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05/12/2013

Primavera Árabe: em fase de desconstrução?

Noam Chomsky. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). 

 Noam Chomsky

Três anos após o início das revoluções árabes, o Oriente Médio testemunhou um caleidoscópio de desdobramentos, que vão de eleições livres à repressão violenta de mudanças. Como você descreveria, hoje, a Primavera Árabe?

No passado eu a descrevi como uma “obra em progresso”. Lamentavelmente, agora a expressão “obra em retrocesso” seria mais apropriada. As ditaduras do petróleo foram capazes de reprimir a maioria das tentativas de fazer até mesmo reformas moderadas. A Síria foi empurrada violentamente para o suicídio e provavelmente a divisão. O Iêmen está submetido à campanha terrorista global dos drones. A Tunísia encontra-se numa espécie de limbo. A Líbia carece de um governo capaz de controlar as milícias. No Egito, o maior país do mundo árabe, os militares agiram com extrema brutalidade – e um apoio popular que não deveriam receber, a meu ver – no que parece ser um esforço para restaurar seu rígido controle político e manter seu império econômico, ao reverter algumas das conquistas mais significativas do período anterior, tais como a liberdade de imprensa e a independência. Os sinais não parecem bons.

Além disso, o conflito sunita-xiita instigado pela agressão dos Estados Unidos e Reino Unido ao Iraque está despedaçando o país e espalhando-se ameaçadoramente por toda a região. Há duas partes do mundo árabe que permanecem sendo efetivamente colônias: o Sahara Ocidental, onde as manifestações por democracia no final de 2010 foram duramente reprimidas e a luta de sua população por liberdade foi quase esquecida; e, claro, a Palestina. Lá, as negociações estão em andamento conforme as duas precondições essenciais impostas pelos EUA e Israel: que não haja barreiras à expansão dos assentamentos israelenses ilegais e que as negociações sejam encaminhadas pelos EUA. Ocorre que Washington é parte no conflito (ao lado de Israel) e vem bloqueando um consenso internacional indiscutível sobre um acordo diplomático desde 1976, com raras e temporárias exceções.

Sob tais precondições, as negociações tendem a ser pouco mais do que um disfarce para Israel levar adiante seus programas de integrar o que considera aproveitável, na Cisjordânia (inclusive alguns poucos árabes, para evitar o “problema demográfico”, e de separar a Cisjordânia de Gaza – o que viola os Acordos de Oslo e mantém um cerco brutal. Não é um momento brilhante, mas as fagulhas acesas pela Primavera Árabe provavelmente explodirão em chamas novamente.

As esperanças iniciais de uma trajetória linear em direção ao empoderamento e à democracia há muito desapareceram. A euforia teria sido um engano? Onde e quando as coisas deram errado?

Nunca deveria ter havido esperança de uma trajetória linear. A Primavera Árabe foi um processo de importância histórica, que ameaçou muitos interesses poderosos. O poder não diz “agradecemos por nos desmantelar” e sai andando calado.

As reações do Ocidente oscilaram desde a intervenção militar até a indiferença, como vimos nos Estados do Golfo. Você percebe algum padrão subjacente?

O padrão implícito é familiar: apoio ao ditador favorito durante o maior tempo possível. Se isso tornar-se impossível, porque os militares ou a elite econômica voltaram-se contra ele por alguma razão, então trate de enviá-lo para algum lugar, faça declarações tocantes sobre seu amor à democracia, e tente restaurar a velha ordem tanto quanto possível. Acontece repetidas vezes. Para mencionar apenas algumas: Somoza, Ferdinando Marcos, Duvalier, Suharto, Mobutu…

É uma política natural para um poder imperial – logo, completamente familiar. Também é natural que isso seja ocultado. A tarefa da comunidade intelectual é apoiar o poder e justificá-lo, não miná-lo – embora alguns quebrem as regras.

Uma das linhas de clivagem regional parece ser o conflito entre forças seculares e religiosas. De que maneira essa dicotomia pode ser tratada construtivamente? Que papel devem desempenhar os governos ocidentais?

Nem a história, nem a lógica, nem a análise política ou qualquer outra fonte que não a propaganda nos dá razões para esperar que os sistemas de poder desempenhem um papel construtivo, a não ser em seu próprio interesse. Isso vale para os sistemas ocidentais, em especial. Na do Oriente Médio e Norte da África, os maiores poderes – EUA e Grã Bretanha – têm apoiado de modo bastante consistente o Islã radical contra o nacionalismo secular. O favorito tem sido a Arábia Saudita, o estado islâmico de radicalismo mais extremo, e um estado missionário, que espalha suas doutrinas wahabistas-salafistas por toda a região.

Há estudos acadêmicos excelentes e detalhados sobre a “promoção da democracia” dos EUA por seus mais proeminentes defensores, que admitem, com relutância, que o governo apoia a democracia apenas se e quando ela está de acordo com os interesses econômicos e estratégicos – como qualquer pessoa racional poderia prever.

Que papel eles deveriam desempenhar? Isso é fácil. Eles deveriam apoiar a liberdade, a justiça, os direitos humanos, a democracia. Podemos dizer o mesmo sobre a Rússia e a China. Até certo ponto, forças populares organizadas podem pressionar os governos nessa direção, mas há poucos sinais disso, hoje, por várias razões.

Em outro nível, tensões religioss parecem estar em ascensão. Já em 2004 o rei Abdullahda Jordânia falou de um “Crescente Xiita”. A imagem de uma guerra por procuração entre sunitas e xiitas é apropriada para compreender os atuais conflitos na região?

Uma das conseqüências mais sombrias da agressão dos EUA e Reino Unido ao Iraque foi acender conflitos entre sunitas e xiitas que já haviam sido controlados, levando a uma história de horror que está despedaçando o Iraque e espalhando-se pela região, com efeitos terríveis e ameaçadores.

E a honestidade nos levaria a recordar o julgamento de Nuremberg, um dos fundamentos do direito internacional moderno. Definiu-se que a agressão seria “o supremo crime internacional, diferindo de outros crimes de guerra na medida em que contém, em si, o mal acumulado no todo”. Isso inclui os conflitos sectários, entre muitos outros crimes. A honestidade também nos levaria a recordar a frase que Robert Jackson, um membro da Suprema Corte dos EUA proferiu no mesmo tribunal: estamos dando a esses réus “um cálice envenenado”; se cometermos crimes semelhantes, devemos sofrer as mesmas consequências – ou então este Tribunal é uma farsa, não passa de justiça dos vencedores. Uma medida do abismo entre a cultura moral-intelectual do Ocidente e sua civilização é o quão bem estas palavras foram ouvidas…

22/04/2012

No Afeganistão, os EUA à beira do adeus

Immanuel Wallerstein: guerra tornou-se insustentável e retirada quase certa diz algo sobre atual isolamento de Washington. Tradução: Daniela Frabasile




Os dois candidatos para a presidência dos Estados Unidos parecem estar tentando falar um mais alto que o outro, no que diz respeito ao Irã, Síria e Israel/Palestina. Cada um alega que está fazendo mais para apoiar os mesmos objetivos. Não é estranho que não exista a mesma competição verbal sobre o Afeganistão?

As coisas mudaram há pouco. Durante muito tempo, Democratas e Republicanos disputaram quem era mais macho do Afeganistão? Lembre-se de que o conceito de uma “ofensiva”, capaz de ganhar a guerra foi endossado pelo presidente Obama, em seu discurso na Academia Militar, em dezembro de 2009. De repente, desde março de 2012, parece que isso se tornou um assunto sobre o qual ninguém quer se posicionar de forma aberta. Existem algumas explicações simples. Os Estados Unidos têm pouco para mostrar, na guerra mais longa em que já se envolveram. O inimigo, o Talibã, é uma força de enorme resilência, principalmente nas áreas Pashtun, a maior zona étnica do país.

Os Estados Unidos impuseram, de forma mais ou menos solitária, o presidente Hamid Karzai – um pashtun, não aliado ao Talibã. Karzai não foi, e não é, bem aceito pelos líderes de várias outras zonas étnicas no norte e oeste do país, que tentaram retirá-lo do poder. Esses outros grupos têm apoio de potências externas: Rússia, Irã e Índia, todos tão dispostos quanto os Estados Unidos a evitar que o Talibã volte ao poder. Mas os Estados Unidos não vão trabalhar com o Irã, têm dúvidas quanto a trabalhar com a Rússia e não parecem estar dispostos a coordenarem-se com a Índia.

Em fevereiro de 2012, alguns exemplares do Alcorão foram queimados por soldados norte-americanos, o que levou a violentos protestos públicos no Afeganistão. Então, 16 crianças, mulheres e homens afegãos foram massacrados por um soldado americano. Os Estados Unidos desculparam-se por ambos os atos, mas isso não acalmou a tempestade. Em 18 de março, o presidente Karzai denunciou os americanos no Afeganistão como “demônios”, envolvidos em “atos satânicos”. Ele disse que o Afeganistão estava rodeado por dois demônios – o Talibã e os americanos.

O New York Times citou um diplomata europeu anônimo dizendo “nunca na história, uma superpotência gastou tanto dinheiro, enviou tantas tropas para um país, e teve tão pouca influência sobre o que o presidente desse país faz e fala”.

Os Estados Unidos, tentando salvar sua posição, começaram a se retirar. O secretário de Defesa, Leon Panetta, já tinha dito em fevereiro que o país sairia de uma posição de combate não no fim de 2014, como era planejado, mas em meados de 2013. No começo de abril, Washington foi além. Anunciou que estava entregando o controle de operações especiais – por exemplo, uso de aviões não-tripulados (drones) e ataques noturnos – para as forças afegãs. As tropas americanas exerceriam agora apenas um papel de apoio”.

O ministro das relações exteriores do Afeganistão, Zalmai Rassoul, não pareceu agradecido. Ele anunciou que, uma vez que as tropas dos EUA e da OTAN saíssem do país, em 2014, Kabul não iria permitir que seu território fosse base de lançamento para ataques de drones contra o Paquistão.

Os paquistaneses, então, desferiram outro golpe contra os Estados Unidos. Em 12 de abril, o parlamento aprovou de forma “unânime” uma lista de condições para melhorar as relações entre os dois países e reabrir a rota de suprimentos da OTAN no Afeganistão. Eles incluíram um fim aos ataques de drones no território do Paquistão e um pedido de “desculpa incondicional” pela morte de 24 soldados paquistaneses no ataque aéreo da OTAN em novembro de 2011. Os EUA resistem a essas condições. Mas dado que agora é evidente a divergência entre os objetivos políticos americanos e paquistaneses no Afeganistão, não fica claro se Washington poderá prevalecer.

Então, em 14 de abril, Lawrence Korb, que foi assistente do secretário da Defesa no governo Reagan, publicou um artigo intitulado “Hora de deixar que Karzai nos bote para fora”. Korb argumentou que os Estados Unidos são, desde 1945, “muito melhores em começar guerras do que em acabá-las satisfatoriamente”. Ele chamou atenção para o que considerava uma perda desnecessária de vidas, nos dois últimos dois das guerras da Coreia e do Vietnam.

Segundo ele, a exceção é o Iraque, em que os Estados Unidos se retiraram por que “o primeiro-ministro iraquiano, Nouri Al-Malik, não nos deixou escolha”. Ele diz: “no Iraque, o governo dos EUA deu sorte”. Sua conclusão: ”assim como Al-Maliki nos forçou a fazer a coisa certa, deveríamos permitir que Karzai tome o controle de seu próprio país tão cedo quanto ele quiser”. Korb é um analista republicano conservador, que vê máxima vantagem no fato de os Estados Unidos serem forçados a sair do Afeganistão assim que possível.

Korb não está sozinho. Uma pesquisa do Washington Post / ABC News, publicada em 12 de abril, mostra que apenas 30% da população concorda que a guerra tem valido a pena. Ainda mais impressionante: pela primeira vez, uma maioria de republicanos opõe-se ao conflito. Duas coisas influenciam a opinião pública estadunidense. Primeiro, os afegãos não parecem solidários com os esforços ou perdas militares dos EUA. Muito pelo contrário. Em segundo lugar, os custos da guerra no Afeganistão são astronômicos nesse momento, quando os Estados Unidos, e principalmente os republicanos conservadores, estão tentando reduzir gastos drasticamente.

Minha previsão: sem alardes, mas com certeza, o presidente Obama irá seguir o conselho de Korb.

05/01/2012

Os conflitos máis violentos de 2011

Artigo tirado de aquí e traducido por nós.
Soldado ugandés na fronte norte de Mogadiscio, Somalia. Setembro 2011. Foto: HERNÁN ZIN

Como xa escribimos nestas páxinas en varias ocasións, a guerra tradicional, entre estados e exércitos profesionais, pertence ao pasado. De feito, do dez conflitos que en 2011 provocaron máis de 1.000 mortos, ningún responde a estas características.

A violencia no século XXI pasa por aqueles territorios onde os gobernos apenas exercen o seu poder e grupos terroristas, insurxentes ou simplemente delituosos campan ás súas anchas. Enfrontamentos armados de lóxica difusa, sen frontes, onde a peor parte lévana os civís.

Nas próximas entradas repasaremos un a un este dez conflitos, a súa evolución ao longo do 2011 e as súas perspectivas para 2012.

Algúns dos cales narramos desde o terreo nestas páxinas como Somalia, Afganistán ou Sudán, e outros de novo cuño, provocados polas lexítimas ansias de liberdade e democracia, como Iemen, Libia ou Siria.

Unha lista de dez guerras que, en número de mortos, encabeza México con 12.539 asasinatos relacionados coas drogas en 2011. Un aumento do 6,3% con respecto a 2010.

Logo vén Afganistán. E despois Iraq. Aínda que a prensa xa case non lles dedique titulares, o certo é que 4.063 civís morreron o pasado ano na nación do Tigris e o Éufrates, que empeza o 2012 con apenas 200 soldados de EUA no seu territorio (os encargados de velar pola seguridade da embaixada, na chamada Zona Verde de Bagdad).

Paquistán e Colombia pechan esta listaxe ao que debemos sumar unha vintena de conflitos de longa duración se queremos realizar unha radiografía máis exhaustiva da violencia no noso mundo.

Entre estes últimos, que non superaron o milleiro de mortos en 2011, o máis antigo é o de Corea do Norte e do Sur, seguido polas loitas internas en Birmania, e logo a resposta á ocupación de Palestina.

26/12/2011

O valor do soldado Manning

Gregorio Morán en Sin Permiso, traducido por nós.


Bush, Blair e Aznar son máis susceptíbeis dun tribunal de guerra que o honorábel soldado Bradley Manning

Agora que se dá tanto iso das enquisas ben pagadas sobre que opinión ten vostede de tal ou cal cousa, que logo xa se encargan eles de convertela nunha ferramenta moi útil para a institución que as subvenciona, proporía un reto. Sabe vostede quen foi Dreyfus, Alfred Dreyfus? O "caso Dreyfus"? Sairían as cousas máis inverosímiles.

Bradley Manning cumpriu 24 anos o sábado pasado en Fort Meade, preto de Washington, onde o día anterior se iniciou o consello de guerra que o pode levar á pena capital ou á cadea perpetua. Curioso destino para un Saxitario. Aseguran, quen saben diso, que adoitan ser xente propensa á simpatía e á boa sorte. Naceu nun pobo de Oklahoma, Crescent City, que non figura nos mapas. De pai gringo, veterano de guerra na Mariña, e nai británica.

Colleita do 87, carne de crise a partir da separación dos seus pais, errancia doméstica e logo a aprendizaxe da vida; estudos sen interese, descubrimento da súa homosexualidade, procura de algo no que mereza a pena aposentarse. Talento natural cara á informática. Era o seu.

O exército de Estados Unidos descobre nese raparigo rariño que acaba de apuntarse aos marines e que se manifesta descaradamente gai, un futuro guerreiro. Envíano a Iraq, á 10 ª División de Montaña, unidade especialmente activa fronte á insurxencia iraquí e afgá.

A guerra máis alucinante coa que abrimos o noso século XXI. O do soldado Manning eran os computadores; ascéndenno e ocúpase dos segredos peor gardados do imperio. Por moito que se queiran protexer dos hackers, os misterios da informática só os pode salvagardar outro hacker.

Tiña 21 anos cando foi destinado a Iraq e tarda apenas outro en descubrir esa cousa terríbel, abafadora, que consiste en sentirse axudante do verdugo. É algo que non está ao alcance de todos, porque hai xente que pode facelo durante toda a súa vida adulta e non apreciar a súa singularidade. O valente soldado Manning parece que o pillou enseguida. Primeiro foron as filmacións das matanzas de civís en Iraq, logo esas evocacións nazis filmadas por divertidos torturadores en Abu Graib, e por fin, a nosa Lubianka contemporánea que leva por nome Guantánamo. Non custa imaxinar aínda soldado sensíbel ante a impunidade criminal dos seus superiores. O difícil é resolver a ecuación vital; por salvar a honra e a dignidade, esnaquizarei a miña vida para sempre. E se só fose a vida? Será a calumnia, a traizón, a humillación pública, e como colofón, a difamación cotiá a mans dos depositarios da verdade histórica.

Cando deteñen ao soldado Bradley Manning a finais de maio de 2010 conseguiu pasar milleiros de informes secretos á rede Wikileaks para que se fagan públicos. Aí está o condensado dunha política de Estado no seu carácter ruín, desalmado, de bandoleiros de luxo. E sobre todo, impunes. Algúns dos nosos talentos locais, na inopia da súa frivolidade, fixeron o símil con Anacleto, axente secreto; nunca pedirán perdón, son funcionarios, e os funcionarios ao uso distínguense pola súa capacidade para non asumir responsabilidades. O Poder con todo tívoo moi claro desde o primeiro momento. Coa colaboración dun soplón, Adrian Lamo, ao que o incauto Manning confesou a súa fazaña, empezou a caza, implacábel.

Nin sequera os diarios máis importantes do noso mundo occidental, ilustrado e liberal, puideron soportar a presión do Departamento de Estado norteamericano. Unha cousa é a decadencia e outra conservar aínda o poder real sobre vidas e facendas. A lectura de Gibbon e o seu imperio romano en descomposición esixe unha lectura lenta, nada espasmódica. Aínda quedan moitos anos para un cambio de ciclo real, e ninguén pode garantir que sexa para mellor. O soldado Manning foi encarcerado en condicións da Inquisición, como ocorreu sempre, na antigüidade e a modernidade, sexa nazi, estaliniana ou imperialista. E como sempre, tamén empezou a demolición ética dos protagonistas. Julian Assange, o comunicador, converteuse nun violador de suecas. Violar suecas é o límite do machismo occidental, recoñezámolo nós, españois criados no subdesenvolvemento. A narrativa deses coitos con condón ou sen condón, voluntarios ou involuntarios, farase algún día un clásico da comedia picante. Nunca dous polvos tiveron tanta transcendencia histórica. O de Homero e A Iliada reduciríase a unha cuestionábel violencia de xénero.

Probablemente ante a figura de Bradley Manning moitos volverán repetir as frivolidades que se chegaron a dicir de Alfred Dreyfus, un cabaleiro burgués e xudeu, tan diferente deste Manning da marxinalidade. Evitamos rememorar os comentarios xornalísticos de entón, tan similares a estes de hoxe sobre a conspiración, o intento de minar a civilización occidental, a ofensa ao exército máis poderoso da terra, defensor da liberdade alí onde se atope? Manning foi encarcerado na base de marines de Quantico (Virginia) en condicións infrahumanas e alá pasou case un ano, durmindo en calzóns, sen sabas nin mantas, e coa luz acesa. Lémbralles algunha vella historia, hoxe tan xustamente deostada?

Probabelmente libre a vida, e mesmo se lle atenuará a cadea perpetua se asume denunciar a Julian Assange e o converte en reo da xustiza norteamericana. O seu avogado, David Codmas, empezou preguntando ao tribunal militar: onde está o dano?, onde o perigo? E tiña razón, o dano e o perigo era o do poder non o da cidadanía. Agora, ao parecer, debátese a un nivel máis baixo e exponse se o soldado Manning era un travesti ou sinxelamente un discapacitado. O único que non cabe admitir ante un tribunal militar é que obrou como un soldado consciente da súa conciencia democrática. A invasión de Iraq foi un crime que debeu levar aos tribunais a aquel trío que a promoveu e inventou as mentiras para o masacre. Bush, Blair e Aznar son máis susceptíbeis dun tribunal de guerra que o honorábel soldado Bradley Manning, que acaba de cumprir 24 anos e ao que nunca xamais lle deixarán ser novo, valente e digno.

Nunha desas crónicas que fan historia, Christophe Ayad, en Le Monde, describía o final do exército de Estados Unidos en Iraq: "Fóronse como ladróns, en metade da noite, sen dicir adeus e sen mirar atrás". Así abandonaban o 18 de decembro, á alba, un centenar de vehículos e os últimos 500 soldados da 1º división de cabalaría, o país que invadiran en 2003, co alborozo de tantos, hoxe taciturnos. Cruzaron o posto fronteirizo de Kuwait e pecharon, ou creron pechar, unha páxina miserábel da historia de EE. UU. Deixan un país máis esnaquizado, corrupto, dividido e sumido na miseria, do que atoparon con Sadam Husein, o seu veterano aliado de outrora.

E nesas páxinas de merda e sangue que eles escribiron, e cuxa pegada non se borrará en décadas, haberá polo menos un capítulo digno, un apartado adicado ao valor do soldado Brandley Manning, de Oklahoma, que foi capaz de pór ao descuberto eses fondos que xamais aparecen nos discursos. A verdade dunha guerra, os motivos dunha invasión, as razóns para cubrir unha mentira. Pagarao a un prezo que nós non seriamos capaces de asumir.

Hai tempos que alimentan a frivolidade como o orballo, o noso é un deles. E entón ocorre como noutras épocas, que alguén se pregunta para que tanta morte? Cen mil iraquís e 4.500 norteamericanos. E de seguro que en Estados Unidos, ademais das viúvas, os feridos -preto de 40.000-, o home que haberá de levar sobre si o castigo que non cumprirán os seus dirixentes será o Manning de Oklahoma, que se exhibirá como un traidor ata que o rescate unha novela, un ensaio, unha antigualla.


Gregorio Morán é un columnista habitual no diario barcelonés A Vangarda. Veterano resistente e loitador político no clandestino Partido Comunista de España baixo o franquismo, Morán é un xornalista de investigación que escribiu, entre outros, libros imprescindíbeis para entender o proceso que levou da ditadura franquista á monarquía parlamentaria actual.

10/11/2011

Retirada dos EUA e derrota no Iraque

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado do Esquerda.net (aqui).

Agora é oficial. Todas as tropas dos Estados Unidos vão retirar do Iraque até 31 de Dezembro de 2011. Há duas formas de interpretar esta decisão. Uma é a do presidente Barack Obama, que afirma estar assim a cumprir uma promessa eleitoral de 2008. A segunda é a dos candidatos presidenciais republicanos, que condenaram Obama por não ter feito o que o Exército dos Estados Unidos, segundo eles, queria: manter algumas tropas depois de 31 de Dezembro para “treinar” os militares iraquianos. Segundo Mitt Romney, a decisão de Obama foi “ou a consequência de um puro cálculo político, ou simplesmente a total inépcia para negociar com o governo iraquiano”.

As duas afirmações são disparatadas, e representam meros argumentos auto-justificativos para o eleitorado americano. Obama empenhou-se fortemente, e em total conjugação com os comandantes do Exército e com o Pentágono para manter as tropas norte-americanas depois de 31 de Dezembro. Fracassou, não por inépcia, mas porque os líderes políticos do Iraque forçaram os Estados Unidos a sair. A retirada marca o culminar da derrota americana no Iraque, apenas comparável à derrota dos Estados Unidos no Vietname.

O que aconteceu realmente? Nos últimos dezoito meses, pelo menos, as autoridades de Washington tentaram empenhadamente negociar um acordo com os iraquianos que superasse o que foi assinado pelo presidente George W. Bush, que se comprometia com a retirada total das tropas em 31 de Dezembro de 2011. Fracassaram, mas não foi por falta de esforço.

Sob qualquer ponto de vista, os grupos mais pró-americanos são os sunitas liderados por Ayad Allawi, um homem com relações notoriamente próximas à CIA, e o partido de Jalal Talebani, o presidente curdo do Iraque. Os dois homens acabaram por dizer, sem dúvida com relutância, que era melhor que as tropas americanas deixassem o país.

O líder iraquiano que mais esforço empregou para chegar a um acordo que mantivesse as tropas norte-americanas foi o primeiro-ministro Nouri al-Malaki. Obviamente, ele acreditava que a pouca capacidade do exército iraquiano para manter a ordem levaria o país a novas eleições, nas quais a sua posição política estaria muito enfraquecida e ele, provavelmente, perderia o cargo de primeiro-ministro.

Os Estados Unidos fizeram concessão atrás de concessão, reduzindo constantemente o número de soldados que manteriam no Iraque. No final, o ponto de atrito foi a insistência do Pentágono para que fosse garantida a imunidade jurídica dos soldados americanos (e dos mercenários), perante a jurisdição iraquiana, por qualquer crime que cometessem no país. Maliki estava pronto a concordar com isso, mas ficou isolado. Os sadristas, em particular, ameaçaram retirar o seu apoio ao governo, se Maliki aceitasse as condições de Washington. E sem os votos dos sadristas, Maliki não tinha a maioria necessária no parlamento.

Quem ganhou então? A retirada foi uma vitória do nacionalismo iraquiano. E a pessoa que incarna o nacionalismo iraquiano é nada menos que Moqtada al-Sadr. É verdade que al-Sadr lidera um movimento xiita que sempre foi violentamente contrário aos partidos baathistas – o que, para os seus seguidores, costuma significar ser contra muçulmanos sunitas. Mas al-Sadr há muito que se afastou da sua posição inicial, para se converter, a si próprio e ao seu movimento, nos grandes defensores da retirada dos Estados Unidos. Ele aproximou-se dos líderes sunitas e curdos na esperança de criar uma frente nacionalista pan-iraquiana, centrada na restauração da total autonomia do Iraque. E venceu.

É certo que al-Sadr, assim como Maliki e outros políticos xiitas, passou uma grande parte da sua vida exilado no Irão. A sua vitória é, então, o triunfo do Irão? Não há dúvida de que o Irão ampliou a sua credibilidade no interior do Iraque. Mas seria um grande erro analítico acreditar que o Irão substituiu os Estados Unidos no domínio da cena política iraquiana.

Existem tensões fundamentais entre os xiitas iranianos e os xiitas iraquianos. Por um lado, os iraquianos sempre consideraram o Iraque, e não o Irão, como o centro espiritual do mundo xiita. É verdade que, nos últimos 50 anos, as transformações do cenário geopolítico permitiram que os ayatollahs do Irão parecessem dominar o universo religioso do xiismo.

Mas isso é parecido ao que aconteceu na relação entre os Estados Unidos e a Europa Ocidental depois de 1945. A força geopolítica dos Estados Unidos provocou um deslocamento na relação cultural entre dois lados do Atlântico. A Europa Ocidental teve de aceitar o novo domínio cultural e político dos Estados Unidos, mas nunca gostou disso. Tenta agora retomar a sua predominância cultural. O mesmo acontece com o Irão e o Iraque. Nos últimos 50 anos, os xiitas iraquianos tiveram de aceitar o domínio cultural iraniano, mas nunca gostaram disso. E agora vão esforçar-se por reconquistar o seu predomínio cultural.

Apesar das declarações públicas, tanto Barack Obama quanto os republicanos sabem que os Estados Unidos foram derrotados. Os únicos norte-americanos que não acreditam nisso são uma pequena franja da esquerda que, de algum modo, não pode aceitar que os Estados Unidos não vençam sempre e em todos os lugares. Esta pequena franja está tão empenhada em denunciar os Estados Unidos que não tolera a realidade de que o país está em sério declínio.

Este grupo marginal argumenta que nada mudou, porque os Estados Unidos apenas passaram a agir através do Departamento de Estado, em vez do Pentágono, fazendo duas coisas: trazer mais fuzileiros navais para garantir a segurança da Embaixada dos Estados Unidos e contratar especialistas para treinar as forças policiais iraquianas. Mas trazer mais fuzileiros é um sinal de fraqueza, não de força. Significa que até mesmo a bem guardada embaixada norte-americana não está suficientemente segura dos ataques. Pela mesmíssima razão, os Estados Unidos cancelaram os planos de abrir mais consulados no país.

Quanto aos especialistas, estamos a falar de aproximadamente 115 conselheiros que precisam de ser “protegidos” por milhares de seguranças privados. Eu diria que os conselheiros serão muito cautelosos sempre que saírem das instalações da embaixada, e que vai ser difícil contratar seguranças privados em número suficiente, dado que deixaram de ter imunidade jurídica.

Ninguém se deve surpreender se, depois das próximas eleições no Iraque, o primeiro-ministro for Moqtada al-Sadr. Nem os Estados Unidos nem o Irão vão rejubilar.

23/09/2011

O imperialismo, fase atual do capitalismo

Emir Sader. Artigo tirado de Carta Maior (aqui).

Mesmo sabendo que o Brasil não votou a favor da resolução da ONU sobre o ataque à Líbia, Obama teve a deselegância de dar a ordem de começo da operação militar em solo brasileiro, durante sua viagem relâmpago ao nosso país. Ao mesmo tempo, esbanjou charme, ele e sua mulher, fez elogios fartos ao Brasil e a Dilma – mesmo se muito parco nos acordos concretos.

A visita de Obama permitiu conhecer de perto as duas caras do mesmo do rosto da potência imperial. A fisionomia pode ser grosseira, como a do seu antecessor, Bush, ou ter a cara simpática de Obama, mas a politica continua sendo a mesma: imperial, belicista, agressiva.

Porque os EUA não são apenas um país rico. São a cabeça do sistema imperialista mundial. Um sistema que teve sua origem no sistema colonial, aquele que, desde a Europa, submeteu os países dos outros continentes, os explorou, os oprimiu – usando trabalho escravo da África –, dividiu-os entre si e constituiu um sistema internacional de poder que passou a controlar o mundo, sob hegemonia inglesa.

A decadência inglesa abriu campo para uma disputa de sucessão entre duas potências emergentes – a Alemanha e os EUA -, que as duas guerras mundiais resolveram a favor deste último. Ao mesmo tempo, as formas de dominação foram mudando. Da ocupação direta, que considerava que as colônias faziam parte dos territórios do país colonizador, foi se passando a formas de dominação que conviviam com a independência politica dos países dominados, mas submetidos a forte controle econômico, tecnológico e militar. Foi se passando do sistema colonial ao sistema imperialista, que tem nos EUA sua cabeça fundamental. Fundem-se no poder norteamericano o poder econômico, político, tecnológico, militar e ideológico.

O imperialismo e os monopólios são a consequência natural da concorrência capital no mercado, em que os mais fortes se tornam cada vez mais fortes, os poderosos cada vez mais poderosos. A concentração de renda e de poder é um resultado obrigatório das condições da concorrência, em que o Estado tem um papel estratégico, seja de favorecer os grandes grupos econômicos, seja de promover os interesses das grandes potências nos conflitos internacionais.

Os EUA passaram a defender os interesses do bloco capitalista em escala mundial, mediante sua força militar, sua capacidade de ação politica, de exportação global dos valores das suas formas de vida – o “modo de vida norteamericano”. Defendeu a esse bloco durante a Guerra Fria – do término da Segunda Guerra Mundial até o fim da URSS (de 1945 a 1991) – contra os “riscos do comunismo”. Terminado esse período, passaram a buscar inimigos que justificassem a manutenção e a contínua militarização da sua economia e dos conflitos. Encontraram no “terrorismo” esse novo inimigo. As guerras do Afeganistão, do Iraque e agora da Líbia, expressam a forma concreta que essa luta adquire – contra países árabes, portadores de recursos energéticos que os países ocidentais não dispõem ou dispõem de forma insuficiente.

Por que governantes de partidos distintos, com estilos diferentes, acabam defendendo os mesmos interesses: respeitando antes de tudo o poder dos bancos, da indústria bélica, mantendo as guerras iniciadas e começando outras? Porque, para além daquelas diferenças, se mentem o mesmo papel imperialista dos EUA? Porque é um Estado que tira sua legitimidade, sua força, dessa função de líder do bloco das potências capitalistas no mundo.

As guerras sempre foram parte integrante na afirmação da superioridade imperialista. Aproveitando-se da sua superioridade no plano militar, tratam de resolver os conflitos pela força, impõem-se a seus aliados valendo-se dessa superioridade militar. Assim os EUA se tornaram a potência mais bélica da história da humanidade, não apenas pelo seu poderio militar, mas também pela quantidade de invasões, agressões, desembarques, participações em golpes militares.

Mesmo com a economia em recessão, os EUA mantem sua capacidade de intervenção militar, de forma direta ou através de aliados, em quase todas as regiões do mundo, de que a Líbia agora é a confirmação. A luta pela democracia no mundo passa pela ruptura do mundo unipolar e a passagem a um mundo multipolar, em que o maior numero de vozes possíveis sejam ouvidas para decidir os destinos da humanidade, até aqui concentrados nas mãos do maior império e o mais agressivo que a história conheceu.

15/09/2011

Tariq Ali: ''EUA e seus aliados europeus estão presos em um pântano''

Tariq Ali.Artigo tirado de Diário Liberdade (aqui) e publicado em galego primeiramente no Esquerda.net

Um década depois dos atentados do 11 de Setembro, os EUA e os seus aliados europeus estão presos num pântano. Tirando a retórica de Obama, pouco divide esta administração da sua predecessora. Enquanto isso, os bons cidadãos da Euro-América que se opõem às guerras feitas pelos seus governos evitam olhar para os mortos, feridos e órfãos do Iraque e do Afeganistão, da Líbia e do Paquistão... a lista continua a crescer.


'Um soberano é aquele que decide em caso de exceção,' escreveu Carl Schmitt em tempos diferentes, quase há um século, quando os impérios e exércitos europeus dominavam a maioria dos continentes e os EUA desfrutavam de um sol isolacionista. O que o teórico conservador queria dizer com 'exceção' era um estado de emergência, necessário devido a cataclismos econômicos ou políticos, que requeriam a suspensão da Constituição, repressão interna e guerra no estrangeiro.

Um década depois dos atentados do 11 de setembro, os EUA e os seus aliados europeus estão presos num pântano. Os eventos daquele ano foram usados como um pretexto para refazer o mundo e punir os que não obedecessem. Hoje, enquanto a maioria dos cidadão euro-americanos vagueia por um deserto moral, infelizes com as guerras, propagandeadas como algo diferente do que realmente são: uma estratégia imperial abrangente, o General Petraeus (atualmente a comandar a CIA) diz-nos: “Temos de reconhecer também que não que vamos ganhar esta guerra. Penso que continuaremos a lutar. É um pouco como o Iraque, na verdade... Sim, tem havido enormes progressos no Iraque. Mas ainda existem ataques horríveis, e temos de continuar vigilantes. Temos de ficar depois de acontecerem. Este é o tipo de luta em que estamos para o resto das nossas vidas e provavelmente das vidas dos nossos filhos.” Assim fala a voz do poder soberano, determinando que, neste caso, a exceção é a regra.

Embora não concorde com a sua resposta, o filósofo alemão Jürgen Habermas colocou uma questão importante: 'Será que o universalismo que nós atribuímos aos direitos humanos apenas esconde um instrumento sutil e enganador da dominação ocidental?' 'Sutil' poderia ser apagado. As experiências nos territórios ocupados falam por si próprias. Dez anos de guerra contínua no Afeganistão, um impasse sangrento e brutal com um regime marionete e corrupto cujo presidente e sua família enchem os bolsos com ganhos duvidosos e um exército EUA/OTAN incapaz de derrotar os insurgentes.

Agora, estes atacam à vontade, assassinando o irmão corrupto de Karzai, acabando com os seus principais colaboradores e atingindo pessoal-chave da inteligência da OTAN via terrorismo suicida ou derrubando helicópteros. Entretanto, nos bastidores, sessões prolongadas de negociações entre os EUA e os neo-taliban têm ocorrido desde há vários anos. O objetivo revela desespero. A OTAN e Karzai estão desesperados por recrutar os taliban para um novo governo nacional.

Políticos conservadores e liberais euro-americanos que formam a estrutura das elites governantes e declaram acreditar em moderação, tolerância e fazer guerras para impor os mesmos valores nos Estados re-colonizados ainda estão cegos pela sua situação e não conseguem ver o que está escrito na parede. Não obstante a sua piedosa renúncia à violência terrorista, não têm problemas em defender a tortura, as prisões ilegais, o assassínio de indivíduos, estados de exceção ilegítimos para que possam prender qualquer um indefinidamente e sem julgamento. Entretanto, os bons cidadãos da Euro-América que se opõem às guerras feitas pelos seus governos evitam olhar para os mortos, feridos e órfãos do Iraque e do Afeganistão, da Líbia e do Paquistão... a lista continua a crescer.
A guerra – jus beli – é agora um instrumento legítimo conquanto seja usado com a aprovação dos EUA e de preferência usado pelas suas tropas. Hoje em dia, é apresentada como uma necessidade “humanitária”: um lado está ocupado a cometer crimes, o lado moralmente superior está simplesmente a administrar a punição necessária; e nega-se a soberania ao Estado a derrotar. A sua substituição é cautelosamente policiada tanto através de bases militares como através de uma combinação de ONGs e dinheiro. Esta colonização ou dominação do século XXI é auxiliada pelas redes midiáticas globais, um pilar essencial para conduzir operações políticas e militares.

Comecemos pela segurança interna nos EUA. Contrariamente ao que muitos liberais imaginavam em novembro de 2008, a degradação da cultura política americana continua rapidamente. Em vez de inverter a tendência, o advogado-presidente e a sua equipa aceleraram o processo. Houve mais deportações de imigrantes do que no mandato de Bush; poucos prisioneiros detidos sem julgamento foram libertados de Guantánamo, uma instituição que o advogado-presidente prometeu encerrar; o
Patriot Act e o seu conteúdo sobre o que constitui um amigo ou inimigo foi renovado, começou uma nova guerra na Líbia sem a aprovação do Congresso, utilizando como desculpa o fato de os bombardeios sobre um Estado soberano não constituírem um ato hostil; os denunciadores estão a ser vigorosamente perseguidos e por aí adiante – a lista cresce a cada dia que passa.

A política e o poder apagam tudo o resto. Os liberais que ainda acreditam que a administração Bush transcendeu a lei enquanto que os Democratas são exemplo de conduta estão cegos pelo tribalismo político. Tirando a retórica de Obama, pouco divide esta administração da sua predecessora. Ignorem, por um momento, o poder dos políticos e dos propangadistas para impor os seus tabus e preconceitos sobre a sociedade americana em geral, um poder muitas vezes usado agressiva e vindicativamente para calar a oposição em qualquer lado – Bradley Manning, Thomas Drake (libertado após uma grande indignação dos média liberais), Julian Assange, Stephen Kim, que estão a ser tratados como criminosos, inimigos públicos, sabem melhor do que ninguém.

Nada mostra melhor esta degradação do que o assassinato de Osama Bin Laden em Abbotabad. Poderia ter sido capturado e levado a tribunal, mas essa nunca foi a intenção. O humor liberal foi espelhado pelos cântico ouvidos em Nova Iorque: U-S-A. U-S-A. Obama apanhou Osama. Obama apanhou Osama. Não podes derrotar-nos (aplausos). Não podes derrotar-nos. Linchem o Bin-Laden. Linchem o Bin Laden.

Isto foi repetido numa linguagem mais diplomática pelos líderes da Europa, parceiros júniores na família imperial das nações, incapaz de auto-determinação. Vênias e hipocrisia tornaram-se o cunho da cultura política.

Vejamos o exemplo da Líbia, o último caso da 'intervenção humanitária'. A intervenção EUA-OTAN na Líbia, com a cobertura do Conselho de Segurança das Nações Unidas, é parte de um resposta orquestrada para demonstrar apoio a um movimento contra um ditador em particular e assim terminar as rebeliões árabes, colocando-as sob controle ocidental, confiscando a sua impetuosidade e espontaneidade e tentando restaurar o status quo ante. Como é agora evidente, os britânicos e os franceses gabam-se do seu sucesso e que controlarão as reservas de petróleo líbias como pagamento de seis meses de campanha de bombardeamentos.

Entretanto, os aliados de Obama no mundo árabe prometeram trabalhar arduamente para implementar a democracia.

Os sauditas entraram no Bahrein, onde a população está a ser tiranizada e onde estão a acontecer prisões em larga escala. Isto não está a ser muito divulgado pela
Al-Jazeera. Pergunto-me porquê? A estação parece ter sido posta na ordem e em sintonia com a política dos seus fundadores. Tudo isto com o apoio dos EUA. O déspota no Iêmen, odiado pela maioria do seu povo, continua a matá-los todos os dias através de controle remoto a partir da sua base saudita. Nem mesmo um embargo de armas, quando mais uma “zona de exclusão aérea” lhe é imposta.

A Líbia é mais um caso da vigilância seletiva pelos norte-americanos e pelos seus cães de ataque no Ocidente. O fato de os Verdes alemães, que estão entre os mais ardentes defensores europeus do neoliberalismo e da guerra, quererem fazer parte desta companhia revela mais sobre a sua própria evolução do que os méritos ou deméritos da intervenção.

As fronteiras do esquálido protetorado que o Oeste vai criar estão a ser decididas em Washington. Mesmo aqueles líbios que, em desespero, apoiaram o jatos da OTAN, poderão – como o seu equivalente iraquiano – arrepender-se.

Tudo isto desencadeará uma terceira fase a qualquer altura: uma crescente raiva nacionalista que chegará à Arábia Saudita e aí, sem dúvida, Washington fará tudo o que for necessário para manter a família real saudita no poder. Perder a Arábia Saudita significa perder todos os Estados do Golfo. O assalto à Líbia, fortemente ajudado pela imbecilidade de Khadafi em todas as frentes, foi desenhado para retirar a iniciativa das ruas, parecendo ser uma defesa dos direitos civis. Os bahreinianos, os egípcios, os tunisinos, os sauditas e os iemenitas não serão convencidos, e mesmo na Euro-America mais estão a opor-se a esta última aventura do que a apoiá-la. As lutas não estão terminadas.

O poeta alemão de século XIX Theodor Däubler, escreveu:
“O inimigo é a nossa questão encarnada
Ele perseguir-nos-á, e nós persegui-lo-emos com o mesmo propósito.”

O problema desta visão, hoje em dia, é que esta categoria de inimigo, determinada pelas necessidades políticas dos EUA, muda demasiadas vezes. Ontem Saddam e Khadafi eram amigos, regularmente ajudados pelas agências ocidentais de informações para lidar com os seus próprios inimigos. O último tornou-se amigo quando o primeiro se tornou inimigo. E assim continua a desordem mundial. O assassinato de Osama Bin Laden foi aplaudido pelos líderes Europeus como algo que faria do mundo um lugar mais seguro. Digam isso às fadas

13/09/2011

A China se beneficiou do 11-S?

Júlio Rios. Artigo tirado de Diário Liberdade (aqui) e publicado originalmente em castelhano em Rebelión.

A resposta só pode ser afirmativa, mas não se deve exagerar. A guerra contra o terrorismo debilitou o papel dos Estados Unidos no mundo, ao mesmo tempo que a ressurreição da China, passando da sexta posição no ranking econômico mundial (2001) à segunda (desde 2010), seguiu em ascensão. Em 2001, o PIB dos EUA foi de 10.14 trilhões de dólares e em 2010 ascendeu para 14.51 trilhões, em contraste com os 1.18 trilhões e os 5.88 trilhões da China em ambos anos.


Washington segue imerso nas custosas guerras do Afeganistão (desde outubro de 2001) e do Iraque (desde março de 2003), ambas desatadas no marco da guerra global contra o terrorismo anunciada pelo ex-presidente Bush no momento seguinte ao 11-S. Tais guerras, não obstante, com vitórias duvidosas, permitiram aos EUA satisfazer também objetivos estratégicos importantes (a guerra do Iraque nada teve a ver com o 11-S por mais que esse fosse um dos principais argumentos oficiais para conseguir a aceitação da população estadunidense), reafirmando sua hegemonia global, que segue sendo indiscutível no plano militar, por mais que tenha minguado na ordem econômica. O enorme gasto em defesa (segundo o SIPRI o dos EUA em 2009 foi seis vezes maior que o da China) contribuiu para aumentar o déficit orçamentário e a dívida nacional, e não conseguiu mitigar novos desafios como o próprio ressurgimento do Irã como ator regional de peso.

No plano político-ideológico, os excessos que acompanharam a cruzada contra o terrorismo, com sua sequela de gravíssimas violações dos direitos humanos, não acabam de se dissipar, inclusive aós o relevo democrata na Casa Branca. O Presidente Obama, com uma linguagem bem diferente de seu antecessor, desencantou muitos por sua inconsequência em ações como o fechamento da prisão de Guantánamo, mas ele não derivou em um maior atrativo para a China, por mais que afirme impulsionar uma nova ordem política e econômica internacional de perfil incerto e em qualquer caso não antagônico com as tendências globalizadoras promovidas por Washington.

Na China, o corrido nos EUA serviu para chamar a atenção internacional sobre a gravidade do desafio que encara em Xinjiang, região autônoma onde a nacionalidade uigur multiplicou de modo constante suas ações violentas para contestar a política de Pequim, que relaciona o secessionismo uigur com a rede al-Qaeda. Mas se diria que não encontrou complacência especial, aumentando as críticas a sua política em matéria de direitos humanos, alertando sobre a extensão do qualificativo "terrorista" a simples manifestações de dissidência.

Em um contexto mais geral, o 11-S acelerou o processo em virtude do qual se abre passo a um cenário de coexistência global de diferentes centros de poder econômico. Essa evolução era previsível de modo igual, se bem que poderia se dar em um ritmo diferente. Por outro lado, provavelmente a crise financeira iniciada em 2008 assegure um protagonismo de maior alcance ao dedutível do 11-S. Os investimentos diretos chineses no exterior subiram em 2010 para 68 bilhões de dólares, superando pela primeira vez o Japão e o Reino Unido.

Dez anos depois, a China apresenta um perfil mais incisivo em sua política exterior e, muito especialmente, multiplicou sua presença e influência no sudeste asiático e no entorno regional imediato, eclipsando tanto a presença do Japão como dos EUA, ambos em uma retirada dificilmente evitável pese as promessas de Hillary Clinton de "voltar" à região se servindo para isso das tensões no mar da China meridional. Neste sentido, pode se dizer que a China aproveitou o desvio de atenção de Washington, mas também deveu ajustar sua política em relação com áreas-chave (como Ásia Central) onde os EUA, em virtude da guerra contra o terrorismo, elevou a uma presença de grande valor estratégico e que facilitava o cerco à China. É o caso da Ásia Central, região-chave não só pela energia, mas também pelo comércio ou a segurança, ansiando a China diversificar os riscos com corredores que lhe una com a Europa, sua principal sócia comercial.

O poder suave da China e suas capacidades militares e estratégicas também progrediram após o 11-S, mas não até o ponto de supor um desafio iminente para os EUA, especialmente no segundo, apesar deste seguir muito de perto sua evolução. Em qualquer caso, faria mal Pequim em sobre-estimar o debilitamento do Ocidente. É de supor que essa será uma das principais conclusões do atuar de sua diplomacia na Líbia.

A guerra contra o terrorismo brindou a Washington um argumento de difícil contestação e grande utilidade para conter a China, principal preocupação estratégica da Administração estadunidense então e agora. Mas os fatos vieram demonstrar que as enormes capacidades potenciais da China são muito difíceis de conter operando no exterior sobre aqueles fenômenos ou espaços que poderão dificultar seu processo. No final das contas, sua capacidade de resistência é equivalente ou superior, dadas suas dimensões territoriais ou demográficas e a intensidade e pluralidade de suas relações externas.

É sabido que a única forma verdadeiramente eficaz de impedir a consolidação da China como superpotência do século XXI consiste em quebrar seu processo interno, incidindo em sua desmembração territorial ou em sua soberania ou estabilidade política (em um país cujo PIB per capita ocupa a posição 105 em nível global e em 92 em desenvolvimento humano), ambos aspectos, apesar de tudo, de difícil execução, ao menos no momento.

12/09/2011

A pregunta despois da vitoria de Trípoli: quen manda aquí?

Patrick Cockburn. Artigo tirado de Sin Permiso e traducido por nós para o galego desde o castelán (aquí).



En Libia o efectivo control militar rebelde desafía amplamente a estabilidade da política. En Trípoli hai postos de control en todos lados e ao longo da estrada da costa polo leste e o oeste. A seguridade é inesperadamente boa, considerando que a guerra recentemente terminou nestas áreas con alta densidade de poboación. Incluso os tiros ao aire dos exultantes rebeldes están a desaparecer.

Os membros do Consello Nacional de Transición (TNC, polas súas siglas en inglés) demoráronse para chegar a Trípoli e aínda máis para asumir o control ao chegar alí. Abdel-Rahman o-Keib, un membro do TNC, díxome que cría que os políticos rebeldes, a pesar da súa firme confianza na vitoria, estaban "desorganizados porque non pensaban que a caída de Gadafi fose tan rápida. As súas forzas non eran tan poderosas como pensabamos".

As divisións que non eran tan significativas en Bengasi repentinamente sono cando se trata de elixir quen obtén un traballo importante en Trípoli. Xa existe unha disputa sobre quen se fará cargo dos miles de millóns de dólares que se desconxelaron en Libia. Onte tamén foi a data límite que orixinalmente estabeleceran os líderes tribais de Obeidi ao TNC para encargarse dos membros responsábeis do asasinato do comandante do exército Abdul Fattah Younes o 29 de xullo. Ameazaron con que, se o TNC non actúa, eles mesmos se vingaran.

A tranquilidade actual pode ser enganosa. Moitos libios permanecen nas súas casas porque cren que é moi perigoso saír e, sobre todo, hai unha escaseza alarmante de gasolina. Mesmo fóra das gasolineiras fechadas hai colas de autos durante o día e a noite que esperan polo servizo. Algunhas tendas volveron a abrir, pero principalmente no centro dos distritos con maior seguridade, como Souq ao-Jumaa. Unha grande cantidade de libios, especialmente os das zonas adiñeiradas como Hai Alandus, aínda se atopan en Tunes ou noutros países onde poden refuxiarse.

Aínda así, soan baleiras as ameazas de Gadafi de loitar unha "guerra extensa" aínda que logran que o consello militar, a cargo de todas as milicias, estea nervoso. O seu presidente, Abdelhakim Belhaj, díxome que non lle sorprendería que os homes de Gadafi executasen disparos e bombardeos. No estado de máxima sensibilidade en que se atopa Trípoli, os pequenos ataques que demostren que o antigo réxime non morreu por completo afectarían desmesuradamente a súa confianza. Calquera vehículo que se achega aos dous hoteis onde se hospedan membros do TNC e os medios inquieta ás milicias.

A xente en Trípoli está asombrada, coma se non puidesen terminar de crer a súa sorte de que a guerra de seis meses terminase tan rápido e de maneira tan contundente. Isto tamén sorprendeu aos comandantes do exército local. Mesmo nunha área como Abu Salim, supostamente repleta de seguidores de Gadafi, houbo poucas batallas. Khalid, un contador dun banco local que porta un fusil de asalto, dixo: "Criamos que eran fortes, pero a batalla só seguiu por poucas horas. Moita xente cambiou de bando no último momento". El e outros milicianos sospeitan que os combatentes defensores de Gadafi retiráronse ás granxas das aforas de Abu Salim e están a preparar unha operación para eliminalos.

Case toda a xente en Trípoli sostén traballar abertamente ou en segredo no bando rebelde. Ao longo dos anos dixéronse tales improbábeis afirmacións en cada cidade capturada. Mais toda a evidencia apunta a que no momento en que os rebeldes irromperon en Zawiya en agosto e, para a súa sorpresa, descubriron que a estrada á capital estaba despexada e sen defensas, a moral das forzas defensoras de Gadafi  desmoronouse.

Un antigo soldado describiu como abandonara o seu tanque en Zawiya cando lle ordenaron que se retirase fronte a un ataque rebelde desde as montañas de Nafusa, un levantamento na mesma Zawiya e o implacábel ataque aéreo da OTAN contra as posicións de defensa dos partidarios de Gadafi. Simplemente decidiu que todo estaba perdido e non tiña sentido esperar a ser incinerado dentro do tanque. Sacouse o uniforme e fuxiu.

Dentro de Trípoli, os simpatizantes do réxime concluíron, de maneira similar, en que non tiña sentido morrer por unha causa perdida. Issam, un dono de camións islamita a cargo dun distrito en Souq ao-Jumaa, dixo que ao principio os seus homes tiñan poucas armas, mais que logo as obtiveron "indo casa por casa pedíndolles aos defensores de Gadafi que entregasen as súas e permanecesen nas casas". Ninguén se negou. Khalid en Abu Salim dixo que cría que o momento culminante da guerra chegara cando Gadafi fracasou en apoderarse de Misrata a comezos do verán e a OTAN reforzou os bombardeos. Despois os homes de Gadafi retiráronse e foi fácil determinar ao indiscutíbel gañador.

Gadafi foi traizoado por unha grande coalición de inimigos que incluía avogados de dereitos humanos, antigos militares xihadistas, persoas que estiveran anos en prisión e os membros do réxime que os puxeron alí. Homes como Belhaj, fundador do Grupo Islámico Libio de Loita e que di ser torturado pola CIA en Tailandia en 2004 e logo por Gadafi, atopáronse combatendo aliados coa OTAN.

A pregunta chave agora en Libia é se esta coalición se manterá unida cando teñan que crear as institucións democráticas do novo estado. Hai probabilidades de que xurda unha loita de poder, pero isto non importa a condición de que se acorden as regras de antemán. Algo crucial no camiño cara á guerra civil en Iraq en 2005 foi a creación dunha elección aínda cando a comunidade sunita non aceptara as regras. Outro factor preocupante nas loitas por poder nos estados con petróleo, como Iraq e Libia, é que calquera que asume autoridade, aínda que sexa por un curto período, resiste para obter moito diñeiro.

Se Gadafi fose asasinado ou capturado eliminaríase un punto de unión co antigo réxime, mais tamén se perdería un conveniente foco para a oposición. En varias maneiras tratouse dun inimigo útil para ter no campo de batalla. Unha vez involucrado o poder aéreo da OTAN era segura a súa derrota, xa que Francia e Grande Bretaña probabelmente non permitirían verse humillados pola súa permanencia no poder. Gadafi e os seus comandantes empregaron algunhas tácticas novas durante a guerra, como colocar minas para detonar a distancia ao costado das estradas. O uso de artefactos explosivos improvisados, o que converteu ás estradas de Iraq en letais para as tropas estadounidenses, e destruí columnas rebeldes de camionetas sen blindaxe.

Politicamente, o TNC móstrase desunido, fráxil e desorganizado para asumir o control do goberno. Pola contra, os comités locais que brindan seguridade nas rúas de Trípoli aparentan ser altamente capaces. A pesar de que nas tendas haxa escaseza de auga, comida, combustíbel e case calquera outra cousa, os comités sosteñen que acumularon suficientes existencias durante o últimos seis meses para evitar unha crise humanitaria. Con todo, aparentemente o liderado político atópase débil e non é probábel que as milicias se disolvan de maneira obediente. Quizais o novo estado libio non sexa capaz de soportar moita presión, pero, doutra banda, a diferenza de Iraq e Afganistán, talvez non deba facelo.



01/09/2011

Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite

Naomi Klein. Artigo tirado de Esquerda.net (aqui).

Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – montras partidas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, uma geração que se sente esquecida. Esses acontecimentos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques.



Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdade, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores haviam saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exactamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espectáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdade e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era ultraliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos electrónicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo – o saque [1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender património da nação à guisa de ‘privatizar’, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das ‘privatizações’, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de ‘austeridade’. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gangsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, abomina esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os ‘resgates’ massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bónus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, colectivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do sector público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram um protesto político. Mas o pessoal dos saques nocturnos com certeza absoluta sabe que as suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram. Presos longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade –, eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os sectores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua ‘incitação’ levou a alguma consequência (NTs: mais informações no Guardian)]. Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogéneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.



11/07/2011

Até a derradeira pinga

Najar Tubino e Luam Tubino. Artigo tirado de aqui.

http://www.cartamaior.com.br/arquivosCartaMaior/FOTO/66/foto_mat_28558.jpgDesenterrar os mortos nunca foi um propósito adequado para uma civilização. Muito ao contrário. Sempre foi sinônimo de profanação. A espécie humana, principalmente, alguns representantes interessados em negócios fáceis, em ganhar dinheiro rápido, investiram profundamente na profanação. Claro que isso é uma metáfora. Afinal, os mortos são bilhões de toneladas de fitoplâncton, que morreram há milhões de anos e formaram nas profundezas dos oceanos, em locais sem oxigênio, imensas jazidas de petróleo. Um conteúdo cheio de óleo e ceras, que precisa cozinhar entre 100 e 135 graus Celsius, por milhões de anos.

Um cientista americano, Jeffrey Dukes, da Universidade de Utah, calculou em 100 toneladas de fitoplâncton (massa vegetal), para produzir 4 litros de petróleo. Nesse raciocínio, que envolve a luz solar, responsável pela fotossíntese e o crescimento das plantas, também calculou que em 1997, a humanidade consumiu 422 anos de luz solar fossilizada. Ou algo, como 24 bilhões de barris. Em 2011, o consumo do petróleo aumentará quase dois milhões de barris/dia, deverá alcançar 87,9 milhões barris/dia, conforme os cálculos da Agência Internacional de Energia (IEA).

Será assim até 2030, conforme todos os outros cálculos de consultorias, em presas petrolíferas, até chegarmos ao consumo de 111 milhões de barris/dia, em 2030. O que corresponderia a uma emissão de gás carbônico muito maior do que as quase 30 bilhões de toneladas de 2008. Seguiremos aumentando em 1,8% o consumo de petróleo, na média mundial embora a China deva crescer o dobro (3,6%). Não é mera coincidência que o maior mercado da indústria automobilística é o chinês, já ultrapassaram os americanos na produção de carros – 13 milhões em 2010. O que está muito claro, a esta altura, de infrutíferos debates sobre aquecimento global e mudanças climáticas, é o seguinte: a indústria petrolífera desenterrará até a última gota do ouro negro existente nas profundezas dos oceanos do planeta. Em 2011, tem um número que define o tamanho e a vontade das petrolíferas nesta corrida: US$ 500 bilhões de dólares. É o que as maiores petrolíferas, privadas e estatais, pretendem investir na busca pelo petróleo de águas profundas com sondas, plataformas, tubulações, barcos, navios.

O pré-sal brasileiro, que poderá ter 15 bilhões de barris, praticamente as reservas atuais do país, ou até mesmo 30 bilhões, se confirmarem as expectativas sobre o campo de Libra, está nesta conta.

Quem são os maiores
Mas a história desse cenário é um pouco mais complicada. As antigas 7 irmãs, como eram chamadas as 7 maiores empresas petrolíferas privadas, agora são 4: Exxon Mobil, Chevron, Royal Dutch Shell e Britsh Petroleum, renomeada de BP PLC, a responsável pelo vazamento ocorrido em 20 de abril de 2010, quando mais de cinco milhões de barris jorraram pelo Golfo do México. O problema é que as empresas estatais cresceram, compraram ou investiram em tecnologia, e aumentaram suas participações na extração de óleo negro. O maior exemplo disso é a Aramco, a Saudi Arabian Oil, empresa da Arábia Saudita, que tem uma reserva de mais de 260 bilhões de barris, a maior do mundo. Onde também está localizado o poço Gahwar, de onde saíram quase 1/7 das reservas mundiais de petróleo. Seguidas pela National Iranian Oil, com seus 136,5 bilhões de barris e a Petróleos de Venezuela (PVDESA), com 99,4 bilhões de barris. A maior petrolífera privada, a Exxon Mobil tem 7,6 bilhões de barris, depois a Chevron com 7,3 bilhões de barris e a Conoco Philips com 5,6 bilhões. A BP e a Shell estão na faixa dos 4,5 bilhões de barris. As duas europeias vivem brigando pelo posto de maior petrolífera do velho continente.

Pelos cálculos do periódico mundial, especializado no setor, Oil & Gas Journal, as reservas mundiais de petróleo em 2009 eram de 1,34 trilhão de barris. E, se somássemos o valor de mercado das petrolíferas (50 maiores) daria algo como US$ 3,9 trilhões, e suficiente para bater o valor de mercado de todas as companhias de tecnologia da informação eletrônica, listadas na NASDAQ. As informações são da Consultoria PFC Energy, de Washington. Vamos ver, em valores de mercado, quanto vale cada uma:

Empresas............Cotação (US$) em bilhões.............País

Exxon Mobil............................. 369.................................EUA

PetroChina.............................. 303.................................China

Petrobras................................ 229.................................Brasil

Royal Dutch Shell.....................208.................................Anglo holandesa

BP PLC.................................... 136.................................Reino Unido

Sinopec................................... 102.................................China

Chevron.................................. 184.................................EUA

Total........................................ 124.................................França

Gasprom..................................149.................................Rússia

GDF Suez (*).......................... 80.................................Franco-belga

Total.....................................1.884

(*) Entre seus negócios é sócia majoritária da Usina de Jirau, no rio Madeira, que encontra-se em fase final de construção.

Petróleo e a guerra
Todas as empresas de capital aberta, com ações em bolsas. As estatais fechadas como a Aramco e a iraniana, não estão no cálculo. E o que é mais importante, a maioria das empresas privadas não tem aumentado as suas reservas, e por isso, se empenham tanto em buscar a última gota em água profundas. Na verdade o único lugar onde as petrolíferas aumentaram a extração, entre 10 e 20%, foi no Iraque. A segunda maior reserva do Oriente Médio, exporta 2,1 milhões de barris/dia, mesmo depois da invasão americana e seus 80 mil mortos civis. Na verdade as instalações do Iraque, principalmente no sul do país, pelo Golfo Pérsico, onde é mais barato exportar, continuam destruídas, desde a guerra com o Irã, também apoiada pelos Estados Unidos, contra os xiitas. Petróleo e guerra são sinônimos de poder e lucros.

As quatro empresas que aumentaram a extração foram Exxon, Eni SPA (italiana) e Shell. Até o próximo ano pretendem duplicar a exportação, 4 milhões de barris/dia. Para isso vão investir US$ 1,4 bilhão em navios flutuantes no mar, capazes de armazenar grandes quantidades de petróleo (servem de porto em alto mar), em três oleodutos, além de continuar utilizando o da Turquia, que leva o óleo até o mar Mediterrâneo.

Petróleo também significa logística e aparato para protegê-la. Por isso, os americanos têm suas bases no Oriente Médio, e a sede de um dos comandos no Qatar. Na divisão das reservas mundiais, 56% estão nos países do Oriente Médio, o que significa uma quantidade em torno de 722 bilhões de barris. Os estadunidenses importam 70% do petróleo consumido. Eles diminuíram os gastos nos últimos anos em torno de 4%, mas ainda consomem 19 milhões de barris/dia. Traduzindo: 22% do consumo mundial. Para complementar: 75% dos trabalhadores estadunidenses vão de carro para o trabalho. E 14 milhões de barris/dia são gastos com o transporte.

Também complementando os dados da logística da guerra: os bombardeios da OTAN, ou seja, os ricos europeus, na Líbia, têm um significado – 50 bilhões de barris, do outro lado do Mediterrâneo, um petróleo mais leve que o da Arábia Saudita, ou seja, com menos enxofre, muito melhor para produzir combustível de carros, caminhões, navios. Por sinal, a amizade de Silvio Berlusconi com o líbio Muamar Khadafi se traduziu nos maiores contratos para a Eni, a petrolífera italiana, onde o governo da Itália, detém 30% do controle.

Em águas profundas
No dia 10 de janeiro de 1901, no alto da pequena colina chamada Spindletop, na localidade de Beaumont, no Texas, um solitário garimpeiro chamado All Hamil tentava alcançar uma jazida, que ele ainda não sabia se existia. Já tinha furado 300 metros, uma novidade na época. Até que, finalmente, uma espessa nuvem de gás metano esguichou do buraco e tomou conta do ambiente. “Em seguida veio o líquido, como relata Tim Flanery, cientista e escritor australiano, em seu livro “Os Senhores do Clima”, uma coluna de 6 polegadas de largura que subia centenas de pés no céu de inverno, como uma chuva negra”. Quarenta anos antes, o primeiro poço em terra, havia sido perfurado na Pensilvânia. Desde 1882, Thomas Edson descobriu a utilidade do carvão mineral para produzir eletricidade, ao inaugurar a primeira usina na baixa Manhattan. Duas descobertas trágicas para a atmosfera do planeta.

O problema é que a tragédia vai aumentar. A busca pelo petróleo abaixo de mil metros, podendo chegar a 7 mil metros, é a última sensação da indústria petrolífera mundial. Em 2010, foram produzidas 25 plataformas para extrair petróleo. Em 2011, serão 35. A capacidade mundial de construção de tubulações, que tiram o petróleo do sono profundo no oceano, até a superfície, está toda contratada. A Petrobras é a principal cliente. Nem mesmo o acidente no poço Macondo, na plataforma Deepwater, contratada pela BP, mas de propriedade da Transocean, empresa americana – em 2008, transferiu seus escritórios para a Suíça, por motivos tributários – diminuíram o vigor dos investimentos. Por exemplo, a Halliburton, também americana, especializado na cimentação dos poços, inclusive o que explodiu, teve seus lucros engordados em US$ 1,8 bilhão, a receita subiu 40% para US$ 5,3 bilhões.

Erle P. Halliburton fundou a empresa como cimentadora de poços em 1919 e, agora, dizem os executivos, descobriram uma nova “tecnologia” para explorar novos poços em terra – a receita cresceu 3 bilhões de dólares, no primeiro trimestre de 2011. Os ambientalistas dizem que a tecnologia de perfuração contamina a água e o ar, porém, quando se trata de busca pela última gota, isso não tem a mínima importância. Dick Cheney, vice de Bush, trabalhava na empresa.

Segundo levantamento da Barclays Capital de Londres, quem vai se colocar contra investimentos de 500 bilhões de dólares ao ano, na próxima década, por exemplo, que é o gasto das petrolíferas em águas profundas? Mesmo depois de furar 50 mil poços no Golfo do México e matar 11 pessoas no Macondo e derramar 5 milhões de barris, a economia não para. Como escreveu um analista de The Wall Street Journal, recentemente: os países precisam de dinheiro, empregos, energia e as empresas de lucros, e os consumidores de combustível, porque não largam seus carros, não viverão nunca sem eles.

Estrutura Gigante
Vejamos alguns desses investimentos em águas profundas. O Brasil não fabrica sondas de perfuração. O aluguel desse equipamento custa US$ 500 mil por dia. Uma sonda perfura um poço em 3, 4 meses, ou seja, três poços por ano. Uma plataforma de produção, as FSPCO, como eles chamam em inglês, usa de 15 a 20 poços para montar um sistema de produção, como a de Tupi, por exemplo, que começou a produzir 100 mil barris, em outubro de 2010. Cada sistema de produção precisa extrair entre 100 e 180 mil barris/dia. A previsão da Petrobras para o pré-sal é produzir 4,5 milhões de barris em 2020. Como disse o presidente da empresa, Sérgio Gabrielli, “precisamos ter entre 40 e 41 desses sistemas de produção. Cada sistema custa em torno de US$ 3 bilhões. Cada um deles precisa de 5 barcos de apoio (rebocadores, chatas, navio bombeiro). Seriam 200 barcos”.

Um petroleiro com capacidade máxima para transportar 1,1 milhão de barris (Suez Max) poderia resolver o problema do escoamento. Mas eles não estão disponíveis. Seriam necessários entre 20 e 30 navios, para escoar a produção diária. Por isso, nos próximos quatro anos a Petrobras pretende investir mais de 200 bilhões de dólares. É o maior investimento, entre as petrolíferas, no mundo. Segundo os cálculos de cada 1 dólar investido pela empresa, outros 1,6 a 2,2 dólares correm na economia, por conta dos 55 setores que apóiam a atividade. Então, o negócio salta para 400 a 600 bilhões de dólares.

São fortunas e mais fortunas. Em 2008, antes da explosão no Golfo do México, o lucro da BP foi de US$ 25 bilhões. Em 2010, fez um caixa de US$ 30 bilhões. A capacidade de extrair lucros do fitoplâncton enterrado a 300 milhões de anos, é incrível. Mesmo que para isso, se altere a atmosfera do Planeta e o aquecimento global se torne uma realidade insuportável. Para as petrolíferas ele será benéfico. Proporcionará mais negócios, agora na Groenlândia e no Ártico.

Descongelando o ouro negro
A Groenlândia, uma ilha de gelo de mais de 2 milhões de quilômetros quadrados, vizinha ao Polo Norte, 57 mil habitantes, US$ 2 bilhões de PIB, cuja atividade principal é exportar camarão, ainda recebe quase 600 milhões de dólares de ajuda da Dinamarca, o país dono da área, desde os idos de 1700. Esconde uma fortuna na costa noroeste, na Baía Baffin. O Serviço Geológico dos Estados Unidos calcula que existam 31,4 bilhões de barris na Baía, e outros 17 bilhões no subsolo do oceano entre a Groenlândia e o Canadá. Pode-se arredondar o bolsão de petróleo para 50 bilhões de barris. O aquecimento reduz o gelo, muda o clima mundial, mas diminuiu os custos e as dificuldades das petrolíferas, na extração. Junte-se a isso, a vontade das lideranças da Groenlândia, há muito tempo interessadas em ser “independentes” da Dinamarca e está lançada a corrida pelo ouro do Ártico.

Nessa briga também estão Noruega, Rússia, Estados Unidos, todos reivindicando novas terras para seus territórios. Em 2010, a Groenlândia concedeu 7 novas licenças de exploração. Nos próximos dois anos, 12 empresas já se inscreveram. Isso inclui, petrolíferas menores, como a Cairn Energy (inglesa), a Statoil (norueguesa) e a Moeller Maersk, maior empresa de transporte marítimo do mundo, maior números de navios e de contêineres.

Ou seja, depois das reservas do pré-sal brasileiro, que também incrementou uma corrida das petrolíferas. [A BP comprou os ativos da Devon Energy por US$ 7 bilhões em 2010, a Sinochen comprou 40% do campo de Peregrino da Statoil e a Sinopec comprou 40% da Repsol (espanhola) no Brasil, traduzindo um robusto investimento chinês (inclui mais US$ 10 bilhões de empréstimos à Petrobras)] a Groenlândia é a segunda maior oportunidade. Tem um problema de custo, mas o petróleo acima de 100 dólares o barril (159 litros), viabiliza qualquer exploração. O cálculo é de 30 a 40 dólares, para extrair petróleo de areia betuminosa, como na província de Alberta, no norte do Canadá, ou da pedra de xisto, que os Estados Unidos tem a maior reserva mundial (já exploram 20%). No caso da Groenlândia, 50 dólares é o preço mínimo do barril, que viabiliza a operação. No pré-sal brasileiro, o custo de Tupi ficou abaixo de 45 dólares/barril. O poço pronto para escoar o óleo, envolve outros seis poços, custou US$ 245 milhões.

Em setembro de 2010, 300 participantes, de 15 países discutiram a situação do Ártico, na Groenlândia. Por sinal, o governo autônomo da ilha, pretende ficar com 60% do ouro descoberto. No Iraque a taxa é de 95%. Uma comparação interessante sobre o custo de extração de um abril, em terra: na Líbia ele é de 5 a 10 dólares por barril.

A explosão da Deepwater
A proprietária da plataforma que explodiu no Golfo do México, a Transocean, fundada na Louisiana, em 1926, é uma empresa especializada em alugar plataformas de petróleo para as grandes petrolíferas. Em 2007, ainda comprou a concorrente global Santa Fé por US$ 18 bilhões. Ela aluga 11 plataformas no litoral brasileiro. O número de plataformas marítimas, que atuam a partir dos 1 mil metros de profundidade, aumentou 43% desde 2006, são agora 146. Outras 65 estarão em operação até o final do ano. Existe um mecanismo instalado no leito do oceano, faz parte da estrutura da plataforma, que é um conjunto de válvulas, chamadas de blowout preventer ou BOP, são ativadas numa explosão. Lógico que elas não funcionaram no dia 20 de abril. No levantamento dos casos de incidentes com plataformas no Golfo do México, ficou constatado, que depois da fusão das duas empresas 24 dos 33 incidentes estavam relacionados com plataformas da Transocean. Eles continuam acontecendo pelo mundo inteiro.

O The Wall Street Journal fez o levantamento no final do ano passado. Os casos incluíam um vazamento grande na costa australiana, um outro poço fora de controle no Golfo do México, envolvendo a plataforma Lorris Bonzigard. No Mar do Norte, litoral da Noruega, um vazamento de gás numa plataforma de produção quase causou outro acidente do nível da Deepwater. Nas estatísticas analisadas de quatro países, com grandes indústrias de perfuração em alto-mar (EUA, Grã Bretanha, Noruega e Austrália), constavam 28 registros importantes de derramamento de óleo e gás no Golfo do México – 65% a mais do que em 2006. A Agência de Saúde e Segurança do Reino Unido registrou 85 vazamentos sérios de petróleo e gás, no ano encerrado em 31 de março de 2010 – 39% a mais. Na Noruega foram 37 vazamentos. Na Austrália outros 23 derramamentos no primeiro semestre de 2010.

As empresas argumentam as dificuldades com mão de obra qualificada, de retenção de trabalhadores, equilibrar as prioridades de segurança com os lucros, e a lapsos ocasionais devido à regulamentação frouxa. Além disso, como ressalta o jornal, que é o porta-voz das grandes corporações no mundo além de ser propriedade do bilionário da mídia Rupert Murdock -:

- Perfurar em águas profundas é crucial para saciar a crescente sede de combustível do mundo. O potencial retorno, lucro para acionistas das petrolíferas, arrecadação de impostos, emprego e independência energética para o país, é grande demais par conter o avanço dessa atividade. A confiança do setor na própria capacidade de operar com segurança nas instalações de exploração de petróleo e gás no mar segue basicamente inabalada”.

Risco de 1 em 43
O engenheiro David M. Pritchanrd, consultor da área de petróleo, fez um levantamento sobre a possibilidade dos riscos de acidentes em poços no alto mar. Ao invés de analisar 50 mil poços, selecionou por complexidade de operação. Entre 5 mil poços, no nível de operação da plataforma Deepwater, selecionou 43. Quer dizer, a probabilidade de ocorrer acidente é de 1 poço em 43. No dia 21 de agosto de 2009, uma empresa tailandesa perfurava no Mar do Timor, 650 km a oeste de Darwin (Austrália), quando perdeu o controle do poço, e acabou lançando centenas de barris ao mar. Logo em seguida, a plataforma pegou fogo e explodiu. A empresa teve um prejuízo de US$ 150 milhões. Jane Cutler, da agência reguladora da Austrália, atribuiu o acidente à “incompetência de operários, funcionários e empreiteiras”.

A BP, petrolífera que explorava o poço Macombo explodiu com o gás metano vazado na plataforma Deepwater – constataram que os computadores não estavam configurados para registrar o vazamento – perdeu 46% do valor de suas ações. Ela ainda não foi condenada nos Estados Unidos, mas já fez uma provisão em seu orçamento de US$ 40 bilhões de dólares, para pagamentos de indenizações e limpeza do mar e da superfície atingida. Também trocou de presidente. Criou uma força tarefa com 500 especialistas, para lidar com qualquer tipo de incidente, que ocorra em seus poços. Uma iniciativa muito atrasada. A BP tem um histórico de acidentes por motivos de falta de segurança. Nos últimos anos, vinha cortando orçamento nesta área. Chegou a demitir 7.500 funcionários, e cortou US$ 4 bilhões de custos. O ex-presidente Tony Hayward comentava em documento interno, que eles estavam perdendo espaço para a Shell, e cederiam o título de maior petrolífera europeia.

Cada dólar importa
Em dezembro de 2007, num memorando interno, o vice-presidente para produção no Golfo do México, Richard Morrison, comentava os fatos:
- Nas últimas duas semanas de 2007, uma frequência sem precedentes de incidentes sérios em nossas operações... somos extremamente afortunados que um ou mais dos nossos colegas não tenham sido seriamente feridos ou mortos”.

As operações no Golfo se concentravam em atingir metas de desempenho e redução de custos, que eram os parâmetros, para definir o tamanho dos bônus dos gerentes de alto escalão e trabalhadores de nível mais baixo. Era a “cultura de que cada dólar importa”.

Em outubro de 2007, a BP concordou em pagar US$ 373 milhões para arquivar acusações relativas à explosão ocorrida em uma refinaria de Texas City (Ohio), um vazamento de petróleo no Alasca e mais a acusação de manipular o mercado de gás propano nos EUA. A agência responsável pela segurança do trabalho estadunidense (OSHA) fez uma inspeção, de 6 meses depois da explosão da refinaria de Texas City, onde morreram 15 pessoas em 2005.

Descobriu o seguinte: as válvulas que aliviam a pressão na refinaria não foram trocadas. Enquanto isso, o porta-voz oficial da BP dizia: “a redução na frequência de lesões, maiores incidentes relacionados a compra de equipamentos, foi possível economizar por meio da redução de despesa e simplificação da estrutura corporativa”. Sobre a vibração de certas bombas concluiu: “não era em si uma causa para preocupação com a segurança e o meio ambiente” e adiou o conserto. Em documento interno havia registro sobre “a falta de engenheiros e inspetores, que poderia por em risco a manutenção de equipamentos críticos”. Em dezembro de 2007, foram 10 ocorrências com “alto potencial de risco em unidades da empresa”.

Após a explosão da plataforma, o presidente do Conselho de Administração da BP, Henric Svanberg dizia:

- A BP será uma empresa diferente no futuro, exigindo uma nova liderança, sustentada por uma governança robusta e um conselho muito engajado”.
O maior drama da petrolífera envolve as duas sócias no poço Macondo, a Anadarko Corporation e a Mitsui & Co (no Brasil é acionista da Vale e dona da marca Café Brasileiro, entre outras coisas). Se ela for condenada pela justiça dos Estados Unidos, como responsável pelo acidente, as sócias não pagarão nada pelos prejuízos. Já avisaram sobre a decisão.

Procura e crescimento
A empresa especializada em análise de tendências do mercado do petróleo, a IHS Cambridge Energy Reserch Associates calcula que a produção em águas profundas no mundo, hoje avaliada em 5 milhões barris/dia, irá duplicar até 2020 – 10 milhões barris/dia, significa um pouco mais de 10% da demanda mundial. A previsão da Agência Internacional de Energia (AIE) é um consumo de 87,9 milhões de barris/dia em 2011, algo como 1,3 milhão a mais comparada a 2010. A IHS também publicou no final do ano passado uma lista com as maiores descobertas de petróleo no mar, acima de 300 metros de profundidade. Entre os 10 maiores poços comprovados, o Brasil ocupa 7 posições (de 1 ao 7), em termos de volume estimado. São eles: Tupi, descoberto em 2006, já produzindo, com 5 a 8 bilhões de barris. Júpiter (2008) até 8 bilhões. Franco (2010): 4,5 bilhões. Iara (2008) 3 a 4 bilhões. Jubarte (2001) 1,7 bilhão de barris e 17,7 bilhão de m3 de gás. Mexilhão (2001): 200 milhões de barris e 227 bilhões m3 de gás. Na lista não está o poço de Libra, que ainda segue sendo investigado. Todos os poços brasileiros encontram-se nas bacias de Campos, Espírito Santos e Santos.

Em décimo lugar tem um poço descoberto em Gana, na África Ocidental (Jubille), descoberto em 2007, com 1,5 bilhão de barris. Depois na Nigéria (Bouge Southwst, 2001), descoberto pela Shell, com 1 bilhão de barris. Nos Estados Unidos descobriram Tiber (2009), com 600 milhões de barris, da BP, a petrolífera inglesa. E outro da Shell, Great White (2002), com 500 milhões de barris.

A previsão da IHS para 2020 destaca os três maiores pontos de prospecção em volume no mundo. O Golfo do México, que já produz 1,2 milhão barris/dia, e deverá seguir com a mesma extração até 2020, com 38 plataformas.

O Brasil conta com 1,4 milhão de barris/dia atualmente e em 2020 terá 3,5 milhões de barris, com 61 plataformas. A Petrobras calcula 4,5 milhões de barris para o mesmo período, e já tem em operação 118 plataformas. Por último, a África Ocidental, que extrai 2,2 milhões de barris e em 2020 aumentará para 3,6 milhões de barris, com 32 plataformas. As áreas onde as pesquisas mais avançam em águas profundas estão no Golfo da Guiné, Mar Mediterrâneo e nas águas turcas do Mar Negro. A Chevron, a Statoil, norueguesa (67% de participação do governo) e a inglesa Tullow Oil PLC se destacaram mais entre as petrolíferas privadas. A Tullow anunciou a descoberta, na profundidade de 1.427 metros, de um poço na costa de Gana, com 1,5 bilhão de barris e começou a produzir no final do ano passado. A Chevron anunciou a compra de direitos de exploração em águas profundas de 3 grandes blocos na Libéria, começa a perfurar em 2011, além de outras áreas na águas turcas no Mar Negro e na China.

Sem dúvida, como diz o jornal inglês Financial Times, “o queridinho do momento” quando se fala em petróleo em águas profundas é o Brasil. Como diz o diretor do Programa de Energia do Instituto das Américas, da Universidade da Califórnia, Jeremy Martin:

- Eles (Brasil) tornaram a sua bacia atlântica o maior laboratório de pesquisa e desenvolvimento offshore do mundo. A grande história desta década, é o Brasil ter passado de uma posição coadjuvante para o topo da lista das potências petrolíferas da América Latina”.

Em 1980 o Brasil extraía 263.900 barris/dia, hoje são 2,5 milhões.

Mercado sem futuro
Não sei como as leis econômicas funcionarão no futuro, digamos daqui há 100 anos. Mas certamente, elas não poderão vender o que não existe, por se tratar de produto não renovável. Ou seja, algo produzido ao longo de milhões de anos, por processos naturais, que posteriormente serviu de base para a industrialização e a locomoção de milhares de produtos e, principalmente, pessoas. As petrolíferas privadas ou estatais podem brigas até morrer pela última gota de petróleo, porém será a última, não haverá a próxima. A tecnologia moderna, maior estrela do momento, na civilização ocidental, não esboçou a mínima capacidade de recriar um barril de petróleo, muito menos, os seus derivados, como a gasolina, o óleo diesel, ou a nafta, que é a base da petroquímica. Poderemos desenvolver a alcoolquímica. Resta saber quanto da porção de terra do planeta será necessária para sustentar o aumento do consumo de combustível fóssil – petróleo, gás e carvão.

Segundo a Agência Internacional de Energia o consumo primário de energia em 1973 era de 6,115 bilhões de toneladas. Em 2008, esse número cresceu para 12,267 bilhões de toneladas. Na década de 1970 o petróleo era responsável por 46,1% do consumo. Em 2008, o índice baixou para 33,2%. Ao mesmo tempo aumentou o de gás (de 16% para 21,1%) e o de carvão, que é o pior emissor de gases estufa entre os combustíveis fósseis.

O maior consumo, lógico, é dos países ricos, reunidos na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Mas a China consumia apenas 7% da energia primária do mundo em 1973, hoje (2008), consome 17,4%. As mesmas proporções valem para o consumo apenas de combustível. Em 1973, o consumo era de 2,805 bilhões de toneladas, pulando para 3,696 bilhões de toneladas em 2008. A participação da Europa nessa quantia era de 36,4% e passou para 34,7% levando em consideração as mesmas datas, e apenas os países desenvolvidos. O maior consumo é da América do Norte: 53% em 1973, e 50,3% em 2008.

No mundo o consumo total de combustível foi de 4,676 bilhões de toneladas em 1973 e 8,428 bilhões de toneladas em 2008. Os índices da OCDE variam de 60,1% (inclui Europa, América do Norte, Japão e Coreia do Sul). O restante da Ásia saltou de 6,4% para 11,6%. .A China, não entrou na contabilidade da Ásia, saiu de 7,9% para 16,4%. Outro dado revelador: o consumo mundial da indústria baixou: de 19,9% para 9,5% em 2008. Já o do transporte cresceu de 45,3% para 61,4%. O consumo de petróleo, envolvendo os principais setores da economia, inclui agropecuária, comércio, saiu de 2,250 bilhões de toneladas em 1973 para 3,502 bilhões de toneladas em 2008.

Não há ganhadores
A maior consequência disso está marcada na emissão de gás carbônico. Em 1973, eram 15,623 bilhões de toneladas emitidas. Trinta e cinco anos depois, o número chegou a 29,381 bilhões. As emissões oriundas do petróleo baixaram de 50,6% para 36,8%, mas a de gás metano (natural) cresceram de 14,4% para 19,9%. E a do carvão subiu de 34,9% para 42,9%. É o triunvirato fóssil responsável por mais de 97% das emissões de CO2. Os países ricos ficaram com 43% de participação (2008). A China e a Ásia, em conjunto, assumiram 32,6% das emissões. A queda de mais de 20% nas emissões dos países ricos está muito mais ligado a transferência de indústrias pesadas (alumínio, ferro-liga, siderúrgicas, celulose e alimentos), do que por questões de eficiência ou redução do consumo entre europeus, japoneses ou norte-americanos.

Esse é um jogo em que não há ganhadores, ou milionários vencedores. O máximo que estamos fazendo é condenar, antecipadamente, os nossos descendentes, netos, bisnetos e tataranetos. Condenação irrestrita e totalmente consciente. Na ponta do lápis. Pois, a partir de 2030, com todos os recursos e técnicas disponíveis para retirar a última gota de petróleo da terra ou do mar, não mudarão os índices de extração rumo à queda nas reservas.

Muito provavelmente nesta conta destrutiva a floresta boreal do Canadá, que guarda em seu subsolo cerca de 1,374 trilhão de barris de petróleo, misturado a areia – as chamadas areias betuminosas, ou areias de piche -, conforme estimativa da consultoria internacional Ernest & Young, será detonada. Cada barril extraído, literalmente, cozido porque as areias são fervidas para desencravar o óleo cru, 2,5 a 4 barris de água. Ou então, da pedra do xisto betuminoso, onde os Estados Unidos guardam uma reversa de 1,5 trilhão de barris. Completando o quadro futuro: 1,3 trilhão de barris de petróleo pesado – custo de 30 dólares para transformar – da Venezuela.

A soma indica 4,4 trilhões de barris de “petróleo não convencional”, como dizem e registram os analistas de mercados e as consultorias. Todos enfocam os graves prejuízos ambientais, que resultam da exploração desse ouro negro. A gasolina da areia de piche poluiu 30% mais.

Não haverá redução
Entretanto, o marco, que define as circunstâncias da exploração, é a cotação na bolsa Mercantil de Nova Iorque e Londres. O petróleo subiu 117,76% desde a crise financeira de 2008, quando atingiu seu pico máximo – 147 dólares por barril. Agora está na faixa dos 100 dólares. Não há economista, banqueiro, ou burocrata de governo que não reconheça uma cota de especulação nesse patamar de preço. O próprio preço do dólar no mercado internacional, e os juros quase zerados nos Estados Unidos, levou os investidores em busca de ganhos. De qualquer tipo: nos últimos tempos procuram as commodities, como minério de ferro, trigo, açúcar, soja, milho e petróleo. Hoje em dia, se investe não apenas em ações, títulos ou bônus de mercado. Existem índices, como o de commodities, onde se aposta em preços futuros.

No mercado petrolífero ninguém acredita em redução de preços. O cálculo mais lógico está entre 60 e 80 dólares. Qualquer um dos parâmetros desencadeia a exploração de areia, do xisto, Ártico, ou águas profundas. É exatamente isso que acontece neste momento, no mundo inteiro. Os países ricos não gostam da cotação de 100 dólares o barril, apesar de seus investidores bilionários, ganharem rios de dinheiro com elas. A previsão dos Estados Unidos é um custo de US$ 385 bilhões em importações, exatamente US$ 80 bilhões a mais, com esta cotação, segundo cálculos do economista chefe da IEA, Fatih Birol.

No caso da Europa, a importação custará US$ 375 bilhões, ou, US$ 76 bilhões a mais. E a OPEP, que reúne os 12 países “produtores” de petróleo já avisou que não vai aumentar a extração. Eles são responsáveis por quase 40% do petróleo comercializado no mundo, em dezembro de 2010 eram 29 milhões de barris/dia. A Arábia Saudita contribui com mais de 6 milhões, a Rússia e seus parceiros, com 4,8 milhões, são os dois maiores exportadores. Na crise do petróleo em 1973 os preços subiram de 4 dólares o barril para 12 dólares. Em 1979, nova crise, aumentaram de 12 para 40 dólares.

E agora não vai baixar. O maior extrator, a Árabia Saudita implantou um plano de geração de emprego e distribuição de renda de mais de US$ 100 bilhões. A família do rei Abdallah não quer ter problemas com revoltas populares, de nenhuma espécie. Muito menos, depois dos bombardeios da Otan em Tripoli, caçando Khadafi. O consumo doméstico aumentou de 3,4 milhões de barris/dia para 8,3 milhões, o que inclui gastos com usinas elétricas, dessalinização e indústrias pesadas como do alumínio e siderúrgicas. Os sauditas não deram atenção ao gás – tem a quarta maior reserva – e correm contra o tempo. Ou melhor, passaram a negociar mais com os chineses, os motores da economia mundial. A China investe em 20 dos 31 países, onde tem a marca das empresas nacionais, na indústria petrolífera. A Arábia Saudita bateu o recorde de venda de 1 milhão de barris/dia, antes dos Estados Unidos, agora da China. Eles também compram 52% da produção do Sudão (465 mil barris) e entre 155 e 400 mil barris, da Venezuela. Os chineses trocam investimento em indústrias, ou na exploração de poços, refinarias, por petróleo Na América Latina investiram quase 20 bilhões de dólares, em 2010, entre ativos a compra da Pan American Energy, na Argentina, onde descobriram reservas de xisto.

Números da Cadeia

No Brasil participam da exploração do pré-sal com a Sinochen, como sócia da Statoil, e a Sinopec que comprou parte da Repsol. No ano passado a China importou 4,8 milhões de barris/dia, além de produzir outros 4 milhões de barris/dia. O aumento, na comparação com 2009, foi de 17,5%. Nos próximos cinco anos, conforme a previsão da Agência Internacional de Energia, vai responder por metade da demanda mundial. Em 2030, a previsão aponta para uma importação de 79% do consumo. No jogo do mercado mundial, os Estados Unidos reduziram 4% do consumo, e a China, Índia, Brasil e Arábia Saudita juntas, cresceram 76%, traduzindo em barris, são 18,8 milhões. A consultoria internacional Ernest & Young, em seu trabalho de previsão até 2020, sobre mercado de energia, registrou os números de consumo do petróleo, para o final da década – daqui a duas copas do mundo de futebol.

Consumo de energia pelos principais países:

Países.........................Consumo de petróleo em milhões de barris/dia

Estados Unidos............................................26,5
China...........................................................16,1
Japão.............................................................5,8
Índia..............................................................4,0
Rússia............................................................3,7
Brasil..............................................................3,7
México............................................................3,6
Coreia do Sul..................................................3,3
Canadá...........................................................3,0
Alemanha........................................................2,9
França.............................................................2,3

Total..............................................................74,9
Fonte: Ernest & Young

Estes serão os maiores consumidores em 2020.

Os maiores “produtores” de petróleo cru:

Países...............Extração em milhões de ton...............Participação (%)

Federação Russa......................494......................................12,9

Arábia Saudita..........................452......................................11,8

EUA..........................................320.........................................8,3

Irã............................................206........................................ 5,4

China.......................................194........................................ 5,0

Canadá....................................152........................................ 4,0

México.....................................146......................................... 3,8

Venezuela...............................126..........................................3,3

Kuwait.....................................124..........................................3,2

Emirados Arábes..................... 120..........................................3,1

Resto do mundo...................1.509........................................46,1

Total.....................................3.843......................................100,0

Fonte: IEA
Nota: Base de dados de 2009.


Delírio da Humanidade
No Brasil a maior parte das reservas estão na Bacia de Campos (RJ). São mais de 10 bilhões de barris. Seguidos pelo Espírito Santo com 1,9 bilhão de barris. O Amazonas tem 200,5 milhões de barris. A maior parte, 92,5% das reservas brasileiras estão no mar, apenas 7,5% em terra, em estados do nordeste, como Rio Grande do Norte, Sergipe, Bahia (no Recôncavo). A proporção para o gás é de 81,7% no mar e 18,3% na terra.

Até a última gota é a saga do consumo e do delírio da humanidade, no início do século XXI, da era cristã ocidental. Se depender das previsões das agências internacionais, da indústria petrolífera, dos países extratores, o Planeta não terá sequer uma amostra do que foi a vida do período carbonífero, muito menos daquele óleo cru, embalsamado nas profundezas do oceano, que um dia poderia ter algum outro destino. Menos o de destruir a própria vida e um dos princípios fundamentais da evolução: a fixação da atmosfera em 21% de oxigênio, 78% de nitrogênio além de minúsculas percentagens de gases nobres e gás carbônico. O CO2 apesar de ser encontrado em grandes volumes, serve como suporte para o crescimento dos vegetais, ou seja, na manutenção da vida. Ao contrário da profanação, que usa e abusa da vida e desencadeou um processo de destruição. Até a última gota...