Herzegovina, onde predominam bósnios e croatas, e a República Srpska, sérvia. A presidência do Estado é rotativa, por períodos de 8 meses, entre um bósnio, um croata e um sérvio, escolhidos por mandatos de 4 anos.

Nesta sexta-feira, 7 de fevereiro, as manifestações ultrapassaram as divisões étnicas e realizaram-se não só na área da federação, mas também na República Sérvia, verificando-se ações de protesto em Sarajevo (a capital), Tuzla, Zenica, Kakanj, Mostar, Prijedor e Bihac, mas também Banja Luka, Travnik, Donji Vakuf, Jajce, Kljuc, Cazin, Visoko, Zepce e Zavidovici.

No decurso destes protestos demitiram-se os governos cantonais de Tuzla e Zenica. Na cidade de Mostar os manifestantes largaram fogo às sedes dos partidos nacionalistas HDZ e SDA.

O povo protesta “pela desgraça, miséria e injustiça que os oprime com persistência", diz presidente da Bósnia-Herzegovina

Sarajevo, junto ao edifício da presidência

Nos confrontos nas várias cidades da Bósnia ficaram feridas muitas dezenas de pessoas. Em Sarajevo terão ficado feridas mais de 100 pessoas, em Zenica 50 e em Tuzla pelo menos 11.

Edifícios governamentais arderam em Tuzla e em Sarajevo a presidência e o edifício do governo ficaram em chamas.

O presidente da Bósnia-Herzegovina em exercício, o croata Zeljko Komsic, declarou: "É tudo por culpa nossa. Não sei se o poder estatal poderá funcionar, mas deveria fazê-lo. O poder deve funcionar sempre, este ou outro. Porque não vem nada de bom da anarquia".

"O povo não começou a protestar por odiar alguém ou pela orientação política, ou pelo nome de alguém, mas sim pela desgraça, miséria e injustiça que os oprime com persistência", acrescentou Komsic em declarações a uma televisão local. O presidente considerou também que "caso se tivesse dialogado com as pessoas no primeiro dia não existiriam as imagens que há agora por toda a Bósnia-Herzegovina".

Por sua vez, o ministro do Interior da Bósnia, Fahrudin Radoncic, considerou os protestos como "um tsunami dos cidadãos roubados" contra a corrupção e criticou os governos cantonais de "falta de sensibilidade" face aos anseios das populações.

Radoncic disse ainda: "A privatização saqueadora foi horrível. Ainda pior, temos um sistema policial em que, de facto, os primeiros-ministros locais ordenam que se maltrate o seu povo, algo inaceitável".

Protesto em Mostar

A Bósnia-Herzegovina tem 3,8 milhões de habitantes. A taxa de desemprego ultrapassa os 44% e 20% da população vive abaixo do limiar de pobreza. O salário médio mensal ronda os 420 euros.

O “Courrier des Balkans” salienta: “Enquanto os planos de austeridade, as privatizações e os ataques ao direito do trabalho se sucedem em todos os países dos Balcãs, a agitação social amplifica-se. De facto, as medidas de “flexibilização do mercado de trabalho”, impostas pelo FMI vêm juntar-se a uma situação social muito deprimida: baixos salários, reformas indecentes e desemprego sempre massivo”.


02/01/2014

"As elites começam a ter medo", entrevista a John Ralston

Entrevista a John Raltson Saul tirada de Homozapping (aqui) e traduzida desde lá por À revolta entre a mocidade. De John Raltons Saul apareceu recentemente em castelhano o seu livro El colapso de la globalización y la reinvención del mundo (RBA, 2012). John Ralston Saul ensayista e filósofo canadiano a quem a revista Time qualificou de "profeta" por ter previsto o colapso do sistema financeiro desde finais dos anos noventa, esteve em México para fazer outro desses anúncios que fazem rechinar os dentes a governantes e poderes fácticos: "a globalização fracassou". No seu mais recente livro O colapso da globalização e a reinvenção do mundo, dá conta com detalhada frialdade do fim de toda uma época.
John Ralston Saul
 
Daniel Barrón: Quais são as causas do falhanço da globalização?

John Ralston Saul: Teve uma crise nos setentas, tinha um grupo de gente que tomou as ideias inglesas do século XIX: livre mercado, desregulamentação e quiseram-nas voltar modernas. Quando aconteceu a crise as deixaram de lado e nos anos oitenta as retomaram. Mas nunca foram ideias muito brilhantes, e tudo começou a cair em noventa. Podia-se ver uma série de falhas, a economia asiática decaiu, teve crise em Latinoamérica, e tudo começou a se cair. E para o ano 2000 a ideia estava acabada. O verdadeiramente revolucionário da globalização foi que íamos ver toda a civilização desde o ponto de vista da economia.

E ali estava o erro, porque um não maneja uma sociedade através da economia, a sociedade se serve da economia. O que resultou mais difícil foi tratar com as diferenças entre os países, de modo que a crise em México nos 80 e nos 90 se deveu a esta ideia de que se pode aplicar uma só teoria, uma teoria internacional, a todos os países. Embora a cada país tenha o seu próprio idioma, culturas diferentes, diferentes experiências, uns têm petróleo, outro gás, outros não têm nada, uns têm um clima e outros um diferente... E eles aplicaram esta mesma teoria em todas partes, como se não tivesse uma civilização regional e claro isso não podia funcionar. Tivemos uma gigantesca crise faz em uns anos e daí passou? A ninguém o jogaram do seu trabalho, ninguém foi ao cárcere, e agora a mesma gente que não admitiu o falhanço ficou nos seus postos e aplica as mesmas teorias, a mesma gente está a cargo, e têm as mesmas ideias, apesar de que já sabem que não funcionam

DB: É um falhanço da globalização ou do capitalismo?

JRS: Por milhares de anos tivemos formas do capitalismo, este falhanço teve que ver com a ideia de que a economia podia dirigir-nos, de que os muros iam cair, de que tudo se ia mover, de que não importava onde vivesse a gente porque não ia ter nenhum centro? E desde depois, sem dizê-lo do tudo, estavam a sugerir que a democracia não importava porque após tudo, se não importa de onde és cidadão então não há democracia. A democracia tem que ver com a cidadania, tu vives na Cidade de México ou em Povoa, então tens responsabilidades como cidadão ali, não é nacionalismo, é a responsabilidade de pertencer.

DB: Diz no seu livro que ante o falhanço da globalização, o mundo se recompõe em nacionalismos, e você marca uma diferença entre nacionalismo positivos e negativos. Em que consistem os positivos?

JRS: Ali voltamos a pertença e a cultura. O nacionalismo positivo é saber  que nasces em alguma parte, vives em alguma parte, os teus filhos nascem ali e então vais ter responsabilidades e obrigações como cidadão, deverás jogar o teu próprio papel e pensar na educação e o bem público, a saúde pública, se as ruas são seguras... Tens um compromisso como cidadão, e tens que estar orgulhoso disso, tens uma cultura, e a gente toma o seu local dentro da cultura, todo isso é parte das responsabilidades como cidadão, e todo isso é nacionalismo positivo. O nacionalismo negativo é o populismo barato, o racismo, a pouca participação da gente, isso causou muitas guerras, em resumem a frase típica de "eu sou melhor que vocês". Esse nacionalismo é a resposta clássica ao falhanço da globalização.

DB: Onde se nota mais o falhanço da globalização?

JRS: Nas ruas. Hoje vemos à gente sair às ruas a exigir os seus direitos sem pertencer a uma organização, aqui vocês têm o movimento de estudantes. O occupy, por exemplo, não é o movimento tradicional de partidos políticos, é gente comum saindo às ruas. Quando algo assim acontece não podes negar que está a acontecer algo, podes não saber que exatamente, mas é um sinal de alarme que não pode ser desdenhada. Estão a perder a confiança na maneira na que se manejam os países: se a gente com poder não põe atenção aisso, nunca se sabe o que vai passar depois.

Todo mundo está a passar da globalização às regiões, na América o continente se está a dividir em Norteamérica e Latinoamérica; e México está em uma posição difícil, eu acho que se joga bem as suas cartas e é inteligente será parte de ambas, um país tanto norte-americano como latinoamericano. Europa está a fechar-se, China sabe que Occidente se está a cansar dos seus produtos, de modo que estão volteando ao seu mercado interno, as coisas se estão a mover para as regiões. O que isso significa para o futuro, bom, é difícil o dizer.

O único que sim te posso dizer é que as elites começam a ter medo, e a segurança começa a importar a cada vez mais. Damos-lhes mais dinheiro aos governos para que nos vigiem, e ali onde vás, a gente de segurança tem direito a ver o que cargas, a te registar. Na Inglaterra, por exemplo, estavam muito orgulhosos de ser individualistas e de não ter um cartão de identidade e agora Londres tem mais câmaras de vigilância por metro quadrado que nenhuma outra cidade no mundo. passámos milhares de anos criando e defendendo os direitos civis e a ideia de que a privacidade é um direito, e agora esses direitos estão em decadência em frente à ideia da segurança nacional. O verdadeiro risco de hoje é que percamos os nossos direitos humanos e civis pelo temor dos governos, pelo seu paranoia e o crescimento da vigilância.
John Ralston Saul ensayista y filósofo canadiense a quien la revista Time calificó de “profeta” por haber previsto el colapso del sistema financiero desde finales de los años noventa, estuvo en México para hacer otro de esos anuncios que hacen rechinar los dientes a gobernantes y poderes fácticos: “la globalización ha fracasado”. En su más reciente libro El colapso de la globalización y la reinvención del mundo, da cuenta con detallada frialdad del fin de toda una época.
Daniel Barrón: ¿Cuáles son las causas del fracaso de la globalización?
John Ralston Saul: Hubo una crisis en los setentas, había un grupo de gente que tomó las ideas inglesas del siglo XIX: libre mercado, desregulación y las quisieron volver modernas. Cuando sucedió la crisis las dejaron de lado y en los años ochenta las retomaron. Pero nunca fueron ideas muy brillantes, y todo comenzó a caer en los noventa. Se podía ver una serie de fallas, la economía asiática decayó, hubo crisis en Latinoamérica, y todo comenzó a caerse. Y para el año 2000 la idea estaba acabada. Lo verdaderamente revolucionario de la globalización fue que íbamos a ver toda la civilización desde el punto de vista de la economía.
Y allí estaba el error, porque uno no maneja una sociedad a través de la economía, la sociedad se sirve de la economía. Lo que resultó más difícil fue tratar con las diferencias entre los países, así que la crisis en México en los 80 y en los 90 se debió a esta idea de que se puede aplicar una sola teoría, una teoría internacional, a todos los países. Aunque cada país tenga su propio idioma, culturas diferentes, diferentes experiencias, unos tienen petróleo, otros gas, otros no tienen nada, unos tienen un clima y otros uno distinto… Y ellos aplicaron esta misma teoría en todas partes, como si no hubiera una civilización regional y claro eso no podía funcionar. Tuvimos una gigantesca crisis hace unos años ¿y qué ha pasado? A nadie lo echaron de su trabajo, nadie fue a la cárcel, y ahora la misma gente que no admitió el fracaso se quedó en sus puestos y aplica las mismas teorías, la misma gente está a cargo, y tienen las mismas ideas, a pesar de que ya saben que no funcionan
DB: ¿Es un fracaso de la globalización o del capitalismo?
JRS: Por miles de años tuvimos formas del capitalismo, este fracaso tuvo que ver con la idea de que la economía podía dirigirnos, de que los muros iban a caer, de que todo se iba a mover, de que no importaba donde viviera la gente porque no iba a haber ningún centro… Y desde luego, sin decirlo del todo, estaban sugiriendo que la democracia no importaba porque después de todo, si no importa de donde eres ciudadano entonces no hay democracia. La democracia tiene que ver con la ciudadanía, tú vives en la Ciudad de México o en Puebla, entonces tienes responsabilidades como ciudadano allí, no es nacionalismo, es la responsabilidad de pertenecer.
DB: Dice en su libro que ante el fracaso de la globalización, el mundo se recompone en nacionalismos, y usted marca una diferencia entre nacionalismo positivos y negativos. ¿En qué consisten los positivos?
JRS: Allí volvemos a la pertenecía y la cultura. El nacionalismo positivo es saber  que naces en alguna parte, vives en alguna parte, tus hijos nacen allí y entonces vas a tener responsabilidades y obligaciones como ciudadano, deberás jugar tu propio rol y pensar en la educación y el bien público, la salud pública, si las calles son seguras… Tienes un compromiso como ciudadano, y tienes que estar orgulloso de eso, tienes una cultura, y la gente toma su lugar dentro de la cultura, todo eso es parte de las responsabilidades como ciudadano, y todo eso es nacionalismo positivo. El nacionalismo negativo es el populismo barato, el racismo, la poca participación de la gente, eso ha causado muchas guerras, en resumen la frase típica de “yo soy mejor que ustedes”. Ese nacionalismo es la respuesta clásica al fracaso de la globalización.
DB: ¿Dónde se nota más el fracaso de la globalización?
JRS: En las calles. Hoy vemos a la gente salir a las calles a exigir sus derechos sin pertenecer a una organización, aquí ustedes tienen el movimiento de estudiantes. El occupy, por ejemplo, no es el movimiento tradicional de partidos políticos, es gente común saliendo a las calles. Cuando algo así sucede no puedes negar que está sucediendo algo, puedes no saber qué exactamente, pero es una señal de alarma que no puede ser desdeñada. Están perdiendo la confianza en la manera en la que se manejan los países: si la gente con poder no pone atención a eso, nunca se sabe lo que va a pasar después.
Todo el mundo está pasando de la globalización a las regiones, en América el continente se está dividiendo en Norteamérica y Latinoamérica; y México está en una posición difícil, yo creo que si juega bien sus cartas y es inteligente será parte de ambas, un país tanto norteamericano como latinoamericano. Europa se está cerrando, China sabe que Occidente se está cansando de sus productos, así que están volteando a su mercado interno, las cosas se están moviendo hacia las regiones. Lo que eso significa para el futuro, bueno, es difícil decirlo.
Lo único que sí te puedo decir es que las élites comienzan a tener miedo, y la seguridad comienza a importar cada vez más. Les damos más dinero a los gobiernos para que nos vigilen, y allí donde vayas, la gente de seguridad tiene derecho a ver lo que cargas, a registrarte. En Inglaterra, por ejemplo, estaban muy orgullosos de ser individualistas y de no tener una tarjeta de identidad y ahora Londres tiene más cámaras de vigilancia por metro cuadrado que ninguna otra ciudad en el mundo. Hemos pasado miles de años creando y defendiendo los derechos civiles y la idea de que la privacidad es un derecho, y ahora esos derechos están en decadencia frente a la idea de la seguridad nacional. El verdadero riesgo de hoy es que perdamos nuestros derechos humanos y civiles por el temor de los gobiernos, por su paranoia y el crecimiento de la vigilancia.
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John Ralston Saul ensayista y filósofo canadiense a quien la revista Time calificó de “profeta” por haber previsto el colapso del sistema financiero desde finales de los años noventa, estuvo en México para hacer otro de esos anuncios que hacen rechinar los dientes a gobernantes y poderes fácticos: “la globalización ha fracasado”. En su más reciente libro El colapso de la globalización y la reinvención del mundo, da cuenta con detallada frialdad del fin de toda una época.
Daniel Barrón: ¿Cuáles son las causas del fracaso de la globalización?
John Ralston Saul: Hubo una crisis en los setentas, había un grupo de gente que tomó las ideas inglesas del siglo XIX: libre mercado, desregulación y las quisieron volver modernas. Cuando sucedió la crisis las dejaron de lado y en los años ochenta las retomaron. Pero nunca fueron ideas muy brillantes, y todo comenzó a caer en los noventa. Se podía ver una serie de fallas, la economía asiática decayó, hubo crisis en Latinoamérica, y todo comenzó a caerse. Y para el año 2000 la idea estaba acabada. Lo verdaderamente revolucionario de la globalización fue que íbamos a ver toda la civilización desde el punto de vista de la economía.
Y allí estaba el error, porque uno no maneja una sociedad a través de la economía, la sociedad se sirve de la economía. Lo que resultó más difícil fue tratar con las diferencias entre los países, así que la crisis en México en los 80 y en los 90 se debió a esta idea de que se puede aplicar una sola teoría, una teoría internacional, a todos los países. Aunque cada país tenga su propio idioma, culturas diferentes, diferentes experiencias, unos tienen petróleo, otros gas, otros no tienen nada, unos tienen un clima y otros uno distinto… Y ellos aplicaron esta misma teoría en todas partes, como si no hubiera una civilización regional y claro eso no podía funcionar. Tuvimos una gigantesca crisis hace unos años ¿y qué ha pasado? A nadie lo echaron de su trabajo, nadie fue a la cárcel, y ahora la misma gente que no admitió el fracaso se quedó en sus puestos y aplica las mismas teorías, la misma gente está a cargo, y tienen las mismas ideas, a pesar de que ya saben que no funcionan
DB: ¿Es un fracaso de la globalización o del capitalismo?
JRS: Por miles de años tuvimos formas del capitalismo, este fracaso tuvo que ver con la idea de que la economía podía dirigirnos, de que los muros iban a caer, de que todo se iba a mover, de que no importaba donde viviera la gente porque no iba a haber ningún centro… Y desde luego, sin decirlo del todo, estaban sugiriendo que la democracia no importaba porque después de todo, si no importa de donde eres ciudadano entonces no hay democracia. La democracia tiene que ver con la ciudadanía, tú vives en la Ciudad de México o en Puebla, entonces tienes responsabilidades como ciudadano allí, no es nacionalismo, es la responsabilidad de pertenecer.
DB: Dice en su libro que ante el fracaso de la globalización, el mundo se recompone en nacionalismos, y usted marca una diferencia entre nacionalismo positivos y negativos. ¿En qué consisten los positivos?
JRS: Allí volvemos a la pertenecía y la cultura. El nacionalismo positivo es saber  que naces en alguna parte, vives en alguna parte, tus hijos nacen allí y entonces vas a tener responsabilidades y obligaciones como ciudadano, deberás jugar tu propio rol y pensar en la educación y el bien público, la salud pública, si las calles son seguras… Tienes un compromiso como ciudadano, y tienes que estar orgulloso de eso, tienes una cultura, y la gente toma su lugar dentro de la cultura, todo eso es parte de las responsabilidades como ciudadano, y todo eso es nacionalismo positivo. El nacionalismo negativo es el populismo barato, el racismo, la poca participación de la gente, eso ha causado muchas guerras, en resumen la frase típica de “yo soy mejor que ustedes”. Ese nacionalismo es la respuesta clásica al fracaso de la globalización.
DB: ¿Dónde se nota más el fracaso de la globalización?
JRS: En las calles. Hoy vemos a la gente salir a las calles a exigir sus derechos sin pertenecer a una organización, aquí ustedes tienen el movimiento de estudiantes. El occupy, por ejemplo, no es el movimiento tradicional de partidos políticos, es gente común saliendo a las calles. Cuando algo así sucede no puedes negar que está sucediendo algo, puedes no saber qué exactamente, pero es una señal de alarma que no puede ser desdeñada. Están perdiendo la confianza en la manera en la que se manejan los países: si la gente con poder no pone atención a eso, nunca se sabe lo que va a pasar después.
Todo el mundo está pasando de la globalización a las regiones, en América el continente se está dividiendo en Norteamérica y Latinoamérica; y México está en una posición difícil, yo creo que si juega bien sus cartas y es inteligente será parte de ambas, un país tanto norteamericano como latinoamericano. Europa se está cerrando, China sabe que Occidente se está cansando de sus productos, así que están volteando a su mercado interno, las cosas se están moviendo hacia las regiones. Lo que eso significa para el futuro, bueno, es difícil decirlo.
Lo único que sí te puedo decir es que las élites comienzan a tener miedo, y la seguridad comienza a importar cada vez más. Les damos más dinero a los gobiernos para que nos vigilen, y allí donde vayas, la gente de seguridad tiene derecho a ver lo que cargas, a registrarte. En Inglaterra, por ejemplo, estaban muy orgullosos de ser individualistas y de no tener una tarjeta de identidad y ahora Londres tiene más cámaras de vigilancia por metro cuadrado que ninguna otra ciudad en el mundo. Hemos pasado miles de años creando y defendiendo los derechos civiles y la idea de que la privacidad es un derecho, y ahora esos derechos están en decadencia frente a la idea de la seguridad nacional. El verdadero riesgo de hoy es que perdamos nuestros derechos humanos y civiles por el temor de los gobiernos, por su paranoia y el crecimiento de la vigilancia.
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John Ralston Saul ensayista y filósofo canadiense a quien la revista Time calificó de “profeta” por haber previsto el colapso del sistema financiero desde finales de los años noventa, estuvo en México para hacer otro de esos anuncios que hacen rechinar los dientes a gobernantes y poderes fácticos: “la globalización ha fracasado”. En su más reciente libro El colapso de la globalización y la reinvención del mundo, da cuenta con detallada frialdad del fin de toda una época.
Daniel Barrón: ¿Cuáles son las causas del fracaso de la globalización?
John Ralston Saul: Hubo una crisis en los setentas, había un grupo de gente que tomó las ideas inglesas del siglo XIX: libre mercado, desregulación y las quisieron volver modernas. Cuando sucedió la crisis las dejaron de lado y en los años ochenta las retomaron. Pero nunca fueron ideas muy brillantes, y todo comenzó a caer en los noventa. Se podía ver una serie de fallas, la economía asiática decayó, hubo crisis en Latinoamérica, y todo comenzó a caerse. Y para el año 2000 la idea estaba acabada. Lo verdaderamente revolucionario de la globalización fue que íbamos a ver toda la civilización desde el punto de vista de la economía.
Y allí estaba el error, porque uno no maneja una sociedad a través de la economía, la sociedad se sirve de la economía. Lo que resultó más difícil fue tratar con las diferencias entre los países, así que la crisis en México en los 80 y en los 90 se debió a esta idea de que se puede aplicar una sola teoría, una teoría internacional, a todos los países. Aunque cada país tenga su propio idioma, culturas diferentes, diferentes experiencias, unos tienen petróleo, otros gas, otros no tienen nada, unos tienen un clima y otros uno distinto… Y ellos aplicaron esta misma teoría en todas partes, como si no hubiera una civilización regional y claro eso no podía funcionar. Tuvimos una gigantesca crisis hace unos años ¿y qué ha pasado? A nadie lo echaron de su trabajo, nadie fue a la cárcel, y ahora la misma gente que no admitió el fracaso se quedó en sus puestos y aplica las mismas teorías, la misma gente está a cargo, y tienen las mismas ideas, a pesar de que ya saben que no funcionan
DB: ¿Es un fracaso de la globalización o del capitalismo?
JRS: Por miles de años tuvimos formas del capitalismo, este fracaso tuvo que ver con la idea de que la economía podía dirigirnos, de que los muros iban a caer, de que todo se iba a mover, de que no importaba donde viviera la gente porque no iba a haber ningún centro… Y desde luego, sin decirlo del todo, estaban sugiriendo que la democracia no importaba porque después de todo, si no importa de donde eres ciudadano entonces no hay democracia. La democracia tiene que ver con la ciudadanía, tú vives en la Ciudad de México o en Puebla, entonces tienes responsabilidades como ciudadano allí, no es nacionalismo, es la responsabilidad de pertenecer.
DB: Dice en su libro que ante el fracaso de la globalización, el mundo se recompone en nacionalismos, y usted marca una diferencia entre nacionalismo positivos y negativos. ¿En qué consisten los positivos?
JRS: Allí volvemos a la pertenecía y la cultura. El nacionalismo positivo es saber  que naces en alguna parte, vives en alguna parte, tus hijos nacen allí y entonces vas a tener responsabilidades y obligaciones como ciudadano, deberás jugar tu propio rol y pensar en la educación y el bien público, la salud pública, si las calles son seguras… Tienes un compromiso como ciudadano, y tienes que estar orgulloso de eso, tienes una cultura, y la gente toma su lugar dentro de la cultura, todo eso es parte de las responsabilidades como ciudadano, y todo eso es nacionalismo positivo. El nacionalismo negativo es el populismo barato, el racismo, la poca participación de la gente, eso ha causado muchas guerras, en resumen la frase típica de “yo soy mejor que ustedes”. Ese nacionalismo es la respuesta clásica al fracaso de la globalización.
DB: ¿Dónde se nota más el fracaso de la globalización?
JRS: En las calles. Hoy vemos a la gente salir a las calles a exigir sus derechos sin pertenecer a una organización, aquí ustedes tienen el movimiento de estudiantes. El occupy, por ejemplo, no es el movimiento tradicional de partidos políticos, es gente común saliendo a las calles. Cuando algo así sucede no puedes negar que está sucediendo algo, puedes no saber qué exactamente, pero es una señal de alarma que no puede ser desdeñada. Están perdiendo la confianza en la manera en la que se manejan los países: si la gente con poder no pone atención a eso, nunca se sabe lo que va a pasar después.
Todo el mundo está pasando de la globalización a las regiones, en América el continente se está dividiendo en Norteamérica y Latinoamérica; y México está en una posición difícil, yo creo que si juega bien sus cartas y es inteligente será parte de ambas, un país tanto norteamericano como latinoamericano. Europa se está cerrando, China sabe que Occidente se está cansando de sus productos, así que están volteando a su mercado interno, las cosas se están moviendo hacia las regiones. Lo que eso significa para el futuro, bueno, es difícil decirlo.
Lo único que sí te puedo decir es que las élites comienzan a tener miedo, y la seguridad comienza a importar cada vez más. Les damos más dinero a los gobiernos para que nos vigilen, y allí donde vayas, la gente de seguridad tiene derecho a ver lo que cargas, a registrarte. En Inglaterra, por ejemplo, estaban muy orgullosos de ser individualistas y de no tener una tarjeta de identidad y ahora Londres tiene más cámaras de vigilancia por metro cuadrado que ninguna otra ciudad en el mundo. Hemos pasado miles de años creando y defendiendo los derechos civiles y la idea de que la privacidad es un derecho, y ahora esos derechos están en decadencia frente a la idea de la seguridad nacional. El verdadero riesgo de hoy es que perdamos nuestros derechos humanos y civiles por el temor de los gobiernos, por su paranoia y el crecimiento de la vigilancia.
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16/12/2013

Itália: Os sintomas alarmantes de uma explosão social

Franco Turigliatto. Artigo tirado de Esquerda.net (aqui). Artigo de Franco Turigliatto, líder da Sinistra Anticapitalista, publicado em anticapitalista.org e em A l'encontre a 10/12/2012. Tradução de Faustino Eguberri para vientosur.info e de Carlos Santos para esquerda.net

“Nas ruas de Turim, podia-se reconhecer grupos de jovens de direita, provenientes das claques das equipas de futebol; além disso, estavam bem representados a Forza Nuova e a CasaPound, e eram numerosos os slogans e os comportamentos claramente fascistas e reacionários”
 
[Nos últimos dois dias, diferentes meios de comunicação não italianos perceberam uma mudança sociopolítica em Itália bastante mais importante que a nomeação de Mateo Renzi, presidente da câmara de Florença, para líder do Partido Democrata. No dia 12 de dezembro, o correspondente do semanário francês “Le Point” escrevia: “De Palermo a Turim, de Roma a Génova, de Savona a Milão, um vento de protesto sem precedentes varre a Itália. A interrupção do metro na capital, o encerramento das lojas nos centros antigos das cidades, a ocupação de estações e mercados, as concentrações diante dos palácios institucionais, as operações de bloqueio nas fronteiras: desde o domingo passado, as manifestações contra a 'casta política' multiplicam-se na península”. Neste artigo que publicamos, Franco Turigliatto sublinha com razão o peso concreto, visível por exemplo na capital piemontesa Turim -antiga capital da Fiat, das forças da extrema direita e as cumplicidades existentes entre estas últimas e uma parte da polícia e da magistratura. – Nota da Redação de A l' encontre]

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O que está a ocorrer nestes últimos dias com as mobilizações e os “levantamentos” dos chamados “forconi” [que brandem as forquilhas] indica que entrámos numa nova fase da crise económica e social no nosso país. Mobilizam-se setores da pequena e média burguesia golpeados muito duramente pela crise nos seus interesses e nos seus rendimentos: os comerciantes, os vendedores ambulantes, os camionistas. Somaram-se a eles outros setores sociais populares mais ou menos marginais: jovens dos bairros urbanos degradados, desempregados ou estudantes. Estes fenómenos são particularmente evidentes e conflituais em Turim, a velha cidade operária e fordista que, para além do novo escaparate turístico que significam os palácios do centro, se encontra numa grande fase de pauperização e de prostração social.

A crise e a pequena burguesia

Estes sectores da pequena burguesia -com os seus diferentes estratos - gozaram durante muitos anos de uma relativa tranquilidade e conforto (para alguns, isso foi conseguido graças a diversas formas de evasão fiscal), mas hoje, após seis anos de uma crise económica aguda, as suas certezas sociais e económicas são postas em causa e para muitos deles abre-se a possibilidade, a curto prazo, de uma queda na pobreza. Esses sectores são golpeados não só pelas dinâmicas da crise económica mas também, como para a grande maioria de cidadãos e cidadãs, pelas políticas de austeridade e de contração orçamental aplicadas pelos governos da burguesia.

Desde há anos, estas políticas massacram em primeiro lugar, e antes de mais, os trabalhadores e trabalhadoras dos setores privado e público que sofrem cortes nos salários, no emprego, com a destruição de postos de trabalho e no chamado estado social. Estes “sacrifícios” foram exigidos permanentemente pelas políticas neoliberais cuja única função é garantir os lucros e os rendimentos do patronato, da grande burguesia como classe e dos seus membros em particular. Para assegurar essa transferência de riqueza de baixo para cima, a classe dominante “reclama” hoje a amplos setores da pequena burguesia que “participem nos sacrifícios”, o que empobrece essas camadas sociais intermédias que, no entanto, são fundamentais para garantir o statu quo social e político.

O verbo inglês “squeeze” indica a ação simultânea de apertar e de extrair o sumo. Esse verbo traduz de forma ativa no que se refere à classe trabalhadora. Mas diz respeito também às camadas da pequena burguesia e determina a sua desintegração social.

E isso constitui um dos traços distintivos das grandes crises económicas que se transformam assim em crises políticas e sociais que produzem contradições e feridas em todos os estratos da sociedade. É por isso que falamos de uma mudança de época na Europa.

A crise na cidade de Turim

Em algumas cidades, entre elas Turim, o fenómeno apresenta-se sob formas particularmente dramáticas: a cidade do mundo do trabalho, noutra época rica e com uma classe operária ativa, sofreu profundas transformações. Em poucos anos, o desemprego atingiu toda a região do Piemonte, o que implica não só centenas de milhares de pessoas no desemprego, mas também, um grande número de “cassa integrati” (pessoas que perderam o seu emprego mas recebem uma parte do seu salário, fruto das conquistas dos começos dos anos 1970).

É evidente que a pequena burguesia, antes de mais a comercial nas suas diversas facetas, afetada já pela crise não podia senão, inclusive sem ter uma consciência exata disso, sofrer uma redução das suas atividades comerciais e dos seus rendimentos como consequência do simples facto de que um grande número de assalariados perderam o seu salário ou viram-no reduzido e foram obrigados a reduzir o seu consumo. A crise que golpeou primeiro os assalariados não podia deixar de repercutir-se nos comerciantes que, entretanto, apesar da fraude fiscal de alguns deles, tiveram que fazer frente às reduções orçamentas das entidades nacionais e locais, que devem ser os atores em última instância das medidas de austeridade decididas pelo governo.

Além disso, antes existia uma verdadeira delimitação e planificação dos pontos de venda, mas agora a quase total liberalização do comércio e o poder enorme das grandes marcas de distribuição puseram de joelhos todo o pequeno comércio local, começando pelos vendedores ambulantes [os mercados locais têm uma grande importância em Itália], esmagados pela concorrência dos centros comerciais, mas também golpeados pela concorrência sem freio entre eles próprios.

Esses comerciantes encerram as suas lojas e renascem como cogumelos com novas atividades, ainda que com o risco de voltar a encerrá-las perante a impossibilidade de garantirem um rendimento suficiente. Mas há outro fenómeno que deve ser compreendido. Muitos desses pequenos comerciantes (comércios, bares, etc.) saíram da classe operária. De facto, muita das pessoas no desemprego, entre as quais um grande número de jovens e de antigos assalariados, juntaram todas as reservas financeiras familiares para pôr de pé um pequeno negócio a fim de obter um rendimento. E depois deram-se conta de que não era suficiente para viver.

Em Turim, nestes últimos dias, o encerramento das lojas foi total, seja em consequência da decisão dos seus proprietários, seja pelo efeito de grupos ativos ligados aos organizadores da greve que circularam permanentemente pela cidade para impor a todos os comerciantes o fecho da porta.

A intervenção das forças da direita
Naturalmente, todos estes fenómenos socio-económicos enfrentam a intervenção e a orientação política das associações profissionais especializadas na criação de uma ideologia e de uma identidade segundo as quais a figura social do trabalhador/a independente garantiria a riqueza da Itália. Partindo daí, quase todos os demais são “ladrões”: não só o pessoal político, mas também os assalariados do setor público, que são parasitas, bem como, inclusive, os assalariados do setor privado que disporiam do “privilégio” da “cassa integrazione”. Portanto, torna-se fácil gerar a divisão entre os setores populares que atravessam grandes dificuldades e fazer emergir uma revolta qualunquista [corrente política italiana de direita que tem traços antiparlamentares e antiestatais, cuja revista Uomo qualunque -o homem ordinário- conheceu uma audiência eleitoral em 1946; há similitude com o poujadismo francês].

As forças de direita e de extrema direita estão muito presentes e ativas através de quem compõe o comité de greve de Turim e de quem dirige a dinâmica do protesto, logicamente confusa. Nas ruas da cidade, podia-se reconhecer grupos de jovens de direita, provenientes das claques das equipas de futebol; além disso, estavam bem representados a Forza Nuova [organização neofascista fundada em 2003 cujo presidente, Roberto Fiore, foi deputado europeu em 2008-2009] e CasaPound [centro social neofascista e nacionalista-revolucionário criado em Roma em dezembro de 2003; o termo Pound faz referência ao propagandista do fascismo Ezra Pound], e eram numerosos os slogans e os comportamentos claramente fascistas e reacionários. Numerosos jovens, frequentemente dos bairros degradados, utilizaram esta jornada como uma possibilidade de expressar as suas frustrações sociais e o seu descontentamento. Ao mesmo tempo, viu-se que existia uma encenação e uma organização precisa da jornada. Outros elementos testemunham um certo entendimento que não só tem a ver com a simpatia pelos manifestantes por parte das forças da ordem, mas que remete para uma relação política organizada com as forças da extrema direita.

Neste contexto distinguiu-se a atitude diligente da magistratura de Turim que no início destas mobilizações tinha dado ordem de levar a cabo um amplo registo dos ativistas do movimento No TAV [movimento popular do vale de Susa contra a construção de uma linha de comboio de alta velocidade], registo que conduziu à detenção de quatro jovens a quem foi posto o qualificativo de “terroristas” (sic).

A pequena burguesia e as forças de direita

É mais que evidente que estas classes sociais em vias de pauperização -na rua estavam presentes antes de mais vendedores ambulantes e camadas inferiores do setor do comércio- e a grande massa dos desempregados podem converter-se numa base de massas das forças ultrarreacionárias e fascistas. O potencial de radicalização reacionária dos sectores da pequena burguesia implica grandes perigos para a classe operária. Esta situação pode tomar uma configuração muito nociva por causa da ausência, desde há algum tempo, de um forte movimento de massas e de lutas da classe operária. A responsabilidade das direções sindicais, cúmplices dos governos dos banqueiros e da grande burguesia, é aqui imensa.

De facto, só uma forte mobilização operária e de classe pode impedir derivas reacionárias. Para responder positivamente ao que se está a desenvolver é necessário que o movimento sindical e dos trabalhadores, apoiando-se nos sectores mais dispostos para a luta, construa rapidamente uma ampla iniciativa na base da defesa do salário, do emprego e de uma política económica diferente que possa dirigir-se ao conjunto das massas trabalhadoras e, também, a uma parte destes setores da pequena burguesia e, antes de mais, aos desempregados e desempregadas. Para isso é necessária uma greve geral. Se uma greve assim já tivesse tido lugar, pelo menos uma parte dos jovens que ontem (9 de dezembro) saíram à rua teria tido uma boa e diferente ocasião de expressar a sua raiva.

Seria uma ilusão perigosa, como alguns que desvariam na esquerda, considerar estas mobilizações como precursoras de uma real luta positiva contra as políticas de austeridade e os governos que as aplicaram. Pensar que a pequena burguesia e as camadas mais marginais do proletariado, na época da mundialização capitalista, ao contrário do que tem acontecido sempre ao longo da história e em particular na grande crise europeia dos anos 1930, possam formar um projeto alternativo ao grande capital tem a ver não só com uma ilusão, mas também é um erro dos mais perigosos, que pode abrir o caminho a verdadeiras e reais tragédias políticas.

Como escrevia Trotsky, a pequena burguesia, esse pó humano - um grande número de indivíduos não organizados nos lugares e nas fases da produção e da distribuição, mas que em última análise depende das relações sociais que traduzem - não tem nem a função nem a força social e política para expressar um projeto alternativo ao das classes dominantes. As classes sociais intermédias entre as duas classes fundamentais continuam a ser, em última instância, atraídas pela que demonstre mais força no terreno. Hoje como ontem, a burguesia pode utilizar setores da pequena burguesia e dos desempregados - como o fez o fascismo- como aríetes contra a classe operária. Trotsky acrescentava, em 1930: “Em cada viragem da história, em cada crise social, há que reexaminar o problema das relações existentes entre as três classes da sociedade atual: a grande burguesia com o capital financeiro à cabeça, a pequena burguesia que oscila entre os dois campos principais, e, finalmente, o proletariado. A grande burguesia que não constitui mais que uma fração ínfima da nação não pode manter-se no poder sem se apoiar na pequena burguesia da cidade e do campo, isto é sem apoio entre os últimos representantes das antigas camadas médias, e entre as massas que constituem hoje as novas camadas médias”. Prossegue: “Para que a crise social possa desembocar na revolução proletária, é indispensável, além de outras condições, que as classes pequeno burguesas balancem de forma decisiva para o lado do proletariado. Isso permite ao proletariado tomar a cabeça da nação, e dirigi-la. As últimas eleições revelam uma tendência em sentido inverso e é aí que reside o seu valor sintomático essencial. Sob os golpes da crise, a pequena burguesia tem oscilado não para o lado da revolução proletária, mas para o lado da reação imperialista mais extremista, arrastando camadas importantes do proletariado”. Depois afirma de forma incisiva: “Se o partido comunista é o partido da esperança revolucionária, o fascismo enquanto movimento de massas é o partido do desespero contrarrevolucionário” (León Trotsky, “A viragem da Internacional Comunista e a situação na Alemanha” 27/09/1930).

A importância da luta dos trabalhadores

Só a capacidade e o protagonismo, a força e a luta das massas trabalhadoras pelos seus próprios objetivos de salvaguarda das suas condições de vida e de trabalho podem converter-se num pólo atraente para setores da pequena burguesia ou, pelo menos, neutralizar setores dela no decurso do confronto agudo com a classe dominante. É uma das tarefas urgentes que se encontra ante nós e que faz da retoma do conflito nos locais de trabalho, ainda que muito difícil, um elemento necessário e possível.

Estamos diante de uma questão de tempo. O movimento operário e sindical deve recuperar. De um lado, não deve demonizar certos setores sociais como tais, aliando-se assim à política do Partido Democrata e às direções sindicais, que têm subordinado as trabalhadoras e os trabalhadores às orientações da grande burguesia. Do outro lado, deve estar consciente de que esse movimento dos “forconi” é dirigido por forças reacionárias e de direita que devem ser combatidas.

Por essa razão, os membros de classe operária - e em particular as forças da esquerda anticapitalista - devem começar a sua própria luta, a revolta de classe contra os governos dos pacotes de austeridade, isto é contra a classe burguesa.