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12/02/2014

Dossier Ucrânia

 
Muito se tem falado na mídia nos últimos tempos sobre a Ucrânia. Se bem em Grécia ou em Bósnia existem protesto tanto ou mais importantes (aqui) a mídia centra-se na Ucrânia apresentando um estado ao borde da guerra civil como uma revolta cidadã pro-UE, a Eurolândia da austeridade. Ucrânia é uma dobradiça entre o imperialismo russo e o europeu (aqui) e desde Revolta Irmandinha fomos publicando diversos artigos para podermos entender com um mínimo de rigor que se passa realmente no estado ucraniano. Para além dos artigos que já incorporamos nesta apresentação do dossier recomendamos igualmente os seguintes:





Cronologia de um desastre que se anuncia

Igor Storch, diretor de cinema ucraniano, é o autor deste artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Митинг "За европейскую Украину" в Киеве

Ainda não sabemos quem são os roteiristas, mas analisando o drama, podemos ver suas diferentes etapas:

1. Em 28 de novembro o presidente da Ucrânia, Vítor Yanukovich, decide postergar a assinatura do acordo de associação com a União Européia, pelas perdas econômicas que implicaria na relação com a Rússia.

2. A oposição convoca um protesto na Praça da Independência. Em 30 de novembro, a polícia reprime centenas de manifestantes e desocupa a praça. Fica um mal-estar e decepção na sociedade, mas não mais que isso.

3. Na noite de 30 de novembro, quando os protestos dos partidários da integração da Ucrânia à Comunidade Européia perdiam intensidade, as forças especiais da polícia, de forma surpreendente, atacam um grupo de estudantes, surrando-os selvagemente. A TV mostra as imagens a todo o país, a oposição imediatamente faz um chamado ao povo e no dia seguinte, para surpresa de todos, saem um milhão de pessoas à rua em Kiev, uma cidade de 3 milhões de habitantes.

4. No dia seguinte, 1º de dezembro, um grupo de radicais falando russo (a grande maioria dos ativistas fala ucraniano) ataca com paus e correntes um grupo de alunos da escola militar e da polícia antidistúrbios. Os atacantes tratam de enredar os civis que protestavam pacificamente nos seus atos de agressão. Os policiais presenciam a situação mais de uma hora e meia sem receber ordens para reprimir, e quando ela chega, reprimem brutalmente. A maioria das vítimas é de civis inocentes. Dezenas de outros inocentes são presos. A TV russa filma tudo e imediatamente as imagens vão ao ar nos canais controlados pela oposição ucraniana. Resultado: o povo chega à Praça da Independência, se instala em barracas e cerca os tribunais de justiça. As forças policiais já pareciam seguras de que todos os manifestantes eram extremistas, e atacam prontamente, enquanto os demais já não duvidam que os policiais antidistúrbios são carrascos sanguinários, provavelmente mercenários russos vestidos como policiais ucranianos.

5. Em 11 de dezembro, quando a tensão baixa gradativamente, organizam-se “mesas redondas”, chegam muitos emissários europeus oferecendo intermediação e parece que todos estão a ponto de chegar a um acordo. A polícia ucraniana, sem maior entusiasmo, realiza uma tentativa de desocupar a Praça da Independência, e o faz com bastante cautela e sem atacar ninguém. Em resposta, por toda a cidade tocam os sinos das igrejas e o povo sai de casa às duas horas de uma madrugada gelada para defender a praça. O transporte público já não funcionava, e os taxistas levam as pessoas ao centro gratuitamente. Ao final, o povo, que já estava perdendo o entusiasmo inicial, se anima novamente e constrói barricadas de três metros. Os chefes policiais ficam incomodados porque não receberam ordens para reprimir.

6: Passa quase um mês. O Presidente Yanukovich viaja a Moscou e recebe de Putin a promessa de um crédito de 15 bilhões de dólares. Passadas as festas de Ano Novo, o povo está cansado, e na Praça nota-se uma certa desilusão e esgotamento. De repente, em 16 de janeiro, o parlamento ucraniano, violando todas as normas, aprova as chamadas “Leis da Ditadura”, que proíbem de forma estrita todas as manifestações públicas. O povo recebe a notícia e não pode acreditar. Todos novamente se despejam nas praças e no centro da cidade. A oposição política se vê cada vez mais passiva e indecisa.

Em 19 de janeiro, os mesmos jovens que foram os provocadores do 1º de dezembro (a mesma idade, os mesmos refrões e os mesmos métodos) atacam absurdamente, num domingo, o Palácio do Governo vazio, e com muita violência agridem novamente a polícia e as tropas especiais. O povo, exausto com a passividade da oposição política, cai na provocação e também participa, lançando coquetéis molotov nos representantes do poder. Começam os combates de rua, o resultado: 40 policiais e militares e centenas de civis feridos. O governo determina o uso de carros lança-água contra a multidão, mesmo com uma temperatura de 5oC abaixo de zero. Um dos líderes da oposição, o boxeador Vitali Klichko, tenta se reunir com o Presidente, que trata de ganhar tempo e não o recebe. Os ódios de ambos os lados crescem.

7. A partir desse momento, aparecem maciçamente nas ruas jovens musculosos, muitos deles com passado delitivo, contratados pelo governo para amedrontar os manifestantes. Os ativistas radicais começam a caçá-los, levando alguns deles à Praça da Independência para surrá-los, ainda que sem maior selvageria, mostrando-os à imprensa. No dia 22 de janeiro, Dia da União da Ucrânia, novo feriado do país, franco-atiradores desconhecidos matam cinco pessoas. Todos os disparos foram feitos por profissionais, diretamente no coração ou na cabeça das vítimas. Carros sem placa começam a sequestrar ativistas e transeuntes casuais, suspeitos de simpatizar com Maidan. Torturam selvagemente dezenas destas pessoas, as desnudam e as atiram na neve. Também queimam os carros de muitos ativistas. Os canais de televisão controlados pela oposição mostram os mortos e a brutalidade policial. Pela Internet, todo o país vê um vídeo que começa a circular, em que policiais, depois de torturar, desnudam na neve um ativista e, em seguida, tiram fotos com ele. Matam um conhecido líder social, doutor em ciências…

Alguém invisível parece muito interessado em dividir-nos e enfrentar-nos…

Quando a “Revolução” muda de rumos

Artigo de Aleksandr Karpets, jornalista ucraniano, tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel. O negrito é de nosso.

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Fora uma reação natural às ações autoritárias do governo, esta revolta insana foi consequência da incapacidade e da impossibilidade de resolver, de forma racional, os problemas catastróficos acumulados na Ucrânia após a desarticulação da União Soviética. Problemas que se agravaram com a chegada ao poder de Yanukovich. Por um lado, a revolta demonstrou a debilidade do seu governo e, por outro, que os líderes e as massas não têm nenhuma compreensão racional do que acontecerá depois, do mesmo modo como não sabem a que realmente aspiram, no caso de um eventual triunfo.

O problema principal está nas contradições que se acumularam no país durante quase um quarto de século: o saque dos bens nacionais por parte dos novos ricos, o aparecimento e o forte aumento da injustiça social, uma enorme desigualdade econômica e política e, como consequência de tudo isso, uma incrível decomposição moral de toda a sociedade, o que provocou a corrupção generalizada em todos os níveis.

Esse problema não tem solução nem em um protesto de rua, nem dentro dos procedimentos legais do Estado, incluindo todo tipo de negociação ou “mesas”, que servirão não mais que como válvulas de escape.

Em primeiro lugar, a solução do problema é impossível porque o atual Estado ucraniano é uma organização política da oligarquia financeira e econômica e da burocracia que representa seus interesses. O objetivo dessa organização é a exploração de outros grupos sociais, ora manipulando-os, ora reprimindo-os, para manter-se no poder. A mudança dos personagens no governo, o cumprimento formal de alguns procedimentos democráticos e inclusive a mudança de várias leis dentro de um Estado desse tipo não significam muito, já que não mudam a essência do modelo.

Em segundo lugar, a mudança fica impossível porque, com a crise econômica global, a situação degradou-se consideravelmente. Um relativo bem-estar e um boom consumista às vésperas da crise, graças ao sistema de crédito, geraram a ilusão da chegada ao “paraíso capitalista”. A crise destruiu essa ilusão, levando o país de volta à sua realidade, submergindo-o na pobreza e no desemprego. Da mesma maneira que no resto da resto de Europa, isso agudizou as contradições econômicas e sociais. A degradação rápida das condições econômicas de uma imensa maioria dos ucranianos foi acompanhada de um igualmente rápido enriquecimento dos clãs oligárquicos e de certas figuras.

Além disso tudo, chegou ao poder o grupo mais reacionário de toda a história da Ucrânia independente, grupo que instalou uma ditadura do capital de origem criminosa, e que se apóia na força da polícia e de delinquentes comuns, à semelhança de alguns regimes latino-americanos do século XX. Se o “fundador” do sistema oligárquico criminoso, o primeiro presidente da Ucrânia independente, Leonid Kuchma, compreendia e respeitava a existência de certos limites que não deviam ser ultrapassados — o que demonstrou os acontecimentos não violentos da “revolução laranja” de 2004 —, os representantes do clã de Yanukovich simplesmente não veem esses limites. Kuchma pôde aposentar-se politicamente, e agora é conhecido como mecenas, vendendo a imagem de um “avozinho generoso” que ajuda as crianças. As figuras do atual governo não podem deixar o poder, porque entendem que, se o abandonam, serão alcançados pelo castigo por aquilo que fizeram.

A construção de um regime fascistóide começou imediatamente depois da chegada de Yanukovich ao poder. Essas são algumas das etapas: a mal chamada reforma judicial, que permitiu ao governo tomar o controle total da justiça do país; um golpe constitucional no outono de 2010, que permitiu ao governo, e a Yanukovich pessoalmente, usurpar o poder, arregimentando prerrogativas excepcionais para as quais não fora eleito; a imposição de um novo Código Fiscal, contendo um ataque contra a pequena e média empresa, acompanhada da repressão policial dos seus tímidos protestos; a imposição de um Código de Trabalho abusivo e de um Código de Moradia expropriador, com o objetivo de suprimir ao máximo os direitos sociais e trabalhistas dos cidadãos; e, logo em seguida, uma série de expropriações arbitrárias de dinheiro e de imóveis em favor do capital oligárquico, que, como dissemos, é a base econômica e social do governo. A isso tudo acompanhou-se um permanente enriquecimento dos clãs oligárquicos, incluindo o mais próximo ao governo, chamado “A Família”, junto com a concentração dos bens públicos nas mãos de um pequeno grupo de novos ricos.

Antes de 19 de janeiro deste ano, os protestos se limitavam a declarações exaltadas, promessas, ameaças, festa e cantos na Praça da Independência de Kiev, que hoje é midiaticamente conhecida como Euro-Maidan (“maidan” é praça em ucraniano). Os “líderes” estavam preocupados com seus futuros ganhos eleitorais. Dava a impressão de que eles tinham medo de tomar decisões e depois ter que arcar com elas. A massa repetia o refrão delirante de uma “revolução apolítica”. A assembleia popular de 19 de janeiro, a poucas horas dos enfrentamentos, acabou com um escândalo: diante da verborreia dos “líderes”, o povo vaiou e exigiu a apresentação de um plano concreto de ações e a nomeação de um dirigente capaz de encabeçar o processo e tomar as responsabilidades.

Falou-se muito de formas não-violentas de protesto, das quais a mais forte deveria ser a greve geral. Ela foi prometida em reiteradas oportunidades, mas nunca se concretizou, por conta da mesma incapacidade organizativa e ideológica dos “líderes” “pró-europeus”.

Um dos traços mais repugnantes do atual governo é o fato que as forças da ordem pública começaram a incorporar maciçamente delinquentes e o lumpesinato na luta contra os ativistas. Os delinquentes, contratados pelo governo, realizaram vários ataques contra pessoas, bens públicos e privados, para que, em seguida, os manifestantes fossem acusados de tais fatos. A delinquência urbana aumentou enormemente. Os próprios manifestantes tiveram que organizar “guardas populares” para manter a ordem no centro da cidade.

A apoteose da reação ao governo seguiu-se, sem dúvida, à aprovação, em 16 de janeiro, da lei que proibia todo tipo de protesto cidadão. Esse foi um ato absurdo e ilegal, aprovado em poucos minutos pela unanimidade dos obedientes deputados. A mensagem parecia dizer o seguinte: somos uma elite, podemos decidir e fazer o que quisermos e o seu dever é obedecer ou ir presos. Essa atitude demonstra uma total incapacidade do poder ucraniano em ver a realidade, superestimando sua capacidade de controlar o país.

Nesses dias, muitos falam de uma aplicação na Ucrânia do sistema russo-bielo-russo, onde qualquer protesto se reprime já no seu surgimento. Mas isso não é possível. Na Rússia, o governo conta com uma potente base econômica, principalmente pela exportação de matéria-prima. A taxa de aprovação de Putin, depois de quase 15 anos de governos consecutivos com estabilidade, supera os 50%. Na Bielo-Rússia, apesar dos problemas, as empresas industriais e agrícolas funcionam, há praticamente pleno emprego, a saúde e a educação continuam gratuitas e estatais, os programas sociais, culturais e esportivos funcionam bastante bem, e Lukashenko tem o apoio da grande maioria da população. O atual governo da Ucrânia não tem forças nem meios comparáveis aos russos ou bielo-russos. Além disso, Yanukovich e seu grupo não têm o mesmo nível de aprovação cidadã que gozam Putin e Lukashenko.

Durante muito tempo, a Ucrânia, apesar da complexa situação econômica e política que se seguiu à desarticulação da URSS, se manteve em paz cidadã, à diferença de quase todos os vizinhos da região. Yanukovich e seu governo já entraram para a história como os que conseguiram quebrar essa tradição, levando o país à beira de uma guerra civil.

Causa surpresa e admiração o fato de que, em uma sociedade que há pouco parecia definitivamente sumida na corrupção, na indiferença e no individualismo, apareçam hoje tantas pessoas dispostas a lutar por uma ideia, chegando às últimas consequências.

Os protagonistas dos combates de rua são nacionalistas radicais, mas justamente eles parecem refletir agora os ânimos das massas indignadas. Durante os choques de 1º de dezembro de 2013, chamavam os ultranacionalistas violentos de “provocadores”. Agora, ninguém mais se atreve a criticá-los. O motivo dessa mudança é evidente: o poder cruzou um limite, e isso radicalizou os cidadãos. Um claro exemplo são as imagens de 19 de janeiro, durante os primeiros combates no centro: um senhor de idade, quase um velhinho, de aspecto claramente “não radical”, parecido com um operário, levantando um ferro de construção gritava: “—Basta! Vão à merda! Basta de aguentar essa corja! Agora é guerra!”

05/12/2013

DOSSIER: a Primavera Árabe (2010-2013)

Escolma de artigos sobre a Primavera Árabe publicados no nosso blogue (debaixo da imagem):

 

ALBA RICO, Santiago (2013), "Egito, a esquerda e o golpe de estado"

ALI, Tariq (2011), "Assistimos à segunda vaga histórica do despertar árabe"
________ (2012), "Só protestar simbolicamente não é suficiente, afirma Tariq Ali"

BEIRAS TORRADO, Xosé Manuel (2011), "Eses farsantes xenocidas"

BELO, Walden (2011), "As revolucións árabes e o imaxinario democrático"

CHOMSKY, Noam (2013), "Primavera Árabe: em fase de deconstrução?" 
_______________  (2011), "A Líbia e o mundo do petróleo"

DAVIS, Mike (2012), "A primavera enfronta o inverno",

FENTE PARADA, Antom (2011a), "Líbia, umha guerra de manual",
_____________________ (2011b), "A primavera dos povos",

HOBSBAWM, Eric (2012), "Fez-me lembrar 1848"

MEYSSAN, Thierry (2011), "Médio Oriente, a contrarrevoluçom de Obama"

NAVARRO, Vicenç (2011), "O que non se coñece sobre o Exipto" 

RODRÍGUEZ VIDAL, Héctor (2012), "A guerra e o desabastecimento como terápia de choque"

SHUKRALLAH, Alaa (2011), "Egito: A contra-revoluçao está a passar ao ataque"

TURSE, Nick (2011), "A mão (quase invisível) da contra-revolução"

WALLERSTEIN, Immanuel (2011), "A Líbia e a esquerda" 
______________________ (2013a), "Não chore ainda pela Primavera Árabe",
______________________ (2013b), "O Complexo de Sansão" 

 

 


25/06/2013

Edward Snowden: para salvarnos dos Stasi Unidos de América. Dossier

Daniel Ellsberg e Alan Maass. Artigos tirados de SinPermiso (aquí). Tradución de David Balado



As recentes revelacións de Edward Snowden sobre os programas de espionaxe global coa escusa da “guerra contra o terror” confirman as acusacións do diretor de Wikileaks, Julian Assange, refuxiado na embaixada de Ecuador en Londres. Con todo, non son algo descoñecido polos cidadáns do Reino de España. É máis, desde hai anos coñécese que na primeira visita de Aznar a Washington despois do atentado das Torres Xemelgas en 2001, cando en nome do “atlantismo” ofreceu os seus servizos -e os dos seus concidadáns sen consultarlles-, para apoiar a “guerra contra o terror”, pediu a cambio o sistema informático Prisma. Desde entón, os servizos de intelixencia españois poden recompilar e filtrar todas as chamadas telefónicas e correos electrónicos no reino -o que non impediu os atentados do 11-M- grazas a mandatos xudiciais segredos autorizados pola Lei do CNI (Centro Nacional de Intelixencia, os servizos segredos españois).

Cando aínda non se destruíron os arquivos policiais do franquismo, até o punto de causar algún que outro sonoro incidente nas fronteiras, opera na sombra a construción dun novo arquivo máis sofisticado, grazas á tecnoloxía de espionaxe que foi unha das contrapartidas á participación de Aznar no Trio das Azores. Este Dossier componse de dúas contribucións: a primeira, asinada por Daniel Ellsberg, e a segunda, por Alan Maass.

1) Daniel Ellsberg: Os Stasi Unidos de América?
Segundo o meu criterio, non houbo na historia norteamericana unha filtración máis importante que a publicación de material da NSA [National Security Agency, Axencia Nacional de Seguridade] por parte de Edward Snowden, e iso contando decididamente os Papeis do Pentágono de hai 40 anos. As revelacións de Snowden dannos a posibilidade de facer que retroceda unha parte clave de algo que foi equivalente a un "golpe executivo" contra a Constitución norteamericana.
Desde o 11 de setembro, produciuse, primeiro secretamente pero cada vez máis abertamente, unha revogación da carta de dereitos pola que loitou este país hai máis de 200 anos. Especialmente a cuarta e quinta emendas da Constitución norteamericana, que salvagardan aos cidadáns de intrusións non autorizadas xudicialmente na súa vida privada por parte do goberno, víronse practicamente suspendidas.
O goberno argumenta que dispón dunha orde xudicial de acordo coa FISA [Foreign Intelligence Surveillance Act, Lei de Vixilancia de Intelixencia Estranxeira de 1977-78], pero esa orde inconstitucionalmente de envergadura provén dun tribunal segredo, está protexida de calquera supervisión efetiva, e móstrase deferente case por completo ás peticións do executivo. Tal como di Russell Tice, antigo analista da NSA: “É unha farsa de xuízo con selo oficial”.
Que diga entón o presidente que existe supervisión xudicial é unha estupidez, como o é a presunta función de vixilancia dos comités de intelixencia do Congreso. Non é a primeira vez - como nos casos de tortura, secuestro, detención, asasinato por medio de avións non tripulados e escuadróns da morte- que demostraron estar cooptados a conciencia polas axencias á que supostamente controlan. Son tamén buratos negros para a información que a opinión pública desexa coñecer.
O feito de que os líderes do Congreso "recibisen información" sobre este asunto e non fixesen nada, sen ningún debate aberto, nin audiencias, análises de parte do seu persoal ou oportunidade real algunha de disentir de modo efectivo, só demostra o inservible que quedou o sistema de controis e equilibrios deste país.
Evidentemente, os EE. UU. non son hoxe un Estado policial. Pero dado o alcance desta invasión da intimidade persoal, dispomos da plena infraestrutura electrónica e lexislativa dun Estado así. Se houbese agora mesmo, por exemplo, unha guerra que provocase un movemento antibelicista a gran escala -como o que tivemos en contra do conflito de Vietnam- ou, o que é máis probable, se sufrísemos outro ataque da escala do 11 de setembro, temería pola nosa democracia. Eses poderes son extremadamente perigosos.
Hai razóns lexítimas para manter segredos, e concretamente, segredos acerca da intelixencia de comunicacións. Por iso Bradley Mannning e eu mesmo -que tivemos acceso ambos a esa intelixencia con habilitacións de seguridade que pasaban a categoría de alto segredo- decidimos non revelar ningunha información con esa clasificación. E esa é a razón pola que Edward Snowden comprometeuse a deter a publicación da maioría do que podería revelar.

Pero o que non resulta lexítimo é empregar un sistema de protección de segredos para ocultar programas que son descaradamente inconstitucionais na súa magnitude e potenciais abusos. Nin o presidente nin o Congreso no seu conxunto poden revogar por si mesmos a cuarta emenda, e esa é a razón pola cal o que Snowden revelou até agora era segredo para o pobo norteamericano.
En 1975, o senador Frank Church referiuse á NSA nestes termos:

Coñezo a capacidade que existe de facer total a tiranía en América, e debemos vixiar por este motivo que esta axencia e todas as axencias que posúen esta tecnoloxía operen dentro dos límites da lei e de acordo cunha adecuada supervisión para que nunca deamos pasos sobre ese abismo. Ese é o abismo do que non hai retorno". [No Comité Church de 1975, ou Comisión de Estudo do Senado dos Estados Unidos para o Estudo das Operacións Gobernamentais sobre Actividades de Intelixencia].
A perigosa perspectiva sobre a que nos preveu era que a capacidade da intelixencia norteamericana de recoller información -que supera calquera comparación co que existía na súa época predixital- "podería volverse en calquera momento contra o pobo norteamericano e non quedaría a salvo a intimidade dun só norteamericano".
Iso é o que xa sucedeu. É iso o que Snowden denunciou con documentos segredos, oficiais. A NSA, o FBI e a CIA, provistos da nova tecnoloxía dixital, dispoñen de poderes sobre os nosos cidadáns que a Stasi -a policía segreda da antiga "República Democrática" de Europa Oriental- non podería nin soñar. Snowden revela que a chamada comunidade de intelixencia converteuse nos Stasi Unidos de América.

Deste xeito, precipitámonos ao abismo do senador Church. Agora as preguntas estriban en se tiña el ou non razón en que podemos saír del, e se iso significa que se fará imposible unha democracia efectiva. Hai unha semana consideraría difícil argumentar con respostas pesimistas a estas conclusións.

Pero dado que Edward Snowden puxo en xogo a súa vida para sacar á luz esta información, co que é moi posible que servise de inspiración a outros con coñecementos, conciencia e patriotismo semellantes para que demostren un valor cívico comparable -na opinión pública, o Congreso e o mesmo Executivo- contemplo a inesperada posibilidade de que haxa forma de saír do abismo.  

A presión sobre o Congreso por parte dunha opinión pública informada para que se forme unha comisión de estudo que investigue as revelacións de Snowden, e espero que doutros, podería levarnos a someter á NSA e ao resto da comunidade de intelixencia a unha verdadeira supervisión e control e recuperar as protecións que ofrece a carta de dereitos.  

Snowden fixo o que fixo porque recoñeceu os programas de vixilancia da NSA como o que son: unha actividade perigosa e inconstitucional. Esta invasión por xunto da intimidade de cidadáns norteamericanos e estranxeiros non contribúe á nosa seguridade: pon en perigo as liberdades mesmas que tratamos de protexer.

Daniel Ellsberg (1931), lendario activista de dereitos civís, fíxose soado por filtrar en 1971 ao New York Times os chamados Papeis do Pentágono, que revelaban a implicación dos Estados Unidos en Vietnam. Doutor en Economía por Harvard, é tamén coñecido polo chamado paradoxo de Ellsberg no ámbito da teoría da decisión.
Fonte: The Guardian, 6 de xuño de 2013
2) Alan Maass: EE.UU.: Espionaxe global

O aparello de espionaxe e de seguridade aumentou os seus poderes baixo demócratas e republicanos en EE.UU. á conta dos dereitos constitucionais dos seus cidadáns e violando os do resto do mundo.

A sinistra e segreda Axencia de Seguridade Nacional (NSA) foi exposta á luz do día grazas ás revelacións de Edward Snowden, que demostran ata que punto o goberno de EE. UU. espía masivamente á xente no seu país e no resto do mundo.

The Guardian e outras publicacións publicaron estas revelacións que proban a existencia de dous escandalosos programas de vixilancia, que funcionaron ao parecer desde hai anos, xestionados pola maior axencia de espionaxe, co apoio bipartidista de demócratas e republicáns.

Un dos programas, chamado Prisma, permitiu ao NSA ter acceso aos sistemas de Google, Facebook, Apple, Microsoft, Yahoo, Skype e outras grandes compañías de Internet, permitíndolle coñecer ao seu antollo todo tipo de información, incluíndo os historiais de acceso a páxinas web, o contido dos correos electrónicos, videoconferencias, envío de arquivos, etc…

O outro programa permítelle á NSA coñecer o historial de chamadas telefónicas da maioría dos usuarios en EE.UU.. Esta “metadata”, entregada polas grandes compañías de telecomunicacións, é almacenada nunha xigantesca base de datos que os analistas do NSA poden investigar como lle veña en gaña para obter información.

Nunha entrevista con reporteiros do xornal The Guardian, incluíndo ao columnista de esquerdas Glenn Greenwald, Snowden describe o fácil que lle resulta ao NSA violar os nosos dereitos: “O NSA desenvolveu unha infraestrutura que lle permite interceptalo todo. Con esta capacidade, a inmensa maioría das comunicacións humanas pasan ao arquivo en bruto. Se quero ver os seus correos electrónicos, ou as chamadas de teléfono da súa muller, todo o que teño que facer é usar o banco de datos interceptado e aplicar os programas de filtro necesarios. Podo ler o contido dos correos electrónicos, os contrasinais, o historial de chamadas telefónicas, as tarxetas de creto, etc… Non quero vivir nunha sociedade que fai este tipo de cousas. Non quero vivir nun mundo no que todo o que fago e digo é gravado. Non estou disposto a apoialo ou vivir á súa sombra”.

A administración en Washington reaccionou ás filtracións de Snowden cun berro de alarma, e é fácil comprender o motivo: as revelacións sobre os programas de vixilancia do NSA son un choque para millóns de persoas que até a data non tiñan a menor idea de que o goberno de EE.UU. de maneira rutineira e informal viola os seus dereitos en nome da “seguridade nacional” e da “guerra contra o terror”.

Ademais, as operacións de espionaxe do NSA foron continuas -e poden que se aceleraran- desde a Administración Bush até hoxe en día, cando ocupa a Casa Branca un suposto defensor das liberdades civís, Barack Obama. E iso é unha proba máis, por se facía falla, de que os dirixentes do Partido Demócrata están tan implicados como os do Partido Republicán na utilización do aparello represivo do goberno para defender os intereses do estado. Como escribe o analista de esquerdas Norman Salomon: “As revelacións dos últimos días son un tremendo desafío para a orde establecida: a guerra permanente esixe aumentar o segredo e a proxección de poder, de maneira que acaba por identificarse a xestión da seguridade cunha vixilancia orwelliana. Nos máis altos niveis hai algo máis que rumores de pánico nun ambiente xa de por si enrarecido. Non é só a NSA a que quedou ao aire; é a arrogancia represiva da que fai gala a pirámide de poder”.
***
Das dúas revelacións máis danosas, a espionaxe en Internet e os historiais telefónicos, é difícil dicir cal é máis perigosa e ameazante.
As revelacións sobre os historiais telefónicos producíronse antes, nun artigo exclusivo para The Guardian de Greenwald. Ao parecer, Snowden entregoulle un mandato do tribunal segredo creado pola Lei de Intelixencia e Vixilancia no Exterior (FISA) que obriga a multinacionais das telecomunicacións como Verizon a entregar ao NSA, a cotío, os historiais de chamadas telefónicas na súa rede doméstica e internacional.
O mandato ten unha duración de tres meses, que acaban este 19 de xullo, pero segundo a presidenta do Comité de Intelixencia do Senado de EE.UU., Dianne Feinstein, esténdese o mandato automaticamente, sen que o saiban os cidadáns. O mandato xudicial filtrado por Snowden non o di, pero sen dúbida existen acordos similares aos de Verizon con outras compañías de teléfonos.

Noutras palabras”, resume David Cole en The Nation, “o goberno federal garda no caixón todos os historiais telefónicos, cada chamada que facemos, sen base algunha de sospeita previa”.

O mandato xudicial non permite que o NSA escoite o contido das chamadas, pero os historiais son, en moitos casos, máis reveladores. Como escriben Ben Wizner e Jay Stanley da American Civil Liberties Union (ACLU): “Mesmo sen interceptar o contido das comunicacións, o goberno pode utilizar esta metabase de datos para coñecer os nosos máis íntimos segredos os “a quen”, “cando” e “con que frecuencia” das nosas chamadas son máis reveladoras que o dito nelas. As chamadas entre un xornalista e un funcionario, poden revelar unha relación incriminatoria por si mesma”.

James Ball, de The Guardian, sinala outras vantaxes desta recoleción indiscriminada dos historiais das chamadas telefónicas: “A recompilación e o almacenamento desta información outorga ao goberno poderes novos dos que carecía: unha vixilancia fácil e retroactiva. Se as autoridades se interesan por un individuo nun momento dado, e obteñen o seu número, os funcionarios do NSA poden repasar os arquivos á procura de datos e reconstruír os seus movementos, redes sociais, e todo o que fixese en Internet no pasado”.
Aínda que lle poida resultar sorprendente á maioría da xente, información como os historiais telefónicos non están incluídos na Cuarta Emenda que defende o dereito á privacidade, de acordo con sentenzas xudiciais. En calquera caso, a recopilación en bruto de “metadata” son un envorco completo nos procedementos habituais até agora de investigación do goberno: uns procedementos que obrigan aos fiscais ou aos axentes da lei a defender ante os xuíces a necesidade de ter acceso a elementos de información concretos sobre individuos ou grupos específicos.

De feito, o que o NSA di é: imos recompilar todos os datos que teña agora e xa xustificaremos máis tarde a necesidade ou non de examinar ou utilizar parte ou a totalidade dos mesmos.

O programa Prisma do NSA para espiar en Internet é así mesmo asombroso polo seu alcance e implicacións. Neste caso, Snowden entregou á prensa unha presentación de Power Point de 41 páxinas, que ao parecer utilízase no adestramento de analistas de intelixencia sobre que tipo de información poden obter en Prisma.

A presentación presume de ter acceso á información “directamente dos servidores” das principais compañías de Internet, co obxetivo declarado da “vixilancia en profundidade e ampla das comunicacións en tempo real e a información almacenada, segundo o The Guardian. “A lei autoriza centrase en calquera cliente ou empresa fóra de EE.UU., ou daqueles cidadáns de EE.UU. que se comuniquen con xente fóra de EE.UU.”.

Polo tanto, as comunicacións entre cidadáns de EE.UU. están en principio excluídas. Pero de novo, cando se trata de respectar esta restrición, os axentes do NSA non teñen que responder tan sequera ante o tribunal secreto da FISA. E con Prisma poden mirar non só os historiais de chamadas, senón tamén coñecer o seu contido.

As compañías informáticas negan que permitan ao NSA acceder aos seus servidores para espiar. “Se o fan, é sen o noso coñecemento”, declara un dos seus directivos ao The Guardian.

02/05/2013

A catástrofe do centro-esquerda italiano. Dossier

Rossana Rossanda e Norma Rangieri. Artigo tirado de Sin Permiso (aquí) e traducido por À revolta entre a mocidade. Rossana Rossanda é membro do Consello editorial de Sin Permiso. Canto a Norma Rangieri (1951) é desde 2010 directora do xornal italiano Il Manifesto, en que leva traballando desde 1974, primeiro como crítico de televisión - experiencia recollida no seu libro Chi l'ha vista? Tutto il peggio della tv da Berlusconi a Prodi (o viceversa) [Milano: Rizzoli, 2007].

 Este dossier consta dos seguintes dous textos:
1)     Rossana Rossanda: Apuntamentos sobre o Quirinal: caen os grandes consensos
2)     Norma Rangieri: A derrota de Bersani






1) Rossana Rossanda: Apuntamentos sobre o Quirinal: caen os grandes consensos

A derrota de Marini veu a desmentir brutalmente á secretaría do PD e puxo fin ao proxecto de unidade nacional con Berlusconi. Para o Quirinal [palacio da Presidencia da República], unha carreira ao rebufo da improvisación.

Nunca ocorrera no PD -nin nos Demócratas de Esquerda, nin menos no PCI- que a súa dirección resultase tan brutalmente desmentida como onte o foi nas cámaras reunidas para discutir o nome proposto para ocupar o Quirinal. Franco Marini nin sequera logrou unha parte dos votos previstos na véspera. Era o personaxe acordado con Berlusconi, e a súa caída non só mandou ao garete os planos de Bersani, senón os de todos os que apoiaban unha política de amplos acordos. Comezando polo Giorgio Napolitano e seguindo con D'Alema e secuaces. O único que se atravesou no seu camiño era Renzi. Naturalmente, Bersani debería ter os folgos para oporse, atendendo de paso aos humores furibundos do partido; mais nin sequera agora os tivo.

O máis significativo non é, pois, só que fracasase o primeiro nome para o Quirinal un centroesquerda, aínda por pouco, maioritario, senón que veu a menos a perspectiva dun goberno de unidade nacional que incluía a Silvio Berlusconi. Bastaba ver onte a súa face lívida, furioso porque estaba convencido de que estes a quen el chama comunistas, é dicir os demócratas, terían unha disciplina de ferro, e en cambio, non respectaron ningunha decisión. Bersani avanzaría onte ao mediodía un nome distinto -para un escenario totalmente distinto-: o nome de Prodi, recibido con furor no PDL e con xúbilo pola Margarida. Porén non está dito que sexa un nome ben recibido pola xeración ex-comunista do PD. Algúns observadores sutís danme a entender que a invitación á rebelión das bases sería pedida e aínda orquestrada por Massimo D'Alema, quen traballa polo gran consenso, mais que, para empezar, non está no corazón dos grandes electores, e ademais, preferiría -e por moito- gobernar el mesmo; trataríase, entón, de ir fusilando, un tras outro, todos e cada un dos nomes que se propoñan, empezando por Marini. Sábese que D'Alema sería do gusto do cavaliere, porque as mallas dos grandes consensos en versión dalemiana son farto folgadas e escurridizas.

Podería ser que o nome do vencedor salga a parir do mediodía de hoxe, vista a improvisación dos vértices dos partidos, e é posíbel tamén que sigan as cambadelas, na Praza do Quirinal, non menos que na do Palazzo Chigi.

Addendum de Sin Permiso (21 de abril de 2013)

Rossana Rossanda acertou de cheo nos seus apuntamentos do pasado 18. A carreira ao Qurininal terminou cunha improvisación que -coa caída de Prodi- desfai ao PD, e as cambadelas de D'Alema terminan coa reelección do vello Napolitano. A candidatura do prestixioso constitucionalista Stefano Rodotà (apoiada polos grillini) sería o antídoto contra o ridículo da enésima volta de porca da vella política politizante italiana, e seica un camiño cara á reconstrución dunha política democrática.-SP


2) Norma Rangieri: a derrota de Bersani



Por que non deberían votar o secretario do Partido Democrático e o centroesquerda a Stefano Rodotà [1] como presidente da República? Que método, se non o dunha lúcida tolemia, conduciu á forza de maioría relativa a depositar nas mans de Berlusconi a elección do próximo xefe do Estado? De que serve entrar nunha asemblea de grupos parlamentarios, constatar as fortes disensións de boa parte sobre o nome de Franco Marini e non telas en consideración?

Naturalmente, Bersani non responderá as nosas preguntas, pero debería polo menos escoitar as que lle dirixen os electores e un grande número dos dirixentes mesmos do seu partido, despistados e moitos anoxados, sobre todo despois de asistir ao espectáculo das votacións de onte en Montecitorio [sede parlamentaria italiana]. Unha derrota clamorosa, tafazziana [masoquista] [2].

Con todo, o secretario do PD, tras o trompazo das eleccións de febreiro, enviara sinais interesantes. Coa elección dos dous presidentes da Cámara e o Senado, coa pertinaz insistencia nun goberno de cambio, co intelixente seguimento dos "grillinos", deixando ao carón o orgullo, facendo xurdir a copla do «non» dos expoñentes das 5 Estrelas, que con este comportamento descendían xa nas enquisas. E logo, ese darse a volta, brusco e masoquista, para embarcarse nun tándem para o Quirinal [residencia do Presidente da República] co xefe do centrodereita. O cal, inútil é negalo, prefigura outra estraña maioría de goberno, outra forma de "montismo" até as próximas eleccións.

Un cambio de ruta, xusto cando, seguindo o camiño emprendido, Bersani, e unha inxente parte do centroesquerda, puidesen adherirse á candidatura de Rodotà. Tanto máis cando non estamos a falar dun señor que pertence a un partido senón dunha figura capaz de dirixirse a un amplo campo de 27 millóns de votos, polo menos, os recibidos no referendo do 27 de xuño de 2011 [sobre o carácter público da auga], entre cuxos tenaces promotores figuraba Rodotà.  

Foi unha espléndida primavera da política, a revelación dun xacemento de mobilización e coñecemento que saía do populismo e convertíase en democracia deliberativa. Ese país existe, e non escoitalo, seguir ignorándoo, non só lle fixo perder ao PD máis tres millóns de votos senón que lle minou a identidade e nubroulle a visión.

Para Bersani soa a campá da derrota, o seu liderado está acabado, e os pedazos que lle quedaron (coa axuda de todo o grupo dirixente) xa non os volve a pegar ninguén.

NOTAS  do tradutor castelán: 

[1] Stefano Rodotà (1933), ilustre xurista italiano, profesor emérito de Dereito Civil da Universidade A Sapienza de Roma, foi no 70 membro do Partido Radical de Marco Pannella, deputado independente nas listas do PCI en 1979, e logo nas do PDS, de que foi primeiro presidente. 

 [2] Tafazzi, personaxe cómico da televisión italiana que se caracteriza polo seu masoquismo.













22/09/2011

Dossier III: 3 anos da queda de Lehman Brothers


Senhores, não estejam tão contentes com a derrota [de Hitler]. Porque embora o mundo se tenha posto de pé e teha detido ao Bastardo, a Puta que o pariu anda quente novamente. 6/5/1945, Bertolt Bercht refirindo-se ao capitalismo como causa do fascismo.

Quando se cumprem três anos da queda de Lehman Brothers, em segunda-feira 15 de setembro, assistimos impávidos a reformas laborais, injecçons BILHONÁRIAS à banca, a bancarizaçom das caixas e múltiplos recortes na despesa social que ainda estám por vir. Todo isto quando o sistema-mundo capitalista está entrando no foso dumha Grande Depresom que entra numha nova e mais virulenta fase.

Com a queda do Lehman começou um colapso económico que já dura três anos e que jogou ao desemprego a mais 40 mulhons no mundo; jogou a mais de 1.000.000.000 de pessoas à fame; quedárom milheiros de empresas e até estados; inumeráveis famílias desestruturadas, etc. 

Iniciamos este DOSSIER, de maneira sucinta, com um imperdível artigo de Walden Bello: "Todo o que vostede quere saber sobre a orixe da crise, mais que teme nom percebelo". Nele o professor relaciona a crise com a sobreproduçom da década de 70 até a actual de sobreacumulaçom após décadas de ultraliberalismo galopante e com uns juros gregos que andam no 150%.Um ABC da crise actual que paga a pena ser lido com detemento.

Dean Baker fai um repasso dos últimos três anos em "Lehman Brothers: tres anos de negación" e o panorama que apresenta nom é nada esperançado. Como o economista norte-americano indica os mesmos que tinham o poder antes da crise seguem-no detendo agora, polo que criárom umha ignomínia por história oficial e asseguram-se de que gente ouça muito pouco que saia da ortodoxia ultraliberal que conduz ao mundo ao suicídio económico. Resulta bastante perturbador que os ambiciosos da indústria financeira e os seus apoios do mundo da política podam devastar a economia e arruinar milhons de vidas, e seguir mantendo o controlo da política sem sofrerem eles mesmo apenas as consequências. Porém, porquê é que  teriamos que esperar outra cousa?

Mais amplo e coevo da queda do Lehman é o artigo de Michael Hudson,  "O resgate de todos os resgates: golpe de Estado cleptocrata nos EUA".  Em seu célebre livro Caminho da Servidão, Friedrich von Hayek e seus meninos de Chicago insistiam que a servidume viria da planificaçom e da regulaçom estatais. Essa visom caminhava na direçom contrária a dos reformadores clássicos da Era Progressista, que concebiam a ação do Estado como a do cérebro da sociedade, como a linha diretriz para modelar os mercados e liberá-los dos especuladores rentistas, ou seja, da renda que não fosse contrapartida do desempenho de um papel necessário na produção.

  A teoria da democracia fundava-se no pressuposto de que os eleitores atuariam movidos pelo próprio interesse. Os reformadores do mercado partiram de uma feliz suposiçom paralela, segundo a qual os consumidores, os poupadores e os investidores promoveriam o crescimento económico actuando com pleno conhecimento e cabal compreensom das dinâmicas em acçom. Mas a mao invisível terminou resultando em fraude contábil, empréstimo hipotecário podre, informação privilegiada e fracasso em controlar os crescentes gastos da dívida conforme a capacidade dos devedores para pagar. É todo este caos, aparentemente legitimado por alguns modelos de comércio eletrónico, como o Lehman Brothers  socorrido pelo Tesouro dos EUA.

Um outro artigo, sobre a reforma da Consittuiçom de Héctor Rodríguez Vidal e Antom Fente Parada foca também na tónica de Hudson os dogmas da teologia ultraliberal. Num mundo em que o proteccionismo é a practica geral dos estados mais poderosos é claro que os postulados económicos realmente vigentes nom som os do liberalismo clássico, nom o som senom para os países geralmente mais depauperados. Capitalismo para os pobres, socialismo para os ricos.  Nom houvo límites para a acumulaçom de riquezas nem para que os poderosos puderam e podam desenvolver práticas económicas que excluíam à maioria que perde assim a sua liberdade. E entre a constriçom da liberdade e um repasso polas experiências do shock ultraliberal rematam assim o seu artigo: 
Isto é o que leva a acontecer cerca de quarenta anos perante os nossos olhos abúlicos e indolentes, mas perante o ecrám da TV nunca pensamos que fosse a casa do vizinho a que assaltaram os bandidos ou que puidéramos precisar carabinas carregadas com projécteis de sal ou um cam que guardara a porta; pola contra vivemos estupidamente o momento vazio do consumidor eternamente adolescente. Agora somos nós que vamos para o matadouro (presos pola Constituiçom que se cumpre ou respeita segundo parece, como se for lei do costume), e os nossos filhos e netos quiçá (mesmo se ainda nom nascêrom) venham connosco para serem cortados em rendíveis pedacinhos que alimentem a dividocracia e vendam libras da sua carne para pagar as dívidas, como na obra de Shakespeare O mercadder de Venécia (1600). Agora já nom podemos refugiar-nos no facto de ser a miséria alheia que sustenta o nosso nível de vida e nom há soluçom para as injustiças colaterais, pois agora a miséria bate à porta da nossa casa coa mala na mam, com clara intençom de vir morar entre nós. Como dom Quixote lhe dizia ao seu escudeiro: "La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos: por la libertad , así como por la honra se pude y debe aventurar la vida". 

 Ao fío do anterior convém lembrar as palavras dum recente artigo de Santiago Alba Rico: "Tenhamos muito cuidado em Europa: ninguém nos vai avisar quando chegue o fascismo nem serquer se vai apresentar -seria absurdo- com esse nome. Tenhamos cuidado: nom vamos reconhecer o nazismo quando regresse porque falará de novo, como entom, de paz e civilizaçom, de valores e normalidade". E todo isso quando a crise apenas parece ter começado para cair ainda num buraco mais fundo. Marcelo Justo adverte para os perigos do sistema bancário chinês algo que Giovanni Arrighi já advertira há mais dumha década ao assinalar que quando existe caos no sistema mundo capitalista a potência emergente vive umha crise no seu epicentro financeiro que gera um crack mundial, sucedeu com a crise da bolsa de Londres quando a Grande Bretanha emergia na cena muncial para detentar a hegemonia face as Províncias Unidas e sucedeu logo em 1929 quando os EUA subsituiam ao Império británico na cena mundial. Boas leituras!.


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19/07/2011

dossier - ECONOMÍA

"O orzamento debe equilibrarse, o Tesouro debe ser reaprovisionado, a débeda pública debe ser diminuída, a arrogancia dos funcionarios públicos debe ser moderada e controlado o seu gasto, e a axuda a outros países debe eliminarse para que Roma non vaia á bancarrota. A xente debe apreender novamente a traballar, en lugar de vivir á conta do Estado." 

Marco Tulio Cicerón, ano - 55.

Dados os acontecimentos que sacudiron a Eurolandia nos últimos días e no risco inminente de quebra e intervención da troika no Estado español (que se efectivará probabelmente despois das eleccións xerais) o Grupo de Traballo da Mocidade Irmandiña achegamos um dossier com chaves para introducírmonos na economía e para interpretar o que acontece neste inicio dunha nova depresión, aínda máis profunda, dentro do ciclo destrutivo iniciado no sistema-mundo capitalista em 2008.
 Esta crise foi analizada sinteticamente por Xosé Manuel Beiras en "Brañas e a crise que non cesa" (I, II, III, IV e V) e dun xeito atractivo e moi levadeiro no documentario Inside Job.

Un sistema que asiste a "unha perda de confianza" sen precedentes como aponta Leonardo Boff e que os marxistas veñen denunciando desde a irrupción da utopía reaccionaria ultraliberal:
 
Estamos nos confrontando com esse dilema: ou deixamos as coisas correrem assim como estão e então nos afundaremos numa crise abissal ou então nos empenharemos na gestação de uma nova vida social, capaz de sustentar um outro tipo de civilização. Os vínculos sociais novos não se derivarão nem da técnica nem da política, descoladas da natureza e de uma relação de sinergia com a Terra. Nascerão de um consenso mínimo entre os humanos, a ser ainda construído, ao redor do reconhecimento e do respeito dos direitos da vida, de cada sujeito, da humanidade e da Terra, tida como Gaia e nossa Mãe comum. A essa nova vida social devem servir a técnica, a política, as instituições e os valores do passado. Sobre isso venho pensando e escrevendo já pelo menos há vinte anos. Mas é voz perdida no deserto. “Clamei e salvei a minha alma” (clamavi et salvavi animam meam), diria desolado Marx. Mas importa continuar. O improvável é ainda possível.

Alejandro Nadal fala dunha "Media noite na economía mundial", pois a austeridade conduce ao sistema-mundo capitalista para un beco sen saída e confirma o pronóstico da crise em W que está prestes a vir, unha segunda crise moitísimo máis forte nos centros capitalistas (Xapón, EUA e Eurolandia) e que probabelmente comece no sector financeiro chinés tal e como o crack do 29 (na época da hexemonía británia na fase do declive e, xa que logo, da financiarización e que puxo fin á globalización ordenada polo Imperio británico) comezou en Wall Street, ou sexa, na potencia hexemónica que após o caos da II Grande Guerra (1939-1945) remataría por por orde no sistema-mundo arredor de Wall Street e os acordos de Bretton Woods, dinamitados na crise-sinal da Guerra do Vietnán. Algúns autores, porén, como é o caso de Boff vén nesta a crise terminal do capitalismo porque a súa expansión cada vez máis grande (desde o proto-estado nerlandés, ao estado-continente-imperio norteamericano, pasando polo estado-nación-imperio británico) tópase por vez primeira cunha imposibilidade de orde física: o finito dos recursos do planeta. Marshall Auerback coincide na diagnose no seu artigo "Tempo de pánico" e denuncia que se está xogando para un foxo ao 95% da poboación mundial:
Os governos de vinte e oito países desenvolvidos atuaram de concerto para fazer baixar o preço do petróleo e salvar a recuperação económica mundial. Nestes últimos dez dias, os investidores profissionais, os especuladores e os habituais manipuladores parceiros de viagem conseguiram torcer o braço desses governos, forçando de novo uma alça nos preços do cru. À vista do qual, e do terrível frente de dados económicos procedentes ultimamente da Europa, melhor fariam esses governos em procurar de novo uma via para evitar a especulação sobre os preços dos alimentos e dos combustíveis: caso contrário, a Grande Recessão, Segunda Parte, aguarda-nos à volta do canto.

Xavier Vence é igualmente crítico cos economistas ortodoxos e ataca implacabelmente a austeridade, como o seu artigo máis recente, "Os economistas e a Eurocrise" demostra. Aliás, achega alternativas e medidas concretas para frear a situación, revelando máis unha vez que a saída á crise non é unha cuestión de "apretar o cinto" senón que require unha saída POLÍTICA que só pode darse fóra dos círculos do bo-senso da dereita e o social-liberalismo. É por iso que Ignacio Ramonet fala de "Unha esquerda descarriada". A economía ortodoxa é destrozada por Alejandro Nadal en "O acordar dos magos". Para Antom Fente "A  ortodoxia ultraliberal conduce o Reino de España para o abismo", especialmente con instrumentos tan surrealistas como os credit default swaps ao servizo do fascismo financeiro. De Xavier Vence recomendamos ver tamén "Austeridade ou radicalización". 
A potencia en declive, os EUA, atópanse nunha situación cada paso máis complexa e coas axencias de calificación, instrumentos do terrorismo financeiro, atacándolle por vez primeira, cando os seus "fundamentos económicos" están cada vez máis desgastados e a economía real perde competitividade ao tempo que cae o emprego e o consumo. James Petras analiza como as guerras imperialistas do imperio em decadencia non fan máis que aumentar os problemas da potencia hexemónica e como á URSS de finais dos oitenta imposibilítalle soster o binomio "canóns e manteiga" á vez que ameaza a mesma base da súa economía. É xa que logo, a plasmación da loita de clase onde uns poucos son cada vez máis ricos e a maioría se empobrece, "A millonada dos terroristas e a desaparición da clase media". O diagnóstico de Petras debe completarse coa consideración que fai Giovanni Arrighi no seu libro Adam Smith en Pequín, onde sinala que o grande beneficiado da "guerra contra o terrorismo" non é a potencia en declive (os EUA) senón a potencia en ascenso (China) tal como aconteceu coas guerras liberadas pola Grande Bretaña na etapa financiarizada da súa hexemonía: 
En 1974, o un por cento máis rico de Estados Unidos obtiña o 8 por cento da renda nacional, pero no ano 2008 acaparaban o 18 por cento da renda nacional. E a maior parte dese 18 por cento está en mans dun minúsculo un por cento multimillonario desoutro un por cento inicial; ou, o que é o mesmo, do 0,01 por cento da poboación estadounidense (Financial Times, 28 de xuño de 2011, p. 4, e 30 de xuño de 2011, p. 6).

[...] 

Mentres que os multimillonarios saquean as arcas e intensifican a explotación da man de obra, o número de postos de traballo cunha remuneración media descende en picado: entre 1993 e 2006 desapareceu máis do 7 por cento de empregos de remuneración media (Financial Times, 30 de xuño de 2011, p. 4).
 
[...]
 
Entre os anos 1970 e 2009, mentres se duplicaba o produto interior bruto, o salario medio estadounidense estancouse en termos absolutos (Financial Times, 28 de xullo de 2011, p. 4).

Robert Reich propón como mecanismo de enfrontar o déficit e ampliar o gasto público para reactivar a economía subir a taxación aos ricachóns, que tamén liscan do fisco e se ocultan con moita fortuna no Reino de España, como Daniel Raventós demostra, e sen que o social-liberal goberno de Zapatero (nin moito menos o seu primeiro mentor e agora sucesor - o que son as cousas - Rubalcaba) vaia facer nada para mudalo. 
En Xapón Fukushima afectará seriamente a grande débeda do Estado nipón e confírmase que é o pior accidente nuclear da historia da humanidade, superando con bastante a Chernobil, a pesar do cómplice silencio da prensa occidental. 
Em Eurolandia (con 43 millóns de persoas en risco de probreza alimentar), o bo senso ultraliberal tamén destrúe a economía real e ameaza ao bastardo da burguesía europea: o euro. Para Ana Paula Amaral e José António Dias "O euro vai desmoronar":

o euro foi uma tentativa de unificar os interesses distintos e por vezes contraditórios das várias burguesias europeias face ao imperialismo americano sob a direção da Alemanha e da França. A adoção desta moeda única significou a perda de soberania nacional na emissão de moeda – foi o Banco Central Europeu (BCE) que passou a deter essa prerrogativa – e a imposição de critérios comuns para os défices orçamentais (exigindo-se que não ultrapassem 3% do PIB em cada país) e para as dívidas públicas (que não podem ser superiores a 60% do PIB). 

[...]

Não é a UE uma união das burguesias europeias contra os trabalhadores europeus? Não tem sido uma máquina de guerra contra os direitos sociais e laborais de quem trabalha ou trabalhou? Na verdade, a desagregação do euro e da UE poderia até dar mais força à luta dos trabalhadores contra o capital, que agora estaria mais fraco e, como tal, fragmentado. 

Pouco importa, no entanto, isto aos "grandes" que vendem austeridade para o peixe pequeno enquanto seguem a investir com força no complexo industrial-militar, também em Grécia e Portugal. Precisamente o estado heleno e a súa dívida odiosa son analizados no excelente documentario "Debedocracia" que enterrou e substitúe a democracia. No caso portugués a banca española foi a grande beneficiada ao tempo que as probas de stress no Estado español son unha alavanca máis da bancarización das caixas e un alimento para os que especulan e atacan a débeda do Estado español. Eurolandia, así, nestas crises vive "no conto de nunca acabar", que como ben sabedes, era o conto do "boa pipa".