21/03/2011

Médio Oriente: a contrarrevoluçom de Obama

Thierry Meyssan. Artigo tirado de aqui e traduzido por um dos gestores deste blogue para o galego-português.

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A encomenda do rei Hamad ibn Isa Al-Khalifa e com o apoio dos Estados Unidos, as tropas de Arábia Saudita penetram em Bahrein o 14 de março de 2011 para esmagar a revolta.

Após reunir-se em Paris com três emissários da rebeliom, o presidente francês Nicolas Sarkozy anunciou, na quinta-feira 10 de março de 2011, que França já não reconhece ao regime do coronel Khadafi como representante de Líbia senom o Conselho Nacional Líbio de Transiçom (CNLT).

Trata-se, neste caso, de um ato contrário a toda a tradiçom diplomática da França que, até agora, sempre nunca reconhecia governos senom Estados. Anteriormente, o 4 de dezembro de 2010, França reconhecia a Alassane Ouattara como presidente de Costa de Marfim, em local de Laurent Gbagbo.

No caso de Costa de Marfim, a maioria da comunidade internacional imitou a decisão de Paris, que espera provocar agora uma reaçom similar no tocante a Líbia. No entanto, ninguém pode deixar de notar que as decisons do presidente Nicolas Sarkozy nom respondem aos interesses da França -cujas empresas estám a ser expulsadas de Costa de Marfim e nom demorarám de ser igualmente expulsadas de Líbia- senom que fôrom tomadas em resposta a encomendas expressas das administraçons do presidente estadounidense Obama e do primeiro-ministro israelita Netanyahu.

Duas operações desenvolvem-se de forma simultânea: a deslocaçom do dispositivo militar estadounidense para a África e o salvamento dos regimes fantoches no mundo árabe.

Meter as tropas imperiais na África

Como vim explicando constantemente desde faz 4 anos e médio, a vitória da resistência libanesa ante Israel no verao de 2006 pôs fim à estratégia estadounidense de redesenho do «Médio Oriente alargado» (Greater Middle East) [1]. Apesar de diversas tentativas, como a «mão tendida» de Barack Obama no seu discurso do Cairo [2], Washington não conseguiu elaborar a sua estratégia de reposto. Tudo parece seguir como dantes, mas em realidade Estados Unidos está-se desentendendo pouco a pouco dessa região.

Após tudo, as reservas petrolíferas do Médio Oriente estám em declive e umha intromisom militar, em massa e cara, só reporta benefícios em longo prazo, pelo que Washington olha atualmente para outras latitudes [a China é um feroz competidor por esse mesmo petróleo tanto nas Áfricas como no Médio Oriente e levava vantagem até agora nas Áfricas; N. do blogger]. Depois de ter estudado a possibilidade de concentrar nas Caraíbas, o Império olha agora para a África. Tem que se apressar porque em 2013 o 25% do petróleo e das matérias primas que se consumam nos Estados Unidos sairá do continente negro. Definitivamente convencido pelos trabalhos do instituto de reflexom e propaganda israelita Institute for Advanced Strategic & Political Studies (IASPS), Washington acelerou a criaçom do AfriCom.

O verdadeiro poder que está governando Estados Unidos desde o golpe de Estado do 11 de setembro de 2011 pôs entom a Barack Obama na Casa Branca e ao general William E. Ward no AfriCom.

Recordarám vocês que o senador de origem kenyano Barack Obama trabalhou ativamente na criaçom desse dispositivo e que empreendeu uma gira especial por África em agosto de 2005, gira que terminou com umha rendiçom de contas na sede do AfriCom, em Stuttgart. O senador Obama ocupou-se entom especialmente dos interesses das assinaturas farmacêuticas no continente negro e dos preparativos para a divisom do território de Sudão [3].

O general Ward, por sua vez, não é simplesmente um negro estadounidense, senom que é também o ex responsável da ajuda estadounidense de segurança à Autoridade Palestiniana, ou seja foi o coordenador de segurança entre Mahmud Abbas e Ariel Sharon. Esteve a cargo da aplicaçom do «roteiro» e da retirada unilateral das forças israelitas de Gaza -anterior à construçom do muro de separaçom, à divisom dos territórios palestinianos em dois (Gaza e Cisjordânia) e à sua transformaçom em «bantustanes» separados entre si.

O conflito de Costa de Marfim entre Laurent Gbagbo, eleito pela maioria da população nacional, e Alassane Ouattara, que goza do apoio de uma minoria local e dos imigrantes originários de Burkina Fasso, marca o início do plano de «redesenho da África». Falta encontrar uma porta primeiramente para as tropas imperiais já que todos os Estados africanos expressaram oficialmente a sua oposiçom ao despregue do AfriCom em território africano. É neste ponto que intervém a sublevaçom líbia.

A onda de oposiçom ao imperialismo que vem sacudindo o mundo árabe desde dezembro de 2010 provocou a queda do governo de Saad Hariri no Líbano, a fuga de Zine al-Abbdine Ben Ali na Tunísia, a queda de OSN Mubarak no Egipto, distúrbios em Iemen, em Bahrein e em Arábia Saudita e confrontos em Líbia. Neste último país, o coronel Muamar al-Khadafi apoia-se nos Khadafa (tribo do centro do país) e na maioria dos Makarha (tribo do oeste) e enfrenta-se a uma ampla coalizão que, além dos Warfala (tribo do este), inclui tanto a monárquicos pro-ocidentais como a integristas wahhabitas e revolucionários comunistas ou khomeinistas.

Washington transformou esta insurreçom em uma guerra civil: os mercenários africanos da empresa israelita CST Global chegaram em auxílio de Khadafi [4] enquanto os mercenários afegãos dos serviços secretos de Arábia Saudita arribárom para apoiar aos partidários da monarquia e grupos islamistas etiqueteados como «Al-Qaeda».

Além dos combates, esta situação está a provocar uma crise humanitária internacional: em duas semanas 230 000 imigrantes fugiram do país (118 000 para a Tunísia, 107 000 para o Egipto, 2 000 para Níger e 4 300 para Argélia).

Esta cruel situaçom justifica uma nova «guerra humanitária», segundo a gastada terminologia da propaganda atlantista.

O 27 de fevereiro, os sublevados fundam o Conselho Nacional Libio de Transiçom (CNLT). Por sua vez, o ministro de Justiça Mustafa Mohamed Abud al-Djeleil, interlocutor privilegiado do Império no seio do governo de Khadafi, une-se à revolução e cria um governo provisório. As duas estruturas fundem-se em uma só o 2 de março, conservam a etiqueta CNLT mas agora é Abud al-Djeleil quem preside o Conselho. Em outras palavras, Washington conseguiu situar o seu peom na cabeça da insurreçom.

Violentas discussons produzem-se durante os primeiros debates do novo Conselho Nacional Líbio de Transição. Os elementos pró-estadounidenses proponhem recorrer à NATO para impedir os bombardeios das forças leais a Khadafi, mas a maioria opom-se.

O 5 de março, um diplomata britânico chega a Bengasi escoltados por comandos do SAS [Siglas do Special Air Service, principal força de operaçons especiais do exército britânico. Nota do Tradutor castelhano], trata de reunir com o Conselho Nacional Líbio de Transiçom e de convencê-lo de que recorra ao Conselho de Segurança da NATO, mas os sublevados recusam toda a forma de injerência e expulsam-no.

Trata-se de um resultado inesperado. Abud Al Djeleil nom consegue mudar a posição do CNLT mas convence-o de conformar um Comité de Crise presidido por Mahud Djebril. Este último pronuncia-se a favor da instauraçom de umha zona de exclusom aérea.

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Mahmud Djebril (ministro líbio de Planejamento) e Ali Esaui (embaixador na Índia) uniram-se aos sublevados. Os ocidentais escolheram-nos para representar a Líbia pós-Khadafi.

As agências de imprensa ocidentais esforçam-se por apresentar a Mahmud Djebril como «um intelectual democrata» que vinha refletindo desde faz muito sobre a evoluçom do país e que redigia um projeto titulado Visom líbia. A realidade é que Mahmud Djebril, junto do seu amigo Al Djeleil, fazia parte do governo de Khadafi como ministro de Planejamento. Ao igual que nos primeiros dias das revoluções da Tunísia e Egipto, vários quadros do regime tratam de separar do ditador para ficar no poder [pondo um paralelismo com a Transiçom à II Restauraçom Bourbónica trataria-se do Manuel Fraga e Adolfo Suárez locais; Nota do blogger].

Acham que conseguirám isto último desviando o processo revolucionário e pondo ao serviço dos interesses imperiais. De modo que agora agitam a bandeira vermelha, negra e verde do rei Idris [5] enquanto o aspirante ao trono, Mohamed Al Senussi, afirma, desde Londres e através dos canais de televisom de Arábia Saudita, que está «disposto a servir ao seu povo».

O 7 de março, o Conselho de Cooperação do Golfo, conformado por Arábia Saudita, Bahrein, os Emiratos Árabes Unidos, Kuwait, Omán e Qatar, «solicita ao Conselho de Segurança da ONU que tome as medidas necessárias para proteger aos civis em Líbia, como a imposição de uma zona de exclusão aérea». Esta absurda declaraçom desvia o debate do Conselho de Segurança que, desde a adoçom da resolução 1970 [6], vinha tratando de fazer entrar em razom ao coronel Khadafi mediante a limitaçom das suas deslocaçons e a congelaçom dos seus bens.


O Conselho de Cooperaçom do Golfo retoma assim, a nível estatal, a proposiçom do embaixador de Líbia na ONU, diplomata que já se tinha passado às bichas do CNLT.

Supostamente por iniciativa dos deputados, Mahmud Djebril viaja a Estrasburgo para informar ao Parlamento Europeu sobre a situaçom do seu país. O exército francês garante-lhe o transporte. Baixo o impulso do liberal belga Guy Verhofsdat e do ecologista franco-alemão Daniel Cohn-Bendit, o Parlamento Europeu adota uma resoluçom chamando a uma intervenção internacional [7].

O primeiro-ministro britânico David Cameron e o presidente francês Nicolas Sarkozy enviam umha carta de 7 pontos ao presidente da União Européia, Herman van Rompuy [8]. Expressam os seus desejos de que o Conselho Europeu extraordinário reconheça o CNLT, apoie uma denúncia contra Khadafi perante o Tribunal Penal Internacional e aprove uma intervençom militar internacional. Mas as suas encomendas som recusadas [9]. Alemanha nega-se a meter-se em terreno perigoso enquanto Bulgária recusa o CNLT e acusa aos seus representantes de ser criminosos implicados nas torturas às enfermeiras búlgaras que o regime mantivesse detidas por longo tempo.
Simultaneamente, os ministros de Defesa da NATO reúnem-se em Bruxelas para preparar uma possível zona de exclusom aérea [10].

O CNTL -já reconhecido por França desde o 10 de março- entrega o 12 de março uma carta ao secretário geral de Liga Árabe, Amr Moussa. O texto reflete a posiçom de Arábia Saudita: pede que «se ponha fim ao derramamento de sangue através de uma decisom que imponha umha zona de exclusom aérea em Líbia e mediante o reconhecimento do Conselho Nacional de Transiçom como representante de Líbia». Os ministros de Relacionamentos Exterioresa Liga Árabe reúnem-se imediatamente a portas fechadas no Cairo, deslegitiman à delegaçom oficial de Líbia e reconhecem o CNTL como novo interlocutor, satisfazem depois a petiçom deste último e recorrem ao Conselho de Segurança da ONU com vistas ao estabelecimento da «zona de nom sobrevoo».

Esta decisão deve ser interpretada como o que realmente é: os regimes fantoches dos Estados Unidos e Israel no mundo árabe pedem a proteçom dos seus superiores. O Conselho de Segurança pode decretar uma zona de exclusom aérea, mas nom tem como a fazer respeitar. Será a OTAN quem tenha que a impor. Som as forças imperiais, disfarçadas de capacetes azuis, quem manterám em terra à aviaçom Líbia, bombardeando os seus aeroportos e instalaçons fixas ou móveis de mísseis terra-ar e, de ser necessário, derrubando os avions.
A Liga Árabe nom deu a conhecer os detalhes do voto. Dos 22 Estados membros, só 2 votaram pelo NÃO. Foram Argélia, que teme um despregue da NATO na sua fronteira este, e Síria, o único país árabe que persiste, apesar da posiçom de todos os demais, na sua oposiçom à *hegemonía estadounidense e ao sionismo. É provável que o Líbano e outros países eleja a abstenção.

Contrariamente ao que sugerem os responsáveis ocidentais, a União Africana nunca desejou uma intervençom militar estrangeira. Pelo contrário, recusou-a explicitamente o 10 de março [11]. A razão é evidente. Está claro para todos e a cada um dos seus membros que o drama líbio está a ser amplificado de maneira totalmente intencional com vistas ao utilizar como pretexto para justificar um desembarco em massa das forças armadas estadounidenses na África.

Salvar as monarquias do Golfo
Arábia Saudita é o eixo do dispositivo imperial na regiom do Golfo. A princípios do século 20, a família Saud criou esse Estado com o apoio dos britânicos, após guerras de conquista extremamente sangrentas. Arábia Saudita e as suas reservas petrolíferas -as mais importantes do mundo- caírom dentro da órbita estadounidense ao final da Segunda Guerra Mundial. Em virtude do acordo do Quincy entre o rei Ibn Saud e o presidente Roosevelt, a família Saud está obrigada a fornecer petróleo a Estados Unidos e Estados Unidos está obrigado a garantir a proteção da família reinante, nom a proteçom do país.

Arabia Saudita nom é em realidade um Estado e nem sequer tem nome. Nom é mais que a parte de Arábia que pertence à família Saud, cujos membros administram esse território segundo os seus interesses pessoais (e os dos Estados Unidos) enquanto levam umha vida disoluta que nada tem que ver com a austeridade wahhabita da que tanto fachendeam. Como o rei Ibn Saud teve 32 esposas e 53 filhos, pelo que se decidiu, em aras de limitar os conflitos familiares, que a coroa nom se transmitisse de pai a filho, senom de irmao a irmao. O filho maior de Ibn Saud morreu de doença e foi portanto o seguinte filho, que tinha entom 51 anos, quem lhe aconteceu no trono em 1953.

Em 1960, seguiu-lhe o terceiro filho, que contava então 60 anos, e assim sucessivamente. O atual rei tem 87 anos, recentemente sofreu complicadas intervençons quirúrgicas e é provável que nom lhe fique muito tempo de vida. O seu irmao Sultan, o suposto sucessor, padece o mau de Alzheimer. O resultado de todo o anterior é um regime impopular e frágil, que já esteve a ponto de se derrubar em 1979. É por isso que tanto Riad como Washington vêem com temor as insurreçons árabes que se estám a produzir ao redor de Arábia Saudita, no Iemen e em Bahrein.

O exército de Arábia Saudita já está presente no Iemen e espera ajudar ao presidente Ali Abdullah Saleh a pôr fim à revolta, com a ajuda da CIA. Fica Bahrein.

Bahrein é umha ilhinha do tamanho de Micronésia ou da ilha de Mam. No século 18, a família dos Al-Khalifa, coirmaos da família reinante no Kuwait, arrebatárom a Pérsia esse pequeno território. De modo que a monarquia de Bahrein é sunnita enquanto a populaçom é árabe chiíta. A sua economia, a diferença das demais monarquias do Golfo, nom depende unicamente dos rendimentos do petróleo. Em Bahrein existe, no entanto, umha forte imigraçom, cerca de 40% da populaçom total, proveniente principalmente do Irám e da Índia.

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Ian Henderson, torturador ao serviço da sua Majestade Isabel II, manteve a ordem em Bahrein durante 40 anos.

Bahrein caiu na órbita britânica em 1923. Londres depôs ao emir e pôs no poder ao seu filho, mais disposto a fazer concessons. Durante os anos 1950 e 1960, nacionalistas árabes e comunistas trataram de libertar o país. O Reino Unido respondeu com o envio dos seus melhores especialistas em repressom, como Ian Henderson, conhecido desde entom como o «carniceiro de Bahrein».

Em definitiva, o país recobrou a sua independência em 1971, só para cair na órbita dos Estados Unidos, que instalou ali a sua base militar regional e estacionou nela a 5ª Frota. Novos distúrbios, inspirados na Revolução iraniana, produziram-se em Bahrein durante os anos 1980. Nos anos 1990, as forças de oposiçom -marxistas, nacionalistas árabes e khomeinistas- uniram-se em umha longa Intifada.

Acalma-a nom voltou até 1999, com a ascensom ao trono do rei Ahmad, um déspota ilustrado que instituiu uma Assembleia consultiva eleita e favoreceu o acesso das mulheres aos cargos de responsabilidade. Isto lhe valeu certa conciliaçom com a sua oposiçom histórica, mas afastou dele os extremistas da minoria sunnita que serve de apoio ao regime.

Desde o 14 de fevereiro de 2011, novas manifestaçons vinhérom tendo local em Bahrein. Organizadas ao princípio pelo Wefaq, o partido khomeinista, as manifestaçons denunciavam a corrupçom e o sistema policial. Mas o sucesso popular do movimento e a brutal repressom de que foi objeto provocaram uma rápida radicalizaçom, apesar de uma tímida tentativa de abertura do príncipe herdeiro [12].

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Ao centro, o príncipe Khalil bin Ahmad bin Muhammad Al Khalifa, ministro de Relacionamentos Exteriores do reino de Bahrein, e os seus amigos do American Jewish Committee.

A monarquia perdeu a sua legitimidade como resultado das revelações sobre o fortalecimento dos seus vínculos com o movimento sionista. A partir de 2007, os Khalifa vincularam-se com o American Jewish Committee. Segundo a oposiçom de Bahrein, ditos vínculos estabeleceram-se através de Alain Bauer, o conselheiro do presidente francês Nicolas Sarkozy. Foi o próprio Bauer quem encarregou-se de reorganizar o sistema policial de Bahrein.

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O secretário estadounidense de Defesa, Robert Gates, chegou a Manama o 13 de março de 2011 para reunir com o rei de Bahrein e expressar-lhe o apoio dos Estados Unidos. Ao dia seguinte, o exército de Arábia Saudita penetrou em Bahrein para esmagar a rebeliom.

A maioria dos manifestantes lutam agora pelo derrocamento da monarquia, o qual constitui a linha vermelha que não se pode atravessar, segundo os parâmetros das demais monarquias do Golfo e do seu protetor estadounidense. É por isso que o secretário estadounidense de Defesa, Robert Gates, viajou a Manama o 13 de março de 2011.

Oficialmente, Gates convidou ao rei a ter em conta os reclamos do seu povo e a procurar uma saída pacífica ao conflito. Claro está, esse tipo de conselho nom corresponde a um secretário de Defesa, mas a um secretário de Estado. Em realidade, o senhor Gates ia a Bahrein para concretar a parte política de uma operação militar que já estava pronta.

Ao dia seguinte, o 14 de março, os outras 5 monarquias do Conselho de Cooperaçom do Golfo dérom o seu consentimento para a ativaçom do «Escudo da península», uma força comum de intervençom prevista desde faz muito para conter a possível expansão da revoluçom khomeinista. Essa mesma tarde, 1 000 soldados de Arábia Saudita e 500 polícias dos Emiratos Árabes Unidos entravam em Bahrein.

Decretou-se o estado de urgência por espaço de 3 meses. Suspenderam-se as poucas liberdades toleradas. Na madrugada do 16 de março, as forças das monarquias, armadas e treinadas por Estados Unidos, atuaram de conjunto para desalojar aos manifestantes dos locais onde estavam a acampar. Em vez de gases lacrimógenos, utilizaram gases de combate e munição real. As autoridades reconhecem mais de 1 000 feridos de gravidade, entre os que se contam vários feridos de bala, mas só admitem 5 mortos, uma proporção muito pouco crível.

A Doutrina Obama

De modo que Washington fez a sua eleição. Após um adormecedor discurso sobre os direitos humanos e de saudar a «primavera árabe» com forçado entusiasmo, a administraçom Obama optou pola força para salvar o que ainda pode se salvar.

Ao igual que na época em que os comunistas derrocaram a monarquia afegã, foi o lacaio saudita quem recebeu de Washington o encarrego de dirigir a contrarrevoluçom. Armou a uma fação da oposiçom líbia e converteu o debate da ONU sobre sançons contra Líbia em um debate sobre a criaçom dumha zona de exclusom aérea, ou seja sobre a intervenção militar, e interveio militarmente em Bahrein.

Não há diferença entre a «doutrina Obama» e a «doutrina Brezhnev». Em 1968, os tanques do Pacto de Varsóvia punham fim à «primavera de Praga» para proteger o vacilante Império soviético. Em 2011, os blindados de Arábia Saudita esmagam o povo de Bahrein para proteger o Império anglo-saxom.

Hipnotizados pelas catástrofes naturais e nucleares que se estão a produzir ao mesmo momento no Japão, os meios de imprensa ocidentais observam o maior silêncio sobre o desenvolvimento de toda esta operação.

A Revolução francesa teve que fazer frente à invasão das monarquias que uniram as suas forças. A Revolução russa teve que enfrentar a arremetida dos exércitos brancos. A Revolução iraniana teve que enfrentar a invasão iraquiana. A Revolução árabe terá que fazer frente ao exército de Arábia Saudita.


[1] Ver: La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación, por Thierry Meyssan, Ediciones Timéli / Monte Avila, 2008.

[2] «Declaraçons de Barack Obama na Universidade de O Cairo», por Barack Obama; «El discurso de Obama en el Cairo», por Fidel Castro Ruz; «Obama y las segundas intenciones de la mano tendida a los musulmanes», por Thierry Meyssan, Red Voltaire, 4 y 9 de junio de 2009.

[3] «L’esperienza politica africana di Barack Obama», por Thierry Meyssan, in Eurasia, Rvista di Studi Geopolitici, Vol. 3, 2009.


[5] «Quand flottent sur les places libyennes les drapeaux du roi Idris», por Manlio Dinucci, Réseau Voltaire, 1º de março de 2011.

[6] «Resoluçom 1970 aprovada polo Conselho de Segurança», Red Voltaire, 26 de fevereiro de 2011.




[10] «Press conference by Anders Fogh Rasmussen on Libya», Voltaire Network, 10 de março de 2011.

[11] «Communiqué de l’Union africaine sur la Libye», Réseau Voltaire, 10 de março de 2011.

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