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17/10/2013

O Complexo de Sansão

Immanuel Wallerstein. Tirado de Outras Palavras (aqui). Imagem: Francisco Goya, Duelo com porretes (1823, detalhe) | Tradução: Antonio Martins

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Wallerstein sustenta: crise do sistema-mundo capitalista produz divisão rara entre poderosos e gera enorme instabilidade. Será preciso definir projetos alternativos
Na Bíblia, há a famosa lenda do herói Sansão. São muitas as interpretações sobre seu significado; mas Sansão, um israelita cuja força era originária de Deus, põe abaixo o templo os inimigos filisteus (também muito poderosos), morrendo no processo. Seu sentido, imagino, é dizer que um ato aparentemente irracional (Sansão morre) pode ser ao mesmo tempo heróico e inteligente, porque se converte na saída (possivelmente a única) para derrotar um inimigo forte e “salvar seu povo”.
Parece que temos um punhado de supostos Sansões, atualmente. Estão bloqueando, ou procurando bloquear, o que consideram ser “compromissos” perigosos com o inimigo. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, está dizendo que “um mau acordo é pior que nenhum acordo”. Ele refere-se ao que enxerga como o acordo entre os EUA e a Rússia, em torno da Síria; e a um possível acordo entre Washington e Teerã. Na Colômbia, o ex-presidente conservador [Alvaro Uribe] está investindo contra seu sucessor, também conservador [Juan Manuel Santos], porque este está em negociações com as FARC, sob os auspícios de Cuba e do Brasil.
E, é claro, temos as não-negociações maciças, em curso nos Estados Unidos. Nelas, os membros de ultra-direita do Congresso, em especial na Câmara dos Representantes, estão usando sua força para vetar qualquer comprimosso com as forças inimigas lideradas pelo presidente Obama e o Partido Democrata. Veem como “inimigo interno” todos os republicanos que buscam algum tipo de “compromisso”.
Não é difícil mostrar que todos estes Sansões estão botando a casa abaixo não apenas sobre seus inimigos mas também sobre si mesmos. Para eles, contudo, mesmo que isso seja verdadeiro, há um timing a considerar. Estão convencidos de que precisam agir agora, enquanto têm forças para fazê-lo. Do contrário, o inimigo vencerá e poderá institucionalizar – ou manter – o mal que estaria sendo cometido.
Este tipo de luta ideológia, impermeável ao chamado pragmatismo, não foi inventado nos últimos dez ou vinte anos. É tão velho quanto a socialização humana. Mas assumiu uma característica especial agora, precisamente porque estamos nos espamos de uma crise estrutural em nosso sistema-mundo capitalista. Numa crise estrutural, pode-se esperar dois grandes fenômenos: enorme confusão intelectual e, como consequência, mudanças selvagens de atitude, que conduzem, por sua vez, a guinadas ainda mais bruscas.
Como há cada vez mais grupos prontos para botar o templo abaixo, mesmo que sejam também esmagados, quem parece mais confuso e indeciso sobre o que fazer é o chamado Establishment. Foram-se os dias em que ele podia cinicamente manobrar e obter o que queria. Não é mais verdade que “plus ça change, plus c’est la même chose” – ou seja, que as mudanças são apenas aparentes.
Que podemos fazer, os que buscamos mudanças reais, um sistema-mundo distinto do que prevaleceu ao menos nos últimos 500 anos? A primeira coisa é não nos prendermos aos debates e guinadas selvagens entre os Sansões e os Establishments. Realmente não importa qual deles vença, no curto prazo.
A segunda coisa que deveríamos fazer é não disperdiçar toda nossa energia lamentando o fato de que quem deseja mudanças fundamentais (a chamada esquerda global) não parece estar unida, ou ter clareza sobre seus objetivos, ou envolvida em ações e organização urgentes. O fato é que ela própria está envolta na confusão, pelo menos no momento.
O fato de o templo estar caindo é algo muito além de nossas forças para contê-lo – mesmo que o desejássemos. Mas não somos obrigados a permanecer sob a avalanche das rochas. Precisamos tentar escapar. Podemos estar certos de que os membros mais poderosos do Establishment também estão tentando.
Mas como escapar, e com que objetivos? Também nós precisamos ter senso detiming, e lembrar a diferença entre o curto prazo (três anos ou menos) e o médio prazo (os próximos vinte a quarenta anos).
No curto prazo, as pessoas (os 99%) estão sofrendo. Precisamos lutar para reduzir sua dor, uma luta que deve assumir múltiplas formas. Podem ser pressões por leis, ou decisões de órgãos do Estado, que ajudem de modo imediato os necessitados, ou evitem danos maiores ao ambiente, ou protejam direitos de populações como os indígenas ou as chamadas minorias sociais.
Mas no médio prazo, precisamos tentar esclarecer a natureza das estruturas que queremos construir, se formos bem-sucedidos na encruzilhada que nosso sistema-mundo atravessa. Precisamos tentar entender não apenas os objetivos de médio prazo da direita mundial, mas a natureza de suas profundas divisões internas. A chamada esquerda está profundamente dividida, também. Precisamos trabalhar para superar isto.
 Nada é fácil, neste tempo de transição de um sistema-mundo para outro. Mas tudo é possível – ainda que inteiramente incerto.

05/01/2012

Os conflitos máis violentos de 2011

Artigo tirado de aquí e traducido por nós.
Soldado ugandés na fronte norte de Mogadiscio, Somalia. Setembro 2011. Foto: HERNÁN ZIN

Como xa escribimos nestas páxinas en varias ocasións, a guerra tradicional, entre estados e exércitos profesionais, pertence ao pasado. De feito, do dez conflitos que en 2011 provocaron máis de 1.000 mortos, ningún responde a estas características.

A violencia no século XXI pasa por aqueles territorios onde os gobernos apenas exercen o seu poder e grupos terroristas, insurxentes ou simplemente delituosos campan ás súas anchas. Enfrontamentos armados de lóxica difusa, sen frontes, onde a peor parte lévana os civís.

Nas próximas entradas repasaremos un a un este dez conflitos, a súa evolución ao longo do 2011 e as súas perspectivas para 2012.

Algúns dos cales narramos desde o terreo nestas páxinas como Somalia, Afganistán ou Sudán, e outros de novo cuño, provocados polas lexítimas ansias de liberdade e democracia, como Iemen, Libia ou Siria.

Unha lista de dez guerras que, en número de mortos, encabeza México con 12.539 asasinatos relacionados coas drogas en 2011. Un aumento do 6,3% con respecto a 2010.

Logo vén Afganistán. E despois Iraq. Aínda que a prensa xa case non lles dedique titulares, o certo é que 4.063 civís morreron o pasado ano na nación do Tigris e o Éufrates, que empeza o 2012 con apenas 200 soldados de EUA no seu territorio (os encargados de velar pola seguridade da embaixada, na chamada Zona Verde de Bagdad).

Paquistán e Colombia pechan esta listaxe ao que debemos sumar unha vintena de conflitos de longa duración se queremos realizar unha radiografía máis exhaustiva da violencia no noso mundo.

Entre estes últimos, que non superaron o milleiro de mortos en 2011, o máis antigo é o de Corea do Norte e do Sur, seguido polas loitas internas en Birmania, e logo a resposta á ocupación de Palestina.