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25/03/2014

Adolfo Suárez: outra necrológica possível (e necessária)

Sergio Gálvez Biesca. Artigo tirado de Rebelión.org (aqui) e traduzido por À revolta entre a mocidade. Gálvez Biesca é doutor em História Contemporânea. Negrito do original.


Onde a maior parte das biografias sobre Suárez, e especialmente aquelas narrações institucionais sobre a transição, flaqueiam é à hora de adentrar-nos no papel que jogou o ex-presidente no processo de reestruturação do modelo capitalista espanhol bem como na sistémica repressão dos movimentos contestatários no começo da Transição.

Faz já muito tempo que a biografia oficial e oficializante de Adolfo Suárez González, Duque de Suárez (1932-2014), está escrita. Inclusive, sem dúvida, as necrológicas que agora se estão a publicar com apressura levavam já meses, anos, guardadas na "frigorífico" dos grandes meios de comunicação. Assim funciona a "imprensa livre".

A grande representação do esperado e esperável funcionou à perfeição desde o primeiro momento em que um dos seus filhos, Adolfo Suárez Illana, comunicou a notícia do "iminente" desenlace. A reação foi imediata. O aparelho propagandista não demorou em se pôr em marcha. Imagens conhecidas, esperadas, locais comuns onde os tenha, começaram a difundir à velocidade à que hoje nos têm acostumados. Sim, os porta-vozes das políticas da memória oficial/institucional reagiram imediatamente. Não faltou detalhe na posta em cena.

Mas essa mesma representação que faz parte da escenação desse relato linear, uniforme, acrítico, que constitui a substância essencial da narração canónica da transição pós-tfranquista -como discurso que todo o impregnou para ao menos três gerações de cidadãos-, soava a velha, a caduca. Embora o esperável "babeu" dos biógrafos oficiais de Suárez era de supor, chegou-se a tão altas cumes, nesta ocasião, que não deixa, ao mesmo tempo, de representar o final previsível e próximo deste mesmo relato agonizante. Já o disse Beltrolt Brecht quando afirmou que a "crise produz-se quando o velho não acaba de morrer e quando o novo não acaba de nascer". Nada novo se disse, nem se pensava dizer, a respeito do previsível falecimento de Suárez. Nestes eventos mediáticos-propagandísticos a crítica é supérflua. E, por suposto, não se desaproveitou tão magnífica ocasião para enfatizar os dogmas daquela adoçada transição: que se foi modica, que se foi pacífica, que se foi extrapolável... Sem esquecer-nos de outros soados sucessos dessa mesma musiquinha: reconciliação, conciliação... Todo tem um aroma tão ranço!

E pese a tudo, a trajetória pessoal de Adolfo Suárez é tão complexa, tão poliédrica, que deveria ser objeto de uma análise rigorosa e sossegado. Pois falamos não só da imagem projetada, ou pretensamente projetada, senão de algo mais relevante em termos históricos: a origem da teórica legitimidade do regime político-económico atual. Um assunto demasiado importante para ser cautos ou quanto menos estar atentos ante as habituais mistificações. De facto, rastrear historicamente na biografia do presidente Suárez, para além desses mesmos locais comuns, pode permitir projetar não só o que pôde ser ou não ser a transição -feição que se escapa aos historiadores- senão também, antes de mais nada, ajudar a internar por outros locais não habituais -isso sim, a cada vez mais habituais- que refletem as luzes e sombras da outra transição à democracia, como um discurso que a médio-longo prazo substituirá, mediante reforma ou rutura, ao atual. Nesta breve necrológica, ao menos, gostaríamos de destacar três questões que nunca ressaltar-se-ão devidamente nestes dias de luto nacional.

A metamorfose e o modelo económico


A primeira questão sobre a que caberia discutir é a própria conversão até a metamorfose total do Suárez franquista a democrata convencido em um tempo recorde. Um de outros tantos casos "milagrosos". E não é baladí o anterior. Não esperem ouvir nem menos ler vozes críticas, nestes dias de tristeza nacional, daqueles biógrafos já não críticos -e aqui o exemplo, por antonomasia, é Gregorio Morán- senão dos seus declarados inimigos que os teve e seguem existindo com mais ou menos fundadas razões. Nada vai perturbar a posta em cena. Não se está aqui ante um julgamento ético ou moral, senão simplesmente histórico. Pois resulta que internar na trajetória biográfica de Suárez -até onde o permite a muito escassa documentação disponível, que é outra questão sobre a que caberia discernir longamente- desde a sua infância, a sua apressada escalada pelos centros de poder franquistas -sem nenhum tipo de escrúpulo ou má consciência incluído corrupções várias de diferente índole- até ser nomeado presidente do segundo Governo da Monarquia (julho de 1976), conduz-nos à mesma essência dos "limites infranqueáveis" da chamada transição à democracia.

Da mesma forma, dita senda vital reflete-nos como as ingeniaram as forças vivas do franquismo para que todo mudasse sem que nada mudasse. Toda uma obra de engenharia político-mediática sem precedentes. Com uma nota acrescentada, constitui o melhor caminho para conhecer ao Suárez político a 100% em onde os meios justificaram os fins. Ou dito de outra forma, Suárez foi um político, antes de mais nada, pragmático. São tantos os exemplos que poder-se-iam expor de como se construiu aquela biografia começando por como soube sacar o devido proveito da tragédia da urbanização dos Los Angeles de San Rafael em Segóvia, em junho de 1969. Como em toda a biografia de político de primeiro nível que se aprecie, o triângulo de corrupção-especulação-impunidade está presente... E com tudo, é verdadeiro, é verificável em termos históricos -para além dessa invenção do passado da que nos previu Hobsbawm- que Suárez rematou por acreditar no seu papel de salvador da Transição, da Pátria. Por convicção ou por pragmatismo -a gosto do leitor- não poder-se-lhe-á achacar os seus não poucos sacrifícios políticos mas também pessoais em procura desse "fim comum" de que, ao menos, se superasse a ditadura franquista face a avançar a um sistema democrático de mercado com todas as suas limitações. Que difícil tarefa a de separar neste caso o individual do coletivo!

Mas onde a maior parte das biografias sobre Suárez e especialmente aquelas narrações institucionais sobre a transição flaqueaim, é à hora de adentrar-nos -em ocasiões até o ponto de tratar-nos como súbditos antes que cidadãos- no papel que jogou o nosso protagonista no processo de reestruturação do modelo capitalista espanhol. É hora já de adentrar-nos em uma história de classe deste tempo histórico. A mistificação, o simples adoçamento mais elaborado ou burdo, sobre a necessidade imponderável dos Pactos da Moncloa (outubro de 1977) foi tal que esvaeceu quase por completo as outras vias de desenvolvimento que se puderam chegar a dar. Não só foram os Pactos da Moncloa -sem adentrar-nos em outros assuntos tão espinhosos como a Lei de Amnistia também de outubro de 1977- senão toda uma plêiade de regulamentos a posteriori que instrumentalizaram a crise económica dos setenta, para nos integrar na nova divisão internacional do mercado com as consequências do todo sabidas.

Mas não termina aqui a possível crítica histórica. Fora por convencimento ou por pragmatismo, o projeto político-económico que encarnou a UCD e o mesmo Suárez durante a primeira legislatura (1977-1979) com rasgos, em ocasiões, netamente progressistas ficariam eliminados muito cedo. Sequestrada económica e orçamentariamente UCD pela CEOE e outros centros de poder financeiros -como relatou o pouco suspeito jornalista Mariano Guindal em El declive de los dioses- o seu programa de atuação ficou prontamente limitado em feições de não pouca transcendência. Um sequestro mediante vias formais ou forçadas que, em qualquer caso, não modifica o resultado final.

Açoite dos movimentos operários e sociais

Agora bem, se há um local pelo que os biógrafos e os relatos oficializantes passaram de longo, é o relativo à obra e venturas de Adolfo Suárez no seu papel central na repressão, vigilância e espionagem contra o movimento operário e os então chamados "novos" movimentos sociais. Existe já a suficiente evidência empírica e bibliografia consolidada -pese ao bloqueio sistémico no acesso e consulta à documentação histórica deste tempo- para falar nestes termos que tão mau casam com essas adjetivas grandiloquências de reconciliação, consenso, pacífica sempre que aparece o vocábulo "Transição". E falando de leituras malditas -sempre ignoradas nestes dias- recordamos que a dia de hoje nenhum pesquisador ou especialista pôs em questão os dados no seu dia esgrimidos por Alfredo Grimaldos -La sombra de Franco en la Transição-  ou Mariano Sánchez -La transición sangrienta- e de outros tantos pesquisadores que nos dedicámos à tarefa. Ninguém recordará, em algum dia, a memória dos estudantes José Luis Martínez e Emilio Montanheiro metralhados um 13 de novembro de 1979 pelas forças da "ordem pública" em uma manifestação de estudantes e trabalhadores contra o Estatuto dos Trabalhadores? E o anterior não deixa de ser um caso isolado entre as centenas que pudessem ser expostos, em um tempo histórico em que a violência política institucional se combinou com o amparo por parte dos organismos estatais no referido a uma estendida política de terrorismo de Estado.

Não estamos a falar somente de que, por exemplo, os sindicatos maioritários então -desde CCOO, inclusive a renascida CNT ou até UGT ou outros tantos casos- fossem vigiados, submetidos a todo o tipo de espionagem ou de infiltrações, senão é que se pode afirmar que existiu toda uma política de controlo e repressão contra o movimento operário. Não valem aqui nem os argumentos da luta anti-terrorista de ETA nem outros tantos locais comuns já citados. Nem sequer cabe falar aqui dessa sempre citada correlação de forças. Está a falar-se, singelamente, de uma política institucional -e supomos que o presidente Suárez algo saberia- em onde tão só no ano 1979 -em que se deu um dos últimos repontes da luta de classes na Espanha contemporânea, atingindo-se niveles recorde de conflituosidade operária- empregaram-se todos os meios com o fim de derrotar a quem sempre se considerou o inimigo principal: o movimento operário. Um episódio, entre outros tantos revisáveis, com nomes, dados e cifras. Não são suspicácias nem críticas não fundamentadas, senão facto reais, tão reais como o facto de que nunca Suárez teve vontade real de questionar nem menos tocar o aparelho dos grupos terroristas de extrema direita quando não se lhes amparou por omissão ou ação... Que difícil resulta sempre referir à violência quando quem a exerce é o Estado!

Estes pequenos episódios aqui narrados, e outros tantos que se puderam expor -desde os porquês reais da legalização do PCE ou até o nodo fundacional do sempre citado frustrado Golpe de Estado do 23 de fevereiro de 1981- resultam e resultarão sempre locais incómodos não de cor-de-rosa senão de história nos relatos hagiográficos de Suárez. Deste modo, nada novo se vai dizer como conclusão: o trabalho dos historiadores profissionais -sim aqueles com uma teoria e um método científico que rastreiam nesses sempre incómodos papéis que nem sequer Martín Vila pôde destruir- enfrentam-se a um primeiro grande repto de enormes dimensões: desmitificar a Adolfo Suárez como pessoa e político.

Não face a uma crítica estrutural e frontal. Não. O nosso labor e trabalho é outro, pois do que se trata é de reconstruir essa mesma biografia pessoal e política desde as bases do conhecimento histórico. Um repto que se aparece em uma perspetiva a médio-longo prazo de muito complicada realização. Trata-se já não de confrontar, questionar, a representação heroico-institucional do binómio transição-Suárez, com Museu ad hoc, senão de algo mais substancial: Onde estão os papéis do arquivo pessoal mas também institucional do primeiro Presidente da Transição? Onde estão os papéis da UCD ou inclusive dos CDS? Por quê é que ainda hoje segue fechado o acesso e consulta a documentação da Brigada Político-Social, do Corpo Nacional de Polícia, da Policia civil, os diferentes arquivos militares e dos centros de inteligência antes e após essa "modica transição"? E aqui está o possível ponto de arranque para que os historiadores possamos no seu dia realizar uma biografia política e social de Suárez em condições e com todas as garantias. Enquanto, o mito, a memória institucional/oficial prevalecerá no próximo imediato. E com ela o hoje a cada vez mais questionado "modelo espanhol de impunidade".

09/03/2014

Soltos (I): Sobre a crise da II Restauração bourbónica e o chamado "conflito territorial"

Antoni Domènech. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido por nós.

Vários amigos, colegas ou colegas de vida política com os que tenho intercâmbios epistolares mais ou menos regulares e quase sempre divertidos sobre assuntos muito dispares me convidaram desde faz tempo a converter em artigos para SinPermiso o conteúdo de alguns desses intercâmbios. Sempre chocou até agora esse convite com certa preguiça que, em matéria publicística, nunca fui capaz de vencer. Padeço ademais -como bem observa um desses amigos- do trasnoitado sesgo do pesquisador para o que as coisas que não estão pensadas, se não até o final, sim ao menos cabalmente, devem se deixar cautelosamente ad acta e em nenhum caso se fazer públicas. Nesta secção de Soltos tratarei -com periodicidade irregular- de vencer ambos obstáculos, a minha preguiça e o meu sesgo: veremos o que dura o empenho. Incorporarei na cada entrega material epistolar disperso -"solto"-, quase tal qual foi escrito no seu momento. Quando seja possível e as circunstâncias o aconselhem, mencionarei pelos seus nomes aos destinatários originais. Um "solto", já o diz o dicionário, "não está colado ou unido de maneira compacta", "não está atado nem encerrado", "está separado de outras coisas com as quais forma um conjunto" e "expressa-se com desenvoltura". Esta primeira entrega de Soltos é uma reflexão sobre a crise da Segunda Restauração borbónica. Recicla material procedente de intercâmbios epistolares recentes, sobretudo com Miguel Riera, com Gustavo Búster, com Daniel Raventós e com o meu jovem amigo Àngel Ferrero. Antoni Domènech



I Cinco dimensões da crise da Segunda Restauração borbónica

Muitos somam-se agora à tese da crise sistémica da Monarquia de 1978. Diria-se que só se negam redondamente a admitir quem construíram as suas carreiras académicas ou publicísticas (ou mais frequentemente, ambas coisas) como apologetas da Transição e carecem já dos reflexos oportunos -ou da bússola oportunista- para a reciclagem.

Mas que quer se dizer com isso da crise da Segunda Restauração bourbónica? Parece-me útil atender a cinco dimensões dessa crise.

1.- A primeira é a perceção geral de que o mais valioso da Constituição do 78, a promessa de configuração de Espanha como um Estado Social e Democrático de Direito, não só não pode ser cabalmente honrada: essa foi a experiência de três décadas longas de construção de um medíocre "Estado de medioestar" no capitalismo oligopólico de amiguetes politicamente promíscuos afiançado na Transição. Senão que está agora mesmo em via de ser expressa e solenemente desonrada: não podem entender de outra forma as suicidas políticas económicas procíclicas de austeridade e consolidação fiscal e, especialmente, a reforma express da Constituição (artigo 135) pactuada em um plisplás em agosto de 2011 pelos dois partidos dinásticos (PP e PSOE) a fim de dar primazia absoluta ao pagamento da dívida acima de qualquer outra consideração.

2.- A segunda é a perceção, também geral, se não me engano, da submissão das elites políticas da II Restauração bourbónica -e assinaladamente dos dois partidos dinásticos-, não já a espúrios e bandeiriços interesses económico-políticos zafrados no capitalismo oligopólico de amiguetes politicamente promiscuos espanhol, senão a poderes foráneos politicamente opacos e alheios a qualquer confronto democrático (o telefonema "Troika" é só o símbolo): a ninguém se lhe oculta que a reforma express do artigo 135 foi, de um ou outro modo, imposta por esses poderes. Os parlamentares do PP e do PSOE que votaram a favor dessa reforma se situaram em uma posição parecida à dos parlamentares da III República francesa que, com a melhor das consciências, votaram em 1940 os poderes excecionais para o marechal Pétain. Se em algum dia saímos desta, não resultaria demasiado surpreendente que se procedesse como fez a IV República francesa depois da Libertação: que se tratasse a esses parlamentares como réus de um delito de alta traição e, quando menos, se lhes inabilitara politicamente de por vida.

Por certo, que a retórica contra a alta traição aos interesses nacionais por parte da Monarquia (e das forças políticas dinásticas) foi central na II República espanhola. Desde o princípio. Pela Lei de 26 de novembro de 1931, os Cortes Constituintes republicanas declararam a Alfonso XIII culpado desse delito:

"A todos os que a presente virem e entenderem, saibam: Que os Cortes Constituintes, em funções de Soberania Nacional, aprovaram a ata acusatória contra dom Alfonso de Borbón e Habsburgo-Lorena, ditando o seguinte:
"Os Cortes Constituintes declaram culpado de alta traição, como fórmula jurídica que resume todos os delitos da ata acusatoria, ao que foi rei de Espanha, quem, exercitando os poderes do seu magistratura contra a Constituição do Estado, cometeu a mais criminosa violação da ordem jurídica do país, e, na sua consequência, o Tribunal soberano da nação declara solenemente fora da lei a dom Alfonso de Borbón e Habsburgo-Lorena. Privado da paz jurídica, qualquer cidadão espanhol poderá prender a sua pessoa se penetrasse em território nacional."

3.- A terceira dimensão atendível da crise política tem que ver com a repetição, na II Restauração borbónica, de um fator que foi determinante na crise da I Restauração, e é a saber: que a manifesta incapacidade da Monarquia para gerir de maneira minimamente satisfatória a localização de Espanha no concerto internacional -o que foi patente a partir de 1898- fez mais visível e acentuou e ainda agravou a sua incapacidade para articular de modo minimamente satisfatório a unidade nacional de um país evidente e complicadamente plurinacional.

É assaz sabido que o "nacionalismo" catalão e o vascão são em boa medida filhos da catástrofe do 98. ("Nacionalismo", dito seja de passagem, é um neologismo -de origem francês- que se pôs em circulação internacional, com um significado bastante preciso, no último quarto do século XIX, não antes; agora é uma palavra que, como "populismo" -outro revelador neologismo da mesma época-, e a falta de maiores precisões -há uma pequena indústria publicística e académica dedicada ao oportunista e rendível exercício escolástico de procurar-lhe pseudofilosóficamente os três pés a estes gatos agora mais ou menos relatórios-, pode chegar a significar quase qualquer coisa.)

Talvez é menos recordado que na dramática crise de outubro de 1934, quando o Presidente mártir Companys se avilantou a proclamar unilateralmente a República catalã independente, o fez -pense-se o que se queira da oportunidade política da iniciativa- com umas palavras, Deus perdoe-me!, lealmente espanholas: denunciando a traição à República das forças da direita "monarquizantes e fascistas" e como parte de uma ação democrática fraternal do conjunto dos povos de Espanha:

"Catalães: As forças monarquizantes e fascistas que de um tempo a esta parte pretendem trair à República, conseguiram o seu objetivo e assaltaram o Poder.

Os partidos e os homens que fizeram públicas manifestações contra as minguadas liberdades da nossa terra, os núcleos políticos que pregam constantemente o ódio e a guerra a Catalunya, constituem hoje o suporte das atuais instituições (...)

Todas as forças autenticamente republicanas de Espanha e os setores sociais mais avançados, sem distinção nem exceção, se levantaram em armas contra a audaz tentativa fascista.

A Catalunya liberal, democrata e republicana, não pode estar ausente do protesto que triunfa por todo o país, nem pode silenciar a sua voz de solidariedade com os irmãos que nas terras hispânicas lutam até morrer, pela liberdade e o direito. Catalunya enarbola a sua bandeira e lume a todos ao cumprimento do dever e à obediência absoluta ao Governo da Generalidade que desde este momento rompe toda o relacionamento com as instituições falseadas. (...)

O Governo de Catalunya estará em todo momento em contacto com o povo. Aspiramos a estabelecer em Catalunya o reduto indestrutível das essências da República.
" [1]

4.- A quarta dimensão da crise da Monarquia, em mudança, tem que ver, não com similitudes, senão com uma diferença específica. Pode talvez  se expressar de modo sumário assim: a diferença da I Restauração, que instituiu uma monarquia meramente constitucional (na que, por tanto, o Rei era um poder do Estado, com capacidade para nomear chefe de gabinete com independência das maiorias ou minorias parlamentares), a II Restauração instituiu uma monarquia parlamentar, na que o Rei não é já um "poder do Estado" (apesar da ara anomalia de conservar a jefatura suprema das forças armadas!), senão só um "órgão do Estado", e as Cortes atuais sim podem derrubar a um governo colocado em minoria parlamentar com independência da vontade Real. Em outras palavras: em uma monarquia não meramente constitucional, senão plenamente parlamentar como a atual, o monarca é teoricamente pouco mais que uma figura decorativa, em princípio de todo ponto irrelevante politicamente. Essa é a presunção. Anomalias constitucionais aparte, nunca foi assim, claro está.

Mas o caso é que há agora -é evidente. uma perceção generalizada de que, bem longe dessa presunção, o Rei e a Casa Real foram atores de primeira ordem na economia política da Transição, isto é, no regime de capitalismo oligopólico de amiguetes politicamente promiscuos afianzado na Espanha das quatro últimas décadas. Não é que não tivesse rebosantes provas disso, desde o papel jogado pela Coroa o 23 de fevereiro de 1981 (o golpe de Estado frustrado mais bem sucedido politicamente da história), até as amizades e os negócios perigosos do Bourbom (começando por Colón de Carvajal). Mas esse tipo de regime capitalista de rentismo parasita politicamente amparado e publicamente subvencionado não só está, como é notório, em graves apuros, senão que a sua catastrófica natureza se fez patentemente visível com o estourido da crise capitalista mundial em 2008: para percatar-se, basta com jogar um vistazo à copiosa correspondência eletrónica de Miguel Blesa (o presidente de Caixa Madrid) que terminou por filtrar-se dos julgados à imprensa; com a boca literalmente aberta fica um a lendo. Os pontos de soldadura que mantinham unidas às elites político-económicas desse regime estão oxidados: a rutura do ominoso pacto de silêncio que, in rebus Monarchia, mantinham os grandes meios de comunicação estabelecidos é seguramente a manifestação mais visível disso. O caso de Urdangarín e a Infanta Cristina não é senão o mais espetacularmente chamativo de um rimero de espetaculares escândalos que não deixaram de salpicar à Casa Real nos últimos anos. Na memória de todos estão.

5.- Menção aparte merece ainda uma quinta dimensão da crise do sistema político do 78: a que tem que ver com a natureza e a qualidade da representação política. A representação política de determinados interesses sociais, económicos ou cidadãos entendeu-se inveteradamente como um relacionamento de agência fiduciaria: os representantes políticos foram normativamente conceptualizados desde tempos inmemoriales -e desde depois na teoria moderna da representação política- como mandatários, enquanto agentes (fideicomisarios) do mandante, do principal (fideicomitente) que são os cidadãos que lhes encarregam a representação dos seus interesses. A tradição iusfilosófica e política da corrente principal, isto é, a republicana (em cuja forma se conformou o grosso do direito público contemporâneo, e señaladamente, o constitucional) entendeu sempre esse relacionamento de agência como superlativamente complicada e perigosa pelas enormes possibilidades de comportamento discricional -pró domo sua- que oferece ao mandatário, ao representante (com a consiguiente traição aos interesses do mandante, dos seus representados). Uma das coisas mais chamativas da evolução do capitalismo nas últimas décadas é a espantosa autonomização dos representantes políticos respecto dos interesses dos seus representados: tenderam a converter-se em agentes que atuam por causa e por conta próprias.

A coisa está no ar para quem tenha antenas. E muitos têm-nas. De aqui o espetacular triunfo publicístico de pseudoteorías de mercadillo de ocasião como a ultimamente famosa tese das "elites políticas extractivas" (voluntariamente ignorante de realidades económicas de fundo, mas citada com entusiasmo por toda a beatería da antipolítica). De aqui também -e isso é mais sério: as modas que arraigan na língua popular quotidiana sempre o são mais que as veleidosamente académicas- o aparecimento em quase todas partes de neologismos que parecem recolher este fenómeno de inaudita promiscuidade entre os atuais políticos profissionais e os interesses granempresariales e financeiros rentistas: em inglês tem-se carimbado o revolving doors, em galego, as "portas giratórias", pantouflage diz-se em francês, e os alemães falam de Drehtüreffekt para referir-se também ao muito comum facto de que as superelites políticas atuais, quando saem da política ativa, ingressam em grande estilo no mundo dos negócios privados transnacionais, e ao revés, desde o mundo dos grandes negócios podem sem maiores trâmites reingresar na política.

Dizer-me-ão que isso talvez não é tão novo. Eu acho que sim o é. Em qualquer caso, o que é inconfundivelmente novo é que os politicastros atuais, pillados in fraganti com as mãos na massa, nem sequer se esfuercen demasiado em condenar o fenómeno, senão que procurem o apresentar como algo natural e até "moderno" (ou, melhor ainda, "pós-moderno"). Ninguém poderia imaginar a De Gaulle, a Churchill, a De Gasperi, a Adenauer, a Kennedy ou a Eisenhower, e não digamos a Willy Brandt, a Olof Palme, a Bruno Kreisky, a Nye Bevan, a Alvaro Cunhal, a Pietro Nenni, a Palmiro Togliatti ou a Enrico Berlinguer em tão penoso trance. Este fenómeno, que é certamente um fenómeno de época e em modo algum privativo do nosso país, atinge no entanto aqui um nível de desfachatez que se compadece muito bem com o putrílago a vista descoberta em que se converteu desde 2008 o capitalismo oligopólico de amiguetes politicamente promiscuos espanhol. Por isso, me atrevo ao incluir também entre as dimensões importantes da nossa específica crise de regime político. Porque eu duvido muito de que pudesse ver na França ou na Alemanha atuais -por limitar-me aos dois países europeus vizinhos que melhor conheço e sigo- um espetáculo tão bochornoso, tão berlanguesco -tão nosso, vá-, como o oferecido, não por um político de segundo ou de terceiro nível, senão nada menos que pelo secretário geral do PSOE em um video recente que também não te deixa sair do assombro:

Aí pode ver-se como, a conta do rimero de antigos altos cargos socialistas -incluídos exministros do governo Zapatero- que entraram no mundo dos negócios (em grandes empresas privadas às que favorecia antes, quando estavam ao comando da política), o valente e valioso publicista da esquerda Pablo Iglesias Turrión põe em apertos ao peso pesado Alfredo Pérez Rubalcaba, e como este, grogui, contra as cordas e a pique de ser noqueado por quem devia ele ter por um peso mosca, trata de fazer como que nem se imuta: "Eu não acho que seja incompatível militar no Partido Socialista e estar em um alto posto em um conselho de administração [...] A gente deixa a política, passam dois anos de incompatibilidade e a partir daí colocam-se onde podem" (http://www.youtube.com/watch?v=OlDzEP4BxvY).

Essa visível degradação da qualidade, da função e ainda da natureza mesma da representação política a que se assiste no Reino de Espanha tem a sua tradução, claro está, no descrédito dos partidos políticos estabelecidos. Por motivos dos que talvez tenha ocasião de discutir em outro dia, a dinâmica da Transição política redundado em e veio a afiançar  -mais ainda que em outros sítios nos que também se observa o fenómeno, que o é de toda uma época- perversos processos de "seleção inversa" dos dirigentes políticos. Isto é, que não se promove aos "melhores" -aos mais honrados, aos mais prontos, aos mais fiéis lhe intérpretes dos interesses e dos sentimentos dos seus mandantes, dos seus eleitores-, senão que costuma se promover aos "piores", aos mais obedientes, aos mais adocenados ou aos mais logreros: como deixou famosamente dito faz muitos anos Alfonso Guerra com a sua proverbial talento truhanesco, "o que se move, não sai na foto". E isso vale para todo o espetro dos partidos estabelecidos, não só para as duas grandes partidos dinásticos; até para Izquierda Unida. Por isso se vêem agora, a direita e esquerda, tantas tentativas de romper e assaltar o que os seus eleitores e as suas bases sociais percebem como um férreo oligopolio político em que se têm encastillado os tidos por medíocres ou ainda corruptos (não poucas vezes com razão). Quem não se faz a ilusão de não ser um mediocre e de poder o fazer melhor, sobretudo entre os intelectuais politizados e os profissionais da palavra? Podem-no fazer melhor, desde o ponto de vista da direita social, Vidal-Quadras e o seu novo partido Vox que Mariano Rajoy e o PP? Eles acham que sim, e eu desconto como seguro que se têm por mais capazes, por mais puros, por mais espabilados que a atual direção do PP. Diga-se o mesmo de Rosa Díez e a sua españolísima UPyD. Após tudo, também não é tão difícil? O que esses movimentos pela direita tenham, ou não, sucesso em ponto a romper o atual oligopolio da representação política partidária dependerá, entre várias outras coisas cruciais, de que encontrem o apoio necessário entre as "gentes de bem", e entre elas, as mais adinheiradas.

Bem mais importa-me, nem que dizer tem, a regeneração da representação partidária das esquerdas. Essa regeneração não depende das "gentes de bem" nem da aristocracia do dinheiro, folga dizê-lo. Depende -deixa-me ser cursi por uma vez. da vontade e a capacidade de autoorganização das suas bases sociais realmente existentes (não das que possam desiderativamente fantasear-se): isto é, depende, potencialmente, do grosso do povo trabalhador tal e como é, incluídas as suas múltiplas organizações políticas, civis e sindicais realmente existentes, gostemos delas mais ou menos. Não há atalhos "constituintes" diretos aqui. Não há "multidão" à que apelar sem mediações. Há classes sociais histórico-institucionalmente configuradas e decantadas O "criacionismo" em política normativa é tão ilusorio como na biologia evolutiva: a história conta. E pesa: por antipático e amargo que resulte o admitir, estamos forçados a mover peça no meio de uma partida que não começámos nós e que, as mais das vezes, não gostamos nada em de a fase em que nos foi dado a seguir; com um pouco de sorte, e atuando com inteligência, prudência, tacto e diligência, pode-se, nos momentos mais graves e comprometidos -eu acho que o presente o é-, evitar o xeque mate. E seguir a partida? Qualquer militante experimentado sabe-o desde sempre.

Despedimento, pois, este ponto com dois conselhos que vêm aqui muito no ponto, um muito velho (do velho Pablo Iglesias, o fundador do PSOE) e outro muito recente (do velho sábio que segue sendo Noam Chomsky).

Aconselhava Pablo Iglesias, fundador do PSOE:
"Para os cargos públicos, elejam a melhore-los e mais capacitados e vigiem-nos como se fossem canallas. Quando um colega se postula para um cargo sem que o promovam as bases, é motivo suficiente para não o eleger".

Aconselha Noam Chomsky:
"Recordem naqueles dias em que as organizações e os movimentos tinham que se construir desde zero. Nunca se viu que comparecesse um líder brilhante dizendo: "Eu vos vou sacar do pântano". Porque estas coisas constroem-se com grandes grupos capazes de elevar a consciência. O mesmo ocorreu com o movimento antibelicista dos anos 60 do século XX: atingiu o seu ponto culminante quando cristalizaram grandes organizações de massas. Por que Canadá tem um sistema de saúde público? Não foi um presente; conseguiu-o a luta dos sindicatos operários." [http://www.chomsky.info/interviews/200907--.htm.]



II Sobre Cataluña e os telefonemas "tensões territoriais" no Reino


Eu acho, como dito, que os telefonemas "tensões territoriais" são um dos elementos da crise da Monarquia do 78. Acho que a terrível depressão económica em que afundaram ao país umas suicidas políticas económicas procíclicas impostas pela Troika e galana e irresponsavelmente aceitadas de consuno pelo bipartidismo dinástico fez calar na opinião pública a ideia de que o sistema político atual é incapaz de defender interesses nacionais elementares. E acho que, como na longa crise da I Restauração, o descrédito público da capacidade da Monarquia borbónica e das forças mansamente dinásticas para localizar decente e creíblemente ao país em um mundo a cada vez mais perigoso e incerto (incluída a União Europeia, exemplo agora mesmo sem igual da triste verdade de que a outra cara da "globalização" é a "balcanização"), voltou a pôr sobre o tapete o inveterado problema da articulação plurinacional dos povos de Espanha.

Todas as forças da esquerda antifranquista (incluído o PSOE de Suresnes!) eram partidárias do direito de autodeterminação, pelo menos de Catalunya, o País Basco e Galiza. A reivindicação desse direito foi sacrificada na Transição por um motivo de dinâmica político-constitucional muito fácil de entender: a Restauração da monarquia arrebatou a todos os povos de Espanha o direito a decidir sobre a forma de Estado. É que a II Restauração começou negando a todos os povos de Espanha o direito de autodeterminação: aos partidos historicamente republicanos que aceitaram isso (como o PSOE ou o PCE), se lhes permitiu se apresentar às primeiras eleições gerais em junho de 1979; os partidos teimosamente republicanos que não o aceitaram, como Esquerra Republicana de Catalunya ou como Esquerda Republicana (o velho partido de Azaña), ficaram ao começo em fora de jogo político. A Constituição de 1978 (como explicou tantas vezes a quem queria lhe ouvir Jordi Solé-Tura, o palestrante constitucional comunista) não podia de nenhum modo admitir o direito de autodeterminação das "nacionalidades", isto é, das diferentes partes com personalidade nacional própria da Espanha plurinacional, pelo singelo motivo de que esse mesmo direito se tinha negado ao tudo, ao conjunto dos povos de Espanha ao lhes furtar o que, em mudança, se ofereceu, por exemplo, ao povo italiano (contra a resolvida vontade do Vaticano e do Departamento de Estado dos EEUU, dito seja de passagem) depois da Libertação antifascista: um referendo Monarquia/República. [2]

A chamada "crise catalã· é agora importante, na minha opinião, por dois motivos.

Primeiro, porque, com independência do resultado, o só feito de que se produzisse uma consulta popular aos catalães sobre como querem viver politicamente seria o final técnico do regime de 1978, romperia um esquema básico da sua dinâmica constitucional. O exercício do direito de autodeterminação por parte dos catalães poria, ademais, imediatamente sobre a areia política o problema desse direito para o conjunto dos povos de Espanha. A direita basca, mais inteligente e perceptiva com frequência que a direita catalã (eterna herdeira do bobarrão ideologema parroquiano de Cambó: "República! Monarquia! Cataluña!"), pôs recentemente o dedo na llaga por boca de Urkullu. O problema atual seria "o sistema monárquico que rege em Espanha", que é "anacrónico": "Tem que ter capacidade por parte da sociedade, no Estado que seja, para eleger ao chefe do Estado desde o que é a expressão da vontade democrática, porque se não cumpre o seu papel tem que ter algum exercício de controlo, de crítica e de poder de substituição."

E segundo, porque o atual empenho catalão no "direito a decidir" não é uma iniciativa das elites políticas. É, ao invés, um grande movimento popular transversal inequivocamente democrático que, queiras que não, conseguiu impor a sua agenda à política estabelecida. Conta, desde depois, com o indisimulado rejeição de umas elites económicas catalãs totalmente imbricadas no capitalismo oligopólico de amiguetes fraguado na Transição, mas também com o respaldo do grosso das bases sociais e civis do antifranquismo histórico, incluídos todos os sindicatos operários, começando pelos dois maioritários (CCOO e UGT). Em um momento de retrocesso e amedrentamiento popular terríveis -que foi da admirável vontade de combate de rua mostrada pelo povo trabalhador grego nos dois ou três primeiros anos da crise?-; em plena ofensiva deconstituinte das classes rectoras contra todas as conquistas sociais e políticas do antifascismo, em Espanha e em toda a Europa, o movimento catalão a favor do "direito a decidir" é pouco menos que um curiosum a contrapelo da conjuntura.

Falta-lhe, sim, acho eu, à esquerda catalã um apelo mais claro, mais rotundo, ao resto de povos irmãos das Españas. Porque, remedando ao Companys de 1934, muito bem poderia se dizer agora: 

"As forças monarquizantes e fascistas que de um tempo a esta parte se desdisseram das promessas democráticas e sociais que, com a boca pequena, se fizeram na Constituição do 78, conseguiram o seu objetivo e assaltaram o Poder.

"Os partidos e os homens que fizeram públicas manifestações contra as minguadas liberdades da nossa terra, os núcleos políticos que pregam constantemente o ódio e a guerra a Cataluña, constituem hoje o suporte das atuais instituições (...)

"Todas as forças autenticamente republicanas de Espanha e os setores sociais mais avançados, sem distinção nem exceção, têm que se levantar contra a audaz tentativa neoliberal deconstituinte e contra as tentativas de afogar aos povos e aos coletivos que exigem o direito a decidir os seus destinos e resistir às vergonhosas imposições antidemocráticas foráneas às que se têm pregado em Espanha os partidos dinásticos e a pior direita política catalã.

"A Cataluña democrata e republicana não estará ausente do protesto que tem que triunfar por todo o país, nem silenciará a sua voz de solidariedade com os irmãos que nas terras hispânicas lutem determinadamente pela liberdade e o direito.

"Espanhóis: Uma vez mais, a Monarquia revelou-se tragicamente incapaz de conservar a unidade plurinacional dos povos de Espanha. Saibam que nós aspiramos a estabelecer em Catalunya o reduto indestructível das essências da República."

E que quereis? Eu faço-me a ilusão de que uma proclama assim da esquerda catalã ajudaria o seu a acordar a uma esquerda hispânica adoentada por décadas de sumisão à miséria dinástica tardoespanholista.

Notas:
[1] Alocución de Lluís Companys, 6 de outubro de 1934. Recolha em: Manuel Tuñón de Lara, La España del siglo XX (1931-1936), Vol. 2, pág. 442 (Laia, Barcelona, 1977).

[2] A orientação política do Departamento de Estado (Foster Dulles) para a imediata pós-guerra europeia era politicamente ultraconservadora: na França, por exemplo, procurou tirar de em médio a De Gaulle e ao grosso da Resistência antifascista francesa, e entender com o Marechal Pétain e as autoridades capitulacionistas de Vichy.

17/06/2013

Andreu Nin, as ideas dun revolucionario

Andy Durgan. Artigo tirado de En lucha. Anticapitalismo y revolución (aquí). Traducido por À revolta entre a mocidade. Andy Durgan é historiador, membro de En Lucha, da Fundació Andreu Nin e autor do libro El Bloque Obrero y Campesino (1930-1936). Sobre a figura de Andreu Nin temos também escrito os autores deste blogue: "Andreu Nin e a XII AN do BNG 1892-2012" (aqui) e "Sobre o Frente Único e o papel do PSOE na II Restauraçom bourbónica" (aqui).


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Andreu Nin foi unha das figuras máis importantes na historia do marxismo do Estado español. Fai xa case 76 anos asasinárono axentes de estalinismo. O luns 17 de xuño fáiselle un acto de homenaxe no parlamento catalán -o maior acto de recoñecemento de Nin que se fixo até agora.

Con todo tal acto - nun sitio que tanto Nin, como Lenin, designarían como "a cova de ladróns" - non é exento de contradicións.

Hoxe en dia coa maior crise do capitalismo desde a época do propio Nin -os anos 30- as súas ideas e a súa traxectoria son máis relevantes que nunca.

Andreu Nin naceu no Vendrell (Catalunya) en 1892. Mestre de profesión, despois de pasar brevemente polo republicanismo, o seu interese polas cuestións sociais fíxolle ingresar en 1913 no PSOE en Barcelona. Con todo, Nin tampouco se sentiu totalmente cómodo cos socialistas. A súa actitude en defensa dos dereitos nacionais de Catalunya e a súa oposición internacionalista á I Guerra Mundial situouno pronto nunha posición contraria á da dirección do seu partido.

Dous acontecementos contribuirían á radicalización de Nin: a Revolución Rusa e o grande auxe das loitas obreiras en Catalunya. Impresionado pola grande combatividade do anarcosindicalismo, afiliouse á CNT en 1918. A finais de 1919 asistía como delegado ao Congreso do PSOE e ao da CNT, ambos os celebrados en Madrid. Con todo, cando o Congreso socialista se negou a adherirse á Internacional Comunista, Nin rompeu co PSOE e dirixiuse seguidamente ao Congreso da CNT, que si deu o seu apoio á nova Internacional.

A consecuencia da detención dun bo número de dirixentes da CNT, Nin chegou a ser Secretario do Comité Nacional da CNT a principios de 1921. Con el chegaron á dirección outros militantes do sector máis pro-comunista que conseguiría a adhesión da CNT á nova Internacional Sindical Vermella (ISR).

Nin formou parte da delegación da CNT no Primeiro Congreso da ISR en Moscova, mais non puido regresar ao Estado español ao ser arbitrariamente implicado no asasinato do primeiro ministro Eduardo Dato. Nin, entón, púxose a traballar para a ISR. Pronto se afiliou ao Partido Comunista soviético. Foi elixido, ademais, deputado do Soviet de Moscova.

En 1926, aliñouse coa Oposición de esquerda, encabezada por Trotsky, na súa loita contra a burocratización do partido e as formulacións de Stalin. Como consecuencia, Nin foi apartado de todos os seus cargos na ISR. Viviu nunha situación de vixilancia permanente en Moscova e unicamente a súa condición de estranxeiro salvouno de ser detido como moitos oposicionistas.

No verán de 1930, Nin conseguiu marcharse a Barcelona onde a súa capacidade de experto tradutor permitiulle sobrevivir. E así, grazas a Nin, publicáronse en catalán por primeira vez diversas obras clásicas da literatura rusa.

Ao chegar axudou a organizar a oposición trotskista. En marzo do 1932, os trotskistas españois convertéronse nun partido con acenos propios, a Esquerda Comunista de España (ICE), no canto de continuar coa ficción de ser unha "fracción" do PCE. Esta decisión, e o rexeitamento máis tarde de ÍCEA da proposta de Trotsky aos seus seguidores de entrar nos partidos socialistas, significaría a case ruptura co trotskismo internacional.

Mentres tanto, Nin volvera a colaborar estreitamente con Joaquín Maurín, compañeiro desde os anos 20, e agora dirixente do Bloque Obreiro e Campesiño. Despois da derrota do movemento revolucionario de outubro de 1934 abriuse un proceso que terminaría coa fundación do Partido Obreiro de Unificación Marxista (POUM) en setembro de 1935.

O desenvolvemento político do ICE e do BOC durante o últimos catro anos facilitou un achegamento que posibilitaría a unificación das dúas organizacións. Tanto o BOC como a ICE defenderon a centralidade da fronte única contra o fascismo, o internacionalismo e a democracia obreira contra o estalinismo, a autodeterminación para as nacionalidades oprimidas e o mesmo análise da revolución pendente a nivel estatal.

O pensamento de Nin

As formulacións de Nin, grazas á experiencia acumulada na ISR e ao seu coñecemento da obra de Lenin, sitúanse moi por encima do que era o nivel medio da produción teórica marxista española naqueles anos. As súas achegas máis relevantes foron en relación coa natureza da revolución española, a cuestión nacional, o fascismo e os problemas de organización obreira.

Como Maurín, Nin estaba convencido da incapacidade da burguesía para levar a cabo a revolución democrática e resolver os "problemas da terra, das nacionalidades, das relacións entre a Igrexa e o Estado, da transformación do aparello administrativo burocrático do antigo réxime e da loita contra a reacción."

A pequena burguesía, como clase, nunca podería ter a forza para dirixir soa unha revolución. Só a clase traballadora, co apoio dos campesiños e de sectores da pequena burguesía, podería impor un programa verdadeiramente democrático ao mesmo tempo que abrir o camiño cara ao socialismo. A pesar da intensidade das loitas populares durante 1931, unha parte importante das masas continuaba crendo na capacidade do goberno republicano para introducir cambios reais. Expor "reivindicacións democráticas" era, segundo Nin, a mellor forma de debilitar aquelas ilusións, porque os republicanos eran incapaces de satisfacelas.

No pensamento de Nin foi central a súa visión da cuestión nacional, exposta máis claramente no seu libro Os movementos de emancipación nacional, publicado en 1935. Aquí Nin explica o desenvolvemento histórico dos movementos nacionais e reafirma teses centrais do pensamento de Lenin. Reivindica a defensa do dereito de autodeterminación e a importancia da loita pola liberdade nacional entre os obxectivos democráticos da revolución, ao mesmo tempo que condena o internacionalismo abstracto do os anarquistas e socialistas que non distinguían entre o nacionalismo opresor e oprimido. No caso específico de Catalunya, Nin considerou que había que "enarborar a bandeira da República Catalá, co fin de desprazar da dirección do movemento á pequena burguesía indecisa e claudicante."

O crecente perigo do fascismo sería outra das preocupacións centrais de Nin. Xa en 1924, como dirixente da ISR, Nin escribira un das primeiras análises do fascismo italiano. O seu libro As ditaduras dos nosos días, publicado en 1930 en resposta ás críticas do líder da dereita catalá, Francesc Cambó, contra a "ditadura soviética", expón as súas concepcións sobre a natureza do fascismo.

Consideraba que, aínda que non existían no Estado español as condicións para un fascismo de masas típico como en Italia ou Alemaña, cada vez existían máis posibilidades para o desenvolvemento dunha variante local do fascismo, na que o Exército xogaría un papel fundamental. A análise de Nin -e de Maurín- contrastou coa confusión dos anarquistas, que oscilaban entre a desconsideración do perigo fascista e a aplicación do termo fascista a calquera tentativa reaccionaria, e o PCE, que até 1934 tachaba aos socialistas de social-fascistas, incluso considerándoos como a ameaza máis seria para a clase traballadora.

Tanto para derrotar o fascismo como para avanzar até a revolución facía falta a unidade obreira. Por iso, Nin saudou con entusiasmo a creación das Alianzas Obreiras durante 1934. Pero rexeitou a estratexia da Fronte Popular proposta polo Comintern en 1935, porque significaba a subordinación das organizacións obreiras ás da pequena burguesía. Insistiu, como outros marxistas revolucionarios, en que o movemento obreiro, sen descontar a colaboración especifica con outras forzas, debe manter a súa independencia política.

Guerra e revolución

Ao estalar a Guerra Civil, Nin converteuse no máximo dirixente do POUM, dado que Maurín foi sorprendido na zona fascista. Nos poucos meses que quedaban antes de ser asasinado, destacou a súa grande capacidade como axitador e dirixente revolucionario.

Como é ben sabido, o POUM defendía a estreita conexión entre a revolución social e a guerra. Unha posición que pronto tropezou coa dos sectores republicanos, principalmente do PCE-PSUC, que presentaban a guerra como unha loita para defender a democracia e a República. No entanto, como resaltou Nin: "Os obxectivos concretos da revolución democrática foron realizados non pola burguesía liberal, a cal non os puido materializar en cinco anos, senón pola clase traballadora, que os resolveu en poucos días coas armas na man".

A revolución estaba en marcha nas fábricas, no campo e nas frontes, sobre todo en Catalunya e Aragón, mais non existía un poder revolucionario. Un poder capaz non só de consolidar a revolución senón tamén de satisfacer as reivindicacións da pequena burguesía e de superar os crecentes problemas económicos e militares con que se enfrontaba a República.

Para Nin non existiu o "duplo poder" como insistían os trotskistas, senón unha fragmentación do poder. Para estabelecer un novo poder revolucionario era imprescindíbel a colaboración dos anarcosindicalistas. Nin recoñecía a grande forza da CNT e a FAl, "o seu formidábel instinto de clase" que os levou a unha "enérxica e audaz acción revolucionaria". "Nós", declarou Nin en abril de 1937, "estamos mil veces máis preto dos militantes da FAI, que non son marxistas, mais que son revolucionarios, que dos do PSUC, que se denominan marxistas e non son revolucionarios."

O problema era que a CNT se opuña a calquera tipo de novo estado e, así, a súa revolución limitábase a tomar o control das fábricas e a terra e a formar milicias sen ningún tipo de mando único. A pesar de todos os seus esforzos para persuadir á dirección anarquista a cambiar as súas posicións, o POUM viuse obrigado máis dunha vez a seguir á CNT. Este foi o caso ao estabelecerse en setembro de 1936 o Consell da Generalitat formado por todas as organizacións antifascistas.

O feito de que o programa económico do goberno catalán fose o mesmo que Nin escribira poucas semanas antes para o Consell d'Economía, fixo crer ao POUM que o peso das forzas revolucionarias continuaría vixente.

Nin, en representación do POUM, foi nomeado Conseller de Justícia e empezou a pór en práctica unha profunda reforma do sistema xurídico. O seu obxectivo era, segundo as súas propias palabras, "legalizar e recoller o que fixeron as masas traballadoras na rúa". Entre outras cousas, Nin estabeleceu os Tribunais Revolucionarios, introduciu os plenos dereitos civís para a mocidade, un sistema libre de "casamento civil" e legalizou o aborto.

Porén a obra reformadora de Nin na Consellería de Justícia non durou moito. Xa entón as presións para acabar cos experimentos revolucionarios ían en aumento. En decembro, debido á presión do PSUC e dos representantes do goberno soviético, o POUM era excluído da Generalitat.

Nin sinalaba que "a eliminación do POUM do Goberno da Generalitat ten un profundo significado político [...]. Quéresenos eliminar (da Generalitat) porque somos fieis á revolución proletaria. Porque defendemos intransigentemente as conquistas da revolución."

Contrarrevolución

O POUM converteuse entón no primeiro branco das forzas que querían acabar coa revolución social en Catalunya. A súa posición minoritaria deixábao nunha situación moito máis vulnerábel que a CNT.

Había outra razón pola cal o POUM estaba a piques de ser a primeira vítima da contrarrevolución: a súa oposición firme á política do Comintern e as súas protestas ante a liquidación da vella garda bolxevique na URSS. A campaña internacional do Comintern sobre os supostos "crimes" dos "trotskistas" como "axentes do fascismo" proporcionaba o contexto para denunciar ao POUM.

Nin, como dirixente do POUM e vello inimigo da burocracia estalinista, foi sistematicamente difamado. O diario da División Marx, do PSUC, por exemplo, declaraba que Nin nunca traballara porque sempre "había cobrado de Hitler?. O POUM non se consideraba "inimigo da URSS". Nin aprobou con entusiasmo a chegada da axuda militar rusa, aínda que engadiu: "esta axuda tiña que ter vido, como diciamos nós, hai máis de dous meses, e a situación actual sería moi diferente". Para o POUM, a mellor maneira de defender á URSS era estender a revolución e acabar así co seu illamento do primeiro Estado obreiro.

O POUM tampouco era trotskista; aínda que sempre defendese o papel de Trotsky como dirixente revolucionario. De feito, o vello bolxevique e os seus seguidores someteron ao POUM a unhas críticas moi rigorosas durante o transcurso da guerra.

A ofensiva contra a revolución culminou cos chamados "Feitos de maio" en Barcelona. Como explicou Nin, o POUM prestou a súa "solidariedade activa ao movemento, aínda sabendo de antemán que non podía triunfar". A capitulación da CNT en maio 1937, deixou o POUM nunha posición moi vulnerábel. A campaña estalinista contra Nin e o seu partido intensificouse, culminando na súa ilegalización, acusado de organizar o putsch de maio e de ser unha organización infiltrada por espías do inimigo.

O 16 de xuño de 1937 presentáronse na sede central do POUM axentes policiais enviados desde Madrid, e detiveron a Nin. En compañía de axentes da policía secreta soviética, foi levado finalmente a unha prisión privada de Alcalá de Henares. Alí, despois de ser torturado nun intento de facerlle "confesar" os seus "crimes", foi asasinado. Pola súa banda, a prensa comunista oficial publicou noticias sobre "a fuga do bandido Nin coa axuda dun comando fascista". O asasinato de Nin causou unha grande conmoción, e a consecuente campaña internacional librou, seguramente, aos outros dirixentes do POUM dun final semellante.

A morte de Nin converteuse nun símbolo da derrota da Revolución Española, derrota que acabou non soamente coas aspiracións de centos de miles de traballadores e traballadoras, senón que, en último termo, abriu o camiño á vitoria fascista.