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09/12/2013

Embalsamamento mediático, amnésia política O Evangelho segundo Mandela

 Alain Gresh. Artigo tirado do site de Le Monde Diplomatique em português (aqui). Na morte de Nelson Mandela, o presidente da República portuguesa, Aníbal Cavaco Silva, enviou condolências ao seu homólogo sul-africano, Jacob Zuma. Aí evoca «o exemplo de coragem política, a sua estatura moral», a dedicação aos «valores da democracia, da liberdade e da igualdade – nas suas palavras, “um ideal por que espero viver e que espero alcançar, mas, se necessário, por que estou preparado para morrer”». Mandela estava preso há 24 anos quando, em 1987, a Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, por 129 votos a favor, a Resolução 42/23, que apelava à sua libertação incondicional e se solidarizava com a luta do Congresso Nacional Africano (ANC). Houve apenas 3 estados que votaram em contra: o dos Estados Unidos, sob a presidência de Ronald Reagan; o do Reino Unido, da primeira-ministra Margaret Thatcher; e o de Portugal … do primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva. A amnésia política daqueles a quem ela convém só resulta se as comunidades perderem a memória. Cavaco, representando Portugal, não foi dos que estiveram com Mandela quando ele e «os valores da democracia, da liberdade e da igualdade» mais precisavam. Cavaco esteve do lado do Apartheid. Votou pela manutenção de Mandela na prisão (e nenhuma declaração de voto altera isso). Passaram mais três anos até que Mandela fosse libertado, a 11 de Fevereiro de 1990. Honrar a vida de Mandela é prosseguir, em todo o mundo, a imensa tarefa da emancipação social de que ele foi um exemplo audaz e corajoso.
 

FOTOGRAFIA de Bruce Clarke, artista plástico de origem sul-africana, que trabalha a mil léguas do cinismo e dos diktats da arte conceptual. Antigo militante contra o Apartheid, trata nas suas obras da história contemporânea, da escrita e da transmissão da memória.


«Um herói do nosso tempo», titula um número especial do Courrier international (Junho-Agosto de 2010). «Ele mudou a história», diz o Le Nouvel Observateur (27 de Maio de 2010), aumentando a parada. Acompanhadas do retrato de um Nelson Mandela sorridente, estas duas capas testemunham uma adoração consensual, cuja apoteose foi o filme Invictus, do realizador Clint Eastwood [1]. Com o Campeonato do Mundo de Futebol, todo o planeta comunga no culto do profeta visionário que rejeita a violência, que guiou o seu povo para uma terra prometida onde negros, mestiços e brancos vivem em harmonia. A prisão de Robben Island, onde aquele a quem os seus camaradas chamavam Madiba foi enclausurado durante longos anos – e que é lugar de peregrinação obrigatório para os hóspedes estrangeiros –, recorda um «antes» um pouco vago, esse tempo do maldito Apartheid que só podia suscitar uma condenação universal, a começar pela das democracias ocidentais.

Cristo morreu na cruz, há uns dois mil anos. Muitos investigadores questionam-se sobre a correspondência entre o Jesus dos Evangelhos e o Jesus histórico. O que sabemos da vida terrestre do «filho de Deus»? De que documentos dispomos para descrever a sua prédica? Os testemunhos recuperados no Novo Testamento são fiáveis? Seria de presumir uma maior facilidade de apreender o «Mandela histórico», tanto mais quanto dispomos de um evangelho escrito pela sua própria mão [2], bem como de muitos testemunhos directos. No entanto, a lenda parece estar pelo menos tão distanciada da realidade quanto a do Jesus dos Evangelhos, de tal forma parece intolerável admitir que o novo messias foi um «terrorista», um «aliado dos comunistas» e da União Soviética (a do Gulag), um revolucionário determinado.

O Congresso Nacional Africano (ANC), aliado estratégico do Partido Comunista Sul-Africano, lançou-se na luta armada em 1960, depois do massacre na township de Sharpeville, a 21 de Março, de que resultaram várias dezenas de mortos. Os negros estavam a manifestar-se contra o sistema do pass (passaporte interno). Mandela, até então adepto da luta legal, convenceu-se nessa altura de que a minoria branca nunca renunciaria pacificamente ao seu poder, às suas prerrogativas. Tendo, num primeiro tempo, privilegiado as sabotagens, o ANC também utilizou, é certo que de forma limitada, a arma do «terrorismo», não hesitando em colocar algumas bombas em cafés.

Preso em 1962 e condenado, Madiba rejeitou, a partir de 1985, várias ofertas de libertação em troca da sua renúncia à violência. «É sempre o opressor, e não o oprimido, que determina a forma da luta», escreveu ele nas suas memórias. «Se o opressor utiliza a violência, o oprimido não tem outra escolha que não seja responder através da violência.» E só esta, apoiada em crescentes mobilizações populares e sustentada por um sistema internacional de sanções que, com o passar do tempo, se tornaram cada vez mais incómodas, pôde demonstrar a inanidade do sistema repressivo e levar o poder branco ao arrependimento. Estabelecido o princípio de «um homem, um voto», Mandela e o ANC souberam então dar provas de flexibilidade na implantação da «sociedade arco-íris» e nas garantias outorgadas à minoria branca. Foram mesmo forçados – mas isso é uma outra história – a restringir o seu projecto de transformação social.

A estratégia do ANC beneficiou de um apoio material e moral da União Soviética e do «campo socialista.» Muitos dos seus quadros foram formados e treinados em Moscovo ou em Hanói. O combate estendia-se a toda a África austral, onde o exército sul-africano tentava estabelecer a sua hegemonia. A intervenção das tropas cubanas em Angola em 1975 e as vitórias que aí teve, em particular em Cuito Cuanavale em Janeiro de 1988, contribuíram para enfraquecer a máquina de guerra do poder racista e para confirmar o impasse em que este se encontrava. A batalha de Cuito Cuanavale constituiu, segundo Mandela, «uma viragem na libertação no nosso continente e do meu povo» [3]. Não o esqueceu, tendo feito de Fidel Castro um dos convidados de honra das cerimónias da sua tomada de posse como presidente, em 1994.

Neste choque entre a maioria da população e o poder branco, os Estados Unidos, o Reino Unido, Israel e a França (esta até 1981) combateram «do lado errado», o dos defensores do Apartheid, em nome da luta contra o perigo comunista. Chester Crocker, o homem-chave da política do «envolvimento construtivo» do presidente Ronald Reagan na África austral na década de 1980, escreveu o seguinte: «Pela sua natureza e pela sua história, a África do Sul faz parte da experiência ocidental e é parte integrante da economia ocidental» (Foreign Affairs, Inverno de 1980-1981). Washington, que apoiou Pretória em Angola em 1975, não hesitou em contornar o embargo às armas e em colaborar estreitamente com os serviços de informações sul-africanos, rejeitando qualquer medida coerciva contra Pretória. A maioria negra era instada à moderação, enquanto aguardava uma evolução gradual.

A 22 de Junho de 1988, dezoito meses antes da libertação de Mandela e da legalização do ANC, o sub-secretário do Departamento de Estado norte-americano, John C. Whitehead, explicava ainda na Comissão do Senado: «Temos de reconhecer que a transição para uma democracia não racial na África do Sul levará inevitavelmente mais tempo do que desejamos». Afirmava ainda que as sanções não teriam qualquer «efeito desmoralizador sobre as elites brancas» e que penalizariam em primeiro lugar a população negra.

No último ano do seu mandato, Ronald Reagan tentou uma última vez, mas sem êxito, impedir o Congresso de punir o regime do Apartheid. Nessa altura ele celebrava os «combatentes da liberdade» afegãos e nicaraguenses, enquanto denunciava o terrorismo do ANC e da Organização de Libertação da Palestina (OLP).

O Reino Unido não se ficou atrás. O governo de Margaret Thatcher recusou qualquer encontro com o ANC até à libertação de Mandela em Fevereiro de 1990. Na Cimeira da Commonwealth de Vancouver, em Outubro de 1987, opôs-se à adopção de sanções. Questionada sobre as ameaças do ANC de atacar os interesses britânicos na África do Sul, Thatcher respondeu: «Isso mostra a organização terrorista banal que é [o ANC]». Nessa altura a associação dos estudantes conservadores, filiada no partido, distribuía cartazes que diziam o seguinte: «Enforquem Nelson Mandela e todos os terroristas do ANC! São uns carniceiros». O novo primeiro-ministro conservador David Cameron acabou por decidir pedir desculpas por este comportamento… em Fevereiro de 2010! Mas a comunicação social foi certeira ao recordar-lhe que ele próprio se deslocou à África do Sul em 1989, a convite de um lóbi anti-sanções.

Israel manteve-se até ao fim como o aliado indefectível do regime racista de Pretória, fornecendo-lhe armas e ajudando-o no seu programa militar nuclear e de mísseis. Em Abril de 1975, o actual chefe de Estado Shimon Péres, então ministro da Defesa, assinou um acordo de segurança entre os dois países, Um ano depois, o primeiro-ministro sul-africano Balthazar J. Vorster, um antigo simpatizante nazi, foi recebido com todas as honras em Israel. Os responsáveis pelos dois serviços de informações reuniam anualmente e coordenavam a luta contra o «terrorismo» do ANC e da OLP.

E França? A do general de Gaulle e dos seus sucessores de direita estabeleceu relações descomplexadas com Pretória. Numa entrevista publicada na edição acima citada do Nouvel Observateur, Jacques Chirac vangloria-se do seu apoio de longa data a Mandela. Mas, tal como acontece com muitos dirigentes direita, Chirac tem sobre esta matéria uma memória curta – e o jornalista que o entrevista aceita a sua amnésia sem reagir. Primeiro-ministro entre 1974 e 1976, Chirac homologou em Junho de 1976 o contrato com a Framatome para a construção da primeira central nuclear na África do Sul. Nessa ocasião, o editorial do Le Monde assinalava o seguinte: «A França encontra-se em curiosa companhia no pequeno grupo de parceiros considerados “seguros” por Pretória» (1 de Junho de 1976). «Viva a França. A África do Sul está a tornar-se uma potência económica», titulada a toda a largura da primeira página o diário sul-africano de grande tiragem Sunday Times. Apesar de ter decidido, em 1975, muito por pressão dos países africanos, deixar de vender armas directamente à África do Sul, a França honrou durante vários anos ainda os contratos em curso, enquanto os seus blindados Panhard e os seus helicópteros Alouette e Puma tinham uma licença para serem construídos localmente.

Apesar do discurso oficial de condenação do Apartheid, Paris manteve, pelo menos até 1981, numerosas formas de cooperação com o regime racista. Alexandre de Marenches, o homem que dirigiu o Serviço de Documentação Externa e Contra-Espionagem (SDECE) entre 1970 e 19801, resumiu assim a filosofia da direita francesa: «O Apartheid é certamente um sistema que se pode lamentar, mas é preciso fazer com que ele evolua devagar» [4]. Se o ANC tivesse escutado estes conselhos de moderação (ou os do presidente Reagan), Mandela teria morrido na prisão, a África do Sul teria mergulhado no caos e o mundo nunca teria podido fabricar a lenda do novo messias.

Notas

[1] Mona Chollet, «Les dérobades d’“Invictus”», Le Lac des signes, les blogs du Monde diplomatique, 12 de Janeiro de 2010.
[2] Nelson Mandela, Un long chemin vers la liberté, Fayard, Paris, 1995. (Em português: Um Longo Caminho para a Liberdade, Campo das Letras, Porto, 1995.)
[3] Ronnie Kasrils, «Turning point at Cuito Cuanavale », 23 de Março de 2008, IOL.
[4] Alexandre de Marenches e Christine Ockrent, Dans le secret des princes, Stock, Paris, 1986, p. 228.

26/11/2013

EUA X Irã: como a paz tornou-se possível

Ignacio Ramonet. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Maurício Ayer

Mulheres iranianas diante de imagem anti-EUA. Como gesto de boa vontade, cartazes como este estão sendo retirados das ruas, pela prefeitura de Teerã
Mulheres iranianas diante de imagem anti-EUA. Como gesto de boa vontade, cartazes como este estão sendo retirados das ruas, pela prefeitura de Teerã


Os gestos de aproximação entre Teerã e Washington multiplicam-se rápido. Uma nova era parece começar. Agora, parece possível uma solução política, para pôr fim ao conflito a respeito da energia nuclear que opõe, há mais de trinta anos, o Irã e os Estados Unidos. De repente, gestos recíprocos de conciliação tomaram o lugar das ameaças e ofensas proferidas durante décadas. A ponto de a opinião pública se perguntar como passamos tão depressa de uma situação de enfrentamento constante à perspectiva, agora plausível, de um acordo.

Há apenas dois meses, no início de setembro passado, estávamos – uma vez mais – à beira da guerra no Oriente Médio. Os meios de comunicação de alcance global anunciavam em seus títulos o “ataque iminente” dos Estados Unidos contra a Síria, grande aliado do Irã, acusada de ter cometido, em 21 de agosto, um “massacre químico” na periferia de Damasco.

A França, por razões ainda enigmáticas, estava na linha de frente. Pronta a participar desse ataque, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, sem solicitar a concordância de seu Parlamento e sem esperar o relatório dos especialistas das Nações UnidasDavid Cameron, primeiro-ministro britânico, estava igualmente empenhado nesta nova “coalizão internacional” decidida a “punir” Damasco como ela havia “punido” (com o apoio da OTAN), em 2011, a Líbia do coronel Kadhafi… Diversos Estados vizinhos – Arábia Saudita (grande rival regional do Irã), Catar, Turquia –, já muito engajados na guerra civil síria ao lado dos insurgentes, apoiavam o projeto dos “ataques aéreos”.


Tudo apontava para um novo conflito. No centro de uma “zona de todos os perigos”, ele arriscava transformar-se rapidamente em conflagração regional. Pois a Rússia (que dispõe de uma base naval geoestratégica em Tartus, na costa síria, e é fornecedor maciço de armas a Damasco) e a China (em nome da soberania dos Estados) tinham avisado que oporiam seus vetos a qualquer pedido, no Conselho de Segurança, em favor do ataque. De sua parte, Teerã denunciava o uso de armas químicas e temia a intervenção militar, receando que ela permitisse a Israel aproveitar para atacar o Irã e destruir suas bases nucleares… Era portanto o barril de pólvora do Oriente Médio (incluindo o Líbano, o Iraque, a Jordânia e a Turquia) que ameaçava explodir.

Mas de repente, sem transição, esse projeto de “ataque iminente” foi abandonado – para grande estupor de todos os partidários da guerra… Por quê? Por, pelo menos, quatro razões.

Em primeiro lugar, a recusa das opiniões públicas ocidentais, majoritariamente hostis a um novo conflito, cujos principais beneficiários locais seria certamente os grupos jihadistas ligados à Al Qaeda. Grupos estes, aliás, que os ocidentais combatem na Líbia, no Mali, na Somália, no Iraque, no Iêmen, entre outros países… Houve em seguida, no dia 29 de agosto, a humilhante derrota de David Cameron no Parlamento britânico, que tirou o Reino Unido do jogo. Depois, em 31 de agosto, veio a reviravolta de Barack Obama, que decidiu, para ganhar tempo, solicitar um sinal verde do Congresso estadunidense, do qual ele não tinha qualquer necessidade… Enfim, em 5 de setembro, durante a cúpula do G-20 em São Petersburgo, Vladimir Putin propôs formalmente colocar a operação sob controle da ONU e destruir o arsenal químico sírio.

Essa solução (uma indiscutível vitória diplomática de Moscou) servia bem tanto a Washington quanto a Paris, Damasco e Teerã. Paradoxalmente, ela significava, em contrapartida, uma derrota para… vários aliados dos Estados Unidos (inimigos do Irã), a saber: Arábia Saudita, Catar e Israel.

Evidentemente, uma saída como essa – inimaginável apenas dois meses atrás – deveria transformar a atmosfera diplomática geral e acelerar a aproximação entre Washington e Teerã.

Na realidade, tudo havia começado em 14 de junho, com a eleição de Hassan Rohani à presidência do Irã, sucedendo o controverso Mahmoud Ahmadinejad. Desde sua posse, em 4 de agosto, o novo presidente declarou que um momento distinto começava, e que ele procuraria, pelo “diálogo”, tirar seu país do isolamento diplomático e da confrontação com o Ocidente sobre a questão nuclear. Seu principal objetivo: afrouxar as sanções internacionais que estrangulam a economia.

Essas sanções estão entre as mais duras já impostas a um país em tempos de paz. A partir de 2006, o Conselho de Segurança, agindo amparado no capítulo VII da Carta das Nações Unidas 1, adotou quatro resoluções muito rígidas – 1.737 (2006), 1.747 (2007), 1.803 (2008) e 1.929 (2010) – em resposta aos riscos de proliferação que o programa nuclear iraniano supostamente implicaria.

Essas restrições foram reforçadas em 2012 por um embargo petroleiro e financeiro dos Estados Unidos e da União Europeia, que isolaram do mercado mundial o Irã, que está sentado sobre a quarta maior reserva mundial de petróleo e a segunda de gás 2.

Tudo isso degradou brutalmente as condições de vida. Aproximadamente 3,5 milhões de iranianos estão, desde então, desempregados (ou seja, 11,2% da população ativa ), uma cifra que poderia aumentar até 8,5 milhões segundo o ministro da Economia. O salário mínimo mensal é de apenas 6 milhões de rials (200 dólares), enquanto os preços ao consumidor mais que dobraram. E os produtos de base (arroz, azeite, frango) permanecem caros demais. Os medicamentos importados são inencontráveis. A taxa anual de inflação é de 39%. A moeda nacional perdeu 75% de seu valor em 18 meses.

Nesse contexto de mal-estar social agudo, o presidente Rohani multiplicou rapidamente os sinais de mudança. Libertou uma dezena de prisioneiros políticos, entre os quais Nasrin Sotoudeh, militante dos direitos humanos. Em 25 de agosto, houve, pela primeira vez em décadas, a visita a Teerã de um diplomata norte-americano – Jeffrey Feltman, secretário geral adjunto da ONU, enviado para examinar, com o novo chefe da diplomacia iraniana, Mohammad Javad Zarif, a situação na Síria. Ninguém tem dúvida de que eles trataram também das relações Irã-Estados Unidos… Na sequência, produziu-se o insólito: Hassan Rohani e Barack Obama trocaram cartas nas quais se diziam prontos a conduzir as “discussões diretas” para tentar encontrar uma “solução diplomática” para a questão nuclear iraniana.

A partir daí, Hassan Rohani pôs-se a dizer frases que, há anos, os ocidentais queriam ouvir. Durante uma entrevista à CNN, diante de uma questão sobre o Holocausto, o presidente iraniano declarou: “Todo crime contra a humanidade, incluindo os cometidos pelos nazistas contra os judeus, é repreensível e condenável.” Ou seja, o contrário exato do que Mahmoud Ahmadinejad tinha martelado durante oito anos. Para a NBC, Rohani afirmou: “Nunca tentamos produzir uma bomba nuclear e não temos a intenção de fazê-lo”. Por fim, em artigo publicado no Washington Post, o presidente iraniano propunha procurar, pela negociação, soluções de tipo “ganha-ganha”.

Em resposta, Barack Obama, ao discursar na ONU, em 24 de setembro, citou 25 vezes o Irã, pronunciando igualmente as palavras que Teerã queria ouvir. Que os Estados Unidos “não querem mudar o regime” iraniano, e que Washington respeita “o direito do Irã de aceder à energia nuclear para fins pacíficos”. Sobretudo, pela primeira vez, ele não ameaçou o Irã e não repetiu a frase fatídica: “Todas as opções estão sobre a mesa”.

No dia seguinte, um secretário de Estado norte-americano (John Kerry) e um ministro das Relações Internacionais iraniano (Mohammad Javad Zarif) reuniram-se pela primeira vez, desde a ruptura de relações diplomáticas entre os dois países em 7 de abril de 1980 (em seguida à prisão de reféns na embaixada dos Estados Unidos, em 4/11/1979), para tratar da questão nuclear iraniana. E reencontraram-se em Genebra a partir de 15 de outubro, para a reunião do Grupo dos Seis (China, Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia, mais a Alemanha), com a incumbência de debater, no ambiente da ONU, a questão iraniana.

Por fim, um encontro “muito produtivo” entre o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) ocorreu em Viena, em 30 de outubro. Estabeleceu, segundo afirmaram as duas partes em rara declaração comum, “avanços na questão do programa nuclear iraniano, permitindo vislumbrar as próximas negociações com um certo otimismo”. Acrescentaram, além disso, que “na sequência de discussões substanciais, foi decidido que uma nova reunião aconteceria em 11 de novembro, em Teerã3”. [Nota da Redação: o resultado positivo desse novo encontro está relatado aqui]. Essa atmosfera de frases distensionadoras e pequenos passos no caminho da reconciliação 4 converteu-se em cena espetacular no célebre contato telefônico de 27 de setembro, entre Barack Obama e Hassan Rohani.

No entanto, resta o nó do problema. Washington formula três exigências: 1) que Teerã pare de enriquecer urânio a mais de 20%, um percentual considerado relativamente próximo do nível militar; 2) que os iranianos permitam inspeções mais avançadas; 3) que o Irã conserve, sob seu controle, quantidades muito limitadas de urânio enriquecido. Por seu lado, Teerã reclama que lhe reconheçam seu direito a um programa atômico civil e quer obter um alívio das sanções internacionais que estrangulam sua economia.

De parte a parte, a desconfiança é grande. Quando, em 2006, o Conselho de Segurança da ONU infligiu a Teerã as primeira sanções por causa de seu programa nuclear, o Irã contava com apenas 200 centrífugas para enriquecer seu urânio. Esse número, desde então, multiplicou-se por cem: o país disporia atualmente de cerca de 20 mil centrífugas… Destas, metade teria sido instalada ao longo dos dois últimos anos. Entre os últimos aparelhos, mil seriam de nova geração, com capacidade de produção muito mais forte. Eles permitiriam ao Irã, se assim desejasse, elevar seu urânio enriquecido ao nível militar em prazos muito curtos.

O Irã estaria em condições, desde já, de obter urânio suficientemente enriquecido para fabricar uma bomba em alguns meses… Ignora-se, contudo, se dispõe de uma ogiva nuclear que possa ser eficazmente adaptada a seus mísseis. Quanto a isso, um relatório de 2011 da AIEA5 [5afirmou que a Agência dispunha de provas de que o Irã teria efetuado, ao longo dos anos precedentes, “pesquisas importantes com vistas a desenvolver uma ogiva nuclear”. Segundo esse mesmo relatório, Teerã teria igualmente avançado no sentido de produzir um reator nuclear de água pesada capaz de produzir plutônio para fabricar uma ogiva nuclear. De maneira que os iranianos disporiam de dois caminhos possíveis para construir um artefato atômico bélio: a do urânio e a do plutônio. Aos olhos das potências ocidentais, esses dois caminhos são linhas vermelhas que Teerã não deve ultrapassar.

O Irã sempre negou que seu programa nuclear tinha metas militares. Seu objetivo declarado é civil. Dominar o ciclo da energia atômica, para poder garantir sua autonomia energética depois do esgotamento das reservas de hidrocarbonetos.

Contudo, é inegável que Teerã deseja ter seu lugar na cena internacional. Um lugar que corresponda à sua posição de antigo Império Persa, à sua dimensão demográfica (80 milhões de habitantes) e à sua situação geopolítica (na encruzilhada entre o Afeganistão e o Paquistão, o Cáucaso, o Oriente Médio e a Turquia). Os dirigentes iranianos constatam, com melancolia, que seu país é posto para escanteio, enquanto outros Estados do Sul (Turquia, Índia, Brasil…) emergem e desempenham um papel cada vez mais importante no novo contexto internacional. Eles medem pelo desarranjo de sua economia o que lhes custou três décadas de hostilidade norte-americana.

Ao contrário do governo ultraconservador israelense, que tenta torpedear essa aproximação 6, outros aliados dos Estados Unidos não querem ser os últimos a subir no bonde da paz. Nem, sobretudo, perder suculentos contratos comerciais com um país de 80 milhões de consumidores… Por isso, o Reino Unido imediatamente anunciou que pretendia reabrir sua embaixada em Teerã e relançar suas relações diplomáticas. E, a partir de 24 de setembro, o presidente francês François Hollande apressou-se em ser o primeiro dirigente ocidental a se encontrar e publicamente apertar a mão de Hassan Rohani. É preciso dizer que a França tem importantes interesses econômicos a defender no Irã. Em particular, no setor automotivo, com duas empresas (Renault e Peugeot) presentes no país há décadas (mas que tiveram que parar a produção por conta das sanções). Faz alguns meses que tanto a Renault quanto a Peugeot assistem, com preocupação, à chegada com força dos construtores americanos, notadamente a General Motors.

Tudo indica que o degelo atual vai se intensificar. O Irã e os Estados Unidos, objetivamente, têm interesse nisso. O argumento da diferença abissal entre os sistemas políticos estadunidense e iraniano não se sustenta. Os “compromissos históricos” abundam. Que identidade política haveria, por exemplo, entre a China de Mao Tsé-Tung e os Estados Unidos capitalistas de Richard Nixon? A ausência não impediu esses dois países de normalizar suas relações desde 1972 e de empreender a espetacular aproximação econômica e comercial que se seguiu. Seria possível, igualmente, citar a aproximação insólita, a partir de novembro de 1933, entre os Estados Unidos de Roosevelt e União Soviética de Stalin. Dois sistemas que se opunham em tudo, mas que puderam, juntos, vencer a Alemanha hitlerista e ganhar a II Guerra Mundial.

No plano geoestratégico, o presidente Barack Obama procura desembaraçar-se do Oriente Médio para se voltar para a Ásia, “zona de futuro e de crescimento” do século XXI, segundo Washington. Sólida desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a implantação norte-americana na região justificava-se pela existência das principais fontes de hidrocarbonetos, indispensáveis para a máquina de produção norte-americana. Mas isso mudou com a descoberta, nos Estados Unidos, de importantes reservas de gás e de petróleo de xisto, que poderiam aportar-lhes, num prazo breve, uma quase autonomia energética.

Por outro lado, o estado das finanças americanas, depois da crise de 2008, não permite aos Estados Unidos assumir o custo considerável de seu envolvimento múltiplo nas guerras e conflitos do Oriente Médio. Negociar com o Irã, para que abandone seu projeto nuclear militar, é muito menos caro que uma guerra ruinosa. Além disso, a opinião pública dos EUA mantém-se hostil a um confronto contra o Estado persa. E aliados como a Alemanha e o Reino Unido, tendo em vista o que ocorreu no caso da Síria, certamente não participariam da aventura. Ao contrário, se um acordo for possível, O Irã poderia ajudar a estabilizar o conjunto da região, em especial o Afeganistão, Iraque, Síria e Líbano, o que aliviaria Washington.

Já Teerã tem necessidade absoluta de um acordo, para dissipar o peso das sanções e reduzir as agruras da vida quotidiana da população. Os dirigentes sabem que não estão livre de um grande levante social. Sobre a questão nuclear, o Irã parece ter compreendido que possuir uma bomba que não poderia utilizar, e se reduzir à situação da Coreia do Norte, não é uma opção. Poderia contentar-se, como o Japão, em dominar a técnica, mas manter-se à margem do nuclear militar – que permaneceria a seu alcance7… No momento, tudo o empurra a apostar, para sua defesa, em seus ativos militares tradicionais, que não são desprezíveis. Além disso, o status de potência regional, a que Teerã aspira desde sempre, passa por um acordo (ou mesmo uma aliança com os Estados Unidos, assim como Israel ou a Turquia. Enfim, dado relevante, o tempo corre contra os iranianos: o sucessor de Barack Obama pode ser mais intransigente.

Obstáculos não faltarão, num e noutro campo. O governo Obama, por exemplo, precisa obter o aval do Congresso, onde os amigos de Israel são, sabidamente, numerosos. E será preciso prever o lobby hostil da Arábia Saudita e de outras petro-monarquias do Golfo Pérsico.

Mas o governo Obama deseja, fortemente, obter um grande acordo diplomático com o Irã, semelhante ao que Nixon estabeleceu com a China, em 1972.

Em Teerã, os adversários de um acordo também são poderosos. Mas tudo indica que um novo ciclo foi aberto. A exemplo do que ocorreu na China, após a morte de Mao em 1976, e na União Soviética, à época de Mikhail Gorbachev, há nas profundezas do país um impulso reformador que pode produzir efeitos mesmo no núcleo ideológico da revolução islâmica – desde que preserve a estrutura de poder dos ayatolás.

A lógica da História empurra, portanto, Washington e Teerã – que compartilham uma fé comum no neoliberalismo econômico – rumo ao que poderíamos chamar de um “acordo heroico”
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1. Este capítulo trata da “ação em caso de ameças à paz, rupturas da paz ou atos de agressão”.
2. As exportações iranianas de petróleo caíram de 2,5 milhões de barris diários, em 2011, para menos de um milhão (segundo os dados mais recentes da Agência Internacional de Energia).
3. Les Echos, Paris, 30/11/2013.
4. Pode-se acrescentar à lista a recente decisão do município de Teerã, que retirou das ruas da capital os cartazes anti-norteamericanos..
5. Le Monde, 9/11/2011.
6. Não se sabe muito bem por quê, já que um acordo entre Washington e Teerã iliminaria o risco, para Israel, de um Irã nuclear; preservaria a supremacia atômica israelense no Oriente Médio (como o recente acordo sobre a Síria preserva a supremacia em armas químicas); e evitaria, para Telaviv, o risco de uma guerra cara e perigosa.
7. As questões técnicas envolvidas nas negociações dizem respeito principalmente ao programa iraniano de enriquecimento de urânio. Washington pede poderes mais amplos para inspecionar as instalações iranianas. Também não quer que o Irã enriqueça o combustível a 20% (um índice próximo do militar) e reivindica que Teerã envie a um país neutro, ou a uma organização internacional, o urânio já enriquecido, para garantir que ele não será destinado a uso militar. O objetivo é que o Irã não possua, em hipótese nenhuma, um estoque suficiente para montar uma bomba, caso seja de seu interesse.

22/11/2013

A I Globalização: algumas lições para o presente

Antom Fente Parada. O autor é um dos gestores destes blogue e militante da esquerda independentista galega em Anova-Irmandade Nacionalista. Grande parte do presente artigo foi elaborado a partir de duas achegas publicadas em 2011 no portal alternativo galego Altermundo. Engadimos novos materiais para retomar algumas das reflexões lá vertidas1
 
 
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1.- A fim da I Globalização

Tenhamos muito cuidado em Europa: ninguém nos vai avisar quando chegue o fascismo nem sequer se vai apresentar – seria absurdo- com esse nome. Tenhamos cuidado: não vamos reconhecer o nazismo quando regresse porque falará de novo, como então, de paz e civilização, de valores e normalidade, Santiago Alba Rico.

Senhores, não estejam tão contentes com a derrota [do Hitler]. Porque embora o mundo se tenha posto de pé e tenha detido o Bastardo, a Puta que o pariu anda quente novamente, Bertolt Bercht (6/05/1945) referindo-se ao capitalismo como causa do fascismo.

No livro XVIII Brumário de Luís Bonaparte o velho barbudo, Karl Marx, dizia – num claro influxo hegeliano – que a história repete-se uma vez como tragédia e outra vez como farsa, como se do “etorno retorno” de Nietzsche se tratasse. A Globalização não é tampouco, nem muito menos, um fenómeno novo dando-se a primeira durante a hegemonia no sistema-mundo capitalista do Império británico. Foi a “era do capital” (para Hobsbawn entre 1848-1870) e o tempo do laissez-faire também avalado entao pela crise de 1870, mas cuja ortodoxia se manteve até o crack de 1929 e, em boa medida, conduziu a duas guerras mundiais. Na segunda Globalização as crises análogas foram a Guerra do Vietnam, que marcou a crise-sinal da hegemonia dos EUA e a crise de 2008, comparável em este sentido a de 1929 embora no plano económica seja mais parecida à de finais do XIX2.

Após as guerras napoleónicas também se produzira uma concentração sem precedentes até então de recursos sistémicos, financeiros e militares em mãos de apenas um Estado, o Império Británico. Este empregou três mecanismos que teriam também presença destacada na hegemonia norte-americana após 1945: repressão, reforma e debilitamento do poder dos grupos subalternos mediante processos de expansão económica a escala mundial; ou seja, “globalizando” (globalização ou mundialização – na escola francesa - são em rigor uma manifestação e eufemismos de Imperialismo) com o laissez-faire que beneficia aos que na situação de partida estão em melhores condições para concorrer. No entanto, o peso da “reforma” é infinitamente superior no caso da hegemonia norte-americada do que na britânica. Se a imagem da Sociedade de Nações era o estado policial do XIX o da ONU era o estado do bem-estar do XX – que não se entenderia dito seja de passagem sem a existência duma alternativa real ao capitalismo, for esta mais ou menos sucedida, a URSS. 
 
A partir de 1917 irrompe a URSS, um desafio revolucionário que inçará esperanças nas classes trabalhadoras por toda a parte. Este desafio, somado à experiência da Grande Depressão de 1929 e do fascismo, convenceu os grupos dominantes das principais potências imperiais da necessidade de reformar o sistema-mundo capitalista da I Globalização. Existia um consenso amplo de que a economia e a política do laissez-faire contribuíram para o ocaso social e político do período 1914-1945 e, portanto, as lições do New Deal eram aplicáveis por toda a parte.

O presidente norte-americano Woodrow Wilson elaborou uma alternativa reformista ao chamamento de Lenine à «revolução mundial» e à «rebelião contra o Imperialismo», que consistiu em catore pontos e no chamamento à autodeterminação dos povos (brancos) e ao século do «homem corrente». No entanto, na altura o Congresso rechaçou aquela medida, mas também Lenine fracassara após a derrota da revolução na Alemanha e o ascenso do fascismo em Itália. Já que logo, na década de 20 os triunfadores eram novamente os que propunham o restauracionismo dum caos sistémico (como o que vivemos desde 2008). Porém o contexto era diferente do período 1840-1860 e a classe operária (embora as derrotas sofridas) contava com maior poder para confrontar o laissez-faire já que os governos tinham que preocupar-se pelos níveis salariais e as condições de vida dos cidadãos que participavam das eleições. 
 
A comissão internacional de Genebra sobre o ouro forçou políticas de “ajuste estrutural” (como os ultraliberais após o colapso de Bretton-Woods) em determinados estados para conseguir supostamente moedas saudáveis (convertíveis). Estas políticas de shock3 geraram graves transtornos sociais e os governos tinham que decidir entre a “confiança dos mercados [financeiros]” e o resultado das eleições democráticas. Assim a fuga de capitais teve um papel importantíssimo, tanto no derrocamento dos governos liberais na França quanto no desenvolvimento do movimento nazi na Alemanha. Enquanto isso acontecia os partidos social-democratas eram afastados do poder: em Aústria em 1923, na Bélgica e França em 1926, na Alemanha e em Grande Bretanha em 1931... ao tempo que se reduziam os serviços sociais e se esgaçavam as resistências dos sindicatos para “salvar” (hoje diriam “resgatar”) a moeda.

A restauração do padrão–ouro converteu-se num símbolo da solidariedade mundial na década de 1920 na retórica do establishment até que o craque de 1929 devolveu o mundo à realidade: os mercados “livres” não se recuperaram embora se sacrificaram os governos “livres”. Aí emergiu o fascismo na década de trinta após governos eleitos nas urnas impor políticas autoritárias com o apoio do “liberalismo económico”. No cenário atual, segundo o já referido artigo de Wallerstein:
Por fim, podemos estar certos de duas consequências reais, na próxima década. A primeira é o fim do dólar como moeda de último recurso. Quando isso acontecer, os EUA terão perdido uma grande proteção para seu orçamento e para o custo de suas operações econômicas. A segunda é o declínio – provavelmente sério – no padrão de vida relativo dos cidadãos e residentes nos EUA. As consequências políticas deste último movimento são difíceis de prever em detalhe, mas não serão irrelevantes.

Todavia, o New Deal, os planos quinquenais soviéticos, o fascismo e o nazismo foram respostas à necessidade de liscar dum mercado mundial em desintegração e refugiar-se na economia “nacional”. Todos estes projetos opunham-se ao laissez-faire em desintegração e respondiam ao desafio do desemprego maciço. O desemprego reduziu-se com uma rápida expansão industrial que, no entanto, exacerbou outras contradições e antagonismos na procura de novas fontes de matérias primas. Uma das mais importantes os vencelhos entre recursos militares e industriais, que são claríssimos nos EUA desde a Guerra das Galáxias de Reagan e em China também desde a via socialista de mercado.

Em definitiva, a obstinação pelos dogmas da teologia da ortodoxia do livre mercado (uma das mais terríveis utopias reacionárias) conduziu para duas grandes guerras, que exterminaram milhões de pessoas e jogaram à miséria a outras tantas, para o fascismo, como solução burguesa perante a ameaça duma revolução para implantar uma ditadura de classes esmagadora4 e, por último, para continuar com a destruição criativa do capitalismo, tal e como Schumpeter lhe chamava, alheia então aos limites do planeta que se apresentam sem ambagens na atualidade e complicam a emergência dum novo desarrollismo no Sul e do keynesianismo nos estados do centro do sistema-mundo capitalista. Era a hegemonia norte-americana que emergia do caos de 1914-1945, homólogo do nosso 1973 que ainda não sabemos quando (mas sim semelha que infelizmente como) pode acabar.

2.- A I Globalização: a esquerda 
 
Em 1928, o VI Congresso do Comitern sancionava uma «viragem para a esquerda», punha fim à política de «frente operária unida» (tão solicitada pelo POUM e Andreu Nin no Estado espanhol anos depois, o «frente único») e a social-democracia devia ser descrita pelos comunistas a partir deste momento como «social-fascismo».

Estaline, na aspiração de construir o «socialismo num só país» precisava desesperadamente laços comerciais com os estados capitalistas avançados para trocar cereais soviéticos e outras matérias e recursos que lhe permitiram a aquisição de tecnologia e conhecimentos para a industrialização. O Comissário do Povo para Assuntos Externos e ex-menchevique, Georgi Chicherin, cuidava com acerto que era um disparate perigoso denunciar a outros socialistas como «socialfascistas» e tratou de comunicar a sua opinião à liderança soviética. Porém a ideia que corria na altura de que Estaline confiava a política externa a terceiros enquanto se centrava nas manobras internas do partido e na transformação económica da URSS era falsa, por muito que ele não dirigira o Comitern nem o Comissariado do Povo para os Assuntos Externos que pareciam modelar a política externa. A realidade é que ninguém se atrevia a tomar qualquer iniciativa sem consultar a Estaline (incluindo aqui os integrantes do Politburo). 
 
No entanto, isto não contradiz as intervenções de Chicherin, já que a função deles era o conhecimento factual e técnico. Ora, toda vez que o Politburo definia uma linha devia implementar-se sem crítica nenhuma como técnicos, que não políticos na verdade, da diplomacia soviética. A liderança soviética centrava-se nos planos quinquenais e em esganiçar um isolamento que apercebiam perigoso para a sobrevivência face os estados capitalistas.

Bukharine (que já em julho de 1929 escreveu a Estaline «não pretendo lutar, nem lutarei») foi apartado do Comité Executivo do Comitern em abril de 1928, no tempo em que Jules Humbert-Droz afirmava que os discursos de Estaline era um campo de mentiras, que Angelo Tasca dizia dele que era o «porta-estandarte da contra-revolução», que György Lukácks e António Gramsci protestavam pelo desprezo do PC perante as reformas democráticas na Europa. Porém, para muitos pouco ou nada se passou por isso já que a quinta-feira 29 de outubro desse ano estourava, após semanas caóticas nos mercados de ações, o pânico entre corredores e banqueiros e, ao tempo que as ações se mal vendiam a um ritmo louco, a bolsa de Nova Iorque (a da principal potência emergente na altura da hegemonia financiarizada británica) entrava em falência. 
 
Já que logo, entende-se bem que é aqui onde se engarça a radicalização da estratégia comunista da Comitern que parecia acertada na altura: quanto pior melhor. Por outras palavras, o desemprego, a inflação (que golpeava Alemanha como nenhum outro estado capitalista) e uns ordenados, que não cobriam as despesas correntes eram o cenário sonhado por Estaline e os comunistas da ortodoxia moscovita. Hitler e os nazis eram tratados como simples sintoma da prodredume do capitalismo. 
 
No entanto, na esquerda existam vozes que advertiam para o perigo do nazismo. Trotski indicava que Mussolini era mau e que Hitler seria ainda pior. Advertia, ao igual que Bukharine dos perigos da política de extrema-direita e do fascismo em Europa e sabia que as suas primeiras açoes seriam suprimir os partidos comunistas dos seus respetivos estados. As organizações fascistas e de extrema-direita subiam como a espuma por toda a Europa central e oriental quanto recrudescia a crise económica e social. Hitler e o NSDAP beneficiar-se-iam enormemente da depressão económica alemã, enquanto Estaline dava instruções ao Comitern para que os PC atacaram os outros partidos de esquerda, já que social-democratas, trabalhistas e outros partidos de esquerda era promotores do social-fascismo e, portanto, havia que abandonar a política de frente operária unida para adentrar-se num esquerdismo próprio do retratado por Lenine em A doença infantil do comunismo.

Em Alemanha os comunistas foram à greve geral sem sucesso já que os trabalhadores temiam perder o emprego devido à crise e o alto desemprego. O Partido Comunista polemizava com os seus irmãos. Tanto eles como o SPD eram praticamente hegemónicos entre a classe trabalhadora, mas a rutura da frente operária unida conduziu para o mais grande dos fracassos. Enquanto em 1932 os nazis conquistavam o maior número de votos e arrancavam de Hidenburgo a chancelaria, o 30 de janeiro de 1933, os comunistas e os socialdemocratas brigavam pelas ruas de Berlim. Ao tempo, a URSS mantinha relações com a Itália fascista a pesar de que Mussolini perseguira o PCI. Hitler, porém, suprimiu o Tratado de Rapallo e restringiu as relações económicas o que obrigou a Estaline a procurar um novo sócio preferente no caminho para a industrialização: os EUA. A Ford Motors, por exemplo, cedeu encantada equipamento e especialistas para a enorme fábrica de carros de Nizhni Novgorod, ao tempo que Roosevelt aplanava o caminho para o reconhecimento diplomático da URSS.

A realidade foi que o Comitern não reagiu até que o fascismo triunfou claramente com as suas piores roupagens. Agás China e a URSS, Checoslováquia e França contavam com os maiores PC do mundo e foi lá onde as bases esganaram a linha do Comitern para evitar a sorte dos seus homólogos italianos e alemães. Em fevereiro de 1934 os militantes socialdemocratas e comunistas organizaram juntos em Paris uma greve geral obviando todo o que Maurice Thorez (na altura líder do PCF) dizia. A URSS entrava na Liga de Nações, até há pouco descrita como uma organização das potências capitalistas ganhadoras da Grande Guerra para manterem o seu domínio global, para limitar a expansão do Japão e da Alemanha.

Assim as coisas, o Comitern teve de recuar. Agora, liberais, socialdemcoratas e comunistas uniam-se no anti-fascismo e nas frentes populares, como que triunfou em fevereiro de 1936 na II República espanhola, embora lá o PCE tinha uma implantação social na altura testemunhal. O PCF fora também pioneiro ao juntar-se a socialistas e liberais em julho de 1935 dando a presidência a León Blum, embora sem entrarem em carteiras ministeriais em maio de 1936, e com Thorez falando de que «temos de saber como terminar uma greve» perante o auge da conflituosidade social. A esquerda voltava a tender pontes de fraternidade sobre um inimigo comum que abalava Europa, mas a Alemanha e Itália já estavam perdidas, milheiros de camaradas assassinados e a predição de Lenine duma sequência de guerras mundiais tornava-se a cada passo mais certa e, de facto, a fim da Guerra Civil espanhola em 1936 precederia em poucos meses ao começo da II Grande Guerra. 
 
A lição para o presente semelha clara. Com uma correlação de forças ainda mais desfavorável para o mundo trabalho do que na altura, sem uma alternativa realmente existente ao capitalismo e com a esquerda em reconstrução por toda a parte no Velho Continente aguardemos que, novamente, não seja tarde demais para pular em todo o Estado espanhol e em Eurolândia por um frente amplo a prol da rutura democrática, a (re)conquista da soberania popular e o respeito pelos diferentes feitos nacionais. A história assinala que a credibilidade da esquerda perante amplas capas sociais passa, sem dúvida, por este caminho...

3.- Algumas lições para o presente

Boaventura de Sousa Santos centra boa parte dum recente artigo seu5 na necessidade de falar não apenas de direitos da cidadania, mas também dos deveres desta:

Uma das razões para tendermos a falar mais de direitos do que de deveres reside em que nas democracias se assume que o dever de garantir a vigência dos direitos pertence ao Estado e que cabe aos cidadãos apenas fruir e defender os seus direitos. E o que ocorre quando o Estado deixa de cumprir esse dever como acontece agora? Cabe aos cidadãos o dever coletivo de defender os direitos por todos os meios pacíficos ao seu alcance.
Longe de ser um dever abstrato, é um dever concreto e situacional. O seu exercício acarreta riscos porque, quando o Estado se demite do seu dever, as instituições são vítimas de uma patologia insidiosa: estão vigentes mas dedicam-se a realizar a missão contrária àquela para que foram criadas. É assim que o Estado social se converte em Estado antissocial e a segurança social em insegurança social. Por esta razão, o dever dos cidadãos tem muitas vezes de ser exercido fora das instituições e, quando exercido dentro delas, assim um caráter contracorrente que exigem coragem e determinação.

Como de costume é de por sim ilustrativo o que Sousa Santos nos diz. Cabe destacar que a crise de 2008 reforçou e não debilitou como se podia pensar as teses ultraliberais, especialmente no centro do sistema-mundo. Isso em boa parte apenas é possível porque no caminho a um mundo multipolar grandes destacamentos de consumidores chineses, índios ou brasileiros estimularam a demanda. Em 2009 para Alemanha o principal mercado já era o chinês em exportações e não os EUA. Contudo, a decadência hegemónica da potência mundial, hoje os EUA ontem as Províncias Unidas ou a Grande Bretanha, coincide com o período de financiarização e da maior obtenção de lucros por esta via. Assim, se em 1985 os EUA controlavam 16% dos lucros empresariais em 2008 atingia já 41% e o 0'1% mais rico desse país aumentou a sua riqueza um 700% entre 1980 e 2007. 
 
Na correlação de forças atual o capital obtém novas rendas reduzindo o custe de trabalho e gerando um desemprego maciço cada vez mais generalizado. As dez maiores companhias de Internet apenas criaram 200.000 postos de trabalho quando a sua capitalização bursátil ascende a centos de milheiros de milhões6. Esta realidade leva a pensar num sistema mais piramidal e hierárquico do que nunca, com dinheiro que move a mídia, as máquinas eleitorais... então é uma necessidade apostar pela Frente Ampla, isso sim, tendo claro que bloco social e que aliança para quê projeto. 
 
No entanto, é claro que a esquerda ainda não está pronta em boa medida para assumir esta necessidade histórica e a sua situação de debilidade é muitíssimo superior a da década de 30 no passado século. A temporalidade da macroeconomia fará que os terríveis efeitos da austeridade europeia se sintam com mais força a partir de 20157
 
Na atualidade, os produtos financeiros de derivados especulativos representam já 720.000.000.000.000 dólares, enquanto o PIB mundial apenas chega a 62.000.000.000.000 dólares ou a capitalização bursátil mundial atinge “apenas” 58.000.000.000.000 dólares. A esfera financeira nascida da desregularização escapa por completo do controlo dos estados, ainda mais hoje do que antes da crise do sistema-mundo capitalista iniciada em 2008. As atividades criminosas, hoje mais globalizadas também do que nunca, ascendem a 1.500.000.000.000 dólares (o equivalente ao PIB de Rússia para 2010) e onde, evidentemente, não computa a deliquência de colo branco. Como Pierre Conesa advirte8:
las mafias (como término genérico) tienen comportamientos empresariales análogos a los de los actores económicos, salvo en lo que a la violencia se refiere. Definen su estrategia comercial en función de los beneficios, de los riesgos, de su política de diversificación de productos (multiplicidad de delitos) y de las posibilidades de blanqueo y de inversiones. Adaptan su organización internacional (a menudo muy jerarquizada) aprovechándose de la desregularización financiera.

A luz destes dados semelha, já que logo, difícil neste cenário reprovar a tese de que o grande capital internacional foi o responsável e o grande beneficiário da crise de 2008 e que a continuidade das mesmas políticas económicas apenas pode conduzir para um cenário ainda muito mais devastador. A desregulação impulsada pelo FMI, o Banco Mundial e em Eurolândia a troika contribui para que cada vez um maior volume de lucro escape a qualquer controlo e que aumente o interesse de apostar por atividades criminosas. Os estados vem reduzidas as suas competências de dia para dia quando não diretamente estados falidos atuam como guarda-chuvas de organizações criminosas como em vários estados falidos das Áfricas:
La interpenetración entre delincuencia y mundo político permite que ésta acceda a los mercados públicos y, simultáneamente, obtenga protección a escala nacional (desmantelamiento de células judiciales consideradas demasiado eficaces, como en Italia) e internacional (adopción de normas poco coercitivas). Los Estados, incluso los democráticos, nunca se han prohibido a sí mismos la realización de actividades ilícitas. La financiación de la guerrilla afgana antisoviética por la Central Intelligence Agency (CIA) a través del tráfico de drogas, para gran perjuicio de la Drug Enforcement Authority (DEA), tenía la ventaja de no necesitar el aval del Congreso.

Porém a perda da soberania dos estados não é um fenómeno exclusivo dos “tradicionais” estados falidos. O 16 de novembro de 2002 naufragava nas nossas costas o Prestige. O resultado do juízo-farsa que vimos de conhecer revela que, como no caso do Álvia acidentado em Angrois, apenas os “maquinistas” - os trabalhadores dalgum modo- são culpáveis dos desastres. Também na crise de 2008 por “viver por cima das suas possibilidades” e não a banca por especular por cima das suas possibilidades ou mesmo das possibilidades físicas do Planeta. A demanda de indemnização do petroleiro (em última instância capital de Marc Rich conhecido narco-traficante de armas e heroína) encontrou-se com sessenta sociedades pantalha implantadas em seis estados... como é então possível nem sequer sonhar com que o grande capital (disciplinado, hierárquico, com uma forte solidariedade de classe...) respondesse aos, ao fim e ao cabo dada a magnitude da catástrofe ridículos, seis mil milhões de euros exigidos? 
 
Câmaras municipais como a de Compostela com mais duma dúzia de imputados, tramas como a Gürtel, Pokemon, Nos... ou fenómeno da porta giratória9 demonstram também até onde no Estado espanhol o desfalco de fundos públicos responde, em última instância, ao entramado criminoso internacional. Apenas aí se podem enquadrar as políticas aplicadas polo chefe do Protetorado de Espanha, Mariano Rajoy. Ao igual que a Yakuza japonesa se negou, após inserir-se na esfera política nipona, a assumir as perdas imobiliárias na crise de 2008 (que sim pagou o Tesouro público). Os investimentos no AVE (o comboio de alta velocidade espanhol) é gasto público para resgatar as grandes empresas do setor imobiliário também ajudas com a criação dum banco malo (ativos tóxicos dos que responde a cidadania com impostos e dos que impunemente se desfiz a banca). Nova Caixa Galicia ou Bankia, as privatizações na educação ou na sanidade são alguns exemplos mais duma listagem sem fim no tocante ao espólio do público.

Na crítica ao euro e a recuperação da soberania nacional, ou a conquista da mesma nas nações sem Estado próprio como a Galiza, fica clara a necessidade da desmundialização, termo cuja paternidade atribuiu-se ao economista filipino Walden Bello – se bem fora empregado anteriormente por Bernard Cassen em 1996. Para Lordon se foi possível estabelecer com bastante «facilidad un acuerdo para llamar “mundialización” a la configuración presente del capitalismo, debería ser posible otro acuerdo para entender que “desmundialización” expresa la afirmación de un proyecto de ruptura con ese orden». 
 
E aqui é preciso entendermos por igual a importância do feito nacional, face o universalismo abstrato, a começar por «los asalariados chinos u los asalariados franceses se encuentran en la misma relación de antagonismo de clase, cada uno respecto de “su” capital, pero no es menos cierto que las estructuras de la mundialización económica los ubican también y objetivamente en una relación de antagonismo mútuo». Entender isto é evitar o que Marx criticava dos jovens hegelianos de esquerda: melhor que contar com “essências” que produzam por sim próprias improváveis efeitos, seria fantasiar com refazer as estruturas reais, que determinam sem dúvidas as relações em que entram os diversos grupos sociais.

Notas a rodapé

1Fente Parada, Antom (2011): “O fim da I Globalizaçom” em Altermundo: http://www.altermundo.org/o-fim-da-i-globalizacom/
 
Fente Parada, Antom (2001), “O I fim da I Globalização: a esquerda” em Altermundo: http://www.altermundo.org/o-fim-da-i-globalizacao-ii-a-esquerda/
 
2Wallerstein, Immanuel (2013), “As consequências do declínio americano” em À Revolta entre a mocidade: http://revoltairmandinha.blogspot.com.es/2013/11/as-consequencias-do-declinio-americano.html
 
3Para um desenvolvimento pormenorizado da doutrina do choque no terreno político (social e económico) a partir da psicologia e os experimentos desenvolvidos na década de 50 que logo empregaria a CIA nas torturas da Contra em Nicaragua veja-se o livro A doutrina do choque (The shock doutrine) da economista canadiana Naomi Klein.

4Realmente, como demonstra também o caso da II República espanhola à perfeição, o fascismo conseguia “disciplinar” a mão de obra, reduzir drasticamente o valor do trabalho e permitir assim que o capital aumentasse as suas rendas e superá-se a famosa lei enunciada por Marx sobre a queda na taxa do ganho que provoca as crises. 
 
5Boaventura de Sousa Santos (2013), “Os deveres dos cidadãos” em Visão, nº 1072, 19-25 de setembro de 2013, página 32.
 
6Há 18 meses o Facebook começou a vender as suas ações e ingressou no mercado bolsista em maio de 2012. As suas ações foram transacionadas a 28'5 euros, colocando o valor de mercado da empresa em 67 mil milhões de euros. Hoje as ações – quando Twitter também vá unir-se à bolsa – estão cotadas a 32 euros e a empresa vale por volta de 77'5 milhões de euros. No caso de Google entrou em bolsa em agosto de 2004 com as ações a 64 euros e a empresa a valer 17 mil milhões de euros. Atualmente, cada ação vale 665 euros e o valor de mercado da empresa atinge 222 milhões de euros.
 
7Fréderic Lordon (2011), “¿Temor a la desmundialización?” em EL Atlas Conflictos de Fronteras, Le Monde Diplomatique en Español, 2013, páginas 93-98.

8Conesa, Pierre (2012). “La globalización criminal” em El Atlas de Le Monde Diplomatique: Nuevas potencias emergentes, pp. 62-67.

9Fente Parada, Antom (2012), “A porta giratória no Estado espanhol” em À revolta entre a mocidade: http://revoltairmandinha.blogspot.com.es/2012/05/porta-giratoria-no-estado-espanhol.html