25/03/2014

Adolfo Suárez: outra necrológica possível (e necessária)

Sergio Gálvez Biesca. Artigo tirado de Rebelión.org (aqui) e traduzido por À revolta entre a mocidade. Gálvez Biesca é doutor em História Contemporânea. Negrito do original.


Onde a maior parte das biografias sobre Suárez, e especialmente aquelas narrações institucionais sobre a transição, flaqueiam é à hora de adentrar-nos no papel que jogou o ex-presidente no processo de reestruturação do modelo capitalista espanhol bem como na sistémica repressão dos movimentos contestatários no começo da Transição.

Faz já muito tempo que a biografia oficial e oficializante de Adolfo Suárez González, Duque de Suárez (1932-2014), está escrita. Inclusive, sem dúvida, as necrológicas que agora se estão a publicar com apressura levavam já meses, anos, guardadas na "frigorífico" dos grandes meios de comunicação. Assim funciona a "imprensa livre".

A grande representação do esperado e esperável funcionou à perfeição desde o primeiro momento em que um dos seus filhos, Adolfo Suárez Illana, comunicou a notícia do "iminente" desenlace. A reação foi imediata. O aparelho propagandista não demorou em se pôr em marcha. Imagens conhecidas, esperadas, locais comuns onde os tenha, começaram a difundir à velocidade à que hoje nos têm acostumados. Sim, os porta-vozes das políticas da memória oficial/institucional reagiram imediatamente. Não faltou detalhe na posta em cena.

Mas essa mesma representação que faz parte da escenação desse relato linear, uniforme, acrítico, que constitui a substância essencial da narração canónica da transição pós-tfranquista -como discurso que todo o impregnou para ao menos três gerações de cidadãos-, soava a velha, a caduca. Embora o esperável "babeu" dos biógrafos oficiais de Suárez era de supor, chegou-se a tão altas cumes, nesta ocasião, que não deixa, ao mesmo tempo, de representar o final previsível e próximo deste mesmo relato agonizante. Já o disse Beltrolt Brecht quando afirmou que a "crise produz-se quando o velho não acaba de morrer e quando o novo não acaba de nascer". Nada novo se disse, nem se pensava dizer, a respeito do previsível falecimento de Suárez. Nestes eventos mediáticos-propagandísticos a crítica é supérflua. E, por suposto, não se desaproveitou tão magnífica ocasião para enfatizar os dogmas daquela adoçada transição: que se foi modica, que se foi pacífica, que se foi extrapolável... Sem esquecer-nos de outros soados sucessos dessa mesma musiquinha: reconciliação, conciliação... Todo tem um aroma tão ranço!

E pese a tudo, a trajetória pessoal de Adolfo Suárez é tão complexa, tão poliédrica, que deveria ser objeto de uma análise rigorosa e sossegado. Pois falamos não só da imagem projetada, ou pretensamente projetada, senão de algo mais relevante em termos históricos: a origem da teórica legitimidade do regime político-económico atual. Um assunto demasiado importante para ser cautos ou quanto menos estar atentos ante as habituais mistificações. De facto, rastrear historicamente na biografia do presidente Suárez, para além desses mesmos locais comuns, pode permitir projetar não só o que pôde ser ou não ser a transição -feição que se escapa aos historiadores- senão também, antes de mais nada, ajudar a internar por outros locais não habituais -isso sim, a cada vez mais habituais- que refletem as luzes e sombras da outra transição à democracia, como um discurso que a médio-longo prazo substituirá, mediante reforma ou rutura, ao atual. Nesta breve necrológica, ao menos, gostaríamos de destacar três questões que nunca ressaltar-se-ão devidamente nestes dias de luto nacional.

A metamorfose e o modelo económico


A primeira questão sobre a que caberia discutir é a própria conversão até a metamorfose total do Suárez franquista a democrata convencido em um tempo recorde. Um de outros tantos casos "milagrosos". E não é baladí o anterior. Não esperem ouvir nem menos ler vozes críticas, nestes dias de tristeza nacional, daqueles biógrafos já não críticos -e aqui o exemplo, por antonomasia, é Gregorio Morán- senão dos seus declarados inimigos que os teve e seguem existindo com mais ou menos fundadas razões. Nada vai perturbar a posta em cena. Não se está aqui ante um julgamento ético ou moral, senão simplesmente histórico. Pois resulta que internar na trajetória biográfica de Suárez -até onde o permite a muito escassa documentação disponível, que é outra questão sobre a que caberia discernir longamente- desde a sua infância, a sua apressada escalada pelos centros de poder franquistas -sem nenhum tipo de escrúpulo ou má consciência incluído corrupções várias de diferente índole- até ser nomeado presidente do segundo Governo da Monarquia (julho de 1976), conduz-nos à mesma essência dos "limites infranqueáveis" da chamada transição à democracia.

Da mesma forma, dita senda vital reflete-nos como as ingeniaram as forças vivas do franquismo para que todo mudasse sem que nada mudasse. Toda uma obra de engenharia político-mediática sem precedentes. Com uma nota acrescentada, constitui o melhor caminho para conhecer ao Suárez político a 100% em onde os meios justificaram os fins. Ou dito de outra forma, Suárez foi um político, antes de mais nada, pragmático. São tantos os exemplos que poder-se-iam expor de como se construiu aquela biografia começando por como soube sacar o devido proveito da tragédia da urbanização dos Los Angeles de San Rafael em Segóvia, em junho de 1969. Como em toda a biografia de político de primeiro nível que se aprecie, o triângulo de corrupção-especulação-impunidade está presente... E com tudo, é verdadeiro, é verificável em termos históricos -para além dessa invenção do passado da que nos previu Hobsbawm- que Suárez rematou por acreditar no seu papel de salvador da Transição, da Pátria. Por convicção ou por pragmatismo -a gosto do leitor- não poder-se-lhe-á achacar os seus não poucos sacrifícios políticos mas também pessoais em procura desse "fim comum" de que, ao menos, se superasse a ditadura franquista face a avançar a um sistema democrático de mercado com todas as suas limitações. Que difícil tarefa a de separar neste caso o individual do coletivo!

Mas onde a maior parte das biografias sobre Suárez e especialmente aquelas narrações institucionais sobre a transição flaqueaim, é à hora de adentrar-nos -em ocasiões até o ponto de tratar-nos como súbditos antes que cidadãos- no papel que jogou o nosso protagonista no processo de reestruturação do modelo capitalista espanhol. É hora já de adentrar-nos em uma história de classe deste tempo histórico. A mistificação, o simples adoçamento mais elaborado ou burdo, sobre a necessidade imponderável dos Pactos da Moncloa (outubro de 1977) foi tal que esvaeceu quase por completo as outras vias de desenvolvimento que se puderam chegar a dar. Não só foram os Pactos da Moncloa -sem adentrar-nos em outros assuntos tão espinhosos como a Lei de Amnistia também de outubro de 1977- senão toda uma plêiade de regulamentos a posteriori que instrumentalizaram a crise económica dos setenta, para nos integrar na nova divisão internacional do mercado com as consequências do todo sabidas.

Mas não termina aqui a possível crítica histórica. Fora por convencimento ou por pragmatismo, o projeto político-económico que encarnou a UCD e o mesmo Suárez durante a primeira legislatura (1977-1979) com rasgos, em ocasiões, netamente progressistas ficariam eliminados muito cedo. Sequestrada económica e orçamentariamente UCD pela CEOE e outros centros de poder financeiros -como relatou o pouco suspeito jornalista Mariano Guindal em El declive de los dioses- o seu programa de atuação ficou prontamente limitado em feições de não pouca transcendência. Um sequestro mediante vias formais ou forçadas que, em qualquer caso, não modifica o resultado final.

Açoite dos movimentos operários e sociais

Agora bem, se há um local pelo que os biógrafos e os relatos oficializantes passaram de longo, é o relativo à obra e venturas de Adolfo Suárez no seu papel central na repressão, vigilância e espionagem contra o movimento operário e os então chamados "novos" movimentos sociais. Existe já a suficiente evidência empírica e bibliografia consolidada -pese ao bloqueio sistémico no acesso e consulta à documentação histórica deste tempo- para falar nestes termos que tão mau casam com essas adjetivas grandiloquências de reconciliação, consenso, pacífica sempre que aparece o vocábulo "Transição". E falando de leituras malditas -sempre ignoradas nestes dias- recordamos que a dia de hoje nenhum pesquisador ou especialista pôs em questão os dados no seu dia esgrimidos por Alfredo Grimaldos -La sombra de Franco en la Transição-  ou Mariano Sánchez -La transición sangrienta- e de outros tantos pesquisadores que nos dedicámos à tarefa. Ninguém recordará, em algum dia, a memória dos estudantes José Luis Martínez e Emilio Montanheiro metralhados um 13 de novembro de 1979 pelas forças da "ordem pública" em uma manifestação de estudantes e trabalhadores contra o Estatuto dos Trabalhadores? E o anterior não deixa de ser um caso isolado entre as centenas que pudessem ser expostos, em um tempo histórico em que a violência política institucional se combinou com o amparo por parte dos organismos estatais no referido a uma estendida política de terrorismo de Estado.

Não estamos a falar somente de que, por exemplo, os sindicatos maioritários então -desde CCOO, inclusive a renascida CNT ou até UGT ou outros tantos casos- fossem vigiados, submetidos a todo o tipo de espionagem ou de infiltrações, senão é que se pode afirmar que existiu toda uma política de controlo e repressão contra o movimento operário. Não valem aqui nem os argumentos da luta anti-terrorista de ETA nem outros tantos locais comuns já citados. Nem sequer cabe falar aqui dessa sempre citada correlação de forças. Está a falar-se, singelamente, de uma política institucional -e supomos que o presidente Suárez algo saberia- em onde tão só no ano 1979 -em que se deu um dos últimos repontes da luta de classes na Espanha contemporânea, atingindo-se niveles recorde de conflituosidade operária- empregaram-se todos os meios com o fim de derrotar a quem sempre se considerou o inimigo principal: o movimento operário. Um episódio, entre outros tantos revisáveis, com nomes, dados e cifras. Não são suspicácias nem críticas não fundamentadas, senão facto reais, tão reais como o facto de que nunca Suárez teve vontade real de questionar nem menos tocar o aparelho dos grupos terroristas de extrema direita quando não se lhes amparou por omissão ou ação... Que difícil resulta sempre referir à violência quando quem a exerce é o Estado!

Estes pequenos episódios aqui narrados, e outros tantos que se puderam expor -desde os porquês reais da legalização do PCE ou até o nodo fundacional do sempre citado frustrado Golpe de Estado do 23 de fevereiro de 1981- resultam e resultarão sempre locais incómodos não de cor-de-rosa senão de história nos relatos hagiográficos de Suárez. Deste modo, nada novo se vai dizer como conclusão: o trabalho dos historiadores profissionais -sim aqueles com uma teoria e um método científico que rastreiam nesses sempre incómodos papéis que nem sequer Martín Vila pôde destruir- enfrentam-se a um primeiro grande repto de enormes dimensões: desmitificar a Adolfo Suárez como pessoa e político.

Não face a uma crítica estrutural e frontal. Não. O nosso labor e trabalho é outro, pois do que se trata é de reconstruir essa mesma biografia pessoal e política desde as bases do conhecimento histórico. Um repto que se aparece em uma perspetiva a médio-longo prazo de muito complicada realização. Trata-se já não de confrontar, questionar, a representação heroico-institucional do binómio transição-Suárez, com Museu ad hoc, senão de algo mais substancial: Onde estão os papéis do arquivo pessoal mas também institucional do primeiro Presidente da Transição? Onde estão os papéis da UCD ou inclusive dos CDS? Por quê é que ainda hoje segue fechado o acesso e consulta a documentação da Brigada Político-Social, do Corpo Nacional de Polícia, da Policia civil, os diferentes arquivos militares e dos centros de inteligência antes e após essa "modica transição"? E aqui está o possível ponto de arranque para que os historiadores possamos no seu dia realizar uma biografia política e social de Suárez em condições e com todas as garantias. Enquanto, o mito, a memória institucional/oficial prevalecerá no próximo imediato. E com ela o hoje a cada vez mais questionado "modelo espanhol de impunidade".
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