revolta irmandinha
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25/06/2013
04/07/2012
O PRI está de volta ao poder no México
Eduardo Febbro - Cidade do México. Tirado de Carta Maior (aqui). Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
Entre a oferta do mesmo, o PAN, e a da mudança, o PRD, os eleitores optaram por um partido que, apesar das acusações de corrupção e autoritarismo que empanaram seus anos no poder, garantiu a ordem e o funcionamento do Estado. O México castigou a direita mexicana encarnada pelo PAN, ao mesmo tempo em que deixou à esquerda um espaço de ação e controle inédito. Felipe Calderón deixa um país de joelhos e cheio de mortos. Peña Nieto terá que governar um país fraturado pela violência provocada pela luta contra o narcotráfico e pelos índices de pobreza e desigualdade. O artigo é de Eduardo Febbro, direto da Cidade do México.
Cidade do México - O anúncio de um
salão de beleza situada na esquina de Moliére e Homero, no rico bairro
de Polanco, pode servir de consigna para definir o partido político
mexicano que governou o país durante mais de 70 anos, ficou fora do
poder durante 12 anos e recuperou-o neste domingo, 1º de julho, nas
eleições presidenciais: “Clássico salão de beleza reatualizado”. O
partido de sempre, o PRI, Partido Revolucionário Institucional, com um
candidato reatualizado, Enrique Peña Nieto, obteve nas urnas um triunfo
contundente frente à esquerda do Partido da Revolução Democrática (PRD),
e seu candidato Andrés Manuel López Obrador.
O PRI obteve 37,9% dos votos, contra 31,7% dados a Obrador e 25,4% para Josefina Vázquez Mota, a candidata da Ação Nacional (PAN), o partido do presidente que sai, Felipe Calderón. O retorno do PRI ocorreu com força. O velho partido aumentou seu poder nos Estados do país: ganhou em Jalisco – onde o PAN governava há 18 anos – e em Chiapas. No entanto, o partido de Peña Nieto não conseguiu os resultados esperados, ou seja, não foi capaz de repetir o resultado dos melhores anos do PRI quando o movimento obtinha maiorias avassaladoras. A força da esquerda de Andrés Manuel López Obrador freou a amplitude da ressurreição do PRI.
A vantagem do PRI nas eleições presidenciais e no Congresso é menor do que a direção do partido esperava. O PRD de López Obrador derrotou o PRI no Distrito Federal, venceu no Estado de Morelos e tirou das mãos do PRI o Estado de Tabasco. Além disso, o PRD se instalou no Congresso de maneira sólida como segunda força política na Câmara de Deputados. “Somos uma nova geração. Não há volta para o passado”, disse Piña Nieto em sua primeira declaração pública. Seu rival em troca, se manteve prudente. O passado segue pesando no cenário eleitoral mexicano. Andrés Manuel López Obrador perdeu as eleições presidenciais de 2006 por apenas 0,56%, no que apareceu como uma das fraudes mais notórias da história política contemporânea. AMLO – como Obrador é conhecido no México – prometeu que não agiria de maneira “irresponsável” ao mesmo tempo em que não poupou críticas a um processo que denuncia por sua “falta de igualdade” devido ao dinheiro que o PRI gastou na campanha eleitoral e ao respaldo massivo que Peña Nieto recebeu por parte dos meios de comunicação.
O presidente eleito prometeu que exercerá uma “presidência democrática, moderna, aberta à crítica e disposta a escutar”. O retorno do PRI ao poder se deve muito ao fracasso rotundo dos dois mandatos do PAN e ao perfil um tanto repetitivo da esquerda que não soube renovar-se diante de uma rival como o PRI que aproveitou os 12 anos que passou na oposição para se livrar dos vícios mais rejeitados pela sociedade.
Entre a oferta do mesmo, o PAN, e a da mudança, o PRD, os eleitores optaram por um partido que, apesar das acusações de corrupção e autoritarismo que empanaram seus anos no poder, garantiu a ordem e o funcionamento do Estado. O México castigou a direita mexicana encarnada pelo PAN, ao mesmo tempo em que deixou à esquerda um espaço de ação e controle inédito. Felipe Calderón, por sua vez, deixa um país de joelhos e cheio de mortos. Peña Nieto terá que governar um país fraturado tanto pela onda de violência provocada pela luta contra o narcotráfico (mais de 50 mil mortos sem seis anos), como pelos índices alucinantes de pobreza e desigualdade deixados pelo mandato de Calderón.
“Não sei o que seria do povo mais pobre se não tivesse tido o apoio solidário da política social com rosto humano”, afirmou Calderón dias atrás. As estatístiscas contradizem suas declarações e a própria essência com a qual, seis anos atrás, iniciou sua presidência. Calderón iniciou seu mandato como o presidente que daria trabalho e termina seu governo com duas cifras negativas: a pobreza afeta 42% da população, o que equivale a 52 milhões de pessoas. Em contraposição, 41% da riqueza nacional está nas mãos de 10% da população. O segundo ponto negativo é a violência desencadeada com a estratégia que Calderón adotou para combater o narcotráfico. Os mais de 50 mil mortos dessa infrutífera luta também repercutiram na economia com uma perda calculada de 1,5% do PIB nacional.
O México oferece um quadro de cifras contraditórias. A revista Forbes estabeleceu que 11 das pessoas mais ricas do planeta são mexicanas. Este grupo acumula uma riqueza de 112,3 bilhões de dólares, o que equivale a cerca de 10% do Produto Interno Bruto. Ao mesmo tempo, a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômica, OCDE, constata que, com 52 milhões de pobres, o México apresenta o segundo maior índice de desigualdade entre as economias que compõem esse organismo multilateral (o primeiro é o Chile). Cerca de 12 milhões de novos pobres se integraram às estatísticas por causa da estagnação do crescimento.
Esse percentual se reflete também no mercado de trabalho: o setor informal emprega cerca de 30% da população ativa, cerca de 12 milhões de pessoas. Nunca antes na história do país, havia sido registrada uma taxa tão elevada na segunda economia da América Latina (só fica atrás do Brasil). O panorama que deixa Felipe Calderón é exatamente o contrário daquele que vem afirmando em suas sucessivas aparições públicas. O Conselho nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social (Coneval) calculou que há cerca de “11,7 milhões de mexicanos em condição de pobreza extrema”.
Em 2006, Calderón se autoproclamou “o presidente do emprego”. O mandatário prometeu gerar empregos com melhores salários e baixar os impostos. O resultado final é o inverso. A ele se agrega o custo da luta contra o narcotráfico. A leitura desse fenômeno é dupla: por um lado está o benefício direto do dinheiro gerado pelo narcotráfico, em especial a geração de investimentos em imóveis. Por outro, está o custo na promoção do turismo, onde os índices baixam, a imigração para o exterior e a migração interna. Dezenas de milhares de mexicanos abandonaram as cidades do norte do país, assoladas pela violência – principalmente Tamaulipas, Chihuahua, Sinaloa, Coahuila e Nuevo León.
No entanto, as avaliações sobre os problemas reais causados pelos narcos à economia diferem segundo os interlocutores. Eduardo Cepeda, do JP Morgan grupo Financeiro para a América Latina, estimou que a violência do crime organizado custou ao México entre 1% e 1,5% do PIB (quase 16 bilhões de dólares anuais). Já a Unidade de Promoção de Investimentos e Negócios Internacionais do Proméxico negou que a narco violência tenha sido um fator de perda de investimentos, de competitividade ou de diminuição do PIB. Esse argumento, porém, se choca com o que pode se ver nas ruas do México: a violência gera medo e o medo retenção. É impossível assegurar que tais níveis de horror não impactem a economia. O que não pode ser negado é a desigualdade e a pobreza.
A pujança das cifras animadoras não se prolonga nas políticas distributivas aplicadas até agora. Essa será, junto com a violência, um dos maiores desafios do próximo presidente. O Conselho Nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social tornou públicos informes que não deixam espaço ao debate sobre sim ou não: 28 milhões de pessoas têm sérios problemas de acesso a uma alimentação básica. Entre 2008 e 2010, mais cinco milhões de mexicanos passaram a integrar as estatísticas mais críticas da pobreza no país.
O PRI obteve 37,9% dos votos, contra 31,7% dados a Obrador e 25,4% para Josefina Vázquez Mota, a candidata da Ação Nacional (PAN), o partido do presidente que sai, Felipe Calderón. O retorno do PRI ocorreu com força. O velho partido aumentou seu poder nos Estados do país: ganhou em Jalisco – onde o PAN governava há 18 anos – e em Chiapas. No entanto, o partido de Peña Nieto não conseguiu os resultados esperados, ou seja, não foi capaz de repetir o resultado dos melhores anos do PRI quando o movimento obtinha maiorias avassaladoras. A força da esquerda de Andrés Manuel López Obrador freou a amplitude da ressurreição do PRI.
A vantagem do PRI nas eleições presidenciais e no Congresso é menor do que a direção do partido esperava. O PRD de López Obrador derrotou o PRI no Distrito Federal, venceu no Estado de Morelos e tirou das mãos do PRI o Estado de Tabasco. Além disso, o PRD se instalou no Congresso de maneira sólida como segunda força política na Câmara de Deputados. “Somos uma nova geração. Não há volta para o passado”, disse Piña Nieto em sua primeira declaração pública. Seu rival em troca, se manteve prudente. O passado segue pesando no cenário eleitoral mexicano. Andrés Manuel López Obrador perdeu as eleições presidenciais de 2006 por apenas 0,56%, no que apareceu como uma das fraudes mais notórias da história política contemporânea. AMLO – como Obrador é conhecido no México – prometeu que não agiria de maneira “irresponsável” ao mesmo tempo em que não poupou críticas a um processo que denuncia por sua “falta de igualdade” devido ao dinheiro que o PRI gastou na campanha eleitoral e ao respaldo massivo que Peña Nieto recebeu por parte dos meios de comunicação.
O presidente eleito prometeu que exercerá uma “presidência democrática, moderna, aberta à crítica e disposta a escutar”. O retorno do PRI ao poder se deve muito ao fracasso rotundo dos dois mandatos do PAN e ao perfil um tanto repetitivo da esquerda que não soube renovar-se diante de uma rival como o PRI que aproveitou os 12 anos que passou na oposição para se livrar dos vícios mais rejeitados pela sociedade.
Entre a oferta do mesmo, o PAN, e a da mudança, o PRD, os eleitores optaram por um partido que, apesar das acusações de corrupção e autoritarismo que empanaram seus anos no poder, garantiu a ordem e o funcionamento do Estado. O México castigou a direita mexicana encarnada pelo PAN, ao mesmo tempo em que deixou à esquerda um espaço de ação e controle inédito. Felipe Calderón, por sua vez, deixa um país de joelhos e cheio de mortos. Peña Nieto terá que governar um país fraturado tanto pela onda de violência provocada pela luta contra o narcotráfico (mais de 50 mil mortos sem seis anos), como pelos índices alucinantes de pobreza e desigualdade deixados pelo mandato de Calderón.
“Não sei o que seria do povo mais pobre se não tivesse tido o apoio solidário da política social com rosto humano”, afirmou Calderón dias atrás. As estatístiscas contradizem suas declarações e a própria essência com a qual, seis anos atrás, iniciou sua presidência. Calderón iniciou seu mandato como o presidente que daria trabalho e termina seu governo com duas cifras negativas: a pobreza afeta 42% da população, o que equivale a 52 milhões de pessoas. Em contraposição, 41% da riqueza nacional está nas mãos de 10% da população. O segundo ponto negativo é a violência desencadeada com a estratégia que Calderón adotou para combater o narcotráfico. Os mais de 50 mil mortos dessa infrutífera luta também repercutiram na economia com uma perda calculada de 1,5% do PIB nacional.
O México oferece um quadro de cifras contraditórias. A revista Forbes estabeleceu que 11 das pessoas mais ricas do planeta são mexicanas. Este grupo acumula uma riqueza de 112,3 bilhões de dólares, o que equivale a cerca de 10% do Produto Interno Bruto. Ao mesmo tempo, a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômica, OCDE, constata que, com 52 milhões de pobres, o México apresenta o segundo maior índice de desigualdade entre as economias que compõem esse organismo multilateral (o primeiro é o Chile). Cerca de 12 milhões de novos pobres se integraram às estatísticas por causa da estagnação do crescimento.
Esse percentual se reflete também no mercado de trabalho: o setor informal emprega cerca de 30% da população ativa, cerca de 12 milhões de pessoas. Nunca antes na história do país, havia sido registrada uma taxa tão elevada na segunda economia da América Latina (só fica atrás do Brasil). O panorama que deixa Felipe Calderón é exatamente o contrário daquele que vem afirmando em suas sucessivas aparições públicas. O Conselho nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social (Coneval) calculou que há cerca de “11,7 milhões de mexicanos em condição de pobreza extrema”.
Em 2006, Calderón se autoproclamou “o presidente do emprego”. O mandatário prometeu gerar empregos com melhores salários e baixar os impostos. O resultado final é o inverso. A ele se agrega o custo da luta contra o narcotráfico. A leitura desse fenômeno é dupla: por um lado está o benefício direto do dinheiro gerado pelo narcotráfico, em especial a geração de investimentos em imóveis. Por outro, está o custo na promoção do turismo, onde os índices baixam, a imigração para o exterior e a migração interna. Dezenas de milhares de mexicanos abandonaram as cidades do norte do país, assoladas pela violência – principalmente Tamaulipas, Chihuahua, Sinaloa, Coahuila e Nuevo León.
No entanto, as avaliações sobre os problemas reais causados pelos narcos à economia diferem segundo os interlocutores. Eduardo Cepeda, do JP Morgan grupo Financeiro para a América Latina, estimou que a violência do crime organizado custou ao México entre 1% e 1,5% do PIB (quase 16 bilhões de dólares anuais). Já a Unidade de Promoção de Investimentos e Negócios Internacionais do Proméxico negou que a narco violência tenha sido um fator de perda de investimentos, de competitividade ou de diminuição do PIB. Esse argumento, porém, se choca com o que pode se ver nas ruas do México: a violência gera medo e o medo retenção. É impossível assegurar que tais níveis de horror não impactem a economia. O que não pode ser negado é a desigualdade e a pobreza.
A pujança das cifras animadoras não se prolonga nas políticas distributivas aplicadas até agora. Essa será, junto com a violência, um dos maiores desafios do próximo presidente. O Conselho Nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social tornou públicos informes que não deixam espaço ao debate sobre sim ou não: 28 milhões de pessoas têm sérios problemas de acesso a uma alimentação básica. Entre 2008 e 2010, mais cinco milhões de mexicanos passaram a integrar as estatísticas mais críticas da pobreza no país.
24/04/2012
Grecia impactada por un novo suicidio
Un mestre e sindicalista suicídase. Savvas Metoikidis, mestre de 44 anos, sindicalista e membro activo do movemento pola insurrección social decidiu, onte sábado, tirarse a vida. O seu suicidio é un acto político digno que chama o pobo a resistir e a loitar contra a escravitude que impón o capitalismo. O escrito que segue é a reflexión de Savvas en canto á rebelión do 08 e a violencia. O compañeiro estaba sempre na primeira liña da loita.
"Violencia é traballar 40 anos por unha miseria e non saber se algún día chegarás a xubilarte.
Violencia son os bonos do estado, as pensións roubadas, a fraude da bolsa.
Violencia é estar obrigado a obter un préstamo hipotecario que finalmente pagas a prezo de ouro.
Violencia é o dereito do director de despedirte en calquera momento.
Violencia é o desemprego, a precariedade, os 700 euros con ou sen seguridade social.
Violencia son os "accidentes" laborais, porque os xefes limitan os seus gastos a contra da seguridade dos traballadores.
Violencia é tomar psicofármacos e vitaminas para facer fronte os horarios extenuantes.
Violencia é ser unha inmigrante, vivir co medo que en calquera momento te van a botar fóra do país e experimentar constantemente inseguridade.
Violencia é ser ao mesmo tempo asalariada, ama, de casa e nai.
Violencia é canto che collen o cu no traballo e dinche: " Sorría, tampouco é para tanto"
O que vivimos eu chámoo rebelión. E do mesmo xeito que calquera rebelión é similar a ensaio de guerra civil, cheira a hollín, gases lacrimóxenos e sangue. Non se contén facilmente e non se explota. Encende conciencias, acentúa e polariza contradicións, asegura momentos de compañeirismo e solidariedade. Traza sendas pola liberación social.
Señoras e señores, benvidos ás metrópoles do caos! Coloquen nas súas casas portas de seguridade e sistemas de alarma, abren a televisión e gocen o espectáculo. A próxima rebelión será definitivamente máis ardente, a medida que progresa a podremia desta sociedade... Ou saian ás rúas xunto aos seus fillos, decláranse en folga, atrévese a reclamar a vida que lles rouban, lémbrense que unha vez foron mozas que quixeron cambiar o mundo.
Savvas Metoikidis
"Violencia é traballar 40 anos por unha miseria e non saber se algún día chegarás a xubilarte.
Violencia son os bonos do estado, as pensións roubadas, a fraude da bolsa.
Violencia é estar obrigado a obter un préstamo hipotecario que finalmente pagas a prezo de ouro.
Violencia é o dereito do director de despedirte en calquera momento.
Violencia é o desemprego, a precariedade, os 700 euros con ou sen seguridade social.
Violencia son os "accidentes" laborais, porque os xefes limitan os seus gastos a contra da seguridade dos traballadores.
Violencia é tomar psicofármacos e vitaminas para facer fronte os horarios extenuantes.
Violencia é ser unha inmigrante, vivir co medo que en calquera momento te van a botar fóra do país e experimentar constantemente inseguridade.
Violencia é ser ao mesmo tempo asalariada, ama, de casa e nai.
Violencia é canto che collen o cu no traballo e dinche: " Sorría, tampouco é para tanto"
O que vivimos eu chámoo rebelión. E do mesmo xeito que calquera rebelión é similar a ensaio de guerra civil, cheira a hollín, gases lacrimóxenos e sangue. Non se contén facilmente e non se explota. Encende conciencias, acentúa e polariza contradicións, asegura momentos de compañeirismo e solidariedade. Traza sendas pola liberación social.
Señoras e señores, benvidos ás metrópoles do caos! Coloquen nas súas casas portas de seguridade e sistemas de alarma, abren a televisión e gocen o espectáculo. A próxima rebelión será definitivamente máis ardente, a medida que progresa a podremia desta sociedade... Ou saian ás rúas xunto aos seus fillos, decláranse en folga, atrévese a reclamar a vida que lles rouban, lémbrense que unha vez foron mozas que quixeron cambiar o mundo.
Savvas Metoikidis
11/04/2012
Facer convocatorias por Internet será delito de integración criminal
Nova tirada de aquí e traducida e adaptada por nós.
RESISTENCIA PASIVA, ATENTADO CONTRA A AUTORIDADE
Antes, Jorge Fernández Díaz, avanzara na Cámara o desexo de Interior de incluír "como delito de atentado contra a autoridade a resistencia activa ou pasiva grande ante as forzas de seguridade e incluír entre as modalidades de acometimento as ameazas e comportamentos intimidatorios, a arremetida e lanzamento de obxectos perigosos e considerar como agravante a comisión destas condutas delituosas".
Na súa intervención, o ministro lamentou que "por desgraza" estes actos non suceden só en Barcelona. "Non hai que responder o Código Penal a iniciativas de guerrilla urbana mais tampouco recorrer ao boísmo xurídico".
Segundo dixo estas reformas parten dunha iniciativa de reforma do ordenamento xurídico en que o seu Departamento vén traballando desde hai dous meses en colaboración co Ministerio de Xustiza que dirixe Alberto Ruiz Gallardón.
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| Foto de Público. |
O ministro do Interior, Jorge Fernández Díaz, avanzou no Congreso dos Deputados algunhas das novidades da reforma legal que pretende levar a cabo o Goberno para facer fronte aos "actos vandálicos", como os que tiveron lugar en Barcelona durante a folga xeral. O ministro anunciou que se incluirá como "delito de integración en organización criminal" alterar "gravemente a orde pública" e concertar concentracións violentas por calquera medio de comunicación como Internet e as redes sociais. Equipárase xuridicamente, xa que logo, o "vandalismo" co "terrorismo".
Onte mesmo publicamos un artigo ("Ilegalidade do poder, criminalización da protesta e resistencia popular") que, desde o punto de vista xurídico deixaba ás claras cal é a índole deste novo ataque á democracia e á liberdade que recorda as páxinas máis escuras do Estado español.
"Parécenos fundamental para facer fronte a estes movementos que actúan concertadamente previamente e con técnicas de guerrilla urbana incluír como delito de integración en organización criminal as accións cuxa finalidade sexa alterar gravemente a orde pública e aquelas que, con tal fin, se concerten por calquera medio de comunicación", explicou o Ministerio a Europa Press debido a que no interior do hemiciclo Fernández Díaz non puido terminar de concretar esta medida por falta de tempo.
"Tamén pretendemos incluír como delitos de desordes públicas os supostos nos que se penetre en estabelecementos públicos ou se obstaculice o acceso aos mesmos ampliando o tipo de danos con alteración da orde pública aos danos que se produzan por interrupción ou perturbación de calquera servizo público", engadiu.
"Parécenos fundamental para facer fronte a estes movementos que actúan concertadamente previamente e con técnicas de guerrilla urbana incluír como delito de integración en organización criminal as accións cuxa finalidade sexa alterar gravemente a orde pública e aquelas que, con tal fin, se concerten por calquera medio de comunicación", explicou o Ministerio a Europa Press debido a que no interior do hemiciclo Fernández Díaz non puido terminar de concretar esta medida por falta de tempo.
"Tamén pretendemos incluír como delitos de desordes públicas os supostos nos que se penetre en estabelecementos públicos ou se obstaculice o acceso aos mesmos ampliando o tipo de danos con alteración da orde pública aos danos que se produzan por interrupción ou perturbación de calquera servizo público", engadiu.
RESISTENCIA PASIVA, ATENTADO CONTRA A AUTORIDADE
Antes, Jorge Fernández Díaz, avanzara na Cámara o desexo de Interior de incluír "como delito de atentado contra a autoridade a resistencia activa ou pasiva grande ante as forzas de seguridade e incluír entre as modalidades de acometimento as ameazas e comportamentos intimidatorios, a arremetida e lanzamento de obxectos perigosos e considerar como agravante a comisión destas condutas delituosas".
Na súa intervención, o ministro lamentou que "por desgraza" estes actos non suceden só en Barcelona. "Non hai que responder o Código Penal a iniciativas de guerrilla urbana mais tampouco recorrer ao boísmo xurídico".
Segundo dixo estas reformas parten dunha iniciativa de reforma do ordenamento xurídico en que o seu Departamento vén traballando desde hai dous meses en colaboración co Ministerio de Xustiza que dirixe Alberto Ruiz Gallardón.
10/04/2012
Ilegalidade do poder, criminalización da protesta e resistencia popular
Gerardo Pisarello e Jaume Asens. Artigo tirado de SinPermiso (aquí) e traducido por Á revolta para o galego. Gerardo Pisarello é xurista e membro do Comité de Redacción de Sin Permiso. Jaume Asens é avogado membro da Comisión de Defensa do Colexio de Avogados de Barcelona. Ambos integran o Observatorio de Dereitos Económicos, Sociais e Culturais de Barcelona e son autores de No hay derecho(s). La ilegalidad del poder en tiempos de crisis, Barcelona, Icaria, 2012.
Os exasperados ataques gobernamentais, mediáticos e xudiciais contra os folguistas do pasado 29-M e o anuncio de medidas criminalizadoras da protesta reflicten unha indubitábel deriva autoritaria destes sectores. Porén tamén evidencian a súa inquedanza perante a crecente resistencia social e popular á eliminación duns dereitos e liberdades arduamente gaños á cultura política e xurídica franquista.
Conscientes de que as últimas mobilizacións reflicten un malestar social que irá en ascenso, o goberno e os seus aliados despregaron unha dupla actitude fronte á xornada. Para non alterar aos mercados e ás institucións europeas, tentaron minimizala, resaltando a "normalidade" da xornada e a escasa efectividade da folga nos ámbitos máis precarizados da economía. Ao mesmo tempo, esaxeraron e distorsionado os disturbios producidos, proxectando unha imaxe de caos e violencia que autorice unha maior dureza punitiva de face ao futuro. Nunha complicidade que evoca momentos turbios da historia, o ministro do interior do Partido Popular, Jorge Fernández Díaz, e o seu homólogo en Catalunya, Felip Puig, denunciaron ao tempo que o 29-M se produciu un "salto cualitativo". Devandito salto non radicaba, obviamente, nas masivas e pacíficas manifestacións da tarde, senón no "vandalismo rueiro" a cargo duns grupos "antisistema" integrados cada vez máis por "estranxeiros" e mirados con "simpatía" e "conivencia" por moitos intelectuais e políticos.
Esta construción xenófoba dun inimigo alleo ao país, apoiado por críticos frívolos carentes de todo realismo, ten desde logo o seu sentido. De entrada, serve para desviar a atención sobre os novos recortes de dereitos esixidos polo Directorio europeo e que tanto polo goberno español como polo catalán están dispostos a aplicar con obediencia, resignan lenemente toda flama patriótica. Pero sobre todo, contribúe a crear un clima de alarma social favorable ao anuncio ou a adopción de medidas de "man dura" contra quen se resistan a encartarse ao curso das cousas: desde a limitación dos piquetes informativos e do dereito de manifestación, até a esixencia dunha maior contundencia policial e xudicial contra violentos reais ou imaxinarios, pasando pola asimilación das protestas a condutas terroristas ou proto-terroristas.
Como é usual, tanto o diagnóstico dos feitos como a terapia esixida parten dunha descrición deliberadamente distorsionada do fenómeno da violencia. Ante todo, porque pretende que a precarización, os desaloxos, os recortes sanitarios, educativos e salariais, o aumento nos prezos do transporte público, a asunción pública da débeda privada de grandes empresas e entidades financeiras, ou os privilexios outorgados aos evasores fiscais, non sexan vistos como un obsceno exercicio de violencia pública e privada sobre grande parte da poboación, senón como medidas técnicas, como a única alternativa para obter financiamiento externo e evitar o rescate. O certo, con todo, é que até os propios membros do goberno comezan a recoñecer que ditas medidas non beneficiaron á maioría da poboación ou á recuperación económica nin o farán no futuro inmediato. Pola contra, profundaron o clima recesivo, colocaron aos máis novos nunha situación inédita de vulnerabilidade (o desemprego xuvenil superou en febreiro o 50%) e condenaron a miles de persoas á exclusión, a depresión e a enfermidades físicas e mentais de diferente tipo. Non é estraño, de feito, que estas políticas se impulsasen de maneira furtiva, bordeando o delito e en contra, a miúdo, da legalidade internacional e europea en materia de dereitos humanos, así como da propia Constitución española, modificada sen vergoña na cara para garantir a "prioridade absoluta" do pago de débeda aos acredores. En realidade, a recente reforma laboral podía verse como o último capítulo, seica un dos máis flagrantes, dunha longa serie de ilegalidades denunciadas pola sociedade civil e constatadas, cada vez máis, por diferentes órganos institucionais [1].
A pesar da evidencia, o establishment mediático non tivo o menor empacho en presentar a folga como humus propicio para a proliferación de burócratas e vándalos. É verdade que os secretarios xerais de CCOO e UXT puideron explicar as súas razóns en diferentes estudios de televisión. Con todo, os seus puntos de vista recibiron unha cobertura marxinal en relación coa que recibiron os partidarios da reforma, e non hai por que supor que reflectisen os puntos de vista de todas as persoas traballadoras ou do cinco millóns que nin sequera teñen un emprego. Esta asimetría informativa e a diferente capacidade de expresión duns e outros explican, en todo caso, que a presidenta da Comunidade de Madrid, Esperanza Aguirre, permitísese deslizar, sen contención algunha, que as folgas constitucionalmente amparadas eran actos ilegais, ou que o xornalista Federico Jiménez Losantos pedise directamente que a policía arroiase aos piquetes [2].
Da mesma maneira, o contexto de precariedade creado permitiu a moitos empresarios esixir aos seus traballadores que declarasen días antes, ante os seus xefes e compañeiros, se pretendían acollerse ou non ao dereito á folga. Nun ordenamento xurídico medianamente razoábel, estes auténticos piquetes coactivos deberían ser obxecto das sancións que o art. 315.1 do Código penal prevé para quen "mediante engano ou abuso de situación de necesidade impediren ou limitaren o exercicio da liberdade sindical ou o dereito de folga". O que ocorreu, no entanto, foi o contrario. O apartado 3 do devandito artigo, un precepto herdado da lexislación franquista e mantido polo chamado Código da democracia de 1995, invocouse contra os traballadores e manifestantes, e serviu, do mesmo xeito que os delitos de desordes públicas e atentados contra a autoridade, para detelos e encarceralos de forma arbitraria [3].
Durante as primeiras horas de folga, un empresario hostaleiro de Torrelavega atacou cun puñal a unha traballadora de CC.OO que formaba parte dun piquete informativo. A agresión produciulle un golpe na fronte e dous cortes, un na man dereita e outro no nariz, polos que recibiu trece puntos de sutura. O empresario, vitoreado en máis dun medio de comunicación, foi detido e liberado pouco despois, sen que a Fiscalía solicitase ningunha medida máis. Moi diferente foi a sorte de tres novos manifestantes detidos e encarcerados esa mesma mañá, acusados de cruzar colectores na rúa, queimalos e cortar o tráfico, delitos polos que nin sequera terían que entrar en prisión. Dous deles eran estudantes e non tiñan antecedentes penais. O terceiro participara nas protestas ante o Parlamento catalán do 15 de xuño mais non fora xulgado aínda. Ningún puido participar nos incidentes máis graves que se viviron pola tarde na cidade e que acabaron con 80 feridos. A pesar diso, a maxistrada que instruía o caso decidiu, a instancias do fiscal, ditarlles prisión preventiva. Para xustificar a súa decisión alegou que podían reincidir noutras citas de risco, como o día do Traballador, a reunión do Banco Central Europeo prevista o 3 de maio ou o partido de fútbol entre o FC Barcelona e o R.D. Espanyol.
Esta dupla vara, claramente contraria á presunción de inocencia e ao propio exercicio do dereito de folga e de manifestación, reflicte a escasa predisposición garantista de boa parte dos fiscais e xuíces penais e a súa tendencia a tratar a violencia física sobre unha folguista ou sobre un manifestante con moito menos severidade que a exercida sobre un colector ou que un corte de rúas. En todo caso, é evidente que este tipo de decisións sería impensábel sen o clima de alarma xerado por uns medios que se centran sen pudor nos feitos violentos xerados polos manifestantes, á vez que quitan toda responsabilidade ás brutais intervencións policiais que os azuzan e que acaban afectando a quen non interveñen neles. O 29-M, de feito, a policía catalá recorreu a gases lacrimóxenos, unha arma que non se utilizaba hai 16 anos. A resultas da violencia policial, dúas persoas tiveron que ser operadas de urxencia do bazo e outras dúas recibiron impactos de balas de goma nun ollo, con altas probabilidades de perda de visión. En total, o servizo de emerxencias médicas atendeu a unhas 80 persoas, das cales 23 foron derivadas a diversos hospitais [4].
Ningún destes feitos, con todo, impediu ao ministro Fernández Díaz anunciar con afectado aire marcial que a súa prioridade era impulsar antes de xuño unha reforma do Código Penal que igualase as penas da "kale borroka" coas da "guerrilla urbana" aumentando dun a dous os anos de prisión. Isto permitiría a Fiscalía solicitar medidas de prisión provisional e aos xuíces acordalas. O conselleiro catalán Felip Puig, partidario de ir "máis aló da lei" se fose necesario, non tardou en sumarse. O seu instinto nacionalista levoulle a distanciarse da equiparación do "vandalismo catalán" co "terrorismo vasco", mais non tivo reparo en defender a aplicación de penas equivalentes. Na rolda de prensa posterior á reunión do Consello de Goberno, Puig envalentonouse e propuxo unha andanada de medidas pensadas para afrontar a nova hipótese de conflito: máis unidades antidisturbios, cámaras de vídeovigililancia nos espazos públicos onde se convocan a maioría de concentracións, designación dun fiscal especializado en "guerrilla urbana", apertura dun sitio web no que os "cidadáns" poidan delatar aos "antisistema", reformas á lei de enxuizamento criminal para que se poidan aplicar aos "radicais" ordes de afastamento e traballos en beneficio da comunidade, revisión de leis como as de reunión e seguridade pública para tipificar a ocultación da identidade ou a posesión de elementos de risco cando se participa nas protestas públicas.
Estes anuncios encerran unha boa dose de cinismo e populismo pour a galerie. Intensificar a vixilancia sobre manifestantes e esixirlles ir de cara resulta unha proposta hipócrita en boca dun conseller que boicoteou de maneira indisimulada os controis garantistas sobre as forzas de seguridade, desde a existencia de cámaras nas comisarías, até o deber dos antidisturbios ir debidamente identificados durante as manifestacións. Tamén queda por ver como pensa financiar estas políticas un goberno que hai pouco foi apupado polos propios Mossos d'Esquadra, que chegaron a encerrarse en comisarías para protestar polos seus recortes salariais. O certo, en calquera caso, é que as propostas securitarias do PP e de CiU reflicten unha deriva cada vez máis autoritaria rifada co exercicio de liberdades básicas e moi pouco sensíbeis ao malestar social que comeza a estenderse na sociedade. Admítao ou non o goberno, o 98,8 por cento das manifestacións do 29-M transcorreron de maneira pacífica e exhibiron unha paciencia social admirábeñ se se consideran os datos obxectivos da situación económica. É verdade que os actos de violencia, sobre todo en Barcelona, creceron. Porén reducilos a simple "vandalismo" é unha perspectiva errónea, que explica moi pouco o sucedido. Como o propio goberno recoñeceu, o groso destes actos consistiu en pintadas contra as entidades financeiras e en queimas de colectores realizadas co obxecto de interromper o tráfico. Non se tratou, por tanto, de simple "vandalismo" illado e indiscriminado, senón de accións limitadas que perseguían un obxectivo claramente político: chamar a atención do resto da poboación e lanzar unha mensaxe sobre os causantes reais da vulneración masiva de dereitos que se está producindo.
Estas accións poden criticarse desde moitos puntos de vista. Pero é inadmisíbel facelo sen ter en conta algúns aspectos básicos. Ante todo, que a folga é un dereito fundamental cun compoñente intrinsecamente conflitivo, que non por casualidade recibe no sistema constitucional unha protección prevalente á doutros como a liberdade de empresa ou como o dereito a circular durante un lapso de tempo razoábel (ver, por exemplo, a Sentenza 80/2005 do tribunal constitucional). Isto quere dicir que dentro do respecto ao principio de intervención mínima e para evitar a punición de ilícitos de bagatela, solúbeis no marco da lexislación laboral, evitarase, xa en sede lexislativa, a tentación de reprimir penalmente os supostos de intimidación moral sobre quen non queren iniciar ou continuar a folga, como tamén advertía o tribunal constitucional na súa sentenza 254/1988. Doutra banda, o xuízo sobre o tipo de conflitividade e as desordes que a folga ou a protesta poidan xerar non pode deslindarse da violencia provocada por outros axentes cunha maior posición de forza, como os propios empresarios ou como a policía, proclive a utilizar técnicas de infiltración que non poucas veces teñen por obxecto azuzar aos propios manifestantes. Finalmente, é obvio que moitos dos disturbios producidos o 29-M están estreitamente vinculados a un escenario feroz de precarización e de recortes de dereitos, no que acceso aos medios masivos de comunicación dos grupos máis prexudicados, como os mozos, é notabelmente restrinxido. Unha visión garantista da liberdade de expresión e da doutrina do foro público, cun forte arraigamento, por exemplo, na xurisprudencia norteamericana, obrigaría a ter en conta estes elementos á hora de abordar estas desordes, sobre todo no ámbito penal [6].
Nada disto supón, obviamente, xustificar o inxustificábel ou outorgar unha carta branca a calquera acto violento. Pola contra, son múltiplas as razóns que existen, nun contexto como o actual, para defender formas de protesta creativas e non violentas: desde o seu carácter máis respectuoso cos dereitos e puntos de vista dos demais, sexan críticos ou non, até a súa capacidade para xerar masividade e atraer a grupos de idade variados e plurais, pasando pola súa maior efectividade para deixar en evidencia a violencia arbitraria do poder. En todo caso, esta defensa da non violencia non pode facerse desde un limbo, descoñecendo, como xa está a ocorrer en Grecia, a existencia de situacións extremas que empuxan aos máis vulnerábeis a formas desesperadas de protesta e de expresión do malestar [6].
Nun intento torpe de exhumar as conspirativas teorías do terrorismo e a súa contorna, o ministro Fernández Díaz e o conseller Felip Puig pretenden reducir o enorme drama social producido polas políticas en curso a un simple capricho de rapazada "antisistema" que actúan con "impunidade" grazas a unha "mal entendida cultura da permisividade e a tolerancia" e á "conivencia" de moitos "intelectuais e políticos". O certo, con todo, é que son os propios poderes públicos e os poderes privados aos que amparan os que, de maneira impune, decidiron descoñecer de maneira aberta o sistema de dereitos e garantías cos que en teoría se comprometeron e aos que non dubidan en apelar para atribuírse lexitimidade. Cando esta auténtica actitude "antisistema" se converte en regra, e cando os propios responsábeis insisten en que non se moverán un chisco da súa posición porque as políticas que aplican véñenlles dadas de espazos que nin sequera contan con lexitimidade electoral, a protesta na rúa e nas prazas convértese na última trincheira de defensa dunha legalidade garantista constantemente atacada [7]. Tras as eleccións en Andalucía e Asturias, e sobre todo despois da xornada do 29-M, esta liña defensiva, democrática, ampliouse e volveuse máis plural. Protexela contra a fragmentación e a criminalización, e darlle dimensión europea, segue sendo unha das tarefas vitais do momento.
NOTAS:
Conscientes de que as últimas mobilizacións reflicten un malestar social que irá en ascenso, o goberno e os seus aliados despregaron unha dupla actitude fronte á xornada. Para non alterar aos mercados e ás institucións europeas, tentaron minimizala, resaltando a "normalidade" da xornada e a escasa efectividade da folga nos ámbitos máis precarizados da economía. Ao mesmo tempo, esaxeraron e distorsionado os disturbios producidos, proxectando unha imaxe de caos e violencia que autorice unha maior dureza punitiva de face ao futuro. Nunha complicidade que evoca momentos turbios da historia, o ministro do interior do Partido Popular, Jorge Fernández Díaz, e o seu homólogo en Catalunya, Felip Puig, denunciaron ao tempo que o 29-M se produciu un "salto cualitativo". Devandito salto non radicaba, obviamente, nas masivas e pacíficas manifestacións da tarde, senón no "vandalismo rueiro" a cargo duns grupos "antisistema" integrados cada vez máis por "estranxeiros" e mirados con "simpatía" e "conivencia" por moitos intelectuais e políticos.
Esta construción xenófoba dun inimigo alleo ao país, apoiado por críticos frívolos carentes de todo realismo, ten desde logo o seu sentido. De entrada, serve para desviar a atención sobre os novos recortes de dereitos esixidos polo Directorio europeo e que tanto polo goberno español como polo catalán están dispostos a aplicar con obediencia, resignan lenemente toda flama patriótica. Pero sobre todo, contribúe a crear un clima de alarma social favorable ao anuncio ou a adopción de medidas de "man dura" contra quen se resistan a encartarse ao curso das cousas: desde a limitación dos piquetes informativos e do dereito de manifestación, até a esixencia dunha maior contundencia policial e xudicial contra violentos reais ou imaxinarios, pasando pola asimilación das protestas a condutas terroristas ou proto-terroristas.
Como é usual, tanto o diagnóstico dos feitos como a terapia esixida parten dunha descrición deliberadamente distorsionada do fenómeno da violencia. Ante todo, porque pretende que a precarización, os desaloxos, os recortes sanitarios, educativos e salariais, o aumento nos prezos do transporte público, a asunción pública da débeda privada de grandes empresas e entidades financeiras, ou os privilexios outorgados aos evasores fiscais, non sexan vistos como un obsceno exercicio de violencia pública e privada sobre grande parte da poboación, senón como medidas técnicas, como a única alternativa para obter financiamiento externo e evitar o rescate. O certo, con todo, é que até os propios membros do goberno comezan a recoñecer que ditas medidas non beneficiaron á maioría da poboación ou á recuperación económica nin o farán no futuro inmediato. Pola contra, profundaron o clima recesivo, colocaron aos máis novos nunha situación inédita de vulnerabilidade (o desemprego xuvenil superou en febreiro o 50%) e condenaron a miles de persoas á exclusión, a depresión e a enfermidades físicas e mentais de diferente tipo. Non é estraño, de feito, que estas políticas se impulsasen de maneira furtiva, bordeando o delito e en contra, a miúdo, da legalidade internacional e europea en materia de dereitos humanos, así como da propia Constitución española, modificada sen vergoña na cara para garantir a "prioridade absoluta" do pago de débeda aos acredores. En realidade, a recente reforma laboral podía verse como o último capítulo, seica un dos máis flagrantes, dunha longa serie de ilegalidades denunciadas pola sociedade civil e constatadas, cada vez máis, por diferentes órganos institucionais [1].
A pesar da evidencia, o establishment mediático non tivo o menor empacho en presentar a folga como humus propicio para a proliferación de burócratas e vándalos. É verdade que os secretarios xerais de CCOO e UXT puideron explicar as súas razóns en diferentes estudios de televisión. Con todo, os seus puntos de vista recibiron unha cobertura marxinal en relación coa que recibiron os partidarios da reforma, e non hai por que supor que reflectisen os puntos de vista de todas as persoas traballadoras ou do cinco millóns que nin sequera teñen un emprego. Esta asimetría informativa e a diferente capacidade de expresión duns e outros explican, en todo caso, que a presidenta da Comunidade de Madrid, Esperanza Aguirre, permitísese deslizar, sen contención algunha, que as folgas constitucionalmente amparadas eran actos ilegais, ou que o xornalista Federico Jiménez Losantos pedise directamente que a policía arroiase aos piquetes [2].
Da mesma maneira, o contexto de precariedade creado permitiu a moitos empresarios esixir aos seus traballadores que declarasen días antes, ante os seus xefes e compañeiros, se pretendían acollerse ou non ao dereito á folga. Nun ordenamento xurídico medianamente razoábel, estes auténticos piquetes coactivos deberían ser obxecto das sancións que o art. 315.1 do Código penal prevé para quen "mediante engano ou abuso de situación de necesidade impediren ou limitaren o exercicio da liberdade sindical ou o dereito de folga". O que ocorreu, no entanto, foi o contrario. O apartado 3 do devandito artigo, un precepto herdado da lexislación franquista e mantido polo chamado Código da democracia de 1995, invocouse contra os traballadores e manifestantes, e serviu, do mesmo xeito que os delitos de desordes públicas e atentados contra a autoridade, para detelos e encarceralos de forma arbitraria [3].
Durante as primeiras horas de folga, un empresario hostaleiro de Torrelavega atacou cun puñal a unha traballadora de CC.OO que formaba parte dun piquete informativo. A agresión produciulle un golpe na fronte e dous cortes, un na man dereita e outro no nariz, polos que recibiu trece puntos de sutura. O empresario, vitoreado en máis dun medio de comunicación, foi detido e liberado pouco despois, sen que a Fiscalía solicitase ningunha medida máis. Moi diferente foi a sorte de tres novos manifestantes detidos e encarcerados esa mesma mañá, acusados de cruzar colectores na rúa, queimalos e cortar o tráfico, delitos polos que nin sequera terían que entrar en prisión. Dous deles eran estudantes e non tiñan antecedentes penais. O terceiro participara nas protestas ante o Parlamento catalán do 15 de xuño mais non fora xulgado aínda. Ningún puido participar nos incidentes máis graves que se viviron pola tarde na cidade e que acabaron con 80 feridos. A pesar diso, a maxistrada que instruía o caso decidiu, a instancias do fiscal, ditarlles prisión preventiva. Para xustificar a súa decisión alegou que podían reincidir noutras citas de risco, como o día do Traballador, a reunión do Banco Central Europeo prevista o 3 de maio ou o partido de fútbol entre o FC Barcelona e o R.D. Espanyol.
Esta dupla vara, claramente contraria á presunción de inocencia e ao propio exercicio do dereito de folga e de manifestación, reflicte a escasa predisposición garantista de boa parte dos fiscais e xuíces penais e a súa tendencia a tratar a violencia física sobre unha folguista ou sobre un manifestante con moito menos severidade que a exercida sobre un colector ou que un corte de rúas. En todo caso, é evidente que este tipo de decisións sería impensábel sen o clima de alarma xerado por uns medios que se centran sen pudor nos feitos violentos xerados polos manifestantes, á vez que quitan toda responsabilidade ás brutais intervencións policiais que os azuzan e que acaban afectando a quen non interveñen neles. O 29-M, de feito, a policía catalá recorreu a gases lacrimóxenos, unha arma que non se utilizaba hai 16 anos. A resultas da violencia policial, dúas persoas tiveron que ser operadas de urxencia do bazo e outras dúas recibiron impactos de balas de goma nun ollo, con altas probabilidades de perda de visión. En total, o servizo de emerxencias médicas atendeu a unhas 80 persoas, das cales 23 foron derivadas a diversos hospitais [4].
Ningún destes feitos, con todo, impediu ao ministro Fernández Díaz anunciar con afectado aire marcial que a súa prioridade era impulsar antes de xuño unha reforma do Código Penal que igualase as penas da "kale borroka" coas da "guerrilla urbana" aumentando dun a dous os anos de prisión. Isto permitiría a Fiscalía solicitar medidas de prisión provisional e aos xuíces acordalas. O conselleiro catalán Felip Puig, partidario de ir "máis aló da lei" se fose necesario, non tardou en sumarse. O seu instinto nacionalista levoulle a distanciarse da equiparación do "vandalismo catalán" co "terrorismo vasco", mais non tivo reparo en defender a aplicación de penas equivalentes. Na rolda de prensa posterior á reunión do Consello de Goberno, Puig envalentonouse e propuxo unha andanada de medidas pensadas para afrontar a nova hipótese de conflito: máis unidades antidisturbios, cámaras de vídeovigililancia nos espazos públicos onde se convocan a maioría de concentracións, designación dun fiscal especializado en "guerrilla urbana", apertura dun sitio web no que os "cidadáns" poidan delatar aos "antisistema", reformas á lei de enxuizamento criminal para que se poidan aplicar aos "radicais" ordes de afastamento e traballos en beneficio da comunidade, revisión de leis como as de reunión e seguridade pública para tipificar a ocultación da identidade ou a posesión de elementos de risco cando se participa nas protestas públicas.
Estes anuncios encerran unha boa dose de cinismo e populismo pour a galerie. Intensificar a vixilancia sobre manifestantes e esixirlles ir de cara resulta unha proposta hipócrita en boca dun conseller que boicoteou de maneira indisimulada os controis garantistas sobre as forzas de seguridade, desde a existencia de cámaras nas comisarías, até o deber dos antidisturbios ir debidamente identificados durante as manifestacións. Tamén queda por ver como pensa financiar estas políticas un goberno que hai pouco foi apupado polos propios Mossos d'Esquadra, que chegaron a encerrarse en comisarías para protestar polos seus recortes salariais. O certo, en calquera caso, é que as propostas securitarias do PP e de CiU reflicten unha deriva cada vez máis autoritaria rifada co exercicio de liberdades básicas e moi pouco sensíbeis ao malestar social que comeza a estenderse na sociedade. Admítao ou non o goberno, o 98,8 por cento das manifestacións do 29-M transcorreron de maneira pacífica e exhibiron unha paciencia social admirábeñ se se consideran os datos obxectivos da situación económica. É verdade que os actos de violencia, sobre todo en Barcelona, creceron. Porén reducilos a simple "vandalismo" é unha perspectiva errónea, que explica moi pouco o sucedido. Como o propio goberno recoñeceu, o groso destes actos consistiu en pintadas contra as entidades financeiras e en queimas de colectores realizadas co obxecto de interromper o tráfico. Non se tratou, por tanto, de simple "vandalismo" illado e indiscriminado, senón de accións limitadas que perseguían un obxectivo claramente político: chamar a atención do resto da poboación e lanzar unha mensaxe sobre os causantes reais da vulneración masiva de dereitos que se está producindo.
Estas accións poden criticarse desde moitos puntos de vista. Pero é inadmisíbel facelo sen ter en conta algúns aspectos básicos. Ante todo, que a folga é un dereito fundamental cun compoñente intrinsecamente conflitivo, que non por casualidade recibe no sistema constitucional unha protección prevalente á doutros como a liberdade de empresa ou como o dereito a circular durante un lapso de tempo razoábel (ver, por exemplo, a Sentenza 80/2005 do tribunal constitucional). Isto quere dicir que dentro do respecto ao principio de intervención mínima e para evitar a punición de ilícitos de bagatela, solúbeis no marco da lexislación laboral, evitarase, xa en sede lexislativa, a tentación de reprimir penalmente os supostos de intimidación moral sobre quen non queren iniciar ou continuar a folga, como tamén advertía o tribunal constitucional na súa sentenza 254/1988. Doutra banda, o xuízo sobre o tipo de conflitividade e as desordes que a folga ou a protesta poidan xerar non pode deslindarse da violencia provocada por outros axentes cunha maior posición de forza, como os propios empresarios ou como a policía, proclive a utilizar técnicas de infiltración que non poucas veces teñen por obxecto azuzar aos propios manifestantes. Finalmente, é obvio que moitos dos disturbios producidos o 29-M están estreitamente vinculados a un escenario feroz de precarización e de recortes de dereitos, no que acceso aos medios masivos de comunicación dos grupos máis prexudicados, como os mozos, é notabelmente restrinxido. Unha visión garantista da liberdade de expresión e da doutrina do foro público, cun forte arraigamento, por exemplo, na xurisprudencia norteamericana, obrigaría a ter en conta estes elementos á hora de abordar estas desordes, sobre todo no ámbito penal [6].
Nada disto supón, obviamente, xustificar o inxustificábel ou outorgar unha carta branca a calquera acto violento. Pola contra, son múltiplas as razóns que existen, nun contexto como o actual, para defender formas de protesta creativas e non violentas: desde o seu carácter máis respectuoso cos dereitos e puntos de vista dos demais, sexan críticos ou non, até a súa capacidade para xerar masividade e atraer a grupos de idade variados e plurais, pasando pola súa maior efectividade para deixar en evidencia a violencia arbitraria do poder. En todo caso, esta defensa da non violencia non pode facerse desde un limbo, descoñecendo, como xa está a ocorrer en Grecia, a existencia de situacións extremas que empuxan aos máis vulnerábeis a formas desesperadas de protesta e de expresión do malestar [6].
Nun intento torpe de exhumar as conspirativas teorías do terrorismo e a súa contorna, o ministro Fernández Díaz e o conseller Felip Puig pretenden reducir o enorme drama social producido polas políticas en curso a un simple capricho de rapazada "antisistema" que actúan con "impunidade" grazas a unha "mal entendida cultura da permisividade e a tolerancia" e á "conivencia" de moitos "intelectuais e políticos". O certo, con todo, é que son os propios poderes públicos e os poderes privados aos que amparan os que, de maneira impune, decidiron descoñecer de maneira aberta o sistema de dereitos e garantías cos que en teoría se comprometeron e aos que non dubidan en apelar para atribuírse lexitimidade. Cando esta auténtica actitude "antisistema" se converte en regra, e cando os propios responsábeis insisten en que non se moverán un chisco da súa posición porque as políticas que aplican véñenlles dadas de espazos que nin sequera contan con lexitimidade electoral, a protesta na rúa e nas prazas convértese na última trincheira de defensa dunha legalidade garantista constantemente atacada [7]. Tras as eleccións en Andalucía e Asturias, e sobre todo despois da xornada do 29-M, esta liña defensiva, democrática, ampliouse e volveuse máis plural. Protexela contra a fragmentación e a criminalización, e darlle dimensión europea, segue sendo unha das tarefas vitais do momento.
NOTAS:
[1] O Consell de Garanties Estatutàries de Catalunya, por exemplo, considerou inconstitucionais polo menos dous artigos do decreto lei da reforma laboral impulsada polo Goberno, vinculados coa modificación substancial das condicións de traballo e co dereito á negociación colectiva. En realidade, o Consell de Garanties, aínda que de maneira tímida, xa apuntara nun ditame anterior a posíbel inconstitucionalidade dalgúns recortes sociais impulsados polo goberno catalán. Para facelo, tivo en conta o principio de non regresividade arbitraria en materia de dereitos, un principio, en realidade, consagrado tanto polo Tribunal Europeo de Dereitos Humanos como polo propio Comité de Dereitos Económicos Sociais e Culturais de Nacións Unidas.
[2] Algúns destes feitos foron apuntados por Juan Carlos Moedeiro nunha incisiva nota de reacción á criminalización dos folguistas aparecida na súa bitácora www.comiendotierra.es
[3] Como lembran Antonio Baylos e Juan Terradillos, o actual art. 315.3 CP provén do antigo artigo 496 do vello Código Penal, introducido precisamente no medio da transición política, a través da reforma do Código Penal producida en xullo de 1976. O obxectivo declarado da norma era o de "facer fronte á crecente actividade agresiva de grupos organizados que se autodenominan piquetes de extensión de folga". Baixo ese eufemismo, o obxectivo que se buscaba era a intimidación das organizacións sindicais -entón aínda clandestinas, lémbrese que a Lei de Asociación Sindical é de abril de 1977- e dos traballadores máis activamente comprometidos con elas e especialmente reivindicativos, na organización e desenvolvemento dos piquetes de folga. Vide.http://www.uclm.es/organos/vic_investigacion/centros/celds/legislacion%20E%20XURISPRUDENCIA/NOTA%20SOBRE%20O%20ART315.pdf
[4] A arbitrariedade policial prolongaríase durante os días seguintes. En ocasión dunha protesta convocada fronte á prisión para reclamar a liberdade dalgúns dos detidos, José Miguel Esteban Lupiañez, un home con discapacidade física, foi detido mentres circulaba en cadeira en rodas. Un axente antidisturbios subiu á beirarrúa e logo de golpealo cargouno, sen cadeira, dentro dunha furgoneta policial. O detido foi trasladado á comisaría de Lles Corts, onde varias persoas tiveron que levar a cadeira de rodas. Pasadas as 11 da noite, sete persoas acudiron ao xulgado de garda da Cidade de Xustiza para interpor denuncia contra a policía autonómica polos feitos presenciados. Unha vez interposta a denuncia, o xuíz de garda comunicoulles que requiriría aos Mossos as chaves da casa do detido para que a súa compañeira, que estaba soa en casa e padecía unha grave enfermidade terminal, puidese ser atendida por un enfermeiro.
[5] Sobre esta xurisprudencia, e en xeral, sobre os diversos argumentos que abonan a consideración do dereito á protesta como "o primeiro dereito", vide. o excelente traballo de Roberto Gargarella, El derecho a la protesta, Ed. Ad hoc, Buenos Aires, 2005
[6] Calquera reflexión sobre a violencia e a non-violencia está obrigada a confrontarse, polo menos, coa mensaxe deixada polo xubilado grego de 77 anos que se suicidou fronte ao Parlamento para non verse obrigado a sobrevivir rebuscando no lixo: "O Goberno de ocupación de Tsolakoglou [en analogía ao goberno colaboracionista nazi durante a segunda guerra mundial] reduciu á nada, literalmente, a miña capacidade de supervivencia, que dependía dunha respectábel pensión que, durante máis de 35 anos, eu só (sen contribución do estado) paguei. Dado que teño unha idade na que xa non teño o poder de resistir activamente (aínda que, por suposto, non descarto que, se calquera grego empuñase un kalashnikov, eu sería o segundo en facelo), non atopo outra solución para un final digno antes de que me vexa reducido a furgar no lixo para alimentarme. Creo que os mozos sen futuro tomarán as armas algún día e colgarán aos traidores nacionais na Praza da Constitución [Praza Syntagma], igual que os italianos colgaron a Mussolini [na Piazza Poreto de Milán]"
[7] Esta idea dun dereito á resistencia constitucional e garantista foi lúcidamente defendida por Ermanno Vitale en Defenderse del poder. Por una resistencia constitucional, Trotta, Madrid, 2012.
21/03/2012
Assassinatos racistas deixam França em estado de alerta
Eduardo Febbro. Artigo tirado de Carta Maior (aqui).
Um lobo solitário, adepto da eliminação racial, assassinou a tiros quatro pessoas, três crianças e um adulto, na porta de uma escola judaica, em Toulouse, no sul da França. O indivíduo repetiu a cenografia que havia empregado entre 11 e 15 de março quando assassinou três soldados franceses de origem magrebina e feriu gravemente um quarto, oriundo das Antilhas francesas. A polícia já apurou que o criminoso usou a mesma arma nos dois atentados. Segundo adiantou o semanário Le Point, as autoridades estão buscando três militares franceses ligados a grupos neonazistas que pertenciam ao mesmo regimento que os três militares assassinados a sangue frio nas localidades de Toulouse e Montauban.
O atentado desta segunda-feira foi um ato de barbárie completo: um pouco antes das oito da manhã, o indivíduo, a bordo de uma potente motocicleta branca, chegou às portas do colégio judaico Ozar Hatora, de Tolouse. Ele disparou contra as pessoas que estavam na porta e matou a queima-roupa um professor de religião de 30 anos, suas duas filhas de três e seis anos e uma outra menina de oito anos, filha do diretor do colégio. Esta última vítima morreu nos braços de seu pai. A matança continuou logo em seguida dentro do colégio. O indivíduo entrou no colégio para perseguir os alunos, disparando para todos os lados. Outras cinco pessoas ficaram feridas, entre elas um jovem de 17 anos que se encontra em estado crítico.
O caráter racista das ações não deixa lugar a dúvidas. O até agora desconhecido matou em dois dias pessoas de origem magrebina, judeus e feriu um negro. No atentado de segunda, atirou para matar, não importando se fossem crianças ou adultos. O ministro francês do Interior, Claude Guéan, declarou que o sentimento de impunidade do assassino preocupa o governo. A descrição feita por testemunhas e as imagens registradas pelas câmeras de vigilância dão conta de um homem frio, perfeitamente treinado no uso das armas e sem qualquer compaixão. Após matar o professor, sua primeira vítima, o homem perseguiu a menina de seis anos e matou-a a tiros. “Disparou contra tudo que tinha pela frente”, disse o promotor Michel Valet. Ele tinha duas armas, uma calibre 11,43 e outra de 9 milímetros. Usou primeiro a pistola de 9 milímetros e, em seguida, sacou a outra a arma, com a qual continuou a matança. A arma calibre 11.43 foi a mesma empregada nos assassinatos dos três militares.
Nestes crimes anteriores, o homem atuou com a mesma metodologia e frieza. O semanário conservador Le Point adiantou que as investigações apontam para a participação de três militares neonazistas pertencentes ao 17º regimento de engenheiros paraquedistas de Montauban. Em 2008, o seminário satírico Le Canard Enchaêné e outros jornais publicaram uma foto na qual se viam estes militares fazendo a saudação nazista diante de uma suástica. Dois dos três militares assassinados na semana passada pertenciam a este regimento. O perfil dos três soldados neonazistas coincide com o retrato que surge dos testemunhos dos crimes: grandes, musculosos, cheios de tatuagens e vestidos com roupas pretas. Esta não é, contudo, a única pista explorada pelos investigadores.
As semelhanças entre os três assassinatos são muito eloquentes: a moto, a arma, as descrições das testemunhas e o fato de que todas as vítimas têm origem étnica e confessional distinta. O presidente francês foi imediatamente ao local dos fatos, mesma atitude tomada pelo candidato socialista François Hollande. Nicolas Sarkozy decretou um minuto de silêncio para esta terça-feira. “Toda a República francesa foi afeta por este drama abominável”, disse Sarkozy. O massacre no colégio de Toulouse interrompeu a campanha eleitoral para as eleições presidenciais do próximo 22 de abril e 6 de maio (segundo turno). A campanha entrava nesta segunda-feira em sua fase oficial com a lista final dos 10 candidatos. Sarkozy e Hollande cancelaram seus atos de campanha, que recomeçará na quarta-feira, após a realização dos funerais dos três soldados assassinados em Toulouse e Montauban.
A França entrou em alerta máximo nesta segunda-feira. O assassino segue solto. À noite, milhares de pessoas realizaram uma caminhada em Paris da Praça da República até a Praça da Bastilha. Os sete assassinatos provocaram uma sensação de horror e uma união nacional. Os crimes ocorreram em um clima exacerbado pela campanha eleitoral. Os estrangeiros tem sido alvo de incontáveis ataques por parte de candidatos como a ultradireitista Marine Le Pen e autoridades do Estado. O rosário de agressões e referências ofensivas alcançou níveis muito baixos na campanha. O gesto de um louco reclama prudência e a evitar interpretações rápidas e abusivas. A democracia racial é uma marca desses tempos, seja qual for o continente. Os fundamentalistas de todas as confissões sempre o mesmo no final: a desintegração.
O atentado desta segunda-feira foi um ato de barbárie completo: um pouco antes das oito da manhã, o indivíduo, a bordo de uma potente motocicleta branca, chegou às portas do colégio judaico Ozar Hatora, de Tolouse. Ele disparou contra as pessoas que estavam na porta e matou a queima-roupa um professor de religião de 30 anos, suas duas filhas de três e seis anos e uma outra menina de oito anos, filha do diretor do colégio. Esta última vítima morreu nos braços de seu pai. A matança continuou logo em seguida dentro do colégio. O indivíduo entrou no colégio para perseguir os alunos, disparando para todos os lados. Outras cinco pessoas ficaram feridas, entre elas um jovem de 17 anos que se encontra em estado crítico.
O caráter racista das ações não deixa lugar a dúvidas. O até agora desconhecido matou em dois dias pessoas de origem magrebina, judeus e feriu um negro. No atentado de segunda, atirou para matar, não importando se fossem crianças ou adultos. O ministro francês do Interior, Claude Guéan, declarou que o sentimento de impunidade do assassino preocupa o governo. A descrição feita por testemunhas e as imagens registradas pelas câmeras de vigilância dão conta de um homem frio, perfeitamente treinado no uso das armas e sem qualquer compaixão. Após matar o professor, sua primeira vítima, o homem perseguiu a menina de seis anos e matou-a a tiros. “Disparou contra tudo que tinha pela frente”, disse o promotor Michel Valet. Ele tinha duas armas, uma calibre 11,43 e outra de 9 milímetros. Usou primeiro a pistola de 9 milímetros e, em seguida, sacou a outra a arma, com a qual continuou a matança. A arma calibre 11.43 foi a mesma empregada nos assassinatos dos três militares.
Nestes crimes anteriores, o homem atuou com a mesma metodologia e frieza. O semanário conservador Le Point adiantou que as investigações apontam para a participação de três militares neonazistas pertencentes ao 17º regimento de engenheiros paraquedistas de Montauban. Em 2008, o seminário satírico Le Canard Enchaêné e outros jornais publicaram uma foto na qual se viam estes militares fazendo a saudação nazista diante de uma suástica. Dois dos três militares assassinados na semana passada pertenciam a este regimento. O perfil dos três soldados neonazistas coincide com o retrato que surge dos testemunhos dos crimes: grandes, musculosos, cheios de tatuagens e vestidos com roupas pretas. Esta não é, contudo, a única pista explorada pelos investigadores.
As semelhanças entre os três assassinatos são muito eloquentes: a moto, a arma, as descrições das testemunhas e o fato de que todas as vítimas têm origem étnica e confessional distinta. O presidente francês foi imediatamente ao local dos fatos, mesma atitude tomada pelo candidato socialista François Hollande. Nicolas Sarkozy decretou um minuto de silêncio para esta terça-feira. “Toda a República francesa foi afeta por este drama abominável”, disse Sarkozy. O massacre no colégio de Toulouse interrompeu a campanha eleitoral para as eleições presidenciais do próximo 22 de abril e 6 de maio (segundo turno). A campanha entrava nesta segunda-feira em sua fase oficial com a lista final dos 10 candidatos. Sarkozy e Hollande cancelaram seus atos de campanha, que recomeçará na quarta-feira, após a realização dos funerais dos três soldados assassinados em Toulouse e Montauban.
A França entrou em alerta máximo nesta segunda-feira. O assassino segue solto. À noite, milhares de pessoas realizaram uma caminhada em Paris da Praça da República até a Praça da Bastilha. Os sete assassinatos provocaram uma sensação de horror e uma união nacional. Os crimes ocorreram em um clima exacerbado pela campanha eleitoral. Os estrangeiros tem sido alvo de incontáveis ataques por parte de candidatos como a ultradireitista Marine Le Pen e autoridades do Estado. O rosário de agressões e referências ofensivas alcançou níveis muito baixos na campanha. O gesto de um louco reclama prudência e a evitar interpretações rápidas e abusivas. A democracia racial é uma marca desses tempos, seja qual for o continente. Os fundamentalistas de todas as confissões sempre o mesmo no final: a desintegração.
14/12/2011
Existe a presunçom de inocência?
14 Dec 2011 ⋅ Pepe Árias ⋅

Pepe Árias. Fotografia de Rute Cortiço. Artigo tirado de Tempos Dixital (aquí). O autor é membro de Causa Galiza.
A maioria dos e das galegas, como consequência do trabalho do jornalismo lumpen, seguramente pensem na eterna do algo fariam.
Porém, se recebes essa chamada dumha voz entrecurtada um triste dia no que dificilmente podes dormir, é porque o que vai para Madrid nom som apenas dous independentistas. Aparte disso, vam-se centos de conversas, de convívios… a amizade sequestrada e encadeada que nom tem direito a que um advogado de confiança supervise todo o processo.
Por outra banda, a suspeita da corrupçom chegou ao seio do BNG antes dum 20N no que a fronte rebaixou ainda mais o seu tecto eleitoral. Toda esta operaçom, orquestrada fundamentalmente por El Mundo, rematava com a demissom do deputado nacionalista Fernando Blanco. Nom sabemos o que aconteceu, que se o ministrinho, que se as gasolineiras… Mas o certo é que nesse momento Guillerme Vázquez defendeu a presunçom de inocência do deputado, já que ainda nom tivo ocasiom de defender-se diante dum tribunal. Porém, num programa matutino da TVG, canal que pagamos todas e todos, umha companheira de Blanco nom dava a mesma licença para os seis independentistas detidos, quatro deles encarcerados, na semana passada neste país. Nom se trata de apoiar nengumha atitude que, por outra banda, ainda está sem provar. Tampouco se trata de cuspir o discurso de Ceivar na declaraçom. Para ser um simples democrata, na acepçom burguesa da palavra, chega com dizer que, segundo a lei e a justiça espanhola, Teto, Eduardo, Cata, Jessi, Maria e Antom som inocentes até que se demonstre o contrário. Pola contra, um alcalde do PSOE falou dumha forma muito mais contundente: dixo que esta questom havia que tomá-la com cautela já que umha das detidas saira absolta da mesma Audiência Nacional que hoje a julga. Quase nada.
Questons como, por exemplo, a presunçom de inocência, só podem existir se é a sociedade galega quem as defende. O pior do bipartito hoje nom é o desengano dumha massa de votantes, se nom a crença de que o BNG pode ser um partido de ordem e progresso. O poder pode vir de muitas partes, ou do poder popular ou das elites. A segunda opçom fica desativada na Galiza, pola sua própria composiçom social. Porém, Ana Pontón comporta-se como Atutxa porque pensa que tem o poder, e nesse mesmo momento olvida, se é que algumha vez a conheceu, umha máxima de Marx: quando dous direitos colisionam ganha sempre a força. E sentido-o muito por ela mas com 11 por cento poderá-se fazer “muita política” de gestom, mas nom se tem nadinha de poder.
Nestes tempos de crise o jurista nacionalsocialista Carl Schmitt pode dar-nos umha chave fundamental: o direito constitucional configura-se nos momentos onde existe um estado de exceçom ou um estado de guerra. Nom podemos olvidar esta máxima para analisar a detençom de militantes independentistas, mas nom só: o trato aos migrantes ilegais, a ocupaçom do espaço público ou mesmo a sentença do Valedor do Povo contra um livro de texto no que se di que o galego é a língua própria da Galiza som consequências dum novo marco, criado graças á desativaçom popular. E nom podemos olvidar que o Maquiavelo do S.XX, que seguramente exerceu a sua maior influença na Espanha franquista, apartou-se do partido nazi porque discrepava do conceito de revoluçom. Para ele, o triunfo do fascismo passava por esvaziar de conteúdo o Estado liberal. E enquanto Pontón joga a ser Atutxa parece que nessas andam.
07/12/2011
Caza de bruxas e criminalización mediática do independentismo galego
Raul Asegurado Pérez, Manoel Santos e Antom Fente Parada.
As recentes detencións de persoas ligadas co independentismo galego e os movementos sociais impélennos a manifestar a nosa preocupación polo emprego do “terrorismo” como arma do Estado español para cauterizar o tecido social da nosa nación.
Non é a primeira, nin a última vez, que o poder emprega a pantasma do terrorismo para atacar todo tecido social que se move nas marxes do sistema e farao con máis forza agora que a toupa voltou emerxer con forza o 15 de marzo e que a deslexitimidade e descomponsición da II Restauración borbónica chegou ao paroxismo.
Acusan de terrorista ao redactor do Novas da Galiza Antom Santos, historiador e activista social sempre disposto á entrega de tempo de traballo gratuíto por Galiza, porque dispuña de armas de destrución maciza, como Hussein cando o de Iraque: un computador portatil e dun lapis de memoria. Ou que los dos nuevos detenidos escondían en su casa ocho litros de gasolina, un tratamento mediático sensacionalista, carente de rigor e vomitivo. Se esas son as acusacións e se as distintas versións se contradín a cada paso e repetin a verdade oficial orwelliana estamos dentro do que rezaba aquela pintada nunha parede Compostelana: todos terroristas, nadie es inocente.
A Radio Galega dedicou dous dos catro parágrafes da nova a repasar a historia do EGPGC, como se cando se menciona a Fraga a metade do tempo se fixera referencia ao seu pasado fascista. Amais. as versións do nº de detidos, lugar, causas, etc. defiren uns a outros medios, mais o que non varía é a criminalización dos detidos e a anulación dalgo fundamental: a presunción de inocencia. EL País, antes de rectificalo, titulaba así a nova: Detenidos en Vigo dos terroristas que atentaron contra la casa de Fraga. Co paso das horas outros medios informaban que ían atentar contra intereses de la Xunta ou contra os príncipes de Asturias. Segundo La Voz de Galicia: La policia fustra en A Coruña atentado horas antes de la llegada de los príncipes. Simple especulación mediática.
Ao tempo esquecen eses medios de (in)comunicación, completamente manipulados e verticais, a violencia cotiá exercida sen ningunha caste de pudor polo sistema sobre os traballadores, sobre as persoas sen teito (dúas delas mortas n’A Coruña na semana pasada), sobre as mulleres, sobre os sen papeis, sobre os desempregados, sobre unha mocidade sen futuro... e así seguido.
Na historia do nacionalismo galego é unha constante o ataque á sociedade civil máis consciente do país e, como demostrou o caso Egunkaria en Euskal Herria, o terrorismo é o mellor escudo para acometer esta empresa de demolición sistemática e de criminalización da sociedade civil e dos centros sociais:
Agora aquel vello Tribunal de Orde Pública metamorfoseuse en Audiencia Nacional sendo os detidos que non sexan postos en liberdade xulgados alí e podendo esperar tres anos polo xuízo, con probabilidade moitos serán absoltos, mais a imprensa non vai dedicarlle o tempo nin a campaña que si dedicaron as súas detencións. A perversa Lei antiterrorista non aforra na incomunicación e dispersión de reclusos moitas veces inocentes, mais criminalizados por un circo mediático que sospeitamos vai ser cada vez máis frecuente. A día 6 de decembro catro dos detidos ingresan en prisión seguindo incomunicados, mentres que a única proba incriminatoria contra Santos e Osorio é que os seus carnets de conducir nun trasteiro dos rexistrados e unha garrafa de gasolina na garaxe que agora se sabe estaba baleira.
De feito, aí está por exemplo o caso de Cata Alonso. Detida e posta en liberdade sen cargos após tres días de incomunicación en Madrid. Ningún medio ractificou nada cando a acusaron de terrorista o día que foi detida e non pode ser terrorista nin culpábel de nada quen é detida sen cargos. Esta Lei antiterrorista leva por diante a quen sexa.
Vaia por diante, no entanto, que os asinantes deste documento non defendemos a loita armada e acreditamos na política por medios pacíficos. Como Lenin indicaba «non se pode basear unha táctica revolucionaria apenas nun sentimento revolucionario. A táctiva debe ser trazada a sangue frío, cunha obxectividade rigorosa, tendo en conta todas as forzas de clase no Estado en cuestión (e até en todos os Estados que o rodean e en todos os Estados, á escala mundial) e tamén a experiencia dos movementos revolucionarios» (2). Precisamente unha das chaves para a repolitización da sociedade no 15-m foi o seu carácter pacífico, aínda cando os corpos represivos exerceran a violencia por veces sobre el, ou aínda cando se desaloxa a Sala Yago e a presenza de líquidos (lixivia do Froid) é aprobeitada pola versión do Grande Irmán para defender que tiñan cócteles molotov.
No contexto actual a esquerda nacionalista basca nunca avanzou como agora, cando meteu en cintura os seus “militares”, cando o poder civil e o movemento transformador emerxeron en sintonía co coa dirección política do movemento, sen vasalaxes a ningunha loita armada que demostrou facer máis dano que outra cousa. Resistencia Galega, se realmente existe como entramado, nin ten base social nin beneficia en nada ao medre da consciencia nacional nin á loita pola emancipación social e nacional do pobo galego. Máxime cando a historia doutras organizacións semellantes demostrou estar inzada de infiltrados que rematan por perxudicar ao movemento civil e que en nada melloran as condicións materiais de existencia das xentes do común. O Estado social está sendo remudado polo estado penal, mais aínda hai liberdades e non un contexto social de violencia revolucionaria, que, en todo caso -e véxase hoxe Grecia-, non é cousa dunha elite ou vangarda de ningún tipo.
Porén as actuais detencións semella que aproveitan a existencia do explosivo de Eduardo Vigo Domínguez para reprimir o independentismo en xeral, atacando a membros de Causa Galiza e persoas como Antom Santos e María Osorio cunha lexislación brutal que prolonga as detencións e crea espazos de impunidade para a tortura e os maos tratos. Ao tempo criminalízanse os centros sociais coa policia ás portas para criminalizalos perante a sociedade e precintiar algúns sen orde xudiciaria. Isto é o que nós denunciamos e denunciaremos sempre, mentres o BNG mostra unha actitude ben pouco afortunada.
Raul Asegurado Pérez, Manoel Santos e Antom Fente Parada
1 Rubiralta Casas, Fermí (1998), De Castelao a Mao. O novo nacionalismo radical galego (1959-1974): orixes, configuración e desenvolvemento incial da UPG, Noia, pp. 172-173.
2 Lenine: A doença infantil do comunismo, Europa-América, Lisboa, p. 93.
Erguéstesvos cedo / aquel día. – A costume do / do traballo - / mañá – cediño / pra facernos / coa vosa / morte.
As recentes detencións de persoas ligadas co independentismo galego e os movementos sociais impélennos a manifestar a nosa preocupación polo emprego do “terrorismo” como arma do Estado español para cauterizar o tecido social da nosa nación.
Non é a primeira, nin a última vez, que o poder emprega a pantasma do terrorismo para atacar todo tecido social que se move nas marxes do sistema e farao con máis forza agora que a toupa voltou emerxer con forza o 15 de marzo e que a deslexitimidade e descomponsición da II Restauración borbónica chegou ao paroxismo.
Acusan de terrorista ao redactor do Novas da Galiza Antom Santos, historiador e activista social sempre disposto á entrega de tempo de traballo gratuíto por Galiza, porque dispuña de armas de destrución maciza, como Hussein cando o de Iraque: un computador portatil e dun lapis de memoria. Ou que los dos nuevos detenidos escondían en su casa ocho litros de gasolina, un tratamento mediático sensacionalista, carente de rigor e vomitivo. Se esas son as acusacións e se as distintas versións se contradín a cada paso e repetin a verdade oficial orwelliana estamos dentro do que rezaba aquela pintada nunha parede Compostelana: todos terroristas, nadie es inocente.
A Radio Galega dedicou dous dos catro parágrafes da nova a repasar a historia do EGPGC, como se cando se menciona a Fraga a metade do tempo se fixera referencia ao seu pasado fascista. Amais. as versións do nº de detidos, lugar, causas, etc. defiren uns a outros medios, mais o que non varía é a criminalización dos detidos e a anulación dalgo fundamental: a presunción de inocencia. EL País, antes de rectificalo, titulaba así a nova: Detenidos en Vigo dos terroristas que atentaron contra la casa de Fraga. Co paso das horas outros medios informaban que ían atentar contra intereses de la Xunta ou contra os príncipes de Asturias. Segundo La Voz de Galicia: La policia fustra en A Coruña atentado horas antes de la llegada de los príncipes. Simple especulación mediática.
Ao tempo esquecen eses medios de (in)comunicación, completamente manipulados e verticais, a violencia cotiá exercida sen ningunha caste de pudor polo sistema sobre os traballadores, sobre as persoas sen teito (dúas delas mortas n’A Coruña na semana pasada), sobre as mulleres, sobre os sen papeis, sobre os desempregados, sobre unha mocidade sen futuro... e así seguido.
Na historia do nacionalismo galego é unha constante o ataque á sociedade civil máis consciente do país e, como demostrou o caso Egunkaria en Euskal Herria, o terrorismo é o mellor escudo para acometer esta empresa de demolición sistemática e de criminalización da sociedade civil e dos centros sociais:
Na noite do 27 ao 28 de abril do mesmo ano lévase a cabo tamén a detención doutros dous mozos en Monforte, José M. Pavón González e Esther Cancio Figueiras, acusados de repartir panfletos asinados pola UPG, en relación coas mobilizacións do 1º de Maio, cargo do que serán xulgados e absoltos polo Tribunal de Orde Pública, en agosto de 1974.
A vista de todos estes feitos, a propia organización upeguista chegará a afirmar que “o réxime trata de desencadear unha acción regresiva contra nós, na medida que consideran -segundo as palabras do Xefe de brigada Político Social da Galiza- que somos unha forza política considerada como perigosa. A Garda Civil ten na Galiza o mandato de que non quere nin un só militante” (1).
Agora aquel vello Tribunal de Orde Pública metamorfoseuse en Audiencia Nacional sendo os detidos que non sexan postos en liberdade xulgados alí e podendo esperar tres anos polo xuízo, con probabilidade moitos serán absoltos, mais a imprensa non vai dedicarlle o tempo nin a campaña que si dedicaron as súas detencións. A perversa Lei antiterrorista non aforra na incomunicación e dispersión de reclusos moitas veces inocentes, mais criminalizados por un circo mediático que sospeitamos vai ser cada vez máis frecuente. A día 6 de decembro catro dos detidos ingresan en prisión seguindo incomunicados, mentres que a única proba incriminatoria contra Santos e Osorio é que os seus carnets de conducir nun trasteiro dos rexistrados e unha garrafa de gasolina na garaxe que agora se sabe estaba baleira.
De feito, aí está por exemplo o caso de Cata Alonso. Detida e posta en liberdade sen cargos após tres días de incomunicación en Madrid. Ningún medio ractificou nada cando a acusaron de terrorista o día que foi detida e non pode ser terrorista nin culpábel de nada quen é detida sen cargos. Esta Lei antiterrorista leva por diante a quen sexa.
Vaia por diante, no entanto, que os asinantes deste documento non defendemos a loita armada e acreditamos na política por medios pacíficos. Como Lenin indicaba «non se pode basear unha táctica revolucionaria apenas nun sentimento revolucionario. A táctiva debe ser trazada a sangue frío, cunha obxectividade rigorosa, tendo en conta todas as forzas de clase no Estado en cuestión (e até en todos os Estados que o rodean e en todos os Estados, á escala mundial) e tamén a experiencia dos movementos revolucionarios» (2). Precisamente unha das chaves para a repolitización da sociedade no 15-m foi o seu carácter pacífico, aínda cando os corpos represivos exerceran a violencia por veces sobre el, ou aínda cando se desaloxa a Sala Yago e a presenza de líquidos (lixivia do Froid) é aprobeitada pola versión do Grande Irmán para defender que tiñan cócteles molotov.
No contexto actual a esquerda nacionalista basca nunca avanzou como agora, cando meteu en cintura os seus “militares”, cando o poder civil e o movemento transformador emerxeron en sintonía co coa dirección política do movemento, sen vasalaxes a ningunha loita armada que demostrou facer máis dano que outra cousa. Resistencia Galega, se realmente existe como entramado, nin ten base social nin beneficia en nada ao medre da consciencia nacional nin á loita pola emancipación social e nacional do pobo galego. Máxime cando a historia doutras organizacións semellantes demostrou estar inzada de infiltrados que rematan por perxudicar ao movemento civil e que en nada melloran as condicións materiais de existencia das xentes do común. O Estado social está sendo remudado polo estado penal, mais aínda hai liberdades e non un contexto social de violencia revolucionaria, que, en todo caso -e véxase hoxe Grecia-, non é cousa dunha elite ou vangarda de ningún tipo.
Porén as actuais detencións semella que aproveitan a existencia do explosivo de Eduardo Vigo Domínguez para reprimir o independentismo en xeral, atacando a membros de Causa Galiza e persoas como Antom Santos e María Osorio cunha lexislación brutal que prolonga as detencións e crea espazos de impunidade para a tortura e os maos tratos. Ao tempo criminalízanse os centros sociais coa policia ás portas para criminalizalos perante a sociedade e precintiar algúns sen orde xudiciaria. Isto é o que nós denunciamos e denunciaremos sempre, mentres o BNG mostra unha actitude ben pouco afortunada.
Raul Asegurado Pérez, Manoel Santos e Antom Fente Parada
1 Rubiralta Casas, Fermí (1998), De Castelao a Mao. O novo nacionalismo radical galego (1959-1974): orixes, configuración e desenvolvemento incial da UPG, Noia, pp. 172-173.
2 Lenine: A doença infantil do comunismo, Europa-América, Lisboa, p. 93.
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15/11/2011
1-“Quando o juiz Felice Casson revelou a existência de Gládio...”
Daniele Ganser. Artigo tirado de aqui: http://www.voltairenet.org/Cuando-el-juez-Felice-Casson. A traduçao é de Héctor Rodríguez Vidal, membro do Grupo de trabalho da Mocidade Irmandinha. O texto en castelhano conta com várias notas que são fontes para reforçar os dados do texto, em tudo caso o tradutor decidiu não inclui-las para agilizar um texto já de por si longo. Não conviria desligar a Rede Gládio doutras manifestações que têm servido os interesses do poder nos últimos anos: o terrorismo islamista, ou o terrorismo de extrema-direita manifestamente em auge nos últimos tempos após os acontecimentos de Noruega e Alemanha.
O 31 de maio de 1972, um auto-bomba rebentou em um bosque próximo á povoação chamada Peteano, na Itália, deixando um ferido grave e um morto entre os carabineros, a polícia uniformada italiana. Os carabineiros tinham chegado ao lugar após receber um telefonema telefónico anónimo. Ao inspeccionar um auto Fiat 500 ali abandonado, um dos carabineiros levantou o capô, produzindo assim a explosão.
Dois dias depois, um novo telefonema anónimo reclamava a autoria do atentado em nome das Brigadas Vermelhas, grupúsculo terrorista que tratava naquele tempo de romper o equilíbrio do poder na Itália mediante a realização de tomadas de reféns e de assassinatos de altas personagens do Estado. A polícia voltou-se imediatamente para a esquerda italiana e encarcerou a cerca de 200 comunistas. Durante mais de 10 anos, os italianos viveram convencidos de que o acto terrorista de Peteano tinha sido obra das Brigadas Vermelhas.
Posteriormente, em 1984, Felice Casson, um juiz italiano, decidiu reabrir o caso já que lhe intrigavam toda uma série de irregularidades e falsificações cometidas ao redor do drama de Peteano. O juiz Felice Casson descobriu que a polícia não tinha pesquisado o lugar dos factos. Também reparou em que o relatório que tinha concluído naquele tempo que os explosivos utilizados eram os mesmos que utilizavam tradicionalmente as Brigadas Vermelhas era com efeito uma falsificação.
Marco Morin, um especialista em explosivos da polícia italiana, tinha proporcionado intencionalmente conclusões falsas. Morin era membro da organização italiana de extrema direita «Ordine Nuovo» e, no contexto de guerra fria, tinha contribuído assim ao que ele considerava uma luta legítima contra a influência dos comunistas italianos. O juiz Casson conseguiu provar que, ao invés do que tinha concluído Morin, o explosivo utilizado em Peteano era o C4, a substância explosiva mais poderosa daquele então e que também fazia parte do arsenal das forças da OTAN.
«Simplesmente quis arrojar uma nova luz sobre anos de mentiras e segredos. Isso é tudo», declarou posteriormente o juiz Casson aos jornalistas que o interrogavam em seu minúsculo escritório do palácio de justiça, junto à lagoa de Venécia. «Queria que, por uma vez, os italianos soubessem a verdade.»
O 24 de fevereiro de 1972, cerca de Trieste, um grupo de carabineiros descobre por acaso um escondite de armas cheio de munições, armas e explosivo do tipo C4, idêntico ao utilizado em Peteano. Os polícias estavam convencidos de ter descoberto uma rede criminosa. Anos mais tarde, a investigação do juiz Casson permitiu determinar que se tratava em realidade de um dos centos de escondites subterrâneos criados pelo exército secreto do chamado stay-behind, estrutura que responde às ordens da OTAN e que se conhece na Itália pela apelação codificada de Gladio (do latín Gladius, denominación da espada curta em uso na Roma da antigüedade). Casson percebeu que os serviços secretos do exército italiano e o governo daquela época se tinham esforçado consideravelmente por manter em segredo a descoberta de Trieste bem como seu contexto estratégico.
Ao prosseguir sua investigação sobre os estranhos casos de Peteano e Trieste, o magistrado descobriu com assombro, não a mão da esquerda italiana senão a dos grupúsculos de extrema direita e dos serviços secretos do exército depois do atentado de 1972. A investigação do juiz revelou a existência de uma estreita colaboração entre a organização de extrema direita Ordine Nuovo e o SID (Servizio Informazioni Difusa), ou seja os serviços secretos do exército italiano. Ordine Nuovo e o SID tinham preparado juntos o atentado de Peteano, e depois tinham acusado aos militantes da extrema esquerda italiana, as Brigadas Vermelhas.
Casson conseguiu identificar o homem que tinha posto a bomba, um tal Vincenzo Vinciguerra, membro de Ordine Nuovo. Como era o elo final de uma longa corrente de comando, Vinciguerra só foi preso vários anos após o momento dos factos. Confessou e declarou que tinha usufruído da protecção de toda uma rede de simpatizantes, tanto na Itália quanto no estrangeiro, que tinham feito possível sua fugida após o atentado. «É todo um mecanismo que se pôs em marcha», contou Vinciguerra. «O qual quer dizer que desde os carabineiros até o ministro do Interior, passando pela alfâdega e os serviços de inteligência civis e militares, todos tinham aceitado o razoamento ideológico que justificava o atentado.»
Vinciguerra sublinhava, com toda a razão, o agitado contexto histórico em que se tinha produzido o atentado de Peteano. A fins dos anos 1960, com o surgimiento da revolução pacifista e os movimentos estudantis de protesto contra a violência e contra a guerra do Vietname em particular, o confronto ideológico entre a direita e a esquerda tinha-se intensificado, tanto na Europa Ocidental como nos Estados Unidos.
A imensa maioria dos cidadãos comprometidos com os movimentos sociais de esquerda recorriam a formas de protesto não violentas, como manifestações, actos de desobediencia civil e, sobretudo, debates com moderadores. No seio do parlamento italiano, o poderoso Partido Comunista (Partito Communisto Italiano, PCI) e em menor medida o Partido Socialista (Partito Socialisto Italiano, PSI) simpatizaban com esse movimento.
Os movimentos sociais de esquerda opunham-se à política dos Estados Unidos, à guerra do Vietname e sobretudo à repartição do poder na Itália já que, apesar de dispor de uma importante maioria no parlamento, o PCI não tinha recebido nenhum ministério e se lhe mantinha assim à margem do governo. A direita italiana estava perfeitamente ciente de que aquilo constituía uma injustiça flagrante e uma violação dos princípios básicos da democracia.
Foi naquele contexto de guerra fria e de luta pelo poder que os extremistas recorreram ao terrorismo na Europa Ocidental. Na extrema esquerda, os grupos terroristas mais notorios foram os comunistas italianos das Brigadas Vermelhas bem como a Rote Armee Fraktion alemã ou RAF (Fracção Exército Vermelho). Fundadas por vários estudantes da universidade de Trento que não tinham nenhum conhecimento quanto a técnicas de combate, as Brigadas Vermelhas contavam entre seus membros a Margherita Cagol, Alberto Franceschini e Alberto Curcio.
Ao igual que os membros da RAF, estes estavam convencidos da necessidade de recorrer à violência para mudar a estrutura do poder vigente, que lhes parecia injusto e corrupto. Ao igual que as acções da RAF, as das Brigadas Vermelhas não tinham como alvo a população civil senão determinados indivíduos que consideravam representantes do «aparelho do Estado», como banqueiros, generais e ministros, aos que sequestravam e com freqüência assassinavam. As acções das Brigadas Vermelhas, que tiveram lugar principalmente na Itália dos anos 1970, deixaram 75 mortos.
Devido a sua pouca capacidade estratégica e militar e a sua inexperiência, os membros das Brigadas Vermelhas acabaram sendo presos mediante redadas, e posteriormente julgados e encarcerados.
Dois dias depois, um novo telefonema anónimo reclamava a autoria do atentado em nome das Brigadas Vermelhas, grupúsculo terrorista que tratava naquele tempo de romper o equilíbrio do poder na Itália mediante a realização de tomadas de reféns e de assassinatos de altas personagens do Estado. A polícia voltou-se imediatamente para a esquerda italiana e encarcerou a cerca de 200 comunistas. Durante mais de 10 anos, os italianos viveram convencidos de que o acto terrorista de Peteano tinha sido obra das Brigadas Vermelhas.
Posteriormente, em 1984, Felice Casson, um juiz italiano, decidiu reabrir o caso já que lhe intrigavam toda uma série de irregularidades e falsificações cometidas ao redor do drama de Peteano. O juiz Felice Casson descobriu que a polícia não tinha pesquisado o lugar dos factos. Também reparou em que o relatório que tinha concluído naquele tempo que os explosivos utilizados eram os mesmos que utilizavam tradicionalmente as Brigadas Vermelhas era com efeito uma falsificação.
Marco Morin, um especialista em explosivos da polícia italiana, tinha proporcionado intencionalmente conclusões falsas. Morin era membro da organização italiana de extrema direita «Ordine Nuovo» e, no contexto de guerra fria, tinha contribuído assim ao que ele considerava uma luta legítima contra a influência dos comunistas italianos. O juiz Casson conseguiu provar que, ao invés do que tinha concluído Morin, o explosivo utilizado em Peteano era o C4, a substância explosiva mais poderosa daquele então e que também fazia parte do arsenal das forças da OTAN.
«Simplesmente quis arrojar uma nova luz sobre anos de mentiras e segredos. Isso é tudo», declarou posteriormente o juiz Casson aos jornalistas que o interrogavam em seu minúsculo escritório do palácio de justiça, junto à lagoa de Venécia. «Queria que, por uma vez, os italianos soubessem a verdade.»
O 24 de fevereiro de 1972, cerca de Trieste, um grupo de carabineiros descobre por acaso um escondite de armas cheio de munições, armas e explosivo do tipo C4, idêntico ao utilizado em Peteano. Os polícias estavam convencidos de ter descoberto uma rede criminosa. Anos mais tarde, a investigação do juiz Casson permitiu determinar que se tratava em realidade de um dos centos de escondites subterrâneos criados pelo exército secreto do chamado stay-behind, estrutura que responde às ordens da OTAN e que se conhece na Itália pela apelação codificada de Gladio (do latín Gladius, denominación da espada curta em uso na Roma da antigüedade). Casson percebeu que os serviços secretos do exército italiano e o governo daquela época se tinham esforçado consideravelmente por manter em segredo a descoberta de Trieste bem como seu contexto estratégico.
Ao prosseguir sua investigação sobre os estranhos casos de Peteano e Trieste, o magistrado descobriu com assombro, não a mão da esquerda italiana senão a dos grupúsculos de extrema direita e dos serviços secretos do exército depois do atentado de 1972. A investigação do juiz revelou a existência de uma estreita colaboração entre a organização de extrema direita Ordine Nuovo e o SID (Servizio Informazioni Difusa), ou seja os serviços secretos do exército italiano. Ordine Nuovo e o SID tinham preparado juntos o atentado de Peteano, e depois tinham acusado aos militantes da extrema esquerda italiana, as Brigadas Vermelhas.
Casson conseguiu identificar o homem que tinha posto a bomba, um tal Vincenzo Vinciguerra, membro de Ordine Nuovo. Como era o elo final de uma longa corrente de comando, Vinciguerra só foi preso vários anos após o momento dos factos. Confessou e declarou que tinha usufruído da protecção de toda uma rede de simpatizantes, tanto na Itália quanto no estrangeiro, que tinham feito possível sua fugida após o atentado. «É todo um mecanismo que se pôs em marcha», contou Vinciguerra. «O qual quer dizer que desde os carabineiros até o ministro do Interior, passando pela alfâdega e os serviços de inteligência civis e militares, todos tinham aceitado o razoamento ideológico que justificava o atentado.»
Vinciguerra sublinhava, com toda a razão, o agitado contexto histórico em que se tinha produzido o atentado de Peteano. A fins dos anos 1960, com o surgimiento da revolução pacifista e os movimentos estudantis de protesto contra a violência e contra a guerra do Vietname em particular, o confronto ideológico entre a direita e a esquerda tinha-se intensificado, tanto na Europa Ocidental como nos Estados Unidos.
A imensa maioria dos cidadãos comprometidos com os movimentos sociais de esquerda recorriam a formas de protesto não violentas, como manifestações, actos de desobediencia civil e, sobretudo, debates com moderadores. No seio do parlamento italiano, o poderoso Partido Comunista (Partito Communisto Italiano, PCI) e em menor medida o Partido Socialista (Partito Socialisto Italiano, PSI) simpatizaban com esse movimento.
Os movimentos sociais de esquerda opunham-se à política dos Estados Unidos, à guerra do Vietname e sobretudo à repartição do poder na Itália já que, apesar de dispor de uma importante maioria no parlamento, o PCI não tinha recebido nenhum ministério e se lhe mantinha assim à margem do governo. A direita italiana estava perfeitamente ciente de que aquilo constituía uma injustiça flagrante e uma violação dos princípios básicos da democracia.
Foi naquele contexto de guerra fria e de luta pelo poder que os extremistas recorreram ao terrorismo na Europa Ocidental. Na extrema esquerda, os grupos terroristas mais notorios foram os comunistas italianos das Brigadas Vermelhas bem como a Rote Armee Fraktion alemã ou RAF (Fracção Exército Vermelho). Fundadas por vários estudantes da universidade de Trento que não tinham nenhum conhecimento quanto a técnicas de combate, as Brigadas Vermelhas contavam entre seus membros a Margherita Cagol, Alberto Franceschini e Alberto Curcio.
Ao igual que os membros da RAF, estes estavam convencidos da necessidade de recorrer à violência para mudar a estrutura do poder vigente, que lhes parecia injusto e corrupto. Ao igual que as acções da RAF, as das Brigadas Vermelhas não tinham como alvo a população civil senão determinados indivíduos que consideravam representantes do «aparelho do Estado», como banqueiros, generais e ministros, aos que sequestravam e com freqüência assassinavam. As acções das Brigadas Vermelhas, que tiveram lugar principalmente na Itália dos anos 1970, deixaram 75 mortos.
Devido a sua pouca capacidade estratégica e militar e a sua inexperiência, os membros das Brigadas Vermelhas acabaram sendo presos mediante redadas, e posteriormente julgados e encarcerados.
Ao outro extremo do tabuleiro político da guerra fria, a extrema direita também recorreu à violência. Na Itália, sua rede incluía aos soldados clandestinos do Gládio, os serviços secretos militares e organizações fascistas como Ordine Nuovo. Ao invés do que praticava a esquerda, o objectivo do terrorismo de direita era semear o terror em todas as camadas da sociedade mediante atentados dirigidos contra grandes multidões e destinados a provocar a maior quantidade possível de mortos para acusar posteriormente aos comunistas.
O juiz Casson conseguiu determinar que o drama de Peteano fazia parte desse esquema e entrava no marco de uma série de crimes que tinha começado em 1969. Durante aquele ano 4 bombas tinham explodido pouco dantes do Natal em vários lugares públicos de Roma e Milão. O saldo tinha sido de 16 mortos e 80 feridos, em sua maioria camponeses que iam depositar no Banco Agrícola da Piazza Fontana de Milão o que tinham arrecadado no dia através de suas vendas no mercado. Conforme a uma estratégia maquiavélica, a responsabilidade daquele massacre foi atribuído aos comunistas e à extrema esquerda, escamotearam-se as pistas e realizou-se imediatamente uma onda de detenções.
A população em seu conjunto tinha muito poucas possibilidades de descobrir a verdade já que os serviços secretos militares esforçaram-se por enmascarar o crime. Em Milão, uma das bombas não tinha chegado a rebentar, devido ao mau funcionamento do mecanismo de relojoaria, mas nos primeiros actos de dissimulação, os serviços secretos a fizeram rebentar no lugar dos factos e vários componentes de artefactos explosivos foram expelidos à casa de Giangiacomo Feltrinelli, célebre editor conhecido por suas opiniões de esquerda.
«Segundo as estatísticas oficiais, entre o 1º de janeiro de 1969 e o 31 de dezembro de 1987 registaram-se 14 591 actos de violência com motivos políticos», afirma o senador Giovanni Pellegrino, presidente da Comissão Investigadora Parlamentar sobre Gládio e o terrorismo, ao recordar a violência do contexto político daquele período da história recente da Itália. «Quiçá não resulta inútil recordar que aquelas “acções” causaram a morte a 491 pessoas bem como feridas e mutilações a outras 1181.
Cifras dignas de uma guerra, sem comparação na Europa.» Após os atentados da Piazza Fontana, em 1969, e de Peteano, em 1972, outros actos de terrorismo voltaram a ensangrentar o país. O 28 de maio de 1974, em Brescia, uma bomba deixou 8 mortos e 102 feridos entre os participantes em uma manifestação antifascista. O 4 de agosto de 1974, um atentado a bordo do comboio «Italicus Express», que enlaça Roma com Munich, matou a 12 pessoas e feriu a 48. O ponto culminante daquela onda de violência produziu-se em uma soleada tarde, o 2 de agosto de 1980, no dia da festa nacional da Itália, quando uma explosão de grande potência devastou o salão de espera dos passageiros de segunda classe na estação de comboios de Bolonha, matando a 85 pessoas e ferindo ou mutilando a outras 200. O massacre de Bolonha é um dos maiores atentados terroristas que tenha sofrido Europa em todo o século 20.
Contrariamente aos membros das Brigadas Vermelhas, que acabaram todos no cárcere, os terroristas de extrema direita conseguiram escapar após a cada atentado já que, como assinala Vinciguerra com toda a razão, todos usufruiram da protecção do aparelho de segurança e dos serviços secretos do exército italiano. Anos mais tarde, quando ao fim se estabeleceu o vínculo entre o atentado da Piazza Fontana e a direita italiana, se lhe perguntou a Franco Freda, membro de Ordine Nuovo, se ao cabo do tempo cria ter sido manipulado por personagens que ocupavam altos cargos, gerais ou ministros.
Freda, admirador declarado de Hitler, que tinha publicado Mein Kampf em italiano graças a sua pequena estrutura pessoal de edição, respondeu que, segundo seus conceitos, todo mundo é mais ou menos manipulado: «Todos somos manipulados por outros mais poderosos do que nós», declarou o terrorista. «No que diz respeito a mim, admito ter sido uma marioneta movida por ideias mas em nenhum caso pelos homens dos serviços secretos, nem aqui [na Itália] nem no estrangeiro. Em outros termos, eu mesmo escolhi minha luta e a desenvolvi segundo minhas ideias. Isso é tudo.»
Em março de 2001, o general Giandelio Maletti, ex chefe do contraespionagem italiana, deixou entrever que para além da da rede clandestina Gládio, dos serviços secretos militares italianos e de um grupúsculo de terroristas de extrema direita, as matanças que difamaram os comunistas italianos receberam também a aprovação da Casa Branca e da CIA. Ao comparecer como testemunha no julgamento contra os terroristas de extrema direita acusados de estar implicados nos atentados da Piazza Fontana, Maletti declarou: «A CIA, seguindo as directivas de seu governo, queria criar um nacionalismo italiano capaz de obstaculizar o que considerava um deslizamento para a esquerda e, com esse objectivo, pôde utilizar o terrorismo de extrema direita.» (…) «Um tinha a impressão de que os americanos estavam dispostos a todo para impedir que Itália virasse para a esquerda», explicou o general, dantes de acrescentar: «Não esqueçam que era Nixon quem estava à cabeça do governo e Nixon não era um tipo qualquer, [era] um político muito hábil mas um homem de métodos pouco ortodoxos.» Retrospectivamente, o general de 79 anos expressou críticas e amargura: «Itália foi tratada como uma espécie de protectorado. Envergonha-me que ainda estejamos a ser objecto de um controle especial.»
Durante as décadas de 1970 e 1980, o parlamento italiano, em cujo seio os partidos comunista e socialista estavam em posse duma parte importante do poder, manifestou crescente inquietude ante aquela onda visivelmente interminável de crimes que ensanguentavam o país sem que se conseguisse identificar os autores nem quem os chefiavam.
Ainda que já naquele tempo circulavam entre a esquerda italiana os rumores de que aqueles misteriosos actos de violência eram uma forma de guerra secreta que Estados Unidos tinha desencadeado contra os comunistas italianos, não existiam provas que permitissem confirmar aquela teoria que parecia trazida por um fio. No entanto, em 1988 o Senado italiano criou uma comissão parlamentar especial de investigação presidida pelo senador Liberto Gualteri, comissão cujo nome era mais que elocuente: «Comissão parlamentar do Senado italiano encarregada de pesquisar sobre o terrorismo na Itália e as razões pelas quais os indivíduos responsáveis das matanças não têm podido ser identificados: O terrorismo, os atentados e o contexto político-histórico.» [
O trabalho da comissão resultou extremamente difícil. As testemunhas negavam-se a declarar. Houve documentos destruídos. A própria comissão, que se compunha de representantes dos partidos de esquerda e de direita, se dividiu ao abordar a questão da verdade histórica na Itália e no tocante às conclusões que deviam ser ou não reveladas ao público.
O juiz Felice Casson revela a existência de uma rede clandestina criada pela OTAN. Oficialmente criada para proteger aos Estados membros, a OTAN é em realidade um protectorado anglo-saxão. Washington e Londres não hesitaram em ordenar atentados terroristas na Itália para falsear o jogo da democracia.
Ao mesmo tempo, baseando no depoimento de Vincenzo Vinciguerra –o terrorista de Peteano– e nos documentos que tinha descoberto, o juiz Casson começa a aperceber a natureza da complexa estratégia militar que se tinha utilizado. Compreende pouco a pouco que não se tratava simplesmente de terrorismo senão de terrorismo de Estado, financiado com o dinheiro dos contribuintes. Obedecendo a uma «estratégia da tensão», o objectivo dos atentados era instaurar um clima de tensão no seio da população.
A extrema direita e seus partidários no seio da OTAN temiam que os comunistas italianos adquirissem demasiado poder e é por isso que, em uma tentativa de «desestabilizar para estabilizar», os soldados clandestinos dos exércitos do Gládio perpetravam aqueles atentados, que atribuíam depois à esquerda. «Para os serviços secretos, o atentado de Peteano era parte do que se chamou “a estratégia da tensão” », explicou publicamente o juiz Casson em uma reportagem da BBC dedicado ao Gládio. «Ou seja, criar um clima de tensão para estimular no país as tendências sócio-políticas conservadoras e reacionárias.
À medida que se aplicava esta estratégia no terreno, fazia-se necessário proteger os instigadores já que começavam a aparecer provas de seu envolvimento. As testemunhas ocultavam certas informações para proteger aos extremistas de direita.» Vinciguerra, um terrorista que, ao igual que outros que tinham estado em contacto com o ramo Gládio dos serviços secretos militares italianos, foi morrido por causa de suas convicções políticas, declarou: «Tinha que actuar contra os civis, contra a gente do povo, contra as mulheres, os inocentes, os anónimos desvinculados de todo jogo político. A razão era muito simples. Supunha-se que tinham que forçar àquela gente, ao povo italiano, a recorrer ao Estado para pedir mais segurança. A essa lógica política obedeciam todos esses assassinatos e todos esses atentados que seguem sem punir porque o Estado não pode inculparse a si próprio nem confessar sua responsabilidade no acontecido.»
O horror desse diabólico plano só vai aparecendo, no entanto, de forma progressiva e ficam ainda muitos segredos por revelar hoje em dia. Ademais, o paradouro de todos os documentos originais segue sendo desconhecido. «Após o atentado de Peteano e de todos os demais que seguiram», declarou Vinciguerra no julgamento que se fez em sua contra, em 1984, «ninguém devesse duvidar já da existência de uma estrutura activa e clandestina, capaz de elaborar na sombra esse tipo de estratégia de matanças». Uma estrutura que, segundo o próprio Vinciguerra, «está entranhada nos próprios órgãos do poder.
Existe na Itália uma organização paralela às forças armadas, que se compõe de civis e de militares e de vocação antisoviética, ou seja destinada a organizar a resistência contra uma eventual ocupação do território italiano por parte do Exército Vermelho.» Sem mencionar por seu nome, esse depoimento confirmou a existência do Gládio, o exército secreto e stay-behind criado por ordem da OTAN. Vinciguerra descreveu-o como «uma organização secreta, uma super-organização que dispõe de sua própria rede de comunicações, de explosivos e de homens treinados para os utilizar». O terrorista revelou que essa «superorganização, a falta de invasão soviética, recebeu da OTAN a ordem de lutar contra um deslizamento do poder para a esquerda no país. E isso foi o que fizeram, com o apoio dos serviços secretos do Estado, do poder político e do exército.»
Mais de 20 anos têm decorrido desde o revelador depoimento do terrorista arrependido que, por vez primeira na história italiana, estabeleceu um vínculo entre a rede stay-behind Gládio, a OTAN e os atentados com bombas que enlutaram o país. E só agora, ao cabo de todos estes anos, após a confirmação da existência do exército secreto e da descoberta dos esconderijos de armas e de explosivos, os pesquisadores e historiadores conseguem interpretar por fim o sentido das palavras de Vinciguerra.
Mas, são dignas de crédito as palavras desse homem? Os factos que se produziram após o julgamento parecem indicar que sim. O exército secreto foi descoberto em 1990 e, como para confirmar indirectamente que Vinciguerra tinha dito a verdade, o apoio do que tinha gozado até aquele então por parte das altas esferas lhe foi bruscamente retirado. Contrariamente ao sucedido com outros terroristas de extrema direita, que tinham sido postos em liberdade após ter colaborado com os serviços secretos italianos, Vinciguerra foi condenado a prisão perpétua. Mas Vinciguerra não foi o primeiro em revelar a vinculação entre o Gladio, a OTAN e os atentados.
Também não foi o primeiro em falar da conspiração do Gladio na Itália. Em 1974, durante uma investigação sobre o terrorismo de extrema direita, o juiz de instrução Giovanni Tamburino tinha sentado um precedente ao inculpar ao general Vito Miceli, o chefe do SID, os serviços secretos militares italianos, por ter promovido, instaurado e organizado, com a ajuda de outros cúmplices, uma associação secreta que agrupava civis e militares e cujo objectivo era provocar uma insurreição armada para modificar ilegalmente a Constituição e a composição do governo».
O 17 de novembro de 1974, durante seu próprio julgamento, o general Miceli, ex responsável do Buró de Segurança da OTAN, revelou, furioso, a existência do exército Gladio e descreveu-o como um ramo especial do SID: «Dispunha eu de um superSID a minhas ordens? Com certeza! Mas não o criei eu mesmo para tentar dar um golpe de Estado. Não fiz mais que obedecer as ordens dos Estados Unidos e a OTAN!»
Mercê aos sólidos contactos que tinha do outro lado do Atlántico, Miceli não saiu malparado. Foi liberto baixo fiança e passou 6 meses em um hospital militar. Teve que esperar 16 anos mais até que, baixo a pressão das descobertas do juiz Casson, o premiê italiano Andreotti revelasse ante o parlamento italiano a existência da rede Gladio. Ao inteirar-se, Miceli encheu-se de ira. Pouco dantes de sua morte, em outubro de 1990, Miceli não pôde seguir se contendo: «Eu fui ao cárcere porque me negava a revelar a existência desta super-organização secreta e agora Andreotti se pára adiante do parlamento e conta tudo!»
No cárcere, Vinciguerra, o que tinha posto a bomba de Peteano, explicou ao juiz Casson que, em sua missão de enfraquecer a esquerda italiana, os serviços secretos militares e a rede Gladio tinham contado com a ajuda não apenas de Ordine Nuovo mas de outras organizações de extrema direita muito conhecidas, como Avanguardia Nazionale: «Por trás dos terroristas tinha muita gente que actuava na sombra, gente que pertencia ou colaborava com o aparelho de segurança.
Eu afirmo que todos os atentados perpetrados após 1969 eram parte de uma mesma estratégia.» Vinciguerra, membro de Ordine Nuovo, contou como ele próprio e seus camaradas de extrema direita tinham sido recrutados para executar as acções mais sangrentas com o exército secreto Gládio: «Avanguardia Nazionale, ao igual que Ordine Nuovo, eram mobilizados no marco de uma estratégia anticomunista que não nascia de grupúsculos que gravitaban nas esferas do poder senão do poder mesmo e que fazia parte das relações da Itália com a aliança atlántica.»
O juiz Casson sobressaltou-se ante aquelas revelações. Para erradicar a gangrena que desfazia o Estado seguiu a pista do misterioso exército clandestino Gladio que tinha manipulado a classe política durante a guerra fria e, em janeiro de 1990, pediu permissão às mais altas autoridades do país para estender suas investigações aos arquivos dos serviços secretos militares, le Servizio Informazioni Sicurezza Militare (SISMI), novo nome do SID desde 1978.
Em julho daquele mesmo ano, o premiê Giulio Andreotti autorizou-o a consultar os arquivos do Palazzo Braschi, sede do SISMI em Roma. O magistrado descobriu ali, por vez primeira, documentos que demonstravam a existência na Itália de um exército secreto cujo nome de código era Gládio, que estava às ordens dos serviços secretos militares e cujo objectivo era a realização de operações de guerra clandestina.
Casson encontrou também documentos que demonstravam o envolvimento da aliança militar maior do mundo, a OTAN, e da última superpotencia existente, Estados Unidos, nos actos de subversão bem como seus vínculos com a rede Gládio e com grupúsculos terroristas de extrema direita na Itália e em toda Europa ocidental. Para o juiz Casson, o facto de dispor de tais informações representava um perigo, coisa da qual ele estava inteiramente ciente já que no passado outros magistrados italianos que sabiam demasiado tinham sido assassinados em plena rua: «Desde julho até outubro de 1990, eu fui o único que sabia [da Operação Gladio], o qual podia me acarretar uma desgraça.»
Mas a temida desgraça não teve lugar e Casson conseguiu resolver o mistério. Baseando nos dados que tinha descoberto se pôs em contacto com a comissão parlamentar que presidia o senador Liberto Gualteri, encarregada de pesquisar sobre os atentados terroristas. Gualteri e seus pares inquietaram-se ante as descobertas que lhes comunicou o magistrado e reconheceram que tinha que adicionar ao trabalho da comissão já que explicavam a origem dos atentados e as razões pelas quais se tinham mantido impunes durante tantos anos. O 2 de agosto de 1990, os senadores ordenaram ao chefe do executivo italiano, o premiê Giulio Andreotti, «informar em 60 dias ao parlamento sobre a existência, a natureza e o objectivo de uma estrutura clandestina e paralela suspeita de ter operado no seio dos serviços secretos militares com o fim de influir na vida política do país».
Ao dia seguinte, o 3 de agosto, o premiê Andreotti apresentou-se ante a comissão parlamentar e, pela primeira vez desde 1945, confirmou, como membro em funções do governo italiano, que uma organização de segurança que actuava baixo as ordens da OTAN tinha existido na Itália. Andreotti comprometeu-se ante os senadores a entregar-lhes um relatório escrito sobre aquela organização em um prazo de 60 dias: «Apresentarei a esta comissão um relatório muito detalhado que tenho pedido ao ministério de Defesa. [O relatório] tem que ver com as operações preparadas por iniciativa da OTAN ante a hipótese de uma ofensiva contra Itália e a ocupação da totalidade do território italiano ou de uma parte do mesmo. Segundo o que me indicaram os serviços secretos, essas operações se desenvolveram até 1972. Decidiu-se então que já não eram indispensáveis. Proporcionarei à comissão toda a documentação necessária, tanto sobre o tema em general como sobre as descobertas do juiz Casson no marco das investigações sobre o atentado de Peteano.»
Giulio Andreotti, que tinha 71 anos no momento da audiência, não era uma testemunha qualquer. Seu comparencimento ante a comissão deu-lhe a oportunidade de submergir-se novamente em sua larguísima carreira política, provavelmente sem equivalente na Europa ocidental. À cabeça do partido democrata-cristão (Democrazia Cristiana Italiana ou DCI), que actuou durante toda a guerra fria como baluarte contra o PCI, Andreotti gozava do apoio dos Estados Unidos. Conheceu pessoalmente a todos os presidentes estadounidenses e, aos olhos de muitos observadores italianos e estrangeiros, foi o político mais influente da Primeira República Italiana (1945-1993).
Apesar da pouca duração que caracterizou aos governos da frágil Primeira República italiana, a habilidade de Andreotti lhe permitiu manter-se no poder graças a numerosas coalizões se convertendo assim em uma personagem inevitável no Palazzo Chigi, a sede do governo italiano. Nascido em Roma em 1919, Andreotti converteu-se em ministro do Interior aos 35 anos dantes de impor um verdadeiro record ao ocupar 7 vezes a cadeira de premiê e obter sucessivamente não menos de 21 carteiras ministeriais, entre elas a de ministro de de Relações Exteriores, que lhe foi confiada 7 vezes. Seus partidários comparavam-no com Julio Cessar e chamavam-no o «Divino Giulio» enquanto seus detractores viam-no como o arquetipo do trapaceiro e o chamavam «o Tio». Conta-se que seu filme de gángsters preferida era Goodfellas, pela frase de Robert De Niro: «Não delates nunca a teus sócios e evita falar a mais». A maioria dos observadores estão de acordo em que foi seu talento como estratega o que permitiu que o Divino Giulio conseguisse sobreviver às numerosas malandragens e intrigas do poder nas que muito freqüentemente esteve directamente implicado.
Ao revelar a existência da Operação Gladio e dos exércitos secretos da OTAN, «O Tio» tinha decidido finalmente romper a lei do silêncio. Ao derrubar-se a Primeira República, ao final da guerra fria, o poderoso Andreotti, que não era já mais que um velho, foi arrastado ante numerosos tribunais acusado de ter manipulado as instituições políticas, de ter colaborado com a máfia e de ter ordenado em segredo o assassinato de opositores políticos. «A justiça italiana virou doida», exclamou em novembro de 2002 o premiê Silvio Berlusconi quando o Corte de Apelação de Perugia condenou a Andreotti a 24 anos de cárcere.
Enquanto os juízes recebiam ameaças de morte e tinha que os pôr baixo protecção policial, os canais de televisão interrompiam a transmissão do futebol para anunciar que Andreotti tinha sido encontrado culpado de ter encarregado ao padrinho da máfia Gaetano Badalamenti o assassinato, em 1979, do jornalista de investigação Mino Pirelli para evitar que se soubesse a verdade sobre o assassinato do presidente da República Italiana, o democrata-cristão Aldo Moro. A igreja católica tratou de salvar a reputação do Divino Giulio. Ante a gravidade dos factos, o cardeal Fiorenzo Angelini declarou: «Jesucristo também foi crucificado dantes de ressuscitar». Apesar de tudo, Andreotti não acabou em seus dias por trás das grades. Os veredictos em sua contra foram anulados em outubro de 2003 e «O Tio» foi posto novamente em liberdade.
Durante suas primeiras revelações sobre a Operação Gladio ante os senadores italianos, o 3 de agosto de 1990, Andreotti pôs especial ênfase em precisar que «essas operações prosseguiram até 1972» para se proteger a si mesmo de possíveis repercussões. Efectivamente, em 1974, quando era ministro de Defesa, o próprio Andreotti tinha declarado oficialmente no marco de uma investigação sobre vários atentados cometidos pela extrema direita: «Eu afirmo que o chefe dos serviços secretos descartou várias vezes de forma explícita a existência de uma organização secreta de qualquer natureza ou tamanho». Em 1978, Andreotti também tinha prestado depoimento no mesmo sentido ante os juízes que pesquisavam o atentado perpetrado em Milão pela extrema direita.
Quando a imprensa italiana revelou que o exército secreto Gladio, longe de ter sido dissolvido em 1972, seguia estando activo, a mentira de Andreotti não pôde seguir se sustentando. Durante as semanas seguintes, em agosto e setembro de 1990, contrariamente ao que acostumava a fazer, o premiê se comunicou profusamente com o estrangeiro, tratou de se pôr em contacto com numerosos embaixadores e se entrevistou com eles. Como o apoio internacional demorava em chegar, Andreotti, que temia por seu cargo, passou à ofensiva e tratou de sublinhar a importância do papel da Casa Branca e de outros muitos governos da Europa ocidental que não só tinham conspirado na guerra secreta contra os comunistas senão que tinham participado nela activamente. Ao tratar de dirigir a atenção para o envolvimento de outros países, Andreotti recorreu a uma estratégia eficaz ainda que bastante arriscada.
O 18 de outubro de 1990, Andreotti enviou urgentemente um mensageiro do Palazzo Chigi à Piazza San Macuto, onde decorria uma sessão da comissão parlamentar. O mensageiro entregou ao secretário de recepção do Palazzo Chigi o relatório titulado «Um SID paralelo – O caso Gladio». Um membro da comissão parlamentar, o senador Roberto Ciciomessere, soube por acaso que o relatório de Andreotti tinha sido entregado e que estava em mãos do secretário do Palazzo Chigi. Ao dar uma vista de olhos ao texto, o senador ficou grandemente surpreendido ao comprovar que Andreotti não se limitava a proporcionar uma descrição da Operação Gladio senão que, em contradição com sua própria declaração do 3 de agosto, reconhecia que a organização seguia estando activa.
O senador Ciciomessere pediu uma fotocópia do relatório, que lhe foi denegada com o pretexto que, segundo o procedimento em vigor, o presidente da comissão, o senador Gualtieri, tinha que ser o primeiro em conhecer o conteúdo do relatório. Mas o senador Gualtieri nunca chegou a ler aquela primeira versão do relatório de Andreotti sobre a rede Gladio. Três dias depois, quando o ia guardar em seu portadocumentos para levar a sua casa e o ler ali durante o fim de semana, Gualtieri recebeu um telefonema do premiê lhe informando que este precisava imediatamente o relatório «para voltar a trabalhar alguns trechos».
Gualtieri sentiu certo incómodo, mas finalmente aceitou de má vontade devolver o documento ao Palazzo Chigi, depois de fazer várias fotocópias do mesmo. Os métodos pouco habituais aos que recorreu Andreotti provocaram um escândalo em toda a Itália e não fizeram mais que agravar as suspeitas. Os jornais publicaram titulares como «Operação Giulio», em referência à Operação Gladio, e entre 50 000 e 400 000 cidadãos indignados, inquietos e furiosos participaram, respondendo ao chamado do PCI, em uma marcha pelo centro de Roma, uma das manifestações mais importantes daquele período, baixo a consigna «Queremos a verdade». Alguns desfilaram disfarçados de gladiadores. Na Piazza do Popolo, o líder do PCI, Achille Occhetto, anunciou à multidão que aquela marcha obrigaria ao governo a revelar as tenebrosas verdades que tinha mantido em segredo durante tantos anos: «Estamos aqui para obter a verdade e transparência».
O 24 de outubro, o senador Gualteri teve de novo em seu poder o relatório de Andreotti sobre o «SID paralelo». Duas páginas tinham desaparecido e esta versão final já não tinha mais que 10. O parlamentar comparou-a com as fotocópias da primeira versão e notou imediatamente que vários fragmentos sensíveis sobre as conexões internacionais e a existência de organizações similares no estrangeiro tinham sido suprimidos. Ademais, todas as menções relativas à organização secreta, que anteriormente apareciam em presente, o qual sugeria que seguiam existindo, apareciam agora em passado. Estava claro que a estratégia de Andreotti consistente em enviar um documento e o recuperar depois para o modificar dantes do reenviar de novo não podia enganar a ninguém.
Os observadores coincidiram em que aquela manobra atrairia obrigatoriamente a atenção para os fragmentos eliminados, ou seja sobre a dimensão internacional do caso, o qual teria como resultado que se diminuísse a culpabilidad do premiê. No entanto, a ajuda do estrangeiro não chegou.
Na versão final de seu relatório, Andreotti explicava que Gladio tinha sido concebido nos países membros da OTAN como uma rede clandestina de resistência destinada a lutar contra uma possível invasão soviética. Ao terminar a guerra, os serviços secretos do exército italiano, o Servizio dei Informazioni delle Forze Armate (SIFAR), predecessor do SID, tinha assinado com a CIA «um acordo sobre “a organização da actividade de uma rede clandestina postinvasión”, acordo designado com o nome de Stay Behind, no que se renovavam todos os compromissos anteriores que implicavam a Itália e Estados Unidos».
A cooperação entre a CIA e os serviços secretos militares italianos, como precisava Andreotti em seu relatório, se encontrava baixo a observação e a coordenação dos centros encarregados das operações de guerra clandestina da OTAN: «Uma vez que se constituiu essa organização secreta de resistência, Itália estava chamada a participar (…) nas tarefas do CPC (Clandestine Planning Committee), fundado em 1959, que operava no seio do [Supreme Headquarters Allied Powers Europe (SHAPE), o quartel geral das potências européias da OTAN (...); em 1964, os serviços secretos italianos integraram-se também ao ACC (Allied Clandestine Committee).» [24]
O exército secreto Gladio, como revelou Andreotti, dispunha de considerável armamento. O equipamento proporcionado pela CIA tinha sido enterrado em 139 esconderijos distribuídos em bosques, campos e inclusive em igrejas e cemitérios. Segundo as explicações do premiê italiano, esses arsenais continham armas portáteis, munições, explosivos, granadas de mão, facas, dagas, morteiros de 60 mm., fuzis sem retrocesso calibre 57, fuzis com miras telescópicas, transmissores de rádio, prismáticos e outros tipos de equipamento diverso» Além dos protestos da imprensa e da população contra as acções da CIA e a corrupção do governo, as escandalosas revelações de Andreotti também deram lugar a uma verdadeira febre na busca de esconderijos de armas.
O pai Giuciano recorda no dia em que os jornalistas invadiram sua igreja em procura dos segredos enterrados do Gladio, movidos por intenções ambiguas: «Avisaram-me após o meio dia quando dois jornalistas de Il Gazzettino vieram a me perguntar se eu sabia algo sobre depósitos de munições aqui, na igreja. Começaram a cavar neste lugar e rapidamente encontraram duas caixas. Mas o texto indicava procurar também a uns 30 centímetros da janela. De modo que retomaram seus excavaciones por ali. Apartaram uma das caixas já que continha uma bomba de fósforo. Os carabineiros saíram enquanto dois peritos abriam a caixa. Ainda tinha outra mais, que continha duas metralletas. Todas as armas estavam novas, em perfeito estado. Nunca tinham sido utilizadas.»
Em contradição com o que o terrorista Vinciguerra tinha indicado nos anos 1980, Andreotti afirmava insistentemente que os serviços secretos militares italianos e os membros de Gladio não tinham absolutamente nada que ver com a onda de atentados que se tinha produzido na Itália. Segundo Andreotti, dantes de ser recrutado, a cada membro de Gladio era submetido a exames intensivos e tinha que «se ajustar rigorosamente» à lei que regia o funcionamento dos serviços secretos com o fim de provar sua «fidelidade absoluta aos valores da Constituição republicana antifascista».
O procedimento tinha também como objectivo garantir a exclusão de todo aquele que ocupasse alguma função administrativa ou política. Ademais, segundo afirmava também Andreotti, a lei estipulava que «os elementos preseleccionados não tivessem antecedentes penais, não tivessem nenhum compromisso de tipo político e não participassem em nenhum tipo de movimento extremista». Ao mesmo tempo, Andreotti assinalava que os membros da rede não podiam declarar ante a justiça e que suas identidades bem como outros detalhes sobre o exército secreto eram secreto militar. «A Operação, devido a suas modalidades concretas de organização e de acção –tal e como estavam previstas pelas directoras da OTAN e integradas em sua estrutura específica– deve se preparar e se executar no mais absoluto segredo.»
As revelações de Andreotti sobre o «SID paralelo» sacudiram a Itália. A muitos custava-lhes aceitar a ideia de um exército secreto dirigido pela CIA e a OTAN na Itália e no estrangeiro. Podia ser legal uma estrutura desse tipo? O diário italiano A Stampa foi particularmente duro: «Nenhuma razão de Estado pode justificar que se mantenha, que se cubra ou se defenda uma estrutura militar secreta composta de elementos recrutados em base a critérios ideológicos –dependente ou, no mínimo, baixo a influência de uma potência estrangeira– e que sirva de instrumento para um combate político. Não existem, para qualificar isso, palavras que não sejam alta traição ou crime contra a Constituição.»
No senado italiano, representantes do Partido Verde, do Partido Comunista e do Partido dos Independentes de Esquerda acusaram o governo de ter utilizado as unidades de Gladio para praticar uma vigilância territorial e perpetrar atentados terroristas com o objectivo de condicionar o clima político. Mas o PCI estava sobretudo convencido de que, desde o começo da guerra fria, o verdadeiro alvo da rede Gladio não tinha sido um exército estrangeiro senão os próprios comunistas italianos. Os observadores sublinhavam que «com esse misterioso SID paralelo, fomentado para contrarrestar um impossível golpe de Estado da esquerda, estivemos a correr sobretudo o perigo de nos ver expostos a um golpe de Estado da direita (…) Não podemos crer isso (…), que esse superSID tenha sido aceitado como uma ferramenta militar destinada a operar “em caso de uma ocupação inimiga”. O único verdadeiro inimigo foi e tem sido sempre o partido comunista italiano, ou seja um inimigo interno.»
Decidido a não assumir só aquela responsabilidade, o premiê Andreotti se apresentou ante o parlamento italiano, no mesmo dia que entregou seu relatório final sobre Gladio, e declarou: «À cada chefe de governo informava-se-lhe a existência de Gladio». Sumamente embaraçosa, essa declaração comprometeu entre outros aos ex premiês, como o socialista Bettino Craxi (1983-1987); Giovanni Spadolini do Partido Republicano (1981-1982), então presidente do senado; Arnaldo Forlani (1980-1981), quem era em 1990 secretário da DCI; e Francesco Cossiga (1978-1979), naquele tempo presidente da República.
Ao ver-se de repente no olho da tormenta, devido às revelações de Andreotti, as reacções destes altos dignitários foram confusas. Craxi afirmava que nunca se lhe tinha informado a existência de Gladio, até que lhe puseram diante um documento sobre Gladio assinado de seu punho e letra na época em que ele era premiê. Spadolini e Forlani sofreram similares ataques de amnésia, mas também tiveram que retractar-se de suas declarações iniciais. Spadolini causou a hilaridade de todo mundo ao precisar que tinha que distinguir entre o que ele sabia como ministro de Defesa e o que lhe informavam como premiê. Francesco Cossiga, presidente da República desde 1985, foi o único que reconheceu plenamente seu papel na conspiração.
Durante uma visita oficial na Escócia, anunciou que estava até mesmo «feliz e orgulhoso» de ter contribuído à criação do exército secreto como encarregado de assuntos de Defesa no seio da DCI, nos anos 1950. Declarou que todos os membros de Gladio eram bons patriotas e se expressou nos seguintes termos: «Eu considero como um grande privilégio e uma prova de confiança (…) o ter sido escolhido para essa delicada tarefa (…) Tenho que dizer que estou orgulhoso de que tenhamos podido guardar esse segredo durante 45 anos.» Ao abraçar assim a causa da organização implicada em actos de terrorismo, o presidente teve que enfrentar, a seu regresso a Itália, uma tempestade política e exigências de renúncia e de destituição por alta traição provenientes de todos os partidos. O juiz Casson teve a audácia de chamá-lo a comparecer como testemunha ante a comissão investigadora do senado.
Mas o presidente, que visivelmente já não estava tão «feliz», se negou de forma colérica e ameaçou com fechar toda a investigação parlamentar sobre Gladio: «Reenviarei ao parlamento a acta que estende seus poderes e, se [o parlamento] a aprova de novo, voltarei a examinar o texto para determinar se reúne as condições para apresentar uma rejeição [presidencial] definitiva de sua promulgação». Como aquela ameaça não tinha nenhuma justificação constitucional, os críticos começaram a questionar a saúde mental do presidente. Cossiga renunciou à presidência em abril de 1992, 3 meses antes do termo legal de seu mandato.
Em uma alocução pública pronunciada ante o senado italiano o 9 de novembro de 1990, Andreotti sublinhou novamente que a OTAN, Estados Unidos e numerosos países da Europa ocidental, como Alemanha, Grécia, Dinamarca e Bélgica, estavam implicados na conspiração stay-behind. Como prova de suas alegações, reveladores dados confidenciais foram entregues à imprensa, a publicação política italiana Panorama divulgou integralmente o documento O SID paralelo – O caso Gladio, que Andreotti tinha entregado à comissão parlamentar.
Quando as autoridades francesas trataram de negar seu próprio envolvimento na rede internacional Gladio, Andreotti contestou implacavelmente que França também tinha participado secretamente na última reunião do comité director de Gladio, o ACC, que se tinha desenvolvido em Bruxelas só em umas poucas semanas dantes, nos dias 23 e 24 de outubro de 1990, ante o qual, um pouco incómoda, França teve que reconhecer sua participação na operação. A partir de então, fazia-se impossível desmentir a dimensão internacional da guerra secreta e o escândalo não demorou em se estender por toda Europa ocidental.
Depois, seguindo as fronteiras dos Estados membros da OTAN, propagou-se rapidamente por Estados Unidos. A comissão do parlamento italiano encarregada de pesquisar sobre Gladio e sobre os atentados perpetrados em seu país concluiu: «Aquelas matanças, aquelas bombas, aquelas operações militares foram organizadas, instigadas ou apoiadas por pessoas que trabalham para as instituições italianas e, como se descobriu mais recentemente, por indivíduos vinculados às estruturas da inteligência estadounidense».
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