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25/03/2014

Adolfo Suárez: outra necrológica possível (e necessária)

Sergio Gálvez Biesca. Artigo tirado de Rebelión.org (aqui) e traduzido por À revolta entre a mocidade. Gálvez Biesca é doutor em História Contemporânea. Negrito do original.


Onde a maior parte das biografias sobre Suárez, e especialmente aquelas narrações institucionais sobre a transição, flaqueiam é à hora de adentrar-nos no papel que jogou o ex-presidente no processo de reestruturação do modelo capitalista espanhol bem como na sistémica repressão dos movimentos contestatários no começo da Transição.

Faz já muito tempo que a biografia oficial e oficializante de Adolfo Suárez González, Duque de Suárez (1932-2014), está escrita. Inclusive, sem dúvida, as necrológicas que agora se estão a publicar com apressura levavam já meses, anos, guardadas na "frigorífico" dos grandes meios de comunicação. Assim funciona a "imprensa livre".

A grande representação do esperado e esperável funcionou à perfeição desde o primeiro momento em que um dos seus filhos, Adolfo Suárez Illana, comunicou a notícia do "iminente" desenlace. A reação foi imediata. O aparelho propagandista não demorou em se pôr em marcha. Imagens conhecidas, esperadas, locais comuns onde os tenha, começaram a difundir à velocidade à que hoje nos têm acostumados. Sim, os porta-vozes das políticas da memória oficial/institucional reagiram imediatamente. Não faltou detalhe na posta em cena.

Mas essa mesma representação que faz parte da escenação desse relato linear, uniforme, acrítico, que constitui a substância essencial da narração canónica da transição pós-tfranquista -como discurso que todo o impregnou para ao menos três gerações de cidadãos-, soava a velha, a caduca. Embora o esperável "babeu" dos biógrafos oficiais de Suárez era de supor, chegou-se a tão altas cumes, nesta ocasião, que não deixa, ao mesmo tempo, de representar o final previsível e próximo deste mesmo relato agonizante. Já o disse Beltrolt Brecht quando afirmou que a "crise produz-se quando o velho não acaba de morrer e quando o novo não acaba de nascer". Nada novo se disse, nem se pensava dizer, a respeito do previsível falecimento de Suárez. Nestes eventos mediáticos-propagandísticos a crítica é supérflua. E, por suposto, não se desaproveitou tão magnífica ocasião para enfatizar os dogmas daquela adoçada transição: que se foi modica, que se foi pacífica, que se foi extrapolável... Sem esquecer-nos de outros soados sucessos dessa mesma musiquinha: reconciliação, conciliação... Todo tem um aroma tão ranço!

E pese a tudo, a trajetória pessoal de Adolfo Suárez é tão complexa, tão poliédrica, que deveria ser objeto de uma análise rigorosa e sossegado. Pois falamos não só da imagem projetada, ou pretensamente projetada, senão de algo mais relevante em termos históricos: a origem da teórica legitimidade do regime político-económico atual. Um assunto demasiado importante para ser cautos ou quanto menos estar atentos ante as habituais mistificações. De facto, rastrear historicamente na biografia do presidente Suárez, para além desses mesmos locais comuns, pode permitir projetar não só o que pôde ser ou não ser a transição -feição que se escapa aos historiadores- senão também, antes de mais nada, ajudar a internar por outros locais não habituais -isso sim, a cada vez mais habituais- que refletem as luzes e sombras da outra transição à democracia, como um discurso que a médio-longo prazo substituirá, mediante reforma ou rutura, ao atual. Nesta breve necrológica, ao menos, gostaríamos de destacar três questões que nunca ressaltar-se-ão devidamente nestes dias de luto nacional.

A metamorfose e o modelo económico


A primeira questão sobre a que caberia discutir é a própria conversão até a metamorfose total do Suárez franquista a democrata convencido em um tempo recorde. Um de outros tantos casos "milagrosos". E não é baladí o anterior. Não esperem ouvir nem menos ler vozes críticas, nestes dias de tristeza nacional, daqueles biógrafos já não críticos -e aqui o exemplo, por antonomasia, é Gregorio Morán- senão dos seus declarados inimigos que os teve e seguem existindo com mais ou menos fundadas razões. Nada vai perturbar a posta em cena. Não se está aqui ante um julgamento ético ou moral, senão simplesmente histórico. Pois resulta que internar na trajetória biográfica de Suárez -até onde o permite a muito escassa documentação disponível, que é outra questão sobre a que caberia discernir longamente- desde a sua infância, a sua apressada escalada pelos centros de poder franquistas -sem nenhum tipo de escrúpulo ou má consciência incluído corrupções várias de diferente índole- até ser nomeado presidente do segundo Governo da Monarquia (julho de 1976), conduz-nos à mesma essência dos "limites infranqueáveis" da chamada transição à democracia.

Da mesma forma, dita senda vital reflete-nos como as ingeniaram as forças vivas do franquismo para que todo mudasse sem que nada mudasse. Toda uma obra de engenharia político-mediática sem precedentes. Com uma nota acrescentada, constitui o melhor caminho para conhecer ao Suárez político a 100% em onde os meios justificaram os fins. Ou dito de outra forma, Suárez foi um político, antes de mais nada, pragmático. São tantos os exemplos que poder-se-iam expor de como se construiu aquela biografia começando por como soube sacar o devido proveito da tragédia da urbanização dos Los Angeles de San Rafael em Segóvia, em junho de 1969. Como em toda a biografia de político de primeiro nível que se aprecie, o triângulo de corrupção-especulação-impunidade está presente... E com tudo, é verdadeiro, é verificável em termos históricos -para além dessa invenção do passado da que nos previu Hobsbawm- que Suárez rematou por acreditar no seu papel de salvador da Transição, da Pátria. Por convicção ou por pragmatismo -a gosto do leitor- não poder-se-lhe-á achacar os seus não poucos sacrifícios políticos mas também pessoais em procura desse "fim comum" de que, ao menos, se superasse a ditadura franquista face a avançar a um sistema democrático de mercado com todas as suas limitações. Que difícil tarefa a de separar neste caso o individual do coletivo!

Mas onde a maior parte das biografias sobre Suárez e especialmente aquelas narrações institucionais sobre a transição flaqueaim, é à hora de adentrar-nos -em ocasiões até o ponto de tratar-nos como súbditos antes que cidadãos- no papel que jogou o nosso protagonista no processo de reestruturação do modelo capitalista espanhol. É hora já de adentrar-nos em uma história de classe deste tempo histórico. A mistificação, o simples adoçamento mais elaborado ou burdo, sobre a necessidade imponderável dos Pactos da Moncloa (outubro de 1977) foi tal que esvaeceu quase por completo as outras vias de desenvolvimento que se puderam chegar a dar. Não só foram os Pactos da Moncloa -sem adentrar-nos em outros assuntos tão espinhosos como a Lei de Amnistia também de outubro de 1977- senão toda uma plêiade de regulamentos a posteriori que instrumentalizaram a crise económica dos setenta, para nos integrar na nova divisão internacional do mercado com as consequências do todo sabidas.

Mas não termina aqui a possível crítica histórica. Fora por convencimento ou por pragmatismo, o projeto político-económico que encarnou a UCD e o mesmo Suárez durante a primeira legislatura (1977-1979) com rasgos, em ocasiões, netamente progressistas ficariam eliminados muito cedo. Sequestrada económica e orçamentariamente UCD pela CEOE e outros centros de poder financeiros -como relatou o pouco suspeito jornalista Mariano Guindal em El declive de los dioses- o seu programa de atuação ficou prontamente limitado em feições de não pouca transcendência. Um sequestro mediante vias formais ou forçadas que, em qualquer caso, não modifica o resultado final.

Açoite dos movimentos operários e sociais

Agora bem, se há um local pelo que os biógrafos e os relatos oficializantes passaram de longo, é o relativo à obra e venturas de Adolfo Suárez no seu papel central na repressão, vigilância e espionagem contra o movimento operário e os então chamados "novos" movimentos sociais. Existe já a suficiente evidência empírica e bibliografia consolidada -pese ao bloqueio sistémico no acesso e consulta à documentação histórica deste tempo- para falar nestes termos que tão mau casam com essas adjetivas grandiloquências de reconciliação, consenso, pacífica sempre que aparece o vocábulo "Transição". E falando de leituras malditas -sempre ignoradas nestes dias- recordamos que a dia de hoje nenhum pesquisador ou especialista pôs em questão os dados no seu dia esgrimidos por Alfredo Grimaldos -La sombra de Franco en la Transição-  ou Mariano Sánchez -La transición sangrienta- e de outros tantos pesquisadores que nos dedicámos à tarefa. Ninguém recordará, em algum dia, a memória dos estudantes José Luis Martínez e Emilio Montanheiro metralhados um 13 de novembro de 1979 pelas forças da "ordem pública" em uma manifestação de estudantes e trabalhadores contra o Estatuto dos Trabalhadores? E o anterior não deixa de ser um caso isolado entre as centenas que pudessem ser expostos, em um tempo histórico em que a violência política institucional se combinou com o amparo por parte dos organismos estatais no referido a uma estendida política de terrorismo de Estado.

Não estamos a falar somente de que, por exemplo, os sindicatos maioritários então -desde CCOO, inclusive a renascida CNT ou até UGT ou outros tantos casos- fossem vigiados, submetidos a todo o tipo de espionagem ou de infiltrações, senão é que se pode afirmar que existiu toda uma política de controlo e repressão contra o movimento operário. Não valem aqui nem os argumentos da luta anti-terrorista de ETA nem outros tantos locais comuns já citados. Nem sequer cabe falar aqui dessa sempre citada correlação de forças. Está a falar-se, singelamente, de uma política institucional -e supomos que o presidente Suárez algo saberia- em onde tão só no ano 1979 -em que se deu um dos últimos repontes da luta de classes na Espanha contemporânea, atingindo-se niveles recorde de conflituosidade operária- empregaram-se todos os meios com o fim de derrotar a quem sempre se considerou o inimigo principal: o movimento operário. Um episódio, entre outros tantos revisáveis, com nomes, dados e cifras. Não são suspicácias nem críticas não fundamentadas, senão facto reais, tão reais como o facto de que nunca Suárez teve vontade real de questionar nem menos tocar o aparelho dos grupos terroristas de extrema direita quando não se lhes amparou por omissão ou ação... Que difícil resulta sempre referir à violência quando quem a exerce é o Estado!

Estes pequenos episódios aqui narrados, e outros tantos que se puderam expor -desde os porquês reais da legalização do PCE ou até o nodo fundacional do sempre citado frustrado Golpe de Estado do 23 de fevereiro de 1981- resultam e resultarão sempre locais incómodos não de cor-de-rosa senão de história nos relatos hagiográficos de Suárez. Deste modo, nada novo se vai dizer como conclusão: o trabalho dos historiadores profissionais -sim aqueles com uma teoria e um método científico que rastreiam nesses sempre incómodos papéis que nem sequer Martín Vila pôde destruir- enfrentam-se a um primeiro grande repto de enormes dimensões: desmitificar a Adolfo Suárez como pessoa e político.

Não face a uma crítica estrutural e frontal. Não. O nosso labor e trabalho é outro, pois do que se trata é de reconstruir essa mesma biografia pessoal e política desde as bases do conhecimento histórico. Um repto que se aparece em uma perspetiva a médio-longo prazo de muito complicada realização. Trata-se já não de confrontar, questionar, a representação heroico-institucional do binómio transição-Suárez, com Museu ad hoc, senão de algo mais substancial: Onde estão os papéis do arquivo pessoal mas também institucional do primeiro Presidente da Transição? Onde estão os papéis da UCD ou inclusive dos CDS? Por quê é que ainda hoje segue fechado o acesso e consulta a documentação da Brigada Político-Social, do Corpo Nacional de Polícia, da Policia civil, os diferentes arquivos militares e dos centros de inteligência antes e após essa "modica transição"? E aqui está o possível ponto de arranque para que os historiadores possamos no seu dia realizar uma biografia política e social de Suárez em condições e com todas as garantias. Enquanto, o mito, a memória institucional/oficial prevalecerá no próximo imediato. E com ela o hoje a cada vez mais questionado "modelo espanhol de impunidade".

31/10/2011

Teses sobre ETA

Iñaki Gil de San Vicente. Artigo tirado de Galizalivre (aqui).



«O marxismo, a menos dogmática e a menos formal das doutrinas, em cujo enquadramento de generalizações ressaltam a carne viva e o sangue quente das lutas sociais e de suas paixões.» Trotsky 1915

«É verdade que prever significa unicamente ver claro o presente e o passado enquanto movimento. Ver claro: isto é, identificar com exatidão os elementos fundamentais e permanentes do processo. Mas é absurdo pensar em uma previsão puramente "objetiva" (...) Só aquele que quer com força identifica os elementos necessários para a realização de sua vontade.» Gramsci 1924

«Eles lutaram, fracassaram, lutaram de novo, fracassaram de novo, voltaram a lutar; acumularam uma experiência de 109 anos, uma experiência de centenas de lutas, grandes e pequenas, militares e políticas, econômicas e culturais, com ou sem derramamento de sangue, e só então obtiveram a vitória fundamental de hoje. Estas são as condições morais, sem as quais a revolução não poderia triunfar.» Mao 1949

1. O comunicado da ETA da passada quinta-feira 20 de outubro, que anunciava a cessação definitiva de sua acionar armado, confirma de novo que a ETA é uma organização política clandestina que por circunstâncias óbvias se viu na necessidade de recorrer à violência defensiva tática, à luta armada. Que a ETA é uma organização política foi reconhecido por comentadores espanhóis e pelos sucessivos governos do Estado espanhol que conversaram e negociaram com ela. Reconheceu-se também que sua influência política não desapareceu nos momentos de cessar-fogo ou de qualquer outra forma de cessação transitória de sua ação armada, plasmando-se doutra maneira, com outras expressões. A natureza política da ETA inscreve-se de pleno dentro da tradição marxista que sempre fez questão da dialética entre os objetivos históricos, a estratégia adequada para os atingir em cada fase e contexto de luta, e as adequações táticas que devem ser implementadas dentro da estratégia segundo variam as conjunturas e circunstâncias. Não só a longa história da ETA, como também a curta história prévia de EKIN e inclusive, apressando a análise, o prolongado processo de lenta confluência intermitente e gorada pelas ditaduras de 1923-1931 e de 1936 em adiante, entre diferentes correntes marxistas, socialistas, nacionalistas e independentistas bascas, este processo decisivo para entender o surgimento e a força de massas da ETA também se realizou segundo a dialética entre os fins e os meios, sempre dentro das mudanças forçadas pelas inovações repressivas dos sucessivos governos espanhóis.

2. Não faz falta insistir que em semelhante interação permanente de forças, a casualidade joga um papel maior ou menor dependendo de menor ou maior acerto estratégico e teórico da esquerda revolucionária. Neste sentido, é inegável a capacidade do «fenômeno ETA» para superar todas as adversidades e contingências. Não podemos entender esta permanência se utilizarmos definições mecânicas, não dialéticas. Há que entender a ETA como uma dupla realidade: por um lado, a ETA «quando muito mais que a ETA», isto é, como um complexo e intrincado movimento de (re)construção nacional basca que se sustenta apesar de tudo desde finais da década de 1950 e, por outro lado, «como muitas ETA» que vão aparecendo e desaparecendo no tempo, mas mantendo uma continuidade coerente baseada na luta por uns objetivos irrenunciáveis e elementares. O que liga as duas componentes desta realidade histórica é a inquestionável legitimidade do independentismo basco, sustentada apesar de todas as repressões, enganos e cisões sofridas. Apressando um pouco, poderíamos dizer que a ETA é como o rio de Heráclito que é e não é, que permanece apesar de que sempre muda. E esta inegável realidade histórica é incomprensível para o mecanicismo formalista do pensamento dominante.

3. Um pensamento dominante que de partida e durante anos afirmou a derrota imediata e definitiva extinção da ETA; que mais tarde afirmou que seu desaparecimento estava à beira de se produzir, e que agora sustenta triunfante que por fim a ETA foi derrotada. O rio que sempre flui, que nunca é o mesmo mas que permanece, que está e não está, segue rompendo os esquemas mentais dominantes, ao conseguir a ETA ultrapassar os sucessivos sistemas repressivos espanhóis, com suas doutrinas, estratégias e táticas, ultrapassagem perceptível a médio e longo prazo, mas não isenta de erros, estancamentos e momentos de crises. O Estado é o centralizador estratégico das táticas repressivas para garantir os objetivos do capital: seu lucro alargado. Quando é um Estado nacionalmente opressor, a centralidade estratégica das repressões adquire mais importância que quando não oprime outro ou outros povos. Na primeira situação, a espanhola e a francesa, a centralidade repressiva é muito superior à segunda, embora ela não negue a existência de repressões concretas que têm autonomia relativa, tanta autonomia aparente que muitos intelectuais terminam achando que o Estado desapareceu. Mas a realidade é teimosa e sempre termina se impondo, sobretudo quando se constata o avanço da luta independentista dos povos e quando a crise do capital obriga o Estado a intervir cruamente.

4. A evolução da ETA tem estado influenciada, além de pelaa repressão, também pelas duas grandes crises econômicas do capital, a iniciada em 1968-1973 e a iniciada em 2007, e pela crise da esquerda internacional agudizada pela contraofensiva neoliberal exacerbada desde a década de 1980. Foi uma influência direta no quíntuplo sentido de, um, o golpe à vertebração operário-fabril industrial clássico do povo trabalhador durante a falsa «reconversão industrial»; dois, a derrota das lutas armadas no centro do imperialismo e sua evolução nos povos oprimidos; três, a implosão da URSS e de seu bloco com o desprestígio do seu «socialismo»; quatro, os efeitos sociais do boom financeiro e imobiliário, do dinheiro barato, do consumo fácil, das modas pós-modernas e pós-marxistas e individualistas, do apoliticismo 'bacana', etc.; e, cinco, a surpreendente irrupção da crise atual em 2007, com sua gravidade ainda não assimilada teórica e politicamente em todas suas consequências por parte da esquerda abertzale, apesar das três greves gerais e da áspera e crescente luta de classes que se livra em nossa nação.

5. Mas além dos desgastes produzidos pela repressão sempre atualizada e pelos efeitos das crises, também pressionaram sobre a ETA os mecanismos de alienação e absorção inerentes à ordem capitalista, enquanto tal, sua «coerção surda» e a capacidade deste sistema para investir e ocultar a estrutura exploradora, apresentando as causas como efeitos e estes como aquelas. O capital é um sistema de relacionamentos sociais de exploração que se invisibiliza a si mesmo e que se reforça a si mesmo sumindo o trabalho na sua egoísta e individualista lógica do máximo lucro quanto antes e sem olhar a consequências. Conquanto a consciência nacional de povo oprimido, que sabe e sofre o colaboracionismo da sua burguesia com o Estado, atua como relativo contrapeso do fetichismo, sendo isto verdade, também não há que sobrevalorizar a sua efetividade emancipadora. Os três grandes problemas que afetam a ETA e a esquerda abertzale em seu conjunto, bem como ao processo ascendente que vai do autonomismo crítico, ao soberanismo e ao independentismo socialista são repressão, crise e fetichismo, porque ao formar uma sinergia multiplicam seu efeito paralisante e até reacionário, unionista e nacionalista espanhol e francês.

6. Partindo desta realidade, o enquadramento teórico sintetizado em três citações acima expostas permite-nos compreender tanto a evolução da ETA como, em uma escala maior, a do povo trabalhador desde sua formação na fase industrial do capitalismo basco no final do século XIX. É assim porque as três versam sobre duas componentes insubstituíveis do marxismo como praxe da revolução: por um lado, a dialética entre o objetivo e o subjetivo, e, por outro lado, a importância chave da ética socialista como força material que se plasma no processo histórico. Entre outros e outras muitas marxistas, Trotsky, Gramsci e Mao voltam a incidir em diversos tempos e espaços em que, ao longo dos decénios de luta, a subjetividade, a decisão lúcida e crítica, e a vontade de vencer, reforçada geração após geração, atuam como forças políticas física, materiais, tangíveis, à margem das táticas violentas ou pacíficas -formas diferentes de violência e de paz, et cetera- que se adotarem em cada período. Sem dúvida, a ética socialista revela-se mais facilmente como força de emancipação nas longas lutas sociais, sobretudo de libertação nacional de classe e de sexo-gênero, que nas relativamente curtas fases e ondas de luta de classes em sua orientação exclusivamente economicista e sindical, não política no sentido decisivo de tomada do poder. Aqui, a citação de Mao é mais apropriada para a experiência basca em geral e da ETA designadamente.

7. Com isto não negamos a importância decisiva de outras contribuições marxistas. Enquanto teoria matriz, o marxismo chega ao segredo das múltiplas explorações descobrindo como nascem e se desenvolvem, como crescem e interagem, surgindo impercetivelmente a partir das contradições essenciais do capital, a partir da sua identidade genético-estrutural; e explica ainda como esta expansão crescente das opressões diferenciadas em suas formas externas fica ainda mais complexa com o desenvolvimento desigual do histórico-genético. Como teoria matriz, o marxismo explica que o desenvolvimento desigual das lutas, desigualdade que deve ser assumida sobretudo em seu conteúdo de libertação nacional de classe e de sexo-gênero, sempre nos remete para uma escala mais ampla, a do desenvolvimento combinado da luta mundial entre o capital e o trabalho. A dialética entre estes dois níveis unidos no interior à totalidade deve ser teorizada, por um lado, mediante o internacionalismo proletário, hoje mais necessário que nunca ao ver como algumas esquerdas esgotadas se dobram diante dos ditados do capital mundializado; e, por outro lado, desde as experiências próprias dos povos trabalhadores em sua luta pelo socialismo e por sua verdadeira independência. Ambas práticas teóricas se baseiam só e exclusivamente na práxis revolucionária sustentada durante gerações, apesar dos altos, baixos e derrotas.

8. Deliberadamente, chegámos a um dos pontos de reflexão que queríamos propor: o do papel da consciência subjetiva de massas, da vontade de luta de um povo nacionalmente oprimido e seu entroncamento dentro do marxismo. A evolução da ETA e o comunicado do passado 20 de outubro remetem-nos para esta questão que, muito significativamente, marcou um dos pontos de separação entre o independentismo socialista e o marxismo libresco e formal, antidialético. Não vamos lembrar aqui as causas das sucessivas cisões dentro de independentismo socialista que optaram por vias que de um modo ou outro passavam pela aceitação do enquadramento estatal de resolução do conflito provocado pela ocupação espanhola de uma parte de Euskal Herria. Por enquadramento estatal de resolução entendemos a tese que sustenta que o futuro livre de Hego Euskal Herria só é possível dentro de um Estado espanhol federal ou confederal, mas Estado espanhol em definitivo.

9. Em outros textos defendemos a existência de um «marxismo espanhol» incapaz de romper sua dependência ontológica, epistemológica e axiológica com e do enquadramento de acumulação de capital que é a «nação espanhola» e não nos vamos estender agora. O que sim devemos repetir aqui é que esse enquadramento estato-nacional burguês tem uma falha interna que vai se agudizando, ou que fica a bolhar no subsolo, com a mundialização da lei do valor-trabalho e com a concentração, centralização e perequação de capitais dentro da União Europeia: referimo-nos à falência, à sima abisal criada ao conjugar-se a debilidade de uma burguesia que não se atreveu a realizar a sua revolução política-econômica, agrária e antifeudal, cultural e educativa, militar e de integração não maioritariamente violenta, com as dinâmicas desestabilizadoras que tendem a surgir das entranhas da contradição expansivo-constritiva inerente à definição simples de capital. Esta contradição é a base da territorialização do Estado-nação burguês como espaço centrípeto de acumulação geograficamente demarcado e a cada vez mais submetido às forças centrífugas da mundialização.

10. Bem, pois a ETA, como expressão e síntese da longa luta do povo trabalhador basco, age em parâmetros qualitativamente diferentes aos do «marxismo espanhol», já que o que propõe é, em primeiro e decisivo lugar, a independência estatal de Euskal Herria, assumindo, além disso, que o mesmo direito o têm o resto de nações e povos dominados pelo imperialismo espanhol. De uma perspetiva marxista, quer isto dizer que a liberdade dos povos e a emancipação das classes exploradas só podem ser conseguias mediante a extinção histórica do Estado espanhol como espaço material e simbólico de acumulação de capital e, por isso, de desenvolvimento da lei do valor-trabalho relativamente controlado pela classe dominante, pela burguesia espanhola. Uma vez que o Estado é a forma política do capital geograficamente localizado, por isso mesmo, a emancipação do trabalho -em sua tripla expressão de sexo-gênero, de nação e de classe- é inseparável da extinção do Estado.

11. Mais ainda, na situação basca, o direito à independência aparece já como a necessidade de um Estado independente. A dialética entre direito e necessidade está sujeita à agudização das contradições, de maneira que o direito, qualquer direito, se transforma em necessidade urgente do realizar, de praticar esse direito, conforme a opressão que o nega se endureceu a tal extremo que põe em risco a sobrevivência do coletivo que tem esse direito, embora não seja reconhecido, embora seja negado. O direito à greve, por exemplo, passa a ser necessidade imperiosa de fazer greve quando a patronal endurece suas agressões e o direito/necessidade de greve se transforma em necessidade de ocupar a fábrica, recuperando para a classe operária, quando o patronato quer a fechar definitivamente. Em essência, o mesmo acontece com o direito de autodeterminação: passa a ser necessidade quando o povo negado desse direito elementar compreende que sem seu exercício se multiplicam as explorações que sofre. E o direito/necessidade de autodeterminação salta a necessidade da independência estatal quando o contexto inteiro pressiona nessa direção.

12. O que rebole abaixo do direito/necessidade à independência, como à recuperação de uma fábrica, ou a impedir que um banco expulse de seu domicílio uma família operária, ou o direito/necessidade ao aborto consciente, livre e gratuito, et cetera, não é outra coisa que a luta contra a propriedade privada. A burguesia espanhola é agora proprietária do Povo Basco e do resto de nações que ocupa e explora, tal como é proprietária das forças produtivas e proprietária das mercadorias fabricadas pela classe trabalhadora; da mesma forma que o homem é proprietário da mulher e o imperialismo é proprietário de meio mundo. Pois bem, a independência em seu sentido pleno, socialista, significa a expropriação do expropriador, a recuperação da nação pelo povo oprimido, tal como, em outra escala, a classe operária recupera sua fábrica, a mulher recupera seu corpo e a família recupera seu domicílio ao impedir o despejo pelo banco, despejo executado graças ao direito burguês à propriedade privada, direito garantido e aplicado por suas forças repressivas e seu judiciário.

13. A ascensão do direito em abstrato à necessidade concreta e imperiosa realiza-se só mediante a luta revolucionária como síntese suprema de um sem fim de outras lutas coletivas e individuais mais superficiais embora sempre importantes. A luta revolucionária é radical porque vai à raiz, à recuperação da propriedade coletiva, pública, estatal, comunal e à construção do poder popular, do Estado próprio: propriedade coletiva e poder popular, tenho aqui a raiz. Somente a experiência adquirida nas lutas parciais e setoriais pode sentar a base teórica e política para ir confluindo na luta revolucionária dirigida à raiz. E nessa dinâmica ascendente os setores menos concienciados, que se limitam à reivindicação do direito abstrato, vão avançando com mais ou menos dificuldades à consciência política da necessidade da independência, da urgência de deixar de ser um objeto passivo propriedade da burguesía a chegar a ser um sujeito ativo proprietário de si mesmo. Naturalmente, este avanço é permanentemente obstruído por um sem fim de forças contrárias que buscam assegurar a dominação espanhola, de maneira que em absoluto se trata de uma ascensão linear e predeterminada, mas de uma luta que pode concluir em derrota.

14. Como organização política, a ETA foi muito consciente desta ascensão da abstração democraticista, necessária em si mesma como base de início, à consciência concreta da necessidade da independência. Um momento importante nessa ascensão está sendo o salto do autonomismo para o soberanismo como antessala do independentismo. Agora esses três níveis gerais, surcados a cada um deles por graduações específicas, se expressam já em Bildu e tendem a se expressar em Amaiur, como mostra da ascensão na mobilização democrático-institucional popular e de massas. Mas este lucro vinha já anunciado, além de por múltiplos práticas, pela crescente vontade de participação a vários níveis nos sucessivos períodos de contato, conversa e negociação entre a ETA e os governos espanhóis, e entre a esquerda abertzale e outras forças sociopolíticas, sindicais e populares com representantes desses governos. E para não nos estendermos, um outro exemplo é a efetividade com que a esquerda abertzale e a ETA foram ultrapassando a a cada vez mais duros sistemas repressivos.

15. A passagem do direito à necessidade fica refletido, fundamentalmente, na decisão de se empancipar conceptualmente, não só materialmente, com a lógica estatalista do pensamento espanhol e francês que atua como um buraco negro, que engole e pulveriza tudo. Uma vez constatada a suficiente acumulação crítica de iniciativa popular e social capaz de acelerar, estender e intensificar a consciência da necessidade do Estado independente, uma vez chegados a esta fase, a organização política ETA põe em marcha uma decisão já teorizada como possível desde faz muito tempo e vista como a cada vez mais provável conforme se materializa o avanço popular. O comunicado de 20 de outubro oficializa essa transformação nova de um processo de libertação que sempre muda reforçando sua permanência. Fazemos questão de que o mecanicismo é incapaz de entender esta dialética do movimento. Se por um instante recorrêssemos ao individualismo metodológico burguês, diríamos que da mesma forma em que na cada crises determinados marxistas individuais desataram o nó górdio que os atava ao passado voltando à dialética, o mesmo aconteceu várias vezes na história de ETA: recordemos, por exemplo, Txabi Etxebarrieta e Argala e sobretudo muitíssimos militantes anônimos, imprescindíveis heróis desconhecidos. Mas como uma das caraterísticas da esquerda abertzale é seu pensamento coletivo, dizemos que a dialética do movimento se expressa na praxe de dezenas e dezenas de milhares de pessoas.

16. Ora bem, porquanto movimento, a dialética dos contrários aparece a nu, e isso é muito bom porque descobre os riscos e perigos, e os erros. Aqui só podemos refletir sobre quatro. Um é o retrocesso na formação intelectual, teórica, da militância abertzale. Sempre o pensamento vai por trás da mudança do real, mas o pensamento tem de tentar que essa distância seja o mais pequena possível e, sobretudo, tem de tentar descobrir a tendência evolutiva das contradições, para conseguir incidir sobre elas. Em momentos de crises como o atual, prever as tendências é decisivo, mais se cabe quando a consciência da necessidade de um Estado independente segue assentado mais que tudo sobre desejos e anseios. O desejo chega a ser uma força revolucionária objetiva, como vimos nas três citações anteriores, mas sua efetividade emancipadora assenta sobre o conhecimento teórico do real, caso contrário, o desejo costuma terminar na decepção.

17. Outro risco, o segundo, nasce do anterior e atinge a urgência de argumentar a viabilidade de um Estado basco como pedra angular do independentismo no longo contexto mundial determinado pela atual crise. Avança-se devagar neste assunto, ainda sabendo, a grandes traços, a sua factibilidade. Superar os daninhos efeitos de várias modas ideológicas já destroçadas pela objetividade do capital em crise, é tanto mais urgente quanto que, ainda, setores do povo trabalhador e de sua juventude, setores da militancia abertzale, muitos setores do soberanismo e autonomismo critico, das forças democráticas, e o grosso da casta acadêmica, seguem parcial ou totalmente sob os influxos adormecedores dessas obsoletas e descartáveis mercadorias intelectuais. Conquanto se multiplicam os esforços para encurtar a distância entre a crise e o pensamento, ainda não saímos da zona de perigo que pode crescer pelo nossos erros, voltando a aumentar a distância entre a evolução do real e nosso lento desejo.

18. O terceiro risco não é outro que menosprezar a força paralisante e ordeira do capital em si, com seus recursos quase infinitos. Se falar sempre de burguesia é falar de Estado e de classes exploradas, de sua composição interna, agora é vitalmente urgente conhecer que é e como se expressa o povo trabalhador, as «grandes massas exploradas», na terminologia de Rosa Luxemburg. A recuperação do conceito de povo trabalhador e sua aplicação à realidade do capitalismo basco de finais dos anos 60 foi um dos acertos decisivos da ETA. A ficção e irrealidade de um suposto «capitalismo sem crise», da «nova economia», etc., acantoaram este conceito até quase esquecê-lo. Mas a realidade é teimosa e não pode ser ocultado por muito tempo a objetividade da exploração. Conhecer com suficiente rigor as diferentes frações e setores, camadas e estratos internos do povo trabalhador atual é imprescindível para realizar uma política acertada de aglutinação de forças, de alianças com a genericamente denominada «classe média», com a velha e nova pequena burguesia. São estas preocupações permanentes na história da ETA que nestes momentos voltam a mostrar sua decisiva influência.

19. E o quarto e último risco é o menosprezar a força de recuperação do nacionalismo imperialista espanhol e francês. A dinâmica abertzale orientada para a criação de um Estado próprio, que pode e deve chegar inclusive ao momento crítico de uma declaração de independência nacional à margem das instituições espanholas, tal qual existam nesse momento, sejam republicanas ou monárquicas, deve ter muito em conta que faz tempo que entramos na fase de luta entre modelos opostos de identidade nacional. Os cantos de sereia de que se pode ser ao mesmo tempo basco, espanhol e europeu foram silenciados pela barulhenta devastação da crise estrutural, civilizacional, de longa duração que afeta absolutamente toda a realidade humana e a seus sentimentos mais pessoais e íntimos. Neste novo contexto que se impõe com a imisericorde fiereza das leis do acumulação, a (re)criação de uma identidade basca progressista, solidária e aberta à inclusão, que busca ser uma força emancipadora em um mundo em luta contra a barbárie e o caos imperialista, esta identidade é uma força de libertação imprescindível.

20. A ETA, como processo histórico complexo mas ativo e atual, permanente, foi e é o fator decisivo para a sobrevivência do Povo Basco, embora não atue com as armas. E isto é assim porque sua simbologia referencial penetrou tanto no movimento do Povo Basco que já é a componente basal da sua (re)criação para se enfrentar vitoriosamente à longa fase histórica de malviver em um capitalismo que sobreviverá na medida que lho permitirmos. A independência socialista, que é outra das decisivas criações praxeológicas da ETA, está hoje mais vigente que nunca antes, e que esteja menos que amanhã depende de todas e todos.

Fiestras

Martiño Noriega Sánchez. Artigo tirado de Tempos Dixital. O autor do texto é médico de profesión, membro da Coordenadora do Encontro Irmandiño e alcalde de Teo.




Nesta democracia de baixo perfil, que ás veces acredita en non representarnos, a concentración do dióxido de carbono está a facer irrespirable o aire que inspiramos provocando unha somnolencia de gravidade…
con risco de dano vital irreparable no noso ser orgánico colectivo. Aínda así, nesta carreira acelerada de renuncias impulsadas por aqueles que non pasan polas urnas e aplicadas por aqueles que din non ter autonomía para non aplicalas, ábrense fiestras de esperanza.

A mobilización cidadá do 15-O é unha delas e agardo que, aínda que a moitos lles moleste, esta non esmoreza. Toda a xente que ateigou as rúas do país demostrou que non vai a dar un paso atrás e que, pese a quen lle pese, non vai a deixar de pensar. Precisamos pensar, analizar o que está a acontecer, establecer vasos comunicantes entre formacións sindicais e políticas alternativas cos movementos cidadáns e ser conscientes de que, nesta batalla contra aqueles que cos seus actos insultan a nosa intelixencia, non sobra ningún tecido vivo que latexe demandando modelos de sociedade alternativos e xustos.

O 20-O tamén se abriu outra fiestra de esperanza. Hai varias novas que un leva moito tempo agardando escoitar. O 20-O foi un día deses nos que puiden escoitar unha delas. Son fillo dun donostiarra e dunha galega emigrada en Caracas. Teño dende sempre a fonda convicción da necesidade de empregar as vías pacíficas, políticas e democráticas para a resolución dos conflitos. Por todo iso, para min, a nova do comunicado da organización terrorista ETA foi unha fiestra aberta á esperanza e o inicio da fin de moita dor futura. Cómpre investir en esperanza e xenerosidade para non dar un paso atrás. Xenerosidade para aqueles que non a tiveron, xenerosidade para restaurar a memoria das vítimas e, sobre todo, xenerosidade para entender que “a pelota vasca” está no tellado colectivo da única arma de futuro que precisamos nestes tempos, a da vontade democrática dun pobo.

Respiramos polo tanto cun pouco menos de dificultade mais precisamos non deixar de abrir fiestras. No próximo 20-N a cuestión non está nunha alternancia na xerencia da oficina de demolición e desmantelamento dos nosos dereitos socio-laborais e do estado do benestar. O próximo 20-N deberemos decidir se queremos permitir que continúe entrando o aire e polo tanto apostar por formacións alternativas críticas co modelo actual ou instalarnos na inercia de pasar de Guatemala a Guatepeor sen capacidade de reacción. Entre todos e todas, por acción ou omisión, construímos o futuro.

23/10/2011

O difícil camiño para a Paz

David Rodríguez Rodríguez. Artigo tirado de Altermundo (aquí).

«Non, o que sucedeu en realidade é que comentei o asunto co camarada Walter. Falámolo porque o camarada Walter marchaba ao extranxeiro en 1953. Díxenlle: "Cando chegues á República Popular Chinesa, debes dicirlles, pedirlles, que queremos iniciar unha loita armada e que precisamos armas", e despois eu din ese discurso [...]. Detivéronme por iso, pero seguía convencido de que era a estratexia correcta para nós. E máis tarde, desde a miña clandestinidade, falei do asunto co camarada Walter e decidimos expoñelo nunha reunión do comité de traballo. Expuxemos o asunto pero, como che dixen, rexeitaron o meu argumento sen máis porque Moses (secretario do partido e, por suposto, membro do comité de traballo do Executivo nacional) sostiña que aínda non chegara o momento para iso: "A causa das estritas medidas adoptadas polo goberno, sodes incapaces de continuar á antiga usanza. As dificultades paralizáronvos e agora queredes expresarvos nunha linguaxe revolucionaria e falar de loita armada, cando de feito, aínda ten cabida o método antigo que estamos a usar se somos o suficientemente imaxinativos e estamos o suficientemente decididos. Simplemente queredes expór á xente a masacres perpetradas polo inimigo. Nin siquera vos parastes a pensar detidamente niso". Así foi como rexeitou a miña argumentación, dixo o mínimo e todo o mundo o apoiou. Despois falei do asunto con Walter… A oposición tiña tanta forza que Walter non se atrevía sequera a dicir nada. Pero sempre foi un tipo moi diplomático, aínda que digno de confianza. Así que revisamos a cuestión, e el, que sempre fora unha persoa de recursos, dixo: "Non, convócao a soas; discúteo con el. Eu encargareime de que vaia verte (porque eu xa estaba na clandestinidade)". Así que Moses veu e pasamos xuntos todo o día. Nesta ocasión fun moi sincero e díxenlle: "Estás a facer xusto o contrario do que fixo o partido comunista en Cuba; dicían que non se deran aínda as condicións para xestar unha revolución. Seguían os antigos métodos defendidos por Stalin…, sobre como pode identificarse unha situación revolucionaria, segundo Lenin e Stalin. Neste caso temos que decidir a partir da nosa propia situación. A situación neste país é que chegou a hora de que consideremos unha revolución, unha loita armada, porque a xente xa está formando unidades militares para emprender actos violentos. E se non o facemos, van continuar. Carecen de recursos, carecen de experiencia e carecen da maquinaria política para levar a cabo esa decisión.[...]
E debes ser creativo e mudar de conducta porque a túa actitude é, en realidade, a dun home que lidera un movemento á antiga, como cando eramos legais; que non o considera liderar agora no marco da ilegalidade no que estamos a operar. Logrei ser contundente co fin de desafialo… logrei desafialo. Así que dixo: "Ben, non che prometo nada, pero volve a expoñelo". Así que fun e o expuxen, e dixo: Ben, sigo sen estar convencido, pero démoslle unha oportunidade. Deixade que expoña estas ideas ao Executivo, co noso apoio." Así que se aceptou e todo o mundo estivo dacordo. Fomos a unha reunión do Executivo nacional. Entón o xefe e outros opuxéronse firmemente. Sabiamos, por suposto, que íamos contar coa postura do xefe porque cría na non violencia por principios, mentres que nós a considerabamos unha táctica (aínda que non puideramos dicir iso diante do tribunal). Ante o tribunal, é dicir, no xuizo da traición, dixemos que críamos na non violencia como principio, porque se dixeramos que a considerabamos unha táctica, teríalle dado unha excusa á Coroa, ao Estado, para dicir que en calquera momento, cando nos convise, usariamos a violencia, e que, de feito, iso era o que estiveramos a a facer. Así que o evitamos, pero só por ese motivo. Sempre crimos na non violencia como táctica. Sempre que a situación exixira que utilizaramos a non violencia, usariámola; cando a situación exixira que nos afastaramos da non violencia, fariámolo.

As palabras que veño de reproducir pertencen a alguén que dedicou a súa vida toda á loita polo recoñecemento do seu pobo. O seu legado histórico pasou de ser o dun perigoso terrorista ao dun presidente do seu país e ao dunha figura admirada en todo o mundo. O autor desas liñas chámase Nelson Mandela e o estracto está recollido do libro Conversacións conmigo mesmo. Os métodos que aquí defende Mandela con tanta claridade son os mesmos que viu empregando ETA nos últimos 40 anos. Mandela é unha figura clave do século XX. A loita armada é tamén unha táctica filla dese mesmo tempo.

A comezos do século XXI ETA decide deixar atrás a violencia e o pobo vasco ve o horizonte expedito para emprender novos camiños de loita cara o seu recoñecemento. Estamos nun tempo novo e para iso son necesarias estratexias novas. Agora ben, para trazar unha rota viable cara unha paz duradoira no País Vasco cumpriría deixar as emocións a un lado e, co líder sudafricano na cabeza, non esquecer que, por moi equivocada que se xulgue a estratexia armada (e sen dúbida para a solución do conflito vasco aquela non axudaba), non se pode despachar á actividade armada catalogándoa simplemente como unha suma de feitos delictivos senón que é necesario, máis ben, enmarcala no contexto dunha loita política.

Se na chamada transición á democracia a amnesia colectiva imposta axudou a que greas de franquistas puidesen vivir impunes até morrer de vellos e mesmo seguir a ocupar postos de gran relevancia política e económica, na segunda transición que a fin de ETA pode axudar a precipitar, os militantes desa organización e, en xeral, os da esquerda abertzale toda, están chamados a xogar, mal que lles pese a moitos, un papel político moi relevante. Se algo proba o caso de Nelson Mandela é que sen a existencia dese espazo aberto para a incorporación nas institucións dos que se atopaban na clandestinidade a paz terá un futuro moi difícil.

Independentistas enchem ruas de Bilbau

Tirado do Esquerda.net (aqui).


A primeira manifestação após o anúncio do fim da violência da ETA foi realizada sob o lema "O País Basco precisa de soluções". Dezenas de milhares de pessoas responderam ao apelo dos subscritores do Acordo de Gernika e defenderam a resolução política do conflito.
Dezenas de milhares de pessoas sairam à rua para apoiar a solução política do conflito basco.
Dezenas de milhares de pessoas sairam à rua para apoiar a solução política do conflito basco.

As ruas de Bilbau encheram-se de manifestantes este sábado, para apelar aos agentes políticos que avancem com as negociações para a resolução do conflito basco, depois de afastada a sombra das armas da ETA, que comunicou o fim da luta armada na passada quinta-feira.
Foi nesse sentido que intervieram os representantes das forças políticas que no ano passado assinaram o Acordo de Gernika, que resultou do processo de reflexão da esquerda independentista basca nos últimos anos e que culminou com a adesão dos membros da ETA à luta não-violenta pela independência. A pressão internacional pela solução negociada do conflito basco envolveu figuras como Kofi Annan, Tony Blair, Jimmy Carter e Gerry Adams e irá manter-se sobre o próximo governo a sair das urnas no dia 20 de novembro.
Os manifestantes entoaram palavras de ordem a favor da independência e pelo regresso dos presos da ETA que estão dispersos por penitenciárias longe do País Basco.
O porta voz da Izquierda Abertzale, Mariví Ugarteburu, disse aos jornalistas que "para conseguirmos um cenário de democracia real há que reconhecer que o País Basco é uma nação e que todos os que aqui vivemos temos de ver reconhecidos os nossos direitos", pelo que "devem acabar as desculpas para trabalhar numa solução dialogada em que todos saiam vencedores".
Pello Urizar, secretário-geral do Eusko Alkartasuna, disse por seu lado que o fim da ameaça da ETA foi "o primeiro passo de um processo, imprescindível, mas ainda há muito trabalho a fazer" Urizar acrescentou que os manifestantes estão comprometidos com este processo e que "a sociedade basca precisa que vivamos uma realidade normalizada".
http://pt.euronews.net/2011/10/23/esquerda-basca-reclama-mais-autonomia/

Sobre ETA e as "derrotas definitivas"

Salvador López Arnal en Rebelión

Intento ser tan breve como a súa columna en Público [1]. Ignacio Escolar - "A derrota definitiva de ETA" - escribiu sobre o abandono das armas de ETA. A súa aproximación, deixando algún cabo solto, pode resumirse así: 1. O 20 de outubro de 2011 pasará á historia como o día no que a democracia derrotou a ETA. 2. Non hai marcha atrás posible: ETA e o seu mundo asumiron por fin que a súa "loita armada" foi un fracaso absoluto. 3. ETA foi completamente derrotada. Mataron durante máis de corenta anos porque querían un Euskadi socialista e independente e rendéronse sen conseguir nin un só dos seus obxectivos. 4. Desde hoxe o problema é outro: como superar o horror deses 829 asasinados, como lograr a convivencia entre os que cada día miraban os baixos do seu coche e aqueles que xustificaban o terror.

Comentario (irritado) de texto: 1. Non é certo que a "democracia" derrotase a ETA. Sexa cal for o concepto que manexemos de democracia, por demediado que este poida ser e como o mesmo Escolar nos ensinou en ocasións, é retórica política da peor (e da máis baleira) falar de democracia para referirse ao Estado borbónico español e soster que "a democracia acabou con ETA". Fume do peor. 2. Non é certo tampouco que todos os estadios da loita armada de ETA fosen un completo fracaso. A planificada continuidade do réxime fascista español foi rota por unha das súas accións, a que Pontecorvo narrou en "Operación Ogro". Outras accións armadas, aínda que sexa politicamente incorrecto lembralo, deron osíxeno e enerxía á loita antifascista en España. Quen pode esquecer a solidariedade con ETA da cidadanía, non só da vasca desde logo, durante o Consello de Guerra de Burgos? 3. Falar dos 40 anos de ETA, sen ningunha ruptura, como unha liña sen descontinuidades, é unha mirada histórica que falsea totalmente a recente historia española, síntoma da hexemonía cultural do revisionismo neofranquista. Polo demais, algunhas das finalidades de ETA -a autodeterminación de Euskadi por exemplo- foi defendida durante anos por organizacións moi afastadas dos seus obxectivos e procedementos. Entre esas forzas, polo mismísimo PSOE nos primeiros anos da transición-transacción. 4. Referirse ás 829 vítimas de ETA, sen citar as outras vítimas, e incluíndo entre as primeiras a torturadores e almirantes fascistas que serviron lealmente ao Réxime franquista até o final das súas vidas, un réxime levantado sobre o asasinato e persecución de decenas de millleiros e milleiros de cidadáns e cidadás, é canto menos un infundio e mesmo un insulto a esas outras vítimas. Polo demais, os que xustificaron moitos horrores non só foron dirixentes e militantes de ETA.

O PCE-PSUC e outras forzas de esquerda comunista e anarquista aspiraron durante décadas a unha República Socialista federal e ibérica. Deixaron no camiño milleiros de mortos, torturados, encarcerados e un sufrimento incalculable (e desde logo páxinas indelebles de dignidade). Algúns nomes, moi poucos entre milleiros posibles: Julián Grimau, Miguel Núñez, Enrique Ruano, Salvador Puig Antich, Paco Téllez, José Humberto Baena. Desgraciadamente, ningunha das súas aspiracións esenciais puido alcanzarse. Nesas seguimos estando. A loita antifranquista, protagonizada esencialmente polas organizacións citadas, foi tamén completamente derrotada? Non hai que dar ás veces batallas que se saben perdidas?

Por se fose necesario: non hai, non pode haber ningunha dúbida de que o abandono das armas por parte de ETA foi unha das mellores noticias que tivemos nestas últimas décadas e que, desde logo, desde hai xa varias décadas nada justificaba as súas accións armadas nin os seus inadmisibles asasinatos. Entre estes últimos, o de Dolores González Katarain, Yoyes.

PS: Público publicou en contraportada o 21 de outubro, no que de xeito evidente é unha infamia xornalística impropia dun diario que di ser de centroesquerda, unha lista de nomes -as fontes son o Ministerio do Interior e as Asociacións de Vítimas- cun titular: "En memoria das 829 vítimas mortais de ETA". Entre esas vítimas mortais, o torturador Melitón Mazás González e o almirante fascista Luís Carrero Branco. Ao mesmo tempo, en ningún lugar destacado, ningunha referencia, entre moitos outros, a Anxo Otaegi, Juan Paredes Manot Txiki, José Antonio Laza Aróstegui ou José Ignacio Zabala Artano, os tres últimos asasinados -ou non foron asasinados?- con apenas 20 anos.

Nota:

[1] http://www.escolar.net/mt/archives/2011/10/la-derrota-definitiva-de-eta.html

Salvador López Arnal é sobriño de Salvador López Campo, campesiño de 20 anos morto na Batalla do Ebro defendendo a legalidade republicana, e neto de José Arnal Cerezuelo, un traballador industrial asasinado polo estado fascista español no Camp da Bota en maio de 1939 polo terrible delito de ser militante da CNT.

20/10/2011

Cese definitivo da violencia de ETA.

O BNG cualifica de "moi boa noticia, de noticia histórica" o anuncio de cesamento definitivo da violencia de ETA

Santiago de Compostela, 20 Outubro 2011. O Bloque Nacionalista Galego considera unha “moi boa noticia”” o anuncio do “cesamento definitivo da actividade armada” feito esta tarde por ETA.
Estamos ante unha moi boa noticia, realmente ante un acontecemento histórico de enorme trascendencia que a bon seguro vai contribuir para a definitiva normalización da vida social e política en Euskadi.
O BNG fai votos por que, apartir de agora, e felizmente xa en ausencia de violencia, as vascas e os vascos podan libremente decidir o seu futuro sen máis teito nen límite que o da súa propia vontade democraticamente expresada.

18/10/2011

O cártel fascista español chora o fim da ETA

Celso Álvarez Cáccamo. Tirado do Facebook do autor.

O cártel fascista español chora o fim da ETA. Capas de três panfletos amarelistas de 18 de outubro de 2011. Sobem as vendas. Sobem os benefícios. Já há "comidilla" para o café dos tudólogos. Nos blogues saltam faíscas. Os jantares enchem-se de adjetivos e insultos. O jornalismo español alcança uma nova dimensão: a Linguagem 18-O entra em novos parágrafos dos Manuais de Estilo. Chovem subsídios oficiais. O fascismo quenta motores para o show do 7-N prévio ao 20-N, quando se ganham e se perdem as eleições, que é o mesmo. A luta de classes consiste em ocupar as abreviaturas do calendário. Madrid, essa ruína mental, cheira a papel com grassa, ao suor sem chuva dos impérios lamentáveis.