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04/07/2013

Egito: a esquerda e o golpe de estado

Santiago Alba Rico. Artigo tirado de Gara (aqui). 



Explicá-lo-ei do modo mais singelo. Faz dois anos e médio pôs-se em marcha no mundo árabe um processo inesperado de irrupção dos povos (chamado às vezes «primavera árabe») que abriu uma modesta mas luminosa oportunidade na zona. Eu chamá-la-ia sem local a dúvidas «revolução».

Não foi uma revolução socialista e não foi dirigida pela esquerda. Também não foi uma revolução islâmica e os islamistas tiveram assim mesmo um papel muito reduzido. Mas como foi uma revolução democrática, saiu a flutue o verdadeiro relacionamento de forças na zona -reprimida durante décadas- e as eleições, ali onde as teve, levaram ao governo aos partidos islamistas da orbita dos Irmãos Muçulmanos. Tanto a esquerda da região, avelhentada e estalinista, como os partidos islamistas, que incubaban sonhos de califato, cederam à pressão popular e adotaram sinceros programas democráticos. Os fulul da ditadura, à sua vez, reciclaram-se em democratas e, desde diferentes organizações e partidos, em condições sem precedentes de liberdade de expressão e reunião, começaram a trabalhar para recobrar o poder.

Sei que não importa o que diga, pois em qualquer caso se mal-entenderão as minhas palavras. Sou comunista e se algo me inspira pouca simpatia é a combinação de neoliberalismo económico e conservadurismo religioso. Nos dois últimos anos não deixei de chamar a atenção, no Egipto e Tunísia, sobre a cumplicidade dos HHMM e Nahda com as instituições financeiras internacionais, a sua falta de programa social e económico e o seu recurso às mesmas táticas repressivas da ditadura. Mas também fiz questão de alertar contra a tentação de combater aos islamistas por qualquer médio, em alianças antinaturais com as mãos negras da ditadura ou mediante estratégias de acosso e derrubo que, a tenor do atual relacionamento de forças, só podem favorecer a volta dos velhos e trágicos modelos de gestão regional (com a guerra civil argelina, tão próxima, como sombra e advertência). O processo que começou na Tunísia abriu um enquadramento instável e fluído no que democracia, revolução e involução se citam, se procuram, chocam, negociam e se combatem. Ao meu julgamento, o mais revolucionário que se pode fazer nestes momentos no Egipto, e em todo mundo árabe, é tratar de construir um Estado de Direito democrático enquanto se trabalha em médio prazo -gramscianamente- em um projeto contrahegemónico baseado no descontentamento social.

Pois bem, a vontade de acelerar a revolução sem ter padrão a democracia (que no mundo árabe é já revolucionária!), e a despecho do relacionamento de forças, dá todas as vantagens aos projetos involutivos islamofóbicos. Na Tunísia na forma de uma «transição pacífica à ditadura»; no Egipto, como estamos a ver, na forma clássica, terrível, de uma intervenção militar que, neste caso, só pode desembocar em uma guerra civil.

Milhões de egípcios saíram à rua de um modo saudável, em asas de uma indignação justa e valente, no prolongamento de um movimento popular que é a única garantia no mundo árabe -e em qualquer parte- de uma verdadeira democracia. Mas esse movimento popular inscreve-se -deixem-me dizê-lo de maneira provocativa e brutal- em uma estratégia de acosso e derrubo contra os HHMM orquestrada e preparada com arranjo a um plano muito similar ao que derrocou a Além em Chile ou ao que tentou derrocar a Chávez em Venezuela.

Deixem-me ser ainda mais provocativo: um verdadeiro setor da esquerda -árabe e mundial- quando há revoluções as chama conspirações e quando há conspirações considera que, então sim, chegou a verdadeira revolução. Contra o islamismo os golpes de Estado são revolucionários! Embora trate-se do exército egípcio, o mais proestadounidense do mundo, o mesmo que disparou contra o povo e torturou aos revolucionários até faz poucos meses!

No Egipto a esquerda faz parte da Frente Nacional de Salvação, coalizão também da direita neoliberal e dos fulul da ditadura, e o seu máximo representante, Hamdin Sabahi, que ocupou o terceiro local nas eleições presidenciais, pediu várias vezes nos últimos dias a intervenção do exército e saudou os seus «revolucionários» comunicados. O mesmo no caso de Tamarrud, o movimento responsável das mobilizações do 30 de junho, cujos porta-vozes confessam abertamente ter coordenado os protestos com a cúpula militar, e que responderam à assadiana declaração das forças armadas («daremos as nossas vidas combatendo aos terroristas, extremistas e ignorantes») reclamando a imediata detenção do presidente eleito Mohamed Mursi.

Se o presidente eleito não se vai, já conhecemos o «roteiro» anunciado pelo exército: formará um junto cívico-militar para preparar a transição, dissolverá o parlamento, suspenderá a constituição e aplicará mão de ferro a todos os «terroristas, extremistas e ignorantes» que se oponham ao seu projeto de salvação nacional.

Soa-nos o plano? A mim muito. Temos a suficiente experiência histórica para saber que significa isso. Não parece que tenha já muitas alternativas. O rancor histórico acumulado durante décadas pelas forças islamistas parecia ter-se dissolvido na sua vitória eleitoral e nessa pragmática reivindicação teatral, expressada com entusiasmo de neófitos, da «democracia parlamentar». Se nega-se-lhes com um golpe de mão o que adquiriram nas urnas, não voltará esse rancor, agora intensificado e legitimado, a uma organização de ideologia e tradição muito pouco democrática, acostumada à clandestinidade e tentada muitas vezes pela luta armada? Pode ocorrer que não seja Síria senão Egipto «a tumba das revoluções árabes». No seu editorial de ontem, Abdelbari Atwan, editorialista de «Ao Quds», evocava o «palco argelino». Sim, disso estamos a falar, mas em um país de 80 milhões de habitantes, ao lado de Israel, e em um contexto explosivo de crescentes conflitos sectarios na Síria e Iraq. Bachar A o-Assad pode-se sentir muito orgulhoso de ter antecipado o novo modelo -o mais velho- contra as ameaças do «terrorismo islâmico». Acabou-se o assunto. Voltamos à «exceção árabe». Moubarak, Ben Ali, Ghadafi, A o-Assad (e os nossos governos ocidentais e os nossos meios ocidentais) tinham razão: o mundo árabe não é democratizável.

E a nossa esquerda, entre tanto, vitoreando ao exército.


11/04/2012

A primavera enfronta o inverno

Mike Davis. Publicado en español na New Left Review, nº 72, enero/febrero 2012 e traducido por Xosé M. Beiras para o site do Encontro Irmandiño.



Nas grandes convulsións, as analoxías voan coma metralla. As electrizantes protestas do 2011 -a inda activa primavera árabe, o 'cálido' vran ibérico e heleno, o 'ocupado' outono nos EEUU- levan sido inevitábelmente comparadas cos anni mirabiles de 1848, 1905, 1968 e 1989. Certamente, algunhas cousas fundamentais seguen a ser aplicábeis e os patróns clásicos repítense. Os tiranos tremen, as cadeas crébanse e os pazos son asaltados. As rúas convírtense en laboratorios máxicos nos que se crian cidadáns e camaradas, e as ideas radicais adquiren un súpeto poder telúrico. Iskra convírtese en Facebook. Mais, persistirá este novo cometa de protesta no ceo invernal, ou é só unha breve e deslumbrante choiva de meteoritos?. Como nos advirte o destino de anteriores journées révolutionnaires, a primavera é a máis curta das estacións, maiormente cando os communards loitan en nome dun 'mundo diferente' do que non teñen un verdadeiro proxecto, nen sequer unha imaxe idealizada.

Mais se cadra iso virá despois. Polo de agora, a supervivencia dos novos movementos sociais -os ocupas, os indignados, os pequenos partidos anticapitalistas en Europa e a nova esquerda árabe- esixe que afundan as suas raigañas na resistencia masiva á catástrofe económica planetaria, cousa que á sua vez presupón -sexamos sinceiros- que a actual fasquía de 'horizontalidade' poda ao cabo encaixar 'verticalidade' abondo como para debater e aplicar estratexias de organización. Hai un camiño estarrecedoramente longo apenas para chegar aos pontos de partida de anteriores intentos de construir un mundo novo. mais, cando menos, unha nova xeración ten encetado destemidamente a andaina.

Acelerará necesariamente esta crise económica a cada pouco máis fonda, que agora engule boa parte do mundo, unha renovación económica (sic) da esquerda?. As 'estampas' que deseño a seguida son as miñas conxeturas. Ideadas para fomentar o debate, son simples matinacións de voz alta a respeito de algunhas das especificidades históricas dos acontecementos de 2011 e dos resultados que poderían dar nos anos vindeiros. A premisa subxacente é que o Segundo Acto do drama conterá principalmente escenas invernais, interpretadas sobre o pano de fondo da queda do crecemento económico baseado nas exportacións, nos países BRIC, e a continuación do estancamento en Europa e nos EEUU.

1.PESADELOS CAPITALISTAS.

En primeiro lugar, debemos render homenaxe ao temor e á pavura que sinten nas altas esferas do capitalismo. O que semellaba inconcebíbel hai só un ano, mesmo para a maioría dos marxistas, é agora unha estadea que adoita visitar as páxinas de opinión da prensa económica: a inminente destrución de boa parte do marco institucional da globalización e enfeblecemento da orde internacional posterior a 1989. Hai unha crecente aprensión perante a posibilidade de que a crise na zona euro, seguida dunha recesión mundial sincronizada, puidera convirtirnos nun mundo similar ao de 1930, con bloques monetarios e comerciais semiautárquicos, entolecidos por resentimentos chovinistas. Neste suposto, deixaría de existir a regramentación económica do diñeiro e da demanda: Estados unidos, demasiado feble; Europa, demasiado desorganizada; e China, con pés de barro, demasiado dependente das exportacións. Cada potencia de segundo rango querería a póliza de seguro que supón o enriquecemento do uranio; as guerras nucleares rexionais convirtiríanse nunha posibilidade. Esaxerado? Se cadra, mais éo tamén a crenza na viaxe de volta no tempo aos entolecidos anos noventa. As nosas mentes analóxicas simplesmente non dan resolto tódalas ecuacións diferenciais xeradas pola incipiente fragmentación da eurozona ou pola rotura dunha xunta no motor do crecemento chinés. Mentras que diversos expertos prediciron con máis ou menos precisión o estampinazo sufrido por Wall Street no 2008, en troques, o que agora se aviciña está moi por riba da predición de calquer Casandra ou, do mesmo xeito, de tres Karl Marx.

2. DE SAIGÓN A KABUL.

Se a apocalipse neoliberal chega a producírese, Washington e Wall Street será vistos como os principais anxos exterminadores, que destruíron simultánemante o sistema financeiro noratlántico e Oriente Meio (ademáis de acabaren con calquer oportunidade de mitigar o desastre climático). As invasións de Irak e Afganistán por parte de Bush pódense considerar en retrospectiva histórica actos da clásica sobre-expansión desmesuradamente fachendosa: rápidas vitorias dos Panzer e espellismos de omnipotencia, seguidos de longas guerras de desgaste e atrocidades que corren o risco de rematar tan mal para Washington coma a aventura de Moscú á outra banda do Oxus un coarto de século antes. Estados Unidos bateu nunha desas frontes cos talibáns, apoiados por Pakistán, e na outra cos chiítas, apoiados por Irán. Inanque aínda xunguido a Israel, capaz de encher os ceos de zunidos asasinos e de coordenar un letal ataque da OTAN, Washington ten sido incapaz de obter unha garantía de inmunidade para as forzas inaquis en Irak, limitando o número de ataques sobre o terreo nun país fundamental de Oriente Meio. Os levantamentos democráticos de Tunisia e Exipto contemplaron a un Obama e unha Clinton obrigados a aplaudiren amabelmente o derrocamento de dous dos seus reximes favoritos.

3. UN 1848 ÁRABE.

A inacabada revolución árabe ten un alcanzo e unha enerxía social épicos, e é unha solpresa histórica similar a 1848 ou 1989. Está a remodelar a xeopolítica do norte de África e Oriente Meio, convirtindo a Israel nun obsoleto posto avanzado da Guerra Fría (e xa que logo máis perigoso e impredicíbel que nunca), e ao mesmo tempo permitindo a Turquía, rexeitada pola UE (cousa que ao cabo semella non ter resultado tan mao), reivindicar unha influencia fundamental en territorios outrora pertencentes ao Imperio otomano. En Exipto e Tunisia, os levantamentos axudaron tamén a afastar o auténtico significado da democracia das versións censuradas que a OTAN distribuíra. Pódense establecer provocativos paralelos entre as 'revolucións florais' pasadas e presentes. Como en 1848 e en 1989, a megaintifada árabe é unha reacción en cadea contra un sistema autocrático rexional, sendo Exipto o análogo a Francia no primeiro exemplo, e cecais a Alemania Oriental no segundo. A función da Rusia contra-revolucionaria desempéñana hoxe Arabia Saudí e os principados do Golfo. Turquía encarna á Inglaterra liberal como modelo rexional de parlamentarismo moderado e prosperidade económica, mentras que os palestinos (estirándomos a analoxía deica o ponto de fractura) son unha romántica causa perdida coma os polacos; os chiítias, estranxeiros irados como eslovacos e serbios. (The Financial Times, pola sua banda, animaba recentemente a Obama a pensar como o 'novo Metternich').

Paga a pena follear os voluminosos escritos de Marx e Engels (así como as posteriores glosas de Trotski) sobre 1848 en percura de ideas a respeito da mecánica fundamental das ditas revolucións. Un exemplo éo a convición de Marx, convirtida co tempo nun dogma, de que ningunha revolución -democrática ou socialista- podería trunfar en Europa até que Rusia fose derrotada nunha grande guerra ou revolucionada dende dentro. Sustituamos por Arabia Saudí, e a tese segue a ter sentido.

4. O PARTIDO DO POVO.

O islam político está a obter un mandato popular tan esmagador coma o que deran os acontecementos de 1989 aos liberais na Europa Oriental (inanque cecais igual de breve). Non podería ter sido douto xeito. No pasado meio século, Israel, EEUU e Arabia Saudí -os dous primeiros invadindo, o terceiro facendo proselitismo- práticamente destruíron a política laica no mundo árabe. De feito, co inevitável óbito do derradeiro baathista no seu bunker de Damasco, os grandes movementos políticos panárabes da década de 1950 (nasserismo, comunismo, baathismo, os Irmáns Musulmáns) terán ficado reducidos aos Irmáns Musulmáns e os seus rivales os wahhabítas.

A Sociedade dos Irmáns Musulmáns, especialmente no seu lugar de nacemento exipcio, é a solteirona suprema dos movementos políticos, e leva agardado máis de 75 anos para asumir o poder malia o apoio masivo en todo o Nilo, que xa se calculaba en varios millóns a finais da década de 1940. A permanencia en cando menos cinco países árabes deste veterano movemento político multinacional é tamén unha das diferencias claves entre o levantamento do 2011 e os seus precedentes europeus. Tanto no 1848 coma no 1989, os movementos democráticos populares só posuían unha organización política embrionaria. En 1848, de feito, non había práticamente ningún partido político de masas no sentido moderno fóra dos Estados Unidos. En 1989-1991, pola contra, o valeiro de organización política e de expertos en relacións públicas axiña foi enchido por unha intimidante caterva de conservadores alemáns e comisarios de Wall Street, que afastaron á maioría dos líderes de base reais.

A Sociedade dos Irmáns Musulmáns, pola contra, presidíu a escena exipcia silandeiramente, como a esfinxe. As suas masivas organizacións-pantalla, que operaban na semilegalidade, construíron impresionantes elementos dun estado alternativo, incluídas cruciais redes de axuda aos pobres. As suas listas de mártires (como o 'Lenin islamista', Sayid Qutb, asasinado por Nasser en 1966) son tan coñecidas para a maioría dos exipcios devotos coma as listas dos reis para os ingleses ou as dos presidentes para os estadounidenses. Malia a sua imaxe temíbel en Oucidente, leva evoluído e agora inclusive abrangue aspectos do islamismo de libre mercado representado polo Partido da Xustiza e o Desenvolvemento en Turquía.

5. O DEZAOITO BRUMARIO EXIPCIO?.

Mais, como claramente demostrou a primeira fase das eleicións parlamentares exipcias, os Irmáns Musulmáns xa non poden afirmar seren os representantes esclusivos da devoción popular. O feito de que o improvisado partido Al-Nour, de tendencia salafista, obtivese arredor do 24% dos votos (fronte ao 38% dos Irmáns) suliña a turbulencia nas bases da sociedade exipcia. De feito, os salafistas, malia terense abstido ao comenzo na revolución do 25 de xaneiro, cecais constitúan agora a meirande organización de cadros do mundo sunnita. Camiñando polo antigo vieiro da Sociedade dos Irmáns Musulmáns, e moi subvencionados por Riad, cultivan un ominoso conflito vixiante con coptos e sufís. O equilibrio de poder entre eses dous campos islamistas decidiráse probábelmente o vindeiro ano polo prezo do pan e a política do exército. Se os Irmáns Musulmáns tivesen chegado ao poder nun intre anterior da pasada década, o crecemento mundial tería afortalado o atractivo e a posibilidade do vieiro turco. Mais, poisque tódolos cataventos apuntan agora á baixa, o paradigma de Ankara (como o modelo brasileiro en Sulamérica) pode ficar desprovisto do éxito económico e perder un considerábel atractivo rexional.

Por outra banda, a imaxe pública dos salafistas -incorruptíbeis, antipolíticos e sectarios- resultará automáticamente imantada co aumento da miseria e as supostas ameazas ao islam. Sen dúbida, algúns elementos do exército exipcio xa teñen analisado a 'opción pakistaní' de alianza tácita ou formal cos salafistas. Diversas circunstancias poderían facer avanzar ese suposto: a continua resistencia dos xenerais a efectuaren unha sustancial cesión do poder; a incapacidade dos Irmáns Musulmáns para cumpliren as mínimas espectativas populares de benestar económico; ou que a coalición liberal de esquerda se convirta no árbitro das maiorías parlamentares. (Israel, pola sua banda, podería desestabilizar a democracia exipcia cun simples ataque aéreo. Cómo respostarían os partidos sunnitas a un ataque contra Irán?).

Por se acaso, a esquerda exipcia leva estudando o Dezaoito Brumario dende Nasser. Sábeo todo sobre plebiscitos, lumpenproletarios, gobernantes napoleónicos e sacos de patacas. Os seus grupúsculos e redes, en alianza con traballadores e xovens de tódalas tendencias, foron o tendón da revolución do 25 de xaneiro e da reocupación da praza Tahir en novembro. Garantirá un governo de maioría islámica o dereito da nova esquerda e dos sindicatos independentes a se organizaren e faceren campaña abertamente?. Esa será a proba decisiva da democracia exipcia.

6. A DESCOMPOSICIÓN DO MEDITERRÁNEO.

Pola sua banda, o sul de Europa afronta a mesma devastación provocada polo axuste social e a austeridade forzosa que Latinoamérica sufríu na década de 1980. As ironías son mortais. Malia que a Europa norcentral desenvolveu de sócato un agudo síndrome de amnesia, o caso é que inda hai poucos anos a prensa económica gababa a España, Portugal e inclusive Grecia (máis Turquía, non pertencente á UE) pola sua capacidade para disminuiren o gasto público e elevaren as tasas de crecemento. Imediatamente despois da debacle de Wall Street, os temores da UE centráranse primordialmente en Irlanda, o Báltico e Europa oriental. O Mediterráneo, en conxunto, considerabase relativamente ben protexido contra o sunami económico que cruzaba o Atlántico a velocidade supersónica.

Canto ao Mediterráneo árabe, tiña pouca importancia nos circuitos trombóticos de investimento de capitais e comercio de derivados, e xa que logo unha mínima exposición directa á crise financeira. O sul de Europa, endemáis, tiña governos obedientes e, no caso de España, bancos fortes. Italia era simplesmente demasiado grande e rica para caír, mentras que Grecia, inanque molesta, era unha economía minúscula (apenas o 2% do PIB da UE), cuxas fallas apenas ameazaban aos brobdingnaxiáns. Dezaoito meses despois, os Rush Limbaugh alemáns e austríacos bradan que as raíñas do benestar mediterráns están a chantaxearen aos prudentes burgueses, esixíndolles que entreguen os seus aforros e vendan aos seus fillos para que os gregos podan manifestárense todo o día e os españois botaren sestas máis prolongadas. Mais poderíase alegar, con meirande verosimilitude, que a prosperidade alemá está, de feito, a afundir a eurozona. Cos seus méxicos baratos no Leste, as suas incomparábeis vantaxes de produtividade, e un fanatismo semellante ao de China tocantes aos enormes escedentes comerciais, Alemaña compite con vantaxe contra os europeus do sul. Pola sua banda, a totalidade da UE manten o seu maior escedente comercial relativo con Turquía e os países non petroleiros do norte de África (34.000 millóns de dólars no 2010), ocasionando que istes dependan das remesas, o turismo e o investimento económico para equilibraren as suas contas. Como resultado, todo o Mediterráneo é sensíbel aos movementos cíclicos da demanda e as taxas de xuro na UE; mentras que Alemaña, Reino Unido e outros países ricos do norte dispoñen de grandes mercados secundarios que lles fan de amortecedor.

O euro é o volante desa economía Grosseuropaïsche de múltiples velocidades. Para Alemaña, o euro fai de marco alemán dinamizado, porque é menos vulnerábel a unha apreciación súpeta, garante os prezos competitivos das exportacións alemás e detrai unha parte moi pequecha do poder de veto que Berlin ten de facto na economía europea. Para os europeus do sul, pola contra, é un acordo fáustico que atrai capital nos bos tempos, pero impede o uso das ferramentas monetarias para combater os déficits comerciais e o desemprego nos maos. Agora que as vixigas negras ibérica e helena pegaron o andacio en Italia e ameazan a Franza, de Berlin e Paris emergulla unha visión namorada da Europa do euro: a integración fiscal meiante unha revisión do Tratado. Aos países debedores, que xa perderon o control da política monetaria e vense obrigados a desfollaren os seus sectores públicos baixo supervisión de técnicos da UE e do FMI, esíxenlles agora que acepten un permanente veto franco-alemán aos seus orzamentos e gastos públicos. No século XIX, Gran Bretaña adoitaba enviar aos seus buques de guerra para impoñer semellantes sindicaturas aos países incumplidores de Latinoamérica ou Asia. Os Alilados escravizaron de xeito semellante á Alemaña de Versalles e sementaron así o Terceiro Reich.

Tanto se se someten a Merkel e Sarkozy coma se se negan e saen da zona euro (e cecais da UE), as economías mediterráns están sentenciadas a anos de deterioro e hiperdesemprego. Mais as suas povoacións non se deixarán afundir sen máis nesa 'boa noite'. Portugal e Grecia, que se achegaron máis ás revolucións sociais de feito na década de 1970, conservan a cultura esquerdista máis pura de Europa. En España, o novo governo conservador ofrece un claro e tentador alvo a unha revitalizada IU e ao moito máis amplo, inanque aínda amorfo, movemento de protesta xuvenil. De feito é probábel que o remol do anticapitalismo volva labarear en toda Europa. Mais a dereita xenófoba e antieuropea pode gañar moito máis cá esquerda coa descomposición da eurozona, e coa disposición do círculo das carretas europeas arredor do núcleo. Como no caso dos salafistas en Exipto ou do Tea Party en USA, os novos partidos dereitistas de Europa xa teñen empacotadas a política de identidade e a furia centrada en chivos expiatorios para o seu envío interno. Unha extraordinaria ambición da esquerda anticapitalista en Europa oucidental sería a de recuperar o espazo político ocupado polos comunistas durante os trinta anos posteriores a 1945. Os movementos liderados por Marine Le Pen e Geert Wilders, pola sua banda, teñen verosímeis espranzas de opoñeren un serio repto na sua polìtica nacional á franquicia conservadora máis seria e dotada de fondos. A toma do Partido Republicano pola extrema dereita nos USA fornécelles un modelo inspirador.

7. O MOTOR DA REVOLTA.

As rebelións universitarias do 1968 en Europa e nos USA foron alentadas espiritual e políticamente pola ofensiva do Tet en Vietnam, a insurxencia guerrilleira en Latinoamérica, a Revolución cultural en China e os levantamentos dos guetos nos USA. De xeito similar, os indignados do ano pasado derivaron unha forza primordial dos exemplos de Túnis e O Cairo. (Os varios millóns de fillos e netos de inmigrantes árabes no sul de Europa fan que esa conexión sexa íntimamente vívida e militante.) Como resultado, apaixoados vinteaneiros ocupan agora as prazas en ámbalas duas beiras do fundamental Mediterráneo de Braudel. Porén, en 1968, poucos dos mozos brancos que protestaban en Europa (coa importante excepción de Irlanda do Norte) e nos USA compartían as realidades existenciais dos seus homólogos do sul. Mesmo estando profundamente alienados, a maioría podía esperar convirtir os seus títulos universitarios en prósperas traxectorias profisionais de clase meia. Hoxe, pola contra, moitos manifestantes de Nova York, Barcelona e Atenas afrontan perspectivas drásticamente piores que as dos seus pais, e achegadas ás dos seus homólogos da Casablanca e Alexandría. (Algúns dos ocupantes do parque Zuccotti, de térense titulado dez anos antes, poderían ter entrado direitamente nun fondo de cobertura ou nun banco de investimentos con soldos de cen mil dólars. Hoxe traballan en Starbucks.)

Globalmente, o desemprego de xente moza acada níveis récord, segundo a OIT: entre o 25 e o 50% na maioría dos países con protestas lideradas polos xovens. Asimesmo, no cruxol da revolución noredeafricán, un título universitario é inversamente proporcional á probabilidade de atopar traballo. Tamén noutros países o investimento familiar en educación, cando se considera o endebedamento que trae consigo, está a producir dividendos negativos. Ao mesmo tempo, o acceso á educación superior tense restrinxido, de maneira máis drástica en EEUU, Reino Unido e Chile.

8. AS COLAS DO PAN.
A crise económica combina a deflación dos activos populares (valor da vivenda e portanto do patrimonio familiar nos USA, Irlanda, España) cunha forte inflación en artigos esenciais do custe da vida, nomeadamente combustíbel e alimentos. Na teoría clásica, na que se espera que as tendencias xerais dos prezos avancen ao unísono co ciclo económico, ésta é unha bifurcación inusual; en realidade, pode ser máis ominosa. A crise hipotecaria nos USA e noutros países é un elemento interno da crise financeira en xeral, e resolveráse mediante intervención estatal ou mediante a simples destrución de dereitos de valor. Á sua vez, o prezo base do petróleo pode caír a medida que a Asia industrial se ralentice e que en Irak aumente o nível de produción. (O debate sobre o pico do petróleo paréceme indeterminábel e interminábel.) Mais os prezos dos alimentos semellan achárense nunha tendencia secular ascendente, determinada por forzas en boa medida alleas á crise financeira e á desaceleración industrial. De feito, un crecente coro de voces de expertos indica dende comenzos da década do 2000 que o sistema mundial de seguridade alimentar está a escachizarse. Diversas causas retroaliméntanse e amplifícanse mútuamente: o desvío de cereais para a produción de biocombustíbeis e carne; o recorte neoliberal das subvencións alimentares e de sostemento dos prezos; a desenfreada especulación en mercados de futuros sobre colleitas e terreos agrarios de primeira calidade; a falla de investimentos en investigación agraria; os voláteis prezos da enerxía; o esgotamento dos solos e os acuíferos; a seca e o cambio climático; etcétera. Na medida en que o menor crecemento reduza algunhas desas presións (que os chineses coman menos carne, por exemplo), o enorme ritmo de aumento da povoación -outros tres mil millóns de persoas no tempo de vida dos actuais manifestantes- manterá as presións da demanda. (Por suposto, os cultivos xeneticamente modificados están a ser promocionados como unha solución miragreira, pero máis probabelmente para os beneficios das agroempresas do que para as colleitas netas).

"Pan" foi a primeira esixencia da protesta na praza Tahrir, e a verba resoa cáseque con tanta forza na Primavera árabe coma o fixo no Outubro ruso. As razóns son sinxelas: os exipcios do común, por exemplo, gastan arredor do 60% do orzamento familiar en petróleo (quencemento, cociña, transporte), fariña, aceites vexetais e sucre. No 2008, os prezos des produtos básicos disparáronse nun 25%. A porcentaxe da povoación oficialmente pobre aumentou abruptamente nun 12%. Se aplicamos esa mesma proporción noutros países de 'renda media', a inflación dos produtos básicos eliminará unha fracción sustancial da "emerxente clase meia" promulgada no seu día polo Banco Mundial.

9. AGARDANDO A QUE ATERRE CHINA.

Marx culpaba a California -a Febre do Ouro e o conseguinte estímulo monetario para o comercio mundial- do prematuro fin do ciclo revolucionario na década de 1840. Imediatamente despois do 2008, os denominados BRIC convirtíronse na nova California. A aeronave Wall Street caíu do ceo e esnafrouse en terra, mais China seguíu a voar, con Brasil e o sul de Asia en estreita formación. A India e Rusia tamén conseguiron manter os seus avións en vóo. A resistente levitación dos BRIC deixou abraiados a asesores de investimentos, columnistas económicos e astrólogos profisionais que, por unanimidade, proclamaron que China, ou a India, podían soster agora o mundo cunha man, ou que axiña Brasil sería máis rico ca España. Por suposto, a sua eufórica credulidade derivaba da ignorancia das enormes técnicas de prestidixitación empregadas polos houdinis do Banco Popular de China. O proprio Pekin, en agudo contraste, expresa dende hai tempo significativos temores a respeito da excesiva dependencia que o seu país ten das exportacións, a insuficiencia da capacidade de gasto das familias, e a escaseza de vivendas asequíbeis combinada cunha imensa burbulla inmobiliaria.

A finais do pasado outono, os artigos de fe dos optimistas a respeito de China disminuiron de sócato nas páxinas editoriais, e o suposto da "aterraxe forzosa " tornouse o favorito dos escritores de libros. Ninguén, nen sequer os líderes chineses, sabe durante canto tempo máis poderá seguir voando a economía contra os ventos de proa mundiais. Mais a inevitábel lista de baixas de pasaxeiros estranxeiros xa está confeccionada: Sulamérica, Australia, boa parte de África e a meirande parte do suleste asiático. E -ollo: de especial interés- Alemaña, que agora comercia máis con China ca cos USA. Unha recesión mundial -profundamente triangulada, por suposto- é mesmamente ese pesadelo non lineal ao que aludía eu ao comenzo. Ven ser cáseque unha tautoloxía observar que nos países do bloque BRIC, onde tanto levan aumentado recentemente as espectativas populares de progreso económico, a dór de volvérense empobrecer pode ser completamente intolerábel. Milleiros de prazas públicas suplicarían que as ocupasen. Incluída unha chamada Tiananmen.

Os postmarxistas oucidentais -residentes en países nos que o tamaño absoluto ou relativo da man de obra fabril disminuíu drásticamente no lapso dunha xeración- remoen con indolencia se o "axente proletario" está xa obsoleto, inducíndonos a pensar en "moitedumes", en espontaneidades horizontais, o que sexa. Mais non é iso o que se debate na grande sociedade industrializada que Das Kapital descrebe mesmo con máis precisión cá Gran Bretaña victorián ou os EEUU do New Deal. Douscentos millóns de obreiros fabrís, mineiros e obreiros da construción en China son a clase máis perigosa do planeta. (Perguntémoslle, se non, ao Consello de Estado de Beijing.) O seu espertar da burbulla podería determinar se é ou non posíbel unha Terra socialista.



18/01/2012

A revolta da burguesia assalariada

Slavoj Zizek. Artigo tirado de Diário Liberdade (aqui).

Como Bill Gates tornou-se o homem mais rico dos EUA? Sua riqueza nada tem a ver com os custos de produção do que a Microsoft vende: i.e., não é resultado de ele produzir bom software a preços mais baixos que a concorrência, nem de ‘explorar’ seus operários com melhores resultados (a Microsoft paga salários relativamente altos aos operários intelectuais que contrata). Fosse assim, a Microsoft já teria falido há muito tempo: as pessoas teriam escolhido sistemas abertos, como o Linux que são tão bons, ou até melhores, que os produtos Microsoft. Milhões de pessoas continuam a comprar software da Microsoft porque a Microsoft impôs-se, ela mesma, como padrão quase universal, praticamente monopolizou o campo, encarnação do que Marx chamou de ‘intelecto geral’[1], significando conhecimento coletivo em todas as suas formas, da ciência ao saberes práticos. Gates efetivamente privatizou parte do intelecto geral e enriqueceu apropriando-se do lucro que extraiu dessa apropriação.

A possibilidade de que o intelecto geral fosse algum dia privatizado jamais passou pela cabeça de Marx, nem por perto de seus escritos sobre o capitalismo (em boa parte porque Marx passou ao largo das dimensões sociais do capitalismo). Mas a questão está na base das lutas de hoje em torno da propriedade intelectual: o papel do intelecto geral – baseado no conhecimento coletivo e na cooperação social – aumentou no capitalismo pós-industrial, assim como a riqueza que se acumula, fora de qualquer proporção com o trabalho usado para produzi-lo.

O resultado não está sendo, como parece que Marx esperava, a autodissolução do capitalismo, mas a gradual transformação do lucro gerado pela exploração do trabalho em renda apropriada mediante a privatização do conhecimento.

Vale o mesmo para os recursos naturais, cuja exploração é um das principais fontes de lucros no mundo. Daí brota a luta permanente entre os aspirantes àqueles lucros: os cidadãos do Terceiro Mundo, ou as corporações ocidentais. Há alguma ironia na evidência de que, ao explicar a diferença entre o trabalho (que, usado, produz mais valia) e outras commodities (cujo valor é integralmente consumido, ao serem usadas), Marx fale do petróleo como exemplo de commodity ‘comum’. Hoje, qualquer tentativa de ligar aumentos e quedas do preço do petróleo a aumentos e quedas nos custos de produção ou no preço do trabalho explorado seria absolutamente sem sentido: os custos de produção são desprezíveis, como proporção do preço que se paga pelo petróleo, preço que, de fato, é o lucro que os proprietários dos recursos podem exigir, graças à oferta limitada.

Uma modificação na função do desemprego é outra das consequências do aumento na produtividade, por causa do crescimento exponencial no impacto do saber coletivo. O desemprego é produzido por um capitalismo muito bem-sucedido (maior eficiência, maior produtividade etc.) – que torna os trabalhadores cada vez mais inúteis: o que deveria ser uma bênção – haver cada vez menos trabalho braçal – converteu-se em maldição. Ou, dito de outro modo: a chance de ser explorado num trabalho de longo prazo é vista hoje como privilégio. O mercado mundial, como diz Fredric Jameson, é agora “um espaço no qual todos foram um dia trabalhador produtivo e no qual o trabalho, por todas as partes, começou a ser precificado fora do sistema”. No atual processo da globalização capitalista, a categoria do desempregado já não está confinada ao “exército de trabalho reserva”; inclui também, como Jameson escreve, “essas populações massivas em todo o mundo que, como aconteceu, caíram fora da história”, que foram deliberadamente excluídas dos projetos de modernização do Primeiro Mundo capitalista e descartadas como casos terminais sem esperança”: os chamados estados falidos (República Democrática do Congo, a Somália), vítimas de fome epidêmica ou desastre ecológico, presas na armadilha de pseudo arcaicos “ódios étnicos”, objetos de filantropia de ONGs ou alvos da “guerra ao terror”.

A categoria dos desempregados expandiu-se, pois, e hoje inclui vastas quantidades de pessoas, dos temporariamente desempregados, passando pelos já não empregáveis e permanentemente desempregados, até os habitantes de guetos e favelas (gente que o próprio Marx várias vezes descartou como ‘lumpen-proletários’), chegando, finalmente, a populações inteiras ou estados excluídos do processo capitalista global, como os espaços em branco dos mapas antigos.


Há quem diga que essa nova forma de capitalismo oferece novas possibilidades de emancipação. Essa, seja como for, é a tese de Hardt e Negri em Multidão, onde tentam radicalizar Marx, dizendo que, se se decapitar o capitalismo, obteremos o socialismo. Marx, como esses autores o veem, foi historicamente limitado pela noção de trabalho industrial mecanizado, centralizado, automatizado e hierarquicamente organizado, razão pela qual entendeu o “intelecto geral” como algo de certo modo semelhante a uma agência central de planejamento; só hoje, com o crescimento do “trabalho imaterial”, essa virada revolucionária tornou-se “objetivamente possível”. Esse trabalho imaterial estende-se entre dois polos: do trabalho intelectual (produção de ideias, textos, programas etc.) ao trabalho afetivo (dos médicos, babás e aeromoças). Hoje, o trabalho imaterial é “hegemônico” no sentido em que Marx proclamou que, no capitalismo do século 19, a grande produção industrial era hegemônica: porque se impõe não pela força dos números, mas pelo papel estrutural chave, emblemático que desempenha. Emerge daí um vasto novo domínio chamado “o comum”: conhecimento partilhado e novas formas de comunicação e cooperação. Os produtos da produção imaterial não são objetos, mas novas relações sociais e interpessoais; a produção imaterial é biopolítica, a produção da vida social.

Hardt e Negri descrevem aí o processo que os ideólogos do capitalismo ‘pós-moderno’ celebram como a passagem da produção material à produção simbólica; da lógica centralista-hierárquica à lógica da auto-organização e cooperação multicêntrica. A diferença é que Hardt e Negri são efetivamente fiéis a Marx: tentam provar que Marx estava certo, que o crescimento do intelecto geral no longo prazo é incompatível com o capitalismo.

Os ideólogos do capitalismo pós-moderno dizem exatamente o contrário: a teoria (e a prática) marxista continuam dentro dos limites da lógica hierárquica do controle estatal centralizado e, portanto, não conseguem lidar com os efeitos sociais da revolução da informação. Há boas razões empíricas que sustentam essa posição: o que realmente levou à ruína os regimes comunistas foi a inabilidade para acomodarem-se à nova lógica social sustentada pela revolução da informação: tentaram dirigir a revolução construindo dentro dela um outro projeto centralizado de planejamento estatal em larga escala. O paradoxo está em que o que Hardt e Negri celebram como a única chance de superar o capitalismo é celebrado pelos ideólogos da revolução da informação como o nascimento de um capitalismo ‘sem atrito’.

A análise de Hardt e Negri tem alguns pontos fracos – o que explica como o capitalismo conseguiu sobreviver ao que teria sido (em termos marxistas clássicos) uma nova organização da produção que o teria tornado obsoleto. Os autores subestimam a extensão em que o capitalismo de hoje (pelo menos no curto prazo) já conseguiu privatizar o próprio intelecto geral; subestimam também a evidência de que, mais que a burguesia, os próprios trabalhadores estão-se tornando supérfluos (com número sempre crescente de trabalhadores já não só temporariamente desempregados, mas estruturalmente inempregáveis).

Se o velho capitalismo envolvia idealmente um empreendedor que investia dinheiro (seu ou emprestado) na produção que ele próprio organizava e comandava e, na sequência, o empreendedor embolsava o lucro, um novo tipo ideal começa a emergir hoje: já não se trata do empreendedor dono da própria empresa, mas do gerente especialista (ou de um conselho de gerência e administração presidido por um presidente executivo) que administra uma empresa cujos proprietários são bancos (também administrados por gerentes que não são os donos dos bancos) ou investidores dispersos. Nesse novo tipo ideal de capitalismo, a velha burguesia, que ficou sem função, é refuncionalizada como gerência assalariada: a nova burguesia recebe salários, mesmo que seja proprietária de partes da empresa; e parte de sua remuneração são ações da própria empresa (‘bônus’ pelo ‘sucesso’).

Essa nova burguesia ainda se apropria da mais valia, mas sob a forma (mistificada) do que tem sido chamado de ‘salário extra’: recebem mais que o ‘salário mínimo’ proletário (muitas vezes uma referência mítica, da qual os exemplos reais que se conhecem na economia global é o salário de fome de um operário de porão chinês na China ou na Indonésia), e é essa diferença em relação aos proletários comuns que determina o seu status. A burguesia no sentido clássico tende assim a desaparecer: os capitalistas reaparecem como um subconjunto de trabalhadores assalariados, como gerentes e administradores qualificados para ganhar mais em virtude de sua competência (motivo pelo qual as “avaliações” pseudo-científicas são cruciais: elas legitimam as diferenças nos holerites). Longe de estar limitada a gerentes, a categoria dos trabalhadores que ganham salário extra inclui todos os tipos de especialistas, administradores, funcionários públicos, médicos, advogados, jornalistas, intelectuais e artistas. A mais valia assume então duas formas: mais dinheiro (para os gerentes, etc.), mas também menos trabalho e mais tempo livre (para – alguns – intelectuais, mas também para os administradores do Estado, etc.).

O processo de avaliação que qualifica alguns trabalhadores a receber ‘salário a mais’ é mecanismo arbitrário de poder e ideologia, sem qualquer vínculo com qualquer competência real; o salário a mais não existe por razões econômicas, mas por razões políticas: para manter uma ‘classe média’ que garanta a estabilidade social. A arbitrariedade da hierarquia social não é erro; é, isso sim, questão central, com a arbitrariedade da avaliação desempenhando papel análogo à arbitrariedade do sucesso de mercado.

A violência ameaça explodir não quando há contingência demais no espaço social, mas, sim, quando se tenta eliminar qualquer contingência. Em La Marque du sacré, Jean-Pierre Dupuy concebe a hierarquia como um de quatro procedimentos (‘dispositivos simbólicos’) cuja função é tornar não humilhante a relação de superioridade: a hierarquia propriamente dita (ordem imposta de fora que me permite experienciar meu status social inferior como se não tivesse qualquer relação com meu valor inerente); a desmistificação (procedimento ideológico que demonstra que a sociedade não é uma meritocracia, mas o produto de lutas sociais objetivas, que me permite evitar a dolorosa conclusão segundo a qual a superioridade de outra pessoa seria resultado de seus méritos e realizações); a contingência (mecanismo similar, pelo qual se chega a entender que nossa posição na escala social depende de uma loteria natural e social; os de melhor sorte são os que nasceram com os genes certos, nas famílias ricas); e a complexidade (forças incontroláveis levam a consequências imprevisíveis; por exemplo, a mão invisível do mercado pode determinar o meu fracasso e o sucesso do meu vizinho, mesmo que eu trabalhe muito mais e seja muito mais inteligente).

Diferente do que parece, esses mecanismos não contestam nem ameaçam a hierarquia, porque a tornam palatável, dado que “o que dispara o torvelinho da inveja é a ideia de que o outro merece a boa sorte que tem, não a ideia oposta – a única que pode ser manifesta abertamente.” Dupuy extrai dessa premissa a conclusão de que é grave erro pensar que uma sociedade razoavelmente justa que se perceba como justa, estará, por isso, livre de ressentimentos: é exatamente o contrário; precisamente nesse tipo de sociedade os que ocupam posições inferiores buscam e encontraram, em violentas irrupções de ressentimento, vazão para o orgulho ferido.

Ligado a isso é o impasse que a China enfrenta hoje: o objetivo ideal das reformas de Deng foi introduzir o capitalismo sem qualquer burguesia (porque a burguesia seria a nova classe dominante); mas agora os líderes da China estão ante a dolorosa descoberta de que capitalismo sem hierarquia estável (que a existência da burguesia oferece) gera instabilidade permanente. Que caminho seguirá a China? Os ex-comunistas estão emergindo como os mais eficientes gerentes do capitalismo, porque a inimizade histórica que nutrem contra a burguesia como classe acomoda-se perfeitamente à tendência do capitalismo de hoje para tornar-se capitalismo gerencial sem uma burguesia – nos dois casos, como Stálin disse há muito tempo, “os quadros decidem tudo”. (Diferença interessante entre a China de hoje e a Rússia: na Rússia, os professores universitários são escandalosamente mal pagos – e, de fato, já são parte do proletariado; – na China, recebem confortabilíssimo salário ‘a mais’, mecanismo pelo qual sua docilidade fica assegurada.)

A ideia do salário a mais também lança nova luz sobre os protestos ‘anticapitalistas’ em curso. Em tempos de crise, os candidatos óbvios ao ‘aperto do cinto’ são os baixos níveis da burguesia assalariada: o protesto político é seu único recurso, se querem evitar unir-se ao proletariado. Embora os seus protestos sejam nominalmente dirigidos contra a brutal lógica do mercado, estão, de fato, protestando contra a gradual erosão do lugar econômico privilegiado (politicamente) que sempre foi deles. Ayn Rand tem uma fantasia em Atlas Shrugged (1957) [2], de capitalistas ‘criativos’, fantasia que encontra sua realização pervertida nas greves de hoje, que são greves, na maior parte, de uma ‘burguesia assalariada’ movida pelo medo de perder seus privilégios (o ‘a mais’ sobre o salário mínimo). Não são protestos proletários: são protestos contra a ameaça de serem reduzidos a proletários. Quem se atreve a fazer greve hoje, em tempos em que ter emprego fixo já é, só isso, um privilégio? Não os trabalhadores mal pagos (no que resta) da indústria têxtil etc., mas os trabalhadores privilegiados que têm empregos garantidos (professores, funcionários dos serviços de transporte público, policiais). Vale o mesmo para a onda de protestos de estudantes: a principal motivação é, pode-se dizer, o medo de que a educação superior não mais lhes assegure ‘salário a mais’ depois que deixarem a universidade.

Ao mesmo tempo, é evidente que o vasto renascimento de protestos do ano passado, da Primavera Árabe à Europa Ocidental, de Occupy Wall Street à China, da Espanha à Grécia, não pode ser reduzido a revolta da burguesia assalariada. Cada caso tem de ser considerado à luz dos próprios méritos. Os protestos de estudantes contra a reforma universitária na Grã-Bretanha foram visivelmente diferentes dos tumultos de rua de agosto, que foram carnaval de destruição consumista, verdadeira explosão dos excluídos[3].

Pode-se dizer que os levantes no Egito começaram em parte como revolta da burguesia assalariada (jovens educados em protesto contra a ausência de perspectivas de vida para eles mesmos), mas esse foi apenas um aspecto de protesto mais amplo contra um regime opressivo. Por outro lado, os protestos não mobilizaram trabalhadores pobres e camponeses; e a vitória eleitoral dos islamistas é indicação de o quanto era pequena a base secular original das manifestações de rua.

A Grécia é caso especial: nas últimas décadas, foi criada ali uma nova burguesia assalariada (sobretudo dentro da super ampliada base administrativa do Estado) graças à ajuda financeira e aos empréstimos da União Europeia; e os protestos foram motivados, em grande parte, contra as ameaças de extinguirem-se aqueles privilégios.

Ao mesmo tempo, a proletarização das faixas de salários mais baixos da burguesia ocorre ao lado do oposto extremo: a remuneração economicamente irracionalmente muito alta paga aos gerentes-executivos top e banqueiros. Essa remuneração é economicamente irracional, sim: pesquisas já comprovaram nos EUA que a remuneração dos gerentes-executivos top e banqueiros é inversamente proporcional ao sucesso das respectivas empresas.

Em vez de nos pormos a escrever crítica moralista contra essas tendências, temos de lê-las como sinais de que o próprio sistema capitalista já não é capaz, ele mesmo, de encontrar níveis de estabilidade autorregulada. É o mesmo que dizer que o capitalismo está a um passo de descontrolar-se completa e absolutamente.


11 de janeiro de 2012

[1] MARX, Karl, Grundrisse. Manuscritos econômicos de 1857-1858: Esboços da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2011 [trad. Mário Duayer] [NTs].

[2] Ver também “Slavoj Zizek fala à rede Al Jazeera: Agora, o campo está aberto”, 8/11/2011, em http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/11/slavoj-zizek-fala-rede-al-jazeera-agora.html [NTs].

[3] Ver 20/8/2011, “Assaltantes de lojinhas do mundo, uni-vos!”, em http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/08/slavoj-zizek-assaltantes-de-lojinhas-do.html

21/12/2011

O segundo fôlego do movimento mundial de justiça social

Immanuel Wallerstein. Artigo tirado de aqui.



Temos de pensar numa luta mundial como uma corrida de fundo, na qual os corredores têm de usar a sua energia com sabedoria.

Durante os protestos da praça Tahrir em novembro de 2011, Mohamed Ali, 20 anos, respondeu da seguinte forma a um jornalista que lhe perguntava por que estava ali: "Queremos justiça social. Nada mais. É o mínimo que merecemos."

A primeira vaga de movimentos assumiu formas múltiplas em todo o mundo – a chamada Primavera Árabe, os movimentos Ocupar que começaram nos Estados Unidos e se espalharam a um grande número de países, Oxi na Grécia e os Indignados em Espanha, os protestos estudantis no Chile e muitos outros.

Foram um sucesso fantástico. O grau de êxito pode ser medido por um extraordinário artigo escrito por Lawrence Summers no Financial Times em 21 de novembro, sob o título "A desigualdade já não pode ser evitada pelas ideias habituais". Não é um tema em que Summers se tenha antes destacado.

Nele, o colunista faz duas observações notáveis, considerando que ele foi pessoalmente um dos arquitetos da política económica mundial dos últimos 20 anos que nos pôs a todos na profunda crise na qual o mundo se encontra.

A primeiro afirmação é que houve mudanças fundamentais nas estruturas económicas mundiais. Summers diz que "a mais importante delas é o forte aumento da recompensa de mercado para uma pequena minoria de cidadãos, em relação às recompensas disponíveis para a maioria dos cidadãos."

A segunda diz respeito a dois tipos de reações públicas a esta realidade: a dos manifestantes e a dos que se opõem aos protestos. Summers diz que é contra a "polarização", que é o que, segundo ele, os manifestantes estão a provocar. Mas diz em seguida: "Ao mesmo tempo, os que se apressam a classificar como inadequada, ou um produto do conflito de classe, qualquer preocupação acerca da crescente desigualdade estão ainda mais fora da realidade."

O que o artigo de Summers indica não é que ele se tenha tornado um expoente da mudança social radical – longe disso – mas antes que se preocupa com o impacto político do movimento mundial de justiça social, especialmente no que ele chama de mundo industrializado. Eu chamo a isso o sucesso do movimento mundial de justiça social.

A resposta a este sucesso foram algumas concessões menores aqui e ali, e logo uma crescente repressão por todo o lado. Nos Estados Unidos e no Canadá, houve uma sistemática iniciativa da polícia para acabar com as "ocupações". A simultaneidade destas ações parece indicar algum nível de coordenação em alto nível. No Egito, os militares têm resistido a qualquer diluição do seu poder. Alemanha e França impuseram políticas de austeridade na Grécia, Irlanda, Portugal e Itália.

Mas a história está longe de terminada. Os movimentos estão a desenvolver um segundo fôlego. Os manifestantes reocuparam a praça Tahrir e estão a ameaçar o chefe de Estado-Maior Tantawi com o mesmo desprezo com que trataram Mubarak. Em Portugal, o apelo a um dia de greve geral paralisou todo o sistema de transportes. Uma anunciada greve na Grã-Gretanha contra o corte das pensões esperava reduzir o tráfego em Heathrow em 50%, causando grandes repercussões em todo o mundo, dada a centralidade de Heathrow no sistema mundial de transportes. Na Grécia, o governo tentou apertar mais os pensionistas pobres, aplicando uma grande taxa de propriedade na sua conta de eletricidade, ameaçando cortar a luz se não pagarem. Mas há resistência organizada. Os eletricistas estão a religar a luz ilegalmente, contando com a incapacidade dos reduzidos efetivos do governos municipais para aplicar a lei à força. É uma tática que já foi usada com sucesso no Soweto, subúrbio de Johannesburgo, há uma década.

Nos Estados Unidos e no Canadá, o movimento de ocupação expandiu-se dos centros das cidades para as cidades universitárias. E os "ocupantes" estão a discutir lugares alternativos para ocupar durante os meses de inverno. A rebelião dos estudantes do Chile alastrou-se às escolas secundárias.

É preciso destacar duas coisas na situação atual. A primeira é o facto de os sindicatos – como parte do que está a acontecer, como resultante de que está a acontecer – se terem tornado muito mais militantes e abertos à ideia de que deviam ser participantes ativos no movimento mundial de justiça social. Isto é verdade no mundo árabe, na Europa, na América do Norte, na África do Sul, mesmo na China.

A segunda coisa a destacar é o facto de os movimentos em todo o lado terem sido capazes de manter a ênfase numa estratégia horizontal. Os movimentos não são estruturas burocráticas mas coligações de múltiplos grupos, organizações, setores da população. Ainda estão a debater empenhadamente sobre a base atual da sua tática e prioridades, e resistem a ser excludentes. Será que isto funciona sempre bem? Claro que não. Será que funciona melhor do que reconstruir um novo movimento vertical, com liderança clara e disciplina coletiva? Até agora, funcionou sem dúvida melhor.

Temos de pensar numa luta mundial como uma corrida de fundo, na qual os corredores têm de usar a sua energia com sabedoria, para evitar ficarem exaustos ao mesmo tempo em que não perdem de vista o objetivo final – um diferente tipo de sistema-mundo, muito mais democrático, muito mais igualitário que qualquer outro que exista atualmente.

23/11/2011

Socialistas e sindicalistas de Exipto chaman á solidaridade internacional

Artigo tirado de aquí e traducido por nós. O orixinal foi publicado en Socialist Worker (aquí), que é o órgano do Socialist Workers Party.


Un chamamento internacional de solidariedade xurdiu a consecuencia da brutal represión que están a sufrir decenas de miles de exipcios nas rúas do Cairo. A policía antidisturbios e as forzas armadas atacaron os manifestantes despois das manifestacións masivas pedindo o fin do goberno militar do Consello Supremo de Estado das Forzas Armadas.

A Federación Exipcia de Sindicatos Independentes fixo un chamado o sábado 19 de novembro aos seus 1,4 millóns de membros nos sindicatos afiliados a unirse ás protestas na praza Tahrir. Os manifestantes están a loitar polo futuro da revolución. Protestas de solidariedade xa foron convocadas en Gran Bretaña, Irlanda, Canadá, Suecia e Alemaña [e tamén se están organizando no Estado español].

Sameh Naguib, un socialista revolucionario en Exipto, falou co Socialist Workers Party o domingo tarde desde a praza. Dixo: "O mundo está en chamas esta noite. A policía estivo matando á xente e algunhas partes de Tahrir están en chamas. Houbo ao redor de 100.000 persoas na praza esta tarde, e decenas de miles protestan en Alexandría, Suez, Aswan, Damietta e outras cidades de Exipto. Tres acodes morreron hoxe na praza Tahrir, e desde logo que hai máis en todo Exipto agora. Hai 1.000 feridos. Estamos a afogarnos en gas lacrimóxeno. Quéimase a pel e a policía estivo disparando balas de goma á cara das persoas. Están a disparar balas de goma directamente aos rostros da xente e moitos perderon a vista. E estannos atacando con canóns de auga. Hai unhas horas todo parecía indicar que habería un baño de sangue, mais a policía pronto se retirou da praza. A ferocidade do Estado realmente transformou a situación. O grao de violencia ten á xente enfurecida. Estamos seguros de que isto se traducirá en folgas dos traballadores. Miles e miles de mozos acudiron a Tahrir en resposta aos ataques da policía gritando "Queremos desfacernos do mariscal Tantawi e sometelo a xuízo". O Mariscal de Campo Mohammed Hussein Tantawi é o xefe do Consello Supremo.

Sameh di que a solidariedade internacional urxente é vital para o futuro da revolución. Están a organizarse manifestacións fronte ás embaixadas exipcias en todo o mundo.

11/07/2011

Egito: Praça Tahrir volta a encher-se de manifestantes

Egípcios exigem “punição para os assassinos dos mártires" e contestam lentidão das reformas em curso. Os militares no governo merecem duras criticas dos egípcios e são identificados como fazendo parte do antigo regime de Mubarak. A maioria dos grupos e partidos políticos, incluindo a Irmandade Muçulmana, apelam à mobilização para aquela que pode ter sido a maior manifestação desde a queda de Mubarak em 11 de fevereiro.

Milhares de egípcios reuniram-se sexta-feira na Praça Tahrir, no Cairo, e em cidades como Suez e Alexandria, para exigirem maior rapidez no processo de implementação de reformas e a condenação imediata dos ex-funcionários do governo de Hosni Mubarak responsáveis pela morte de centenas de manifestantes.

A maioria dos grupos e partidos políticos, incluindo a Irmandade Muçulmana, apelam à mobilização para aquela que pode ter sido a maior manifestação desde a queda de Mubarak em 11 de fevereiro.

Vários manifestantes tecem duras críticas ao comandante militar, Mohamed Hussein Tantawi, que dirige o conselho militar desde a queda de Mubarak e que foi ministro da defesa do presidente durante dois anos.

"Queremos mudar tudo. O antigo regime corrompeu tudo. Queremos mudar o governo e os responsáveis, o comandante militar também", afirma um manifestante citado pela Al Jazeera.

04/04/2011

Milhares de egípcios juntos para "salvar revolução"

Notícia tirada de aqui.

Milhares de manifestantes voltaram à praça onde protestaram contra regime de Mubarak
Dezenas de milhares de egípcios reuniram-se hoje na emblemática praça Tahrir, no centro do Cairo, para "salvar a revolução" e exigir o julgamento dos responsáveis pelas violências e pela corrupção durante o regime do ex-Presidente Hosni Mubarak

A "coligação dos jovens da revolução", que reúne grupos que desencadearam a rebelião em 25 de Janeiro, tinha apelado a uma nova manifestação para exigir o julgamento imediatos dos responsáveis pelos disparos contra os manifestantes, e dos símbolos da corrupção

Os jovens militantes pró-democracia também exigem que as instituições sejam "purificadas" do Partido Nacional Democrata (PND, o antigo partido no poder) e que sejam devolvidos "os milhares que foram roubados ao povo"

Estes grupos organizados consideram que diversas petições originais não foram satisfeitas pelo marechal Hussein Tantawi, o chefe do conselho supremo das Forças Armadas, que governa o país após a demissão em 11 de Fevereiro de Mubarak

Entre as reivindicações inclui-se a revogação da lei de estado de emergência, em vigor desde 1981, a libertação de todos os presos políticos e a prisão para os simpatizantes do anterior regime, que enriqueceram à sombra do poder

Vários ex-ministros e outros representantes do regime encontram-se detidos, e também foram iniciadas investigações sobre os bens de diversas figuras destacadas do círculo de Mubarak, que estão proibidas de abandonar o país. 

De acordo com a agência oficial Mena, cerca de 15 mil pessoas participaram na grande oração semanal de sexta-feira na praça. O número duplicou ao início da tarde, enquanto grupos de manifestantes continuavam a afluir à praça Tahrir, referiu ainda a agência France Presse.

30/03/2011

Líbia: revolta popular, guerra civil ou ataque militar?

Grégoire Lalieu e Michel Collon. Artigo tirado de aqui. Recentemente eu próprio escrevia um artigo que entronca com as consideraçons da parte final do artigo, disponível aqui.


http://www.cubadebate.cu/wp-content/uploads/2011/03/guerra-civil-en-libia-300x200.jpg
Depois de Tunísia e Egipto, chegou a revolução árabe a Líbia?

O que está a ocorrer pelo momento em Líbia é diferente. Na Tunísia e Egipto a falta de liberdade era flagrante. No entanto, foram as terríveis condições sociais as que realmente levaram aos jovens a se rebelar. Os tunecinos e egípcios não tinham nenhuma esperança no futuro.

Em Líbia, o regime de Muamar Gadafi é corrupto, monopoliza uma grande parte da riqueza do país e sempre reprimiu severamente qualquer tipo de oposição. Mas as condições sociais da gente de Líbia são melhores que nos países vizinhos. A esperança de vida em Líbia é maior que no resto da África. Os sistemas de saúde e de educação são bons. Líbia, por outra parte, é um dos primeiros países africanos que erradicaram a malária. Conquanto há uma grande desigualdade na distribuição da riqueza, o PIB por habitante é de 11.000 dólares -um dos mais altos do mundo árabe. Portanto, em Líbia não se dão as mesmas condições objetivas que deram local aos levantamentos populares na Tunísia e Egipto.

Então, como se explica o que está a ocorrer em Líbia?

Para entender corretamente os acontecimentos atuais devemos pôr no seu contexto histórico. Líbia foi no passado uma província otomana. Em 1835 França fez-se cargo de Argélia. Enquanto, Mohamed Ali, governador do Egipto baixo o Império Otomano, foi aplicando políticas a cada vez mais independentes. Com os franceses instalados em Argélia, por uma parte, e Ali Mohamed no Egipto, por outra, os otomanos temeram perder o controlo da região. Enviaram as suas tropas a Líbia.

Naquele momento, a Irmandade Senusi era muito influente no país. era fundada por Sayid Mohamed Ibn Ali como Senusi, um argelino que após estudar no seu próprio país e em Marrocos, foi pregar a sua versão do Islão a Tunísia e Líbia. Ao começo do século XIX, Senusi atraiu a numerosos seguidores mas não foi muito apreçado por uma parte das autoridades religiosas otomanas que o criticavam nas suas sermons. Após passar algum tempo no Egipto e na Meca, Senusi decidiu exilar-se definitivamente na Cirenaica, no este de Líbia.

A sua Irmandade  cresceu ali e organizou a vida da região arrecadando impostos, resolvendo conflitos intertribais, etc., inclusive tinha o seu próprio exército e oferecia os seus serviços de escolta às caravanas de comerciantes que passavam pela zona. Finalmente, a sua Fraternizada Senusi converteu-se no governo de facto da Cirenaica expandindo a sua influência inclusive até o norte do Chade. Mas então as potências coloniais européias instalaram-se na África dividindo a parte subsaariana do continente. Isso teve um impacto negativo nos Senusi. Assim mesmo, a invasão de Líbia por parte da Itália socavou gravemente a hegemonía regional da Irrmandade.

Em 2008 Itália pagou uma indemnização a Líbia pelos crimes dos colonialistas. A tal ponto foi terrível a colonização? Ou o que pretendia Berlusconi era ser visto com bons olhos poder concluir contratos comerciais com Gadafi?

A colonização de Líbia foi terrível. A princípios do século XX, um governo fascista começou a difundir propaganda dizendo que era necessário que Itália, que era derrotada pelo exército etíope na batalha de Adoua em 1896, voltasse a estabelecer a supremazia do homem branco sobre o continente negro. Era necessário limpar a grande nação civilizada da afrenta que lhe tinham infligido os bárbaros. Esta propaganda afirmava que Líbia era um país de selvagens, habitado por uns quantos nómadas atrasados e que seria bom para os italianos se instalar nessa amável terra, com a sua beleza de postal.

A invasão de Líbia surgiu da guerra italo-turca de 1911 -um conflito particularmente sangrento que terminou com a vitória da Itália em um ano depois. No entanto, a potência européia só ganhou o controlo da região de Trípoli e achou uma feroz resistência no resto do país, especialmente na Cirenaica. O clã Senusi apoiou a Omar a o-Mujtar, quem encabeçou uma notável luta guerrillera em bosques, grutas e montanhas. Infligiu graves perdas no exército italiano, embora este último estava muito melhor equipado e era superior numericamente.

Finalmente, a princípios da década de 1930, Mussolini tomou medidas radicais para acabar com a resistência. A repressão chegou a ser extremamente brutal e um dos principais carniceiros, o general Rodolfo Graziani, escreveria: "Os soldados italianos estavam convencidos de que se lhes tinha confiado uma missão nobre e civilizadora... Deviam-se a si mesmos cumprir com este dever humano a qualquer preço... Se não se pode convencer os líbios dos benefícios fundamentais que se lhes têm proposto, então os italianos têm que livrar uma luta contínua na sua contra e podem acabar com toda a população líbia com o fim de conseguir a paz, a paz do cemitério...".

Em 2008, Silvio Berlusconi pagou uma indemnização a Líbia por estes crimes coloniais. Por suposto, baseava-se em motivos ulteriores. Berlusconi queria ganhar-se a Gadafi com o fim de favorecer alianças económicas. No entanto, pode-se dizer que o povo líbio sofreu terrivelmente durante a época colonial. Não seria exagerado falar em termos de genocídio.

Como obteve Líbia a sua independência?

Enquanto os colonos italianos suprimiam à resistência em Cirenaica, o dirigente dos Senusi, Idris, exiliou-se no Egito com o fim de negociar com os britânicos. Após a Segunda Guerra Mundial, o império colonial europeu foi desmantelado progressivamente e Líbia independiçou-se em 1951. Com o apoio de Grã-Bretanha, Idris tomou o poder. No entanto, parte da burguesía *libia, baixo a influência do nacionalismo árabe que se estava a desenvolver no Cairo, queria que Líbia fizesse parte do Egipto. Mas os imperialistas não queriam que se formasse uma grande nação árabe. Portanto, apoiaram a independência de Líbia situando ao seu fantoche Idris no poder.

O rei Idris esteve de acordo?

Por suposto. Com a independência, as três regiões que compõem Líbia -Tripolitana, Fezzan e Cirenaica- viram-se unidas em um sistema federal. Mas há que ter em conta que Líbia é três vezes maior que França. Devido à falta de infraestrutura, as fronteiras do território não puderam ser claramente definidas até após que o avião se tivesse inventado. E em 1951, no país só tinha um milhão de habitantes. Por outra parte, as três regiões que se acabavam de unir tinham uma cultura e uma História muito diferentes. Por último, o país carecia de estradas que unissem as regiões para facilitar a comunicação. Líbia, de facto, encontrava-se em uma fase muito atrasada e não era uma verdadeira nação.

Pode explicar este conceito?

O estado-nação é um conceito vinculado ao aparecimento da burguesia e do capitalismo. Na Europa durante a Idade Média, a burguesía capitalista queria difundir os interesses empresariais na maior medida possível embora impediam-lho todas as limitações do sistema feudal. Os territórios estavam divididos em numerosas entidades pequenas a cujos comerciantes se lhes impunha um importante número de impostos se queriam transportar mercadorias de um local a outro. E isso sem considerar as diferentes obrigações com as que tinham que cumprir para os senhores feudais. Todos estes obstáculos foram eliminados pela revolução capitalista burguesa que permitiu criar estados-nação e grandes mercados nacionais sem obstáculos.

Mas a nação líbia criou-se em uma época na que ainda se estava em uma fase pré-capitalista. Carecia de infraestrutura; uma grande parte da população era nómada e de difícil controlo; as divisões na sociedade eram muito fortes, ainda se praticava a escravatura. Por outra parte o rei Idris não tinha um plano para o desenvolvimento do país. Dependia totalmente dos Estados Unidos e da ajuda britânica.

Por que recebeu o apoio dos Estados Unidos e de Grã-Bretanha? Tinha que ver com o petróleo?

Em 1951 ainda não se tinha descoberto o petróleo em Líbia. Mas os anglo-saxons tinham bases militares no país devido à posição estratégica que ocupa desde o ponto de vista do controlo do Mar Vermelho e o Mediterráneo.

Não foi até 1954 que o rico texano Nelson Bunker Hunt descobriu o petróleo líbio. Naquele momento, o petróleo árabe vendia-se ao redor de 90 centavos o barril. No entanto, o petróleo líbio comprou-se a 30 centavos porque o país estava muito atrasado. Era quiçá o mais pobre da África

Mas de todas formas o dinheiro afluia graças ao petróleo. Em que se usava?

O rei Idris e o seu clã Senusi enriqueceram-se pessoalmente. Também distribuíram parte dos rendimentos do petróleo aos chefes de outras tribos com o fim de apaziguar as tensões. Desenvolveu-se uma pequena elite graças ao comércio de petróleo e construiu-se alguma infraestrutura, principalmente ao longo da costa mediterránea, a área de maior importância para o comércio exterior. Mas as zonas rurais no coração do país seguiram muito depauperadas e os pobres começaram a inundar os bairros marginais ao redor das cidades. Isto continuou até 1969, quando três oficiais derrocaram ao rei, um dos quais era Gadafi.

Como é que a revolução se levou a cabo por oficiais do exército?

Em um país profundamente rasgado pelas divisões tribais, o exército era, de facto, a única instituição nacional. Líbia como tal não existia senão através do seu exército. Ademais, os Senuss do rei Idris tinham a sua própria milícia. Mas no exército nacional era onde se conheciam os líbios das diferentes regiões.

Gadafi tinha-se formado ao princípio em um grupo naserista mas mais tarde entendeu que essa organização não seria capaz de derrocar à monarquia, pelo que se uniu ao exército. Os três oficiais que derrocaram ao rei Idris estavam muito influenciados por Naser. Gamal Abdel Naser era um oficial do exército egípcio que derrocou ao rei Faruk. Inspirado pelo socialismo, Naser opunha-se à injerência do neo-colonialismo estrangeiro e pregou a unidade do mundo árabe. Por outra parte nacionalizou o Canal de Suez que até então era gerido por França e Grã-Bretanha, o que atraiu a hostilidade de Occidente e os bombardeios de 1956.

O panarabismo revolucionário de Naser foi uma grande influência em Líbia, especialmente no exército e mais ainda em Gadafi. Os oficiais líbios que levaram a cabo o golpe de Estado em 1969 seguiam a mesma agenda que Naser.

Quais foram os efeitos da revolução em Líbia?
Gadafi tinha duas opções. Ou deixava o petróleo líbio em mãos de companhias ocidentais como fazia o rei Idris convertendo a Líbia no mesmo que as monarquias petroleiras do Golfo -onde ainda se pratica a escravatura, as mulheres não têm direitos e os arquitetos europeus podem desfrutar construindo todo o tipo de construções estranhas com orçamentos astronómicos fornecidos pela riqueza dos povos árabes; ou podia seguir o caminho da independência dos poderes neo-coloniais. Gadafi elegeu a segunda opção. Nacionaliçou o petróleo líbio, o que enfureceu muito os imperialistas.

Na década de 1950, durante o governo de Eisenhower, circulava umha troça sobre a Casa Branca que baixo Reagan se converteu, de facto, em teoria política. Como se diferencia um bom árabe de um mau? Um bom árabe faz o que Estados Unido diz. A mudança obtém aviões, permite-se-lhe depositar o seu dinheiro em Suíça, convida-se-lhe a Washington, etc. Estes eram os que Eisenhower e Reagan chamavam bons árabes -os gajos de Arábia Saudita e Jordânia, os jeques e emires do Kuwait e o Golfo, o Sha do Irão, o rei de Marrocos e, por suposto, o rei Idris de Líbia. E os árabes maus? Esses eram os que não obedeciam a Washington, Naser, Gadafi, e mais tarde Saddam.

De todos modos, Gadafi não é muito?
Gadafi não é um mau árabe porque ordenasse disparar contra a multidão. O mesmo fizeram em Arábia Saudita ou em Bahréin e os dirigentes desses países ainda recebem todas as honras que Occidente pode outorgar. Gadafi é um mau árabe porque nacionaliçou o petróleo líbio que as empresas ocidentais achavam -até a revolução de 1969- que lhes pertencia. Ao nacionalizá-lo, Gadafi promoveu mudanças positivas em Líbia no que se refere a infraestruturas, educação, saúde, a posição da mulher, etc.

Bom, Gadafi derrocou à monarquia, nacionaliçou o petróleo, opôs-se aos poderes imperiais e provocou uma mudança positiva em Líbia. No entanto, 40 anos depois, é um ditador corruto que suprime toda a oposição e que, uma vez mais, abre o seu país às empresas ocidentais. Como se explica esta mudança?

Desde o princípio, Gadafi opôs-se às grandes potências coloniais e apoiou generosamente a vários movimentos de libertação em todo mundo. Acho que foi muito bom por essa razão. Mas para dar uma visão completa é necessário falar de que o Coronel era anti-comunista. Em 1971, por exemplo, enviou de regresso a Sudão um avião que transportava a dissidentes comunistas sudaneses que foram executados de imediato pelo presidente Nimeiri. A verdade é que Gadafi nunca foi um grande visionário. A sua revolução foi uma revolução nacional burguesa e o que estabeleceu foi o capitalismo de Estado. Para entender como o seu regime perdeu o rumo há que analisar o contexto -que operou em sua  contra- e também os erros pessoais cometidos por Gadafi.

Em primeiro lugar, já temos visto que Gadafi teve que começar desde zero em Líbia. O país estava muito atrasado. Não tinha gente formada da que dispor nem uma classe operária forte que apoiasse a revolução. A maioria das pessoas que recebia educação eram membros da elite que vendia a riqueza líbia às potências neo-coloniais. Obviamente essas pessoas não iam apoiar a revolução e a maioria abandonou o país com o fim de organizar uma oposição desde o estrangeiro.

Ademais, os oficiais líbios que derrocaram ao rei Idris estavam muito influídos por Naser. Egito e Líbia pretendiam unir em uma associação estratégica. Mas à morte de Naser em 1970, o projeto estava estancado e Egito converteu-se em um país contrarrevolucionário alinhado com Occidente. O novo presidente egípcio, Anwar a al-Sadat, aliou-se com Estados Unidos, liberou progressivamente a economia do país e iniciou uma aliança com Israel. Inclusive chegou a estourar um breve conflito com Líbia em 1977; imagine-se a situação em que se encontrou Gadafi: o estado que o tinha inspirado e com o que esperava estabelecer uma aliança tinha-se convertido de repente em inimigo.

Outro elemento da situação que operou na contramão da revolução líbia: a grave queda dos rendimentos do petróleo durante a década de 1980. Em 1973, durante a guerra árabe-israelita, os países produtores de petróleo decidiram impor um embargo que ocasionou que o preço do barril de petróleo se dispara. Este embargo proporcionou a primeira grande transferência da riqueza do Norte em direção ao Sul. Mas durante a década de 1980 produziu-se também o que poder-se-ia chamar a "contrarrevolução do petróleo" orquestrada por Reagan e os sauditas. Arábia Saudita aumentou consideravelmente a produção e inundou o mercado causando uma queda em massa dos preços. O preço do barril passou de 35 dólares a 8.

Não estava Arábia Saudita atirando pedras contra o seu próprio telhado?

Por suposto, teve um impacto negativo na economia saudita. Mas o petróleo não é o mais importante para Arábia Saudita. Os seus relacionamentos com Estados Unidos preocupam-lhe mais porque é o apoio de Washington o que permite à dinastia saudita manter no poder. Esta onda que afetou ao preço do petróleo resultou catastrófica para vários países produtores que se viram endividados. Tudo isto ocorreu tão só 10 anos após que Gadafi chegasse ao poder. O líder líbio, que chegou da nada, via como o único médio que tinha para construir algo desaparecia como neve fundida segundo se ia reduzindo o dinheiro do petróleo.

Assim mesmo, há que ter em conta que a contrarrevolução do petróleo também acelerou o colapso da URSS que nesse momento estava empantanada no Afeganistão. Com o desaparecimento do bloco soviético, Líbia perdido a sua principal fonte de apoio político e encontrou-se isolada na cena internacional e, ademais, foi incluída na lista de Estados terroristas da administração Reagan e ficou submetida a toda uma série de sanções.

Quais foram os erros de Gadafi?

Como já mencionei, não era um grande visionário. A teoria desenvolvida no enquadramento do seu Livro Verde é uma mistura de anti-imperialismo, islamismo, nacionalismo, capitalismo de Estado e outras coisas. Além da sua falta de visão política, Gadafi cometeu um grave erro ao atacar a Chade na década de 1970. Chade é o quinto país maior da África e o coronel, que sem dúvida pensava que Líbia era demasiado pequeno para dar cabida às suas ambições megalómanas, anexou-se da Faixa de Auzu. É verdadeiro que historicamente a Irmandad Senusi exercia a sua influência nessa região. E que em 1945 o ministro francês de Relacionamentos Exteriores, Pierre Laval, quis comprar a Mussolini, oferecendo-lhe a Faixa de Auzu [1]. Mas ao final Mussolini acercou-se a Hitler e o acordo ficou em letra morrida. [A data de 1945 penso tem que estar errada, já que nesse ano Mussolini estava morto e remata a segunda guerra mundial suicidando-se Hitler na chancelaria de Berlim; Nota do blogger].

Gadafi não obstante, queria anexar este território e entrou em uma luta contra Paris pela influência sobre esta ex-colónia francesa. Ao final, Estados Unidos, França, Egipto, Sudão e outras forças reaccionárias na região apoiaram ao exército de Chade, que derrotou às tropas líbias. Capturaram-se milhares de soldados e grandes quantidades de armas. O presidente de Chade, Hissène Terei, vendeu esses soldados à administração Reagan: a CIA utilizou-os como mercenários em Quénia e em Latinoamérica.

Mas o erro maior da revolução líbia foi ter apostado demasiado pelo seu petróleo. A maior riqueza de um país são os seus recursos humanos. Não se pode ter sucesso em uma revolução se não se desenvolvem a harmonia nacional, a justiça social e uma distribuição equitativa da riqueza.

No entanto, o coronel não eliminou as práticas discriminatórias que faziam parte da tradição líbia desde muito tempo atrás. Como se pode mobilizar à população se não se demonstra aos líbios que seja qual seja a sua origem étnica ou tribal, todos são iguais e podem trabalhar juntos pelo bem da nação? A maioria da população líbia é árabe, fala o mesmo idioma e compartilha a mesma religião. A diversidade étnica não é muito importante. fosse possível abolir toda a forma de discriminação com o fim de mobilizar à população.

Assim mesmo, Gadafi foi incapaz de educar ao povo líbio em matéria revolucionária. Não elevou o nível da consciência política dos cidadãos e não construiu um partido para apoiar a revolução.

No entanto, de acordo com o seu Livro Verde de 1975, estabeleceu os comités populares, uma espécie de democracia direta.

A tentativa de democracia direta estava influenciado por conceitos marxistas-leninistas. Mas os comités populares em Líbia não se baseavam na análise política nem em qualquer ideologia clara. Foram um falhanço. Também Gadafi não  construiu um partido político para apoiar a sua revolução. Ao final, separou-se do povo. A revolução líbia converteu-se no projeto de um homem. Tudo girava em torno deste líder carismático divorciado da realidade. E quando se abriu um abismo entre o líder e o seu povo, a força e a repressão vieram a encher o vazio. O excesso seguiu ao excesso, a corrupção estendeu-se, as diferenças tribais cristalizaram.

Hoje em dia essas divisões situaram-se à cabeça da crise líbia. Há, por suposto, uma parte de jovens líbios cansados da ditadura que foram influídos pelos acontecimentos na Tunísia e Egipto. Mas a oposição do este do país, que representa a sua parte do bolo após que a distribuição da riqueza seja muito desigual no enquadramento do regime de Gadafi, está-se a aproveitar desses sentimentos populares. Por outra parte, não sabemos muito a respeito deste movimento de oposição. Quem são?, qual é o seu programa?, se querem realmente empreender uma revolução democrática, por que recorreram às bandeiras do rei Idris, símbolo da época em que a Cirenaica era a província dominante do país? Se um faz parte da oposição de um país e como patriota quer derrocar ao seu governo, deve tratar do fazer corretamente. Não se pode provocar uma guerra civil no seu próprio país sem o pôr em risco de balcanização.

Na sua opinião, já não é só uma questão de uma guerra civil pelas contradições entre os diferentes clãs de Líbia?

É pior, acho. Já se deram anteriormente contradições entre as tribos mas nunca foram tão generalizadas. Aqui Estados Unidos está a avivar os lumes dessas tensões com o fim de poder intervir militarmente em Líbia. Desde os primeiros dias da insurreção, a secretária de Estado, Hillary Clinton, sugeriu armar à oposição. Desde o princípio, a oposição organizada pelo Conselho Nacional negou toda injerência estrangeira por parte de potências estrangeiras porque sabiam que qualquer interferência desacreditaria ao seu movimento. Mas hoje em dia parte da oposição pediu a intervenção armada.

Desde que desatou-se o conflito, o presidente Obama instou a que se tenham em conta todo o tipo de opções e o Senado estadounidense fez o apelo à comunidade internacional para impor uma zona de exclusão aérea sobre território líbio, o que supõe um verdadeiro ato de guerra. Ademais, o portaavions nuclear, o USS Enterprise, que estava estacionado no Golfo de Adém para lutar contra a pirateria,  transladou-se até a costa de Líbia. Dois barcos anfíbios, o USS Kearsarge e o USS Ponce, com vários milhares de infantes de marinha e as frotas de helicópteros de combate a bordo, também se estacionaram no Mediterráneo.

Na semana passada, Louis Michel, ex comissário de Desenvolvimento e Ajuda Humanitária da UE, propôs energicamente uma pergunta em um estudo de televisão sobre que governo teria o valor de levar o caso de uma intervenção armada em Líbia aos seus parlamentares. No entanto, Louis Michel não pediu nunca uma intervenção assim no Egipto ou em Bahréin. Por que?

É a repressão mais violenta em Líbia?

A repressão foi muito violenta no Egito embora a OTAN não enviou navios de guerra à costa egípcia para ameaçar a Mubarak. Não teve mais que um apelo para que se procurasse uma solução democrática.

No caso de Líbia há que ter muito cuidado com a informação que nos chega. Em um dia fala-se de 2.000 mortes e ao dia seguinte revisa-se a conta a 300. Também  está-se a dizer desde o começo da crise que Gadafi bombardeava ao seu próprio povo embora o exército russo, que está a observar a situação por satélite, desmentiu oficialmente essa informação. Se a OTAN prepara-se para intervir militarmente em Líbia podemos estar seguros de que os meios de informação dominantes vão difundir a sua propaganda de guerra habitual.

De facto, ocorreu o mesmo na Roménia com Ceausescu. Na Noiteboa de 1989, o primeiro-ministro belga, Wilfred Martiens, pronunciou um discurso na televisão. Afirmou que as forças de segurança de Ceaucescu acabavam de matar a 12.000 pessoas, o que não era verdadeiro. As imagens do famoso massacre de Timosoara circularam assim mesmo por todo mundo. Estavam destinadas a demonstrar a violência cega do presidente romanês. Mas mais tarde demonstrou-se que todo era preparado. Tinham-se sacado corpos do depósito de cadáveres e colocaram-se nas trincheiras com o fim de impressionar aos jornalistas. Também se disse que os comunistas envenenavam a água, que tinha mercenários sírios e palestinianos em Romênia, ou inclusive que Ceaucescu treinava a órfões como máquinas de matar. Todo era pura propaganda dirigida a desestabilizar o regime.

Ao final, Ceaucescu e a sua esposa foram assassinados após uma farsa de julgamento que durou 55 minutos. Por suposto, o presidente romanês, como Gadafi, não era um santo. Mas que aconteceu desde então? A Romênia converteu-se em uma semi-colónia européia. Explode-se a sua mão de obra barata. Numerosos serviços privatizaram-se em benefício das empresas ocidentais e estão fora do alcance económico de grande parte da população. E agora, a cada ano não são poucos os romenos que vão chorar envelope a tumba de Ceaucescu. A ditadura foi uma coisa terrível mas depois o país foi destruído economicamente; ainda pior [de facto inquéritos recentes demonstram que mais da metade dos romenos afirmam que viviam melhor sob o "comunismo"; Nota do blogger, ver aqui].

Por que Estados Unidos quer derrocar a Gadafi? Durante os últimos dez anos, o coronel foi muito suscetível a Occidente e privatizou uma parte importante da economia líbia, beneficiando às empresas ocidentais no processo.

Há que analisar todos estes acontecimentos à luz do novo equilíbrio de forças no mundo. As potências imperialistas estão em declínio enquanto outras forças vão em aumento. Recentemente China ofereceu-se a comprar a dívida portuguesa. Na Grécia, a população é a cada vez mais hostil a esta União Européia que se percebe como uma armadilha do imperialismo alemão. Sentimentos similares estão a crescer nos países do Leste. Por outra parte, Estados Unidos atacou o Iraque com o fim de obter o controlo do seu petróleo, mas ao final só uma única empresa estadounidense se está a beneficiar disso, o resto do petróleo está a ser explodido por empresas de Malásia e China. Em resumo, o imperialismo está em crise.

Ademais, a revolução da Tunísia realmente apanhou por surpresa a Occidente. A queda de Mubarak ainda mais. Washington tenta de recuperar a sua influência sobre estes movimentos populares mas o seu controlo desvanece-se. Na Tunísia, o primeiro-ministro Mohamad Ghanouchi, um produto direto da ditadura de Ben Ali, estava destinado a controlar a transição criando a ilusão de mudança. Mas a determinação do povo obrigou-o a renunciar. No Egipto, Estados Unidos contava com o exército para manter um sistema aceitável no seu local. Mas recebi informações que confirmam que em muitos quartéis militares de todo o país, os oficiais jovens se estão a organizar em comités revolucionários em apoio do povo egípcio. Inclusive prenderam a alguns oficiais relacionados com o regime de Mubarak.

A região poderia escapar ao controlo dos Estados Unidos. A intervenção em Líbia permitiria a Washington avariar o movimento revolucionário e evitar a sua propagaçom ao resto do mundo árabe e da África. Desde a semana passada, os jovens têm estado protestando em Burkina Faso, embora os meios guardam silêncio ao respeito. Como o guardam sobre as manifestações que estão a ter local no Iraque.

Outro perigo para os Estados Unidos é o possível aparecimento de governos anti-imperialistas na Tunísia e Egito. Se isto acontecesse, Gadafi já não estaria isolado e poderia incumprir os acordos atingidos com Occidente. Líbia, Egipto e Tunísia poderiam unir-se para formar um bloco anti-imperialista. Com todos os recursos que têm ao seu dispor, especialmente as grandes reservas de divisas de Gadafi, os três poderiam converter em uma potência regional importante, provavelmente mais importante de Turquia.

No entanto, Gadafi apoiou a Ben Ali quando o povo da Tunísia se rebelou.

Isso demonstra até que ponto é débil e está isolado e fora de contacto com a realidade. No entanto, o cambiante equilíbrio de forças na região poderia transformar as coisas. Gadafi poderia mudar de ombro o seu fuzil; não seria a primeira vez.

Como poderia se modificar a situação em Líbia?

As potências ocidentais e o movimento denominado de oposição recusaram a oferta de mediação de Chávez. Isso significa que não estão interessados em uma solução pacífica ao conflito. Mas os efeitos de uma intervenção da OTAN serão desastrosos. vimos o que ocorreu no Kosovo ou Afeganistão.

Por outra parte, a agressão militar poderia alentar os grupos islamistas a entrar em Líbia que poderiam tomar grandes depósitos de armas ali. A al-Qaida poderia infiltrar-se e converter Líbia em um segundo Iraque. Ademais, já há grupos armados em Níger que ninguém pôde controlar. A sua influência poderia estender-se a Líbia, Chade, Malí e Argélia. Com a intervenção militar, o imperialismo está a abrir as portas do inferno.

Para concluir, o povo líbio merece algo melhor que este movimento de oposição que está a afundar ao país no caos. Precisa um movimento realmente democrático que substitua ao regime de Gadafi e traga a justiça social. Em nenhum caso os líbios merecem uma agressão militar. As forças imperialistas em retrocesso parecem, no entanto, dispostas para uma ofensiva contrarrevolucionária no mundo árabe. Atacar a Líbia é a sua solução de urgência. Mas estão a disparar-se nos pés.

Nota:

1. Esta zona é rica em urânio - CPGB ml

Fonte: http://www.michelcollon.info/*Libya-popular-*uprising-*civilian.html