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06/05/2014

Wallerstein: o sentido histórico da revolta zapatista

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Gabriela Leite

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Tratada com ironia, mesmo entre certa esquerda, insurreição de 1994 abriu caminho para retomada da ação anticapitalista, quando sistema julgava-se imbatível


Em 1º de janeiro de 2014, o Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN) celebrou o vigésimo aniversário de sua insurreição em Chiapas. Este ano, eles estão se envolvendo em uma auto-avaliação. Em abril, na página web do EZLN, o Enlace Zapatista, o Subcomandante Insurgente Moisés publicou um editorial sobre a “guerra contra o esquecimento”. Ele diz que em meros dezenove anos, a luta do EZLN “toreou” o sistema que oprime os povos indígenas há 520 anos.

Quais foram as realiçações do EZLN? Em que sentido, pode-se dizer que ele teve sucesso? O EZLN tem sido tratado com ironia não apenas pena direita mundial, mas também por certos grupos  da esquerda, que o acusam de ser muito irrelevante para a luta mundial contra o imperialismo e o neoliberalismo. O que eles alcançaram, perguntam os críticos? Sua trajetória teria sido mais que um show de relações públicas?

Este tipo de crítica não compreende nada sobre a insurreição. O primeiro feito dos zapatistas tem sido sobreviver contra um exército mexicano que tem se esforçado, há vinte anos, por destruí-los. A ameaça foi evitada não por proeza militar do EZLN (seu poder  não pode ser comparado à do exército mexicano), mas por sua força política — tanto internamente, entre os povos indígenas de Chiapas, quanto externamente, no resto do mundo. É essa força que limitou os danos do exército a não mais que perseguições (algumas com assassinatos) nas margens das comunidades anôminas zapatistas.

Qual foi a múltipla mensagem do EZLN, ao governo mexicano e ao mundo, em 1º de janeiro de 1994, quando começou o levante? Primeiro, estavam reivindicando a dignidade dos povos indígenas oprimidos, ao renovar a exigência de exercer o governo de suas próprias comunidades, por meio das próprias populações, coletiva e democraticamente. Em segundo lugar, estavam dizendo que não têm nenhum interesse em chegar ao poder de Estado no México, o que seria, em sua visão, simplesmente trocar um conjunto de opressores por outro. Ao invés disso, demandavam que o governo mexicano reconhecesse formal e sinceramente sua autonomia.

Em terceiro lugar, o EZLN escolheu a data porque marcava a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, em inglês). Ao escolher esta data, estavam afirmando sua rejeição ao papel imperialista dos Estados Unidos, no México e em todo o mundo. Quarto: afirmavam que, ao invés de focarem sua ação especificamente em Chiapas, apoiavam as lutas de todos os povos e classes oprimidas ao redor do mundo. Enfatizaram isso ao convocar mais tarde, em Chiapas, o que eles chamaram de reuniões intergaláticas; e ao se recusarem a excluir participantes que eram rejeitados por outros convidados. E em quinto lugar, solicitaram compartilhar estas visões com outros oprimidos no México através do Congresso Nacional Indígena.


O levante do EZLN foi o início de uma contra-ofensiva da esquerda mundial contra o avanço,  relativamente breve, da direita mundial, entre 1970 e 1994. A combinação do impacto político e econômico do Consenso de Washington e o aparente triunfo, com o colapso da União Soviética, permitiram à direita sonhar com a dominação permanente do sistema mundial. O que os zapatistas fizeram foi lembrá-los (e o mundo de esquerda) que há, sim, uma alternativa — a de um mundo relativamente democrático e relativamente igualitário.

Em 1º de janeiro de 1994, o EZLN abriu caminho para os protestos bem sucedidos que ocorreriam Seattle, em 1999; e em diversas outras cidades, na sequência — assim como para a fundação do Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, em 2001. A luta contínua do FSM e do que agora tem sido chamado de movimento por Justiça Global, foi possível por causa do EZLN.

É claro que, como o Subcomandante Insurgente Moisés nos recorda, “não pode haver descanso; é preciso trabalhar duro”. Suponho que esta seja a mensagem definitiva do EZLN. Não pode haver descanso para qualquer um de nós que acredite que “outro mundo é possível”.

07/01/2014

David Harvey: ser zapatista não é endeusar Marcos

Entrevista a David Harvey. Texto elaborado por  Pedro Locatelli para Carta Capital. Tirado por nós de Outras Palavras (aqui). O negrito é de nosso.

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Vinte anos depois do levante no México, geógrafo avalia: movimento pode transformar esquerda, desde que não o mistifiquemos…



Pesquisador de revoltas recentes ao redor do mundo, o geógrafo britânico David Harvey reconhece a influência dos zapatistas nos novos levantes que têm surgido. Mas ele pondera que algumas das suas características são ignoradas pela esquerda em diversos países.

O geógrafo concedeu uma entrevista à reportagem de CartaCapital, na qual fala sobre o legado do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que há vinte anos tomou o controle de parte da pobre província mexicana de Chiapas.

Harvey destaca as novidades trazidas pelo levante, como a ênfase no direito das mulheres. Ele, porém, se diz “cansado” das pessoas acharem que a revolução “sairá de Chiapas”. Para o geógrafo, a esquerda deve achar uma forma própria de se organizar na cidade. Leia abaixo as falas do geógrafo sobre o levante:

Movimento indígena com características ocidentais

O zapatismo é retratado às vezes como somente um movimento indígena. Mas ele não é isso. É um movimento indígena com caraterísticas ocidentais. Um movimento horizontal, mas com formas militares hierarquizadas. Ou seja, é uma forma híbrida.

Obviamente o zapatismo teve um impacto muito grande na esquerda. A esquerda mundial ficou muito impressionada com suas formas horizontais de governança, mas falhou em reconhecer que a parte militar dessa organização a modificou muito.

Direitos das mulheres

Os zapatistas abordaram muitas questões importantes para essas sociedades (indígenas), como os direitos das mulheres, de uma maneira muito importante. Foi muito excitante ver a questão de gênero, em toda sua dimensão, ser propriamente abordada e articulada pelos zapatistas. [Diversas das figuras mais proeminentes do movimento eram mulheres e, logo após o levante, os zapatistas fizeram uma serie de reivindicações específicas em relação a elas].

Os direitos das mulheres estavam arraigados muito neste movimento, o que não é necessariamente verdade em outras populações indígenas e na esquerda. Mais uma vez, nessa questão, eles tinham características especiais.

Teologia da libertação

O movimento era uma combinação brilhante de pensamento indígena com perspectivas do iluminismo ocidental. Particularmente, havia uma influência de doutrinas do catolicismo, como dos franciscanos [conjunto de ordens católicas com forte presença na América Latina]. Eu acho que foi a expressão de ideias como respeito e dignidade, vindas de Chiapas, que agarraram a imaginação do mundo.

Foi uma combinação peculiar, onde a posição do subcomandante Marcos foi extremamente crucial. Não só em termos de organizar a parte militar, mas também de apresentar suas ideias ao mundo, que muito dificilmente poderiam ser entendidas. Então, quando ele falava de respeito e dignidade, ele estava em uma longa história da teologia da libertação, por exemplo. E as pessoas responderam a isso.

Ação fora do Estado

Havia também a característica de que aquele não era um partido político, não queria tomar o poder do Estado. Os zapatistas só queriam autonomia, e isso foi atraente para muitas pessoas ao redor do mundo. Eles estavam, desta forma, se protegendo da exploração. Quando se faz isso, você mantém-se fora dos limites, mas isso também gera muitos problemas. Eles precisam de recursos, eles precisam de armas, é uma história muito complicada.

A revolução não sairá de Chiapas

As vezes eu fico um pouco cansado porque em partes da Europa e da América do Norte as pessoas acham que a revolução vai sair de Chiapas e salvar a nós todos. Meu argumento é que a gente não pode simplesmente tirar aquilo do México e trazer para cá, nós temos de inventar nossas próprias maneiras de fazer política, de acordo com as nossas próprias circunstâncias.

Nós não estamos vivendo em Chiapas, nós estamos vivendo em Pittsburgh, em Detroit, em São Paulo. E a gente precisa pensar nas nossas próprias formas de se organizar em grandes cidades como essas.

04/07/2012

O PRI está de volta ao poder no México

Eduardo Febbro - Cidade do México. Tirado de Carta Maior (aqui). Tradução: Marco Aurélio Weissheimer


Entre a oferta do mesmo, o PAN, e a da mudança, o PRD, os eleitores optaram por um partido que, apesar das acusações de corrupção e autoritarismo que empanaram seus anos no poder, garantiu a ordem e o funcionamento do Estado. O México castigou a direita mexicana encarnada pelo PAN, ao mesmo tempo em que deixou à esquerda um espaço de ação e controle inédito. Felipe Calderón deixa um país de joelhos e cheio de mortos. Peña Nieto terá que governar um país fraturado pela violência provocada pela luta contra o narcotráfico e pelos índices de pobreza e desigualdade. O artigo é de Eduardo Febbro, direto da Cidade do México.

Cidade do México - O anúncio de um salão de beleza situada na esquina de Moliére e Homero, no rico bairro de Polanco, pode servir de consigna para definir o partido político mexicano que governou o país durante mais de 70 anos, ficou fora do poder durante 12 anos e recuperou-o neste domingo, 1º de julho, nas eleições presidenciais: “Clássico salão de beleza reatualizado”. O partido de sempre, o PRI, Partido Revolucionário Institucional, com um candidato reatualizado, Enrique Peña Nieto, obteve nas urnas um triunfo contundente frente à esquerda do Partido da Revolução Democrática (PRD), e seu candidato Andrés Manuel López Obrador.

O PRI obteve 37,9% dos votos, contra 31,7% dados a Obrador e 25,4% para Josefina Vázquez Mota, a candidata da Ação Nacional (PAN), o partido do presidente que sai, Felipe Calderón. O retorno do PRI ocorreu com força. O velho partido aumentou seu poder nos Estados do país: ganhou em Jalisco – onde o PAN governava há 18 anos – e em Chiapas. No entanto, o partido de Peña Nieto não conseguiu os resultados esperados, ou seja, não foi capaz de repetir o resultado dos melhores anos do PRI quando o movimento obtinha maiorias avassaladoras. A força da esquerda de Andrés Manuel López Obrador freou a amplitude da ressurreição do PRI.

A vantagem do PRI nas eleições presidenciais e no Congresso é menor do que a direção do partido esperava. O PRD de López Obrador derrotou o PRI no Distrito Federal, venceu no Estado de Morelos e tirou das mãos do PRI o Estado de Tabasco. Além disso, o PRD se instalou no Congresso de maneira sólida como segunda força política na Câmara de Deputados. “Somos uma nova geração. Não há volta para o passado”, disse Piña Nieto em sua primeira declaração pública. Seu rival em troca, se manteve prudente. O passado segue pesando no cenário eleitoral mexicano. Andrés Manuel López Obrador perdeu as eleições presidenciais de 2006 por apenas 0,56%, no que apareceu como uma das fraudes mais notórias da história política contemporânea. AMLO – como Obrador é conhecido no México – prometeu que não agiria de maneira “irresponsável” ao mesmo tempo em que não poupou críticas a um processo que denuncia por sua “falta de igualdade” devido ao dinheiro que o PRI gastou na campanha eleitoral e ao respaldo massivo que Peña Nieto recebeu por parte dos meios de comunicação.

O presidente eleito prometeu que exercerá uma “presidência democrática, moderna, aberta à crítica e disposta a escutar”. O retorno do PRI ao poder se deve muito ao fracasso rotundo dos dois mandatos do PAN e ao perfil um tanto repetitivo da esquerda que não soube renovar-se diante de uma rival como o PRI que aproveitou os 12 anos que passou na oposição para se livrar dos vícios mais rejeitados pela sociedade.

Entre a oferta do mesmo, o PAN, e a da mudança, o PRD, os eleitores optaram por um partido que, apesar das acusações de corrupção e autoritarismo que empanaram seus anos no poder, garantiu a ordem e o funcionamento do Estado. O México castigou a direita mexicana encarnada pelo PAN, ao mesmo tempo em que deixou à esquerda um espaço de ação e controle inédito. Felipe Calderón, por sua vez, deixa um país de joelhos e cheio de mortos. Peña Nieto terá que governar um país fraturado tanto pela onda de violência provocada pela luta contra o narcotráfico (mais de 50 mil mortos sem seis anos), como pelos índices alucinantes de pobreza e desigualdade deixados pelo mandato de Calderón.

“Não sei o que seria do povo mais pobre se não tivesse tido o apoio solidário da política social com rosto humano”, afirmou Calderón dias atrás. As estatístiscas contradizem suas declarações e a própria essência com a qual, seis anos atrás, iniciou sua presidência. Calderón iniciou seu mandato como o presidente que daria trabalho e termina seu governo com duas cifras negativas: a pobreza afeta 42% da população, o que equivale a 52 milhões de pessoas. Em contraposição, 41% da riqueza nacional está nas mãos de 10% da população. O segundo ponto negativo é a violência desencadeada com a estratégia que Calderón adotou para combater o narcotráfico. Os mais de 50 mil mortos dessa infrutífera luta também repercutiram na economia com uma perda calculada de 1,5% do PIB nacional.

O México oferece um quadro de cifras contraditórias. A revista Forbes estabeleceu que 11 das pessoas mais ricas do planeta são mexicanas. Este grupo acumula uma riqueza de 112,3 bilhões de dólares, o que equivale a cerca de 10% do Produto Interno Bruto. Ao mesmo tempo, a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômica, OCDE, constata que, com 52 milhões de pobres, o México apresenta o segundo maior índice de desigualdade entre as economias que compõem esse organismo multilateral (o primeiro é o Chile). Cerca de 12 milhões de novos pobres se integraram às estatísticas por causa da estagnação do crescimento.

Esse percentual se reflete também no mercado de trabalho: o setor informal emprega cerca de 30% da população ativa, cerca de 12 milhões de pessoas. Nunca antes na história do país, havia sido registrada uma taxa tão elevada na segunda economia da América Latina (só fica atrás do Brasil). O panorama que deixa Felipe Calderón é exatamente o contrário daquele que vem afirmando em suas sucessivas aparições públicas. O Conselho nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social (Coneval) calculou que há cerca de “11,7 milhões de mexicanos em condição de pobreza extrema”.

Em 2006, Calderón se autoproclamou “o presidente do emprego”. O mandatário prometeu gerar empregos com melhores salários e baixar os impostos. O resultado final é o inverso. A ele se agrega o custo da luta contra o narcotráfico. A leitura desse fenômeno é dupla: por um lado está o benefício direto do dinheiro gerado pelo narcotráfico, em especial a geração de investimentos em imóveis. Por outro, está o custo na promoção do turismo, onde os índices baixam, a imigração para o exterior e a migração interna. Dezenas de milhares de mexicanos abandonaram as cidades do norte do país, assoladas pela violência – principalmente Tamaulipas, Chihuahua, Sinaloa, Coahuila e Nuevo León.

No entanto, as avaliações sobre os problemas reais causados pelos narcos à economia diferem segundo os interlocutores. Eduardo Cepeda, do JP Morgan grupo Financeiro para a América Latina, estimou que a violência do crime organizado custou ao México entre 1% e 1,5% do PIB (quase 16 bilhões de dólares anuais). Já a Unidade de Promoção de Investimentos e Negócios Internacionais do Proméxico negou que a narco violência tenha sido um fator de perda de investimentos, de competitividade ou de diminuição do PIB. Esse argumento, porém, se choca com o que pode se ver nas ruas do México: a violência gera medo e o medo retenção. É impossível assegurar que tais níveis de horror não impactem a economia. O que não pode ser negado é a desigualdade e a pobreza.

A pujança das cifras animadoras não se prolonga nas políticas distributivas aplicadas até agora. Essa será, junto com a violência, um dos maiores desafios do próximo presidente. O Conselho Nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social tornou públicos informes que não deixam espaço ao debate sobre sim ou não: 28 milhões de pessoas têm sérios problemas de acesso a uma alimentação básica. Entre 2008 e 2010, mais cinco milhões de mexicanos passaram a integrar as estatísticas mais críticas da pobreza no país.




11/05/2012

Walmart, mazá apodrecida?

Silvia Ribeiro. Artigo tirado de SinPermiso (aquí) e traducido por Revolta Irmandinha.



O 21 de abril de 2012, o New York Times (NYT) publicou unha reportaxe mostrando que Walmart pagou 24 millóns de dólares en subornos, para construír tendas e dominar o mercado en México. Altos executivos de Walmart coñecían os casos desde 2005 e ocultárono. Pola contra, fraguaron unha investigación contra o denunciante, un ex executivo de Walmart que renunciou por sentirse discriminado, aínda que fora un dos encargados do pago de subornos.

Eduardo Castro-Wright, executivo identificado polo diario como a forza motora dos subornos, foi ascendido á vicepresidencia de Walmart México e logo a xefe de todas as tendas de Estados Unidos, por facer de México "unha das unidades con máis gaños".

Ante a mala publicidade, os executivos da empresa afirman que agora emprenderán investigacións. Todo indica que a denuncia do NYT representa unha mínima parte do negocio da corrupción de Walmart, outras grandes empresas e funcionarios. O diñeiro mencionado parece cambio de peto para unha transnacional que facturou 421 mil 849 millóns dólares en 2011.

Walmart é a empresa máis grande do mundo e foino por máis dunha década, superando a petroleiras e bancos na cima do poder económico mundial. Ten case o dobre de vendas globais que o seu competidor máis próximo, a cadea Carrefour.

En 2009, o negocio de vendas de alimentos e abarrotes superou por primeira vez ao poderoso mercado global da enerxía, pasando a ser o mercado máis grande do mundo. (Datos en Quen controlará a economía verde- www.etcgroup.org/es) Non é un rubro calquera. É un mercado cativo de toda a poboación global que non produce alimentos, porque ninguén pode vivir sen comer. A competencia por controlar ese inmenso mercado é feroz e como vemos, non coñece escrúpulos.

Desde a súa actual posición, Walmart controla e exerce unha influencia brutal sobre grandes sectores da produción, o consumo e a política. Practica unha notoria política antisindical, que comezou desde que o seu fundador Sam Walton anunciou que a base do seu negocio sería pagar salarios baixos e non pagar beneficios laborais. Sendo o empleador privado máis grande de Estados Unidos e México, Walmart logrou baixar significativamente os salarios medios de toda a industria. Máis de 60 por cento dos seus traballadores en Estados Unidos non ten cobertura médica e a cifra é maior en países do Sur.

En poucas décadas acumulou un historial impresionante de demandas que van desde non permitir a sindicalización de empregados a moitas outras razóns cubrindo case todo o espectro imaxinábel de violacións laborais: despedimentos inxustificados, discriminación de discapacitados e de xénero, traballo infantil, falta de cobertura de saúde, non pago de tempo extra, emprego de traballadores indocumentados, agresión contra vendedores fóra dos seus locais e outras. En Estados Unidos foi obxecto de 40 "accións de clase" en diversos Estados, principalmente por discriminación de xénero, implicando a millóns de mulleres. En México ten o primeiro lugar en demandas laborais no Distrito Federal (Laura Gómez, La Jornada, 3/5/12).

Walmart de México (Walmart, Sam's Club, Adegas Aurrera, Superama, Suburbia, Vips, El Portón e Ragazzi) controla máis da metade do mercado de vendas comerciantes polo miúdo no país, superando a todas as outras cadeas xuntas. Ten unha agresiva política para eliminar competidores en cidades e poboacións máis pequenas, onde se estabelece moitas veces contra as protestas da comunidade. Comeza ofrecendo prezos máis baixos e cando os comercios locais desaparecen, auméntaos mesmo considerabelmente por arriba de nivel medio. Segundo Walmart Watch, organización de afectados o xigante en Estados Unidos, por cada dous empregos que xera nunha comunidade, pérdense tres.

A entrada do xigante aos contratos agrícolas con pequenos produtores significou a ruína de moitos campesiños de Centroamérica, que seducidos pola suposta "oportunidade", crebaron en pouco tempo debido ás demandas de uniformidade, cantidade, prazos, empaquetados e o control imposto de certificadoras internacionais, quedando con grandes débedas polos investimentos que realizaron para poder entrar ao xogo.

Os prezos baixos de Walmart débense tamén á utilización sistemática de maquiladoras en condicións de extrema explotación. Unha traballadora dunha maquila en Bangladesh dixo a Los Angeles Times en 2003 que o seu horario normal era de 8 da mañá a 3 da madrugada, para sobrevivir co nivel de pagos que fixaba Walmart. O xerente desa maquila queixouse de que "aínda debían mellorar, porque Walmart conseguía mellores resultados en China". En efecto, agora 80 por cento dos produtos de Walmart son producidos en China, en pésimas condicións laborais, á conta da calidade e en varios casos demostrados, usando produtos tóxicos por ser máis baratos. De todas as exportacións chinesas, 12 por cento van aos andeis de Walmart.

Walmart é un caso extremo de impactos contra traballadores, consumidores, comunidades saúde e ambiente, mais non é unha excepción, é a norma do sistema industrial globalizado, particularmente en alimentos. Ao outro extremo desa mesma cadea, cun historial de abusos semellante, están Monsanto, Syngenta e outras. Por fortuna, a maioría dos alimentos son producidos fóra desas cadeas por campesiños, pastores, pescadores artesanais e hortas urbanas. Apoiar esa produción e consumir produtos locais e sen químicos é fundamental para minar a estes xigantes que queren controlar a nosa comida, a nosa saúde, os nosos traballos, as nosas comunidades, a nosa vida.

15/04/2012

As razóns do millo: cinco teses sobre a violencia e a autonomía

Red en defensa del maíz. Artigo tirado de SinPermiso (aquí) e traducido por Revolta IrmandiñaEste texto foi presentado o 21 de outubro de 2011 pola Audiencia "Violencia contra o Millo, a Soberanía Alimentaria e a Autonomía" na sesión de instalación do capítulo México do Tribunal Permanente dos Pobos, na Universidade Nacional Autónoma de México. Esta audiencia é promovida por máis de mil comunidades de agricultores en mediana e pequena escala, e campesiños indíxenas en todo o país. Entre algunhas das organizacións atópanse a Red en Defensa del Maíz, Vía Campesiña América do Norte, o Colectivo Oaxaqueño en Defensa dos Territorios, e decenas de organizacións en Chihuahua, a Huasteca e a Península de Iucatán, entre moitos outros estados de México.

Houbo consenso e decidiuse que se tornase o millo mouro, o millo amarelo, o millo vermello e o millo branco, e disto fixéronse os nosos ósos, o noso sangue, a nosa carne. - Popol Vuh


O millo non é unha cousa, un produto; é un tramado de relacións, é a vida de millóns de campesiños cuxo centro civilizatorio milenario é a comunidade e a vida na sementeira. Sendo México centro de orixe do millo, un dos catro alimentos cruciais para a humanidade, os ataques ao millo e aos pobos que o cultivan, son un ataque contra as estratexias máis antigas e con máis posibilidades de futuro da humanidade.

O millo é tamén un cultivo comercial importante para o sustento de millóns de familias de agricultores. A súa rendibilidade pode fortalecer a seguridade e soberanía alimentaria do país se se contase coas políticas públicas apropiadas para logralo.

A primeira tese que propomos é que as negociacións do Tratado de Libre Comercio de América do Norte, TLCAN requiriron que o Estado mexicano comezase un interminábel desmantelamento xurídico de todas as leis que promovían dereitos colectivos e protexían ámbitos comúns, en particular os territorios, dos pobos indíxenas e campesiños, as súas terras, augas, montañas, e bosques. O TLCAN requiriu tamén o desmantelamento de todo o sistema de programas, proxectos e políticas públicas que apoiaban a actividade agrícola, en detrimento de os pequenos e medianos agricultores mexicanos e en beneficio da agricultura estadounidense, sobre todo a que busca acaparar mercados, procesos e financiamientos, é dicir, a agricultura das corporacións. Este desmantelamento chegou ao extremo de apostar coas importacións de millo, a pesar de que é un produto básico para a alimentación da poboación mexicana e a pesar de todas as asimetrías en produtividade e subsidios -existentes entre os produtores de Estados Unidos e Canadá e os produtores mexicanos. Aínda que se contaba cun prazo de 15 anos para liberalizar por completo o comercio exterior do millo, o goberno mexicano, unilateralmente, permitiu a entrada de importacións por riba da cota e sen arancel. Isto reduciu os prezos internos de millo nun 50%, o que beneficiou tan só aos cárteles transnacionais que controlan o gran.[1]

Unha segunda tese é que este desmantelamento xurídico e esta privatización teñen como fin último a erradicación de toda produción independente de alimentos.

Para logralo, as grandes corporacións en todo o mundo propuxéronse o refugallo, a erosión e mesmo a criminalización dunha das estratexias máis antigas da humanidade, que é o resgardo e o intercambio libre de sementes nativas ancestrais. Non parece importarlles o atentar contra todos os saberes propios da agricultura tradicional campesiña e agroecológica, para así promover o cultivo e a comercialización de sementes de laboratorio (híbridos, transxénicos e máis), mediante leis expresas que lle abren espazo ás grandes corporacións para lograr os seus fins. Os dous exemplos máis contundentes son a Lei de Bioseguridad de Organismos Xeneticamente Modificados, ou "Lei Monsanto" e a Lei Federal de Produción, Certificación e Comercio de Sementes.

Unha terceira tese é que estas leis promoven unha invasión transxénica (que comezou en 2001) e inevitabelmente contaminará ás 62 razas e miles de variedades que existen en México. Os réximes de propiedade intelectual e os rexistros e certificacións terminarán desposuíndo da súa diversidade ás sementes nativas.

Unha cuarta tese é que atentar contra os sistemas de agricultura campesiña ancestral e as súas variantes agroecológicas modernas, atentar contra bens comúns tan cruciais como as sementes nativas, devasta a vida no campo e debilita as comunidades, agudizando a emigración e a urbanización salvaxe, favorecendo a invasión dos territorios campesiños e indíxenas para megaproxectos, explotación mineira, privatización de auga, plantacións de monocultivos, deforestación e apropiación de territorios en programas de mercantilización da natureza, como REDD e servizos ambientais.

Unha quinta tese é que todo o sistema que está no fondo deste desmantelamento xurídico, deste intento por erradicar a produción independente de alimentos e por monopolizar a rendibilidade dun cultivo tan versátil -eliminando así toda a gama de sementadores que non sexan corporacións, desde pobos indíxenas até agricultores de mediana ou pequena escala-; todo o sistema que está no fondo dos encarecementos desmedidos nos prezos dos alimentos e da crise alimentaria xeneralizada, é responsábel dunha boa parte da crise climática.

Hai suficientes probas de que o sistema agroalimentario mundial, debido á súa integración vertical (coa súa acaparamiento de terras e auga, coas súas sementes de laboratorio híbridas e transxénicas, coa súa promoción de agrotóxicos que erosionan o chan, coa súa deforestación, as súas monocultivos, o transporte que emprega, o procesado industrial, o empacado, o almacenamento e a refrixeración) é responsábel de entre 45-57% dos gases con efecto de invernadoiro.[2]

En cambio, a parte agraviada, as comunidades campesiñas e indíxenas e os agricultores en pequena escala neste momento producimos a parte substancial dos alimentos do mundo [3], a pesar da pouca terra a nivel mundial que mantemos, e a pesar das condicións de opresión que tentan impornos. E sabemos que manter os nosos cultivos ancestrais, coas nosas sementes nativas, podería arrefriar a terra se houbese unha vontade política para defender os modos de vida que están no centro desta agricultura, para seguir cultivando o millo na comunidade que chamamos milpa: diverso, xeneroso, alimento en convivencia con outros alimentos, con plantas que curan, con árbores que protexen, con animais que tamén son a nosa forza. Para iso, é crucial que as comunidades teñan un control territorial, un autogoberno, unha autonomía. Debemos frear o acaparamiento de terras e a invasión dos territorios das comunidades.

A defensa do millo pasa os culturalismos. É a defensa mesma dunha opción de independencia material e política real dos pobos fronte ao mercado e a súa ameaza de dominar eternamente. O millo é sustento material e tamén forza identitaria e sacra. Ao contaminalo con transxénicos, ao desmantelar a economía  do millo desde as políticas gobernamentais, ao desprezar a milpa, aténtase contra un proceso inédito, específico no mundo, a proposta civilizatoria mesoamericana. O ataque ao millo e aos pobos que o criamos é un crime, pois, contra un dos alicerces da civilización no seu conxunto. Ao defender aos pobos do millo, ao defender o intercambio infinito de sementes campesiñas, estamos a defender a supervivencia e as posibilidades de plenitude da humanidade enteira.

O millo é o noso sangue, a nosa carne, a nosa nai, o noso fillo, / é o que fala, ri, ponse de pé e camiña. - Poema náhuatl


NOTAS Ao TEXTO: [1] As investigacións do Centro de Estudos para o cambio no Campo Mexicano (Ceccam) durante máis de 15 anos, son a fonte destas conclusións. Ver www.ceccam.org.mx
[2] Ver GRAIN, "Coidar o chan", 18 de outubro, 2009,  http://www.grain.org/article/entries/1236; "Alimentos e cambio climático: o elo esquecido", 28 de setembro, 2011, http://www.grain.org/es/article/entries/4364
[3] ETC Group: "Who will feed us? Questions for the food and climate crise", 14 de decembro, 2009, http://www.etcgroup.org/en/node/4921

19/03/2012

Por unha nova organización dos traballadores

Pablo González Casanova. Artigo tirado de SinPermiso (aquí) e traducido por nós.  Pablo González Casanova é un veterano sociólogo mexicano. 

México é un país caracterizado por unha baixa taxa de sindicalización, mais sobre todo polo férreo control por un sindicalismo oficial, corporativo e corrupto dos traballadores dos sectores estratéxicos da economía e a política do país como petroleiros, ferroviarios, mineiros, o maxisterio e os empregados públicos. A dureza coa que se aplicaron nese país as políticas de contención e desvalorización salarial, así como a precarización do emprego e as condicións laborais só son explicábeis polo sometemento organizativo do movemento obreiro e as moi limitadas capacidades de acción autónoma do sindicalismo mexicano. No entanto, nos últimos anos destacan en México loitas exemplares como a levada a cabo en condicións excepcionalmente desfavorábeis polo Sindicato Mexicano de Electricistas (SME), fronte á ocupación policiaca da empresa e a desaparición da mesma deixando no desemprego a máis de 17 mil traballadores. Neste contexto sitúase o chamado á creación dunha nova central de traballadores resumida no discurso do ex-reitor da Universidade Nacional Autónoma de México, Pablo González Casanova, figura clave das ciencias sociais en México e unha referencia intelectual das loitas sociais e políticas alternativas pola democracia e o socialismo en México e América Latina. 


A situación do mundo e do país mostran claras tendencias a agravarse. Á crise financeira e económica que pesa sobre a inmensa maioría da humanidade, engádese a grave crise ecolóxica que ameaza a toda a humanidade. Trátase de algo máis que a crise do modelo neoliberal que o capitalismo corporativo impuxo tras o golpe de Pinochet en Chile e cos gobernos conservadores da Thatcher en Inglaterra e de Reagan en Estados Unidos.

En México a crise veuse preparando desde que as políticas monetaristas empezaron a aplicarse nos anos sesenta dando lugar ao movemento dos médicos, e ao dos estudantes e do pobo en 1968, así como á insurxencia obreira dos setentas e a numerosos intentos nacionais de resistencia aos procesos de restauración do capitalismo asociado e dependente.

A crise foise preparando con medidas cada vez máis contrarias ao interese nacional, aos traballadores, aos campesiños e os cidadáns. Desde os anos setenta até hoxe, o endebedamento externo creceu sen precedente. Nos anos oitenta volvéronse a privatizar os bancos que eran fonte de altas taxas de utilidades e de inmensos ingresos para a nación. Desde entón empezáronse a aplicar cada vez máis as medidas neoliberais e neoconservadoras que favorecen ao capital corporativo en detrimento da nación. En forma sucesiva reformouse a Constitución para acelerar o proceso de contra-rreforma agraria. Acentuouse o desmantelamento do Instituto Mexicano do Petróleo e, cada vez máis, o da industria petroleira e os seus derivados. Descoidouse e obstruíuse a construción das infraestruturas para o desenvolvemento agrícola e a soberanía alimentaria. Orientouse o uso dos préstamos estranxeiros á compra de alimentos refugallo e de armas e municións, resolvendo os problemas de sobreproducción dos prestamistas e estabelecendo con eles convenios en que quedaba ao seu arbitrio a fixación das taxas de interese. Esas medidas e numerosos tratados ou acordos como o ALCA, o Plan Mérida e os seus derivados constituíron á vez fortes sangrías para o pobo mexicano e os seus traballadores e deron pé a varios procesos simultáneos: a depauperación da inmensa maioría da poboación mexicana; a baixa de salarios directos e indirectos; o peso principal da carga fiscal na poboación de menores ingresos, a reorientación do orzamento de egresos en favor do capital corporativo e os seus asociados; a diminución e deterioración dos empregos e dos servizos médicos, educativos, de saúde pública, e de construción de vivendas.

A privatización crecente das actividades públicas (como o petróleo, a electricidade, e agora as prisións) e a súa metamorfose en actividades lucrativas combinouse co uso crecente da represión e a corrupción, e co control da poboación, dos traballadores, dos desempregados, dos mozos e os seus movementos legais e pacíficos con axentes abertos e encubertos, así como con militares aos que se empezou a adestrar para a loita contra os seus pobos e aos que se deron ordes de preparar a paramilitares, medidas ambas, como as anteriores, en aberta violación ao réxime legal e á Constitución da República.

No conxunto do país levou a cabo un desmantelamento sistemático dos dereitos constitucionais e das garantías individuais e sociais que o pobo mexicano había logrado nunha Revolución como a de l910-17 na que perderon a vida máis dun millón de habitantes.

Á depredación e empobrecimiento crecente do país en beneficio das corporacións e os seus asociados engadíronse crecentes ofensivas na orde política, cultural e educativo que acentuaron as diferenzas entre o país real e o país formal; que criminalizaron as críticas e oposicións dos de abaixo, que acentuaron a política de discriminación e depredación das comunidades indíxenas e non indíxenas de campesiños pobres; que asasinaron a miles de traballadores expulsados das súas terras e dos seus traballos, e que buscaban desde México, e desde os irmáns países de Centroamérica cruzar o inmenso muro que separa ás poboacións de México e Estados Unidos para ver se alá atopaban o traballo que nos seus países perderan coas súas terras e as súas casas.

A ofensiva tamén se deu contra os sindicatos industriais, agrícolas e de servizos, e afectou en especial á xente máis nova que non ten nin casa, nin emprego, nin universidade, nin escola, e cun múltiplo dano silencioso á poboación de anciáns que perderon os seus seguros de vida e aforros para o retiro, pois dos seus montos encargáronse as empresas financeiras especulativas. En canto á poboación de idade intermedia, á violación de facto dos seus dereitos laborais e sociais, engadiuse unha presión constante e crecente por acabar con eses dereitos tanto na Constitución da República como nas leis que derivan dela. Unha campaña realizada a través de todos os medios non só tendeu a culpabilizar dos danos ás vítimas -fosen obreiros, campesiños, indíxenas, mulleres, novas e vellos- senón que os someteu a imaxes televisivas e impresas que teñen como obxectivo o que perdan a autoestima, o que esquezan os feitos heroicos dos pobos orixinarios e dos movementos de Independencia, de Reforma e Revolución. Para iso non só se reformaron os libros de texto (borrando a nosa historia prehispánica e aos heroes do pobo) senón que se privilexiaron en diarios, semanarios, e programas de radio e televisión as festas, amabilidades, bondades e sorrisos dos mexicanos ben, mentres o pobo aparecía e desaparecía como un conxunto de débiles mentais e de pallasos, cuxas necedades e torpezas moven a risa e xustifican ante eles mesmos a súa lamentábel condición e fundada perda da autoestima.

A múltipla ofensiva enriqueceuse cunha guerra virtual contra o narcotráfico que xa cobrou máis de 50 mil vítimas, mentres seguen fluíndo os miles de millóns de dólares sen que se descubra aos seus beneficiarios. Entre os obxectivos da narcoguerra destaca a perda de sentido da loita e da vida entre numerosos mozos que son recrutados polas boas ou polas malas e que se embarcan en batallas por pequenos territorios que defenden ou fan seu, como nos videoxogos dos pitos e moitos máis en que se dan divertidas e crueis loitas por diminutos espazos, xogos que se combinan coa crecente intervención das axencias estadunidenses no auxilio ao goberno mexicano e nas funcións que este debería desempeñar, controlando o branqueo de diñeiro e o contrabando de armas, tarefas que sen dúbida lle sería máis fácil controlar se non entregase, cos servizos de intelixencia, os bancos e as aduanas.

Termino este reconto incompleto sinalando como se fomentou a ruptura dos lazos familiares e sociais, o individualismo na sociedade e o oportunismo na política, así como alentando o ideal neoconservador do fin das ideoloxías, que baleira de contido á democracia electoral e política dos seus obxectivos centrais de proposta e loita por políticas sociais e nacionais alternativas, reducíndoa a unha triste contenda entre os membros de cada partido por ser nomeados a postos de elección popular por partidos que obedecen á lóxica do menos malo en condicións cada vez peores para o pobo, os traballadores da nación. Todas estas circunstancias e outras máis lle expoñen aos traballadores, aos pobos e aos cidadáns de México e o mundo a necesidade de reformular as súas loitas e de restructurar as súas organizacións para fortalecer a súa capacidade defensiva e para aumentar a súa innegábel capacidade de construír outro mundo posíbel menos autodestructivo, menos opresivo e inxusto, tarefa para a que existen todas as posibilidades humanas e naturais de triunfar, e para a que a humanidade conta con todos os coñecementos, experiencias e técnicas que permiten lograr ese obxectivo.

Ao expor os camiños de solución, nas condicións que vivimos, necesitamos respectar aos integrantes da central no seu pleno dereito a participar ou non na política dos partidos como sindicatos ou como cidadáns. Ao mesmo tempo a central buscará como obxectivo a unidade dos traballadores, os pobos e os cidadáns con plena independencia dos partidos. A unidade na diversidade dos traballadores proporase impedir que as loitas de partidos ou as diferenzas relixiosas, culturais, rexionais ou raciais dividan aos traballadores da central e diminúan a súa capacidade de constituír un centro de organización da clase obreira unida cos movementos sociais en loita contra o capitalismo corporativo e contra o modelo neoliberal, e por unha civilización en que a barbarie do capitalismo sexa substituída por unha democracia de verdade na que pobos e traballadores, como comunidades e como cidadáns, participen na toma de decisións para a creación doutro mundo posíbel e necesario en que o vivir ben duns non dependa do vivir mal doutros e en que coa xustiza social alcáncese a liberdade.

Lograr eses obxectivos implica loitar por outros máis cuxa práctica é inminente e entre os que se atopan:
1. Rescatar as grandes loitas dos pobos e os traballadores mexicanos e en especial dos discriminados, excluídos e desregulados do noso país e do mundo,
2. Defender as garantías e dereitos constitucionais e tomar a Constitución de 1917 sen as reformas neoliberais como base para as novas loitas revolucionarias, como sempre ocorreu na historia de México.
3. Esixir e impor nas demandas inmediatas a aplicación da Lei Federal do Traballo e do contrato colectivo e outras normas máis que o actual goberno está sistematicamente violando ou pretende que desaparezan.
4. Loitar pola soberanía nacional e pola organización dos mexicanos para que exerzan o supremo dereito que reside neles, cada vez máis atacado polos entreguistas de vello e novo cuño
5. Loitar contra a criminalización dos movementos sociais. 
6. Loitar contra a cultura do individualismo e o oportunismo que se está fomentando por todos os medios e cos métodos de avaliación e exclusión que tenden a facer pensar á vítima que é a culpábel.
7. Loitar polos dereitos dos pobos indios e para que se cumpran os acordos de San Andrés.
8. Promover a organización e articulación dos traballadores industriais, agrícolas e de servizos.
9. Promover a unión dos traballadores organizados e non organizados, a unión dos traballadores manuais e intelectuais, a unión dos traballadores dos sectores medios e os excluídos, os desregulados ou os discriminados.
10. Promover con eles grupos e colectivos de ligazón que constrúan o tecido social das comunicacións, as informacións, os intercambios e as organizacións presenciais e a distancia,
11. Incrementar os xornais e publicacións non só impresos senón os que utilizan os medios electrónicos como medios de organización-información-acción, diálogo-debate-consenso-
12. Promover campañas de alfabetización política para a toma de decisións e para a práctica das técnicas de aprender a aprender e a ler, e cambiar non só os textos senón o mundo, e a construír e crear textos e mundos alternativos,
l3. Promover as universidades e escolas da Terra e nelas a cultura humanística, científica, artística, e o coñecemento dos oficios e profesións que necesitan os pobos e as zonas urbanas marxinadas de traballadores e proletarios, de desregulados e excluídos, de discriminados e desposuídos.
14. A este respecto, organizar os sistemas de defensa dos traballadores, os pobos e os cidadáns fronte aos depredadores e as mafias que están empeñados en sometelos, corrompelos, enviciarlos, esclavizarlos e en acabar co sindicalismo democrático, coas unións dos campesiños, cos seus medios e fontes de traballo e de vida.
15. Promover a articulación dos traballadores cos estudantes e os mozos en accións conxuntas que incrementen a cultura solidaria e cooperativa e a capacidade de comunicación e acción.
16. Buscar nos programas dos sindicatos e movementos máis avanzados de México, América Latina e o mundo os puntos de coincidencia para expor a loita e a articulación dos colectivos desde o local até o mundial, a propósito de que a mesma loita, entre simpatías e diferenzas de rexións e sectores é e será unha loita mundial.
17. Reformular a loita ideolóxica con base nun crecente dominio do pensamento crítico e alternativo e da cultura do diálogo e o debate que nos nosos pobos alcanza niveis cada vez máis altos de comprensión e acción.
18. Fortalecer e facer efectiva a loita pola moral e a firmeza como verdadeiras armas, para o triunfo fronte a unha política que desde Teodoro Roosevelt proponse dominar ao mundo coa cenoura e o garrote, coa corrupción e coa represión. Falar de moral e de firmeza, de dignidade e de enteireza como armas contra a corrupción que tantas vítimas e estragos fai, e que está asociada á cultura da represión e o terror, da cosificación e deshumanización dos pobres da terra e quen botan a súa sorte con eles.

Se o capital corporativo colocou a perda dos dereitos sociais, nacionais, laborais e humanos no campo do non negociábel, a fronte do pobo que se organice ao redor da central de traballadores, que hoxe promoven sindicatos que nin se renden nin se venden, como o heroico Sindicato Mexicano de Electricistas e moitos máis, esa fronte en xestación alcanzará, cos traballadores manuais e intelectuais do campo e a cidade, da educación, da saúde, da construción e os servizos, así como coas comunidades dos pobos indios e non indios, coa mocidade e cos estudantes, cos xornalistas, locutores, actores, escritores, realizadores que loitan nos espazos tradicionais e cibernéticos, esa grande fronte de todos e con todos alcanzará a vitoria dun socialismo con democracia, e dunha democracia con socialismo, con xustiza e con liberdade.


05/01/2012

Os conflitos máis violentos de 2011

Artigo tirado de aquí e traducido por nós.
Soldado ugandés na fronte norte de Mogadiscio, Somalia. Setembro 2011. Foto: HERNÁN ZIN

Como xa escribimos nestas páxinas en varias ocasións, a guerra tradicional, entre estados e exércitos profesionais, pertence ao pasado. De feito, do dez conflitos que en 2011 provocaron máis de 1.000 mortos, ningún responde a estas características.

A violencia no século XXI pasa por aqueles territorios onde os gobernos apenas exercen o seu poder e grupos terroristas, insurxentes ou simplemente delituosos campan ás súas anchas. Enfrontamentos armados de lóxica difusa, sen frontes, onde a peor parte lévana os civís.

Nas próximas entradas repasaremos un a un este dez conflitos, a súa evolución ao longo do 2011 e as súas perspectivas para 2012.

Algúns dos cales narramos desde o terreo nestas páxinas como Somalia, Afganistán ou Sudán, e outros de novo cuño, provocados polas lexítimas ansias de liberdade e democracia, como Iemen, Libia ou Siria.

Unha lista de dez guerras que, en número de mortos, encabeza México con 12.539 asasinatos relacionados coas drogas en 2011. Un aumento do 6,3% con respecto a 2010.

Logo vén Afganistán. E despois Iraq. Aínda que a prensa xa case non lles dedique titulares, o certo é que 4.063 civís morreron o pasado ano na nación do Tigris e o Éufrates, que empeza o 2012 con apenas 200 soldados de EUA no seu territorio (os encargados de velar pola seguridade da embaixada, na chamada Zona Verde de Bagdad).

Paquistán e Colombia pechan esta listaxe ao que debemos sumar unha vintena de conflitos de longa duración se queremos realizar unha radiografía máis exhaustiva da violencia no noso mundo.

Entre estes últimos, que non superaron o milleiro de mortos en 2011, o máis antigo é o de Corea do Norte e do Sur, seguido polas loitas internas en Birmania, e logo a resposta á ocupación de Palestina.

17/07/2011

O papel de Wall Street no narcotráfico, negócio boiante

Mike Whitney. Artigo tirado de Sin Permiso (aqui) e traduzido desde o castelhano por nós. A imagem é a banda desenhada de Forges em El País (17-07-2011).



Imaginem qual seria a sua reação se o governo mexicano conviesse em pagar 1.400 milhões de dólares a Barak Obama por despregar tropas norte-americanas e veículos blindados em Nova York, Los Angeles e Chicago para levar a cabo operações militares, estabelecer postos de controlo e se ver envolvido em tiroteios que acabem por causar a morte de 35.000 civis nas ruas de cidades norte-americanas.

Se o governo mexicano tratasse assim aos Estados Unidos, considerá-lo-iam vocês amigo ou inimigo?

Assim é exatamente como tratam os EE. UU. a México, e assim veio sendo desde 2006.

A política mexicana de Norteamérica --a Iniciativa de Mérida-- é um pesadelo. minou a soberania mexicana, corrompeu o sistema político e tem militarizado o país. teve também como resultado a morte violenta de milhares de civis, pobres na sua maioria. Mas a Washington importa-lhe uma figa os "danos colaterais" enquanto possa vender mais armamento, fortalecer o seu regime de livre comércio e lavar mais benefícios das drogas nos seus grandes bancos
. Então é tudo do mais agradável.

Não se dá a dignificação esta carnificina   chamando-a "Guerra contra as drogas"?

Não faz sentido. O que vemos é uma oportunidade descomunal de se fazer com poder por parte das grandes empresas, as altas finanças e os serviços de inteligência norte-americanos. O único que faz Obama é ocupar do leilão, razão pela qual --não é de surpreender-- as coisas se puseram bastante pior baixo a sua administração. Não só incrementou Obama o financiamento do Plano México (também conhecido como Mérida) senão que despregou mais agentes norte-americanos para que trabalhem em segredo, enquanto aviões não tripulados levam a cabo labores de vigilância. Captam-no? Não se trata de uma pequena redada antidroga, é outro capítulo da Guerra Norte-americana contra a Civilização. Tenho aqui um bilhete de um artigo de CounterPunch escrito por Laura Carlsen que nos mostra algo da profundidade:
A guerra contra as drogas converteu-se no veículo principal de militarización da América Latina. Um veículo financiado e impulsionado pelo governo norte-americano e alimentado por uma combinação de falsa moral, hipocrisia e muito de temor duro e frio. O telefonema "guerra contra as drogas" constitui em realidade uma guerra contra a gente, sobretudo contra os jovens, as mulheres, os povos indígenas e os dissidentes. A guerra contra as drogas converteu-se na forma principal do Pentágono de ocupar e controlar países a expensas de sociedades inteiras e de muitas, muitas vidas.  
"A militarización em nome da guerra contra as drogas está a acontecer mais rápida e concienzudamente do que a maioria de nós provavelmente antecipou com a administração de Obama. O acordo para estabelecer bases em Colômbia, posteriormente suspendido, mostrou uma dos sinais da estratégia. E já vimos a extensão indefinida da Iniciativa de Mérida em México e América Central e inclusive, tristemente, as cañoneras enviadas a Costa Rica, uma nação com uma história de paz e sem exército..."
A Iniciativa de Mérida financia interesses norte-americanos para treinar a forças de segurança, proporciona inteligência e tecnologia bélica, aconselha envelope as reformas da justiça e o sistema penal e a promoção dos direitos humanos, todo isso em México. ("The Drug War Can't Bê Improved, It Can Only bê Ended" ["Não se pode melhorar a guerra contra as drogas, só se pode concluir"] Laura Carlsen, Counterpunch).


Se dá a impressão de que Obama está a fazer todo o que pode para converter México em uma ditadura militar, é porque é o que está a fazer. O Plano México é uma farsa que esconde os verdadeiros motivos da administração, que consiste em se assegurar de que os benefícios do tráfico de drogas acabem nos bolsillos da gente adequada. Disso é do que se trata, de muitíssimo dinheiro. E é por isso que disparou-se o número de vítimas, enquanto a credibilidade do governo mexicano caiu como nunca em décadas. a política norte-americana converteu grandes extensões do país em campos de morte e a coisa não faz mais que piorar. Veja-se esta entrevista com Charles Bowden, que descreve como é a vida da gente que vive na Zona Zero da guerra das drogas em México, Cidade Juárez:

Isto acontece em uma cidade na que em ocasiões a gente vive em caixas de cartão. No último ano fecharam dez mil negócios, atirando a toalha. De trinta a sessenta mil pessoas, sobretudo os ricos, mudaram-se ao Passo, ao outro lado do rio, por razões de segurança, entre eles o presidente da câmara municipal de Juárez, que prefere largarse a dormir no Passo. O editor do diário local também vive no Passo. Entre 100.000 e 400.000 pessoas singelamente marcharam-se da cidade. Boa parte do problema é económico, e não simplesmente de violência. Durante esta recessão desapareceram pelo menos 100.000 empregos das empresas fronteiriças devido à concorrência asiática. As estimativas cifran as bandas de delinquentes entre 500 e 900.
De modo que o que temos são 10.000 soldados das tropas federais e agentes da polícia federal merodeando por ali. Uma cidade na que ninguém sai de noite, na que os pequenos negócios pagam todos extorsión, onde oficialmente se roubaram 20.000 carros no ano passado, no que oficialmente foram assassinadas mais de 2.600 pessoas no passado ano, onde ninguém segue o rastro da gente que foi sequestrada e não regressa, em onde ninguém conta a gente enterrada em cemitérios secretos dos que, de forma indecorosa, parecem de quando em quando sair alguns escarbando. O que temos é um desastre e um milhão de pessoas, demasiado pobres para poder se marchar, atrapadas nele. A cidade é isso.

(Charles Bowden, Democracy Now)



Isto não tem que ver com as drogas; trata-se de uma política exterior louca que apoia a exércitos por delegação para impor a ordem por médio da repressão e militarização do Estado policial. Trata-se de expandir o poder norte-americano e de que engrossem os benefícios de Wall Street.  Vejamos mais dados de fundo proporcionados por Lawrence M. Vance na Future of Freedom Foundation:
Um número não revelado de agentes da lei norte-americanos trabalham em México (...) A DEA tem mais de 60 agentes em México. A eles se somam 40 agentes de Imigração e Alfândegas, 20 ayudantes do Serviço de Comissários de Polícia e 18 Agentes de Álcool, Fumo, Armas de Fogo e Explosivos, mais agentes do FBI, do Serviço de Cidadãos e Imigração, Alfândegas e Proteção de Fronteiras, Serviço Secreto, Guardacostas e Agência de Segurança no Transporte. O Departamento de Estado mantém também uma Secção de Assuntos de Narcóticos. Os Estados Unidos também forneceram helicópteros, cães antidroga e unidades de polígrafos para examinar a quem solicitam ingressar em organismos de aplicação das leis. 
Os aviões não tripulados norte-americanos espían os esconderijos dos cárteles e as balizas rastreadoras norte-americanas localizam com exatidão os carros e telefones dos suspeitos. Agentes norte-americanos seguem os rastros, localizam telefonemas telefónicas, lêem e-mails, estudam padrões de comportamento, seguem rotas de contrabando e processam dados sobre traficantes de droga, responsáveis pela lavagem de dinheiro e chefes dos cárteles. De acordo com um antigo fiscal antidroga mexicano, os agentes norte-americanos não estão limitados nos seus escutas em México pelas leis norte-americanas, enquanto não se encontrem em território norte-americano e não pinchen a cidadãos norte-americanos. ("Why Is the Ou.Séc. Fighting Mexico's Drug War?" [ "Por que livram os Estados Unidos a Guerra contra as drogas de México?"] Laurence M. Vance, The Future of Freedom Foundation)



Isto não é política exterior; é outra ocupação norte-americana. E adivinham quem faz caixa em grande estilo com esta pequena fraude sórdido? Wall Street. Isso é: os grandes bancos sacam-lhe um bico como fazem sempre. Joguemos um vistazo a este bilhete de um artigo de James Petras títulado "How Drug Profits saved Capitalism" ["Como os benefícios das drogas salvaram ao capitalismo"] em Global Research. É um estupendo resumem dos objetivos que estão a configurar essa política: 
Enquanto o Pentágono arma ao governo mexicano e a DEA (Drug Enforcement Agency, a agência antidroga) norte-americana põem em prática a "solução militar", os maiores bancos dos EE.UU. recebem, lavam e transferem centos de milhares de milhões de dólares às contas dos senhores da droga, que compram assim armas modernas, pagam exércitos privados de assassinos e corrompem a um número indeterminado de servidores públicos encarregados de fazer cumprir as leis a ambos lados da fronteira..." 
Os benefícios da droga, no sentido mais básico, asseguram-se mediante a capacidade dos cárteles de lavar e transferir milhares de milhões de dólares ao sistema bancário norte-americano. A escala e envergadura da aliança entre a banca norte-americana e os cárteles da droga ultrapassa qualquer outra atividade do sistema da banca privada norte-americana. De acordo com os registos do Departamento de Justiça norte-americano, um banco só, o Wachovia Bank (propriedade hoje de Wells Fargo), lavou 378.300 milhões de dólares entre o 1 de maio de 2004 e o 31 de maio de 2007 (The Guardian, 11 de maio de 2011). Todos os bancos principais dos EE. UU. fizeram de sócios financeiros ativos dos cárteles assassinos da droga.
Se os principais bancos norte-americanos são os instrumentos financeiros que permitem operar aos impérios multimillonarios da droga, a Casa Branca, o Congresso norte-americanos e os organismos de aplicação das leis são os protetores essenciais destes bancos (...) A lavagem de dinheiro da droga é uma da fonte mais lucrativas de benefícios para Wall Street, os bancos carregam avultadas comissões por transferências de benefícios da droga, que à sua vez prestam a instituições crediticias a taxas de interesse muito superiores às que pagam - se é que pagam- aos depositantes dos traficantes de drogas. Inundados pelos benefícios das drogas já desinfetados, estes titanes norte-americanos das finanças mundiais podem comprar facilmente aos servidores públicos eleitos para que perpetuem o sistema. ("How Drug Profits saved Capitalism", James Petras, Global Research)


Repitamo-lo: "Todos os bancos principais dos EE. UU. fizeram de sócios financeiros ativos dos cárteles assassinos da droga...". A Guerra contra as Drogas é uma fraude. Isto não tem que ver com a proibição, tem que ver com o controlo. Washington põe a força para que os bancos possam se levar uma boa peça. Uma mão lava à outra, igual que com a Máfia. 

04/04/2011

Os zapatistas avançam em silêncio para a autonomia

Tirado de aqui.

Em Chiapas, na fronteira sul de México, lá onde a orografria é abrupta e a fome sulca os rostos dos mais pequenos, milhares de pessoas decidiram alçar-se em armas e dizer "basta" à pobreza, à marginação, à invisibilidade. Era o 1 de janeiro de 1994, e as cidades chiapanecas amanheceram tomadas pelos ninguém, os indígenas, aqueles que deviam baixar do passeio quando passava um caxlan -palavra maia para designar os mestiços- , aqueles que não sabiam, que andavam descalzos, os prescindíveis, singelos homens e mulheres que naquele dia se voltaram grandes ao fazer a primeira revolução do século XXI.


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"Esto somos nosotros. El EZLN. La voz que se arma para hacerse oír. El rostro que se esconde para mostrarse. El nombre que se calla para ser nombrado. La roja estrella que llama al hombre y al mundo para que escuchen, para que vean, para que nombren. El mañana que se cosecha en el ayer", Fragmento do discurso inaugural da maior Ana Maria, no primer encontro zapatista, em 27 de julho de 1996. Foto: Adolfo López.       







Hoje dizemos basta!, (...) os desposeidos somos milhões e chamamos a todos os nossos irmãos a que se somem a este chamado como o único caminho para não morrer de fome ante a ambição insaciável de uma ditadura a mais de 70 anos encabeçada por uma camarilha de traidores que representam os grupos mais conservadores e vende-pátrias", rezava a primeira declaração da Selva lacandona com a que esta guerrilha indígena, o Exército Zapatista de Libertação Nacional, se atrevia a lhe declarar a guerra ao Estado mexicano.

Era o dia que entrava em vigor o Tratado de Livre Comércio da América do Norte, que marcou a consolidação definitiva do ultraliberalismo em um país, e os zapatistas apresentavam 11 petições fundamentais relacionadas com o direito ao trabalho, a terra, a morada, a alimentação, a saúde, a educação, a independência, a liberdade, a democracia, a justiça e a paz. Em definitiva pediam ser cidadãos de primeira em um país que os negava, e ter capacidade para gozar do exercício desta cidadania com respeito aos seus modos de produção e autogoverno tradicionais, para além do sistema de partidos e a sobreexploração da terra. Esta proposta alborotou uma sociedade que se sentia em marasmo, sequestrada por mais de 60 anos por um partido único que já perdia a sua legitimidade, e economicamente em crise. "O EZLN mudou-nos a vida. Baixou o exercício da política à comunidade. Estendeu-se a percepção que a nossa palavra podia contar se assim o decidíamos, e se estendeu a participação de estudantes, camponeses, classes médias nos meios, na esfera pública", explica Glória Muñoz, jornalista que viveu muitos anos nas comunidades zapatistas e segue desde perto a trajetória do EZLN.
 
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O subcomandante Marcos, assim chamado porque o único comandante é o povo, ergueu adesons e simpatias por toda a parte, também nos EUA e em Europa. Na Rolda de Rebeldia impulsada polo Encontro Irmandinho ou nas teses da III Assembleia Nacional do EI há referências ao zapatismo.
Assim, o EZLN captou em seguida os focos nacionais e internacionais. O seu porta-voz, o Subcomandante Marcos, um encarapuçado com pipa, de humor retranqueiro, soltura seductora e tiros verbais certeiros, também sacudiu as esquerdas da velha Europa e EEUU, em plena crise ideológica após a queda de Berlim e o auge do ultraliberalismo.

O apoio nacional parou a matança que se tivesse desencadeado entre um Exército profissional e uma guerrilha camponesa ataviada com mais paus que armas de fogo. Assim, após 12 dias de confrontos armados, estes ninguém conseguiram o primeiro diálogo nacional em fevereiro-março de 1994 e posteriormente, entre o 95 e o 96, se elaboraram os Acordos de San Andrés, que estabeleciam a luta agrária, a luta pelo reconhecimento legal dos direitos dos indígenas e a construção de estruturas de governo autónomos.

Embora cedo ficaram em nada, os Acordos são um documento de referência e deram visibilidade aos povos indígenas. Deles saiu o Congresso Nacional Indígena que converteu aos povos originários em um ator político. Os zapatistas passaram da deceção aos factos e começaram a levar os seus direitos e a sua autonomia pela sua conta. Se não tinha reconhecimento legal das suas necessidades e os seus modos próprios, exercê-los-iam na prática. Recuperaram milhares de hectares de terras aos caciques para trabalhá-las eles mesmos. E começaram uma política de fortalecimiento local. Para isso, a estrutura militar cedeu espaço às suas bases de apoio, como se fazem chamar os zapatistas civis. Organizaram-se em Municípios Autónomos Rebeldes Zapatistas, que estruturam os territórios que controlam e promovem o desenvolvimento local fosse das leis governamentais. E com a soma destas municipalidades estabeleceram cinco supraregioes, que funcionam como centros de poder político e administrativo, os Caracois. Em 1998, o EZLN controlava 38 municípios autónomos concentrados no centro e oriente de Chiapas e, já no 2003, existiam cinco Juntas de Bom Governo, as suas autoridades, compostas por delegados dos diferentes municípios que se relevam temporariamente e são eleitos pela própria comunidade. As JBG são os responsáveis pelos projetos, a administração e a impartição de justiça. A partir delas se constrói o seu sistema alternativo, baseado na visão e prática do mundo dos povos originários, com uma estrutura mais participativa e um grande arraigo com a terra. A sua prática autonóma constrói-se a partir do envolvimento das bases no trabalho coletivo da comunidade como promotores de saúde, educação, comunicação, sem mais recompensa que a melhora da sua vida quotidiana e a da sua comunidade.
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As mulheres foram um dos setores que mais se empoderaram com a revolta zapatista, nom apenas atingindo amplitude de cargos, mas também com a Lei Revolucionária de Mulheres vigente nos territórios zapatistas desde 1993. Foto: Adolfo López.
 
"O que nos ensinou o EZLN, é realmente a lutar, que íamos lutar por essas demandas e nos advertiram que ia levar um longo tempo.E descobre que a pobreza que existe na comunidade é por culpa de uns exploradores, então como que lhe abre a um a vista, o pensamento, o coração a que não é porque não trabalhamos que somos pobres, ou como algum que outro dizia é que deus assim quer de por si, que uns vão ser ricos e outros vão ser pobres. Então como que o EZLN faz uma nova proposta a diferença de outras organizações, porque a proposta dele é a lutar, não só a correr os finqueros, senão a trabalhar. Vai lutar pela saúde, pela educação, pela alimentação, pela morada, pela justiça, pela democracia" explica o colega Jacinto em Rádio Insurgente, a emissora zapatista, ao ser perguntado por como lhe mudou a vida com o EZLN.

Esta autonomia de facto causou simpatias em todo mundo, que lhes acompanham através de redes internacionais solidárias que apoiam com financiamento para os programas e capacitação aos promotores locais. Assim, implementaram um sistema de saúde e educação autónomo, bem como multidão de projetos produtivos e de melhora das condições de vida.

"Dantes quando tinha um problema na nossa comunidade às vezes ia um até onde está o mau governo e aí somente arranjava o seu problema o que tinha dinheiro, mas agora mudou, porque aqui connosco, com o nosso governo do povo já não se precisa dinheiro, senão que o que de por sim tem a razão é o que tem a razão, e o que tem a culpa pois se reconhece que tem a culpa" relata na mesma emissora com um castelhano precário, o colega Francisco, zapatista do povo de San Miguel, do Caracol A Realidade, na parte mais setentrional do estado.
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"No morirá la flor de la palabra. Podrá morir el rostro oculto de quien la nombra hoy, pero la palabra que vino desde el fondo de la historia y de la tierra ya no podrá ser arrancada por la soberbia del poder", EZLN. Foto: Adolfo López
"É o princípio de mandar obedecendo que promovem, isto é a política posta na gente de abaixo, o princípio da consulta, do não fazer nada sem perguntar aos povos, o princípio da revocação do mandato, que se não o fazes bem te tiro, e sobretudo o princípio da participação coletiva", sublinha Muñoz.

Assim as coisas, se referir ao zapatismo agora, 17 anos após o levantamento, não é falar somente de um grupo guerrilheiro, senão de uma nova forma de relacionamentos sociais entre as comunidades e de uma nova forma de ver e viver o mundo. Para além das armas, impactou a sua decisão e a sua dignidade, que acordou a consciência de milhões de cidadãos e cidadãs e viraram para Chiapas os refletores internacionais.

Mas com o passo dos anos, os zapatistas perderam poder mediático, e com a sombra, têm-se acentuado os hostigamentos. Pese ao alto ao fogo, o governo manteve sempre um cerco militar os territórios zapatistas, e o exército foi denunciados em numerosas ocasiões de violar os Direitos Humanos com ameaças, tomada ilegal de terras, execuções, torturas ou por forçar a deslocação dos povoadores indígenas. Segundo o Centro de Análise Políticos e Investigações Sociais e Económicas (CAPISE) mantêm-se 118 instalações militares, 57 das quais em terras comunais. Permanece assim o estado de espreito, com uma guerra submergida e esquecida, em onde os excessos passam desapercibidos pela falta de informação.

Ademais, ao acosso dos soldados somou-se uma nova estratégia de contra-insurgência através de paramilitares, outros indígenas a salário, treinados e armados que espreitam constantemente aos zapatistas, de tal maneira que mediáticamente pareçam conflitos *interétnicos ou religiosos.

"Há um conflito armado não resolto. Mantêm-se as forças militares no território e aparecem paramilitares com um rosto civil, mas que operam com hostigamento, amedrentamento com populações zapatistas ou os seus simpatizantes. É uma estratégia integral de contra-insurgência", resume Jorge Armando Gómez, do Centro de Direitos Humanos Fray Bartolomé das Casas (Frayba), em Chiapas.

As provas sobre a atividade paramilitar sobram: assassinatos, massacres, como as 45 pessoas assassinadas no povoado de Acteal em 1997, roubos de colheitas e gado são uma constante. O Frayba leva a cabo um trabalho sistémico de coletar informação e denunciar os crimes, tanto de paramilitares como do Exército. Quem leia alguns dos seus relatórios anuais, encontrar-se-á com uma situação crítica em Chiapas, onde a criminalização do protesto está à ordem do dia, enquanto as comunidades indígenas resistem desde faz anos toda a classe de vejações. De facto, o mesmo Frayba, sofreu uma campanha de difamação e criminalização pelo seu mesmo labor de denúncia, além de que vários dos seus integrantes sofreram ameaças diretas.

"Seguem aplicando uma estratégia de deslegitimação do movimento e todos os seus simpatizantes. O movimento zapatista é pela sua natureza uma pedra no sapato de México. Choca com um modelo de desenvolvimento e exploração do território ultraliberal e ademais fá-lo na fronteira sul, um local importantíssimo geoestrategicamente com todos os interesses económicos transnacionais, para Centro e Suramérica. É uma pedra que se resiste mas ademais é bem mais grande e simbólica porque contribui alternativas à humanidade", argüe Gómez.

Efetivamente, a praxe do zapatismo propõe alternativas de respeito intercultural, politicamente leva a cabo o autogoverno e a livre determinação, no económico procura a produção coletiva, o uso e cuidado da terra para além do material. "Sempre procurar-se-á os acabar por todos os meios possíveis, porque se opõe à crença de que o capitalimo ultraliberal é o único modelo válido para a sociedade", agrega Gómez.
 
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"Nosotros nacimos de la noche. En ella vivimos. Moriremos en ella. Pero la luz será mañana para los más, para todos aquellos que hoy lloran la noche, para quienes se niega el día, para quienes es regalo la muerte, para quienes está prohibida la vida", IV Declaraçom da selva lacandona, publicada em 1 de janeiro de 1996. Foto Adolfo López. 
 
De facto, além da importância geoestratégica de Chiapas, nos últimos anos converteu-se em um novo foco nacional do investimento turístico e ambos interesses chocam com a defesa do território dos indígenas. Entre os projetos estatais mais importantes destacam a construção de uma autoestrada San Cristóbal-Palenque, e a criação de uma presa hidroeléctrica nos rios Água Azul, Tulijá e Bascán, que despojaria às comunidades dos seus recursos naturais mais importantes.

Quando as comunidades se opõem, o governo tenta-se apropriar do território com desafiuzamentos forçados, a cooptação para a assinatura de convénios e projetos de desenvolvimento, a ocupação policial e militar da zona, a criminalização de defensores e a judicialização de ações de defesa de direitos. É o caso dos recentes conflitos dos povoados de Bachajón e Mitzitón.

EmBachajón, uma das comunidades afetadas pela presa, o passado fevereiro assassinaram a um  comuneiro e feriram a outro. Cento dezassete pessoas foram detidas, das quais cinco ainda permanecem presas, e as pessoas que permanecem plantadas no local para evitar o desalojo, sofrem constantes hostigamentos.

O povo de Mitzitón também mantém um "plantão" desde o ano para defesa o seu território do passo da Autoestrada. Desde então um grupo de paramilitares liderados pelo "Exército de Deus" e "Asas de Águia", protagonizam confrontos armados contra os povoadores inclusive em presença de servidores públicos estatais.

Como explica o Frayba, o que se disputa é "evitar o empoderamento dos povos indígenas da região para exercer o seu direito a decidir que precisam como povos e como podem cuidar, proteger e defender os seus territórios".
 
 
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A isso soma-se a pressão constante dos partidos políticos que com agasalhos simbólicos e promesas intangíveis tentam rachar a autonomia dos povos zapatistas em resistência. “Hay altibajos en las comunidades, porque el gobierno nos está atacando con sus programas, con sus proyectos, entonces nos está atacando de maneras de que dejemos de luchar y nos salgamos de la lucha y ahora podamos volver a ser dominados por él”, resume o irmao Jacinto desde La Realidad.

No entanto, todo o que figeram e continuam fazendo as comunidades indígenas zapatistas, na sua andaina coletiva, desde há 17 anos mas que vem de mais atrás ainda, é possível graças à consciência política que desenvolveram à para da sua organização para a vida.

16/03/2011

Wirikuta ou a fim do mundo

José Luís Lezama. Tirado de aqui e traduzido por nós.

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"Viricota, Viricota, quem sabe por que choram as rosas", Fernando Benítez.

 
Muitos ignoramo-lo, mas a peregrinação milenária do povo Wixárica (huicholes) desde as míticas e exuberantes terras do ocidente de México até as desérticas regiões de San Luis Potosí, onde se iniciou a vida e à que chegam para agradecer aos seus deuses o milagre da criação e a existência humana, não é a prática egoísta de um povo que só procura a sua própria salvação. É, antes de mais nada, um ato para isentar a todas as criaturas do mundo. Em Wirikuta, onde unem a sua beleza a montanha e o austero deserto, cerca de Real de Catorze, em San Luis Potosí, o mesmo que em Leunar (Cerro do Queimado), local onde nasceu o sol e foi salvo pelo Deus Tamatz Kallaumari (Grande Veado Azul) para originar a vida planetária, os Wixaritari reatopam-se com os seus deuses, transcendem os rancores, o efémero, o que é contraditório, o passado e o presente, os cortes geracionais e também as penúrias do tempo atual. Venerando os deuses que criaram o mundo recebem o sinal divino, a saúde dos meninos, a fertilidade das terras e a importância de ser alguém, todo aquilo que hoje lhes é particularmente negado.

 Nas terras sagradas de Wirikuta, onde abunda o deserto, o híkuri (pejote), as montanhas de reluzentes cores e onde as flores dos cactus, as brancas colinas e a luz solar testemunham o triunfo da vida e a beleza da criação, a companhia canadiana First Majestic Silver recebeu do governo mexicano, por 3 milhões de dólares, 22 concessões mineiras, as quais somam um total de 6 mil 326 hectares em plena terra santa do povo Wixárica. As atividades da companhia mineira terão local sobre uma zona altamente vulnerável, de grande marginação, que carece de água e que, a mudança da prata e o ouro que obsequiou, recebeu contaminação e pobreza. As substâncias tóxicas abundam em Wirikuta, estão na superfície, nos corpos de água e no cactus sagrado. O pejote que ingerem os Wixaritari não só escasseia pelo saque de grupos alheios aos Huicholes e pelos turistas que o colectam com a tolerância da autoridade, senão que também parte dele está contaminado por chumbo e cianuro, como o demonstrou um estudo da Universidade de Guadalajara.

 Os representantes da companhia mineira asseguram que as suas atividades extrativas não magoarão a zona sagrada, que operarão a dois quilómetros de distância do Leunar e designadamente do buraco no Cerro do Queimado, sítio específico do nascimento do sol. Não entendem o reclamo do povo Wixárica contra a instalação da companhia mineira, que os levou a lançar um manifesto pela sobrevivência, no que propõem uma moratória permanente contra a atividade extrativa no território onde os seus deuses criaram o mundo. Para este povo, o carácter sagrado não o possui unicamente o cerro ou um pequeno terreno delimitado de Wirikuta, senão toda a região. Enquanto para a companhia mineira, que no ano passado produziu mais de 6 milhões de onzas de prata e que cota na Saca de Nova York (A Jornada, 2 de março, 2011), as montanhas e o subsolo são simples espaço de negócios, para os Wixaritari são fonte de sustento material e de profunda vida espiritual que abarca a montanha, o deserto e toda a sua rota migratória de cerca de 500 quilómetros, a qual se vê ameaçada por diversos projetos modernizadores (construçom de estradas, mineiros, turísticos) com os quais se procura civilizar e fazer rendíveis a povos e paisagens. Como o diz Fernando Benítez no seu livro En la  tierra mágica del Peyote, é esta "uma terra santa descomunal. Ali realizaram os deuses as suas façanhas criadoras, no tempo originário e mal há rocha, manancial, fochanca, planta, caverna, abismo ou cerro que não estejam unidos a um facto mítico ou a um ritual complicado... o que nós vemos como uma pedra ou como uma planta para eles é um Kakaullari, um ser sobrenatural que não resistiu a prova da criação e ao nascer o sol ficou transformado em rocha ou em arbusto".

 Não se pôde encontrar local mais inapropriado para levar a cabo as atividades mineiras da First Majestic Silver. Wirikuta é local sagrado protegido pela UNESCO, Área Natural Protegida e Santuário de Aves. O mesmo presidente Calderón, no 2008, fungiou como testemunha do Pacto Hauxa Manaka, baixo o qual governadores de diversas entidades federativas se comprometeram a preservar a Terra Santa do povo Wixárica. Os protestos destas comunidades chegaram à cimeira climática de Cancum, ao Senado mexicano e instâncias internacionais. O fim do mundo dos Huicholes está por chegar. A First Majestic Silver e as autoridades que a autorizaram a operar em Wirikuta parecem entusiasmadas em executar esta sorte de decreto de morte. Os índios e a natureza parecem a cada vez mais prescindíveis.

16/02/2011

O subcomandante Marcos fala do negócio da guerra

Tirado de aqui. Traduçom parao galego de nosso. Como o Orwell dizia: "O ato essencial da guerra é a destruiçom, nom forçosamente de vidas humanas, mas dos produtos do trabalho. A guerra é umha maneira de moer ou afundir no mar os materiais que na paz constante poderiam empregar-se para que as massas gozaram de excessiva comodidade e, com isso, se figeram ao cabo  demasiado inteligentes".



Marcos questiona quem se beneficiam desse "negócio" e da cifra monetária que atinge

 EZLN: a guerra de Calderón deixará milhares de mortos e jugosos ganhos económicos

Sam Cristovo das Casas, Chiapas, 14 de fevereiro. "Se a guerra de Felipe Calderón Hinojosa (ainda que tratou-se, em vão, de endossar-lha a todos os mexicanos) é um negócio (que o é), falta responder às perguntas de pára quem ou quem, e daí a cifra monetária que atinge", pois "não é pouco o que está em jogo", expuxo o subcomandante Marcos num escrito sobre "a guerra do México dos de arriba", dado hoje a conhecer.

 "Desta guerra não só vão resultar milhares de mortos e jugosos ganhos económicas. Também, e sobretudo, vai resultar uma nação destruída, despovoada, esnaquiçada irremediavelmente", advertiu o chefe militar do Exército Zapatista de Libertaçom Nacional (EZLN): "A nossa realidade nacional é invadida pela guerra", pelo demais "perdida para o governo desde que se concebeu nom como soluçom a um problema de insegurança, senom a um problema de legitimidade questionada". Essa guerra agora destrói "o último reduto que lhe fica a uma nação: o tecido social".

 A experiência bélica "não só já não é longínqua para quem acostumavam a ver em geografias ou calendários distantes, senão que começa a governar as decisons e indecisions de quem pensárom que os conflitos estavam só em noticieiros e filmes de lugares tam longínquos como o Iraque, o Afeganistam ou Chiapas".

Intercámbio epistolar

Marcos destaca que a "guerra" livra-se agora em todo México. "Graças ao patrocínio de Calderón Hinojosa nom temos que recorrer à geografia do Médio Oriente pára reflexionar criticamente sobre a guerra", dixo-lhe ao filósofo Luis Villoro como parte de um intercámbio epistolar em curso sobre ética e política: "Já nom é necessário remontar o calendário até Vietnám, Praia Girón, sempre Palestina. E nom menciono a Chiapas e a guerra contra as comunidades indígenas zapatistas, porque já se sabe que não estão de moda".

 Para isto, acouta o chefe zapatista, "o governo de Chiapas gastou-se bastante dinheiro em conseguir que os meios não o ponham no horizonte da guerra, senom dos "avanços" na produçom de biodiesel, o "bom" trato aos migrantes, os "sucessos" agrícolas e outros contos enganha-bobos vendidos a conselhos de redaçom que assinam como próprios os boletins governamentais pobres em redaçom e argumentos".

envergonhado)".A "irruçom" da guerra na vida quotidiana "não vem de uma insurreçom, nem de movimentos independentistas ou revolucionários". Segundo o subcomandante Marcos, "vem, como todas as guerras de conquista, desde o Poder. E esta guerra tem em Felipe Calderón Hinojosa o seu iniciador e promotor institucional (e agora envergonhado)". Calderón "possessionou-se da titularidade do executivo federal pela via do facto", mas "nom se contentou com o respaldo mediático e teve que recorrer a algo mai para distrair a atençom e safar-se do questionamento a sua legitimidade em massa: a guerra". Isto acordou "a desconfiança medrosa dos empresários mexicanos, a entusiasta aprovaçom dos altos comandos militares e o aplauso nutrido de quem realmente manda: o capital estrangeiro".

A crítica desta "catástrofe nacional" telefonema "guerra contra o crime organizado", reflexiona Marcos, "devesse completar-se com uma análise dos seus alentadores económicos". Nom só por aquilo de que "em épocas de guerra aumenta o consumo suntuário". Também nom "polos sobreordenados que recebem os militares (em Chiapas, os altos comandos recebiam, ou recebem, um salário extra de 130 por cento por estar em "zona de guerra")" [N.B.: como acontece com a Guarda Civil espanhola em Euskal Herria]. Também teria que procurar "nas patentes, provedores e créditos internacionais que nom estám na chamada Iniciativa Mérida".

 Recorrendo a fontes de investigaçom jornalística e cifras oficiais, o comando rebelde aponta que nos primeiros quatro anos da "guerra contra o crime organizado" as entidades governamentais encarregadas (secretarias da Defesa Nacional, Marinha e Segurança Pública (SSP) e Procuraduria Geral da República) "receberam do Orçamento de Egressos da Federaçom umha quantidade superior aos 366 mil milhões de pesos (uns 30 mil milhões de dólares)".

Tão só a SSP, dependência a cargo de Genaro García Lua, "passou de receber uns 13 mil milhões de pesos de orçamento em 2007, a mais de 35 mil milhões de pesos em 2011 (talvez é porque as produções cinematográficas som mais custosas)". O chefe rebelde saca contas inquedantes: "Em 2010, um soldado federal raso ganhava uns 46 mil 380 pesos anuais; um general divisionário recebia um milhão 603 mil 80 pesos ao ano, e o secretário da Defesa Nacional percebia rendimentos anuais por um milhão 859 mil 712 pesos. Com o orçamento bélico total de 2009 (113 mil milhões de pesos para as quatro dependências) tivessem-se podido pagar os salários anuais de 2 milhões e médio de soldados rasos; ou de 70 mil 500 generais de divisão; ou de 60 mil 700 titulares da Secretaria da Defesa Nacional".

Por suposto, "nom todo se vai a salários e prestaçons". Precisam-se "armas, equipas, balas, porque as que se tenhem já nom servem ou som obsoletas", avonda a análise. "Deixemos de lado a pergunta óbvia de como foi possível que o chefe supremo das forças armadas lançasse-se a uma guerra ("de longo alento" di ele) sem as condiçons materiais mínimas para mantê-la, já nom digamos "ganhá-la"". Para o subcomandante zapatista, "o principal promotor desta guerra é o império das barras e as sujas estrelas (fazendo contas, em realidade as únicas parabenizaçons que recebeu Felipe Calderón vinhérom do governo norte-americano ). Sendo assim, "ganham os Estados Unidos com esta guerra local"? A resposta é sim, aponta. "Deixando de lado os ganhos económicos e o investimento monetário em armas, parque e equipas", o resultado é "uma destruiçom/despovoamento e reconstruçom/reordenamento geopolítico que os favorece".

Marcos lamenta que a "guerra (que está perdida para o governo desde que se concebeu não como uma solução a um problema de insegurança, senão a um problema de legitimidade questionada), está a destruir o último reduto que lhe fica a umha naçom: o tecido social". E isto, para o poder estadunidense, "é a meta a conseguir" [N.B.: lembremos que o levantamento zapatista de Chiapas foi o primeiro movimento após a queda do denominado "bloco socialista" que se ergueu contra o ultraliberalismo e a sua retórica da globalizaçom e da "fim da história" que propunha Fukuyama ou numha versom mais light o próprio Huntington].

Considera que "cada passo que se dá nesta guerra, para o governo federal é mais difícil explicar onde está o inimigo". E isso não só porque os meios em massa de comunicação "forom rebassados pelas formas de intercâmbio de informação de grande parte da população (não só, mas também as redes sociais e a telefoniacelular); também e, sobretudo, porque o tom da propaganda governamental tem passado da tentativa de engano ao de burla". Destarte, as "revelações de Wikileaks sobre as opiniões no alto comando estadunidense a respeito das "deficiências" do aparelho repressivo mexicano (a sua ineficácia e o seu contubérnio com a delinquência) nom som novas".

De origem, "esta guerra nom tem final e está perdida", pois "nom terá um vencedor mexicano (a diferença do governo, o poder estrangeiro sim tem um plano para reconstruir/ reordenar o território), e o derrotado será o último rincom do agónico Estado Nacional: as relaçons sociais que, dando identidade comum, som a base dumha naçom". Em conclusom, a identidade colectiva de México "está a ser destruída e suplantada por outra".