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05/12/2013

Primavera Árabe: em fase de desconstrução?

Noam Chomsky. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). 

 Noam Chomsky

Três anos após o início das revoluções árabes, o Oriente Médio testemunhou um caleidoscópio de desdobramentos, que vão de eleições livres à repressão violenta de mudanças. Como você descreveria, hoje, a Primavera Árabe?

No passado eu a descrevi como uma “obra em progresso”. Lamentavelmente, agora a expressão “obra em retrocesso” seria mais apropriada. As ditaduras do petróleo foram capazes de reprimir a maioria das tentativas de fazer até mesmo reformas moderadas. A Síria foi empurrada violentamente para o suicídio e provavelmente a divisão. O Iêmen está submetido à campanha terrorista global dos drones. A Tunísia encontra-se numa espécie de limbo. A Líbia carece de um governo capaz de controlar as milícias. No Egito, o maior país do mundo árabe, os militares agiram com extrema brutalidade – e um apoio popular que não deveriam receber, a meu ver – no que parece ser um esforço para restaurar seu rígido controle político e manter seu império econômico, ao reverter algumas das conquistas mais significativas do período anterior, tais como a liberdade de imprensa e a independência. Os sinais não parecem bons.

Além disso, o conflito sunita-xiita instigado pela agressão dos Estados Unidos e Reino Unido ao Iraque está despedaçando o país e espalhando-se ameaçadoramente por toda a região. Há duas partes do mundo árabe que permanecem sendo efetivamente colônias: o Sahara Ocidental, onde as manifestações por democracia no final de 2010 foram duramente reprimidas e a luta de sua população por liberdade foi quase esquecida; e, claro, a Palestina. Lá, as negociações estão em andamento conforme as duas precondições essenciais impostas pelos EUA e Israel: que não haja barreiras à expansão dos assentamentos israelenses ilegais e que as negociações sejam encaminhadas pelos EUA. Ocorre que Washington é parte no conflito (ao lado de Israel) e vem bloqueando um consenso internacional indiscutível sobre um acordo diplomático desde 1976, com raras e temporárias exceções.

Sob tais precondições, as negociações tendem a ser pouco mais do que um disfarce para Israel levar adiante seus programas de integrar o que considera aproveitável, na Cisjordânia (inclusive alguns poucos árabes, para evitar o “problema demográfico”, e de separar a Cisjordânia de Gaza – o que viola os Acordos de Oslo e mantém um cerco brutal. Não é um momento brilhante, mas as fagulhas acesas pela Primavera Árabe provavelmente explodirão em chamas novamente.

As esperanças iniciais de uma trajetória linear em direção ao empoderamento e à democracia há muito desapareceram. A euforia teria sido um engano? Onde e quando as coisas deram errado?

Nunca deveria ter havido esperança de uma trajetória linear. A Primavera Árabe foi um processo de importância histórica, que ameaçou muitos interesses poderosos. O poder não diz “agradecemos por nos desmantelar” e sai andando calado.

As reações do Ocidente oscilaram desde a intervenção militar até a indiferença, como vimos nos Estados do Golfo. Você percebe algum padrão subjacente?

O padrão implícito é familiar: apoio ao ditador favorito durante o maior tempo possível. Se isso tornar-se impossível, porque os militares ou a elite econômica voltaram-se contra ele por alguma razão, então trate de enviá-lo para algum lugar, faça declarações tocantes sobre seu amor à democracia, e tente restaurar a velha ordem tanto quanto possível. Acontece repetidas vezes. Para mencionar apenas algumas: Somoza, Ferdinando Marcos, Duvalier, Suharto, Mobutu…

É uma política natural para um poder imperial – logo, completamente familiar. Também é natural que isso seja ocultado. A tarefa da comunidade intelectual é apoiar o poder e justificá-lo, não miná-lo – embora alguns quebrem as regras.

Uma das linhas de clivagem regional parece ser o conflito entre forças seculares e religiosas. De que maneira essa dicotomia pode ser tratada construtivamente? Que papel devem desempenhar os governos ocidentais?

Nem a história, nem a lógica, nem a análise política ou qualquer outra fonte que não a propaganda nos dá razões para esperar que os sistemas de poder desempenhem um papel construtivo, a não ser em seu próprio interesse. Isso vale para os sistemas ocidentais, em especial. Na do Oriente Médio e Norte da África, os maiores poderes – EUA e Grã Bretanha – têm apoiado de modo bastante consistente o Islã radical contra o nacionalismo secular. O favorito tem sido a Arábia Saudita, o estado islâmico de radicalismo mais extremo, e um estado missionário, que espalha suas doutrinas wahabistas-salafistas por toda a região.

Há estudos acadêmicos excelentes e detalhados sobre a “promoção da democracia” dos EUA por seus mais proeminentes defensores, que admitem, com relutância, que o governo apoia a democracia apenas se e quando ela está de acordo com os interesses econômicos e estratégicos – como qualquer pessoa racional poderia prever.

Que papel eles deveriam desempenhar? Isso é fácil. Eles deveriam apoiar a liberdade, a justiça, os direitos humanos, a democracia. Podemos dizer o mesmo sobre a Rússia e a China. Até certo ponto, forças populares organizadas podem pressionar os governos nessa direção, mas há poucos sinais disso, hoje, por várias razões.

Em outro nível, tensões religioss parecem estar em ascensão. Já em 2004 o rei Abdullahda Jordânia falou de um “Crescente Xiita”. A imagem de uma guerra por procuração entre sunitas e xiitas é apropriada para compreender os atuais conflitos na região?

Uma das conseqüências mais sombrias da agressão dos EUA e Reino Unido ao Iraque foi acender conflitos entre sunitas e xiitas que já haviam sido controlados, levando a uma história de horror que está despedaçando o Iraque e espalhando-se pela região, com efeitos terríveis e ameaçadores.

E a honestidade nos levaria a recordar o julgamento de Nuremberg, um dos fundamentos do direito internacional moderno. Definiu-se que a agressão seria “o supremo crime internacional, diferindo de outros crimes de guerra na medida em que contém, em si, o mal acumulado no todo”. Isso inclui os conflitos sectários, entre muitos outros crimes. A honestidade também nos levaria a recordar a frase que Robert Jackson, um membro da Suprema Corte dos EUA proferiu no mesmo tribunal: estamos dando a esses réus “um cálice envenenado”; se cometermos crimes semelhantes, devemos sofrer as mesmas consequências – ou então este Tribunal é uma farsa, não passa de justiça dos vencedores. Uma medida do abismo entre a cultura moral-intelectual do Ocidente e sua civilização é o quão bem estas palavras foram ouvidas…

05/01/2012

Os conflitos máis violentos de 2011

Artigo tirado de aquí e traducido por nós.
Soldado ugandés na fronte norte de Mogadiscio, Somalia. Setembro 2011. Foto: HERNÁN ZIN

Como xa escribimos nestas páxinas en varias ocasións, a guerra tradicional, entre estados e exércitos profesionais, pertence ao pasado. De feito, do dez conflitos que en 2011 provocaron máis de 1.000 mortos, ningún responde a estas características.

A violencia no século XXI pasa por aqueles territorios onde os gobernos apenas exercen o seu poder e grupos terroristas, insurxentes ou simplemente delituosos campan ás súas anchas. Enfrontamentos armados de lóxica difusa, sen frontes, onde a peor parte lévana os civís.

Nas próximas entradas repasaremos un a un este dez conflitos, a súa evolución ao longo do 2011 e as súas perspectivas para 2012.

Algúns dos cales narramos desde o terreo nestas páxinas como Somalia, Afganistán ou Sudán, e outros de novo cuño, provocados polas lexítimas ansias de liberdade e democracia, como Iemen, Libia ou Siria.

Unha lista de dez guerras que, en número de mortos, encabeza México con 12.539 asasinatos relacionados coas drogas en 2011. Un aumento do 6,3% con respecto a 2010.

Logo vén Afganistán. E despois Iraq. Aínda que a prensa xa case non lles dedique titulares, o certo é que 4.063 civís morreron o pasado ano na nación do Tigris e o Éufrates, que empeza o 2012 con apenas 200 soldados de EUA no seu territorio (os encargados de velar pola seguridade da embaixada, na chamada Zona Verde de Bagdad).

Paquistán e Colombia pechan esta listaxe ao que debemos sumar unha vintena de conflitos de longa duración se queremos realizar unha radiografía máis exhaustiva da violencia no noso mundo.

Entre estes últimos, que non superaron o milleiro de mortos en 2011, o máis antigo é o de Corea do Norte e do Sur, seguido polas loitas internas en Birmania, e logo a resposta á ocupación de Palestina.

01/12/2011

Iemen: a revolución ignorada

Mónica G. Prieto é a correspondente en Beirut de periodismohumano. Artigo tirado de SinPermiso (aquí) e traducido por nós para o galego.



O máximo que dedicou a comunidade internacional a preocuparse pola revolución social que move a centenares de miles en Iemen desde xaneiro foi dous minutos. Cento vinte segundos malgastados polo Consello de Seguridade o 21 de outubro para debater como reaccionar ante a represión armada dunha poboación que se botou masivamente ás rúas para acabar con 33 anos de ditadura, ante a ameaza de que o conflito armado entre o réxime e as tropas desertoras dexenere noutra guerra civil e ante a crise humanitaria -admitida polas propia Nacións Unidas- que axexa ao país e agrávase día a día.

"Só dous minutos. E sabe que facían as tropas do presidente Saleh neses dous precisos minutos? Disparar aos manifestantes", explica recostado na cadeira de brazos dun céntrico café de Beirut Farea ao Muslimi, un dos máis destacados activistas iemenís e un dos máis activos nos medios co obxectivo de xerar certa conciencia social no exterior.

A Farea non lle estrañou que o Consello de Seguridade despachase o dossier iemení con máis prema do que se ordena a cea nun restaurante. No diario de sesións, a resolución 2014 nin sequera é identificada co nome do país, simplemente refírense a ela como "Resolución sobre Oriente Próximo". Máis indignante resulta aínda o seu contido, un milleiro de mortos e 19.000 feridos despois do inicio das protestas sociais. "En Human Rights Watchnos sentímonos decepcionados por un texto que resulta contraditorio", explica con certo asombro na súa voz Christophe Wilcke, investigador de HRW para Iemen, contactado por teléfono. "Por unha banda pide que todos os actores respondan os seus crimes, e nós opinamos que iso inclúe a Abdullah Ali Saleh, pero doutra banda apoia a iniciativa do Consello de Cooperación do Golfo [que media no conflito entre o réxime e a súa poboación con ningún éxito] que outorga inmunidade a Saleh".

Ou o que é o mesmo, o Consello de Seguridade regalou a Saleh unha licenza internacional para matar. Mentres se votaba a primeira resolución sobre a actual crise en Iemen, os disparos tronaban pola capital, Sanaa, para desesperación dos cidadáns. Horas despois, o balance en sangue ascendía, segundo a prensa local, a 20 mortos no contexto da guerra interna que mantén Saleh co xeneral desertor Ali Mohsen, o seu curmán, o seu antigo aliado e agora o seu principal inimigo, quen planta cara ao ditador á fronte da I División do Exército, ao seu mando e en teoría á beira dos manifestantes.

"Desde hai unha semana, os disparos e bombardeos son case diarios", explica por teléfono desde Sanaa Atiaf ao Wazir, responsábel do blogue Women from Iemen e outra das caras públicas da revolución. "As tropas do réxime atacan aos desertores, fortes en Hasaba e Sofan [feudos do poderoso líder tribal Ahmed ao Ahbar, que tamén abandonou ao ditador] e tememos unha escalada do seu enfrontamento. Pero iso non ten nada que ver coa acampada pacífica que levamos a cabo desde febreiro", continúa mediante a sucia liña telefónica. "Saleh conseguiu que os medios poñan o foco nos combates, pero son un detalle moi pequeno comparado coa revolución", insiste Farea, 21 anos e estudantes de Ciencias Políticas.

Revolución? Que revolución? A ausencia de información sobre Iemen é clamorosa. Desde xaneiro, as súas marchas son multitudinarias. Ríos de homes e mulleres tapizan rúas enteiras coreando berros de cambio, liberdade e dignidade. A súa loita é a mesma que calquera outra nación árabe sometida a ditadura, e os seus mortos tamén caen abatidos por balas dos soldados que deberían defenderlles. "En Iemen invístense miles de millóns de dólares nun Exército que nunca nos defendeu dunha agresión externa", resume abatido Faria. O país árabe máis pobre, máis inestábel, o segundo lugar do mundo con máis armas por cabeza -15 millóns, 61 por cada 100 habitantes- despois de Estados Unidos e un dos máis instrumentalizados por potencias estranxeiras, desde os EUA a Arabia Saudita pasando por Al Qaeda, carece de atención internacional. E cada minuto de silencio traizoa a un pobo que desafiou o medo e a impunidade para emprender unha revolución pacífica que desemboque nunha democracia.

En xaneiro e febreiro, as primeiras marchas de decenas de miles de persoas transformáronse nun campamento permanente xunto á Universidade, na que foi bautizada como Praza do Cambio. Mozos e nenos, homes e mulleres, urbanitas e membros de tribos que meses antes nunca se relacionaron co resto instaláronse sen unha soa arma para esixir a saída de Saleh, que pretendía entregar en herdanza a Presidencia ao seu fillo perpetuando así un sistema militar, corrupto e ditatorial baseado no medo.

Obrábase así un milagre. "O ano pasado toda esa xente non se viu as caras salvo que estivesen a empuñar as armas. Por primeira vez nas últimas décadas, os iemenís unímonos. Saleh fíxonos pensar durante anos que eramos serpes, dicía que gobernar Iemen era como bailar sobre cabezas de serpes, pero esta revolución serviunos para mirarnos uns a outros. E descubrimos que non somos malos nin temíbeis, senón que somos boas persoas e que podemos convivir xuntos".

Farea ao Muslimi emociónase lembrando unha escena na Praza do Cambio de Sanaa á que asistiu hai un mes, antes de abandonar Iemen para renovar estudos en Beirut. "Apareceu un mozo en pantalón curto e con gorra, o típico mozo Facebook, e sentou a conversar cun home maior, membro dunha tribo, ataviado coa roupa típica. E puxéronse a discutir sobre a conveniencia de levar veo. O mozo dicíalle que iso non figuraba no Corán, o outro argumentaba que era o islámicamente correcto. É unha conversación impensábel tempo atrás. Esta revolución rompeu a brecha xeracional e algo máis. Antes só nos mirabamos á cara para combaternos, agora facémolo para construír algo pacíficamente".

O certo é que aos iemenís sóbranlles motivos para promover unha revolución, como detalla o mozo universitario."O 50% do país é pobre, unha quinta parte da poboación morre por falta de alimentos, sete millóns vanse á cama con fame, nos meus 21 anos de vida vivín sete guerras, nunca tivemos paz, nin igualdade, nin liberdade. Ou existimos ou non existimos. Ou saímos á rúa ou aceptamos morrer en silencio. Podemos morrer de fame ou morrer nas rúas pola nosa dignidade e a dos nosos".

E optaron pola última opción. Saleh comezou entón un xogo de promesas traizoadas que só lle servían para gañar tempo e obter silencio internacional. Primeiro prometía reformas, logo que non entregaría o poder ao seu fillo, máis tarde non volver optar ao poder, finalmente abandonar o seu cargo cando recibise garantías que nunca lle pareceron suficientes. E mentres tanto, ordenaba ás súas tropas atacar con lume real e gas lacrimóxeno aos manifestantes desarmados, que xa ocupaban as principais prazas e rúas de todo Iemen, desde Taiz até Aden, de Sanaa a Mukalla. Un insoportábel goteo de dúcias de mortes que case alcanzan xa o milleiro. Mesquitas convertidas en hospitais de campaña, barrios evacuados polos seus habitantes por temor aos disparos. E o efecto contrario ao desexado.

Como ocorreu co resto das ditaduras, cada morte civil arrastraba a máis xente ás rúas. As decenas se conviertieron en centenares e aos líderes iniciais sumáronse responsábeis relixiosos como Sheikh Abdul-Majid Ao-Zindani até militares como o citado Ali Mohsen, desde moitas tribos do país até os independentistas do sur ou os houthis, os rebeldes zaidíes que combaten no norte contra a discriminación da súa comunidade. Para asombro de moitos mozos que pretenden cambiar o sistema que todos eles representan. "Pero a revolución non é un xardín privado. Todo aquel que acepte os seus principios pode participar", subliña Farea.

Algúns preocupáronse cando viron pasearse entre as súas filas o familiar rostro do xeneral Ali Mohsen, coñecido polos seus desmáns á beira da familia Saleh. "É certo que a súa presenza nos dividiu", confía Atiaf, unha das activistas que participou na redacción dos principios da revolución. "Non saímos ás rúas para substituír a Saleh por Ali Mohsen. Queremos un Estado de Dereito, un Goberno que nos represente, un Estado civil baseado en democracia", incide Farea. "Ali Mohsen non representa ningún cambio, foi un sanguento e corrupto amigo de Saleh, o mesmo que [o líder tribal máis influente do país] Ahmar", insiste Atiaf ao Wazir. Pero non se lles pode impedir sumarse á revolución". Tampouco se pode impedir que tomen as armas para defender aos manifestantes dos disparos do réxime, convertendo Sanaa nunha cidade militarizada e comezando os combates que hoxe en día paralizan a cidade. "Hai checkpoints por todos sitios, algúns amigos contaron cantos hai do centro ao aeroporto: saen 16. Algúns son dos desertores, outros de Saleh", detalla Fatima Saleh, outra activa twittera iemení implicada na revolución social.

Como demostra a ambigua resolución 2014, as vidas humanas saen baratas en Iemen. Décadas de guerras e a máis recente aparición de Al Qaeda estigmatizaron ao país máis pobre do mundo árabe, sen recursos enerxéticos que inquieten aos dirixentes occidentais. "Iemen non ten importancia para a comunidade internacional. Carece de petróleo e non ten a Israel nas súas fronteiras, así que non afecta os intereses rexionais", avalía Hakim ao Masmari, director do diario Iemen Post, en conversación telefónica desde Sanaa. "Saleh é como calquera outro ditador: sente forte porque non sente cuestionado, pero en calquera momento pode descubrir a súa debilidade. Continuará coa súa axenda porque pensa que ninguén pode botarlle do poder".

Tanto Ao Masmari como Wilcke, así como Ataif ao Wazir e outros activistas, responden de forma automática que podería facerse para parar ao ditador. Sancións económicas, prohibición de viaxar para el e os seus -das forzas a cargo do seu fillo e os seus sobriños depende o seu poder militar-, conxelación de bens no estranxeiro, asfixia económica. "A revolución iemení foi abandonada a diferenza doutras revolucións principalmente polos EUA e Arabia Saudita", explica a Xornalismo Humano mediante correo electrónico Noon Arabia, pseudónimo da autora do blogue Notas de Noon e unha das twitteras máis activas e influentes en relación con Iemen. "Saleh foi compracente coa política saudita en Iemen, foi un servidor leal e tamén un aliado estadounidense na chamada guerra contra o terror permitíndolles atacar con drones [avións non tripulados] territorio iemení cando o desexen a cambio de recibir axudas militares. Ambos os países desexan manter o status quo a pesar da súa retórica sobre a necesidade de que abandone o poder. E dado que os medios de comunicación principais están financiados por eses países, faise a vista gorda sobre o que pasa en Iemen".

Para os grandes medios, Iemen é Al Qaeda. Para os iemenís, Al Qaeda é unha mera anécdota nunha vida de sufrimentos. Porén desde que Saleh vendeu o espazo aéreo a Washington a cambio de axuda militar, esa anécdota custa vidas e condena a familias enteiras. O asasinato de Abdul Rahman ao Awlaqi foi un punto de inflexión. A finais de setembro, os EUA felicitábase publicamente por asasinar o seu pai, Anwar ao Awlaqi, cidadán norteamericano-iemení e un dos comandantes locais de Al Qaeda, mediante un bombardeo aéreo. O 14 de outubro, a poboación conmocionábase tras coñecer a morte do seu fillo Abdul Rahman, de 16 anos, un adolescente fan dos libros Harry Potter e sériea Crepúsculo, noutro ataque aéreo. A súa familia sostén que foi bombardeado mentres participaba nunha parrillada cos seus amigos. "Era un mozo que acudía á escola e que non podía ser máis alleo á loita do seu pai. O seu único delito foi estar xunto a el. Se falan tanto de promover a democracia, o mímino que deberían facer é arrestarlos para levarlos a xuízo en lugar de executarlos", di Atiaf con rabia.

Al Qaeda é o espantallo que emprega Saleh para conservar as súas alianzas. Sobre todo, desde que o grupo terrorista tentou asasinar a un dos príncipes máis influentes de Arabia Saudita, o ultraconservador Nayef, ministro do Interior e moi posibelmente novo herdeiro do trono wahabi tras a recente morte do príncipe Sultan, mediante un suicida forrado de explosivos en agosto de 2009. Iemen xoga un papel central nas accións de Al Qaeda desde a súa fundación, mais cobrou peso nos últimos anos estendendo as súas ambicións até Estados Unidos, onde organizou algúns atentados con escaso éxito. A súa forza radica, a xuízo dos activistas iemenís, na sibilina estratexia do réxime de Saleh.

"O réxime engana a Occidente dicíndolle que manterse no poder reducirá a influencia de Al Qaeda, pero o meu seguimento das noticias de Iemen faime pensar que o réxime distribuíu armas a algúns grupos escindidos das forzas de Seguridade para atemorizar a Occidente. É unha mensaxe que di 'mirade o que pode pasar se o réxime cae", puntualiza Fatima Saleh. É un temor estendido na sociedade iemení. "Durante anos Saleh xogou co extremismo", aduce Atiaf. "Úsaos, detenos, libéraos, déixaos escapar, sérvese deles para conseguir os seus obxectivos políticos". E mentres, a poboación sofre os bombardeos norteamericanos cos que Washignton búrlase da legalidade internacional que esixe aos demais. "En Abiyan os bombardeos deixaron 90.000 desprazados", lamenta Atiaf. "Foron instalados en escolas, pero iso deixou sen colexio a todos os nenos da rexión. Todo iso crea un enorme resentimento cara a Estados Unidos". En total, as diferentes formas de violencia crearon uns 300.000 desprazados en todo o país, que viven en condicións inhumanas.

Farea, fiel aos seus estudos universitarios, explica a presenza de Al Qaeda en Iemen -alí ten a súa base Al Qaeda na Península Arabiga, ou AQAP, unha das principais plataformas da organización da organización de Bin Laden en todo o mundo- como resultado da política da ditadura. "O Goberno non nos defende de Al Qaeda. Non existe un contrato social no meu país, por iso prosperan organizacións fanáticas como esa. A desigual distribución de recursos afecta mesmo á xente máis preparada, ninguén ten esperanzas porque a corrupción impide acceder a un traballo salvo que teñas diñeiro ou influencias. Para moita xente, Al Qaeda é a única opción. Ofrécenche un soldo e un paraíso, quen dá máis? Saleh alimenta a Al Qaeda co seu réxime corrupto. E non vai ser tan estúpido como para acabar con eles porque perdería millóns en concepto de cooperación militar". Por iso é polo que o pobo, segundo este mozo activista, vexa cos mesmos ollos á ditadura, a Al Qaeda e a Estados Unidos. "Perdémoslles o respecto. Eles non se preocupan polas vidas humanas, danan a nosa economía, non nos representan. A xente está farta".

Sen unha firme reacción internacional, que posibilidades teñen os mozos iemenís que insisten en perpetuar a súa protesta pacífica? "A diferenza con Tunes e Exipto é que alí o Exército está fundado sobre unha base nacional; en Iemen estao sobre unha base familiar", lamenta Ao Muslimi. Refírese á Garda Republicana e ás divisións comandadas por familiares de Saleh, as mellor pertrechadas do país. "Hai que parar aos militares, pero é imposíbel mentres lles siga chegando diñeiro en concepto de axuda militar", engade Ataif en alusión ás doazóns norteamericanas a cambio de que Saleh combata -oficialmente- a Al Qaeda.

Agora é cuestión de paciencia, argumentan os entrevistados, e de evitar a tentación de tomar as armas. "A revolución non é unha carreira. Os precedentes puxeron o listón moi alto, pero non temos présa por que a revolución triunfe. Esperamos 33 anos e podemos seguir esperando; pola contra, levaremos ao noso país ao inferno", engade Farea nunha sucinta alusión a unha revolución armada. "Sabemos que isto non terminará cando Saleh se vaia do poder. Tratará de quedar ao seu fillo e os seus sobriños e teremos que seguir loitando pacíficamente. Serán anos de loita, pero se aguantamos 33 anos de ditadura podemos facelo", engade Atiaf.

Sorprende a cantidade de mulleres activistas que traballan na revolución iemení. Nas manifestacións, miles de mulleres ataviadas con niqab corean consignas separadas dos homes, segundo corresponde a unha sociedade moi tradicional, pero non dubidan en tomar accións drásticas e provocadoras como queimar veos para chamar a atención dos medios. Atiaf, Fatima ou Noon Arabiya non son casos illados, como demostra o feito de que a principal activista do país, Tawakol Karman, presidenta da ONG Mulleres Xornalistas Sen Cadeas, fose recoñecida co Premio Nobel da Paz xunto a outras dúas mulleres. Explícanmo desde Iemen entre risas. "Quince millóns de mulleres iemenís levamos facendo a revolución desde hai anos". Ou séculos. "Lembra á raíña de Saba", di Farea cun aberto sorriso. Ela reinou antes de que chegase o Islam a Iemen; anos despois, outra muller accedería ao trono do país islamizado, Arwa bin Ahmad ao Sulaihi: gobernaría 55 anos.

Para elas e eles, o temor máis estendido é que Saleh aprenda a lección equivocada do exemplo libio e opte por combater até a morte para conservar o poder. "Moitos están a esperar unha guerra, ou polo menos enfrontamentos moi duradeiros entre a I División e a Garda Republicana en Sanaa e o milicianos prol-revolucionarios e a Garda Republicana en Taiz", explica Fatima mediante e-mail enviado desde Sanaa. "Saleh ten moi mala intención, está a tentar empuxar á guerra á xente implicada na revolución pacífica usando calquera medio ao seu alcance para provocalos", prosegue a activista.

Con todo, Ao Masmari descarta un conflito a grancd escala. "Trátase dunha guerra persoal entre Ali Mohsen e Saleh e aí vaise a quedar. Os iemenís non van combater, as marchas seguirán sendo pacíficas", estima o director do Iemen Post. Atiaf ao Wazir teme que as cousas cambien rápido. "Durante nove meses a revolución foi pacífica, pero a xente pacífica está a ser atacada con armas. Se o enfrontamento militar se estendese, é impredicíbel o que pode pasar porque ambas as partes teñen grandes arsenais". Con todo, descarta que os movementos xa armados como os separatistas do sur ou os houthis implíquense nunha guerra. "Non creo que se involucren porque non sacarían beneficios, pero é certo que ambos os lados, tanto as hostes de Ali Mohsen como as de Saleh teñen moitísimas armas tras anos de guerra e anos de compras de subministracións bélicas. A demostración de forza pode converterse nun enfrontamento aberto".

Parece claro que a mocidade iemení está farta de violencia. "Crecemos rodeados de armas, xa non queremos máis balas", desestima Farea cun xesto casual. "Esta revolución é pacífica ou non é. Porén non se que vai ocorrer cando se acabe a paciencia dos iemenís. Se se decepcionan poden converterse nun volcán. Teñen potencial e gañáronse o cambio tras nove meses manifestándose en paz. Imaxine todo ese potencial con armas". Farea se mesa o queixo antes de proseguir. "Eu prefiro non pensar niso: non son o bastante valente para imaxinar como sería Iemen se se opta pola vía armada".

Tras dez meses de revolución social e un milleiro de mortos, unha morna resolución do Consello de Seguridade concede inmunidade ao ditador Ali Abdullah Saleh, responsábel da represión militar contra civís. A práctica totalidade da sociedade iemení uniuse en contra do tirano, nunha estraña irmandade pouco común no país árabe.

21/03/2011

Médio Oriente: a contrarrevoluçom de Obama

Thierry Meyssan. Artigo tirado de aqui e traduzido por um dos gestores deste blogue para o galego-português.

http://www.voltairenet.org/IMG/jpg/1-2584-2.jpg
A encomenda do rei Hamad ibn Isa Al-Khalifa e com o apoio dos Estados Unidos, as tropas de Arábia Saudita penetram em Bahrein o 14 de março de 2011 para esmagar a revolta.

Após reunir-se em Paris com três emissários da rebeliom, o presidente francês Nicolas Sarkozy anunciou, na quinta-feira 10 de março de 2011, que França já não reconhece ao regime do coronel Khadafi como representante de Líbia senom o Conselho Nacional Líbio de Transiçom (CNLT).

Trata-se, neste caso, de um ato contrário a toda a tradiçom diplomática da França que, até agora, sempre nunca reconhecia governos senom Estados. Anteriormente, o 4 de dezembro de 2010, França reconhecia a Alassane Ouattara como presidente de Costa de Marfim, em local de Laurent Gbagbo.

No caso de Costa de Marfim, a maioria da comunidade internacional imitou a decisão de Paris, que espera provocar agora uma reaçom similar no tocante a Líbia. No entanto, ninguém pode deixar de notar que as decisons do presidente Nicolas Sarkozy nom respondem aos interesses da França -cujas empresas estám a ser expulsadas de Costa de Marfim e nom demorarám de ser igualmente expulsadas de Líbia- senom que fôrom tomadas em resposta a encomendas expressas das administraçons do presidente estadounidense Obama e do primeiro-ministro israelita Netanyahu.

Duas operações desenvolvem-se de forma simultânea: a deslocaçom do dispositivo militar estadounidense para a África e o salvamento dos regimes fantoches no mundo árabe.

Meter as tropas imperiais na África

Como vim explicando constantemente desde faz 4 anos e médio, a vitória da resistência libanesa ante Israel no verao de 2006 pôs fim à estratégia estadounidense de redesenho do «Médio Oriente alargado» (Greater Middle East) [1]. Apesar de diversas tentativas, como a «mão tendida» de Barack Obama no seu discurso do Cairo [2], Washington não conseguiu elaborar a sua estratégia de reposto. Tudo parece seguir como dantes, mas em realidade Estados Unidos está-se desentendendo pouco a pouco dessa região.

Após tudo, as reservas petrolíferas do Médio Oriente estám em declive e umha intromisom militar, em massa e cara, só reporta benefícios em longo prazo, pelo que Washington olha atualmente para outras latitudes [a China é um feroz competidor por esse mesmo petróleo tanto nas Áfricas como no Médio Oriente e levava vantagem até agora nas Áfricas; N. do blogger]. Depois de ter estudado a possibilidade de concentrar nas Caraíbas, o Império olha agora para a África. Tem que se apressar porque em 2013 o 25% do petróleo e das matérias primas que se consumam nos Estados Unidos sairá do continente negro. Definitivamente convencido pelos trabalhos do instituto de reflexom e propaganda israelita Institute for Advanced Strategic & Political Studies (IASPS), Washington acelerou a criaçom do AfriCom.

O verdadeiro poder que está governando Estados Unidos desde o golpe de Estado do 11 de setembro de 2011 pôs entom a Barack Obama na Casa Branca e ao general William E. Ward no AfriCom.

Recordarám vocês que o senador de origem kenyano Barack Obama trabalhou ativamente na criaçom desse dispositivo e que empreendeu uma gira especial por África em agosto de 2005, gira que terminou com umha rendiçom de contas na sede do AfriCom, em Stuttgart. O senador Obama ocupou-se entom especialmente dos interesses das assinaturas farmacêuticas no continente negro e dos preparativos para a divisom do território de Sudão [3].

O general Ward, por sua vez, não é simplesmente um negro estadounidense, senom que é também o ex responsável da ajuda estadounidense de segurança à Autoridade Palestiniana, ou seja foi o coordenador de segurança entre Mahmud Abbas e Ariel Sharon. Esteve a cargo da aplicaçom do «roteiro» e da retirada unilateral das forças israelitas de Gaza -anterior à construçom do muro de separaçom, à divisom dos territórios palestinianos em dois (Gaza e Cisjordânia) e à sua transformaçom em «bantustanes» separados entre si.

O conflito de Costa de Marfim entre Laurent Gbagbo, eleito pela maioria da população nacional, e Alassane Ouattara, que goza do apoio de uma minoria local e dos imigrantes originários de Burkina Fasso, marca o início do plano de «redesenho da África». Falta encontrar uma porta primeiramente para as tropas imperiais já que todos os Estados africanos expressaram oficialmente a sua oposiçom ao despregue do AfriCom em território africano. É neste ponto que intervém a sublevaçom líbia.

A onda de oposiçom ao imperialismo que vem sacudindo o mundo árabe desde dezembro de 2010 provocou a queda do governo de Saad Hariri no Líbano, a fuga de Zine al-Abbdine Ben Ali na Tunísia, a queda de OSN Mubarak no Egipto, distúrbios em Iemen, em Bahrein e em Arábia Saudita e confrontos em Líbia. Neste último país, o coronel Muamar al-Khadafi apoia-se nos Khadafa (tribo do centro do país) e na maioria dos Makarha (tribo do oeste) e enfrenta-se a uma ampla coalizão que, além dos Warfala (tribo do este), inclui tanto a monárquicos pro-ocidentais como a integristas wahhabitas e revolucionários comunistas ou khomeinistas.

Washington transformou esta insurreçom em uma guerra civil: os mercenários africanos da empresa israelita CST Global chegaram em auxílio de Khadafi [4] enquanto os mercenários afegãos dos serviços secretos de Arábia Saudita arribárom para apoiar aos partidários da monarquia e grupos islamistas etiqueteados como «Al-Qaeda».

Além dos combates, esta situação está a provocar uma crise humanitária internacional: em duas semanas 230 000 imigrantes fugiram do país (118 000 para a Tunísia, 107 000 para o Egipto, 2 000 para Níger e 4 300 para Argélia).

Esta cruel situaçom justifica uma nova «guerra humanitária», segundo a gastada terminologia da propaganda atlantista.

O 27 de fevereiro, os sublevados fundam o Conselho Nacional Libio de Transiçom (CNLT). Por sua vez, o ministro de Justiça Mustafa Mohamed Abud al-Djeleil, interlocutor privilegiado do Império no seio do governo de Khadafi, une-se à revolução e cria um governo provisório. As duas estruturas fundem-se em uma só o 2 de março, conservam a etiqueta CNLT mas agora é Abud al-Djeleil quem preside o Conselho. Em outras palavras, Washington conseguiu situar o seu peom na cabeça da insurreçom.

Violentas discussons produzem-se durante os primeiros debates do novo Conselho Nacional Líbio de Transição. Os elementos pró-estadounidenses proponhem recorrer à NATO para impedir os bombardeios das forças leais a Khadafi, mas a maioria opom-se.

O 5 de março, um diplomata britânico chega a Bengasi escoltados por comandos do SAS [Siglas do Special Air Service, principal força de operaçons especiais do exército britânico. Nota do Tradutor castelhano], trata de reunir com o Conselho Nacional Líbio de Transiçom e de convencê-lo de que recorra ao Conselho de Segurança da NATO, mas os sublevados recusam toda a forma de injerência e expulsam-no.

Trata-se de um resultado inesperado. Abud Al Djeleil nom consegue mudar a posição do CNLT mas convence-o de conformar um Comité de Crise presidido por Mahud Djebril. Este último pronuncia-se a favor da instauraçom de umha zona de exclusom aérea.

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Mahmud Djebril (ministro líbio de Planejamento) e Ali Esaui (embaixador na Índia) uniram-se aos sublevados. Os ocidentais escolheram-nos para representar a Líbia pós-Khadafi.

As agências de imprensa ocidentais esforçam-se por apresentar a Mahmud Djebril como «um intelectual democrata» que vinha refletindo desde faz muito sobre a evoluçom do país e que redigia um projeto titulado Visom líbia. A realidade é que Mahmud Djebril, junto do seu amigo Al Djeleil, fazia parte do governo de Khadafi como ministro de Planejamento. Ao igual que nos primeiros dias das revoluções da Tunísia e Egipto, vários quadros do regime tratam de separar do ditador para ficar no poder [pondo um paralelismo com a Transiçom à II Restauraçom Bourbónica trataria-se do Manuel Fraga e Adolfo Suárez locais; Nota do blogger].

Acham que conseguirám isto último desviando o processo revolucionário e pondo ao serviço dos interesses imperiais. De modo que agora agitam a bandeira vermelha, negra e verde do rei Idris [5] enquanto o aspirante ao trono, Mohamed Al Senussi, afirma, desde Londres e através dos canais de televisom de Arábia Saudita, que está «disposto a servir ao seu povo».

O 7 de março, o Conselho de Cooperação do Golfo, conformado por Arábia Saudita, Bahrein, os Emiratos Árabes Unidos, Kuwait, Omán e Qatar, «solicita ao Conselho de Segurança da ONU que tome as medidas necessárias para proteger aos civis em Líbia, como a imposição de uma zona de exclusão aérea». Esta absurda declaraçom desvia o debate do Conselho de Segurança que, desde a adoçom da resolução 1970 [6], vinha tratando de fazer entrar em razom ao coronel Khadafi mediante a limitaçom das suas deslocaçons e a congelaçom dos seus bens.


O Conselho de Cooperaçom do Golfo retoma assim, a nível estatal, a proposiçom do embaixador de Líbia na ONU, diplomata que já se tinha passado às bichas do CNLT.

Supostamente por iniciativa dos deputados, Mahmud Djebril viaja a Estrasburgo para informar ao Parlamento Europeu sobre a situaçom do seu país. O exército francês garante-lhe o transporte. Baixo o impulso do liberal belga Guy Verhofsdat e do ecologista franco-alemão Daniel Cohn-Bendit, o Parlamento Europeu adota uma resoluçom chamando a uma intervenção internacional [7].

O primeiro-ministro britânico David Cameron e o presidente francês Nicolas Sarkozy enviam umha carta de 7 pontos ao presidente da União Européia, Herman van Rompuy [8]. Expressam os seus desejos de que o Conselho Europeu extraordinário reconheça o CNLT, apoie uma denúncia contra Khadafi perante o Tribunal Penal Internacional e aprove uma intervençom militar internacional. Mas as suas encomendas som recusadas [9]. Alemanha nega-se a meter-se em terreno perigoso enquanto Bulgária recusa o CNLT e acusa aos seus representantes de ser criminosos implicados nas torturas às enfermeiras búlgaras que o regime mantivesse detidas por longo tempo.
Simultaneamente, os ministros de Defesa da NATO reúnem-se em Bruxelas para preparar uma possível zona de exclusom aérea [10].

O CNTL -já reconhecido por França desde o 10 de março- entrega o 12 de março uma carta ao secretário geral de Liga Árabe, Amr Moussa. O texto reflete a posiçom de Arábia Saudita: pede que «se ponha fim ao derramamento de sangue através de uma decisom que imponha umha zona de exclusom aérea em Líbia e mediante o reconhecimento do Conselho Nacional de Transiçom como representante de Líbia». Os ministros de Relacionamentos Exterioresa Liga Árabe reúnem-se imediatamente a portas fechadas no Cairo, deslegitiman à delegaçom oficial de Líbia e reconhecem o CNTL como novo interlocutor, satisfazem depois a petiçom deste último e recorrem ao Conselho de Segurança da ONU com vistas ao estabelecimento da «zona de nom sobrevoo».

Esta decisão deve ser interpretada como o que realmente é: os regimes fantoches dos Estados Unidos e Israel no mundo árabe pedem a proteçom dos seus superiores. O Conselho de Segurança pode decretar uma zona de exclusom aérea, mas nom tem como a fazer respeitar. Será a OTAN quem tenha que a impor. Som as forças imperiais, disfarçadas de capacetes azuis, quem manterám em terra à aviaçom Líbia, bombardeando os seus aeroportos e instalaçons fixas ou móveis de mísseis terra-ar e, de ser necessário, derrubando os avions.
A Liga Árabe nom deu a conhecer os detalhes do voto. Dos 22 Estados membros, só 2 votaram pelo NÃO. Foram Argélia, que teme um despregue da NATO na sua fronteira este, e Síria, o único país árabe que persiste, apesar da posiçom de todos os demais, na sua oposiçom à *hegemonía estadounidense e ao sionismo. É provável que o Líbano e outros países eleja a abstenção.

Contrariamente ao que sugerem os responsáveis ocidentais, a União Africana nunca desejou uma intervençom militar estrangeira. Pelo contrário, recusou-a explicitamente o 10 de março [11]. A razão é evidente. Está claro para todos e a cada um dos seus membros que o drama líbio está a ser amplificado de maneira totalmente intencional com vistas ao utilizar como pretexto para justificar um desembarco em massa das forças armadas estadounidenses na África.

Salvar as monarquias do Golfo
Arábia Saudita é o eixo do dispositivo imperial na regiom do Golfo. A princípios do século 20, a família Saud criou esse Estado com o apoio dos britânicos, após guerras de conquista extremamente sangrentas. Arábia Saudita e as suas reservas petrolíferas -as mais importantes do mundo- caírom dentro da órbita estadounidense ao final da Segunda Guerra Mundial. Em virtude do acordo do Quincy entre o rei Ibn Saud e o presidente Roosevelt, a família Saud está obrigada a fornecer petróleo a Estados Unidos e Estados Unidos está obrigado a garantir a proteção da família reinante, nom a proteçom do país.

Arabia Saudita nom é em realidade um Estado e nem sequer tem nome. Nom é mais que a parte de Arábia que pertence à família Saud, cujos membros administram esse território segundo os seus interesses pessoais (e os dos Estados Unidos) enquanto levam umha vida disoluta que nada tem que ver com a austeridade wahhabita da que tanto fachendeam. Como o rei Ibn Saud teve 32 esposas e 53 filhos, pelo que se decidiu, em aras de limitar os conflitos familiares, que a coroa nom se transmitisse de pai a filho, senom de irmao a irmao. O filho maior de Ibn Saud morreu de doença e foi portanto o seguinte filho, que tinha entom 51 anos, quem lhe aconteceu no trono em 1953.

Em 1960, seguiu-lhe o terceiro filho, que contava então 60 anos, e assim sucessivamente. O atual rei tem 87 anos, recentemente sofreu complicadas intervençons quirúrgicas e é provável que nom lhe fique muito tempo de vida. O seu irmao Sultan, o suposto sucessor, padece o mau de Alzheimer. O resultado de todo o anterior é um regime impopular e frágil, que já esteve a ponto de se derrubar em 1979. É por isso que tanto Riad como Washington vêem com temor as insurreçons árabes que se estám a produzir ao redor de Arábia Saudita, no Iemen e em Bahrein.

O exército de Arábia Saudita já está presente no Iemen e espera ajudar ao presidente Ali Abdullah Saleh a pôr fim à revolta, com a ajuda da CIA. Fica Bahrein.

Bahrein é umha ilhinha do tamanho de Micronésia ou da ilha de Mam. No século 18, a família dos Al-Khalifa, coirmaos da família reinante no Kuwait, arrebatárom a Pérsia esse pequeno território. De modo que a monarquia de Bahrein é sunnita enquanto a populaçom é árabe chiíta. A sua economia, a diferença das demais monarquias do Golfo, nom depende unicamente dos rendimentos do petróleo. Em Bahrein existe, no entanto, umha forte imigraçom, cerca de 40% da populaçom total, proveniente principalmente do Irám e da Índia.

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Ian Henderson, torturador ao serviço da sua Majestade Isabel II, manteve a ordem em Bahrein durante 40 anos.

Bahrein caiu na órbita britânica em 1923. Londres depôs ao emir e pôs no poder ao seu filho, mais disposto a fazer concessons. Durante os anos 1950 e 1960, nacionalistas árabes e comunistas trataram de libertar o país. O Reino Unido respondeu com o envio dos seus melhores especialistas em repressom, como Ian Henderson, conhecido desde entom como o «carniceiro de Bahrein».

Em definitiva, o país recobrou a sua independência em 1971, só para cair na órbita dos Estados Unidos, que instalou ali a sua base militar regional e estacionou nela a 5ª Frota. Novos distúrbios, inspirados na Revolução iraniana, produziram-se em Bahrein durante os anos 1980. Nos anos 1990, as forças de oposiçom -marxistas, nacionalistas árabes e khomeinistas- uniram-se em umha longa Intifada.

Acalma-a nom voltou até 1999, com a ascensom ao trono do rei Ahmad, um déspota ilustrado que instituiu uma Assembleia consultiva eleita e favoreceu o acesso das mulheres aos cargos de responsabilidade. Isto lhe valeu certa conciliaçom com a sua oposiçom histórica, mas afastou dele os extremistas da minoria sunnita que serve de apoio ao regime.

Desde o 14 de fevereiro de 2011, novas manifestaçons vinhérom tendo local em Bahrein. Organizadas ao princípio pelo Wefaq, o partido khomeinista, as manifestaçons denunciavam a corrupçom e o sistema policial. Mas o sucesso popular do movimento e a brutal repressom de que foi objeto provocaram uma rápida radicalizaçom, apesar de uma tímida tentativa de abertura do príncipe herdeiro [12].

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Ao centro, o príncipe Khalil bin Ahmad bin Muhammad Al Khalifa, ministro de Relacionamentos Exteriores do reino de Bahrein, e os seus amigos do American Jewish Committee.

A monarquia perdeu a sua legitimidade como resultado das revelações sobre o fortalecimento dos seus vínculos com o movimento sionista. A partir de 2007, os Khalifa vincularam-se com o American Jewish Committee. Segundo a oposiçom de Bahrein, ditos vínculos estabeleceram-se através de Alain Bauer, o conselheiro do presidente francês Nicolas Sarkozy. Foi o próprio Bauer quem encarregou-se de reorganizar o sistema policial de Bahrein.

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O secretário estadounidense de Defesa, Robert Gates, chegou a Manama o 13 de março de 2011 para reunir com o rei de Bahrein e expressar-lhe o apoio dos Estados Unidos. Ao dia seguinte, o exército de Arábia Saudita penetrou em Bahrein para esmagar a rebeliom.

A maioria dos manifestantes lutam agora pelo derrocamento da monarquia, o qual constitui a linha vermelha que não se pode atravessar, segundo os parâmetros das demais monarquias do Golfo e do seu protetor estadounidense. É por isso que o secretário estadounidense de Defesa, Robert Gates, viajou a Manama o 13 de março de 2011.

Oficialmente, Gates convidou ao rei a ter em conta os reclamos do seu povo e a procurar uma saída pacífica ao conflito. Claro está, esse tipo de conselho nom corresponde a um secretário de Defesa, mas a um secretário de Estado. Em realidade, o senhor Gates ia a Bahrein para concretar a parte política de uma operação militar que já estava pronta.

Ao dia seguinte, o 14 de março, os outras 5 monarquias do Conselho de Cooperaçom do Golfo dérom o seu consentimento para a ativaçom do «Escudo da península», uma força comum de intervençom prevista desde faz muito para conter a possível expansão da revoluçom khomeinista. Essa mesma tarde, 1 000 soldados de Arábia Saudita e 500 polícias dos Emiratos Árabes Unidos entravam em Bahrein.

Decretou-se o estado de urgência por espaço de 3 meses. Suspenderam-se as poucas liberdades toleradas. Na madrugada do 16 de março, as forças das monarquias, armadas e treinadas por Estados Unidos, atuaram de conjunto para desalojar aos manifestantes dos locais onde estavam a acampar. Em vez de gases lacrimógenos, utilizaram gases de combate e munição real. As autoridades reconhecem mais de 1 000 feridos de gravidade, entre os que se contam vários feridos de bala, mas só admitem 5 mortos, uma proporção muito pouco crível.

A Doutrina Obama

De modo que Washington fez a sua eleição. Após um adormecedor discurso sobre os direitos humanos e de saudar a «primavera árabe» com forçado entusiasmo, a administraçom Obama optou pola força para salvar o que ainda pode se salvar.

Ao igual que na época em que os comunistas derrocaram a monarquia afegã, foi o lacaio saudita quem recebeu de Washington o encarrego de dirigir a contrarrevoluçom. Armou a uma fação da oposiçom líbia e converteu o debate da ONU sobre sançons contra Líbia em um debate sobre a criaçom dumha zona de exclusom aérea, ou seja sobre a intervenção militar, e interveio militarmente em Bahrein.

Não há diferença entre a «doutrina Obama» e a «doutrina Brezhnev». Em 1968, os tanques do Pacto de Varsóvia punham fim à «primavera de Praga» para proteger o vacilante Império soviético. Em 2011, os blindados de Arábia Saudita esmagam o povo de Bahrein para proteger o Império anglo-saxom.

Hipnotizados pelas catástrofes naturais e nucleares que se estão a produzir ao mesmo momento no Japão, os meios de imprensa ocidentais observam o maior silêncio sobre o desenvolvimento de toda esta operação.

A Revolução francesa teve que fazer frente à invasão das monarquias que uniram as suas forças. A Revolução russa teve que enfrentar a arremetida dos exércitos brancos. A Revolução iraniana teve que enfrentar a invasão iraquiana. A Revolução árabe terá que fazer frente ao exército de Arábia Saudita.


[1] Ver: La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación, por Thierry Meyssan, Ediciones Timéli / Monte Avila, 2008.

[2] «Declaraçons de Barack Obama na Universidade de O Cairo», por Barack Obama; «El discurso de Obama en el Cairo», por Fidel Castro Ruz; «Obama y las segundas intenciones de la mano tendida a los musulmanes», por Thierry Meyssan, Red Voltaire, 4 y 9 de junio de 2009.

[3] «L’esperienza politica africana di Barack Obama», por Thierry Meyssan, in Eurasia, Rvista di Studi Geopolitici, Vol. 3, 2009.


[5] «Quand flottent sur les places libyennes les drapeaux du roi Idris», por Manlio Dinucci, Réseau Voltaire, 1º de março de 2011.

[6] «Resoluçom 1970 aprovada polo Conselho de Segurança», Red Voltaire, 26 de fevereiro de 2011.




[10] «Press conference by Anders Fogh Rasmussen on Libya», Voltaire Network, 10 de março de 2011.

[11] «Communiqué de l’Union africaine sur la Libye», Réseau Voltaire, 10 de março de 2011.