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26/04/2012

Como oligarquia financeira mantém Europa submissa

Tirado de Outras Palavras (aqui).



Estudo revela complexo mecanismo usado para impor, “democraticamente”, medidas condenadas por ampla maioria das sociedades.

Na Europa, não faltam recursos financeiros contra a crise: Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia (CE) estão agindo desde a virada do ano para transferir, ao sistema bancário privado, cerca de 3 trilhões de euros, a juros negativos. A atitude é outra em relação aos Estados ameaçados por fuga maciça de divisas. Negam-se recursos. Exige-se, para liberá-los, corte de direitos sociais, privatizações, redução drástica das proteções previdenciárias. Tais medidas são rechaçadas, revelam as sondagens, pela vasta maioria da opinião pública, em todos os países. No entanto, os Parlamentos as adotam sem resistir. Como é possível esta democracia contra as sociedades?

Acaba de sair um texto revelador a respeito. O original, em francês, foi publicado no site Memoire des Lutes, dirigido por Ignacio Ramonet e Bernard Cassen. O autor é Christophe Ventura, um jovem colaborador destes antigos editores do Le Monde Diplomatique. Ele descreve os meandros institucionais do processo de chantagem política que garantiu até agora a submissão do continente aos projetos da oligarquia financeira.

Ventura demonstra que o artifício principal usado para impor políticas muito impopulares é evitar a todo custo o debate político. A teoria política ensina que os Parlamentos são, desde a Revolução Francesa, o espaço em que os representantes do povo analisam os distintos projetos para o futuro coletivo, e tomam decisões. No entanto, nenhum dos legislativos da Europa está examinando o que fazer diante da crise. BCE e CE não precisam, por exemplo, de autorização para oferecer fundos trilionários aos bancos privados. Fazem-no por medidas administrativas banais, resguardados da opinião pública por uma mídia que apresenta as transferências de fundos como ações necessárias a evitar a “quebra da economia”.

Mesmo as medidas que afetam centenas de milhões de pessoas não são, em sua grande maioria, apresentadas de forma clara. O que os parlamentos estão votando é a retificação de dois acordos internacionais, firmados entre 25 de janeiro e 1º de março: O “Pacto Orçamentário” (TECG, ou Tratado Intergovernamental sobre Estabilidade, Coordenação e Governança) e o Mecanismo de Estabilidade Financeira (MES).

Ainda assim, por enquanto, só duas nações os firmaram: Grécia e (em 13 de abril) Portugal. Nos demais, a ratificação tramita lentamente. A aprovação definitiva é deixada para os momentos de crise. O MES dispõe de até 800 bilhões de euros, para “salvar” os Estados que sofrem ataques especulativos. Os países que necessitem empregar os recursos, contudo, são obrigados a firmar o Pacto Orçamentário (TECG). Além de Grécia e Portugal, lideram a fila a Espanha, Itália, Hungria, Irlanda e Romênia — mas ninguém assegura que a própria França, segunda economia do bloco, esteja imune.

Ao ratificar, sob enorme pressão, o Pacto Orçamentário, cada pais compromete-se a uma redução maciça e acelerada da dívida pública. Ela terá de recuar a 60% do PIB — um patamar muito abaixo dos hoje registrados não apenas na Grécia (144%) mas também na Itália (118%), Bélgica (98%), França (83,5%) ou mesmo Alemanha (79%) [para comparação, no Brasil o índice é de 60%].

Em princípio, reduzir o endividamento é positivo. Mas se esta fosse realmente a meta, haveria sentido em abrir as torneiras do Banco Central Europeu para o sistema financeiro privado? Por que diminuir a dívida por meio de cortes de direitos e serviços — e não, por exemplo, de impostos sobre os mais ricos?

Este não é o tema de Ventura: está tratado em detalhes num outro texto, de Patrick Viveret, publicado por Outras Palavras. A importância do novo estudo é outra. Ele revela as acrobacias notáveis executadas pelos dirigentes europeus para dar alguma aparência democrática a medidas que, se submetidas a decisão popular, seriam certamente derrotadas. Ao fazê-lo confirma uma antiga profecia de José Saramago. A democracia foi cercada pelo capital; enquanto não for reinventada, declinará cada vez mais à condição de uma “missa laica”, uma fachada que esconde, ao invés de revelar, os mecanismos usados pelo poder para impor seus desígnios.

24/06/2010

Entrevista de Elias Torres a José Saramago

José Saramago

COM POLÉMICA LUCIDEZ

Elias Torres Feijó (*) - No poema Hombre preso que mira a su hijo, Mario Benedetti escreve: "Uno no siempre hace lo que quiere, pero tiene el derecho de no hacer lo que no quiere".

P: Um escritor como Jose Saramago. com a sua projecçom pública e as suas numerosas presenças nos meios de comunicaçom, pode fazer o que quer, dizer o que quer? Pode nom fazer o que nom quer? Sente-se livre como as ideias que transmite?

R: Há muitos anos (ainda vivíamos sob a ditadura de Salazar), alguém quijo saber se eu dizia sempre o que pensava. Respondim que muitas vezes nom terei dito o que pensava, mas que podia assegurar mom haver dito nunca o que nom pensava. O tempo nom me mudou. As circunstáncias da minha vida, essas sim, modificárom-se de alto a baixo, mas tornárom-me ainda mais consciente das minhas responsabilidades perante as pessoas que me lêem e acompanham. Nom só nom calo o que penso, como nom se espere de mim que faga o que nom quero. A velhice (demasiado o sabemos) nom e condiçom da liberdade, mas eu tenho a sorte de poder dizer que quanto mais velho sou, mais livre me sinto. E mais radical.

P: Gomo vê os seus colegas intelectuais a respeito do poder político e económico? Envolvem-se, parasitam, comprometem-se, som cúmplices, calculam as suas posiçons, etc.? Ou, mais em concreto: qual a distáncia entre o que julga deve ser um intelectual crítico e a eventual impostura dos que passam por sê-lo?

R: Ainda que, como é natural,tenha opinions mais ou menos claras sobre certos procedimentos alheios, nunca me permitiria formulá-las publicamente com base em simples indícios ou em meras suposiçons. Cada um tomou o caminho que entendeu, mudou ou nom mudou de ideias, mas eu recuso-me a desempenhar o papel de um juiz que condena ou absolve de acordo com a sua própria concepçorn da vida e os seus próprios valores. Isto nom significa que nom reclame do intelectual em geral e do escritor em particular umha postura activamente crítica em relaçom a qualquer tipo de poder. Nom é aconselhável respirar por demasiado tempo a atmosfera dos palácios, sejam eles politicos ou económicos. Deles emana uma espécie de 'radiaçom' altamente venenosa para o espirito.

P: Trinta anos passados desde as crónicas de Deste Mundo e do Outro e de A Bagagem do Viajante e daqueles outros recolhidos em As Opiniões que o DL [Diário de Lisboa] Teve e Os Apontamentos (em que recolhe textos editoriais sua época oormdractor-adjunto do Diário de Notícias entre Abri e Novembro de 75) escritos entre 73 e 75, qual a distáncia entre a atitude e o modo de dizer a respeito do Ensaio sobre a Lucidez?

R: Em quarenta anos de contínuo trabalho era inevitável que os meus modos de observar e fazer passassem por mudanças. Em todo o caso, um poema que compugem em 1964 ou umha crónica que escrevim em 1969 poderám, sem risco, ser postos ao lado de qualquer dos meus romances mais recentes. Que as diferenças formais som facilmente detectáveis, que os processos narrativos tenham mudado, isso pertence ao domínio do óbvio. O importante será descobrir o que haja de comum (se o há) entre esse poema ou essa crónica e, por exemplo, o Ensaio sobre a Lucidez. Presume-se que o autor, de um ponto de vista somente literário, tenha aprendido algo com as suas próprias experiências. Quanto ao resto, quanto ao tipo de pessoa que ele é, creio que nenhum leitor, neste caso, terá dúvidas de que se trata da mesma pessoa.

P: No Ensaio muro a Lucidez, as pessoas revoltam-se contra 'o sistema' por via dumha maciça votaçom em branco. O voto em branco é um modo de participar, mas nas últimas eleiçons em toda a Europa da UE, e particularmente em Portugal, o que se produziu foi umha alta abstençom. Como encara esse fenómeno o autor deste Ensaio e candidato da CDU? Já houve quem afirmou que esse maciço voto em branco era um niilismo político: Sente-se obrigado a alertar ou também a dar alternativas? Como vê o futuro desta UE dos 25?

R: Afirmar que o voto em branco é um 'niilismo político' é, ao mesmo tempo, umha irresponsabilidade e umha estupidez. É umha irresponsabilidade porque dessa maneira se quer ocultar o significado de contestaçom ao sistema de um voto tam legitimamente democrático como aquele em que tivessem sido expressas opçons partidárias. E é umha estupidez simplesmente porque ofende a inteligência. Essa acusaçom de 'niilismo político' e outras de jaez semelhante só mostram a que alturas chegou o pánico dos comentaristas e da classe política em Portugal. E o obstinado silêncio 'político' que em Espanha tem rodeado o livro fai-me recordar o ditado que di que nom se deve falar da corda em casa do enforcado...

Quanto às eleiçons europeias, pessoalmente teria preferido que tivessem votado em branco os eleitores que se abstivérom. Com a abstençom, mesmo tendo sido altíssima, está visto que nada se alterou, mas estou certo de que a situaçom, hoje, teria sido muito diferente se 30, 40 ou 50 por cento dos votos contados nas urnas fossem brancos. A propósito, quanto votos em branco houvo nas últimas eleiçons? Dérom-se a conhecer ao público os números dos votos expressos e ao resto chamou-se abstençom... Curioso, nom?

E, já agora, nom me pidam alternativas ou soluçons para a evidente degradaçom do sistema democrático. Nom sou curandeiro. Limito-me a dizer que umha democracia que nom disponha de instrumentos capazes de controlar os abusos do poder económico, de democracia só tem o nome. Quanto ao futuro desta UE de 25, lamento muito, mas nom sou bruxo.

P: O livro foi lançado em Lisboa, seguido de um debate com Mário Soares, com o que fora ministro de Pinto Balsemão e é destacado membro do PSD, Marcelo rebelo de Sousa, e com o reitor da Universidade de Lisboa, José Barata Moura, militante do PCP e ex-deputado no Parlamento europeu: estavam aí os representantes do pdd, da direita, do partido do meio, pdm, e do pde, o partido da esquerda, os três partidos políticos de que se fala no Ensaio sobre a Lucidez? Qual o lugar de José Saramago?

R: O meu lugar é de um homem de esquerda, marxista, que, nos últimos tempos, passou a denominar-se a si mesmo como 'comunista iibertário', o que, parecendo ser umha contradiçom em termos, essencialmente nom o é...

P: No Ensaio sobre a Lucidez, conhecemos ou deduzimos a atitude autoritária e repressiva do pdd e do pdm à vista do maciço voto em branco. E do pde? Pode o autor informar-nos que é feito do pde? Sabe que foi dos ministros da Justiça e da Cultura do Governo demitidos ou do presidente da Cámara Municipal também demitido e pertencente ao mesmo pdd?

R: Que é feito do pde? A pergunta poderia ser feita doutra maneira: Que é feito das esquerdas? Refiro-me, claro está, a esquerdas que o sejam de facto, nom dessas, a maioria, que nom se distinguem do centro e que nom raro chegam a confundir-se com a direita. Nom é culpa minha que o pde do Ensaio sobre a Lucidez seja praticamente residual, com perdom da desagradável palavra. Nom figem mais do que retratar a realidade. Sobre o que terá acontecido depois aos ministros da Justiça e ao presidente da Cámara Municipal, nom tenho a menor ideia. Tudo dependerá de como acabe a pugna. Ganhará o poder? Triunfará a cidade?

P: Os textos literários som fábricas, mais ou menos afortunadas, de ideias sejam elas sobre o amor, as cores, a política ou a música, sobre o que for, e para cujo sucesso concorrem mui diversos mecanismos, desde a construçom dumha metáfora até ao espaço sócio-político em que se desenvolvem. O debate que se seguiu ao Ensaio sobre a Lucidez foi 'ideológico': está satisfeito Saramago de que, com o Ensaio, a literatura volte ao espaço social, libertando-se de certa 'torre de marfim' literária em que alguns querem situar a literatura? Qual a funçom que concebe nestes tempos para literatura?

R: O debate provocado em Portugal polo aparecimento do Ensaio sobre a Lucidez nom foi mais que circunstancial, e de 'ideológico' tivo muito pouco. Salvo algumha honrosa excepçom, tudo se limitou ao 'fusilamento' público do autor e da obra. Se, com este livro, para usar as suas palavras, "a literatura voltou ao espaço social", é caso para dizer que assim como voltou, assim saiu... Já nom será pouco que a sua semente tenha ficado na cabeça dos leitores e aí dê fruto.

Funçom da literatura? Nengumha que vá variando com os tempos. Funçom tenhem-na os escritores, por serem cidadaos, nom por serem escritores. Nom somos gurus nem directores espirituais.

P: Calculo que alguns críticos literários ficariam zangados precisamente por nom poderem erigir-se em determinadores de 'qualidades' estéticas, situado o debate deste Ensaio nessa esfera de debate sócio-político. Isto implica, indirectamente, que a crítica deve mudar de rumo?

R: Nom dou conselhos aos críticos. Eles também nom mos dam a mim.

P: José Saramago é um bom conhecedor da Galiza e da suas circunstáncias políticas e sócio-culturais e aqui contou, desde os seus primeiros romances, com estudiosos e leitores devotos. Nos seus livros O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra e História do Cerco de Lisboa aparecem personagens de origem galega. Qual a sua visom da Galiza, afectiva, cultural, política...? E a sua visom da Península Ibérica?

R: Nom tenhamos ilusons, Portugal conhece mal a Galiza. Gostamos da Galiza, é certo, mas polo que a Galiza é (gente, paisagem, arte, gastronomia), nom por virem dela as nossas primeiras raízes, e menos ainda pola existência de umha rede de interrelaçons culturais que simplesmente nom existe ou é, no melhor dos casos, insatisfatória. Som muitos os portugueses que falam castelhano, pouquíssimos os que falam galego, e até tenhem dificuldade em entendê-lo. Quanto à minha visom da Península, enquanto a Uniom Europeia nom se aclarar sobre o que quer ser (e isso levará anos), nom será possível ter umha ideia aproximada do que poderá vir a ser o destino dos nossos povos.

P: Qual o livro que julga tem de/quer fazer agora?

R: Quem me dera sabê-lo. Ainda nom conseguim sair do Ensaio sobre a Lucidez...


(*) Entrevista publicada originalmente no n.º 84 de Tempos Novos (agosto 2004). E no PGL (Portal Galego da Língua) pode consultar-se aqui.

Umha outra entrevista muito interessante ("No cambiaremos de vida si no cambiamos la vida") pode ler-se no espaço em rede da revista Sin Permiso.


20/06/2010

O home comprometido

A passada sexta-feira morria o autor de O Evangelho segundo Jesus Cristo entre outras muitas obras de alcance universal como o seu Ensaio da Cegueira. Para as moças e moços do Encontro Irmandinho seguirá sendo um grande referente.