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05/12/2013

Primavera Árabe: em fase de desconstrução?

Noam Chomsky. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). 

 Noam Chomsky

Três anos após o início das revoluções árabes, o Oriente Médio testemunhou um caleidoscópio de desdobramentos, que vão de eleições livres à repressão violenta de mudanças. Como você descreveria, hoje, a Primavera Árabe?

No passado eu a descrevi como uma “obra em progresso”. Lamentavelmente, agora a expressão “obra em retrocesso” seria mais apropriada. As ditaduras do petróleo foram capazes de reprimir a maioria das tentativas de fazer até mesmo reformas moderadas. A Síria foi empurrada violentamente para o suicídio e provavelmente a divisão. O Iêmen está submetido à campanha terrorista global dos drones. A Tunísia encontra-se numa espécie de limbo. A Líbia carece de um governo capaz de controlar as milícias. No Egito, o maior país do mundo árabe, os militares agiram com extrema brutalidade – e um apoio popular que não deveriam receber, a meu ver – no que parece ser um esforço para restaurar seu rígido controle político e manter seu império econômico, ao reverter algumas das conquistas mais significativas do período anterior, tais como a liberdade de imprensa e a independência. Os sinais não parecem bons.

Além disso, o conflito sunita-xiita instigado pela agressão dos Estados Unidos e Reino Unido ao Iraque está despedaçando o país e espalhando-se ameaçadoramente por toda a região. Há duas partes do mundo árabe que permanecem sendo efetivamente colônias: o Sahara Ocidental, onde as manifestações por democracia no final de 2010 foram duramente reprimidas e a luta de sua população por liberdade foi quase esquecida; e, claro, a Palestina. Lá, as negociações estão em andamento conforme as duas precondições essenciais impostas pelos EUA e Israel: que não haja barreiras à expansão dos assentamentos israelenses ilegais e que as negociações sejam encaminhadas pelos EUA. Ocorre que Washington é parte no conflito (ao lado de Israel) e vem bloqueando um consenso internacional indiscutível sobre um acordo diplomático desde 1976, com raras e temporárias exceções.

Sob tais precondições, as negociações tendem a ser pouco mais do que um disfarce para Israel levar adiante seus programas de integrar o que considera aproveitável, na Cisjordânia (inclusive alguns poucos árabes, para evitar o “problema demográfico”, e de separar a Cisjordânia de Gaza – o que viola os Acordos de Oslo e mantém um cerco brutal. Não é um momento brilhante, mas as fagulhas acesas pela Primavera Árabe provavelmente explodirão em chamas novamente.

As esperanças iniciais de uma trajetória linear em direção ao empoderamento e à democracia há muito desapareceram. A euforia teria sido um engano? Onde e quando as coisas deram errado?

Nunca deveria ter havido esperança de uma trajetória linear. A Primavera Árabe foi um processo de importância histórica, que ameaçou muitos interesses poderosos. O poder não diz “agradecemos por nos desmantelar” e sai andando calado.

As reações do Ocidente oscilaram desde a intervenção militar até a indiferença, como vimos nos Estados do Golfo. Você percebe algum padrão subjacente?

O padrão implícito é familiar: apoio ao ditador favorito durante o maior tempo possível. Se isso tornar-se impossível, porque os militares ou a elite econômica voltaram-se contra ele por alguma razão, então trate de enviá-lo para algum lugar, faça declarações tocantes sobre seu amor à democracia, e tente restaurar a velha ordem tanto quanto possível. Acontece repetidas vezes. Para mencionar apenas algumas: Somoza, Ferdinando Marcos, Duvalier, Suharto, Mobutu…

É uma política natural para um poder imperial – logo, completamente familiar. Também é natural que isso seja ocultado. A tarefa da comunidade intelectual é apoiar o poder e justificá-lo, não miná-lo – embora alguns quebrem as regras.

Uma das linhas de clivagem regional parece ser o conflito entre forças seculares e religiosas. De que maneira essa dicotomia pode ser tratada construtivamente? Que papel devem desempenhar os governos ocidentais?

Nem a história, nem a lógica, nem a análise política ou qualquer outra fonte que não a propaganda nos dá razões para esperar que os sistemas de poder desempenhem um papel construtivo, a não ser em seu próprio interesse. Isso vale para os sistemas ocidentais, em especial. Na do Oriente Médio e Norte da África, os maiores poderes – EUA e Grã Bretanha – têm apoiado de modo bastante consistente o Islã radical contra o nacionalismo secular. O favorito tem sido a Arábia Saudita, o estado islâmico de radicalismo mais extremo, e um estado missionário, que espalha suas doutrinas wahabistas-salafistas por toda a região.

Há estudos acadêmicos excelentes e detalhados sobre a “promoção da democracia” dos EUA por seus mais proeminentes defensores, que admitem, com relutância, que o governo apoia a democracia apenas se e quando ela está de acordo com os interesses econômicos e estratégicos – como qualquer pessoa racional poderia prever.

Que papel eles deveriam desempenhar? Isso é fácil. Eles deveriam apoiar a liberdade, a justiça, os direitos humanos, a democracia. Podemos dizer o mesmo sobre a Rússia e a China. Até certo ponto, forças populares organizadas podem pressionar os governos nessa direção, mas há poucos sinais disso, hoje, por várias razões.

Em outro nível, tensões religioss parecem estar em ascensão. Já em 2004 o rei Abdullahda Jordânia falou de um “Crescente Xiita”. A imagem de uma guerra por procuração entre sunitas e xiitas é apropriada para compreender os atuais conflitos na região?

Uma das conseqüências mais sombrias da agressão dos EUA e Reino Unido ao Iraque foi acender conflitos entre sunitas e xiitas que já haviam sido controlados, levando a uma história de horror que está despedaçando o Iraque e espalhando-se pela região, com efeitos terríveis e ameaçadores.

E a honestidade nos levaria a recordar o julgamento de Nuremberg, um dos fundamentos do direito internacional moderno. Definiu-se que a agressão seria “o supremo crime internacional, diferindo de outros crimes de guerra na medida em que contém, em si, o mal acumulado no todo”. Isso inclui os conflitos sectários, entre muitos outros crimes. A honestidade também nos levaria a recordar a frase que Robert Jackson, um membro da Suprema Corte dos EUA proferiu no mesmo tribunal: estamos dando a esses réus “um cálice envenenado”; se cometermos crimes semelhantes, devemos sofrer as mesmas consequências – ou então este Tribunal é uma farsa, não passa de justiça dos vencedores. Uma medida do abismo entre a cultura moral-intelectual do Ocidente e sua civilização é o quão bem estas palavras foram ouvidas…

23/09/2013

Chomsky: “Enquanto a Síria se suicida, Israel e EUA desfrutam do espetáculo”

 Em entrevista exclusiva para o portal britânico Cessar Fogo (Ceasefire), o renomado intelectual Noam Chomsky falou com Frank Barat sobre a situação atual no Médio Oriente, em particular a crise da Síria, as negociações de paz entre Israel e os palestinianos e o papel do poder dos EUA na região. “Se os EUA e Israel quisessem ajudar os rebeldes – não o fazem – poderiam fazê-lo sem intervenção militar”.

 

 Qual é a definição das negociações entre Israel e Estados Unidos e porque a Autoridade Palestina (AP) continua a prestar-se a isso?

 Do ponto de vista dos EUA, as negociações são, com efeito, um caminho para Israel continuar a sua política de tomar sistematicamente tudo o que quiser na Cisjordânia, mantendo o assédio brutal de Gaza, separando Gaza da Cisjordânia e, claro, ocupando os Montes Golã sírios, tudo com pleno apoio dos EUA. E o marco das negociações, igualmente aos últimos 20 anos de experiência de Oslo, simplesmente proporcionou o encobrimento desta situação.


 Em sua opinião, por que a Autoridade Palestina (AP) continua a jogar esse jogo?

 Provavelmente, em parte, por desespero. Podemos nos perguntar se é a decisão correta, mas ela não tem muitas alternativas.


 Definitivamente, a AP aceita esse marco apenas para sobreviver?

 Se ela se nega a negociar, tal como propõem os Estados Unidos, a sua base de apoio seria derrubada. A AP sobrevive essencialmente à base de doações. Israel assegurou que ela não tenha uma economia produtiva. É uma espécie do que em ídiche se chamaria “Sociedade Schnorrer”: pede emprestado e vive do que puder conseguir.

 Se a AP tem outra alternativa, não está claro, mas se rejeitar a exigência dos EUA de acudir às negociações em condições totalmente inaceitáveis, a sua base de apoio iria erodir-se. E não tem apoio – externo – suficiente para que a elite palestiniana possa viver de maneira bastante decente – por tabela pródiga – no seu estilo de vida, enquanto a sociedade que a rodeia cai aos pedaços.


 Desse modo, seria negativa a queda e desaparição da AP, depois disso tudo?

 Depende do que vier a substituí-la. Se fosse permitido a Marwan Barghouti, por exemplo, unir-se à sociedade da forma como fez, por exemplo, Nelson Mandela, poderia ter um efeito dinamizador na organização de uma sociedade palestiniana, que poderia pressionar por exigências mais importantes. Mas lembre-se que eles não têm muitas opções.

 De facto, se nos remetemos ao princípio dos Acordos de Oslo, há 20 anos, havia negociações em curso, as negociações de Madrid, nas quais a delegação palestiniana era encabeçada por Haider Abdel-Shafi, uma figura muito respeitada da esquerda nacionalista palestiniana. Abdel-Shafi negava-se a aceitar os termos dos EUA e Israel, que lhes permitiam fundamentalmente a continuidade da expansão dos colonatos. Negou-se, e as negociações estancaram sem chegar a lugar algum.

 Enquanto isso, Arafat e os palestinianos do exterior foram paralelamente a Oslo, ganharam o controlo e Haider Abdel-Shafi opôs-se de forma tão contundente que nem sequer se apresentou à dramática cerimónia sem sentido, onde Clinton sorria enquanto Arafat e Rabin apertavam as mãos. Abdel-Shafi não se apresentou porque se deu conta de que era uma traição absoluta. Mas baseava-se em princípios e, portanto, não poderia chegar a nenhuma parte, a menos que conseguisse um importante apoio da União Europeia, dos Estados do Golfo e em última instância dos EUA.


 O que acha que realmente está em jogo na Síria neste momento e o que significa para a região em geral?

 A Síria está a suicidar-se. É uma história de terror e cada vez está pior. Não há uma saída no horizonte. O que provavelmente acontecerá, se continuar assim, é que a Síria será dividida em três regiões: uma região curda – que já está a formar-se – que poderia separar-se e unir-se de alguma maneira ao semi-autónomo Curdistão iraquiano, talvez com algum tipo de acordo com a Turquia.

 O resto do país se dividiria entre uma região dominada pelo regime de Assad – um regime brutal, horrível – e outra secção dominada pelas diversas milícias, que vão desde o extremamente nocivo e violento até ao secular e democrático. Se olharmos o que saiu no New York Times, há uma citação de um funcionário israelita que expressa essencialmente a sua alegria de ver os árabes massacrando-se uns aos outros.


 Sim, eu li.

 Para os Estados Unidos, assim está bom, não querem outro tipo de saída. Se os EUA e Israel quisessem ajudar os rebeldes – não o fazem – poderiam fazê-lo, inclusive, sem intervenção militar. Por exemplo, com Israel mobilizando forças nos Montes Golã (claro, são as montanhas do Golã da Síria, mas por agora o mundo, mais ou menos, tolera ou aceita a ocupação ilegal de Israel). Se fizessem isso, obrigariam Assad a mover forças até ao sul, o que aliviaria a pressão sobre os rebeldes. Mas não há nenhum indício sequer disso. Mesmo assim, não estão a dar ajuda humanitária à grande quantidade de refugiados que sofrem, não estão a fazer nenhuma das coisas simples que poderiam fazer.

 Tudo isso sugere que tanto Israel como os EUA preferem exatamente o que está a acontecer, tal como informava o NYT que mencionámos. Enquanto isso, Israel pode celebrar, a sua condição do que chamam de “cidade na selva”. Houve um interessante artigo do editor do Haaretz, Aluf Benn, que escreveu sobre como os israelitas vão à praia, desfrutam e congratulam-se de serem uma “cidade na selva”, enquanto as bestas selvagens de fora se desgarram entre si. E, claro, Israel, sob essa imagem, não está a fazer nada, exceto defender-se. Eles gostam dessa imagem e os EUA tampouco parecem muito descontentes com ela. O resto é conversa.


 Assim, podemos falar de um ataque dos EUA, você acredita que ocorra?

 Um bombardeamento?


 Sim.

 É uma espécie de debate interessante nos Estados Unidos. A ultra-direita, os extremistas da direita, que são uma espécie de espectro internacional, opõem-se, ainda que não seja pelas razões que me agradariam. Opõem-se porque pensam: “por que se dedicar a resolver os problemas dos outros e perder os nossos próprios recursos?” Estão literalmente a perguntar: “quem nos vai defender quando nos atacarem, se nós mesmos estamos dedicados a ajudar outros países, no estrangeiro?” Essa é a ultra-direita. Se nos fixamos na direita “moderada”, gente como, por exemplo, David Brooks, do New York Times, considerado um comentarista intelectual de direita, o seu ponto de vista é de que o esforço dos EUA em retirar as suas forças da região não está a ter um “efeito moderador”. Segundo Brooks, quando as forças norte-americanas estão na região, isso tem um efeito moderador, melhora a situação, como se pode ver no Iraque, por exemplo. Mas se vamos retirar as nossas forças, então já não somos capazes de moderar e melhorar a situação.

 Essa é a visão normal da direita intelectual na corrente principal, os democratas liberais e outros. De modo que há um monte de indagações sobre como “devemos exercer a nossa ‘responsabilidade de proteger’”. Bom, basta dar uma olhada nos registos históricos dos EUA sobre a ‘responsabilidade de proteger’. O facto, inclusive, de dizer tais palavras revela algo de, certamente, insólito nos EUA e, de facto, na cultura moral e intelectual do Ocidente.

 Isso é, à parte do facto em si, uma grave violação do direito internacional. A última linha de Obama é que ele não estabeleceu uma “linha vermelha”, mas que o mundo a estabeleceu, por meio das suas convenções sobre a guerra química. Bom, na verdade o mundo tem um tratado, que Israel não assinou e que os EUA descuidam totalmente – por exemplo, quando apoiaram o uso, realmente horrível, de armas químicas por Saddam Hussein. Hoje, isso é utilizado para denunciar Saddam Hussein, ignorando o facto de que não só se tolerava, mas, basicamente, havia o apoio do governo de Reagan. E, claro, a convenção não tem mecanismos de aplicação de sanções.

 Tampouco existe o que se denomina ‘responsabilidade de proteger’, isso é uma fraude promovida na cultura intelectual do Ocidente. Há um conceito, na verdade dois: um aprovado pela Assembleia Geral da ONU, que se refere à ‘responsabilidade de proteger’, mas que não oferece nenhuma autorização a qualquer tipo de intervenção, exceto nas condições da Carta das Nações Unidas. Outra versão, que se aprovou só por parte do Ocidente, os EUA e os seus aliados, que é unilateral e diz que tal responsabilidade permite a “intervenção militar das organizações regionais na região da sua autoridade, sem a autorização do Conselho de Segurança”.

 Pois bem, traduzindo, isso significa que se proporciona a autorização aos EUA e à NATO de utilizarem a violência aonde quiserem, sem autorização do Conselho de Segurança. Isso é o que se chama ‘responsabilidade de proteger’ no discurso ocidental. Se não fosse tão trágico, seria ridículo.



 Frank Baraté coordenador do Tribunal Russell sobre a Palestina. O seu livro “Gaza in Crisis: Reflections on Israel's War Against the Palestinians”, com Noam Chomsky e Ilan Pappe, já está disponível. A edição francesa do livro, publicada em 2013, conta com uma extensa entrevista com Stephane Hessel.

 Entrevista originalmente publicada no portal Ceasefire. Tradução para espanhol de Rebelión e para português de Gabriel Brito, do Correio da Cidadania.

19/04/2012

Pois si, alguén tiña que dicilo

Ángel Ferrero. Artigo tirado de SinPermiso (aquí) e traducido por Revolta Irmandiña.



«Mañá perseguirán a outra porca pola aldea» (aber morgen wird eine andere Sau durchs Dorf getrieben), respondeume o meu compañeiro de piso sen moito interese cando lle preguntei polo rebumbio que levantou o poema recentemente escrito por Günter Grass coa súa «última tinta». [1] Incluso os propios alemáns, que perciben o caso como o enésimo debate mediático sobre a cuestión que quedará novamente inconclusa, empezan a estar cansos do asunto, aínda que non poidan expresalo abertamente en público. Desde que o Süddeutsche Zeitung publicou "O que hai que dicir" (Was gesagt werden muss) o pasado 4 de abril, reproducido en El País dese mesmo día en tradución de Miguel Sáenz, sobre o escritor alemán desatouse o que os estadounidenses denominan gráficamente "unha tormenta de merda" (shitstorm). Israel chegou a declarar a Grass acode non grata e reclamou que se lle retire o premio Nobel. [2]

«Un grande poema non é. E tampouco unha brillante análise política», escribe no Spiegel Jakob Augstein, que de inmediato agradece a Grass abrir un debate público sobre a posición alemá con respecto a Israel, especialmente agora, cando redobran os tambores de guerra en Oriente Próximo. [3] Porén o certo é que este debate está fechado desde hai tempo: como en toda Europa, a maioría da poboación alemá condena as accións bélicas de Israel e apoia a creación dun estado palestino e o seu goberno e os seus medios de comunicación fan exactamente o contrario. Sen dúbida as condicións en Alemaña son extraordinarias e actúase baixo a presión da memoria do Holocausto, unha presión que, dito sexa de pasaxe, o resto de estados europeos encárgase de aumentar a pracer -a propósito que os alemáns son tradicionalmente (con permiso dos rusos) o obxecto de odio máis amado de toda Europa-[4] co fin de alixeirar o seu propio historial de antisemitismo: non só, de maneira notoria, o de Francia ou Polonia, senón tamén o sutil antisemitismo británico que bloquea desde hai décadas o acceso a postos de responsabilidade gobernamentais a homes e mulleres de orixe xudía.

O que resulta enervante do "caso Grass" é -ademais de, por suposto, como os medios de comunicación fechan filas en torno ao caso- a tosquedad dos argumentos empregados. Ao autor d' O Tambor de follalata acusóuselle pola súa denuncia da cega política belicista do goberno de Israel, que podería desencadear un conflito rexional de consecuencias imprevisibles, de, para variar, antisemita. Unha vella artimaña retórica coñecida como argumento ad hominem. Ningún todólogo refutou até a data con éxito o exposto por Grass no seu poema e o debate centrouse na súa pertenza ás SS cando tiña 17 anos, na súa presunta decadencia literaria ou a súa vinculación histórica co centro esquerda do país. E fíxense se o uso deste termo chegou a unhas cotas de impudor nunca vistas, que até Moshe Zuckermann, profesor de historia e filosofía na Universidade de Tel Aviv, falou no taz dun uso «irresponsábel» e «inflacionario» do termo. No seu artigo, Zuckermann denuncia desde como os académicos se acusan mutuamente de "antisemitas" co único fin de destruír a carreira do outro até a instrumentalización política do termo a mans do goberno israelí e as organizacións sionistas para os seus propios fins neocoloniais. Segundo Zuckerman, por culpa deste uso «un acaba atopándose no mesmo bote que os colonos fascistas nos territorios ocupados por Israel, que agradecen o apoio dunha parte das forzas islamófobas en Europa e en Estados Unidos; cos racistas cotiáns israelís, que equipasen toda condena "desde o estranxeiro" do seu pensamento e trato inhumanos con antisemitismo; co actual primeiro ministro de Israel, que contribuíu como poucos nos últimos días a manchar a memoria da Shoah, instrumentalizándola para poder continuar a súa política de ocupación sen trabas; con Ariel Sharon, un dos seus predecesores no cargo, que durante anos sostivo que toda crítica procedente de Europa cara a el, especialmente con relación á súa prexudicial política de ocupación en Cisxordania, forzosamente era antisemita.» E máis adiante, engade: «por non falar dos intelectuais xudeus que viven en Alemaña, que explotaron a fondo a súa condición de xudeus e o temor dos alemáns a ser apostrofados como antisemitas con tanta perfección que conseguiron unha posición hexemónica na creación dun pensamento dominante "xudeu" así como o dereito a intimidar a calquera que se interpoña entre os seus intereses reaccionarios e imposicións ideolóxicas.» [5]

Efectivamente, o sionismo fechou definitivamente o círculo como ideoloxía: todo o que non concorde con el cae no campo do inimigo. Con iso, Israel non só se illa cada vez máis dos seus veciños na rexión, senón da comunidade internacional. Peor aínda: este uso instrumentalizado do Holocausto é moito peor que imprudente ou temerario, pois prexudica seriamente a memoria dos crimes nazis, baleirándoa de contido histórico para utilizala como chantaxe moral á opinión pública. Custa imaxinarse que os millóns de xudeus que morreron nos campos de exterminio o fixesen para que os falcóns do goberno israelí poidan bombardear libremente aos pobos veciños. De feito, moitísimos dos xudeus que morreron nos campos de exterminio non só non eran sionistas, senón que moitos deles nin sequera se sentían xudeus -a pertenza ao grupo foilles imposta, en moitas ocasións de maneira arbitraria, polos nazis en base á súa relixión, pero tamén a partir de criterios raciais carentes de todo fundamento científico-, senón, ante todo, cidadáns de pleno dereito dos seus respectivos países de orixe (incluída Alemaña) e en ocasións nin sequera iso, xa que moitos dos asasinados eran declarados militantes socialistas e comunistas cuxo credo era o internacionalismo. É sobradamente coñecido o feito de que unha parte considerábel, se non esencial, do movemento obreiro en Europa central e oriental da primeira metade do século XX estaba composta por traballadores de orixe xudía (bolxeviques como Leon Trotsky, Grigori Zinóviev, Karl Radek, Moisei Uritsky ou Yákov Sverdlov, que xogaron un papel fundamental na Revolución de Outubro de 1917, procedían de familias xudías). Nada diso impediu que hai un mes Benjamin Netanyahu mostrase teatralmente nunha conferencia organizada pola AIPAC -a American Israel Public Affairs Committee, o máis poderoso lobby proisraelí en Estados Unidos- dúas cartas de 1944 en que os EUA negábanse a bombardear Auschwitz nun basto paralelismo que xustificaría o futuríbel bombardeo de Irán. [6] As vítimas do Holocausto merecen o noso maior respecto. Este tipo de xestos non honra a súa memoria, é un insulto á súa memoria.

As desproporcionadas reaccións ao poema de Grass non só evidenciaron os termos do debate, senón que tamén serviron para pór ao descuberto a dobre rapadoira do goberno alemán con respecto ao seu propio pasado recente. Mentres Angela Merkel declara que a defensa do estado de Israel é "razón de estado" de Alemaña -para atopar unha declaración semellante hai que retroceder até a constitución da RDA, segundo a cal «a República Democrática Alemá está unida de maneira irrevogábel e para sempre coa Unión de Repúblicas Socialistas Soviéticas»- e o seu goberno fornece ao exército israelí vehículos e submarinos militares, segue sen recoñecer o xenocidio dos pobos herero e nama na antiga colonia de África do Suroeste alemá (actual Namibia). O 22 de marzo A Esquerda presentou no Bundestag unha proposta para o recoñecemento e reparación dos crimes cometidos por Alemaña nas súas colonias a comezos de século XX. A proposta foi rexeitada cos votos de conservadores e liberais e a abstención de socialdemócratas e verdes. [7] A votación non interesou a ningún medio de comunicación, ninguén se escandalizou polo sentido do voto dos partidos representados na cámara e ningún intelectual (nin alemán nin de ningún outro lugar) se alzou en tribuno dos pobos hebrero e nama.

Notas

[1] Günter Grass, "Lo que hai que decir", El País, 4 de abril de 2012. Tradución de Miguel Sáenz.
[3] Jakob Augstein, "É musste gesagt werden", Spiegel, 6 de abril de 2012.
[4] Jorn Kabisch, "La germanofobia regresa a Europa", Sin Permiso, 27 de novembro de 2011. 
[5] Moshe Zuckermann, "Wer Antisemit ist, bestimme ich!", die tageszeitung, 10 de abril de 2012.
[6] Philip Weiss, "Netanyahu says, You also refused to bomb Auschwitz", Mondoweiss, 6 de marzo de 2012.
[7] "Bitternis und Wut", junge Welt, 24 de marzo de 2012.

29/03/2012

Israel, seus fantasmas e o perigo real

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Daniela Frabasile.



O primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, visitou os Estados Unidos no começo de março. Veio para dizer, mais uma vez, que um Irã nuclear representaria ameaça a Israel, e que Telaviv reserva-se o direito de tomar ação imediata para se opor a isso. O presidente Obama afirmou energeticamente que sim, um Irã nuclear colocaria uma ameaça a Israel; e que os Estados Unidos não poderiam aprovar isso – mas que o momento não era o melhor para isso. As opções não-militares contra Teerã deveriam ser esgotadas, antes de se cogitar outras ações.

Vamos examinar as premissas. Por que um Irã nuclear representaria ameaça existencial a Israel? Ou seja: quem acredita que, se tivessem armas nucleares, as autoridades iranianas as usariam para bombardear Israel? Na realidade, e apesar de declarações em contrário, ninguém nenhuma posição de responsabilidade – seja em Israel, nos Estados Unidos ou em outro lugar do mundo – acredita nisso.

Vamos começar com os argumentos explícitos. Governantes israelenses apontam o fato de o presidente Ahmadinejad e outros terem afirmado que desejam “limpar” Israel (ou algo parecido com isso). Muitos especialistas já argumentaram que a tradução está incorreta. Mas, mesmo que fosse certa, ela iria além de que repetir antigo posicionamento de um grande número de pessoas no Oriente Médio – que se opõem ao conceito de um estado judeu e sugerem outras alternativas para uma disputa de longa data?

Por que motivo no mundo os governantes iranianos bombardeariam Israel? Eles matariam pelo menos o mesmo número de árabes e israelenses. Estariam sujeitos a retaliação imediata de Israel, que possui um grande arsenal nuclear. O bombardeio de Israel pelo Irã é uma fantasia na qual nenhum líder responsável acredita.

Mas se eles não acreditam nesta hipótese, por que eles a suscitam? A resposta me parece clara. Se o Irã finalmente tivesse algumas armas nucleares, isso ira de fato mudar algo. Modificaria o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio e enfraqueceria politicamente a posição de Israel. Provavelmente, também levaria à rápida aquisição de armamento nuclear por outros países. Penso na Arábia Saudita, Egito e Turquia, para começar.

Se os Estados Unidos ou Israel bombardeassem o Irã preventivamente, haveriam consequências políticas enormes e imediatas. Primeiro, é quase certo que o ato seria relativamente ineficaz, para interromper o projeto iraniano. E depois, enfraqueceria politicamente a posição tanto de Israel quanto dos EUA em todo o mundo. Essas duas razões juntas explicam por que o exército e os serviços de inteligência dos dois países se opõem tanto à opção militar. Eles temem que o discurso se popularize e permita que algum líder político, que não controla atualmente os governos de Israel ou dos Estados Unidos, seja tolo o suficiente para começar a guerra.

Os Estados Unidos e Israel estão atolados numa situação em que qualquer saída é negativa. Não importa o que façam, irão perder politicamente. Acredito que estão cientes disso; e que nem Netanyahu, nem Obama sabem o que fazer realmente, ou como defender seus próprios interesses políticos internamente. Por isso, gastam o tempo culpando e chantageando um ao outro. Enquanto isso, a liderança iraniana usa o discurso para levantar a bandeira patriótica e fortalecer sua posição interna, que esteve sob sério ataque não muito tempo atrás.

Enquanto isso, voltemos à Palestina, que continua a ser o problema real para Israel, e não uma questão fantasiosa. O Hamas tomou a decisão de ligar sua estratégia ao Egito e à Irmandade Muçulmana, que parece estar prestes a controlar o governo egípcio. O Fatah claramente teme, não sem motivo, a perda de controle da Cisjordânia para o Hamas. Preso entre o Hamas e o governo dos Estados Unidos, o presidente Abbas, da Autoridade Palestina também está em uma posição na qual perderá algo; e também não sabe o que fazer. Ele hesita, o que não parece ser a melhor tática de sobrevivência.

O futuro está com as ruas da Palestina. Simplesmente não acredito que poderão manter-se silenciosas. Poderá Israel chegar a algum acordo com elas? Logo saberemos.

05/01/2012

Os conflitos máis violentos de 2011

Artigo tirado de aquí e traducido por nós.
Soldado ugandés na fronte norte de Mogadiscio, Somalia. Setembro 2011. Foto: HERNÁN ZIN

Como xa escribimos nestas páxinas en varias ocasións, a guerra tradicional, entre estados e exércitos profesionais, pertence ao pasado. De feito, do dez conflitos que en 2011 provocaron máis de 1.000 mortos, ningún responde a estas características.

A violencia no século XXI pasa por aqueles territorios onde os gobernos apenas exercen o seu poder e grupos terroristas, insurxentes ou simplemente delituosos campan ás súas anchas. Enfrontamentos armados de lóxica difusa, sen frontes, onde a peor parte lévana os civís.

Nas próximas entradas repasaremos un a un este dez conflitos, a súa evolución ao longo do 2011 e as súas perspectivas para 2012.

Algúns dos cales narramos desde o terreo nestas páxinas como Somalia, Afganistán ou Sudán, e outros de novo cuño, provocados polas lexítimas ansias de liberdade e democracia, como Iemen, Libia ou Siria.

Unha lista de dez guerras que, en número de mortos, encabeza México con 12.539 asasinatos relacionados coas drogas en 2011. Un aumento do 6,3% con respecto a 2010.

Logo vén Afganistán. E despois Iraq. Aínda que a prensa xa case non lles dedique titulares, o certo é que 4.063 civís morreron o pasado ano na nación do Tigris e o Éufrates, que empeza o 2012 con apenas 200 soldados de EUA no seu territorio (os encargados de velar pola seguridade da embaixada, na chamada Zona Verde de Bagdad).

Paquistán e Colombia pechan esta listaxe ao que debemos sumar unha vintena de conflitos de longa duración se queremos realizar unha radiografía máis exhaustiva da violencia no noso mundo.

Entre estes últimos, que non superaron o milleiro de mortos en 2011, o máis antigo é o de Corea do Norte e do Sur, seguido polas loitas internas en Birmania, e logo a resposta á ocupación de Palestina.

11/10/2011

Nacionalista ou nacional? Pequena contribución ao debate

David Rodríguez Rodríguez. Artigo tirado de Altermundo (aquí).

Do mesmo xeito que no século XIX o movemento nacional galego pasou polo provincialismo e o rexionalismo, o nacionalismo será a nomeclatura análoga para o século XX, un século no que a dialéctica centro-periferia se cirunscribía ás relacións entre nacións sen estado vs. os estados nación. No s.XXI ou se combate a globalización sendo nacional, no sentido republicano, ou non se é nada e se deixa que gobernen os mercados.

Para alguén que considere a Galiza como o seu país o Estado español sen soberanía que hoxe existe, Madrid, para entendérmonos, xa non pode ser o adversario único. Hoxe os movementos políticos deben reivindicárense nacionais polo simple feito de que os estados-nación están baleiros de contido. Estamos no neofeudalismo, hai que volver construír espazos de soberanía popular. A dialéctica centro-periferia coíncide como nunca coa dialéctica esquerda-dereita e ten a súa expresión na confrontación de mercado vs. democracia.

Se tomamos o caso da ETA, un produto crepuscular dese século XX no que a loita se daba entre as nacións subordinadas e as grandes nacions-estado imperialistas, semella que os dirixentes da banda chegaron á conclusión de que agora xa non ten sentido prolongar un antagonismo que a historia deixou caduco. É un gasto de enerxía inútil facerlle a guerra a un estado con cada vez menos soberanía. Na medida en que se desgasta a ese estado decadente tamén se desgasta o espazo exiguo de soberanía (o que queda de institucións democráticas), no que, mal que ben, as nacións sen estado aínda existen. O poder está agora fóra do Estado Nación, calquera que desexe a pervivencia da súa nación ten que focalizar a loita cara o espazo globalizado dos capitais sen control e dos conglomerados militares. Pensemos senón no expolio ao sistema financeiro galego perpetrado a través da fusión das caixas de aforro e da absorción do Banco Pastor polo Banco Popular. Pódese afirmar con seriedade que todo ese aforro galego será empregado para que a nación española medre en detrimento de Galiza como se España aínda fose unha metrópole que pavimenta as súa rúas de ouro a costa da suor dos colonizados? Non será máis atinado pensar que con toda probabilidade todo ese aforro ha rematar engulido no fluxo de capitais especulativos sen patria que, por estarmos en tempo de transición, aínda responden, nominalmente, aos xentilicios dos vellos estados-nación? Todo isto abre un espazo aos movementos nacionais periféricos do Estado Español para procurar alianzas co movemento soberanista e popular que xurda na propia España (naturalmente alianza non significa fusión), toda vez que se comparte inimigo.

Nunha entrevista recente Xabier Arzalluz expresaba, coa claridade que o caracteriza, a súa visión desta encrucillada semántica do seguinte xeito: "Yo usaría nacionalista para dentro (do estado nación) y nacional para fuera (o mundo globalizado)". O cal é unha maneira gradualista de recoñecer que o termo nacionalista, tal como se entendeu no Estado durante os últimos cen anos, desaparecerá na mesma medida en que o Estado nación chamado España continúe a se desdebuxar. Esta contradición xa é perceptible nas forzas que se autodenominan nacionalistas e que teñen representación no congreso e no senado do Estado. Ao tempo que manteñen aceso o antagonismo con Madrid escenifican razoables mostras de indignación cada vez que desde o bipartidismo imperante se ignora a opinión dos cidadáns de todo o estado (como sucedeu nese golpe de estado encuberto que foi a reforma constitucional impulsada por Zapatero para instaurar a obriga das políticas de déficit cero).

Pero nada mellor que reparar en Palestina, a nación sen estado que máis globalizada ten a súa loita para concluír con esta cuestión. Alguén pensa que os palestinos se definen a si mesmos como nacionalistas? Claro que non, os palestinos chámanse a si mesmos palestinos e a consecución de institucións democráticas palestinas é o que procuran todos os seus nacionais diga o que diga a infame xeopolítica mundial.

18/09/2011

A um passo do Estado Palestino

Gershom Goremberg. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Daniela Frabasile.

No mapa, em amarelo, o território palestino pré-1967, que a ONU pode transformar num Estado independente. A oeste, menor, a Faixa de Gaza. A leste, a Cisjordânia.
Nadim Khoury observa, enquanto garrafas marrons caminham em fila única pela correia transportadora das máquinas de esterilizar e em seguida, para as que as enchem de líquido, as tampam, passam cola e pregam rótulos, nos quais se lê: Cerveja Taybeh. A melhor do Oriente Médio. Sob seus vastos bigodes grisalhos, Khoury esboça um pequeno sorriso de orgulho pelo próprio empreendedorismo.
O patriotismo levou Khoury e seu irmão David ao vilarejo de Taybeh, na Cisjordânia, em 1994. Eles viveram por anos nos Estados Unidos, onde Khouru graduou-se em Administração numa universidade grega ortodoxa, e depois estudou cervejaria na Universidade da Califórnia, em Davis. Na euforia que sucedeu os Acordos de Oslo, de 1993, eles quiseram ajudar o desenvolvimento econômico daquilo que, acreditaram, logo se tornaria uma Palestina independente. Próximo à grandiosa casa que o pai construiu para ajudar a atraí-los de volta para casa, na cidade que da nome a seu produto, eles montaram uma micro-cervejaria, com tanques de aço brilhantes para ferver o malte de cevada com lúpulo, fermentar a bebida e envelhecê-la. “Eu fiz história”, diz Khoury: “eu fiz a primeira cerveja palestina”. O anúncio da empresa diz “bebida palestina” e “sinta a revolução”.

A revolução, porém, adquiriu um gosto mais amargo que o do lúpulo. Durante a Segunda Intifada, o turismo desapareceu, e com ele, as vendas de cerveja nos hotéis de Belém, o destino mais popular da Cisjordânia. Os bloqueios israelenses e postos de controle, projetados para que terroristas não entrassem em Israel ou atacassem os assentamentos, sufocaram o movimento de pessoas e produtos. Em certo ponto, Khoury conta, a cerveja era transportada pelas colinas de Ramallah, a cidade mais próxima, em lombo de mulas.

Desde que a revolta amainou e o primeiro-ministro da Autoridade Palestina, Salam Fayyad, começou a reconstruir as forças de segurança, Israel removeu alguns pontos de controle. Chegar a Taybeh, entretanto, ainda é uma questão de encontrar uma estrada aberta. Os viajantes que vêm de Nablus, ao norte, encontram um portão de metal instalado pelas Forças de Defesa de Israel bloqueando a entrada na vila Cristã Árabe, o que força um grande desvio para o sul. Levar a bebida para fora é ainda mais complicado: exportações para Israel devem ser levadas por caminhão até um ponto distante em Jerusalém, colocadas em um scanner de carga, e recolocadas em um caminhão israelense – o que faz com que uma viagem de meia hora leve três horas. Como o movimento Islâmico o Hamas ganhou as eleições palestinas de 2006, a família dos Khourys começou a produzir também uma cerveja sem álcool. Porém, desde que o Hamas assumiu o poder na Faixa de Gaza, em 2007, Israel não permite que a cerveja seja enviada para lá.

Por uma das janelas de sua sala, Khoury mostra uma base do exército israelense. Por outra, aponta uma colônia judaica ilegal, Amonah. “Começou com uma casa”, diz ele. “Agora veja quantas – vinte ou trinta – e o número cresce diariamente”.

Mesmo assim, o cervejeiro está otimista em relação ao plano do presidente palestino Mahmoud Abbas, de buscar reconhecimento da Palestina como um Estado independente em setembro. Khoury considera que uma pré-condição para a soberania aparentemente foi cumprida: em maio, o regime do Hammas em Gaza e o governo do Fatah em Ramallah, Cisjordânia, concordaram em se reunir. Khoury vê a tentativa de reconhecimento da ONU como um caminho alternativo ao impasse político e aos impedimentos impostos aos negócios e à vida das pessoas devido à ocupação. “Israel não pode controlar o mundo inteiro”, diz ele. Se a ONU afirmar a independência palestina na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, ele acredita que Israel será obrigada a implantar a decisão.

O otimismo empresarial pode estar fazendo Khoury otimista demais. As recentes estratégias palestinas para a independência – a idéia do premiê Fayyad, de que se um Estado for construído de baixo, o mundo irá reconhecer sua independência; a aposta do presidente Abbas, de fazer com que a ONU imponha a solução de dois Estados; o pacto de reconciliação Fatah-Hamas – são um misto de esperança e desespero. Abbas e outros moderados em Ramallah veem as negociações com Israel como mortas, e perderam a confiança de que o governo Obama irá revivê-las. Tanto o Fatah quanto o Hamas temem que a agitação no mundo árabe enfraqueça seu poder e se seguram na unidade para assegurar sua legitimidade.

Os políticos, também, estão procurando a saída.

* * *

Ramallah, a capital de fato da Cisjordânia, fervilha. Gruas erguem esqueletos de prédios muito altos. Novas torres de apartamentos, escritórios e hotéis brotam das ruas principais. O estilo arquitetônico é o moderno do Oriente Médio – ângulos oblíquos e fachadas arredondadas com painéis de vidro azul armados sobre pedra amarela, cortada de modo rústico. As placas das ruas estão em árabe em inglês – Rua Edward Said, Rua Madre Tereza – e parecem ter chegado ontem da fábrica. Há muitos carros nas ruas estreitas e sinuosas. Alguns deles são negros, novos, enormes, e exibem as insígnias VIP dos dirigentes da Autoridade Palestina (AP). Letreiros anunciam operadoras de celulares concorrentes. Nas esquinas, perfilam-se duplas de policiais palestinos, em uniformes paramilitares verde-oliva – como publicidade viva da nova atmosfera de ordem. As calçadas próximas à Praça Manara, no centro, estão coalhadas de gente indo às compras.

Em um café, onde encontrei um homem de negócios que olha seu Blackberry, mulheres de uns vinte anos admiravam, na mesa ao lado, um laptop fúcsia. Uma tem os cabelos descobertos, a outra usa um hijab [lenço que cobre cabelos e pescoço, mas expõe a face] ultra-marinho que combina com sua sombra. O homem de negócios, Bashar Azzeh, de 31 anos, veste um blazer, sem gravata. É dono de uma empresa de consultoria e marketing em Ramallah e sócio de uma marmoraria e uma fábrica de calçados na área de Hebron.

Palestinos jovens – e a população palestina é incrivelmente jovem – “estão cansados”, diz ele. “Eles veem que a Segunda Intifada não deu muitos frutos. São mais propensos a uma abordagem não-violenta. Querem se focar mais em suas carreiras: encontrar um emprego, uma esposa, uma casa – o sonho palestino. E isso funcionou bem com a abordagem de Fayyad de construir um Estado”, diz Azzeh, pois o governo oferece garantias para empréstimos ao consumidor. “Ele dá esses empréstimos para construir casas, comprar carros, para casar”. O que está faltando, diz , é uma ajuda parecida para que jovens palestinos possam começar pequenos negócios.

Essa é uma parte do quebra-cabeças do legado de Fayyad como primeiro ministro. Ele criou uma ilusão – ou uma base concreta – para a soberania. Depende da pessoa que responde a essa pergunta, quais documentos você lê, quais parágrafos você destaca enquanto os examina.

Fayyad é outro que retornou após os acordos de Oslo. Sua família deixou a Cisjordânia em1968, rumando para a Jordânia. Após obter título de doutorado em economia na Universidade do Texas e de trabalhar para o Fundo Monetário Internacional em Washington, ele voltou para casa em 1995, como representante do FMI na Autoridade Palestina. Em junho de 2007, após o colapso da unidade entre Hamas e Fatah no governo, uma guerra civil brutal e a tomada do poder em Gaza pela Hamas, o presidente Abbas decretou um governo de emergência na Cisjordânia. Fayyad tornou-se primeiro ministro, misto de tecnocrata e autocrata. O parlamento palestino deixou de ser conveniente após a separação. Tanto o mandato de Abbas quanto o do Parlamento expiraram. Nenhuma eleição foi realizada. O governo de Fayyad continuou.

No ano que seguinte, a anarquia hobbesiana cidades da Cisjordânia, durante os dias da Intifada, foi superada. Os serviços de segurança da Autoridade Palestina e a polícia desarmaram as milícias, derrubaram o mercado de carros roubados, e preveniram ataques suicidas contra Israel. Aproveitaram a oportunidade para fechar os serviços de caridade do Hamas, que difundiam a mensagem da oposição. Oficiais de segurança palestinos e israelenses retomaram cooperação mais próxima. Dentro das instituições corruptas da Autoridade Palestina, Fayyad também tenta “limpar a casa”.

Em 2009, ele levou adiante suas ambições. Seu governo, anunciou ele, tornaria a Autoridade Palestina em um Estado funcional em dois anos. Com o “processo de paz” caminhando para lugar nenhum – Benjamin Netanyahu tornou-se primeiro ministro de Israel e o presidente norte-americano Barack Obama fracassou em obter a suspensão da construção de novos assentamentos – Fayyad disse que seu plano deveria ser recebido por Israel como “um fato que não pode ser ignorado”.

Num café, na parte antiga de Ramallah, o cientista político Abdel Majid Sweilem fala um árabe professoral e em ritmo medido, como se estivesse em frente de uma sala de aula na Universidade de Al-Quds. O estudioso ítalo-búlgaro vê Fayyad como um sucesso. Verdade, existem “membros caóticos do Fatah”, diz ele, que resistem às reformas do premiê. Mas como um resultado da estratégia do governo, diz ele, “nós nos liberamos da Intifada Al-Aqsa [referência à chamada Brigada de Mártires Al-Aqsa, um grupo palestino que, dizendo-se ligado à Fatah e não-fundamentalista, praticou diversos atentados com homens-bomba em Israel e na Palestina], dos bolsões de terrorismo e corrupção. “Agora, nós somos parte de uma legitimidade internacional, ao contrário de Israel”. Internamente, 90% dos cidadãos recebem assistência médica nas clínicas do governo. Os demais têm planos de saúde custeados por seus empregadores. Agora nós temos um website do ministério Fazenda que lista todas as receitas e despesas” diz Sweilem. A ajuda internacional caiu para 40% da receita – uma conquista que evidencia o o quão desesperada tem sido a situação financeira da Autoridade Palestina. A verba destinada a desenvolvimento ainda vem inteiramente de doações estrangeiras.

Como nota de rodapé à descrição acima, uma placa de pedra, na entrada do ministério da Educação, em Ramallah, lembra: “Este edifício foi financiado pelo Reino da Noruega – Ano 2002. Subindo as escadas, o controlador do ministério, Azzam Abu Baker, me mostra a cicatriz, tão grossa quanto um cabo de navio, em um de seus pulsos – sua lembrança por lutar para o Fatah contra o exército israelense no Líbano, três décadas atrás. Abu Baker chegou à Cisjordânia em 1994 com Yasser Arafat e seu grupo de funcionários da Organização pela Liberação da Palestina (OLP). Este burocrata corpulento e sociável acumula o cargo no ministério com o de membro do Comitê de Assuntos Internacionais da Fatah, responsável por assuntos árabes.

Segundo o ponto de vista de Abu Baker, o premiê Fayyad feriu o sistema educional da Autoridade Palestina. Por dois anos, os professores não receberam seus salários integrais. Também houve “intervenção nos serviços de segurança na contratação de professores”. Além disso, Fayyad retirou os carros oficiais dos altos dirigentes do ministério. Em consequência, reclama Abu Baker, o gabinete de Ramallah não pode manter contato com os escritórios locais. Enquanto isso, “ele mima os departamentos de segurança… [Fayyad] está mais interessado na segurança do que na educação”

Talvez a disputa sobre os carros oficiais simplesmente comprove a resistência da velha guarda do Fatah em relação à limpeza que Fayyad promove. Mas essa crítica às forças de segurança é compartilhada também por analistas independentes. Em um estudo publicado em fevereiro, o pesquisador palestino Yezid Sayigh, do King’s College em Londres, descrevia quão “tênue o controle civil sobre as agências de segurança se tornou” na Autoridade Palestina. Escreveu que tanto os grupos de direitos humanos quanto a mídia independente estavam sob ataque.

Fayyad, entretanto, obteve notas altas nas avaliações sobre seu desempenho na construção do Estado Palestino, em três avaliações feitas durante uma conferência das nações doadoras em Bruxelas, em abril. “A Autoridade Palestina continuou a fortalecer suas instituições, oferecer serviços públicos e promover reformas que outros Estados também lutam para promover”, diz um documento do Banco Mundial. O coordenador especial para a paz no Oriente Médio da ONU notou uma melhora na transparência financeira e na redução da corrupção. O FMI relatou que “a Autoridade Palestina agora é capaz de conduzir as políticas econômicas sadias que se espera para o bom funcionamento de um Estado no futuro”. Fayyad proclamou que os palestinos receberam uma “certidão de nascimento” para a soberania.

“Digamos que eu queira abrir uma indústria farmacêutica.
Israel poderá vetar a importação de matérias-primas. Ou barrar
entrada de um instrutor chinês que me ensinaria a operar uma máquina”

O Banco Mundial também notou que o crescimento econômico na Cisjordânia e na Faixa de Gaza chegou a 9,3% no ano passado. Esse fato ajuda a explicar a agitação em Ramallah, mas é apenas uma introdução a más notícias: o crescimento foi “principalmente conduzido pelas doações” e “não parece sustentável”. O crescimento rápido é construído com doações internacionais, e Fayyad tem fama de ser habilidoso em captar recursos.

Em teoria, os frutos do trabalho de Fayyad – cidades mais seguras, menos corrupção nos ministérios, melhores estradas – devem ajudar o crescimento do setor produtivo. Até agora, isso não acontece. O empreendedor Bashar Azzeh está fora dos limites dessa construção do Estado: a Autoridade Palestina administra apenas 40% da Cisjordâina, que consiste nas partes mais densamente povoadas e é designada em áreas A e B, segundo os acordos de Oslo. A terra necessária para a indústria pesada está na área C, ainda governada por Israel. Para construir uma fábrica de concreto, um investidor precisaria de uma autorização para um negócio que competiria diretamente com os produtos de Israel. Em vez disso, Azzeh diz, “todo o nosso cimento vem de Israel”

Abrir indústrias de luz nas áreas A e B é possível em teoria, diz Azzeh. “Mas vamos dizer que você queira abrir uma companhia farmacêutica. Haveria problemas para importar produtos químicos” definidos por Israel como de “uso duplo” — capazes de servir para produção de armas e de medicamentos. Se você comprar uma máquina de U$ 5 milhões da China, diz ele, você precisará da permissão de Israel para trazer um especialista para mostrar como utilizar essa máquina. Além dessas dificuldades, podemos adicionar a necessidade de exportar via Israel. No final das contas, nas palavras de Azzeh, “eu não tenho soberania sobre minhas fronteiras”.

A campanha de Fayyad para criar um Estado funcional colidiu com a ocupação. O veto dos Estados Unidos, em fevereiro, a uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando os assentamentos israelenses “colocou o último prego no caixão do plano de Fayyad”, diz Mouin Rabbani, um analista palestino baseado em Aman, Jordânia. Em Ramallah, o veto confirmou que a visão de Washington é parte do problema, não da solução. Isso deixou poucas esperanças de que os Estados Unidos reconheceriam um Estado estabelecido sem o acordo de Israel. Essa conclusão ajuda a explicar a aposta de Abbas no reconhecimento da ONU e o acordo de unidade entre o Fatah e o Hamas.

* * *

Se Fayyad esperava construir um estado de baixo, Abbas sempre procurou fazê-lo de cima, através de negociações internacionais, diz Menachem Klein, da Universidade Bar-Ilan, uma escola superior de política palestina. Abbas viu a Segunda Intifada como um desastre para os palestinos, disse ele. Além disso, Klein enfatiza, “Abbas se opõe fortemente à resistência civil não-violenta”, que ele acredita levar inevitavelmente à violência.

Desde que sucedeu Arafat como presidente da Autoridade Palestina, em 2005, Abbas tentou negociar a independência. Conversações entre ele e o primeiro ministro de Israel, Ehud Olmert, chegaram perto de produzir um acordo em 2008. Para o vice-primeiro ministro israelense, Dan Meridor, Olmert fez, em dado momento, “uma oferta irrecusável”. Israel concederia toda a Cisjordânia, menos 4% — que seriam trocados por um território de iguais dimensões em Israel, segundo a imprensa. As áreas sagradas de Jerusalém seriam controladas internacionalmente.

Abbas “desapareceu desde então”, diz o vicê-premiê israelense. Talvez – sempre segundo ele — por relutar em assinar o fim de todas as disputas, por ser incapaz de admitir que o sonho da OLP (recuperar toda a Palestina) falhou, ou com medo de confrontar o Hamas. Meridor ocupa um pequena escritório, dois andares abaixo do escritório de Netanyahu, em Jerusalém. É a figura mais moderada no partido do premiê. Diz defender a busca, por Israel, de um acordo capaz de criar dois Estados; mas julga difícil os palestinos aceitarem

Em Ramallah, menos de 15 quilômetros ao norte, enquanto o helicóptero voa, Gjassan Khatib, porta-voz do governo palestino, apresenta outra versão sobre os mesmos eventos. Seu bigode grisalho é aparado com tanto esmero quanto há no nó de sua gravata azul. Ele é membro do Partido Popular, sucessor do Partido Comunista Palestino, conhecido por ser a facção que nunca teve um braço armado. Sua expressão parece ligeiramente interrogativa, como se ele ainda não estivesse seguro sobre como caiu no centro desse conflito louco.

Olmert fez propostas, diz ele, e o lado palestino respondeu. Mas “o processo foi interrompido pela ausência de Olmert” — uma maneira delicada de dizer que o líder de Israel deixou seu posto sob múltiplas acusações de corrupção. Quando Netanyahu tomou posse, “o novo governo se recusou a dar continuidade ao que já havia sido acordado” Khatib afirma. O significado dessas duas versões, igualmente incompletas, é que ambos os lados estão certos de que um acordo quase se concretizou; que cada um, como sempre, está convencido de que o outro boicotou essa possibilidade.

Mesmo assim, Khatib diz, os palestinos continuaram negociando – por meio dos norte-americanos, e depois diretamente — até setembro do ano passado, quando Netanyahu retomou a construção de assentamentos em terras palestinas. “Você não pode negociar com uma parte que está ocupada em determinar unilateralmente, através da força, o seu futuro”, argumenta. Khatib está envolvido em conversas de paz há vinte anos. “A única coisa concreta” a que o processo de Oslo levou, ele lamenta, foi “dobrar o tamanho dos assentamentos”. O presidente Obama “teve um começo promissor” quando pressionou por um acordo de paz, mas em seguida desapontou as expectativas palestinas. Como as negociações bilaterais falharam, diz ele, “nós vamos à ONU” em setembro “e pediremos que a comunidade internacional se responsabilize” por dar um fim à ocupação.

É uma aposta bastante arriscada. Para aceitar a Palestina como um membro da ONU ou aprovar qualquer ação da ONU, é necessário um voto do Conselho de Segurança. Um veto estadunidense é praticamente certo. Um voto da Assembléia Geral é declaratório — não precisa ser obrigatoriamente aceito. Ressalve-se um precedente de 1950, durante a Guerra da Coreia, que permite à Assembleia Geral passar resoluções recomendando mais fortemente que os Estados-membros tomem ação coletiva — inclusive impondo sanções à Israel.


Na hipótese mais provável — uma grande maioria da Assembleia Geral a favor da soberania — ninguém sabe o que aconteceria no dia seguinte, na Cisjordânia. A vida deve continuar, com responsáveis de segurança palestinos e israelenses ainda se encontrando e compradores lotando o centro de Ramallah. É previsível que Israel reprima a Autoridade Palestina com prisões e bloqueios renovados. É previsível que a sociedade palestina, frente a esperanças partidas, vá às ruas contra Israel ou contra sua própria liderança, de forma pacífica ou violenta.


Na arena internacional, Israel poderia encontrar-se significativamente mais isolado. Depois de um voto reconhecendo a Palestina, com as fronteiras definidas nos acordos pré-1967, argumenta Sweilen, o cientista político ítalo-búlgaro, o tema das negociações “já não será sobre as fronteiras do Estado Palestino, mas sobre os mecanismos para estabelecer a paz”.

“Vai haver um custo político para os Estados Unidos” se lançarem um veto”, diz Khatib, o porta-voz palestino. “Eles terão que explicar como podem apoiar apelos à liberdade no resto do mundo e negar esse direito aos palestinos”. O veto dos Estados Unidos, em fevereiro, contradisse embaraçosamente a posição de Washington contra os assentamentos. Um veto à soberania seria outra situação embaraçosa, dado que a política declarada pelos Estados Unidos é de apoio à solução de dois Estados.

O desconforto dos EUA também aumentaria se a maioria dos países europeus votasse a favor dos palestinos. Na tentativa de alinhar os votos europeus, Netanyahu e Abbas tornaram-se rivais nas capitais europeias. Desde que tomou posse, Netanyahu trata Abbas não como um parceiro de paz, mas como um competidor pela simpatia ocidental. Abbas está respondendo da mesma forma. Uma leitura dessa estratégia é que ele está cortejando Barack Obama: fazer algo, apresentar seu plano, antes de transtornar as coisas. Outra leitura é que ele desistiu de Obama.

A última leitura se encaixa na decisão de buscar a reconciliação com o Hamas. O acordo deveria levar a um governo de unidade composto por tecnocratas e eleições em um ano. A inquietação americana sobre uma aliança com islâmicos de uma linha mais dura tornou-se menos relevante. Para Abbas, pesa mais livrar-se da crítica segundo a qual ele representa apenas metade dos palestinos.

A unidade “vai ajudá-lo a ir à ONU. De outra forma, todos vão dizer: ‘como podemos reconhecê-los, se vocês nem conseguem se unir?’ frisa Ayman Daraghmeh, um membro independente do Parlamento palestino. Daraghmeh, um bioquímico educado na Universidade de Delhi, compartilha um escritório com legisladores do Hamas em um edifício em Ramallah chamado Mecca Center. “O próprio Netanyahu disse a Abbas: ‘com quem eu devo negociar, com você ou com o Hamas? Vocês não estão unidos’”, conta Daraghmeh. “E quando Abbas promoveu a unidade, Netanyahu “advertiu-o”: “ou paz com Israel ou relação com o Hamas”…

A Primavera Árabe produziu um empurrão ainda maior para um acordo de unidade. O consenso em Ramallah, além das linhas políticas, é de que o Egito pós-revolucionário é um padrinho menos confiárvel para o Fatah; e que a Síria deixou de ser um abrigo amistoso para o Hamas e seu quartel-general. “A Fraternidade Muçulmana Internacional e a Fraternidade Muçulmana da Síria apoiam a revolução contra o presidente Bashar al-Assad”, explica Abu Baker, o expert em assuntos árabes da Fatah. Como o Hamas “é um ramo da Fraternidade Muçulmana, ele não pode permanecer em Damasco”, diz Baker. “Ele não é capaz de conciliar o dia com a noite”.

Tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, jovens educados e insatisfeitos fizeram da divisão entre líderes do Hamas e do Fatah seu primeiro alvo para a mudança política. “O povo exige o fim da divisão”, entoaram os jovens em Ramallah, Gaza e outras cidades, em manifestações divulgadas pelo Facebook a partir de 15 de março. O jovem empreendedor Bashar Azzeh ajudou a organizar os atos, mais insiste em que não é um líder — na verdade, o movimento 15 de Março tem “Facebook, Twitter, emails e encontros, não líderes”. Ele prossegue: “Estamos superando o tema de liderança”, num claro desafio aos apparatchiks envelhecidos e às facções palestinas tradicionais.

Numericamente, os protestos pareceram pequenos. Apenas 2 mil pessoas saíram às ruas em Ramallah, em 15 de março. Em Belém, dois dias depois, encontrei apenas algumas dezenas de manifestantes reunidos numa tenda, na praça Manger, decorada com um mapa que mostrava a Palestina dividida em duas. Mas as manifestações assustaram os líderes das facções. “Todos temem o futuro”, diz um membro do Parlamento palestino. “O que ocorreu no Cairo foi um tsunami”.

O acordo de unidade assinado em maio era apenas um esqueleto básico. Ninguém sabe se ele sobreviverá à formação de um novo governo ou como o governo lidará com serviços de segurança distintos — um dirigido pelo Hamas, em Gaza; outro pelo Fatah, na Cisjordância. Khatib afirma que o Hamas aceitou a posição da OLP, de honrar os acordos com Israel. Também isso precisa ser testado. Para o movimento 15 de Março, Azzeh sublinha, a unidade era apenas um meio para o verdadeiro fim: acabar com a ocupação. “Ainda vivemos em guetos. Não temos uma moeda”, ele diz. “Precisamos de nossas próprias fronteiras”. A reconciliação é apenas parte de uma aposta maior.

* * *

Há uma segunda Cisjordânia. Seus habitantes judeus chamam-na de Judeia e Samária, ou Yesha, um acrônimo que expressa a palavra hebraica “redenção”. Avi Roe vive e trabalha la, como membro do Conselho Regional de Mateh Binyamin, o governo local de um grupo de colônias a norte de Jerusalém. Próximo à sede do conselho, na colônia de Psagot, novos prédios de apartamentos estão sendo erguidos. Os moradores terão, abaixo de si, uma excelente vista de Ramallah.

Mapas e fotos aéreas dos assentamentos cobrem as paredes do escritório de Roe. Com a luz vermelha de uma caneta laser, ele indica as comunidades em que as construções estão em curso. Mais de 800 apartamentos estão sendo construídos em Mateh Binyamin, diz. Dado o tamanho das famílias de colonizadores, isso poderia significar um aumento de 10% na população do conselho, de 53 mil. Construir apartamentos, ele diz, significa aceitar o sacrifício de um modo de vida suburbano, para trazer mais pessoas e fixar raízes.

Se os palestinos declararem unilateralmente a independência, Roe diz, Israel deveria responder unilateralmente, “afirmando a anexação da Judeia e Samária a seu território”. Os moradores árabes, em sua concepção, poderiam se tornar cidadãos à condição de “provar sua lealdade ao Estado e seus valores” — uma expressão em código para dizer que eles deveriam jurar fidelidade a Israel como Estado judeu. Roy acredita que é um erro preocupar-se com “o que a ONU diz”. Há não muito tempo, ele explica, os judeus “tentaram integrar-se em outros países, especialmente na Europa e perceberam, durante o Holocausto, que não seriam aceitos pelos demais”. A partir deste fato, ele conclui que os judeus deveriam cuidar de si mesmos, sem preocupar-se com aprovação internacional.

Os colonizadores são uma parte volátil do apoio a Netanyahu. Eles têm influência – aparentemente, mais que o moderado Meridor – mas não definem diretamente as políticas do governo. O vice-premiê Moshe Ya’alon, o número 2 de Netanyahu e um ex-chefe militar, pode oferecer um panorama melhor do pensamento oficial.

Com suas bochechas grossas e óculos, Ya’alon parece um homem comum. O soco forte na mesa, que pontua suas sentenças, corresponde melhor à imagem de um ex-general. Sob as regras atuais, ele diz, um voto na Assembleia da ONU em favor do Estado Palestino, seria “desagradável, não terrível”. Mas uma recomendação mais forte poderia criar, segundo o precedente de 1950, uma “entidade hostil e falida” na Cisjordânia, outro “Hamastão” como o de Gaza, afirma Ya’alon. Os esforços diplomáticos de Israel na Europa estariam voltados para prevenir isso…

Ele é muito menos confiante na diplomacia com os palestinos. os 18 anos desde os Acordos de Oslo teriam ensinado, diz Ya’alon, que “não temos um parceiro interessado em alcançar o fim do conflito”. Por isso, antes de negociar assuntos objetivos, ele prossegue, o governo Netanyahu pede respostas aos palestinos: sobre sua disposição de reconhecer Israel “como o Estado-Nação do povo judeu”; sobre a renúncia a todas as queixas contra Israel; e sobre a garantia de que todas as preocupações de Israel com segurança serão sanadas.

Tais preocupações, ele especifica, incluem o controle, por Israel, da fronteira entre a Cisjordânia e a Jordânia. Depois que Israel deixou Gaza, ele considera, armas iranianas passaram a entrar, pela fronteira com o Egito. Em resumo, o que aparece, aos olhos do ministro Ya’alon, como a pré-condição pragmática para a independência da Palestina significa negar o que os próprios palestinos veem como condição básica de um Estado: soberania sobre as fronteiras

Ya’alon rejeita a ideia de Roe, que quer anexar a Cisjordânia. “Não temos interesse algum em governar os palestinos”, ele diz. “Não temos interesse algum em fazê-los cidadãos de Israel… Queremos nos separar deles”. Mas se os palestinos agirem unilateralmente, “isso nos fará pensar sobre passos unilaterais”. Os Acordos de Oslo, diz Ya’alon, iriam se tornar “irrelevantes”, assim como os compromissos de autorizar os palestinos a trabalhar em Israel. “Nós fornecemos eletricidade e água para os palestinos”, diz ele. “Se estivermos diante de uma entidade hostil, teremos de pesar os passos… capazes de inviabilizar tal entidade”

Os dois lados podem brincar de gato e rato, diz Ya’alon. E à medida em que a Assembleia Geral se aproxima, ambos podem defender suas posições junto a governos estrangeiros, ao invés de conversar entre si.

Na cervejaria próxima a sua casa, Nadim Khoury está instalando seis novos tanques, que lhe permitirão dobrar a produção atual, de 600 mil litros anuais.

“Estou muito otimista”, ele me diz. “Você pode me dizer quantos países ocupados ainda existem no mundo? Isso não pode durar para sempre”. Sua meia-irmã Maria, nascida na Grécia, me convida a voltar para o Oktoberfest de Taybeh. É logo agora. Eles estão apostando num caminho de entrada, numa saída.

12/07/2011

Antón Gómez-Reino (Tone): “Se Israel ataca, a nosa resistencia será só pacífica”

Antón Gómez-Reino, "Tone". O autor é membro do consello editorial de Altermundo. Entrevista tirada do site Altermundo e concedida orixinalmente para o Xornal de Galicia.

Ricardo Rodríguez-. Fala dende algún porto grego e faino ás présas. A presión que Israel está a exercer para evitar que a Frotiña da Liberdade II poida facerse ao mar rumbo a Gaza estalles a xerar traballo extra aos activistas que dende hai semanas preparan a expedición humanitaria. “Hai unha guerra moi forte para que non poidamos saír de porto”, asegura Antón Gómez, un dos cinco activistas galegos que participa na expedición. “Non é definitivo pero é moi posíbel que a saída [prevista para hoxe] se adíe horas e mesmo uns días”, engade. Non dá data concreta por razóns de seguridade. “E iso é o máis lóxico vendo as sabotaxes e as presións dos últimos días para que non soltemos amarras”, apostila.

En que eidos está a exercer Israel presión para que a Frotiña non parta?

Israel está a enviar a diferentes chancelerías unha serie de requisitos administrativos para poder atrasar a partida dos barcos e tamén está a exercer presións a empresas que están a traballar nos barcos para deixalos preparados para a súa partida. A última das estratexias israelís pasa por tentar pór contra ás cordas as aseguradoras para que non nos dean cobertura. Os argumentos que Israel dá para bloquear a Frotiña son inverosímiles. Seguen a vencellar os activistas co terrorismo islámico [a través dunha organización a IHH turca que este ano non participa] cando este ano a Frotiña ten un carácter moi internacional.

Israel contactou tamén as autoridades portuarias gregas para evitar a partida e mesmo houbo algunha sabotaxe…

Hai unha campaña dende o eido xurídico no que participan asociacións israelís até agora descoñecidas para presentar denuncias contra os diferentes barcos. Por exemplo, unha organización ecoloxista de Israel presentou unha denuncia contra un cargueiro da rotiña por contaminación que logrou paralizar un par de días todo o proceso administrativo de cara á partida. Pero finalmente o papelorio solucionouse. Outro dos barcos, o Juliano, sufriu unha sabotaxe. Os compañeiros xa puxeron ese buque en dique seco. Amosáronse os danos [no temón do barco] e explicaron que os sabotadores empregaron un equipo bastante específico e profesional para alterar a zona das hélices. Pero podemos anunciar que ese barco está a ser reparado e que nun par de días estará arranxado para facerse ao mar.

O Goberno hebreo recuou finalmente na súa ameaza de deportar os xornalistas que vaian a bordo. A súa presenza dará maior seguridade á Frotiña?

Para nós é fundamental que os medios estean a informar sobre a Frotiña. Israel secuestrou o ano pasado os xornalistas que ían a bordo. E este ano optou tamén por exercer a chantaxe da deportación. Iso suporía que durante dez anos non poderían volver entrar en Israel, é dicir, que aqueles que traballen en territorio hebreo terían que deixar de facelo. Sabemos que houbo presións dos sindicatos xornalísticos de diversos estados e Israel decidiu dar marcha atrás.

A ministra de Exteriores, Trinidad Jiménez, pediu aos activistas españois que non participasen da Frotiña…

É unha postura lamentábel que o Goberno español se poña do lado da violencia e da ocupación e non dos dereitos humanos e da solidariedade. Só Irlanda e Suecia –que traballa máis en silencio– mantiveron unhas posturas críticas con Israel e pediron a Tel Aviv que se permita a saída e a chegada a porto. Esa non é a posición hexemónica e está claro que o resto dos gobernos europeos ven a Israel coma un socio.

Ban Ki-moon tamén avogou por deixar os barcos en porto. É esta unha potura máis sorprendente?

Está claro que cada vez se evidencia máis a distancia entre os gobernos, as organizacións e a xente á que representan. Caeron no descrédito. Nacións Unidas non está cumprindo co seu deber, deslexitímase, e é a propia sociedade civil a que ten que organizarse e construír unhas novas relacións internacionais máis solidarias dende abaixo.

Hai algún tipo de preparación física e psicolóxica para facer fronte a unha posíbel abordaxe do Exército israelí?

Si, por suposto. Pero hai que deixar claro que as coalicións que integran a Frotiña chegaron a un acordo para exercer una resistencia non violenta. Alén diso, hai unha serie de xuntanzas nas que se analiza como afrontar psicoloxicamente a viaxe, o asalto e os posteriores procesos de detención e deportación. Trátase tamén de preparar a determinado tipo de persoas cun certo perfil para que eviten calquera tipo de confrontación violenta. Se os comandos deciden abordar, poñeremos en práctica unha resistencia pacífica que poida dificultar a súa entrada.

Que papel pode desenvolver Exipto, en plena transición, durante a navegación da Frotiña cara á Gaza?

Non vai ter un papel activo ou particular na esfera pública. Outra cousa é que os equilibrios teñan mudado na rexión. E que Israel, coma resultado dese cambio de xeoestratexia, teña que mudar certas formas. O Cairo, coma punto de partida, anunciou que non asumiría que a Frotiña entrase nas súas augas. O que está claro é que Israel se atopa nun momento de transformación xeopolítica, mesmo cunha Grecia que nos últimos anos pasou de ser o país máis crítico con Tel Aviv na rexión a ter relacións máis cordiais, até o punto de que os seus exércitos están a realizar nos últimos días manobras militares conxuntas. Turquía, pola súa banda, rachou as relacións diplomáticas despois do asalto ao Mavi Marmara, pero nos últimos meses está achegando posturas. As primaveras árabes están a abrir moitas interrogantes e non sabemos aínda como poden afectar á Frotiña.

A maioría da poboación israelí censurou o ano pasado o seu Goberno pola cruenta abordaxe do Mavi Marmara. É ese un factor disuasión para Netanyahu e o seu Executivo?

É moi complexo adiantarse ao que Israel pode facer. Dende aquí facemos diariamente un seguimento da prensa israelí tanto en inglés como en hebreo, pero o que nos chegan son mensaxes antagónicas e non sabemos moi ben cal pode ser a postura. Pero no caso de que ataquen, farano contra barcos con cidadáns de 25 países, a maior parte deles occidentais. Nese sentido, as alianzas políticas e económicas de Israel poderían resentirse.

En que se diferencia esta segunda Frotiña da primeira?

Creo que este ano vai ser máis plural e que vai ter unha capacidade de deslexitimar a Israel moito máis profunda. Aínda que o ano pasado non era certo, desta volta é moito máis difícil seguir o argumento de que centos de cidadáns occidentais son fundamentalistas. Non só hai xente de Europa, EE UU ou Canadá. Tamén hai activistas de Asia e África e cidadáns de Israel a bordo da Frotiña da Liberdade.

28/06/2011

O internacionalismo desde o poder civil da esquerda social

Raul Asegurado Pérez, artigo tirado de aqui.

Moitas son as reflexións feitas sobre a interrelación entre o local e o mundial e a imposibilidade de dar respostas de forma desconexa entre unha e outra esfera da estrutura socioeconómica.

Neste campo da solidariedade internacionalista novamente o enquilosamento das forzas típicas políticas é evidente en temas tan cruciais para a compresión planetaria como o conflicto palestiniano, a causa Palestina trascende con moito un conflito meramente territorial, será e é unha cuestión transversal da compresión do mundo e a forma de plasmar o ideal de relacións entre nacións, pobos e estados que se pretende na construción do internacionalismo.

O dereito de soberanía, a relación do imperio coas colonias socio-políticas (alén do territorio, a cultura, a diversidade, etc…), os dereitos humanos máis básicos, os dereitos de cidadanía universais, o dereito político, o dereito privado, etc…, son cuestións que aparecen neste conflito de forma evidente.

As forzas políticas, a comunidade internacional a través da expresión de acións políticas dos ministerios de exteriores e dos conglomerados internacionais como o parlamento europeu ou da ONU dan mostra dunha hipocresía con moi poucos precedentes na historia; condenas en papel mollado das políticas israelitas sobre o territorio Palestino e pronuciamentos sumamente vagos e flexíbeis que nada ten que ver co apoio económico e militar que se lle dá ao Estado de Israel; ante esta insultante situación, a poboación civil novamente tomou a dianteira e petou nos fouciños da hipocresía cunha ación de inmensa honestidade política, que non é outra que ante o poderío militar dun Estado xenocida poñerse en pé e con métodos non violentos facer prevalecer o valor da solidariedade, un xesto dunha altura humana impresionante.

Mais, tras ter tido a experiencia do asasinato de poboación civil, de compañeiros e compañeiras que ían no flotilla da liberdade do ano 2010, novamente e coa forza exponencial dunha onda, milleiros de cidadáns e cidadás de todo o planeta volven ao mar a combater pacificamente un bloqueo que ten á poboación palestiniana nunhas condicións infrahumanas.

A flotilla da liberdade do 2011 é a expresión máxima do internacionalismo de esquerdas, da solidariedade da poboación civil e do poder que esta é capaz de construír; non sabemos ben o resultado desta nova flotilla que a día de hoxe está polas augas mediterráneas, mais o que é seguro é que unha e outra vez chocará coa forza da razón contra os muros insensíbeis dun imperio desgarradoramente inhumano e rematarán hoxe ou mañá derrubándoo.

É motivo de entusiasmo saber que nesta ación hai un amigo, compañeiro, irmán Tone, militante de base do movemento social galego, activista incansábel de utopías que con admirábel compromiso sempre está escorando o navío da sociedade galega cara unha esquerda entrañábel, anticapitalista, socialista, ecoloxista, feminista…, acredor dun mundo máis humano no que caiban todos os mundos, mundos dos que se preocupa saber e coñecer en primeira persoa e que logo transmite desa forma tan amigábel.

Por estes motivos e moitos máis, a II Flotilla da Liberdade Rumbo a Gaza esta semana ten que estar na axenda de todas as persoas de ben, porque nela os valores que se xogan son moito máis que un simples bloqueo marítimo a unha rexión do mundo, sexa o resultado que sexa, pois as verdadeiras convicións van moito máis alá das vitorias ou derrotas ocasionais.

Nesta flotilla están os verdadeiros facedores da historia, non alí fisicamente, que tamén, senón no sentir maioritario da humanidade por un mundo que non é propiedade nin dos governos dos estados nin dos monopolios económicos, nesta flotilla vai embarcada a marcha da historia dos milleiros, millóns de humildes seres humanos que dixeron basta e comezaron a vogar sobre o Mediterráneo e o seu ronsel de xigantes non terá fin, e máis cedo que tarde conseguirán unha Palestina máis libre e unha bandeira de esperanza para a humanidade.

24/06/2011

Rumo a Gaza

 Antom Fente Parada




Altermundo vem de despregar um seguimento à "II Flotilla da Liberdade", para a que a eurodeputada do BNG, Ana Miranda, solicitou protecção como missão pacífica de ajuda humanitária que ela é (10.000 toneladas). A acção é especialmente pertinente quando já sabemos que Israel voltará exercitar o terrorismo de estado e não podemos descartar que voltem produzir-se mortos, como as 9 de 2010. Perigam as vidas dos 1.000 activistas que desafiam o Imperialismo e a barbárie do fascismo sionista. Periga a vida dos cinco galegos que se somaram a este projecto: o nosso irmão da Rolda de Rebeldia Antón Gómez-Reino, "Tone" (membro de "Fuga en rede" e do conselho editorial de Altermundo); Fernando Blanco Arce; Alejandro Andares; Xesús Ramón Boán; e Elvira Souto.

As forças navais do Estado de Israel realizaram estes dias exercícios militares para frustrar o acesso à Faixa de Gaza, que vive uma situação humanitária dramática pelo brutal e terrorista bloqueio dum Estado que pela força mantém uma ocupação permanente e um colonialismo clássico próprio da primeira metade do século XX. Aliás as prisões semelha que já estão prontas para receber a centos de prisioneiros, cujo delito é levar a um território ocupado e numa penosa situação  produtos básicos, cimento e outros bens de consumo básicos.

Como indicava Noam Chomsky: “As últimas sondagens mostram que a opinião dos árabes é que a maior ameaça na região é Israel, com 80% dos entrevistados, e em segundo lugar vêm os EUA com 77%. O Irão aparece como uma ameaça para 10%”, explica. “Isto pode não aparecer na imprensa, mais de certeza algo que os governos israelita e estadunidense, e os seus embaixadores, sabem. O que isto revela é o profundo ódio à democracia por parte dos nossos dirigentes políticos”.

A única maneira de contribuir para salvaguardar a integridade física dos activistas é dar-lhe a máxima difusão possível a este exercício de dignidade da sociedade civil galega, muito mais sabendo que a imprensa do Estado espanhol está silenciando completamente ainda que seja por falar das relevantes e muito importantes cacharelas do São João e que o governo da Junta da Galiza não moverá uma palha por cinco dos seus cidadãos. Até aí chega o poder desse Estado fascista. Talvez a TVPPGa informe e Alfonso Rueda fale com rosto de Árias Navarro quando seja demasiado tarde em mais um ritual dos campeões do terrorismo da austeridade.


Com a flotilha

Carlos Taibo en Altermundo


A ministra espanhola de Negócios Estrangeiros, a senhora Jiménez, tem-se permitido assinalar que a flotilha de nâo é a maneira ajeitada de resolver os muitos problemas que se revelam nos territórios que ocupa de forma ilegal desde há mais de quarenta anos. A ministra tem agregado que a diplomacia oferece à respeito possibilidades sensivelmente superiores.
Suponho que Jiménez pode mencionar algum dos efeitos positivos derivados da açâo das chancelarias ocidentais. A mim, porém, nâo me vem à cabeça nenhum. E a razâo parece fácil de enunciar: essa diplomacia da que Jiménez fala nâo fez outra cousa nos últimos decénios que permitir todo tipo de abusos por parte do Estado de Israel. Será suficiente com propor um exemplo: a Uniâo Europeia mantém desde muito tempo atrás, en proveito do Estado mencionado, um trato comercial de privilégio que recompensa -cumpre concluir- o respeito dos direitos humanos que carateriza de sempre, como é sabido, a Tel Aviv.
Nâo lembro que em momento nenhum a Uniâo asumisse a perspetiva de fazer o que, por lógica, devia ter feito há muito: ameaçar com a cancelaçâo desse trato de privilégio se Israel nâo mudava umas ou outras políticas. Estes sáo -parece- os efeitos saudáveis duma diplomacia que responde lamentavelmente a prosaicos interesses comerciais e esquece de forma sistemática as violaçôes dos direitos humanos.
Bem é certo que as cousas nâo terminam aí. Mal fariamos em esquecer que a nulidade da diplomacia occidental é consequência direta dum facto principal: Israel é o aliado mais importante que as potências ocidentais têm no Próximo Oriente. É, se o queremos dizer assim, o seu polícia local. As cousas nestes termos, o único que podemos afirmar com certeza é que da repressâo da flotilha de Gaza serâo responsáveis, também, os nossos governantes.
 

22/06/2011

Israel reprime e prepara ataque à flotilha

Caue Seigne Ameni. Artigo tirado de aqui.



Cada vez mais isolado, governo de Telaviv amplia ataques a palestinos e endurece contra 1500 pacifistas de todo o mundo, que chegarão a Gaza no final do mês.

Forças militares de Israel irromperam hoje em várias localidades da Cisjordânia ocupada e prenderam residentes palestinos, coincidindo com a aprovação de uma polêmica lei sobre prisioneiros e ameaças contra uma flotilha humanitária. Efetivos do Exército de ocupação e da polícia entraram usando a força em Issawiya, um povoado de Jerusalém Leste, e revistaram moradias palestinas, danificando pertences de seus moradores.

Ativistas palestinos denunciaram que os militares também atacaram duas casas na aldeia Husan, situada ao oeste da cidade cisjordana de Belém, e destruíram o mobiliário.

Outros abusos da polícia israelense foram constatados em distritos da aldeia Al-Shawawra, ao leste de Belém, mas se ignoram os detalhes.

O jornal The Jerusalem Post, por sua vez, informou que militares israelenses prenderam nesta quinta-feira em sua casa de Kfar Surif, ao norte de Hebrón, Samir Qadi, deputado palestino filiado ao Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) na Faixa de Gaza.


Qadi esteve encarcerado em Israel de 2006 a 2009 ao ser preso durante uma onda repressiva e de detenções praticada depois da captura do soldado Gilad Shalit por um comando islamista na fronteira de Gaza.

A detenção de Qadi ocorreu após a aprovação, ontem à noite no parlamento israelense (Knesset), de uma lei que permitirá que os chamados prisioneiros de segurança (termo usado para cidadãos árabes considerados perigosos) sejam devolvidos a prisão sem julgamento prévio.

Dita normativa proposta pelo político Danny Danon, pertencente ao direitista partido Likud (no poder), busca impedir que os presos palestinos retomem algum tipo de atividade política quando forem libertos como parte de uma troca de prisioneiros.

O exército de Israel, por outro lado, recebeu “instruções claras” de impedir qualquer violação de seu bloqueio marítimo a Gaza e elevou a preparação militar e o alerta depois do anúncio de que uma flotilha com ajuda humanitária chegará ao território no final deste mês.

A respeito, as forças navais realizaram ontem exercícios militares para frustrar o acesso à costa da Faixa pela chamada Flotilha da Liberdade 2, em tributo a uma interceptada com brutalidade por Israel em maio de 2010, quando morreram nove pessoas.

O gesto solidário com os palestinos será protagonizado por mais de 1.500 pacifistas de diferentes nacionalidades dispostos a furar o cerco naval e terrestre imposto a Gaza desde junho de 2006 e intensificado um ano depois.