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20/11/2013

Vindicação do camarada Orwell

Scott Poole. Artigo tirado de SinPermiso (aqui). 

 

Durante a primeira semana de revelações referentes ao programa "Prisma" da NSA [Agência de Segurança Nacional norte-americana], George Orwell pôs-se  de máxima atualidade.

 Ou, para ser mais precisos, ler 1984 de Orwell (ou tê-lo ao menos) voltou-se de absoluta atualidade. As vendas deste clássico dispararam-se um 7.000% em Amazon aos poucos dias das primeiras informações sobre esta nova e sinistra forma da nossa cultura de vigilância eletrónica.

A repentina popularidade de Orwell implica um preço para o legado do autor. Ler 1984 e Animal Farm proporciona tão só uma introdução simplista a um pensador complexo. Ademais, a sua escritura e a sua atuação no meio das lutas intestinas da esquerda fizeram com que a sua herança seja difícil de compreender sem uma análise precisa, tanto da sua vida como das suas obras.

Orwell converteu-se em um espelho no que podem se olhar toda a sorte de posições políticas e se ver infalivelmente refletidas. Já faz tempo que há que reivindicar a Orwell como camarada na luta por um mundo melhor.

Desgraçadamente, não são poucos os seguidores de Rum Paul [extremista republicano norte-americano], anarquistas por livre e "hacktivists" [ativistas digitais] libertários que consideram 1984 como uma espécie de livro emparelhado com Atlas Shrugged [romance de Ayn Rand]. Até Glenn Beck [conhecido e intemperante jornalista ultra da corrente Fox] cita com frequência pedaços escolhidos de Orwell. O difunto Christopher Hitchens confundiu ainda mais as coisas ao utilizar a Orwell como arquétipo do giro que lhe afastou da esquerda ao final da sua vida e o seu posterior apoio à guerra contra o terrorismo de George Bush.

Animal Farm merece atenção especial por si mesmo, já que se converteu em um importante documento para os defensores do capital e o bastante conhecido como para o citar sem a ter lido. Orwell teve dificuldades para que o livro se publicasse, menos pelo seu tom antiestalinista que pelo facto de que as editoriais achavam que a sua mensagem glorificava as intenções e metas originais de outubro de 1917. Assim, por exemplo, ao poeta T. S. Eliot, profundamente reacionário, lhe desagradava intensamente, pois achava que Animal Farm sugeria que a resposta ao comunismo consistia em "mais comunismo".

Para obscurecer ainda mais a questão, o conhecimento do público em general provem na sua maior parte de um filme de desenhos animados de 1954 que, como demonstrou  Daniel J. Leab no seu excelente Orwell Subverted, recebeu financiamento da CIA. Realizada em vários anos após a morte de Orwell, o filme representa uma séria revisão da novela e vem a sugerir, não que a Revolução Russa se tivesse desvirtuado, senão que não deveria ter ocorrido em absoluto. As representações positivas de León Trotsky ("Bola de neve" no livro) aparecem eliminadas ou atenuadas. Ao "Velho Maior", o idoso filósofo que é uma mistura na novela de Marx e Lenine, se lhe faz aparecer gordo, estúpido e ridículo no filme.  Nos últimos anos da sua vida, Orwell mesmo contribuiu à confusão sobre a sua política. Firmemente à esquerda, vinculou-se a socialistas anticomunistas que ficaram profundamente desencantados com o rumo adotado pela política exterior soviética. Na sua colaboração com a revista Partisan Review, Orwell converteu-se em acérrimo partidário da Oposição de Esquerda antiestalinista.

Nos últimos meses da sua vida, tomou ademais a fatídica decisão de redigir uma lista de 35 nomes de simpatizantes estalinistas e apologistas liberal-burgueses dos "julgamentos farsa" de Staline. Há que fazer notar que Orwell tinha a esperança de que o governo britânico a utilizasse primordialmente para a propaganda; não era o tipo de "lista" tão familiar pelo Comité de Atividades Antinorteamericanas. Com tudo, foi uma decisão indefendível por parte de um moribundo do que o MI5 [a espionagem britânica] dispunha de um dossier considerável que detalhava as suas atividades e vínculos "comunistas".

Os próprios textos de Orwell, bem prolíficos, nos oferecem um maior entendimento destes factos isolados em relacionamento com a sua biografia. Na sua pluma (e no seu fuzil durante a Guerra Civil espanhola), rara vez teve o fascismo maior inimigo e o socialismo maior aderente.

Tome-se, por exemplo, o seu The Road to Wigan Pier, uma das declarações mais contundentes alguma vez escritas sobre a posição do socialismo. A primeira parte apresenta um retrato profundamente comovente das condições de emprego e da crua experiência vital da vida entre os mineiros do carvão do norte da Inglaterra. Recreia o mundo de "essas pobres bestas de carga baixo terra, enegrecidos até os olhos, que moviam as suas pás com braços e músculos ventrais de aço".

A segunda metade do livro constitui uma ressonante defesa de posições de extrema esquerda. Após oferecer uma das mais conscienciosas e elegantes análises das atitudes de classe escritas em inglês, Orwell afirma no essencial que nenhum homem no seu são julgamento pode deixar de ver que o socialismo é a única resposta real a estes problemas, e só quem têm  a "corrompida motivação" de "aferrar-se ao atual sistema social" poderiam opor-se a isso.

E no entanto, sendo Orwell o que é, em boa parte da sua segunda metade não se anda com rodeios na sua crítica do marxismo tal como se expressa na política. É despiedado na sua crítica dos "snobs bolcheviques" que tendem a   rematar casando-se com gente de possíveis e se fazem conservadores para quando chegam aos 35. Não se anda com brinquedos com os intelectuais comunistas que lhe falam à classe operária apenas no abstruso linguagem da teoria. Poder-nos-íamos arranjar, afirma, "com algo menos de conversa sobre capitalistas e proprietários e algo mais a respeito daqueles que roubam e aqueles aos que lhes roubam".

Em general, Orwell observava que o socialismo da sua época falhava à hora de acometer a sua tarefa mais básica: contribuir a fomentar a consciência de classe. Que diferença, se pergunta em The Road, supõe que um burguês se afilie ao Partido Comunista de Grã-Bretanha? Não grande coisa, conclui, na medida em que se deteta demasiado com frequência um tufo a diletantismo.

O que fazia falta, achava ele, era um compromisso inquebrável com a luta de classes, mais que essa sorte de progressismo passageiro que com excessiva frequência mina a construção de um movimento de massas entre a gente. Isto ódio pelas camarilhas esquerdistas e a gíria para iniciados levava às vezes a Orwell a uma retórica simplista que hoje aproveitam os grasnidos conservadores. O vegetarianismo voltou-no carrancudo. O ethos masculino que compartilhava com outros socialistas como Jack London e Ernest Hemingway não lhe deixou ver as conexões entre a disponibilidade do controlo de natalidade e a justiça económica. O seu tom estentórico nestes assuntos alimentou-se do seu insistência na centralidade da classe operária. Afinal de contas, a luta de classes significava exatamente isso: guerra entre aqueles que roubam e aqueles aos que lhes roubam, e não uma subcultura de extravagantes opções políticas. Os socialistas são muitas vezes, segundo sugeria, o pior reclamo do socialismo. 

Orwell também se mostra profético no seu debate sobre a redefinição das categorias marxistas para o novo mundo que via nascer. Preocupava-lhe que tivesse demasiada propaganda que representasse ao "operário mítico" como o fornido pedreiro ou mineiro com macaco. Sabia que o "operário" que procedia diretamente do realismo soviético seria substituído por um novo tipo de proletariado que trabalharia em uma nova fase do capitalismo.

Que há, perguntava, "do miserável exército de dependentes e empregados?". A sua ideia pressagia nossa crescente consciência a respeito de construir um movimento que inclua a auxiliares de escritório e empregados de serviços de atenção telefónica, a dependentes de armazéns como Wal-Mart e trabalhadores de correntes de comida rápida. Orwell sabia que se usamos a linguagem do explorador e o explodido, a esquerda poderia defender a sua postura. Quem se enfrentam à feroz natureza  do capitalismo nas longas horas de trabalho da cada dia conhecem de primeira mão a exploração. Não são diletantes e, como nos recorda Orwell, a revolução lhes pertence. 

A luta por criar uma esquerda relevante dependerá da capacidade de falar uma linguagem de luta de classes sem cair no obscurantismo teórico comum aos marxistas da sociedade ocidental hoje em dia. A causticidade de Orwell em The Road teria ainda mais firmeza se pudesse contemplar o destino que teve o marxismo das últimas décadas. Nos EUA, "marxista" aparece mais com frequência como elemento de subculturas académicas de moda, mais que como ideologia de um movimento de massas.

O primeiro passo para reivindicar a Orwell consiste em ler a Orwell. The Road to Wigan Pier e Homage to Catalonia são os locais evidentes pelos que começar. Este último, referido às suas experiências de combate com os trotskistas na Guerra Civil espanhola, põe em contexto a sua postura veementemente antiestalinista.

Vale também a pena recordar, antes que nada, que Orwell foi um ensaista inveterado, um dos mais prolíficos autores de reseñas de livros, filmes, peças teatrais e ideias que produzisse no século XX. Ensaios como "Podem ser felizes os socialistas?" e inclusive trabalhos que aparentemente não guardam relacionamento sobre Charles Dickens, Tolstoi e beber chá estão cheios de análises críticos do capitalismo industrial que ele conhecia bem.

O nome de Orwell e o seu 1984 segue tendo uma ressonância tão poderosa que não é surpreendente que muitos procurem o seu visto bom. E, como no caso de todos os pensadores complexos, é possível encontrar tanto nos seus escritos como nas experiências da sua vida citas em apoio de uma multidão de ideologias.

O uso mercenário de frases e alíneas da obra de Orwell propõe-se apropriar-se dele com fins reacionários em local de apoiar as metas pela que passou a sua vida lutando.  A Glenn Beck deveria cair-lhe-lhe a cara de vergonha, embora careça dela. E Christopher Hitchens fez um magro favor pretendendo tê-lo como santo padrão. George Orwell pertence-lhe ao povo.

24/09/2013

Para uma sociologia do arame farpado



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Criado há 140 anos, ele mantém-se como símbolo da opressão e seu caráter bruto. Mas diversificou-se e assumiu versões até “ecológicas”, num sinal das metamorfoses do poder


 Por Olivier Razac, no Le Monde Diplomatique

 Inventado em 1874 por um fazendeiro norte-americano, Joseph Glidden, para cercar as propriedades das Grandes Planícies, o arame farpado tornou-se imediatamente um instrumento político de primeira importância. Em menos de um século e meio, ele serviu para cercar as terras e assim afastá-las dos índios norte-americanos, e para encerrar populações inteiras durante a guerra de independência de Cuba (1895-1898) e a segunda guerra dos bôeres na África do Sul (1899-1902); além disso, alimentou as trincheiras da Primeira Guerra Mundial e forneceu a cerca incandescente dos campos de concentração e exterminação nazistas.

 Essencialmente, o arame farpado do tipo “Glidden” destina-se apenas a uso agrícola. Quando se trata de afastar homens, ele é substituído pelo arame farpado dito “lâmina”: pequenas lâminas cravadas no fio central, que podem ao mesmo tempo cortar e furar o intruso, substituem as farpas. A forma da lâmina muda de acordo com a utilização prevista e pode servir tanto à simples dissuasão como ter a capacidade de ferir mortalmente.

 A persistência de um objeto tão pouco elaborado pode surpreender. Em um século de progressão tecnológica fulgurante, ele continua eficiente para realizar o que se espera dele: delimitar o espaço, traçando no solo as linhas de uma partilha ativa. Nesse papel, ele é excelente. Sua leveza permitiu cobrir distâncias extraordinárias e sua flexibilidade responde a todas as necessidades: proteger, fortificar, fechar… Tudo isso com um fio de metal cheio de pequenas pontas. A distância entre a simplicidade do objeto e a importância de seus efeitos mostra que a perfeição de um instrumento de exercício do poder não se mede por seu refinamento técnico, que seu poder não passa necessariamente por um gasto de energia ou ainda que a maior violência não é forçosamente a mais impressionante.

 Mesmo que o arame farpado tenha abandonado amplamente a paisagem das democracias liberais – teríamos muita dificuldade em imaginá-lo cercando escritórios, supermercados e jardins, ou sendo utilizado pelas forças da ordem para bloquear ruas durante manifestações –, ele não desapareceu. Continua sendo utilizado em todos os países, mas não em qualquer lugar. Em volta das plantações e pastos, no campo; na cidade, acima dos muros das fábricas consideradas estratégicas, dos quartéis, das prisões e em algumas residências; ao longo das fronteiras tensas, nos campos de batalha…


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 Nesses casos, o arame farpado funciona como um revelador das diferenças políticas. Por que é comum encontrá-lo sobre os muros das mansões ricas da África do Sul, ao passo que na França isso “não se faz”? Por que a polícia ou o exército podem facilmente parar os manifestantes desenrolando rolos de concertina [1] nas ruas das Filipinas, enquanto os soldados franceses se protegem atrás de finos escudos de acrílico?

 A resposta é, pelo menos, tripla. É preciso em primeiro lugar considerar o nível de violência das sociedades em questão. A fortificação das residências privadas relaciona-se com a brutalidade das desigualdades sociais, que ela inclusive contribui para piorar. O nível de sensibilidade à violência sofrida e percebida deve também ser levado em conta. Por fim, a variabilidade geográfica da força simbólica dos instrumentos utilizados: a percepção do arame farpado não é a mesma na Europa, na China e na África, em particular porque existe uma relação diferente com os objetos históricos que o arame farpado simboliza – na Europa, os campos de concentração, o genocídio, a guerra.

 Esses três fatores desenham, finalmente, uma geografia política do arame farpado que também é uma cartografia dos grandes tipos de governo que coexistem no mundo – que não corresponde, em absoluto, aos recortes políticos mais convencionais (democracia versus ditadura). A resposta à questão “arame farpado ou não?” é um indicador bem confiável da tecnologia política e do tipo de relações entre governantes e governados.


 Criar jardins de sonho

 No Ocidente, o arame farpado simboliza a opressão, com relação às suas utilizações históricas catastróficas. Assim, “as cercas, os fios de arame farpado, as barragens, as forcas, as câmaras de gás e os fornos crematórios” do campo de concentração e exterminação de Auschwitz-Birkenau estão inscritos na lista do patrimônio mundial como o “símbolo da crueldade do homem contra o homem no século XX” [2]. De modo significativo, no logotipo da Anistia Internacional, associação fundada no Reino Unido para combater a prisão e a tortura, figura uma vela enrolada num fio de arame farpado. Há que se notar que, por outro lado, a conotação negativa pode ser invertida quando se trata de destruir o dispositivo. Em 1989, a Hungria decidiu dar um passo significativo em direção ao Ocidente: “Num gesto simbólico, [o ministro das Relações Exteriores] cortou, com seu colega austríaco, os fios de arame farpado que marcavam a existência da cortina de ferro entre a Áustria e a Hungria” [3].


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 A forte carga simbólica do arame farpado fez dele um instrumento ainda mais custoso politicamente por existir uma sensibilidade exacerbada à violência e um desejo de imunidade dos corpos, opiniões e afetos. Noli me tangere [Que ninguém me toque!], diz a expressão latina. “Nas sociedades ocidentais”, escreve o filósofo Alain Brossat, “o crescimento do paradigma imunitário tende a se desenvolver em verdadeira fobia do toque, do contato [4]". Nesse contexto, o arame farpado representa uma maneira intolerável de repartir os corpos no espaço. O risco de sofrer o contato cortante de suas pontas ou de suas lâminas, assim como a obrigação de suportar sua vista parecem inaceitáveis.

 No entanto, até mesmo nos espaços onde o arame farpado é cada vez mais difícil de ser utilizado as delimitações não desaparecem: elas são apenas mais discretas, suavizadas. Pois existe um jogo de oposição entre, de um lado, as táticas de eufemização da violência espacial que necessitam da ausência de instrumentos agressivos como o arame farpado e, por outro lado, a persistência de táticas dissuasivas que se apoiem sobre uma brutalidade visível.

 A eufemização é a princípio uma tática de discurso pela qual se substitui um termo por outro que diz indiretamente a mesma coisa. É assim que as fronteiras militarizadas se tornam “zonas desmilitarizadas”, “zonas tampão” ou “barreiras de segurança”. Mas, longe de ser apenas um linguajar, a eufemização também é estética, procedimental, tecnológica, arquitetônica, geográfica. Tomemos como exemplo as prisões para menores construídas nesses últimos anos: do lado de fora, indica o ministério da Justiça, “a imagem carcerária é voluntariamente atenuada por um tratamento arquitetônico adaptado que garanta uma melhor integração ao ambiente [5]”. A violência espacial se exerce, mas economizando o custo político de seu exercício direto e sem maquiagem.

 Daí a fascinação atual, ao mesmo tempo anedótica e sintomática, pela cerca vegetal. Uma empresa francesa, Sinnoveg, patenteou em 2005 o conceito de “trepadeira defensiva trançada natural”. “Uma inovação completamente ecológica, decorativa e instransponível”, vangloria-se o panfleto publicitário da empresa. Graças a uma escolha de essências vegetais com espinhos particularmente agressivos, esse novo tipo de barreira permite criar um obstáculo tão eficiente quanto uma cerca de arame farpado, por um custo parecido e com um retorno estético neutro, até mesmo agradável. Como se fosse arame farpado, com a vantagem de dar flores na primavera…

 Assim, “os locais são protegidos sem para isso parecerem agressivos ou até mesmo chocantes vistos de fora”. Outra vantagem dessas trepadeiras: elas são adaptáveis e moduláveis. Ao lado das escolas, os vegetais que as compõem são desprovidos de espinhos; por outro lado, nas localidades “sensíveis”, as plantas servem para camuflar e reforçar as cercas clássicas de arames farpados e grades. Nessas combinações de flores e espinhos se entrelaçam a tática e a poesia do poder. Jardins de sonho seguros: “A Sinnoveg possui um savoir-faire para criar jardins de sonho, de descanso em harmonia com a casa e seus mestres, oferecendo ao mesmo tempo o conforto da tranquilidade e da segurança por meio de um conceito decorativo e discreto de cerca vegetal intransponível, assim como vegetais excepcionais e únicos”.


 Refinados meandros da violência política

 Em outros casos, a eufemização está a serviço de um aumento da potência repulsiva. Ela consiste em camuflar os instrumentos violentos – a trepadeira florida que dissimula grades e rolos de arames farpados laminados – ou em mascarar a própria ação de delimitação a fim de capturar mais facilmente aqueles que a transgridem. Mesmo suavizadas, as demarcações do espaço não desaparecem: elas se modulam segundo as necessidades técnicas, em função de um equilíbrio sutil entre eficiência do instrumento utilizado e sua aceitabilidade simbólica. O arame farpado não vai desaparecer das sociedades ocidentais, mas em breve ele será utilizado somente para níveis de segurança muito elevados (prisões, campos militares…), em situações em que poderá ser escondido ou ainda em locais afastados, pouco habitados. Nas cidades modernas, a eficiência e a discrição das delimitações são obtidas preferencialmente por meios tecnológicos virtualizados: câmeras, portões eletrônicos, sensores…


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 A carga simbólica negativa e inconsciente do arame farpado pode agir como um instrumento de dissuasão, seguindo o cálculo – político e pragmático – que decide por sua utilização. Assim, o bairro de New Willington, na periferia considerada perigosa de Compton, no sul de Los Angeles, foi cercado para colocar um fim aos enfrentamentos entre gangues. Ali há de tudo: arame farpado, grades com ponta de lança, barreiras, desvios, guaritas, guardas. “As conotações militares da arquitetura desse dispositivo de filtragem não são suavizadas. Ao contrário, essa estética defensiva torna visíveis a segurança e o controle que foram reencontrados nessa comunidade [6].”

 O aspecto agressivo da delimitação serve aqui para prevenir as tentativas de transposição ao mesmo tempo que produz uma diferença hierárquica entre dois espaços e duas populações. O interior é valorizado (principalmente em termos imobiliários) pela aparência chamativa da segurança, ao mesmo tempo que o exterior é desvalorizado e seus habitantes são designados como indesejáveis. Em outro local, em contrapartida, num município fechado da Califórnia, reservado a moradores com mais de 55 anos, a agressividade da cerca serve essencialmente para tranquilizar os habitantes, sem repousar sobre uma verdadeira utilidade operacional: “Aqui, a aparência de segurança é mais importante do que a segurança efetiva [7]”.

 Todas essas possibilidades de agenciamento dos instrumentos de delimitação do espaço desenham um leque estratégico de grande riqueza: multiplicação e reforço dos limites graças a uma suavização simbólica, mas também endurecimento da segregação graças à sua brutalidade, real ou espetacular. O objetivo das divisões do espaço hoje não é binário: não se trata de uma “grande reclusão” da qual o arame farpado e a multiplicação das fronteiras blindadas seriam o sintoma, tampouco de uma simples liberação da circulação dos fluxos em razão da utilização de tecnologias virtuais.

 O objetivo reside em uma diversificação estratégica que permite todas as misturas, todas as articulações e todas as ambiguidades. Paradoxalmente, um instrumento como o arame farpado, sobre o qual poderíamos pensar que focaliza nossa atenção em objetivos arcaicos da violência – a visibilidade de uma brutalidade intensa exercida sobre a carne –, nos leva, ao contrário, a deslocar nosso olhar. As formas atuais da violência política se reconhecem menos por sua intensidade manifesta do que por seus meandros refinados.




 * Oliver Razac é filósofo, é autor da Histoire politique du barbelé [História política do arame farpado], Flammarion, Paris, 2009.
1 “Concertina” porque esse arame farpado do tipo lâmina se desenrola como um acordeão.
2 Disponível em: .
3 Entrevista com Gÿula Horn, Le Monde, 5 nov.1999.
4 Alain Brossat, La démocratie immunitaire [A democracia imunitária], La Dispute, Paris, 2003.
5 “Les établissements pénitentiaires pour mineurs” [Os estabelecimentos penitenciários para menores], Ministère de la Justice, Paris, 31 jan. 2005.
6 Gérard Billard, Jacques Chevalier e François Madoré, Ville fermée, ville surveillée. La sécurisation des espaces résidentiels en France et en Amérique du Nord [Cidade fechada, cidade vigiada. A segurança dos espaços residenciais na França e na América do Norte], Presses Universitaires de Rennes, 2005.
7 Ibidem.

08/07/2013

Todos somos vigiados

Ignacio Ramonet. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Por Ignacio Ramonet, director de Le Monde Diplomatique en español | Tradução Cauê Ameni

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Que é a mega-rede global de espionagem montada pelos EUA. Como os cidadãos são monitorados. Por que a denúncia de Edward Snowden é um fato histórico

Nós já temíamos (1). Tanto a literatura de (1984, de George Orwell), como o cinema (Minority Report, de Steven Spielberg) haviam avisado: com o progresso da tecnologia da comunicação, todos acabaríamos sendo vigiados. Presumimos que essa violação de nossa privacidade seria exercida por um Estado neototalitário. Aí nos equivocamos. Porque as revelações inéditas do ex-agente Edward Snowden sobre a vigilância orwelliana acusam diretamente os Estados Unidos, país considerado como “pátria da liberdade”. Aparentemente, desde a promulgação, em 2001, da lei Patriot Act (2), isso ficou no passado. O próprio presidente Barack Obama acaba de admitir: “Não se pode ter 100% de segurança e 100% de privacidade”. Bem-vindos, portanto a era do “Grande Irmão”…
O que revelou Snowden? Este antigo assistente técnico da CIA, de 29 anos, que trabalhava para uma empresa privada – a  Booz Allen Hamilton (3) – subcontratada pela Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, sua sigla em inglês), vazou para os jornais The Guardian e Washington Post, a existência de programas secretos que tornam o governo dos Estados Unidos capaz de vigiar a comunicação de milhões de cidadãos.
Um primeiro programa entrou em operação em 2006. Consiste em espiar todas as chamadas telefônicas feitas pela companhia Verizon, dentro dos Estados Unidos, e as que se fazem de lá ao exterior. Outro programa, chamado PRISM, foi posto em marcha em 2008. Coleta todos os dados enviados, pela internet (e-mails, fotos, vídeos, chats, redes sociais, cartões de crédito), por (a princípio…), estrangeiros que moram fora do território norte-americano. Ambos os programas foram aprovados em segredo pelo Congresso norte-americano, que teria sido, segundo Barack Obama, “constantemente informado” sobre seu desenvolvimento.
Sobre a dimensão da incrível violação dos nossos direitos civis e nossas comunicações, a imprensa deu detalhes escabrosos. Em 5 de junho, por exemplo, o Guardian publicou a ordem emitida pela Tribunal de Supervisão de Inteligencia Externa, que exigia à companhia telefônica Verizon entregar à NSA os registros de milhões de chamada de seus clientes. O mandato não autoriza, aparentemente, saber o conteúdo das comunicações, nem os titulares dos números de telefone, mas permite o controle da duração e destino dessas chamadas. No dia seguinte, o Guardian e o Washington Post revelaram a realidade do programa secreto de vigilância PRISM, que autoriza a NSA e o FBI a acessar os servidores das nove principais empresas da internet (com a notável exceção do Twitter): Microsoft, Yahoo, Gogle, Facebook (4), PalTalk, AOL, Skype, YouTube e Apple.
Por meio dessa violação, o governo estadunidense pode acessar arquivos, áudios, vídeos, e-mails e fotografias de usuários dessas plataformas. O PRISM converteu-se, desse modo, na ferramenta mais útil da NSA para fornecer relatórios diários aos presidente Obama. Em 7 de junho, os mesmo jornais publicaram um diretiva da Casa Branca que ordenava, a suas agencias (NSA, CIA, FBI), estabelecer uma lista de possíveis países suscetíveis de serem “ciberatacados” por Washigton. E em 8 de junho, o Guardian revelou a existência de outro programa, que permite à NSA classificar os dados recolhidos na rede. Esta prática, orientada a ciber-espionagem no exterior, permitiu compilar  – só em março – cerca de 3 bilhões de dados de computador nos Estados Unidos…
Nas últimas semanas, ambos os jornais conseguiram revelar, sempre graças a vazamentos de Edward Snowden, novos programas de ciberespionagem e vigilância da comunicação em países no resto do mundo. Edward Snowden explica “A NSA construiu uma infra-estrutura que lhe permite interceptar praticamente qualquer tipo de comunicação. Com esta técnica, a maioria das comunicações humanas são armazenadas para servir em algum momento a um objetivo determinado”.
A Agência de Segurança Nacional (NSA), cujo quartel-general fica em Fort Meade (Maryland), é a mais importante e mais desconhecida agência de inteligência norte-americana. É tão secreta que a maioria dos norte-americanos ignora sua existência. Controla a maior parte do orçamento destinado aos serviços de inteligência, e produz mais de cinquenta toneladas de material por dia… É ela – e não a CIA – a proprietária e operadora da maior parte do sistema de coleta de dados da inteligência secreta dos EUA. Desde uma rede mundial de satélites até as dezenas de postos de escuta, milhares de computadores e as florestas de antenas localizadas nas colinas de West Virginia. Uma de suas especialidades é espiar os espiões — ou seja, os serviços secretos de inteligência de todas as potências, amigas e inimigas. Durante a guerra das Malvinas (1982), por exemplo, a NSA decifrou o código secreto dos serviços de inteligencia argentinos, o que lhe possibilitou transmitir, aos britânicos, informações cruciais sobre as forças argentinas.
O vasto sistema de interceptação da NSA pode captar discretamente qualquer e-mail, qualquer consulta de internet ou telefonema internacional. O conjunto total da comunicação interceptada e decifrada pela NSA, constitui a principal fonte de informação clandestina do governo estadounidense.
A NSA colabora estreitamente com o misterioso sistema Echelon. Criado em segredo, depois da Segunda Guerra Mundial, por cinco potências anglo-saxônicas — Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia (os “cinco olhos”). o Echelon é um sistema orwelliano de vigilância global, que se estende por todo o mundo, monitora os satélites usados para transmitir a maioria dos telefonemas, comunicação na internet, e-mails, redes sociais etc. O Echelon é capaz de capturar até dois milhões de conversas por minuto. Sua missão clandestina é a espionagem de governos, partidos políticos, organizações e empresas. Seis bases espalhadas pelo mundo recolhem informações e interceptam de forma indiscriminada enormes quantidades de comunicação. Em seguida, os super-computadores da NSA classificam este material, por meio da introdução de palavras-chaves em vários idiomas.
Em torno do Echelon, os serviços de inteligência dos EUA e do Reino Unido estabeleceram uma larga colaboração secreta. E agora sabemos, graças às novas revelações de Edward Snowden, que a espionagem britânica também grampeia clandestinamente cabos de fibra ótica, o que lhe permitiu espionar as comunicações das delegações presentes na reunião de cúpula do G-20, em Londres, em abril de 2009. Sem distinguir entre amigos e inimigos (5).
Por meio do programa Tempora, os serviços britânicos não hesitam em armazenar enormes quantidades de informação obtidas ilegalmente. Por exemplo, em 2012, manejaram cerca de 600 milhões de “conexões telefônicas” por dia e grampearam, em perfeita ilegalidade, mais de 200 cabos… Cada cabo transporta 10 gigabites (6) por segundo. Em teoria, poderia processar 21 petabytes (7) por dia; equivalente a toda a informação da Biblioteca Britânica, enviada 192 vezes ao dia.
O serviços de inteligência constatam que a internet já tem mais de 2 bilhões de usuários no mundo e que quase 1 bilhão utiliza o Facebook de forma habitual. Por isso, fixaram como objetivo, transgredindo leis e princípios éticos, controlar tudo que circula na internet. E estão conseguindo: “Estamos começando a dominar a internet”, confessou um espião inglês, “e nossa capacidade atual é bastante impressionante”. Para melhorar ainda mais esse conhecimento sobre a internet, o Quartel-Geral de Comunicações do Governo [Government Communications Headquarters, ou GCHQ, a agência de espionagem britânica] lançou recentemente novos programas: Mastering The Internet (MTI) sobre como dominar a Internet, e Programa de Modernização da Interceptação [Interception Modernisation Programme] para uma exploração orwelliana das telecomunicações globais. Segundo Edward Snowden, Londres e Washington já acumulam, diariamente, uma quantidade astronômica de dados, interceptados clandestinamente através das redes mundiais de fibra ótica. Ambos países dispõem de um total de 550 especialistas para analisar essa titânica informação.
Com a ajuda da NSA, a GCHQ aproveita-se de que grande parte dos cabos de fibra ótica por onde trafegam as telecomunicações planetárias passam pelo Reino Unido. Este fluxo é interceptado com programas sofisticados de informática. Em síntese, milhões de telefonemas, mensagens eletrônicas e dados sobre visitas na internet são armazenados sem que os cidadãos saibam, a pretexto de reforçar a segurança e combater o terrorismo e o crime organizado.
Washington e Londres colocaram em marcha o plano orwelliano do “Grande Irmão”, com capacidade de saber tudo que fazemos e dizemos em nossas comunicações. E quando o presidente Obama menciona a suposta “legitimidade” de tais práticas de violação de privacidade, está defendendo o injustificável. Além disso, há de se lembrar que, por interceptarem informação sobre perigosos grupos terroristas com base na Flórida – ou seja, uma missão que, segundo a lógica do presidente Obama seria “perfeitamente legitima” — cinco cubanos foram detidos em 1998 e condenados (8) pela justiça dos EUA a largas e imerecidas penas de prisão (9).
O presidente Barack Obama esta abusando de seu poder e diminuindo a liberdade de todos os cidadãos do mundo. “Eu não quero viver numa sociedade que permite este tipo de ação”, protestou Edward Snowden, quando decidiu fazer suas impactantes revelações. Divulgou os fatos, e não por acaso, exatamente quando começou o julgamento do soldado Bradley Manning, acusado de vazar segredos Wikileaks, organização internacional que divulga informações secretas de fontes anônimas. Enquanto isso, o ciber-ativista Julian Assange está refugiado há um ano na Embaixada do Equador em Londres… Snowden, Manning e Assange, são defensores da liberdade de expressão, lutam em favor da democracia e dos interesses de todos os cidadãos do planeta. Hoje são assediados e perseguidos pelo “Grande Irmão” norte-americano (10).
Por que os três heróis de nosso tempo assumiram correr semelhante riscos, que podem custar sua própria vida? Edward Snowden, obrigado a pedir asilo político no Equador e em vinte países, responde “Quando se dá conta de que o mundo que ajudou a criar será pior para as próximas gerações, e que os poderes desta arquitetura de opressão se estendem, você entende que é preciso aceitar qualquer risco. Sem se preocupar com as consequências”.
–
(1) Ver, de Ignacio Ramonet, “Vigilancia absoluta”, na Biblioteca Diplô, agosto de 2003.
(2) Proposta pelo presidente George W. Bush e adotada no contexto emocional que se seguiu aos ataques de 11 de setembro de 2001, a lei “Patriot Act” autoriza controles que interferem com a vida privada, suprimem o sigilo da correspondência e liberdade de informação. Não requer a permissão para escutas telefônicas. E os investigadores podem acessar informações pessoais dos cidadãos sem mandado.
(3) Em 2012, a empresa faturou 1,3 bilhão para “missões de assistência de inteligência.”
(4) Recentemente, soube-se que Max Kelly, chefe de segurança no Facebook, encarregado de proteger as informações pessoais dos usuários da rede social contra ataques externos, deixou a empresa em 2010 e foi contratado… pela NSA.
(5) Espiar diplomatas estrangeiros é legal no Reino Unido: protegido por uma lei aprovada pelos conservadores britânicos, em 1994, que coloca o interesse econômico nacional acima da diplomacia.
(6) O byte é uma unidade de informação em computação. Um gigabyte é uma unidade de armazenamento cujo símbolo é GB, igual ou a bilhão de bytes, o equivalentes a uma van repleta de páginas de texto.
(7) Um petabyte (PT) é igual a um quatrilhão de bytes — ou um milhão de gigabyte.
(8) A missão dos cinco Antonio Guerrero, Fernando González, Gerardo Hernández, Ramón Labañino e René González, era infiltrar-se e observar o processo de grupos de exilados cubanos para evitar atos de terrorismo contra Cuba. Porém o juiz condenou eles à prisão perpétua, disse a Anistia Internacional em um comunicado que “durante o julgamento não mostrou qualquer prova de que os acusados ​​tinham informações classificadas realmente tratado ou transmitida.”
(9) Ler de Fernando Morais, Os últimos soldados da guerra fria, Companhia das Letras
(10 )Edward Snowden corre o risco de ser condenado a trinta anos de prisão após ter sido formalmente acusado pelo governo dos EUA de “espionagem”, “roubo” e “uso ilegal de propriedade do governo.”

14/12/2011

5.1: a verdade revolucionaria

Tirado de aquí.

Nunca imaxinei que as evidencias puideran, co paso do tempo neste país tan probe e puteado, resultaren mesmo subversivas. Afirmar por exemplo: “A lingua propia de Galicia é o galego”, como afirma o artigo 5.1 do Estatuto de Autonomía de Galicia, norma aprobada por un consenso parlamentario, que incluíu, na altura, o voto favorábel da Alianza  Popular de Manuel Fraga. O 5.1. Non 9 nin 12, nin 20.2. O artigo 5.1.: “A lingua propia de Galicia é o galego”. Poderiámonolo tatuar no brazo ou no peito e non sería máis claro e recto o seu sentido. Pero olla que na súa sinxeleza, eses dous números, cun puntiño polo medio, son mesmo desestabilizadores e superan o espírito da norma que os acolle. Veño de abrir un arquivo de Paint e debuxar senllas cifras de maneira moi rudimentaria, como faría un cativo. Velaquí están
Recomendo facelo. Coller un papel e pintalo, estampar o 5.1 nas camisolas, tuitealo. Porque cando un fai iso, trazar os riscos do 5.1, parécelle que está a pintar o V que os resistentes daquela serie de televisión pintaban nos valados das cidades contra os lagartos invasores.



Os números teñen ese poder de cifraren os significados, e por algo os chamamos cifras. 1789 non é 1713, e 1931 non é 1936. As 20.15 horas non son as 21.18 horas, e unha hora exclúe á outra. Eu nacín en 1973, e non en 1922 nin en 2009. Vivo, poñamos por caso, no número 50 da Avenida das Camelias e non no 88. Non é o mesmo o Windows 3.1 que o Windows 7. Un terremoto de 5.1 graos na escala de Richter é exactamente iso, 5.1 graos. Non 7 nin 8 nin 2.4. As súas consecuencias tamén son distintas. E o artigo 5.1. do Estatuto de Autonomía di, repito: “A lingua propia de Galicia é o galego”.

Que iso fique impreso, negro sobre branco, nun manual escolar é motivo de fóbicas denuncias, por parte dun fulano de UPyD, ante alguén que se fai chamar Valedor do Pobo, e cuxa oficina, grazas a ‘valer’ un pobo que ten o galego como lingua propia, recibe (nos orzamentos da Xunta para 2012), 2 millóns de euros!! dos nosos petos. Dous millóns de euros, repito, nin 0,1, nin 1.5. Dous (2) millóns. Comparado cos 8,4 millóns da Casa Real española con cargo aos Orzamentos Xerais do Estado, haberá que concluír que a monarquía española é unha ganga para os galegos en comparación co que lle pagamos a Benigno López. Pero ao que vou. Ese valedor considera que os cativos deste país non deben coñecer a evidencia de que a lingua propia de Galicia é o galego, perigosa e terrorista suma de suxeito+verbo+predicado. E a consellería de Educación dálle a razón. Non só. Alenta a mudanza dese libro de texto. O artigo 5.1, na súa sinxeleza, revela unha dolorosa evidencia que o conselleiro de Educación Jesús Vázquez e os demoledores da lingua galega non aturan: que a lingua propia de Galicia é o galego. Non hai máis. A mala noticia para eles é que tal realidade non se  pode mudar mentres quede un, digo un, falante de galego sobre esta terra cansa e humillada.

“En tempos de engano universal, dicir a verdade convértese nun acto revolucionario”. A frase acho que é de George Orwell, anque tamén lla atribuíron a Lenin e a Gramsci. En xuño de 2006, un cidadán británico foi detido por exhibir no centro de Londres un cartaz con esa frase, acusado de violar a lexislación sobre Crime Grave e Organizado de Blair,  que prohibía daquela, non sei se aínda o fai, protestar, pronunciar discursos ou amosar pancartas con lendas políticas nun quilómetro á redonda da Praza do Parlamento.

Hoxe, tras décadas de loita pola normalización da lingua galega -tras anos de enerxía, cartos e tempo investidos- achámonos na tesitura de defendermos a verdade revolucionaria do artigo 5.1, mira ti. Tocamos fondo, miñas donas e meus señores. Somos coma unha velliña desprovista de todo á que botan do seu fogar cando non ten nin folgos para erguer a voz, desafiuzada da súa casoupiña humilde con muros de porpiaño e o teito a caír. Sei que para esa vella ter a verdade e a dignidade da súa parte non é moito consolo. Pero polo de hoxe non temos máis. O bo de tocarmos fondo, como cando se bate co pé no chan dunha piscina, é que o único que nos resta é subir, ascender. Ogallá cheguemos con osíxeno abondo á superficie, e ninguén, o Valedor do Pobo por exemplo, nos leve aos tribunais non xa por querermos galego senón por querermos sobrevivir.

16/02/2011

O subcomandante Marcos fala do negócio da guerra

Tirado de aqui. Traduçom parao galego de nosso. Como o Orwell dizia: "O ato essencial da guerra é a destruiçom, nom forçosamente de vidas humanas, mas dos produtos do trabalho. A guerra é umha maneira de moer ou afundir no mar os materiais que na paz constante poderiam empregar-se para que as massas gozaram de excessiva comodidade e, com isso, se figeram ao cabo  demasiado inteligentes".



Marcos questiona quem se beneficiam desse "negócio" e da cifra monetária que atinge

 EZLN: a guerra de Calderón deixará milhares de mortos e jugosos ganhos económicos

Sam Cristovo das Casas, Chiapas, 14 de fevereiro. "Se a guerra de Felipe Calderón Hinojosa (ainda que tratou-se, em vão, de endossar-lha a todos os mexicanos) é um negócio (que o é), falta responder às perguntas de pára quem ou quem, e daí a cifra monetária que atinge", pois "não é pouco o que está em jogo", expuxo o subcomandante Marcos num escrito sobre "a guerra do México dos de arriba", dado hoje a conhecer.

 "Desta guerra não só vão resultar milhares de mortos e jugosos ganhos económicas. Também, e sobretudo, vai resultar uma nação destruída, despovoada, esnaquiçada irremediavelmente", advertiu o chefe militar do Exército Zapatista de Libertaçom Nacional (EZLN): "A nossa realidade nacional é invadida pela guerra", pelo demais "perdida para o governo desde que se concebeu nom como soluçom a um problema de insegurança, senom a um problema de legitimidade questionada". Essa guerra agora destrói "o último reduto que lhe fica a uma nação: o tecido social".

 A experiência bélica "não só já não é longínqua para quem acostumavam a ver em geografias ou calendários distantes, senão que começa a governar as decisons e indecisions de quem pensárom que os conflitos estavam só em noticieiros e filmes de lugares tam longínquos como o Iraque, o Afeganistam ou Chiapas".

Intercámbio epistolar

Marcos destaca que a "guerra" livra-se agora em todo México. "Graças ao patrocínio de Calderón Hinojosa nom temos que recorrer à geografia do Médio Oriente pára reflexionar criticamente sobre a guerra", dixo-lhe ao filósofo Luis Villoro como parte de um intercámbio epistolar em curso sobre ética e política: "Já nom é necessário remontar o calendário até Vietnám, Praia Girón, sempre Palestina. E nom menciono a Chiapas e a guerra contra as comunidades indígenas zapatistas, porque já se sabe que não estão de moda".

 Para isto, acouta o chefe zapatista, "o governo de Chiapas gastou-se bastante dinheiro em conseguir que os meios não o ponham no horizonte da guerra, senom dos "avanços" na produçom de biodiesel, o "bom" trato aos migrantes, os "sucessos" agrícolas e outros contos enganha-bobos vendidos a conselhos de redaçom que assinam como próprios os boletins governamentais pobres em redaçom e argumentos".

envergonhado)".A "irruçom" da guerra na vida quotidiana "não vem de uma insurreçom, nem de movimentos independentistas ou revolucionários". Segundo o subcomandante Marcos, "vem, como todas as guerras de conquista, desde o Poder. E esta guerra tem em Felipe Calderón Hinojosa o seu iniciador e promotor institucional (e agora envergonhado)". Calderón "possessionou-se da titularidade do executivo federal pela via do facto", mas "nom se contentou com o respaldo mediático e teve que recorrer a algo mai para distrair a atençom e safar-se do questionamento a sua legitimidade em massa: a guerra". Isto acordou "a desconfiança medrosa dos empresários mexicanos, a entusiasta aprovaçom dos altos comandos militares e o aplauso nutrido de quem realmente manda: o capital estrangeiro".

A crítica desta "catástrofe nacional" telefonema "guerra contra o crime organizado", reflexiona Marcos, "devesse completar-se com uma análise dos seus alentadores económicos". Nom só por aquilo de que "em épocas de guerra aumenta o consumo suntuário". Também nom "polos sobreordenados que recebem os militares (em Chiapas, os altos comandos recebiam, ou recebem, um salário extra de 130 por cento por estar em "zona de guerra")" [N.B.: como acontece com a Guarda Civil espanhola em Euskal Herria]. Também teria que procurar "nas patentes, provedores e créditos internacionais que nom estám na chamada Iniciativa Mérida".

 Recorrendo a fontes de investigaçom jornalística e cifras oficiais, o comando rebelde aponta que nos primeiros quatro anos da "guerra contra o crime organizado" as entidades governamentais encarregadas (secretarias da Defesa Nacional, Marinha e Segurança Pública (SSP) e Procuraduria Geral da República) "receberam do Orçamento de Egressos da Federaçom umha quantidade superior aos 366 mil milhões de pesos (uns 30 mil milhões de dólares)".

Tão só a SSP, dependência a cargo de Genaro García Lua, "passou de receber uns 13 mil milhões de pesos de orçamento em 2007, a mais de 35 mil milhões de pesos em 2011 (talvez é porque as produções cinematográficas som mais custosas)". O chefe rebelde saca contas inquedantes: "Em 2010, um soldado federal raso ganhava uns 46 mil 380 pesos anuais; um general divisionário recebia um milhão 603 mil 80 pesos ao ano, e o secretário da Defesa Nacional percebia rendimentos anuais por um milhão 859 mil 712 pesos. Com o orçamento bélico total de 2009 (113 mil milhões de pesos para as quatro dependências) tivessem-se podido pagar os salários anuais de 2 milhões e médio de soldados rasos; ou de 70 mil 500 generais de divisão; ou de 60 mil 700 titulares da Secretaria da Defesa Nacional".

Por suposto, "nom todo se vai a salários e prestaçons". Precisam-se "armas, equipas, balas, porque as que se tenhem já nom servem ou som obsoletas", avonda a análise. "Deixemos de lado a pergunta óbvia de como foi possível que o chefe supremo das forças armadas lançasse-se a uma guerra ("de longo alento" di ele) sem as condiçons materiais mínimas para mantê-la, já nom digamos "ganhá-la"". Para o subcomandante zapatista, "o principal promotor desta guerra é o império das barras e as sujas estrelas (fazendo contas, em realidade as únicas parabenizaçons que recebeu Felipe Calderón vinhérom do governo norte-americano ). Sendo assim, "ganham os Estados Unidos com esta guerra local"? A resposta é sim, aponta. "Deixando de lado os ganhos económicos e o investimento monetário em armas, parque e equipas", o resultado é "uma destruiçom/despovoamento e reconstruçom/reordenamento geopolítico que os favorece".

Marcos lamenta que a "guerra (que está perdida para o governo desde que se concebeu não como uma solução a um problema de insegurança, senão a um problema de legitimidade questionada), está a destruir o último reduto que lhe fica a umha naçom: o tecido social". E isto, para o poder estadunidense, "é a meta a conseguir" [N.B.: lembremos que o levantamento zapatista de Chiapas foi o primeiro movimento após a queda do denominado "bloco socialista" que se ergueu contra o ultraliberalismo e a sua retórica da globalizaçom e da "fim da história" que propunha Fukuyama ou numha versom mais light o próprio Huntington].

Considera que "cada passo que se dá nesta guerra, para o governo federal é mais difícil explicar onde está o inimigo". E isso não só porque os meios em massa de comunicação "forom rebassados pelas formas de intercâmbio de informação de grande parte da população (não só, mas também as redes sociais e a telefoniacelular); também e, sobretudo, porque o tom da propaganda governamental tem passado da tentativa de engano ao de burla". Destarte, as "revelações de Wikileaks sobre as opiniões no alto comando estadunidense a respeito das "deficiências" do aparelho repressivo mexicano (a sua ineficácia e o seu contubérnio com a delinquência) nom som novas".

De origem, "esta guerra nom tem final e está perdida", pois "nom terá um vencedor mexicano (a diferença do governo, o poder estrangeiro sim tem um plano para reconstruir/ reordenar o território), e o derrotado será o último rincom do agónico Estado Nacional: as relaçons sociais que, dando identidade comum, som a base dumha naçom". Em conclusom, a identidade colectiva de México "está a ser destruída e suplantada por outra".