09/06/2014

O "marxismo" como ópio dos sedicentes marxistas: carta aberta duma keynesiana a um marxista sedicente

Joan Robison (1903-1983), uma das mais reconhecidas economistas inglesas. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido por nós desde a tradução castelhana realizada por Antoni Domènech.



O texto de Joan Robinson que a seguir se reproduz foi originalmente publicado por estudantes de esquerda de Oxford em 1953. É uma estupenda polémica, politicamente amistosa, mas analiticamente demolidora, com um marxista ortodoxo da época (que tipicamente confundia a ciência com a paixão do escoliasta). A senhora Robinson foi uma das maiores economistas do século XX, e o seu texto, cheio de vigor e clareza mental, não perdeu um ápice de atualidade; ao invés. Faz pouco cumpriu-se o 40 aniversário da sua morte. Valha esta publicação para lembrá-la e recomendá-la calorosamente agora que a crise do capitalismo permitiu que volte a sacar cabeça o pensamento económico-cientista sério, isto é, nem acriticamente apologético do existente, nem limitado "criticamente" a puros labores escolásticas. 

Previno-lhe: vai resultar-lhe a você muito árduo seguir esta carta. E não porque -isso espero-  seja muito difícil -não importunar-lhe-ei com fórmulas algébricas, nem com curvas de indiferença-, senão porque considerar-lhe-á tão desconcertante que não saberá você como lhes a tomar.

Começarei com uma declaração pessoal. É você muito cortês e tenta que a mim passe inadvertido, mas sendo eu uma economista burguesa, o seu único possível interesse em me prestar atenção é o de pillarme em algum sinsentido. Pior ainda: eu sou uma keynesiana de esquerda; saquei conclusões mais vermelhas que azuis da Teoria Geral muito antes de que o livro fosse publicado. Encontrei-me na privilegiada posição de pertencer ao grupo de amigos que trabalhavam com Keynes quando o estava a escrever. Por conseguinte, fui a primeira gota vertida no frasco chamado "keynesianismo de esquerda". Além disso, agora mesmo ocupo um grande volume do conteúdo desse frasco, porque, por enquanto, boa parte do resto se tem evaporado. Muito bem; já sabe você o pior.

Mas rogo-lhe que pense em mim em termos dialécticos. O primeiro princípio da dialética é que o significado de um enunciado depende do que nega. De maneira que o mesmo enunciado tem dois significados, segundo se vinga a ele desde acima ou desde abaixo. Se mais ou menos desde que ângulo vem você a Keynes, e me percato bastante bem do seu ponto de vista. Use você também um pouco de dialética, e trate de percatarse do meu. Eu estudei em uma época em que a teoria económica vulgar se achava em um estado particularmente vulgar. Tínhamos uma Grã-Bretanha com nunca menos de um milhão de operários desempregados, e aí estava eu, com um diretor de tese que me ensinava que era logicamente impossível que tivesse desemprego, dada a Lei de Say.

E vai Keynes e prova que a Lei de Say é um sinsentido (já o tinha provado Marx, greve o dizer, mas o meu diretor de tese jamais me tinha falado das teses de Marx ao respeito). Além disso -e por isso sou uma keynesiana de esquerda, e não do outro tipo-, me percaté no ponto de que Keynes mostrava que o desemprego ia ser um osso muito duro de roer, porque não é um mero acidente: cumpre uma função. Em uma palavra: Keynes pôs na minha cabeça a ideia mesma do exército laboral de reserva que o meu professor tão meticulosamente tinha mantido afastada de mim.

Se conserva você um adarme de dialética, dar-se-á conta de que o enunciado "Sou uma keynesiana" tem um significado completamente diferente dito por mim e dito por você (claro que você não poderia dizer em nenhum caso).

O que trato de lhe dizer, e que lhe vai deixar a você ou demasiado anonadado ou demasiado encolerizado -dependerá do temperamento- para poder compreender o resto desta carta, é isto: eu entendo a Marx infinitamente melhor que você. (Em um minuto dar-lhe-ei uma explicação histórica interessante do por quê, se é que não se ficou você já  completamente gelado -ou alcançou o ponto de incandescencia-, antes de que lha solte.)

Quando digo que entendo a Marx melhor que você, não quero dizer que conheça o texto melhor que você. Se você me sai cuspindo citas, deixar-me-á no ponto perpleja. O certo é que eu nego-me desde o princípio a participar nesse jueguinho.

O que quero dizer é que eu levo a Marx na medula óssea e você, a flor de lábio. Ponhamos um exemplo: a ideia de que o capital constante incorpora força de trabalho gastada no passado. Para você, este aserto tem que se provar com cichos de verba hegeliana. Em mudança, eu limito-me a dizer: (sem, na verdade, servir-me desse pomposo léxico): "Naturalmente!" E daí outra coisa poderia ser?".

Por isso me deixou você tão terrivelmente confundida. Como andava todo o momento tratando do provar, eu pensei que estava você falando de outra coisa -não consegui adivinhar qual- que precisava provar-se.

Analogamente, suponha que os dois queremos discutir sobre um passo abstruso do Capital, por exemplo, o do esquema do final do Volume II. Que faz você? Abre o volume, e joga um vistazo. Que faço eu? Agarro o primeiro sobre que à mão tenho e, no dorso, trabalho o problema.

E agora lhe vou dizer algo ainda pior. Suponha que, a título de mera curiosidade, vou ao Capital e me encontro com que a resposta que escrevi no velho sobre não coincide com o que diz o livro. Que faço? Revisão a minha solução, e se não posso descobrir nenhum erro nela, procuro o erro no livro. Bom, suponho que aqui deveria deixar já a coisa, porque você penará que me voltei louca de atar. Mas se pode aguentar e seguir lendo um pouco mais, tratarei de explicar-lho.

Eu fui educada em Cambridge, como lhe disse, em uma época em que a teoria económica vulgar tinha chegado ao fundo do poço da vulgaridad. Com todo e com isso, entre tanto disparate, se tinha conservado uma herança preciosa: o hábito ricardiano de pensar.

Não é coisa que se possa aprender nos livros. Se queres aprender a montar em bicicleta, não será com um curso por correspondência, verdade? Claro que não; fá-te-ás com uma velha bicicleta, montarás nela, cair-te-ás, lastimarás-te os joelhos, voltarás a subir e irás dando tumbos, até que, de repente, vá, sabes montar em bicicleta!. Seguir um curso de economia em Cambridge era algo parecido. Como montar em bicicleta: uma vez aprendido, é como uma segunda natureza.

Quando leio um passo do Capital, o primeiro para mim é averiguar o significado de c, se o que tinha em mente Marx neste ponto era o estoque total de trabalho incorporado (ele não dá demasiadas pistas aludindo explicitamente ao problema: há que o elaborar a partir do contexto!): então monto em bicicleta e sento-me perfeitamente cómoda.

Para um marxista é farto diferente. Sabe que o que Marx diz tem que ser correto em qualquer caso, a que então desperdiçar energia mental averiguando se c é um stock ou um fluxo?

Chego então a um passo no que Marx diz que quer dizer fluxo, ainda que é evidente pelo contexto que tem que significar stock. Pode você achar o que eu faço então? Baixo-me da bicicleta, corrijo o erro, volto a montar, e sigo.

Pois bem; suponhamos que lhe digo a um marxista: "Fixe-se neste passo: fala de stock ou de fluxo?". O marxista diz: "C é o capital constante", e dá-me uma pequena conferência sobre o significado filosófico do capital constante. E eu, que reponho: "Deixe-se você de capital constante: confundiu Marx um fluxo com um stock?". Replica o marxista: "Como poderia ter cometido um erro? Não sabe que estamos a falar de um génio?!". E dá-me uma pequena conferência sobre a genialidade de Marx. Eu digo-me para os meus adentros: pode que este homem seja um marxista, mas não sabe muito de génios. O teu torpe e lenta mente vai passo a passo, e dá-se tempo para ser concienzuda e evitar deslizes. O teu génio calça botas de sete léguas, vai a toda o estopim deixando atrás pequenos erros aqui e lá sobre o papel (e quem se importa?). E digo: "Deixe-se de genialidades de Marx. Trata-se de fluxo ou de stock?". O marxista, então, se envara um tantito, e muda de tema. E eu me digo para os meus adentros: "Pode que este homem seja um marxista, mas não sabe muito de montar em bicicleta".

O que resulta interessante e curioso em tudo isto é que a ideologia que, como um nevoeiro, rodeava a minha bicicleta quando a montei por vez primeira tinha ser muito diferente da ideologia de Marx, e no entanto, a minha bicicleta tinha que ser a mesma que a sua, com umas quantas melhorias modernizadoras aqui e lá e uns quantos empeoramientos modernizadores aqui e lá. O que vou dizer agora está mais na sua linha, de modo que relaxe por um momento.

Ricardo existiu em um momento muito particular da história da Inglaterra, quando estava em trance de dobrar tão bruscamente um canto, que as posições progressistas e reaccionarias mudaram de bando no curso de uma geração. Ele se achava no canto mesmo, quando os capitalistas estavam a pique de superar à velha aristocracia terrateniente e a substituir como classe dominante. Ricardo estava no bando progressista. A sua preocupação fundamental passava por mostrar que os terratenientes eram parasitas da sociedade. Ao fazê-lo, converteu-se em verdadeiro sentido no campeão dos capitalistas. Eram parte das forças produtivas enfrentadas aos parasitas (dada a Lei de Ferro dos Salários, os operários sairiam malparados, passasse o que passasse).

Ricardo teve dois seguidores tão capazes como bem treinados intelectualmente: Marx e Marshall. O que enquanto passou é que a história da Inglaterra tinha dobrado o canto, e os terratenientes tinham deixado de estar em questão. Agora se tratava dos capitalistas. Marx deu assim a volta ao argumento de Ricardo: os capitalistas são extremamente parecidos aos terratenientes. E Marshall deu-lhe a volta contrária: os terratenientes são extremamente parecidos aos capitalistas. Justo à volta do canto da história da Inglaterra, o que se observa são duas bicicletas da mesma fatura: uma montada pela esquerda e outra pela direita.

Marshall fez algo assaz mais efetivo que mudar a resposta. Mudou a pergunta. Para Ricardo, a Teoria do Valor era um médio para estudar a distribuição do produto total entre o salário, a renda e o benefício, considerados a cada um deles como um tudo. Enorme questão. Marshall converteu o significado do Valor em uma pequena questão: por que um ovo custa mais que uma xícara de chá? Pode ser uma questão ínfima, mas é, ao mesmo tempo, muito difícil e complexa. Toma muito tempo e muita álgebra elaborar uma teoria para respondê-la. Por isso manteve aos seus discípulos ocupados no assunto durante 50 anos. Não tinham tempo de pensar na grande questão, nem sequer de lembrar que subsistia uma grande questão, porque tinham que deslomarse elaborando a teoria do preço de uma xícara de chá.

Keynes recuperou a grande questão. Começou pensado em termos ricardianos: se o produto devia compreender-se como um tudo, a que preocupar por uma xícara de chá? Quando pensas no produto como um tudo, os preços relativos deixam de importar (incluídos os preços relativos do dinheiro e do salário). O que entra no argumento é o nível de preços, mas entra como complicação, não como assunto principal. Se tens certa prática com a bicicleta de Ricardo, não precisas te parar e te perguntar que fazer em um caso como esse; simplesmente, faze-lo. Prescindirás da complicação, até que trabalhes suficientemente no problema principal. De maneira que Keynes começou deixando de lado os preços do dinheiro. A xícara de chá de Marshall se evaporaba como a fumaça. Mas se não podes servir do dinheiro, que unidade de valor usarás? Uma hora de tempo de trabalho humano. É a medida mais acessível e plausible, e pelo mesmo, obviamente, a mais usadera.  Não tens que provar nada; simplesmente, fazê-lo.

Pois bem; nisso estamos, de volta às grandes questões de Ricardo. E servimo-nos da unidade de valor proposta por Marx. De que se queixa você?

E faça-me o favor de sacar os narizes de Hegel de aqui. Que demónios pintam entre Ricardo e eu?
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