04/06/2014

Bakúnine: um revolucionário entre revoluções

Julian Vadillo. Artigo tirado de Diagonal (aqui) e traduzido por nós. O negrito é nosso.




O 18 de maio de 1814 (30 de maio segundo o calendário ocidental) nasceu na localidade de Premujino Mijaíl Alexandrovich Bakúnine. Cumprem-se pois 200 anos do nascimento de umas das figuras fundamentais na história dos movimentos revolucionários e operários do século XIX que marcará o devir do século XX. Porque a vida de Bakúnine sempre discorreu entre organizações, conspirações e processos revolucionários.

Bakúnine foi uma mente inquieta que bebeu de vários focos. O primeiro deles, a própria tradição revolucionária russa. Bakúnine começou uma carreira militar que cedo abandonou. Tomou contacto com personagens como os revolucionários Alexander Herzen ou Nikolai Ogarev; estudou as epopeias rebeldes de Stenka Razin no século XVII ou de Yemelian Pugachov no século XVIII, e também a revolução liberal decembrista de 1825.

Mas o sistema czarista de Nicolas I era demasiado estreito para a mentalidade de Bakúnine. Para continuar os seus estudos de filosofia viajou a Europa ocidental. Ali conheceu a filosofia de Hegel, de Kant, etc. Bakúnine não só aprofundou nos seus estudos de filosofia, também se vinculou aos movimentos revolucionários e políticos da época. Em Paris conheceu a Marx, Engels e Proudhon. Todos lhe fascinaram sem que por isso eludisse a possibilidade de exercer crítica sobre os mesmos. Em 1848, uma onda revolucionária percorreu a Europa. Foi um momento decisivo para o desenvolvimento do movimento socialista e contou com as contribuições do proudhonianismo ou do Manifesto Comunista de Marx e Engels. França começou a experimentar avances operários, frenados pela imposição do Império por parte de Luís Napoleão III. Os ecos de 1848 deixaram-se sentir na Alemanha onde Bakúnine teve uma participação destacada. Depois dos distúrbios gerados por uma geração de estudantes dispostos a mudar o curso dos acontecimentos, Bakúnine conheceu ao revolucionário Huebner e ao músico Richard Wagner. Participaram na rebelião popular de Dresde de 1849, que foi calcada com severidade. Marx reconheceu a importância de Bakúnine nos acontecimentos.

Perseguido por quase todos os governos da Europa, Bakúnine foi deportado a Rússia, onde ingressou na prisão de Pedro e Pablo. Submetido a torturas e obrigado a sacar supostas confissões que foram utilizadas anteriormente pelos seus rivais políticos, foi deportado a Sibéria, de onde se evadiu em 1861 para chegar a Inglaterra pouco tempo depois.

Durante este período, Bakúnine nutriu o seu pensamento. Tinha refletido sobre a religião, o papel do Estado, o nacionalismo, a organização revolucionária e as possibilidades de transformação. As tendências de Herzen e Ogarev ao redor do jornal Kolokol (Sino) ficaram-se-lhe estreitas. Decidiu-se a fundar então a Aliança de Socialistas Revolucionários, que depois foi a Aliança da Democracia Socialista.

Bakúnine era já uma referência a nível internacional e o seu pensamento teve eco até no seio da mesma Rússia. Afiliou-se à Associação Internacional dos Trabalhadores. No seio da AIT, Bakúnine discutiu com Marx pelo modelo de organização e as finalidades revolucionárias. Para Marx a AIT devia ser uma organização centralizada onde o Conselho Geral tivesse capacidade decisória. Pelo contrário, Bakúnine e também os proudhonianos optavam por uma estrutura federal, onde as secções marcassem o funcionamento da mesma e o Conselho Geral fosse só um órgão de relações e executivo.

No meio destes debates a situação da Europa continuava a ser convulsa. Bakúnine participou da tomada da Câmara municipal na Comuna de Lião, formando um Comité para a Salvação da França em pleno ataque prussiano. Teve que fugir a Marselha e se refugiou em Locarno, em casa do seu amigo Cafiero. Bakúnine não participou da Comuna de Paris de 1871 mas apoiou aos revolucionários parisinos.

A divergência de opiniões entre Marx e Bakúnine provocou a rutura da Internacional. No congresso de Haia foram expulsos pelo setor autoritário Guillaume, Schwitzguebel e o próprio Bakúnine. Os anti-autoritários consideraram esta expulsão uma manobra de Marx e celebraram um congresso em Saint-Imier para poder coordenar-se.

Bakúnine, muito doente, seguiu participando na organização e processos revolucionários. O 1 de julho de 1876 faleceu em Berna um revolucionário que marcou a história do movimento operário e anarquista para a posteridade. Apesar de que ao pé da sua tumba diversas escolas do socialismo propuseram a necessidade da unidade do proletariado, esta nunca se alcançou.

Leituras selecionadas


Organização
As bases organizativas e o modelo económico coletivista desenvolveu-o Bakúnine em muitos textos. Em 1868 escreveu Federalismo, socialismo e antiteologismo, um livro central para entendermos estas questões e base também para a crítica à religião em outros textos.

A ideia de deus
Uma base fundamental do anarquismo é o ateísmo. E foi precisamente Bakúnine quem melhor marco as bases desse pensamento com critérios sólidos. Em 1871 escreveu quiçá a sua obra mais destacada, titulada Deus e o Estado. É a obra mais estendida de Bakunin.

Antiautoritarismo
A crítica ao Estado em todas as suas formas e a crítica mais dura ao marxismo realiza-a Bakúnine em Estatismo e anarquia, escrita em 1873. Nela Bakunin propõe a viabilidade de viver em uma sociedade antiautoritaria e sem Estado.
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