04/06/2014

"Os estudantes endividados não protestam"

Entrevista a David Harvey. David Harvey é professor de Antropologia e Geografia no Graduate Center da City University of New York (CUNY), diretor do Center for Place, Culture and Politics, e autor de numerosos livros, o mais recente dos quais é Seventeen Contradictions and the End of Capitalism (Profile Press, Londres, e Oxford University Press, Nova York), ensinou O Capital de Karl Marx durante mais de 40 anos.



Philip Stalhandske, do diário sueco Lundagård, entrevistou a David Harvey durante a sua recente visita à Universidade de Lund. Um Harvey dececionar pela falta de um movimento estudantil radical: "Acho que os estudantes têm que autoorganizar-se".

David Harvey descreve o segundo volume de Das Kapital de Karl Marx como "o livro mais aburrido que se tenha escrito". A sua obra teórica, uma introdução algo mais interessante, começou como uma reflexão sobre os aspetos contraditórios do capitalismo, cujo último resultado é o livro Seventeen Contradictions and the End of Capitalism.

Após um dia no que apresentou o seu livro em um auditório atestado e fez parte do tribunal de uma leitura de tese, Lundagård se reúne com um David Harvey ligeiramente cansado no Grand Hotel de Lund.

Afirmava você hoje na sua intervenção que "os estudantes endeudados não protestam". Por que pensa que é assim e quem acha que se beneficia disso?


Bom, trata-se de uma afirmação geral, não tenho provas empíricas. Mas o verdadeiro é que os proprietários de morada que estão endividados se mostram politicamente ativos seguindo um rumo mais bem reacionário. Acho que resulta bastante notável que parte do acréscimo das matrículas que provocou em um princípio a indignação estudantil e a sua reação [em Grã-Bretanha] não acabe gerando um movimento estudantil perdurável. A minha conclusão, que tem muito de conjetura o mesmo que de bem informada, é que o endividamento que está a dominar o corpo estudantil foi, para começar, aceitado, e que ao mesmo tempo se trata de algo que vai manter à gente em uma situação de servidão por dívidas durante uma considerável parte da sua vida.

Pensa então que este endividamento criou ou criará um corpo estudantil mais reacionário?

Não sê se criará um corpo estudantil mais reacionário. Desde depois, não desencadeou o grau de ativismo que eu esperava que se tivesse produzido.  Do mesmo modo que em Grã-Bretanha a imposição das taxas de matrícula não gerou uma campanha em longo prazo de ampla agitação em pró da supressão destas taxas. Penso que se neste caso tivesse uma agitação em massa, ter-se-ia feito muito difícil para o Partido Laborista não ter dado o seu respaldo à abolição das taxas. Acho de novo que faz parte desta aquiescência à aceitação da mercantilização da educação superior, à que eu acho que teria que se ter resistido mais cortantemente.

Mencionou a importância de fazer chegar a informação e de que "bem pudesse ser que tivéssemos um movimento nas nossas mãos" se esta informação tivesse uma ampla difusão. Qual acha você que deveria ser o método para isso e a quem deveria se dirigir?

Acho que os estudantes mesmos têm que autoorganizar-se e há sinais disso, pequenos grupos de estudantes que tentam rotundamente gerar um movimento. Mas a minha impressão é que se enfrentam a uma enorme indiferença por parte da grande massa do corpo estudantil.

Mas bastará com a informação ou existe uma "necessidade", se essa é a palavra correta, de que se empurre ainda mais à população antes de que se forme um movimento?

Há certas condições necessárias para que surja um movimento. Uma condição necessária, que eu acho que não cumpre a liderança da esquerda, consiste em uma verdadeira visão da alternativa. Muita gente perguntará "onde está a alternativa?" e "que classe de visão tem você?". Agora bem, oferecer alguma visão de algum tipo é um requisito prévio muito importante para qualquer movimento, mas isso não garante um movimento?.

A minha visão dos processos de mudança social é que precisas mudanças simultâneas em muitas dimensões, entre eles os das nossas conceções mentais do mundo. E as nossas conceções mentais do mundo viram-se encurraladas pela forma em que se estruturou a atividade de oposição. Se queres denunciar a discriminação, tens que mostrar o prejuízo e a intencionalidade. A política de vitimização não é uma boa política de solidariedade. As vitimas podem apresentar-se e pode que algumas possam contar um drama que baste para conseguir compensações ou remédios. Mas não se faz nada pela grande massa da população. De maneira que a história do drama se converte na forma principal da política ou o remédio de alguns males.

O que a esquerda, me parece, não compreende é que está a ser encurralada nessa classe de oposição. O que de facto a volta bastante impotente quando se trata de movimentos solidários de massas. De maneira que há uma luta por encontrar formas de expressar uma oposição em massa a um sistema que erigiu uma política na que as únicas possibilidades políticas consistem neste tipo de política do vitimismo, o que não vai levar a nenhuma mudança radical. Uma vez que entendamos a sofisticação do encurralamento neoliberal da política desta maneira, temos que aprender formas do transcender, mas não acho que isso o tenhamos aprendido neste momento?.

O contraargumento mais comum por parte da esquerda com respeito ao tipo de política que você promove é que esta solidariedade humanitária vai destinada habitualmente aos homens brancos.

Acho que há razões sólidas para ser antirracistas e tomar-se muito em sério as políticas de género. A dificuldade estriba em que se não prestas atenção ao modo em que o "motor económico" do capitalismo faz-lhe a puñeta à gente, estás a perder-te boa parte do mais importante. Assim, por exemplo, pode que tenha quatro, ou seis, milhões de pessoas nos Estados Unidos que perderam os seus lares, e uma porção desproporcionada das mesmas são imigrantes ou comunidades afro-americanas e mulheres. Mas o impulso real que levou ao crac não se pode explicar analisando raça e género. As suas repercussões filtraram-se através da raça e o género, mas as suas origens, não.

Que possibilidades têm as universidades como espaços de luta?


Há gente que às vezes me diz "tu estás aí metido no mundo académico" e "terias que ir a uma açoria" ou algo parecido. Bom, da mesma maneira que em uma açoria precisas trabalhadores do aço que possam fazer de agitadores, precisas gente que mantenha espaços abertos dentro da universidade para essa classe de produção que é contra-hegemónica. E isso precisa muito esforço, muito trabalho e muito compromisso.
Postar um comentário