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18/02/2013

A história secreta da renúncia de Bento XVI

Tirado de Esquerda.net (aqui).
Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua fação. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível do seu processo de decomposição moral. O artigo é de Eduardo Febbro, publicado na Carta Maior.
Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar da sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” do seu predecessor, João Paulo II, descobriu num comunicado elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre fações, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter as suas prerrogativas e privilégios à frente das instituições religiosas.
Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino do seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.
O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem na sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pela divulgação da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Procurou mudar a sua imagem com métodos modernos. Para isso, contratou o jornalista norte americano Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “A minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.
A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes continuam a ser misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar no seu lugar um italiano na tentativa de travar a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.
Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública a sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canónicas adotadas contra os partidários fascistas e ultra reacionários do Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógrada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultra direita do mundo.
Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que os seus retratistas empenham-se em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “deixou-se engolir pela opacidade que se instalou sob o seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas manipuladas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.
Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e económica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norte americano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.
João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia-lhe muito. Nos anos 70, Marcinkus passou dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polaco Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou os seus dias a jogar golfe em Phoenix, no meio de um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. O seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçónica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.
Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos à frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” na sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava a ser investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre fações no Vaticano. Quando assumiu o seu posto, Tedeschi começou a elaborar um relatório secreto onde registou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha o seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.
Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. A sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava à divulgação de documentos roubados do papa.
Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua fação. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se auto alimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.

Paris. Tradução: Katarina Peixoto

04/07/2012

O PRI está de volta ao poder no México

Eduardo Febbro - Cidade do México. Tirado de Carta Maior (aqui). Tradução: Marco Aurélio Weissheimer


Entre a oferta do mesmo, o PAN, e a da mudança, o PRD, os eleitores optaram por um partido que, apesar das acusações de corrupção e autoritarismo que empanaram seus anos no poder, garantiu a ordem e o funcionamento do Estado. O México castigou a direita mexicana encarnada pelo PAN, ao mesmo tempo em que deixou à esquerda um espaço de ação e controle inédito. Felipe Calderón deixa um país de joelhos e cheio de mortos. Peña Nieto terá que governar um país fraturado pela violência provocada pela luta contra o narcotráfico e pelos índices de pobreza e desigualdade. O artigo é de Eduardo Febbro, direto da Cidade do México.

Cidade do México - O anúncio de um salão de beleza situada na esquina de Moliére e Homero, no rico bairro de Polanco, pode servir de consigna para definir o partido político mexicano que governou o país durante mais de 70 anos, ficou fora do poder durante 12 anos e recuperou-o neste domingo, 1º de julho, nas eleições presidenciais: “Clássico salão de beleza reatualizado”. O partido de sempre, o PRI, Partido Revolucionário Institucional, com um candidato reatualizado, Enrique Peña Nieto, obteve nas urnas um triunfo contundente frente à esquerda do Partido da Revolução Democrática (PRD), e seu candidato Andrés Manuel López Obrador.

O PRI obteve 37,9% dos votos, contra 31,7% dados a Obrador e 25,4% para Josefina Vázquez Mota, a candidata da Ação Nacional (PAN), o partido do presidente que sai, Felipe Calderón. O retorno do PRI ocorreu com força. O velho partido aumentou seu poder nos Estados do país: ganhou em Jalisco – onde o PAN governava há 18 anos – e em Chiapas. No entanto, o partido de Peña Nieto não conseguiu os resultados esperados, ou seja, não foi capaz de repetir o resultado dos melhores anos do PRI quando o movimento obtinha maiorias avassaladoras. A força da esquerda de Andrés Manuel López Obrador freou a amplitude da ressurreição do PRI.

A vantagem do PRI nas eleições presidenciais e no Congresso é menor do que a direção do partido esperava. O PRD de López Obrador derrotou o PRI no Distrito Federal, venceu no Estado de Morelos e tirou das mãos do PRI o Estado de Tabasco. Além disso, o PRD se instalou no Congresso de maneira sólida como segunda força política na Câmara de Deputados. “Somos uma nova geração. Não há volta para o passado”, disse Piña Nieto em sua primeira declaração pública. Seu rival em troca, se manteve prudente. O passado segue pesando no cenário eleitoral mexicano. Andrés Manuel López Obrador perdeu as eleições presidenciais de 2006 por apenas 0,56%, no que apareceu como uma das fraudes mais notórias da história política contemporânea. AMLO – como Obrador é conhecido no México – prometeu que não agiria de maneira “irresponsável” ao mesmo tempo em que não poupou críticas a um processo que denuncia por sua “falta de igualdade” devido ao dinheiro que o PRI gastou na campanha eleitoral e ao respaldo massivo que Peña Nieto recebeu por parte dos meios de comunicação.

O presidente eleito prometeu que exercerá uma “presidência democrática, moderna, aberta à crítica e disposta a escutar”. O retorno do PRI ao poder se deve muito ao fracasso rotundo dos dois mandatos do PAN e ao perfil um tanto repetitivo da esquerda que não soube renovar-se diante de uma rival como o PRI que aproveitou os 12 anos que passou na oposição para se livrar dos vícios mais rejeitados pela sociedade.

Entre a oferta do mesmo, o PAN, e a da mudança, o PRD, os eleitores optaram por um partido que, apesar das acusações de corrupção e autoritarismo que empanaram seus anos no poder, garantiu a ordem e o funcionamento do Estado. O México castigou a direita mexicana encarnada pelo PAN, ao mesmo tempo em que deixou à esquerda um espaço de ação e controle inédito. Felipe Calderón, por sua vez, deixa um país de joelhos e cheio de mortos. Peña Nieto terá que governar um país fraturado tanto pela onda de violência provocada pela luta contra o narcotráfico (mais de 50 mil mortos sem seis anos), como pelos índices alucinantes de pobreza e desigualdade deixados pelo mandato de Calderón.

“Não sei o que seria do povo mais pobre se não tivesse tido o apoio solidário da política social com rosto humano”, afirmou Calderón dias atrás. As estatístiscas contradizem suas declarações e a própria essência com a qual, seis anos atrás, iniciou sua presidência. Calderón iniciou seu mandato como o presidente que daria trabalho e termina seu governo com duas cifras negativas: a pobreza afeta 42% da população, o que equivale a 52 milhões de pessoas. Em contraposição, 41% da riqueza nacional está nas mãos de 10% da população. O segundo ponto negativo é a violência desencadeada com a estratégia que Calderón adotou para combater o narcotráfico. Os mais de 50 mil mortos dessa infrutífera luta também repercutiram na economia com uma perda calculada de 1,5% do PIB nacional.

O México oferece um quadro de cifras contraditórias. A revista Forbes estabeleceu que 11 das pessoas mais ricas do planeta são mexicanas. Este grupo acumula uma riqueza de 112,3 bilhões de dólares, o que equivale a cerca de 10% do Produto Interno Bruto. Ao mesmo tempo, a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômica, OCDE, constata que, com 52 milhões de pobres, o México apresenta o segundo maior índice de desigualdade entre as economias que compõem esse organismo multilateral (o primeiro é o Chile). Cerca de 12 milhões de novos pobres se integraram às estatísticas por causa da estagnação do crescimento.

Esse percentual se reflete também no mercado de trabalho: o setor informal emprega cerca de 30% da população ativa, cerca de 12 milhões de pessoas. Nunca antes na história do país, havia sido registrada uma taxa tão elevada na segunda economia da América Latina (só fica atrás do Brasil). O panorama que deixa Felipe Calderón é exatamente o contrário daquele que vem afirmando em suas sucessivas aparições públicas. O Conselho nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social (Coneval) calculou que há cerca de “11,7 milhões de mexicanos em condição de pobreza extrema”.

Em 2006, Calderón se autoproclamou “o presidente do emprego”. O mandatário prometeu gerar empregos com melhores salários e baixar os impostos. O resultado final é o inverso. A ele se agrega o custo da luta contra o narcotráfico. A leitura desse fenômeno é dupla: por um lado está o benefício direto do dinheiro gerado pelo narcotráfico, em especial a geração de investimentos em imóveis. Por outro, está o custo na promoção do turismo, onde os índices baixam, a imigração para o exterior e a migração interna. Dezenas de milhares de mexicanos abandonaram as cidades do norte do país, assoladas pela violência – principalmente Tamaulipas, Chihuahua, Sinaloa, Coahuila e Nuevo León.

No entanto, as avaliações sobre os problemas reais causados pelos narcos à economia diferem segundo os interlocutores. Eduardo Cepeda, do JP Morgan grupo Financeiro para a América Latina, estimou que a violência do crime organizado custou ao México entre 1% e 1,5% do PIB (quase 16 bilhões de dólares anuais). Já a Unidade de Promoção de Investimentos e Negócios Internacionais do Proméxico negou que a narco violência tenha sido um fator de perda de investimentos, de competitividade ou de diminuição do PIB. Esse argumento, porém, se choca com o que pode se ver nas ruas do México: a violência gera medo e o medo retenção. É impossível assegurar que tais níveis de horror não impactem a economia. O que não pode ser negado é a desigualdade e a pobreza.

A pujança das cifras animadoras não se prolonga nas políticas distributivas aplicadas até agora. Essa será, junto com a violência, um dos maiores desafios do próximo presidente. O Conselho Nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social tornou públicos informes que não deixam espaço ao debate sobre sim ou não: 28 milhões de pessoas têm sérios problemas de acesso a uma alimentação básica. Entre 2008 e 2010, mais cinco milhões de mexicanos passaram a integrar as estatísticas mais críticas da pobreza no país.




14/06/2012

Hollande consegue maioria no 1º turno das legislativas

Eduardo Febbro. Artigo tirado de Carta Maior (aqui).



A França confirmou outra vez nas urnas a mudança de rumo político decidida nas eleições presidenciais de maio passado. A esquerda francesa em seu conjunto saiu vitoriosa no primeiro teste eleitoral após a eleição do socialista François Hollande para a presidência da República.

Ainda que não tenha ocorrido uma “onda rosa”, o primeiro turno das eleições legislativas confirmou nas urnas a continuidade do resultado da eleição presidencial: os partidos de esquerda obtiveram 46,3% dos votos contra 33,9% para a direita da UMP e seus aliados e 14% para a extrema-direita da Frente Nacional (FN). A FN confirma assim sua implantação nacional e se torna a terceira força política do país. Com este resultado, a extrema direita poderia ingressar no Parlamento, de onde está ausente desde 1988.

O Partido Socialista e seus três satélites Partido Radical de Esquerda, Movimento Republicano e Cidadão e esquerdas diversas conseguiram 35% dos votos. A estes votos é preciso somar o aporte dos ecologistas, 5,7% e os 7% da Frente de Esquerda liderada por Jean-Luc Mélenchon. Com esse percentual, a esquerda parlamentar poderia ficar com um leque que oscila entre 305 e 353 cadeiras, muito acima da maioria absoluta (289 num total de 577). Resta saber se o PS alcançará sozinho essa maioria ou se precisará do apoio dos verdes e da Frente de Esquerda. De maneira global, a esquerda totaliza cerca de 9 pontos a mais do que obteve nas eleições legislativas de 2007.

Segundo projeções da Ipsos para o jornal Le Monde, o PS deve obter entre 270 e 300 deputados, a Frente de Esquerda entre 14 e 20, o mesmo para o Partido Radical de Esquerda, enquanto que Europa Ecologia-Os Verdes oscilam em um leque que vai de 8 a 14 deputados. Sem fervor, mas com solidez, François Hollande tem ao seu alcance a maioria necessária para governar.

A direita parlamentar paga o tributo de sua derrota nas eleições presidenciais. Em relação ao resultado obtido em 2007, a ex-governista UMP, de Nicolas Sarkozy obteve 5 pontos a menos (39,57%). No entanto, as projeções para o segundo turno do próximo dia 17 de junho não são alentadoras para a UMP. Transtornada pela derrota nas eleições presidenciais, sem um capitão claro no timão depois da saída de cena de Sarkozy, a UMP, que em 2007 conseguiu 320 deputados, poderá conhecer uma derrota ainda mais severa dentro de uma semana.

No outro extremo, a líder e candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, registrou a progressão mais espetacular nesta consulta. Em linha direta com os altíssimos percentuais obtidos no primeiro turno das eleições presidenciais, Marine Le Pen atropelou em seu feudo de Henin-Beaumont seu rival Jean-Luc Mélenchon com mais de 42% dos votos, ao mesmo tempo que sua força política quase quadruplicou os resultados obtidos pelo pai de Marine, Jean Marie Le Pen, em 2007. Naquele ano, a FN obteve 4,29% dos votos contra os 14% atuais. Se na próxima semana se confirmarem os resultados deste domingo, a Frente nacional poderia ingressar na Assembleia com um ou dois deputados. Além de seu retorno à Assembleia, a extrema-direita prossegue com sua tarefa de destruição da direita tradicional. As porcentagens abrem a porta para o jogo perverso das confrontações triangulares esquerda-direita-extrema-direita. A Frente Nacional pode manter seus candidatos em cerca de 60 circunscrições.

As eleições trazem várias lições: o respaldo ao projeto social-democrata, a emergência de uma Frente de Esquerda que não existia, a permanência dos ecologistas, a força da extrema-direita, o recuo dos conservadores e a desaparição do centro de François Bayrou. O líder do Modem (Movimento Democrático) corre o risco de não ser reeleito em sua circunscrição, enquanto que seu partido apenas roçou 1,5% dos votos. Os eleitores não perdoaram o apoio de François Bayrou a François Hollande entre os dois turnos presidenciais.

O Partido Socialista, por sua vez, conseguiu romper o ciclo das derrotas sucessivas. Havia perdido as eleições legislativas de 2002 e 2007. Em 2002, a direita ganhou 394 deputados contra 141 para o PS. Em 2007, a recém criada UMP, de Nicolas Sarkozy, ganhou 320 deputados e os socialistas 204. A equação sofreu uma reviravolta e, com ela, a opção política. A direita oferecia austeridade, destruição do Estado de Bem-Estar, ultraliberalismo e cortes. A França respaldou nas urnas o caminho social-democrata e se converte assim em uma ilha dentro de um continente dominado pelo lobo das políticas ultraliberais.


15/05/2012

"Catástrofe liberal": crise arrasta Europa para a incerteza

Eduardo Febbro. Artigo tirado de Carta Maior (aqui).



A história cruza suas espadas e faz papel picado da construção europeia tal como ela foi plasmada no modelo ultraliberal. No momento em que o socialista François Hollande se prepara para assumir a presidência da República da França, a Europa está espremida em uma grave crise enquanto os mercados seguem movendo os fios para não perder um centavo de seus já abismais lucros: a Grécia continua sem formar um governo que aceite submeter o povo à sangria da austeridade imposta pelos mesmos que foram cúmplices da derrocada. As bolsas europeias - Paris, Londres, Milão, Frankfurt, Atenas – voltaram a fechar com índices negativos, enquanto a Espanha, arrastada pelo redemoinho da especulação e dos cortes, acusa a Grécia de ser a responsável pela situação.

“A instabilidade política grega é o principal elemento de incerteza e é aí que devemos agir. Temos que tomar decisões”, disse em Bruxelas o ministro espanhol da Economia, Luis de Guindos. A União Europeia se divide em torno do irmão menor. Responsáveis da Comissão Europeia, ministros, analistas e meios de comunicação já contempla, sem se escandalizar, o futuro da Europa com a Grécia fora do euro. Os responsáveis europeus colocaram Atenas ante uma disjuntiva com final similar: morrer dentro do euro, ou morrer fora dele. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, disse que “se os acordos não são respeitados por um país, isso significa que não há condições para continuar com esse país”.

Na verdade, são os mercados que antecipam a hecatombe. Assustados pela eventualidade de um atraso ou de uma suspensão das ajudas financeiras prometidas a Atenas para que faça frente a seus vencimentos, os investidores se refugiam ali onde seus capitais estão a salvo, neste caso nos títulos alemães. A taxa de risco espanhola alcançou um máximo histórico ao mesmo tempo em que os títulos alemães, os Band, percorreram o caminho contrário: chegaram a seu piso mais baixo da história graças à corrida dos investidores para esse produto seguro. A crise grega se juntou com os desarranjos da banca espanhola oriundos de anos anteriores. O incêndio está chegando aos cofres dos bancos e se expande com as faíscas do passado.

A reforma bancária proposta pelo governo conservador de Mariano Rajoy obriga os bancos a aportar provisões de 30 bilhões de euros para sustentar as contas castigadas por empréstimos imobiliários de alto risco. Cinco dos principais bancos do país – Bankia, CaixaBank, Popular, Santander e BBVA – necessitam de 16 bilhões de euros para sanear-se. Os bancos espanhóis arrastam uma sombra de 238 bilhões de dólares de ativos imobiliários cujo valor é aleatório.

Como se isso não bastasse, o socialista François Hollande assume nesta terça-feira a presidência em pleno confronto com a Alemanha a propósito do manto de austeridade com o qual Berlim cobriu a Europa. O presidente francês se empenhou em renegociar o pacto fiscal adotado em março passado por 25 dos 27 países da União Europeia com a meta de superar a crise. Mas esse pacto implica severas políticas de austeridade e Hollande disse que a austeridade sem crescimento não faz sentido. O chefe de Estado francês quer renegociar o tratando incluindo medidas a favor do crescimento, algo que a Alemanha rejeita. No entanto, os analistas consideram que a força da crise grega obrigará Paris e Berlim a um consenso no momento em que a ideia da saída da Grécia do euro deixou de ser uma metáfora.

O tabu sobre a unidade em torno do euro foi reduzido a pedaços. A União Europeia considera cada vez mais a possibilidade de que a Grécia abandone a moeda única. O semanário britânico The Observer chegou até a publicar uma nota sobre “como a Grécia poderia deixar o Euro em cinco etapas difíceis”. Em Atenas, o chefe do partido de extrema-esquerda Syriza, negou-se a formar um governo com mandato para aplicar um programa que ele mesmo qualificou de “criminoso”. Sem governo na Grécia, a única alternativa seria realizar novas eleições daqui a um mês. Marcus Huber, membro da empresa de consultoria financeira ETX Capital, disse à imprensa que “essas eleições não só conduziriam a um novo rechaço das medidas de austeridade, como representariam um verdadeiro referendo sobre a permanência ou não do país na zona do euro”.

Antes impensável, essa eventualidade torna-se tangível e as capitais europeias já começaram a fazer contas. Na França, o governador do Banco da França, Christian Noyer, declarou que nenhum grupo financeiro, banco ou companhia de seguro atravessaria sérias dificuldades em caso de “um cenário extremo na Grécia”. O passivo da Grécia com os bancos franceses chega a 13 bilhões de euros.

Atenas deve cumprir com o plano de ajuste ou partir. O cenário de um erro sem a Grécia é menos otimista que as declarações oficiais. Se isso ocorrer, muitas empresas entrariam em situação de moratória. Segundo a agência de avaliação financeira Fitch, as repercussões da Grécia fora do Euro se fariam sentir nas notas de países como Itália e Espanha. De fato, a crise polifônica que atinge a Europa é consequência do dogma liberal: desmontar os Estados, impor a bota da austeridade e do rigor. Em termos de funcionamento, o dogma também criou desarranjos difíceis de corrigir: o Banco Central Europeu (BCE) não empresta dinheiro aos Estados, só aos bancos privados. Só o BCE tem o poder de desvalorizar o euro e unicamente o BCE e os bancos privados podem emitir moeda, não os Estados.

Por esta razão, a Grécia não pode nem desvalorizar nem criar moeda, nem obter dinheiro do Banco Central a uma taxa razoável. A universitária Sophia Mappa, pesquisadora no Laboratório de Investigações sobre a Governabilidade (Largotec) assinala que “a crise grega é o espelho dos limites do modelo liberal, não só econômico, mas também social”. O cientista político, economista e ex-deputado ecologista Alain Lipietz resume o momento pelo qual atravessa a Europa com duas palavras: “a catástrofe liberal”.

Nada retrata melhor sua análise do que as cifras do banco BBVA. No informe anual apresentado em abril passado pelo BBVA, ante a Comissão do Mercado de Valores dos Estados Unidos, o banco registrou: “A crise da dívida soberana na Europa se intensificou em agosto de 2011 e se contagiou com pressões de financiamento no setor financeiro. As tensões financeiras na Europa seguem em níveis superiores àquelas verificadas após a queda do Lehman Brothers em 2008”. Quatro anos depois da grande quebra do Lehman, a crise não fez outra coisa do que desenhar um redemoinho que arrasta povos inteiros ao desemprego, à pobreza e à incerteza.

19/04/2012

O colonialismo liberal europeu mostra a sua face

Eduardo Febbro. Artigo tirado de Carta Maior (aqui).



Os impérios do Ocidente estão nervosos. A decisão da presidenta argentina de renacionalizar os recursos petrolíferos do país reativou nos europeus o ímpeto da ameaça e da desqualificação, assim como a política dos valores em escala variável. O santo mercado tem prerrogativas acima de qualquer oposição. Além da agressiva campanha que se desatou na Espanha em defesa de uma companhia que, na realidade, sequer é espanhola, a União Europeia somou seus votos em respaldo à multinacional. A inesgotável e esgotadora responsável pela diplomacia da UE, Catherine Ashton, advertiu que a decisão argentina “era um muito mau sinal” para os investidores estrangeiros. Por sua vez, o presidente da Comissão Europeia José Miguel Barroso, disse que estava muito “decepcionado” pela medida de Buenos Aires.

O vice-presidente da Comissão Europeia, o italiano Antonio Tajani, sacou um leque de ameaças: "Nossos serviços jurídicos estudam, de acordo com a Espanha, as medidas a adotar. Não se exclui nenhuma opção", disse. Cúmulo do absurdo, o Parlamento Europeu de Estrasburgo, que reúne os representantes do povo, se presta a votar uma resolução contra a Argentina.

Um traço mais da confusão que leva a uma instituição política, surgida do voto popular, a clamar pelos interesses de uma multinacional. O Parlamento Europeu nada fez para denunciar as empresas do Velho Continente que, em nome da segurança jurídica, investiam e investem seus capitais em países amordaçados por regimes assassinos que, ao mesmo tempo que ofereciam segurança jurídica aos investidores, jogavam seus povos no poço da repressão, da corrupção, do assassinato das liberdades e da pobreza. A defesa dos interesses nacionais contra os do mercado é algo que ficou na garganta da muito liberal União Europeia.

A UE revisitou seus “valores” recentemente, no ano passado: em troca da ajuda aos países árabes, a UE pede eleições democráticas, luta contra a corrupção, abertura comercial e proteção dos investimentos. Antes, não lhe importava que um punhado de ditadores e autocratas esmagassem seus povos enquanto a abertura comercial e a proteção dos investimentos estivessem garantidas. A fonte da democracia fechava os olhos enquanto suas empresas pudessem operar a seu bel-prazer.

A mesma dupla linguagem, duplo valor, envolve a escandalosa política das subvenções agrícolas da UE. Instrumento de destruição dos mercados, perverso mecanismo de falsificação dos preços internacionais, as subvenções se aplicam em apoio a uma corporação, a dos agricultores. Pouco importa que o planeta pague pela proteção de um setor. O porta-voz do Comissário Europeu para o comércio, John Clancy, disse ao canal EuroNews que a decisão da presidenta “destrói a estabilidade que os investidores procuram”.

Tocar numa empresa europeia é sinônimo de uma declaração de guerra ou de pisotear a identidade. Hoje reúnem o Parlamento Europeu, em outras épocas talvez tivessem enviado a marinha para bloquear o porto de Buenos Aires como ocorreu em 1834, quando Juan Manuel de Rosas se negou a que os súditos franceses ficassem isentos de suas obrigações militares e decidiu impor um gravame de 25% às mercadorias que chegavam do exterior com destino a Buenos Aires.

A imprensa europeia e os analistas propagam um cúmulo alucinante de omissões e mentiras. Frases como “nacionalismo petroleiro” ou “tentação intervencionista” do Estado argentino, se tornaram uma consigna repetida em todas as colunas. Como se qualificaria então a defesa de uma empresa por parte das instituições políticas da União? Euro-nacionalismo de mercado, escudo político para os interesses privados, etnocentrismo liberal?

E, assim mesmo, o discurso do nacional contra o global, do local contra o multilateral não é uma exclusividade peronista. O próprio presidente francês, Nicolas Sarkozy, o reativou com um vigoroso discurso durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais do dia 22 de abril e seis de maio (primeiro e segundo turno). O presidente candidato propôs renegociar o acordo de Schengen que regula e garante a livre circulação das pessoas e revisar os acordos comerciais que ligam os 27 países membros da União Europeia.

No primeiro caso e por razões claramente eleitorais, Sarkozy considera que os acordos de Schengen não permitem regular para baixo os fluxos migratórios. No segundo, que tem dois capítulos, se trata primeiro de instaurar na Europa um mecanismo similar ao Buy Act American com um “Buy European Act” a fim de que as empresas que produzem na Europa obtenham dinheiro público em caso de licitações. Em segundo lugar, Sarkozy exigiu à Comissão Europeia que imponha um critério de reciprocidade a seus sócios comerciais. Sarkozy disse em seu discurso: “A Europa não pode ser a única região do mundo que não se defende. (…). Não podemos ser vítimas dos países mais fortes do mundo”.

Isto pode ter vigência também para o resto do planeta. O patriotismo europeu bem vale o suposto “patriotismo petroleiro”. Ali onde se encontra em desvantagem, a UE impõe seus limites, ativa seu lobby ou bota suas instituições democráticas a atuar como polícia moralizadora. O livre comércio e o direito monárquico das empresas sobre os recursos naturais, a vida humana e as geografias não é o último estado da humanidade. Há vida depois de tudo, antes e depois da Repsol.

Todo o aparato jurídico da UE se colocou em marcha para sancionar isso que o jornal espanhol El País chama “o vírus expropriador” de Cristina Fernández de Kirchner. O “vírus” do mercado global começa a fazer seu trabalho. A UE está ofendida. Tocaram em seu filho pródigo, a liberdade de brincar com o destino dos povos em benefício de suas empresas. Uma guerra moderna onde o gigante vai sancionar um sócio que deixou de apostar em um tabuleiro onde só ganham os capitais que se volatilizam como os valores democráticos e de justiça que defenda a sacrossanta União. Seu hino à liberdade é geométrico. Enquanto a grana encha seus bancos, o sangue pode correr, como na Tunísia, Líbia, Egito e tantas outras ditaduras africanas que proporcionam o petróleo para acender as luzes de um século cujo destino está em mãos privadas e suas instituições às ordens das entidades financeiras e das empresas.

16/04/2012

Melenchon: "Tomei os meus modelos de América Latina"

Entrevista a Jean-Luc Melenchon, candidato da Front de Gauche para as eleccións francesas, para o xornal Página12 (aquí) realizada por Eduardo Febbro e traducida para o galego por Revolta Irmandiña.

O pouco máis de 15 por cento de intención de voto fixo de Mélenchon "o terceiro home" que desprazou á filla de Lle Pen. Afirma que extraeu dos Kirchner a forma de enfrontar o sistema de medios e da crise arxentina, a consigna "que se vaian todos" de 2001.

Son as 10 da mañá dun mércores primaveral. A sede de campaña do candidato da Fronte de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, está nun suburbio popular do norte de París e leva moi ben o seu alcume: "A Fábrica". Un grande galpón onde algunha vez houbo unha fábrica de zapatos, agora reacondicionado para estes días de batalla electoral. O sol está fóra e dentro deste amplo local onde non se respira a posta escena senón a vida mesma: humilde, saa, problemática, solidaria, traballadora, humana. O sol chega coas sondaxes de opinión que puxeron agora ao movemento que lidera Mélenchon no terceiro lugar das intencións de voto para as eleccións presidenciais do próximo 22 de abril e 6 de maio: o pouco máis de 15 por cento fixo de Mélenchon "o terceiro home" que desprazou do trono á extrema dereita da Fronte Nacional e colocouse detrás do presidente Nicolas Sarkozy e do candidato socialista François Hollande. A Fábrica vive unha xornada especial. Un tras outro, os obreiros expoñen os seus problemas, a confrontación co padroado, as consecuencias das deslocalizacións, o desperdicio dos recursos, a destrución ecolóxica, o custo inhumano das reorganizacións industriais, os erros monumentais de xestión, as ideas concretas para salvar unha fábrica e, con ela, centos de empregos. Os obreiros da CXT, micrófono en man, presentan a historia que os medios ocultan cun empeño perverso. Jean-Luc Mélenchon escóitaos, toma notas, pregunta, pide aclaracións.

Co correr das semanas, esa práctica de proximidade teceu unha historia incríbel para un movemento político apenas fundado e en cuxo seo cohabitan comunistas do PC, esquerda radical e antiliberal, socialistas disidentes e ecoloxistas duros. A maioría destes partidos estivo a piques de saír da historia. Agora están axuntados en torno dun proxecto que os federou e con iso fixo realidade uno dos soños máis inalcanzábeis das esquerdas mundiais: pactar un consenso orgánico por encima das querelas asasinas que os dispersaron. En 2009, a Fronte de Esquerda gañou cinco europarlamentarios nas eleccións europeas. O abanico ampliouse de maneira espectacular coas eleccións presidenciais. Tanto que, durante o meeting que a Fronte de Esquerda realizou na Praza da Bastilla hai dúas semanas, Jean-Luc Mélenchon non puido terminar o seu discurso porque o embargou a emoción. O militante das correntes minoritarias tiña enfronte a 120 mil persoas na praza máis emblemática da historia da Humanidade. O proxecto político da Fronte de Esquerda é moito máis que unha máquina antiliberal. A Fronte incorporou a ecoloxía política no seu programa e, con ese achegue, deseñouse un proxecto de sociedade novo, que contrasta coa pasividade da socialdemocracia e o feche no que caeron os partidos ecoloxistas tradicionais. Non basta ser antiliberal para expor un modelo de sociedade distinto. Nesta entrevista exclusiva con Páxina/12, Jean-Luc Mélenchon, o home milagre da esquerda radical, revela os seus modelos e o corazón dunha proposta que, dunha ou outra forma, cambiará as alianzas e a filosofía políticas futuras dos partidos de esquerda.

Cal é a fórmula para unir tantas correntes distintas e a miúdo antagónicas dentro dun mesmo movemento? Vostede uniu o que estaba disperso e, encima, o éxito acompaña esta estratexia.

R: Todo o noso é novo: o Partido de Esquerda é novo, cumprimos catro anos o próximo mes de novembro, a Fronte de esquerda tamén é nova. Nós acabamos de saír das catacumbas, somos unha corrente que estivo a piques de desaparecer da paisaxe política. En realidade tomei os meus modelos en América latina, inspireime no que pasou alí. Por exemplo, a Fronte de Esquerda é unha fórmula política que liga a partidos moi diferentes. Agora temos até ecoloxistas oriúndos da franxa máis radical. No mesmo Fronte temos partidarios do non crecemento, partidarios do crecemento e comunistas. Todos chegaron a atopar cal era a súa intersección común. Neste caso, o modelo que podo evocar é a Fronte Ampla de Uruguai. Para min foi unha fonte de inspiración, desde hai moitos anos. A revolución cidadá é un proxecto federador porque inclúe a idea do poder cidadán. Esa palabra permitiu facer converxer tradicións revolucionarias moi distintas. Pois ben, esa idea tomeina de Ecuador. A maneira de enfrontar o sistema dos medios de comunicación tomeina de Néstor e Cristina Kirchner. Aquí, en Francia, atribuíronme ese estilo ao meu mal humor, ás miñas dificultades, mais en realidade non é así: eles manipúlanme e eu manipúloos. Agora téñoos a puro pan seco, igual que fixeron o ex-presidente Néstor Kirchner e a presidenta Cristina Kirchner. En suma, inspírome moito na tradición revolucionaria de América latina. Nosa consigna é: que se vaian todos! Esa consigna saqueina da crise arxentina de 2001.

Cal é a clave, a consigna de base do consenso entre tantas esquerdas?

Diría que se hai unha palabra chave é a seguinte: a racionalidade concreta. O meu postulado inicial consiste en dicir que non hai ningún problema ao que non se lle poida achegar unha resposta técnica, concreta, radical. Trátase de saír dos debates preguntándose como se pode superar o marco da contradición. Eu diríalles aos camaradas que se quixesen nos imitaran: por veces hai que tomar o vello vocabulario, polo ao carón, volver comezar desde cero coma se acabásemos de nacer. A través das palabras podemos crear unha gramática nova, unha síntese nova e converxencias extraordinarias.

Estamos nunha época de crise global e profunda. O seu discurso de ruptura atopou un eco enorme no electorado. Que tipo de socialismo ou de formulación de esquerda pódese formular dentro de movementos de sensibilidades similares, mais enfrontadas para controlar a crise e cambiar o sistema?

Na época da crise arxentina, tiven unha discusión cuns camaradas que ocuparan un hotel en Buenos Aires. Tivemos unha discusión sobre o tipo de socialismo que era necesario plasmar a través das críticas que se podían facer do modelo venezolano ou cubano. O camarada que estaba aí díxonos: "Miren, vostedes, os europeos, son moi interesantes para as polémicas, mais están en crise. A última vez que houbo unha crise desencadearon unha Guerra Mundial e a Shoá para saír da crise. Que van facer agora?". Quedamos mudos. Aquel camarada puxera o dedo na chaga: a crise do capitalismo da nosa época conxuga crise económica e crise ecolóxica, e provoca deflagracións que son moito máis que esquemas teóricos: son deflagracións nas cales a mesma humanidade pode abolirse. É preciso que a nosa esquerda se cure da teima das querelas teolóxicas, das discusións aterradoras sen fin. É preciso ter unha práctica racional. En canto preséntase unha dificultade, trátase de desconstruíla, de desconstruir o seu contido e volvelo a construír cos útiles que funcionan. É imposíbel separar a práctica do traballo teórico. Teño unha intuición, unha sorte de certeza histórica e política: a clase traballadora está chea de ideas, de coñecemento, dunha mirada de experto. É unha fonte fabulosa! A dialéctica do intercambio permítenos progresar.

Como o sinalou fai un momento, dentro da Fronte de Esquerda están os ecoloxistas. Porén a súa presenza non é decorativa, é orgánica. A ecoloxía política é o núcleo do proxecto que vostede defende.

Ao principio non tomara en conta esa dimensión. Tiña unha sensibilidade ante o medio ambiente, fronte ao desperdicio e a contaminación, mais non ía máis lonxe. Na antiga esquerda eramos capaces de pensar todo, mais ficabamos con ángulos mortos. Un dos ángulos mortos era: como vivimos? Na historia do socialismo hai unha sorte de obsesión sobre o home novo. Con todo, é unha noción tan turbia que ao final se volve perigosa. Que é ese home novo ao que queremos reformatear, a partir de que? Enseguida vemos aparecer o risco totalitario. Ese era un ángulo morto. O outro estaba no feito de que o desenvolvemento mesmo do sistema pode pór en cuestión as mesmas bases da existencia do sistema porque esgota os recursos e saquea o medio ambiente. Foron os verdes quen puxeron ese tema sobre a mesa. Recoñezo a débeda intelectual que teño con eles. Alguén dixo que a ecoloxía política era a novo paradigma organizador da esquerda, e ten razón. Intereseime nese tema e para min foi un shock intelectual, similar ao shock que tiven cando, na miña mocidade, lin o libro de Marx e de Engels, A ideoloxía alemá. Para min foi unha revelación intelectual, unha clave de comprensión. O mesmo ocorreume coa ecoloxía política. Nesa procura volvín a Marx a través do recordo dunha frase na que el falaba da natureza e dicía que esta era o corpo inorgánico do home. Marx describe a relación do ser humano coa natureza nunha sorte de dialéctica na que o ser humano é un dos episodios da natureza e non simplemente unha criatura exterior que xorde e exponse a pregunta do control da natureza. Así terminei por formular unha síntese entre a antiga esquerda, da que eu era un representante, e a novo paradigma.

Esa síntese conduciu logo á profundización do principio da planificación ecolóxica como modelo de xestión.

Si. Así xurdiu a idea da planificación da ecoloxía. Con esa planificación pódense desenvolver as forzas produtivas e diminuír as pegadas ecolóxicas da humanidade.

O seu argumento implica que a esquerda deixou de lado a cuestión do medio ambiente, dos recursos naturais, que non integrou ese dato fundamental no seu proxecto de sociedade.

O problema da esquerda consistiu en adoptar o principio segundo o cal os estándares de vida dos ricos eran o bo camiño. Por conseguinte, iso é o que lle facía falta a todo o mundo. E é a iso ao que hai que renunciar. A riqueza é sinónimo de irresponsabilidade no que incumbe aos modos de consumo. Foi un erro da antiga esquerda pensar así. Tiñamos unha mirada acrítica sobre o consumo. Encima, cando xurdía unha mirada crítica, esta era absurda porque se baseaba en principios morais. A ecoloxía política permitiu solucionar moitos problemas teóricos. Por exemplo, toda a idea progresista repousa sobre a igualdade e a similitude dos seres humanos. Aínda que iso é unha mera idea. Se un olla ao redor, ve deseguida que os seres humanos non son en nada iguais. Porén nós fundamos de maneira natural a nosa idea sobre esa igualdade. A Revolución de 1789 di: os seres humanos nacen e permanecen libres e iguais en dereito. Esa é a razón pola cal en Francia naceron todas as matrices dos pensamentos totalitarios e racistas. Eles postularon que non era así, que, por natureza, había diferenzas, desigualdades, razas. Quen negan a desigualdade natural conduciron a todos os réximes igualitarios a ser totalitarios, porque tiveron que forzar algo que está xa na natureza. A ecoloxía política resolve ese obstáculo teórico, pecha a discusión. Por que? Porque di que só existe un ecosistema compatíbel coa vida humana. É dicir, todos os seres humanos son semellantes polo feito de que, se ese ecosistema desaparece, os seres humanos desaparecen todos ao mesmo tempo. Somos entón iguais fronte ás obrigacións do ecosistema. Isto quere dicir que se temos un só ecosistema que fai a vida posíbel, hai entón un interese humano xeral. Ese interese humano xeral é unha realidade. Desta maneira chegamos a refundar o conxunto das paradigmas organizadores do pensamento de esquerda, é dicir, o socialismo, o humanismo, as Luces, a República e a democracia.

Na liña deste pensamento, vostede puxo en primeiro plano á clase traballadora como actor ecolóxico e a idea da planificación ecolóxica.

Desde logo. Son os traballadores quen manipulan os produtos nocivos. Estes produtos arruínanlles o primeiro segmento da natureza que son eles mesmos: os pulmóns cando se respiran porcalladas, a fecundidade, etcétera. A clase que está en contacto coa catástrofe ecolóxica é a clase obreira. A planificación ecolóxica consiste en organizar a produción, que hoxe está pensada a curto prazo. As empresas están baixo o control dos investidores, das axencias de cualificación, quen reclaman contas cada tres meses. Non hai ningunha estratexia a longo prazo. Tornar compatíbeis os procesos de produción e de intercambios cos imperativos da ecoloxía require tempo. A planificación consiste en minorar o tempo, o cal é unha dimensión social e ecolóxica fundamental. A segunda idea subxacente concerne á política da oferta a partir dunha pregunta: que necesitamos? De alí xorde outra idea, a do imperativo común; algo común a todas as reflexións e a toda a produción e os intercambios. Iso é a regra verde, é dicir, diminuír a pegada ecolóxica da produción dunha forma seria, metódica e profunda.

Neste contexto, o seu proxecto da revolución cidadá distánciase dos principios da socialdemocracia xa que, por exemplo, inscríbese contra o credo do crecemento como fórmula de progreso.

No proxecto da revolución cidadá hai, en efecto, unha ruptura teórica de fondo coa socialdemocracia. Nós non dicimos que imos repartir o froito do crecemento. A socialdemocracia está orgánicamente ligada ao productivismo porque declara que o progreso social só existe dentro do productivismo. Non. Nós pensamos o contrario. Cremos que o progreso económico só é posíbel se hai progreso humano e progreso social. Para nós, o progreso humano e social é a condición do desenvolvemento económico. Estamos en dúas visións diametralmente opostas. Temos que recuperar a audacia dos pioneiros, daquela xente que dicía "este mundo é belo, é novo". Temos que coñecer, descubrir, protexer e impedir o saqueo dos recursos. A terra é dunha gran beleza. Todo non está perdido.


21/03/2012

Assassinatos racistas deixam França em estado de alerta

Eduardo Febbro. Artigo tirado de Carta Maior (aqui).



Um lobo solitário, adepto da eliminação racial, assassinou a tiros quatro pessoas, três crianças e um adulto, na porta de uma escola judaica, em Toulouse, no sul da França. O indivíduo repetiu a cenografia que havia empregado entre 11 e 15 de março quando assassinou três soldados franceses de origem magrebina e feriu gravemente um quarto, oriundo das Antilhas francesas. A polícia já apurou que o criminoso usou a mesma arma nos dois atentados. Segundo adiantou o semanário Le Point, as autoridades estão buscando três militares franceses ligados a grupos neonazistas que pertenciam ao mesmo regimento que os três militares assassinados a sangue frio nas localidades de Toulouse e Montauban.

O atentado desta segunda-feira foi um ato de barbárie completo: um pouco antes das oito da manhã, o indivíduo, a bordo de uma potente motocicleta branca, chegou às portas do colégio judaico Ozar Hatora, de Tolouse. Ele disparou contra as pessoas que estavam na porta e matou a queima-roupa um professor de religião de 30 anos, suas duas filhas de três e seis anos e uma outra menina de oito anos, filha do diretor do colégio. Esta última vítima morreu nos braços de seu pai. A matança continuou logo em seguida dentro do colégio. O indivíduo entrou no colégio para perseguir os alunos, disparando para todos os lados. Outras cinco pessoas ficaram feridas, entre elas um jovem de 17 anos que se encontra em estado crítico.

O caráter racista das ações não deixa lugar a dúvidas. O até agora desconhecido matou em dois dias pessoas de origem magrebina, judeus e feriu um negro. No atentado de segunda, atirou para matar, não importando se fossem crianças ou adultos. O ministro francês do Interior, Claude Guéan, declarou que o sentimento de impunidade do assassino preocupa o governo. A descrição feita por testemunhas e as imagens registradas pelas câmeras de vigilância dão conta de um homem frio, perfeitamente treinado no uso das armas e sem qualquer compaixão. Após matar o professor, sua primeira vítima, o homem perseguiu a menina de seis anos e matou-a a tiros. “Disparou contra tudo que tinha pela frente”, disse o promotor Michel Valet. Ele tinha duas armas, uma calibre 11,43 e outra de 9 milímetros. Usou primeiro a pistola de 9 milímetros e, em seguida, sacou a outra a arma, com a qual continuou a matança. A arma calibre 11.43 foi a mesma empregada nos assassinatos dos três militares.

Nestes crimes anteriores, o homem atuou com a mesma metodologia e frieza. O semanário conservador Le Point adiantou que as investigações apontam para a participação de três militares neonazistas pertencentes ao 17º regimento de engenheiros paraquedistas de Montauban. Em 2008, o seminário satírico Le Canard Enchaêné e outros jornais publicaram uma foto na qual se viam estes militares fazendo a saudação nazista diante de uma suástica. Dois dos três militares assassinados na semana passada pertenciam a este regimento. O perfil dos três soldados neonazistas coincide com o retrato que surge dos testemunhos dos crimes: grandes, musculosos, cheios de tatuagens e vestidos com roupas pretas. Esta não é, contudo, a única pista explorada pelos investigadores.

As semelhanças entre os três assassinatos são muito eloquentes: a moto, a arma, as descrições das testemunhas e o fato de que todas as vítimas têm origem étnica e confessional distinta. O presidente francês foi imediatamente ao local dos fatos, mesma atitude tomada pelo candidato socialista François Hollande. Nicolas Sarkozy decretou um minuto de silêncio para esta terça-feira. “Toda a República francesa foi afeta por este drama abominável”, disse Sarkozy. O massacre no colégio de Toulouse interrompeu a campanha eleitoral para as eleições presidenciais do próximo 22 de abril e 6 de maio (segundo turno). A campanha entrava nesta segunda-feira em sua fase oficial com a lista final dos 10 candidatos. Sarkozy e Hollande cancelaram seus atos de campanha, que recomeçará na quarta-feira, após a realização dos funerais dos três soldados assassinados em Toulouse e Montauban.

A França entrou em alerta máximo nesta segunda-feira. O assassino segue solto. À noite, milhares de pessoas realizaram uma caminhada em Paris da Praça da República até a Praça da Bastilha. Os sete assassinatos provocaram uma sensação de horror e uma união nacional. Os crimes ocorreram em um clima exacerbado pela campanha eleitoral. Os estrangeiros tem sido alvo de incontáveis ataques por parte de candidatos como a ultradireitista Marine Le Pen e autoridades do Estado. O rosário de agressões e referências ofensivas alcançou níveis muito baixos na campanha. O gesto de um louco reclama prudência e a evitar interpretações rápidas e abusivas. A democracia racial é uma marca desses tempos, seja qual for o continente. Os fundamentalistas de todas as confissões sempre o mesmo no final: a desintegração.

17/01/2012

O rebaixamento da França e do governo Sarkozy

Eduardo Febbro. Tirado de Carta Maior (aqui).

Ser um bom aluno do sistema não garante a condescendência dos inspetores das receitas liberais. O presidente francês acaba de experimentar a amarga experiência com a decisão da agência de classificação de risco Standard & Poor’s de retirar da França a prestigiada nota de triplo A. Faltando cem dias para o primeiro turno das eleições presidenciais, onde Sarkozy espera ser reeleito, apesar de uma onda de pesquisas pouco animadoras, o chefe de Estado recebe uma severa sanção.

O Executivo havia se preparado para isso desde outubro-novembro do ano passado quando insistentes rumores e especulações adiantavam a posição da agência de classificação. Apesar da tentativa de minimizar o fato, perder a nota financeira do triplo A representa um duro golpe para um dirigente cujo mandato aplicou à letra a receita liberal com os consequentes benefícios que isso traz para os setores privilegiados.

De um modo mais amplo, o terremoto se estende por toda a União Europeia, em particular pelos 17 países da zona euro, no momento em que se sanciona a política proposta pela chanceler alemã Angela Merkel e pelo próprio Nicolas Sarkozy para liderar o resgate da zona euro. O rebaixamento da França lança por terra toda a imagem e a política de “heróis unidos” que Sarkozy e Merkel construíram em torno deles com o objetivo de aparecerem como os timoneiros de uma Europa sem capitão e sem rumo.

Um dos capitães perdeu suas estrelas e, com isso, já são nove os países da zona euro que viram sua nota rebaixada pelo grande policial qualificador. Para Sarkozy, manter vigente o Triplo A era uma questão de princípio fundamental e, ante à opinião pública, uma prova de que o caminho que escolheu era o correto. A avaliação que os franceses fazem do mandato de Sarkozy não dizia isso, mas o argumento do Triplo A tinha um lugar destacado na estratégia de comunicação do palácio presidencial.

Quase cinco anos depois de ter sido eleito, o balanço dos franceses sobre seu mandato é muito adverso. Segundo a pesquisa realizada por OpinionWay-Fiducial para o semanário Le Nouvel Observateur, sete de cada dez franceses (70%) pensam que seu mandato foi negativo. 73% dizem que o presidente não foi fiel a suas promessas (só 19% acreditam que a crise impediu-o de fazer isso) e 49% pensa que sob seu mandato a democracia francesa debilitou-se.

A nota de aprovação mais alta, 66%, está relacionada à sua política de imigração. Nicolas Sarkozy protagonizou uma presidência tão agitada como contraditória. Podia falar como um social-democrata, mas atuou como um liberal. Neste sentido, a primeira coisa que fez foi adotar uma política fiscal que fez dele o presidente dos ricos. Logo após ser eleito, Sarkozy colocou em prática o “escudo fiscal”, com o qual limitou o volume dos impostos dos ricos. Em 2010, ao final de uma batalha social que durou muitos meses e mobilizou milhões de pessoas, Sarkozy modificou o sistema de aposentadorias, suprimindo a aposentadoria aos 60 anos, outra medida emblemática do socialismo francês, vigente desde o mandato do falecido presidente socialista François Miterrand (1981-1995).

Em seguida, seu governo travou uma batalha pragmática e ideológica contra as 35 horas de trabalhos semanais, um princípio adotado pelo último governo socialista (Lionel Jospin, 1997-2002) com a meta de lutar contra o desemprego. O credo ultra-liberal instaurado por Sarkozy dizia: trabalhar mais para ganhar mais. As pessoas trabalharam mais e ganharam menos. Paralelamente, ao final de seu mandato e com um desemprego que ultrapassa a casa dos quatro milhões (9.2% da população economicamente ativa), os liberais constatam seu fracasso na luta contra o desemprego e se veem obrigados a recuperar o princípio socialista instaurado entre 97 e 2002: trabalhar menos para que trabalhem todos.

A avaliação das ações de Nicolas Sarkozy só piora quando se leva em conta seu comportamento de homem veloz, que prejudicou sua imagem e suas reformas. Para o bem e para o mal, Sarkozy moveu muitas linhas em um país quase petrificado. O instituto Thomas More contabilizou 1.300 medidas, das quais 490 correspondem a suas promessas eleitorais.

Sarkozy foi eleito como o homem das reformas. No entanto, à beira das urnas, o balanço sobre seu governo é diferente: as reformas fundamentais prometidas por Sarkozy não foram realizadas. Cercado pela crise, limitado por suas próprias contradições e pelas disputas dentro deu sua própria maioria, Sarkozy mudou radicalmente o sentido de seu mandato: foi eleito para reformar, modernizar e fazer o país progredir. O balanço oficial de quatro anos no poder publicado em maio passado pela presidência francesa fala de “proteger os franceses”. A mudança é profunda.

Não há relato positivo da presidência de Sarkozy. A perda do Triplo A torna um pouco mais turva ainda a imagem de um dirigente que tem avaliação negativa mesmo entre seus próprios aliados ideológicos. O presidente francês contou até o último momento com a possibilidade de que a Standard & Poor’s mantivesse a França no pedestal. Em novembro passado, um conselheiro do presidente disse ao vespertino Le Monde: “se Nicolas Sarkozy perder a nota Triplo A está morto”. A sanção da agência de classificação norteamericana é tripla: cai sobre Sarkozy, sobre a Europa e sobre o futuro. O candidato socialista á presidência, François Hollande, disse que, com a nota da S&P “está se rebaixando uma política”. A avaliação vale para si mesmo caso seja eleito. O ultra-liberalismo de Nova York não perdoa nem faz concessões.

O ano eleitoral começou na França sob o signo do silêncio político e com o ruído de fundo da recessão e da crise. A segunda economia da zona euro celebra entre abril e maio as eleições presidenciais que poderão abrir aos socialistas as portas do palácio presidencial depois de três derrotas consecutivas. As pesquisas dão hoje ao candidato socialista François Hollande uma folgada vantagem frente ao presidente Nicolas Sarkozy. Mas essa vantagem não se traduz até aqui por propostas sólidas que marquem uma ruptura com a presidência de Sarkozy. Tanto Hollande como Sarkozy optaram pelo risco mínimo: dizer pouco, não prometer quase nada, passar voando sobre os temas centrais e manter a incógnita sobre temas essenciais. As agências de classificação dos Estados Unidos entraram na campanha. Até os que fazem o dever de casa acabam sendo castigados.

17/12/2011

O legado dos EUA no Iraque, oito anos depois da invasão

Eduardo Febbro. Tirado do Carta Maior, aqui.



Passaram-se oito anos. Como pedras impiedosas que semearam a morte. Como aquelas horrendas imagens que surgiam à beira das estradas no caminho em direção a Bagdá. Fumaça, destruição, cadáveres e silêncio. Parece ontem. O cruzamento de estradas assinalava duas direções : Basra ou Bagdá. Através da estrada até Bagdá, as sucessivas batalhas da ofensiva emergiam como cogumelos despedaçados : ônibus bombardeados, veículos calcinados, tanques arrebentados e crateras imensas cavadas pelos mísseis. Os tanques iraquianos dispostos em fila à beira da estrada pareciam latas de sardinha queimadas. Frente a eles, os tanques Abrams norteamericanos tinham o aspecto de mastodontes invencíveis. « Quando começamos a avançar por esse trajeto, os soldados iraquianos saíam dos tanques para nos pedir água e comida », contava com lástima um oficial norteamericano.

Os primeiros grandes subúrbios de casas baixas pareciam emergir de um pesadelo. As casas e as lojas tinham virado trincheiras e havia centenas de pessoas caminhando pelas ruas, levando colchões, cadeiras, roupas, televisões, máquinas de lavar roupa, velhas máquinas de costura. Bagdá, ao longe, estava envolta em uma espessa nuvem de fumaça escura. Os poços e as trincheiras de petróleo seguiam ardendo. Saddam Hussein havia mandado incendiá-los para impedir que os satélites norteamericanos obtivessem imagens precisas do estado de Bagdá. Depois, a cidade aparecia finalmente. Ferida e assustada.

Em cima do capô de um automóvel que havia avançado sobre a calçada, um livro de capa azul exibia suas páginas milagrosamente intactas. Dentro do veículo, o corpo de um homem com o corpo tombado para a frente tinha a cabeça partida e parte do cérebro esparramado em cima do porta-luvas. Ninguém prestava atenção. A cem metros do automóvel, um grupo de homens tentava, em vão, derrubar uma imensa estátua de Saddam Hussein erguida no centro de uma rótula. Do outro lado, três mortos jaziam à margem da rua. Um grupo de cachorros sarnentos disputava a propriedade do corpo de um dos mortos : um menino de seis anos estava ali também, sem um sapato e sem a metade do rosto.

Saddam Hussein havia desaparecido. O exército ocupante se instalava em tendas nos territórios de sua nova conquista, ocupava os palácios de quem tinha sido seu aliado, se apoderava das ruas da cidade transformada e restaurada pelo ditador com a ajuda dos arquitetos enviados pelo Ocidente nos anos em que Saddam era um sócio confiável e ninguém se importava que ele afogasse seu povo em uma lagoa de sangue. O choque de civilizações acabava de se plasmar em sua versão mais violenta : a de um país milenar e reprimido, a de uma potência ocidental que havia enviado do céu uma chuva de democracia comprimida em cachos de bombas.

Há lugares cujo nome e os símbolos que evoca sobrevivem aos estragos do tempo e das guerras. Bagdá tinha esse dom. Horrível e mágica. Histórica e contemporânea. Ameaçadora e hospitaleira. As Mil e uma Noites, uma grande livro onde, a cada virada de página, havia muitos mortos. O soldado Higins tinha visto inúmeras fotos de Bagdá antes da invasão, mas nunca havia imaginado a cidade real que encontrou quando sua unidade entrou na capital depois do que qualificava como « um combate épico » contra um inimigo « inferior, mas disposto a tudo ». Higins dizia que, até sua chegada a Bagdá, não havia conhecido a morte e tampouco imaginado como seria. Agora já tinha se acostumado ela, mas o primeiro morto seguia fazendo companhia a ele em sua memória. « A primeira vez que matei um homem foi à noite. Fiquei com uma sensação estranha, irreal. Não posso esquecer.

Minha unidade encontrava-se na periferia de Bagdá. Fazíamos parte de uma patrulha avançada que estava por penetrar na capital desde o sul. Tínhamos recebido a ordem de consolidar a zona e seguir adiante. Seguimos as instruções e no início da madrugada começaram a nos atacar. Choviam tiros de metralhadoras e bazucas. Como não se via nada usamos os fuzis com visão noturna. O primeiro homem que apareceu na mira avançava por uma rua lateral, ocultando-se entre as portas. Era um alvo fácil. Deixei que avançasse. Apontei e disparei. Ele cai no chão e voltou a se levantar, cambaleante. Disparei mais duas vezes. Não posso dizer que nesse momento senti que o tinha matado. Com as miras de visão noturna tudo é visto de um modo distinto, como se fosse um jogo informático. A realidade é mais lenta e as coisas têm a forma de silueta ».

« Sei que está por aí, Saddam é eterno. Um império não pode com ele. Saddam vive até no silêncio », dizia o empregado de um hotel que havia desaparecido em um incêndio. A única coisa que estava ali, pulsando no meio da fumaça, era o futuro. O futuro já estava escrito nas múltiplas sequências da queda de bagdá na indolência e ignorância dos ocupantes. Essa ignorância brutal era a matéria prima da ação de Paul Bremer, o ineficiente e teimoso responsável pela CPA, a Autoridade Provisória da coalizão encarrehada de administrar o Iraque com estatuto de autoridade governamental.

A guerra começou em 19 de março de 2003. Cerca de três semanas mais tarde, Bagdá caiu nas mãos da coalizão. No dia 1° de maio de 2003, o presidente George W. Bush deu por encerrada essa fase com a expressão triunfalista « missão cumprida ». No dia 6 de maio, Bush nomeou Paul Bremer. O « vice-rei » Bremer chegou a Bagdá e abriu a caixa de Pandora com um projeto político, econômico e administrativo delirante : converter o Iraque em uma representação dos Estados Unidos no Oriente Médio : liberal, democrática, permissiva, um centro de negócios ao melhor estilo dos falcões da Casa Branca.

Ele não tinha a menor ideia do chão em que estava pisando. Sua primeira decisão consistiu em decretar a « desbaasificação » da sociedade iraquiana. Bremer pretendia sanear o sistema político com uma ordem inaplicável : fazer desaparecer o partido Baas e seus representantes em uma sociedade onde, para conseguir trabalho ou ser membro da administração pública, era obrigatório aderir ao Baas. Paul Bremer decretou a demissão de milhares de empregados e executivos da administração pública, dos organismos encarregados do petróleo, dos bancos, das universidades. Onze dias depois de ter assumido suas funções, Bremer assinou outro decreto enlouquecido : dissolveu o exército, a aviação, a marinha, o Ministério da Defesa, os serviços de inteligência. Seu frenesi ignorante chegou ao ponto de, em um país que saía de um prolongado embargo internacional, que estava em guerra, onde os hospitais estavam destruídos e faltava até algodão, lançar uma campanha contra o tabagismo e elaborar um projeto para distribuir rações alimentares com cartões de crédito.

Passaram-se oito anos e os Estados Unidos fecharam a porta do Iraque deixando um desastre atrás dela. Durante o conflito, morreram mais de 100 mil civis, 4.800 soldados da coalizão perderam a vida (4 .500 dos EUA), junto com 20 mil soldados iraquianos. « Depois de todo o sangue derramado, o objetivo de que o Iraque governe a si mesmo e seja capaz de garantir a segurança se cumpriu », disse o secretário de Defesa estadunidense, Leon Panetta. O legado da invasão é outro : morte, dezenas de milhares de mutilados, insegurança, desemprego, falta de água potável e eletricidade. A democracia exportada com bombas ultramodernas não mudou o curso das coisas. A queda do déspota permitiu que os xiitas, majoritários no país e reprimidos até a barárie por Saddam Hussein, tomasem as rédeas do poder sem que isso implicasse unidade ou estabilidade. O Iraque segue sendo um país em carne viva onde as feridas da ocupação não se fecharam.

Passaram-se oito anos e o espelho de ontem está intacto, a voz de Fatima ainda ressoa naquela cidade em chamas. As lágrimas brotavam de seus olhos e, ainda assim, era capaz de sorrir e chorar ao mesmo tempo. Um sorriso de anjo, de criança, o sorriso da desnudez de um despossuído. Fatima observava os militares norteamericanos com um incessante sinal de pergunta. Eles a tomavam por louca. Quando passava diante dos soldados, a mulher os saudava e perguntava : « por quê ? » Às vezes, davam-lhe comida, água e um pouco de dinheiro. Fátima aceitava, mais para se aproximar daqueles que tinham destroçado sua realidade do que por fome.

Ninguém entendia sua pergunta. Por trás de seu sorriso tenro e luminoso, a tristeza marcava seus traços. Fátima estava vencida. Enquanto contemplava as ruínas do que uma vez foi sua casa, a mulher voltava a perguntar « por quê ? ». Quando falava, uma careta infantil e piedosa se desenhava como um relâmpago.

Fátima tinha perdido tudo. Dias após dia, com um empenho obstinado, a mulher escavava os escombros do edifício familiar destruído por uma bomba, buscando os restos de seus pertences passados. Seu filhor menor a acompanhava sempre. Ia de um lado a outro de Bagdá apegado a ela como um animal indefeso. Fátima revolvia as entranhas de pedras destroçadas e retirava uma frigideira, um retrato intacto, um cachecol, um par de sapatos, alguma cadeira desconjuntada pela explosão, pedaços de recordações e bens devastados. O living, a sala de estar, a cozinha, o quarto, os espaços de sua intimidade estavam soterrados por toneladas de pedra e poeria.

Fátima mostrava o que havia sobrado de sua casa : um monte de ferro e cimento sobre o qual se superpunha seu eterno sorriso. Ela também tinha no olhar essa marca feita de solidão, de luz, de incompreensão, de pura intempérie : a marca da injustiça. A mulher dizia que, talvez, o futuro de seu filho não seria parecido com o seu, que talvez ele conheceria a liberdade, um trabalho decente e a democracia. Fátima se projetava no filho que restou porque seu presente era um lugar inabitável. Era escombros e a gaveta de uma cômoda miraculosamente intacta de onde tirava, assombrada e agradecida, duas fotos de seu marido e de sua filha morta, esmagada com seu pai nas ruínas, um par de meias e uma caixa de costura.

21/11/2011

Goldman Sachs: como criar uma crise e governar o mundo

Imagem da Torre Goldman Sachs. Actualmente, os ex-funcionários do banco trazem nuvens negras para os trabalhadores europeus. Foto lmira/Flickr
  Artigo tirado do Esquerda.net (aqui). Tradução: Katarina Peixoto   O banco de investimentos Goldman Sachs conseguiu uma façanha pouco frequente na história política mundial: colocar os seus homens na direção dos governos europeus e do banco que rege os destinos das políticas económicas da União Europeia. Por Eduardo Febbro, correspondente em Paris da agência Carta Maior.


Muitos dos homens que fabricaram o desastre foram chamados agora para tomar as rédeas de postos chaves e com a missão de reparar, ao custo do bem estar da população, as consequências dos calotes que eles mesmos produziram. O banco de investimentos Goldman Sachs conseguiu uma façanha pouco frequente na história política mundial: colocar os seus homens na direção dos governos europeus e do banco que rege os destinos das políticas económicas da União Europeia. Mario Draghi, o atual presidente do BC Europeu, Mario Monti, presidente do Conselho Italiano, Lukas Papademos, o novo primeiro ministro grego, todos pertencem à galáxia do Goldman Sachs.

A história poderia satisfazer a todas as expectativas dos adeptos das teorias da conspiração: onde está o poder mundial? A resposta cabe num nome e num lugar: na sede do banco de investimentos Goldman Sachs. O banco estadunidense conseguiu uma façanha pouco frequente na história política mundial: colocar os seus homens na direção dos governos europeus e do banco que rege os destinos das políticas económicas da União Europeia. Mario Draghi, o atual presidente do Banco Central Europeu, Mario Monti, o presidente do Conselho Italiano que substituiu a Silvio Berlusconi, Lukas Papademos, o novo primeiro ministro grego, todos pertencem à galáxia do Goldman Sachs.

Desses três responsáveis, dois, Monti e Papademos, formam o anexo avançado da política pela tecnocracia económica, pertencem à rede que o Goldman Sachs teceu no Velho Continente e, em graus diversos, participaram nas mais truculentas operações ilícitas orquestradas pela instituição estadunidense. Além do mais, não são os únicos. Pode-se também mencionar Petros Christodoulos, hoje à frente do organismo que administra a dívida pública grega e que no passado recente foi presidente do Banco Nacional da Grécia, a quem o Goldman Sachs vendeu o produto financeiro hoje conhecido como “swap” e com o qual as autoridades gregas e o Goldman Sachs orquestraram a maquilhagem das contas gregas.

O dragão que protege os interesses de Wall Street conta com homens chave nos postos mais decisivos, e não só na Europa. Henry Paulson, ex presidente do Goldman Sachs, foi em seguida nomeado Secretário do Tesouro estadunidense, ao passo que William C. Dudley, outro alto funcionário do Goldman Sachs, é o atual presidente do Federal Reserve de Nova York. Mas o caso dos responsáveis europeus é mais paradigmático. A palma de ouro quem leva é Mario Draghi, o atual presidente do Banco Central Europeu, que foi vice presidente do Goldman Sachs para a Europa entre os anos 2002 e 2005.

Neste posto, Draghi teve um desempenho mais do que ambíguo. O título de seu cargo era “empresas e dívidas soberanas”. Precisamente nesse cargo Draghi teve como missão vender o produto incendiário “swap”. Este instrumento financeiro é um elemento determinante no ocultamento das dívidas soberanas, quer dizer, na maquiagem das contas gregas. Esse engodo foi a astúcia que permitiu que a Grécia se qualificasse para fazer parte da zona do euro. Tecnicamente e com o Goldman Sachs como operador, tratou-se de então de transformar a dívida externa da Grécia numa dívida em euros. Com isso, a dívida grega desapareceu dos balanços negativos e o Goldman Sachs ganhou uma vultuosa comissão.

Depois, em 2006, o banco vendeu parte desse pacote de swaps ao principal banco comercial do país, o Banco Nacional da Grécia, dirigido por outro homem do Goldman Sachs, Petros Christodoulos, ex trader do Goldman Sachs e... atualmente diretor do organismo de gestão da dívida da Grécia, que o mesmo e os já mencionados contribuíram para primeiro mascarar e depois, incrementar. Mario Draghi tem um histórico pesado. O ex presidente da República italiana Francesco Cossiga acusou Draghi de ter favorecido o Goldman Sachs em contratos importantes, quando Draghi era diretor do Tesouro e a Itália estava em pleno processo privatizador.

O certo é que o agora presidente do Banco Central Europeu aparece massivamente indicado como o grande vendedor de swaps em toda a Europa.

Nesse entrevero de falsificações surge o chefe do executivo grego, Lukas Papademos. O primeiro ministro foi governador do Banco Central grego entre 1994 e 2002. Esse é precisamente o período em que o Sachs foi cúmplice de ocultamento da realidade económica grega e, enquanto responsável pela entidade bancária nacional, Papademos não podia ignorar o engodo que estava montando. As datas em que esteve no cargo coincidem com a operação da montagem. Na lista de notáveis Mario Monti o segue. O atual presidente do Conselho Italiano foi conselheiro internacional do Goldman Sachs desde 2005.

Em resumo, muitos dos homens que fabricaram o desastre foram chamados agora para tomar as rédeas de postos chaves e com a missão de reparar, ao custo do bem estar da população, as consequências dos calotes que eles mesmos produziram. Não há dúvida de que existe o que os analistas chamam de “um governo Sachs europeu”.

O português Antonio Borges dirigiu até há pouco – acaba de renunciar – o Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional. Até 2008, Antonio Borges foi vice presidente do Goldman Sachs. O desaparecido Karel Van Miert – Bélgica – foi Comissário Europeu da Competição e também um quadro do Goldman Sachs. O alemão Ottmar Issing foi sucessivamente presidente do Bundesbank europeu, conselheiro internacional do Sachs e membro do Conselho de Administração do Banco Central Europeu. Peter O’Neill é outro homem do esquema: presidente do Goldman Sachs Asset Management, O’Neill, apelidado de “o guru” do Goldman Sachs, é o inventor do conceito de BRICS, o grupo de países emergentes composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O’Neill é acompanhado por outro peso pesado, Peter Sutherland, ex presidente do Goldman Sachs Internacional, membro da secção “Europa” da Comissão Trilateral – o mesmo que Lukas Papademos – ex integrante da Comissão de Competição na União Europeia, Procurador Geral da Irlanda e mediador influente no plano que culminou com o resgate da Irlanda.

Alessio Rastani tem toda a razão. Este personagem que se apresentou perante o BC como um trader disse há algumas semanas: “os políticos não governam o mundo. O Goldman Sachs governa o mundo”. Sua história é exemplar, de jogo duplo, como as das personalidades e carreiras dos braços mundiais do Goldman Sachs. Alessio Rastani disse que ele era um trader londrino, mas que depois se descobriu que trader não era e poderia ser parte do Yes Men, um grupo de ativistas que, através da caricatura e da infiltração nos media, denunciam o liberalismo.

Entrará para as páginas da história mundial da impunidade a figura desses personagens. Empregados por uma firma estadunidense, eles orquestraram um dos maiores calotes já conhecidos, cujas consequências hoje estão sendo pagas. Foram premiados com o leme da crise que eles produziram.

 

10/10/2011

O primeiro banco europeu a desaparecer, vítima da dívida

Eduardo Febbro. Artigo tirado de Carta Maior  (aqui).

Em 2008, França, Bélgica e Luxemburgo injetaram 9 bilhões de dólares para resgatar o Dexia da bancarrota. Agora, a situação do banco piorou e o governo belga decidiu criar o que se conhecem com uma « bad bank », ou seja, uma estrutura na qual se colocam os ativos tóxicos para serem liquidados. A fórmula já foi empregada nos anos 80 com a dívida mexicana e nos anos 2000, nos EUA, com os créditos hipotecários.


Os números vermelhos seguem espreitando as bolsas e instituições financeiras europeias, ao mesmo tempo em que a inquietude cresce diante dos sinais cada vez mais evidentes de que uma nova fase recessiva pode envolver os países da União Europeia. O ponto fraco volta a ser a crise da dívida desencadeada pela Grécia e um banco já salvo da falência em 2008 pelo aporte de fundos públicos. Trata-se do banco franco-belga Dexia, uma entidade exposta a uma acumulação alarmante de ativos gregos e créditos podres que chegam a 133 bilhões de euros.

Em 2008, França, Bélgica e Luxemburgo injetaram 9 bilhões de dólares para resgatar o Dexia da bancarrota. Agora, a situação do banco piorou e o governo belga decidiu criar o que se conhecem com uma « bad bank », ou seja, uma estrutura na qual se colocam os ativos tóxicos para serem liquidados.

A fórmula já foi empregada nos anos 80 com a dívida mexicana e nos anos 2000, nos EUA, com os créditos hipotecários. Ninguém esconde agora que se trata de um desmantelamento progressivo deste banco que se converte assim no primeiro banco europeu a desaparecer vítima da crise da dívida. Pascal Cardineaud, representante sindical francês no Dexia, comentou que « esse é o fim do caminho. Ninguém sabe a esta altura quais serão os impactos sociais». Ainda que a crise grega seja uma das causas de hecatombe, uma análise mais detalhada da situação mostra que o Dexia paga o tributo dos piores vícios do liberalismo e de sua falta de regulação. O banco belga participou das piores operações financeiras com de crédtios de alto risco outorgados a muitas comunidades francesas, norteamericanas, gregas, italianas e portuguesas.

Esses empréstimos podiam ser concedidos com juros fixos ou variáveis. No segundo caso – e aí está o problema – os juros estavam calculados em função da paridade entre o euro e o franco suíço. Mas desde alguns meses a moeda suíça começou a subir de cotação e, por conseguinte, começou a subir também o montante dos empréstimos outorgados. As comunidades não puderam pagar e o Dexia ficou com ativos podres, que representam hoje cerca de 50% de sua carteira. E os fundos públicos voltam a ser cobiçados agora para pagar os males do liberalismo. O primeiro-ministro belga, Yves Leterme, explicou que « houve um acordo para isolar as cargas do passado com, se for necessário, o uso de garantias dos estados da Bélgica, França e Luxemburgo para garantir a atividade ».

Várias fontes financeiras especulavam a respeito de uma nova intervenção com fundos da França, Bélgica e Luxemburgo. Falava-se de um pacote de resgate de 7 bilhões de euros. A crise é muito profunda e não passa um dia sem que surja uma nova frente explosiva. Os mercados estão obcecados com o que hoje se chama « o perigo grego », ou seja, «o agravamento da crise da dívida grega e sua consequente ampliação para toda a zona euro. Atenas ainda não recebeu o sinal verde para obter um novo empréstimo considerado como de vida ou morte a fim de evitar a quebra do país. No início da semana, os ministros de financças da zona euro exigiram de Atenas novos esforços orçamentários como condição prévia para outorgar novos créditos.

O panorama é de causar calafrios, tanto pelos níveis de irresponsabilidade que as autoridades públicas autorizaram aos bancos como pela conjunção de cifras negativas. Os males da Europa repercutem no planeta. Os analistas estimam que os problemas pelos quais passa o Ocidente explicam em parte o menor rendimento da economia chinesa. Segundo o FMI, a China crescerá 9,5% em 2011 e 9% em 2012, em função da diminuição de suas exportações para o Ocidente em plena debacle bancária e econômica. A China conheceu um período consecutivo de sete anos de crescimento superior a 10%, mas os produtos marcados pelo selo « Made in China » se chocam com as realidades das economias dos Estados Unidos e da Europa. Contudo, a máquina exportadora chinese segue gozando de muito boa saúde. Em abril deste ano, Pequim exportou 155 bilhões de dólares, o que equivale a um aumento de 29% em relação ao mesmo período do ano anterior. A fratura, hoje, está no Ocidente, e sua origem residen no viciado e impune sistema financeiro e bancário.

08/09/2011

Sistema financeiro europeu já não confia nem em si mesmo

Eduardo Febbro. Artigo tirado de Carta Maior (aqui).

As bolsas europeias mergulham no abismo, as entidades financeiras estão nas cordas, a zona do euro não cresce e os poderes públicos são impotentes para frear uma das maiores hecatombes que já conheceu o liberalismo sem regulação nos últimos anos. As cifras das finanças voltaram a dar um giro brusco até as zonas vermelhas. Os analistas e dirigentes políticos já não ocultam que o Velho Continente está no caminho de uma nova recessão. A responsabilidade compete à voracidade das finanças e à incapacidade dos dirigentes políticos para introduzir um mínimo de regras no jogo.

O economista francês Nicolas Véron disse terça-feira ao jornal Le Monde que “o risco de que uma grande instituição bancária quebre é real”. Assim como outros economistas, Véron destacou a incapacidade dos dirigentes políticos da Europa para adotar medidas adequadas, reconhecendo, ao mesmo tempo, que os níveis de crescimento da zona euro eram insuficientes para salvar a situação.

O escritório europeu de estatísticas, Eurostat, publicou nesta terça-feira as cifras de crescimento nos países da zona euro. Durante o segundo trimestre deste ano, o crescimento do PIB só alcançou 0,2% enquanto que, no primeiro trimestre, o PIB havia alcançado 0,8% de crescimento. Esses números refletem a péssima situação da Alemanha (+0,1%) e, sobretudo, da França, país que conheceu um crescimento nulo no segundo trimestre. E levaram os analistas a apostar em um novo ciclo recessivo.

Mas isso não é tudo: o comportamento do sistema financeiro, o jogo com a roleta russa das bolsas protagonizado pelas águias do circuito financeiro e a facilidade com que as instituições europeias os deixam atuar complicaram o panorama ao extremo.

Os especialistas denunciam hoje os estragos causados por um dispositivo autorizado pela Comissão Europeia de Bruxelas e cuja principal característica consistiu em deixar qualquer tipo de especulação com as mãos livres. Trata-se dos famosos “Dark polos”, criados em 2004 e, mediante os quais, se permitiu aos atores das finanças que criassem suas próprias plataformas de troca de ações. Isso acarretou um fluxo de transações em uma zona de sombra cuja supervisão escapa a todo controle e contribui para abalar a economia mundial. A monumental perversidade do sistema criou situações altamente perigosas.

Na França, por exemplo, muitas prefeituras, e não das mais pobres, se endividaram em francos suíços, uma moeda segura e estável que escapava à brutalidade do sobe-e-desce especulativo. Mas a crise também atingiu o franco suíço, a moeda se valorizou e esses municípios não podem pagar agora a dívida contraída. A Confederação Helvética tomou essa semana medidas tão drásticas como inéditas nos últimos 30 anos. O Banco Central da Suíça interveio nos mercados para frear o aumento do franco suíço. A moeda helvética chegou a ser cotada em valores altíssimos em relação às outras moedas de referência. Os investidores se refugiaram na divisa suíça diante do panorama incerto da economia mundial e provocaram com isso um efeito dominó que penalizou os bancos suíços, sua indústria e os demais países da Europa. Após a adoção de um tipo de câmbio fixo, a moeda suíça caiu mais de 8%, mas os analistas estimam que isso não será suficiente para aliviar a pressão.

O sistema dá mostras de não ter confiança sequer em si mesmo. Os grandes bancos mundiais começaram a brandir ameaças de vinganças e medidas de coerção se os responsáveis políticos tomarem medidas reguladoras demasiadamente severas. O lobby europeu das finanças está nervoso: o banco Barclays ameaçou a Inglaterra com a mudança de sua sede central para os Estados Unidos, enquanto que o HSBC advertiu que, em caso de excessiva regulação, fecharia suas representações na França. A conjuntura econômica débil, a sombra da recessão, as dificuldades da Grécia para sanear sua situação financeira, os estragos da especulação e a falta de regulação desembocaram em um mar ingovernável.

A Assembleia Nacional francesa começou nesta terça-feira a examinar um plano de austeridade apresentado pelo primeiro ministro François Fillon. Para acalmar os temores dos mercados e a zelosa vigilância das agências de classificação de risco, pretende poupar 12 bilhões de euros. Uma soma colossal que o Executivo pensa encontrar impondo taxas a vários setores da economia, mas sem tocar no capital. A esquerda francesa reclama especialmente um imposto sobre as transações financeiras, mas o governo rejeita essa proposta. O capital é um demônio que devora as economias e que ninguém se anima a enfrentar.