20/11/2013

Vindicação do camarada Orwell

Scott Poole. Artigo tirado de SinPermiso (aqui). 

 

Durante a primeira semana de revelações referentes ao programa "Prisma" da NSA [Agência de Segurança Nacional norte-americana], George Orwell pôs-se  de máxima atualidade.

 Ou, para ser mais precisos, ler 1984 de Orwell (ou tê-lo ao menos) voltou-se de absoluta atualidade. As vendas deste clássico dispararam-se um 7.000% em Amazon aos poucos dias das primeiras informações sobre esta nova e sinistra forma da nossa cultura de vigilância eletrónica.

A repentina popularidade de Orwell implica um preço para o legado do autor. Ler 1984 e Animal Farm proporciona tão só uma introdução simplista a um pensador complexo. Ademais, a sua escritura e a sua atuação no meio das lutas intestinas da esquerda fizeram com que a sua herança seja difícil de compreender sem uma análise precisa, tanto da sua vida como das suas obras.

Orwell converteu-se em um espelho no que podem se olhar toda a sorte de posições políticas e se ver infalivelmente refletidas. Já faz tempo que há que reivindicar a Orwell como camarada na luta por um mundo melhor.

Desgraçadamente, não são poucos os seguidores de Rum Paul [extremista republicano norte-americano], anarquistas por livre e "hacktivists" [ativistas digitais] libertários que consideram 1984 como uma espécie de livro emparelhado com Atlas Shrugged [romance de Ayn Rand]. Até Glenn Beck [conhecido e intemperante jornalista ultra da corrente Fox] cita com frequência pedaços escolhidos de Orwell. O difunto Christopher Hitchens confundiu ainda mais as coisas ao utilizar a Orwell como arquétipo do giro que lhe afastou da esquerda ao final da sua vida e o seu posterior apoio à guerra contra o terrorismo de George Bush.

Animal Farm merece atenção especial por si mesmo, já que se converteu em um importante documento para os defensores do capital e o bastante conhecido como para o citar sem a ter lido. Orwell teve dificuldades para que o livro se publicasse, menos pelo seu tom antiestalinista que pelo facto de que as editoriais achavam que a sua mensagem glorificava as intenções e metas originais de outubro de 1917. Assim, por exemplo, ao poeta T. S. Eliot, profundamente reacionário, lhe desagradava intensamente, pois achava que Animal Farm sugeria que a resposta ao comunismo consistia em "mais comunismo".

Para obscurecer ainda mais a questão, o conhecimento do público em general provem na sua maior parte de um filme de desenhos animados de 1954 que, como demonstrou  Daniel J. Leab no seu excelente Orwell Subverted, recebeu financiamento da CIA. Realizada em vários anos após a morte de Orwell, o filme representa uma séria revisão da novela e vem a sugerir, não que a Revolução Russa se tivesse desvirtuado, senão que não deveria ter ocorrido em absoluto. As representações positivas de León Trotsky ("Bola de neve" no livro) aparecem eliminadas ou atenuadas. Ao "Velho Maior", o idoso filósofo que é uma mistura na novela de Marx e Lenine, se lhe faz aparecer gordo, estúpido e ridículo no filme.  Nos últimos anos da sua vida, Orwell mesmo contribuiu à confusão sobre a sua política. Firmemente à esquerda, vinculou-se a socialistas anticomunistas que ficaram profundamente desencantados com o rumo adotado pela política exterior soviética. Na sua colaboração com a revista Partisan Review, Orwell converteu-se em acérrimo partidário da Oposição de Esquerda antiestalinista.

Nos últimos meses da sua vida, tomou ademais a fatídica decisão de redigir uma lista de 35 nomes de simpatizantes estalinistas e apologistas liberal-burgueses dos "julgamentos farsa" de Staline. Há que fazer notar que Orwell tinha a esperança de que o governo britânico a utilizasse primordialmente para a propaganda; não era o tipo de "lista" tão familiar pelo Comité de Atividades Antinorteamericanas. Com tudo, foi uma decisão indefendível por parte de um moribundo do que o MI5 [a espionagem britânica] dispunha de um dossier considerável que detalhava as suas atividades e vínculos "comunistas".

Os próprios textos de Orwell, bem prolíficos, nos oferecem um maior entendimento destes factos isolados em relacionamento com a sua biografia. Na sua pluma (e no seu fuzil durante a Guerra Civil espanhola), rara vez teve o fascismo maior inimigo e o socialismo maior aderente.

Tome-se, por exemplo, o seu The Road to Wigan Pier, uma das declarações mais contundentes alguma vez escritas sobre a posição do socialismo. A primeira parte apresenta um retrato profundamente comovente das condições de emprego e da crua experiência vital da vida entre os mineiros do carvão do norte da Inglaterra. Recreia o mundo de "essas pobres bestas de carga baixo terra, enegrecidos até os olhos, que moviam as suas pás com braços e músculos ventrais de aço".

A segunda metade do livro constitui uma ressonante defesa de posições de extrema esquerda. Após oferecer uma das mais conscienciosas e elegantes análises das atitudes de classe escritas em inglês, Orwell afirma no essencial que nenhum homem no seu são julgamento pode deixar de ver que o socialismo é a única resposta real a estes problemas, e só quem têm  a "corrompida motivação" de "aferrar-se ao atual sistema social" poderiam opor-se a isso.

E no entanto, sendo Orwell o que é, em boa parte da sua segunda metade não se anda com rodeios na sua crítica do marxismo tal como se expressa na política. É despiedado na sua crítica dos "snobs bolcheviques" que tendem a   rematar casando-se com gente de possíveis e se fazem conservadores para quando chegam aos 35. Não se anda com brinquedos com os intelectuais comunistas que lhe falam à classe operária apenas no abstruso linguagem da teoria. Poder-nos-íamos arranjar, afirma, "com algo menos de conversa sobre capitalistas e proprietários e algo mais a respeito daqueles que roubam e aqueles aos que lhes roubam".

Em general, Orwell observava que o socialismo da sua época falhava à hora de acometer a sua tarefa mais básica: contribuir a fomentar a consciência de classe. Que diferença, se pergunta em The Road, supõe que um burguês se afilie ao Partido Comunista de Grã-Bretanha? Não grande coisa, conclui, na medida em que se deteta demasiado com frequência um tufo a diletantismo.

O que fazia falta, achava ele, era um compromisso inquebrável com a luta de classes, mais que essa sorte de progressismo passageiro que com excessiva frequência mina a construção de um movimento de massas entre a gente. Isto ódio pelas camarilhas esquerdistas e a gíria para iniciados levava às vezes a Orwell a uma retórica simplista que hoje aproveitam os grasnidos conservadores. O vegetarianismo voltou-no carrancudo. O ethos masculino que compartilhava com outros socialistas como Jack London e Ernest Hemingway não lhe deixou ver as conexões entre a disponibilidade do controlo de natalidade e a justiça económica. O seu tom estentórico nestes assuntos alimentou-se do seu insistência na centralidade da classe operária. Afinal de contas, a luta de classes significava exatamente isso: guerra entre aqueles que roubam e aqueles aos que lhes roubam, e não uma subcultura de extravagantes opções políticas. Os socialistas são muitas vezes, segundo sugeria, o pior reclamo do socialismo. 

Orwell também se mostra profético no seu debate sobre a redefinição das categorias marxistas para o novo mundo que via nascer. Preocupava-lhe que tivesse demasiada propaganda que representasse ao "operário mítico" como o fornido pedreiro ou mineiro com macaco. Sabia que o "operário" que procedia diretamente do realismo soviético seria substituído por um novo tipo de proletariado que trabalharia em uma nova fase do capitalismo.

Que há, perguntava, "do miserável exército de dependentes e empregados?". A sua ideia pressagia nossa crescente consciência a respeito de construir um movimento que inclua a auxiliares de escritório e empregados de serviços de atenção telefónica, a dependentes de armazéns como Wal-Mart e trabalhadores de correntes de comida rápida. Orwell sabia que se usamos a linguagem do explorador e o explodido, a esquerda poderia defender a sua postura. Quem se enfrentam à feroz natureza  do capitalismo nas longas horas de trabalho da cada dia conhecem de primeira mão a exploração. Não são diletantes e, como nos recorda Orwell, a revolução lhes pertence. 

A luta por criar uma esquerda relevante dependerá da capacidade de falar uma linguagem de luta de classes sem cair no obscurantismo teórico comum aos marxistas da sociedade ocidental hoje em dia. A causticidade de Orwell em The Road teria ainda mais firmeza se pudesse contemplar o destino que teve o marxismo das últimas décadas. Nos EUA, "marxista" aparece mais com frequência como elemento de subculturas académicas de moda, mais que como ideologia de um movimento de massas.

O primeiro passo para reivindicar a Orwell consiste em ler a Orwell. The Road to Wigan Pier e Homage to Catalonia são os locais evidentes pelos que começar. Este último, referido às suas experiências de combate com os trotskistas na Guerra Civil espanhola, põe em contexto a sua postura veementemente antiestalinista.

Vale também a pena recordar, antes que nada, que Orwell foi um ensaista inveterado, um dos mais prolíficos autores de reseñas de livros, filmes, peças teatrais e ideias que produzisse no século XX. Ensaios como "Podem ser felizes os socialistas?" e inclusive trabalhos que aparentemente não guardam relacionamento sobre Charles Dickens, Tolstoi e beber chá estão cheios de análises críticos do capitalismo industrial que ele conhecia bem.

O nome de Orwell e o seu 1984 segue tendo uma ressonância tão poderosa que não é surpreendente que muitos procurem o seu visto bom. E, como no caso de todos os pensadores complexos, é possível encontrar tanto nos seus escritos como nas experiências da sua vida citas em apoio de uma multidão de ideologias.

O uso mercenário de frases e alíneas da obra de Orwell propõe-se apropriar-se dele com fins reacionários em local de apoiar as metas pela que passou a sua vida lutando.  A Glenn Beck deveria cair-lhe-lhe a cara de vergonha, embora careça dela. E Christopher Hitchens fez um magro favor pretendendo tê-lo como santo padrão. George Orwell pertence-lhe ao povo.
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