12/06/2013

A vigência do anarquismo

Julián Casanova. Artigo tirado de El País (aqui) e traduzido por À revolta entre a mocidade. O livro Elogio del anarquismo, de James C. Scott, acaba de ser publicado em espanhol pela editora Crítica.

Campesina de San Petersburgo. Bernardo Pérez
Camponesa de São Petersburgo. Foto de Bernardo Pérez.

Em 1976 James C. Scott, atualmente professor de Sociologia e Antropologia na Universidade de Yale, publicou The Moral Economy of the Peasant. Rebellion and Subsistance in South East Ásia.  Nessa obra Scott antecipou uma focagem que explicava a interação entre a comunidade local e o mundo exterior vista desde a ótica dos camponeses. Nove anos depois, o mesmo Scott pulía e alargava esse modelo interpretativo em Weapons of the Weak. Everyday Forms of Peasant Resistance. Scott tinha razão: as ocasiões em que os camponeses se rebelavam e enfrentavam ao estado e às elites agrárias eram raras e extraordinárias e, no entanto, a maioria dos estudos sobre a protesta camponesa estavam unicamente interessados em rebeliões e revoluções. Melhor seria, para não seguir dando voltas ao mesmo assunto, introduzir nesse terreno inexplorado, a cavalo entre a passividade e o desafio coletivo aberto, das formas "correntes" da resistência camponesa.

A focagem e as investigações de Scott resultaram tremendamente úteis. Uma etapa parecia ficar atrás: a da busca insistente -"e em vão"- de conflitos e ações organizadas no mundo camponês, adaptando cruamente um modelo que já resultava inclusive estéril para a análise das classes trabalhadoras urbanas. Novos horizontes abriam-se: baixo o termo "everyday resistance" recolhiam-se todas as "armas" que exibiam comummente os grupos subordinados e sem poder, desde a sabotagem e incêndio de colheitas, às roturas ilegais, passando pelo roubo e o furtivismo. Duas maneiras de ver o protesto, em soma: a que arrojava a sua mirada aos raros momentos em que os camponeses se opunham aberta e violentamente ao estado e às elites agrárias; e a que preferia se centrar nessas outras formas de resistência que, embora menos chamativas e dramáticas, resultavam imprescindíveis para compreender o que os camponeses fazia historicamente para defender os seus interesses em frente à ordem, fora esse conservador, progressista ou revolucionário.

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Segadores irlandeses em 1940 / Getty


As formas de resistência contempladas por Scott, constantes e persistentes, constituem, em definitiva, os meios normais pelos quais os camponeses se opuseram historicamente às demandas sobre os seus excedentes mereceram escassa atenção por parte dos historiadores, mas em absoluto resultam inofensivas: essa resistência "rutinária" pode, "acumulativamente", ter um apreciável impacto sobre os relacionamentos de classe e autoridade no mundo rural.

Concebida assim a resistência, não há por que lhe dar mais importância à organizada e revolucionária que à individual e à que parece mostrar, ao não ter consequências revolucionárias, signos de acomodação com o sistema de domínio. Em realidade, dirá Scott, a atividade política organizada e aberta é um "luxo" que historicamente poucas vezes esteve ao alcance das classes subordinadas. Tais atividades resultavam perigosas, "quando não suicidas". A maioria das classes subordinadas estão muito menos interessadas em mudar as estruturas sócio-económicas e do estado que em sobreviver dentro desse sistema evitando a sua vertente mais opressiva  E se alguma vez produzem-se essas transformações profundas em forma de revoluções é porque o campesinhado foi mobilizado por forças externas no enquadramento de conflitos mais amplos -invasões estrangeiras ou guerras civis, por exemplo- que debilitam e dividem aos poderes existentes e libertam aos camponeses dos seus laços tradicionais com a autoridade.

Com todo essa bagagem de reconhecido cientista social e pesquisador de camponeses, conflitos e povos marginais, Scott publicou no ano passado Two Cheers for Anarchism: Six Easy Pieces on Autonomy, Dignity and Meaningful Work and Play (Princeton University Press), que acaba de publicar Crítica em castelhano, com o título de Elogio do anarquismo. Nesse breve ensaio, de título e subtítulo muito significativos, Scott põe-se os lentes anarquistas para combater o valor das hierarquias nas nossas sociedades capitalistas e democráticas. Algo muito estranho nos tempos que correm. Mas vale a pena entrar na defesa que faz do anarquismo, misturando história e presente.

O seu interesse na crítica anarquista do estado nasceu "da desilusión e das esperanças frustradas de uma mudança revolucionária". Com o estudo da história, caiu na conta "de que quase todas as grandes revoluções vitoriosas terminava criando um estado mais poderoso que o que derrocava, um estado que, à sua vez, podia lhe extrair mais recursos, e exercer um maior controlo sobre a população à que supunha que tinha que servir". Essa, em qualquer caso, já era a tese largamente razonada e divulgada por Theda Skocpol no seu estudo States and Social Revolutions (1979). Os exemplos clássicos da França, Rússia e China assim o provavam, mas também os mais recentes do Vietname e das ditaduras estabelecidas em nome do "socialismo real". Das revoluções saíam estados mais fortes e repressivos, e os sonhos igualitários esfumavam-se, avariados pela nova ordem revolucionária.


Scott considera que "se um se põe os lentes anarquistas e observa desde este ângulo a história dos movimentos populares, das revoluções, da política quotidiana e do estado, sair-lhe-ão à luz determinadas perceções que desde qualquer outro ângulo ficam escurecidas". Sairão à luz, sem dúvida, como já antecipou Pierre-Joseph Proudhon, a cooperação sem hierarquia ou sem o governo do estado, bem como a confiança que os anarquistas depositavam na cooperação espontânea e a reciprocidade. Esses lentes, assim o acha Scott, oferecem "uma imagem mais nítida e uma profundidade de campo maior que a maioria das alternativas".
Mas, dada a existência de diversos anarquismos, algo que José Álvarez Junco expôs entre nós já faz tempo, Scott lhe oferece ao leitor o tipo particular de lentes  que se tem que pôr para ver todo isso melhor. Assim, recusa a corrente dominante de "cientificismo utópico" tão omnipresente no pensamento anarquista no final do século XIX e princípios do XX. E a diferença de muitos pensadores anarquistas, não acha que o estado "seja sempre e em todas partes o inimigo da liberdade".

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Durruti, fotografíado por Agustí Centelles/CDMH

Isto quer dizer que esses lentes não olhariam bem ao anarquismo que triunfou em Espanha no século XX, o sindicalismo revolucionário, o único movimento de massas anarquista que se manteve na Europa de entreguerras, porque se definia claramente como "comunitário", "solidário", que confiava nas massas populares para levar a bom porto a revolução, mas que tinha também como senhas de identidade o antipoliticismo, a negação das lutas eleitorais e parlamentares, e a abolição do Estado. O seu aposta estaria mais vinculada ao outro anarquismo, ao "individualista", mais elitista, que desprezava às massas e engrandecia à individualidades rebeldes.

Em realidade, a Scott não lhe interessa, para provar os seus argumentos, a história das diferentes manifestações que adquiriu o movimento libertário no mundo durante as últimas décadas do século XIX e a primeira metade do século XX. Uma história de sociedades operárias, de clandestinidade, de terrorismo, de individualidades rebeldes e de luta política, interpretada pelos anarquistas como antipolítica. Nem também não o seu labor ideológico-cultural,  a criação de canais de comunicação e informação ou  a posta em prática de toda uma rede cultural alternativa, proletária, de base coletiva.

E importar muito, pelo contrário, e daí a validade e atualidade das suas propostas, a crítica anarquista do poder político e as suas falacias a respeito da desordem e a espontaneidade.  Vendo a história com esses lentes, as revoluções não são obra do trabalho de partidos revolucionários,  "senão o resultado de uma ação espontânea e improvisada ("aventurismo", no léxico marxista)". E os movimentos sociais organizados são, "o produto e não a causa" dos protestos e manifestações descoordenadas. E para finalizar, "os grandes lucros emancipadores da liberdade humana não foram o resultado de procedimentos institucionais ordenados senão da ação espontânea desordenada e impredecível que abriu uma fractura na ordem social desde abaixo". A tropa existe, sem dúvida, mas o que importam são os indivíduos. Aí arranca e conclui o seu "elogio do anarquismo".
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