Mostrando postagens com marcador Syriza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Syriza. Mostrar todas as postagens

08/07/2014

James K. Galbraith sobre a proposta modesta, Europa e Grécia. Entrevista

James K. Galbraith. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido desde o castelhano (tradução de David Torres Pascual) por À revolta entre a mocidade.Galbraith é professor da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs da Universidade de Texas (Austin). O seu último livro é Inequality and Instability: A Study of the Worl Economy Just Before the Great Crisis (2012) e proximamente tem previsto publicar The End of Normal: The Great Crisis and the Future of Growth (2014). 
 
Nesta entrevista com um jornalista grego, com o galho do lançamento da tradução grega do livro The Modest Proposal de Yanis Varoufakis (do que temos falado em À Revolta entre a mocidade; vid. tag "Varoufakis", James), James K. Galbraith argumenta que Itália e Grécia podem jogar um papel importante na mudança dos termos da "discussão" em Europa, de tal jeito que as soluções racionais e minimalistas, como a sua proposta modesta, podam ter a oportunidade de salvar a Eurozona. Também explica que a implosão grega foi uma medida política procedente de Berlim e Francforte; e que se a pressão da troika diminui deve-se ao sucesso de SYRIZA - e não aos "êxitos" do programa de austeridade. Por último, responde à importante pergunta sobre as estratégias de inversão do governo chinês em Grécia e no resto da Eurozona.





A "proposta modesta" sustenta-se sobre a análise de que a crise financeira pode resolver-se se três instituições, a saber, o Banco Central Europeu (BCE), o Fundo Europeu de Inversões (FEI) e o Banco Europeu de Inversões (BEI), assim como o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEDE) se empregam na direção de criar um espaço comum entre as economias europeias, já seja através da emissão de euro-bónus ou mediante um novo "New Deal" [literalmente Novo Trato, pacote de estímulo da economia desenvolvido por Roosevelt nos EUA após a crise de 1929; ÀReaM]. No entanto, em última instância, estas são decisões de caráter político rechaçadas pela maioria dos estados do norte de Europa, que sentem que já têm feito suficiente pelo sul nos últimos 50 anos. Este sentimento exprime-se através do apoio aos partidos eurocépticos nas recentes eleições. Considera este recente câmbio perigoso para o euro e para a UE? Na sua opinião, como é que se pode frenar esta tendência?

Sim é perigoso. Embora haja que assinalar que o grupo eurocéptico não o fez de tudo bem na Alemanha, que é a nação decisiva sobre estes assuntos.

Para começar, é mester encontrar um discurso claro e convincente para o sul de Europa. Acho que este processo já está em andamento, tanto em Itália quanto em Grécia. O fundamento desse discurso não pode ser que os estados em crise precisam "ajuda". Deve ser que o projecto europeu está em perigo, que deve ser salvo, que pode ser salvo - e que essas medidas requerem uma mudança de ideias e de política. 

Depois será preciso começar as negociações com os companheiros europeus encarregados das mudanças  nas medidas políticas.

Ainda está por ver se a opinião pública no norte de Europa pode modificar-se a favor dum câmbio deste teor. Porém, um giro favorável apenas é possível se os líderes políticos começam a exprimir-se com novas ideias e com uma nova direção na prática.


Quanto a sua proposta de um novo "New Deal", os críticos assinalam que os programas de crescimento e estímulo têm fracasado anteriormente na UE (por exemplo, durante a presidência de Delors na Comissão Europeia) e que, em lugar de isso, deveríamos centrarmo-nos na competitividade. Quê é que lhe leva a pensar na sua proposta como uma boa solução para Europa? 

A nossa proposta não está baseada em "estímulos". É uma mudança coordenada em quatro áreas: a dívida pública, o sistema bancário, um programa de inversões e um programa de solidariedade social. Baseia-se, em parte, nos princípios da sucedida estabilização das condições económicas que teve lugar nos Estados Unidos, e que também se deu "no interior" das grandes economias do norte de Europa. Sustenta-se sobre ideiais e políticas provadas. Por outras parte, uma estrategia baseada na "competividade" está destinada ao fracasso, já que não há jeito de que o sul de Europa poda diminuir os ordenados reais  tanto como para ser competitivos frente ao mundo não europeu. Pelo contrário, os recortes nas instituições de bem-estar social no sul de Europa estão destruindo os cimentos duma economia avançada, fazendo menos atrativa a inversão e piorando a competitividade.

Em relação à crise Humanitária, você propõe que os estados e os bancos cheguem a um acordo para reverter a tendência seguinda com TARGET2. Isso implicaria necessariamente um giro desde a "competitividade" à "solidariedade" e refletiria uma mudança nos corações e nas mentes das elites europeias. Poderia-se decidir e aplicar esta mudança sem modificar os princípios básicos do pensamento económico e político dominante atualmente na UE?

Não. Requer-se uma mudança de pensamento. Graças por fazer esta pergunta. Acreditamos que é a nossa tarefa ajudar a aclarar este ponto. Quanto à nossa proposta para financiar os cupões  de alimentos utilizando o juro acumulado de TARGET2, lembro-lhe que este dinheiro não reflete a competitividade do Norte. Reconhecendo esta competitividade, "recompensa" às nações centrais mediante excedentes na sua conta corrente. O juro acumulado de TARGET2, pela contra, reflete a fragmentação do euro; não podemos cavilar nesses quartos como uma recompensa para as decisões empresariais tomadas pelas entidades dos estados centrais.

 
Mario Draghi anunciou recentemente a fixação de taxas de juro negativas, com o propósito de fazer frente à deflação. Na sua opinião, será isto avondo?


Não. As armas do banco central neste aspeto são muito débeis.

A ideia das taxas de juro negativas parece fundamentar-se em que os bancos deveriam ter um incentivo para emprestar as suas reservas. Porém os bancos não prestam reservas. Os bancos criam depósitos através de empréstimos, e concedem empréstimos apenas quando têm solicitantes credíveis, com boas expetativas e garantias. O Banco Central Europeu pode calmar o pânico. Pode-se pôr fim a esta especulação coordenada contra os estados pequenos. Porém, por sim próprio, o BCE não pode criar as condições gerais para a reanudação da expansão generalizada de crédito. Por isso teimamos no papel do BEI e do FEI, e na necessidade de implementar a grande escala a capacidade destas instituições.


O presidente do principal partido da oposição em Grécia, SYRIZA, Alexis Tsipras, reclama, entre outras cousas, o indulto duma parte da dívida. Parece-lhe realista essa demanda? Pode sair Europa da crise sem algum tipo de redução da dívida dos estados do sul? 

A ideia desenvolta na proposta modesta consiste num mecanismo que funciona através do Banco Central Europeu para ajudar a que dívida soberana de Grécia e de outros estados em crise seja mais manejável, acompanhado de medidas para ajudar a restaurar a atividade económica e, já que logo, (finalmente) a capacidade fiscal do estado heleno. Acreditamos que esta proposta é totalmente realista, especialmente se se aplica dentro do marco da legislação europeia existente. Particularmente, no caso de Grécia, uma vez que a sua dívida em poder das autoridades públicas europeias se voltasse manejável, deveria ter pouca dificuldade controlar a dívida que fica em mãos privadas.

Permita-me assinalar que, nestas situações, se não se tomam as medidas práticas, com o tempo, outras medidas mais duras serão necessária. Uma dívida que não se pode sustentar, não sustentar-se-á. Assim que as cousas põem-se mais difíceis a medida que passa o tempo se não há uma ação prática.


 No seu informe anual, o MEDE insiste em que Grécia está seguindo o caminno correto e que se encontra na senda do crescimento, como demonstra o índice de competitividade del Banco Mundial, em que o país escalou 29 posições em comparação ao ano 2009. (Pode leer o informe do MEDE aqui). O MEDE afirma explícitamente que se avançou devido à redução de los costes da mão de obra no país.
Sim o MEDE é a sua autoridade nestes assuntos, não podo fazer muito mais por você. Sugiro-lhe pegue uma vista de olhos às suas predições anteriores.

Por outra parte, o primeiro ministro chinês visitou Grécia no dia de hoje coma intenção de assinar acordos de 7 biliões de euros em setores como o do ferrocarril e as infraestruturas, o turismo, etc. Deveriam ser considerados como signos da confirmação de que a austeridade funciona? Se não é assim, qual seria a sua interpretação?

Acho que os chineses estão mostrando interesse para ganhar-se a vontade do Estado grego e para conseguir aprofundar neste tipo de cooperação com o fim de assegurar-se um maior acesso aos mercados em Europa. Também estão interessados na diversificação da sua carteira de ativos, embora em menor medida. Não creio que estas inversões sejam, em sentido estrito, uma proposta de negócios para eles; quase nada do que China faz no campo da inversão estrangeira tem a ver mais com os negócios que com motivações políticas. Portanto, e com muita claridade, esta medida não tem nada que ver com o suposto sucesso do programa de austeridade. Mais bem é uma oportunidade que surge do fracasso de Europa à hora de iniciar este tipo de inversões, que poderiam ter sido feitas baixo a proteção do Banco Europeu de Inversões.


O governo afirma que o resgate está chegando a sua fim e que no futuro não serão necessárias mais medidas de austeridade. Partilha você essa opinião? 

Sobre este tema, espero que o governo tenha razão. Se o que diz o governo é certo, estaria refletindo um importante câmbio de posição por parte da troika. E a causa dessa mudança - e se produziu- não é difícil de averiguar: podemos encontrá-la em SYRIZA. A hipótese mais provável é que os sócios europeus de Grécia estejam reagindo perante o câmbio no clima político grego e sintam preocupação por poder encontrar-se negociando frente um interlocutor muito mais duro representando ao próximo governo grego.

Por suposto, o que esta mudança demonstra é que as medidas de austeridade aplicadas ao longo deste tempo tiveram uma motivação política mais do que económica. As medidas tomaram-se, sobretudo, por raz4oes de política interna na Alemanha. Agora, toda vez que o governo alemão se instalou de forma certa após as eleições, surge uma motivação política mais ampla, que requer a mudança de políticas. E mudam-se.

Conclusão: durante todo este tempo, a economia não teve nada a ver com as políticas de austeridade.


E, por último, teve a oportunidade de assessorar o governo social-democrata do PASOK e ao então Primeiro Ministro, George Papandreou, em 2009. Alguma vez lhe pediram o seu conselho? 

Visitei Grécia várias vezes durante o governo do Primeiro Ministro Papandreou. Ele é um velho amigo, e como sabem os laços entre as nossas famílias remontam-se à década de 1940. Os meus comentários para o governo consistiram basicamente em expor as minhas razões para um profundo pessimismo sobre o rumo das políticas europeias, especialmente em relação a Grécia. O governo grego, nesse momento, tinha uma visão mais otimista e esperançada, e não os culpo por isso. Porém temo-me que as circunstâncias deram-me a razão.

19/05/2014

Syriza obtém espetacular vitória na primeira volta das eleições locais e regionais

Notícia tirada do portal Esquerda.net (aqui).

O Syriza foi o partido mais votado em toda a região de Ática, a mais populosa da Grécia, onde se concentram 3 dos 10 milhões de eleitores do país. O surpreendente desempenho deste partido de esquerda significa um enorme revés para a cada vez mais frágil coligação governativa da Nova Democracia e do Partido Socialista grego (Pasok). A segunda volta das eleições autárquicas e regionais realiza-se no próximo domingo, 25 de maio, ao mesmo tempo que as europeias.
 
A candidata do Syriza, Rena Dourou, celebra a vitória do partido na primeira volta das eleições regionais em Ática. Foto: left.gr
 
As eleições municipais e regionais, a uma semana das europeias, são vistas como um indicador do sentimento da população grega em relação às políticas de austeridade protagonizadas pelo primeiro-ministro Antonis Samaras, que enfrentou o seu primeiro teste eleitoral desde que chegou ao poder há dois anos.

Na região de Ática, a mais populosa do país, a candidata do Syriza, Rena Dourou,obteve 23,5 por cento, enquanto o atual presidente, Yannis Sgouros, apoiado por Pasok e Dimar, se ficou pelos 22,2 por cento.

Os resultados da primeira volta aumentam a pressão sobre a Nova Democracia de Samaras e o seu parceiro de coligação Pasok, que detém uma curta maioria de dois lugares no Parlamento.

“É um voto de castigo que reflete as divisões internas nos partidos governantes”, afirmou Constantinos Routzounis, chefe da empresa de sondagens Kapa Research, à agência noticiosa Reuters.

“No próximo domingo, vamos ver se esta votação tem um significado político mais profundo”, acrescentou.

A região de Ática, que inclui o município de Atenas, conta com cerca de 3 dos 10 milhões de eleitores gregos, fazendo desta disputa a mais importante da primeira volta das eleições locais.

Em Atenas, o presidente da câmara apoiado pelo Pasok, Yorgos Kaminis, obteve 21,22 por cento dos votos, frente ao jovem Gavriil Sakellaridis de 33 anos candidato pelo Syriza (19,82 por cento).

O candidato conservador Aris Spiliotopoulos arrecadou 17 por cento e o candidato da extrema-direita Ilias Kassidiaris, atual deputado do Aurora Dourada que enfrenta acusações criminais, 16 por cento.

Decorreram eleições em 325 municípios e 13 regiões em toda a Grécia, a segunda volta realiza-se a 25 de maio, juntamente com as europeias. 

Depois de seis anos de recessão e de repetidas ondas de medidas de austeridade, que diminuíram abruptamente os rendimentos da população e fizeram o desemprego disparar para mais de 26 por cento, a eleição teve como centro o impopular programa de resgate da troika.

16/12/2013

A esquerda tem de rejeitar esta Europa construída sem democracia

Notícia tirada do portal Esquerda.net (aqui), ligado ao partido da esquerda lusa BE (Bloco de Esquerdas).

O congresso do Partido da esquerda europeia fez uma homenagem a Miguel Portas com a apresentação de um vídeo com imagens e discursos do dirigente do Bloco que passou os últimos anos da sua vida como deputado europeu e como um dos impulsionadores do PEE
 
O Bloco esteve presente no Congresso do Partido da Esquerda Europeia (PEE) com os seus delegados e delegadas e participou na própria gestão e preparação do Congresso.

Marisa Matias, sendo vice-presidente do Partido, foi responsável pela apresentação do documento político do congresso.

Muita coisa mudou na Europa desde que a atual presidência foi eleita em 2010: o aparecimento da Troika, a primavera árabe, a onda de austeridade, o aumento da divergência norte sul, a chantagem da divida, o aumento do desemprego, da pobreza, da desigualdade, cada vez mais privatizações em toda a Europa, ataque desmesurado aos serviços públicos, cada vez maior esmagamento dos salários e das pensões. Ao mesmo tempo todas as garantias foram dadas à especulação e ao setor financeiro.

O documento parte do aprofundamento da crise na Europa e do falhanço das políticas neoliberais em que a democracia tem sido uma das principais vitimas. O papel da esquerda europeia na refundação da Europa passa por políticas centradas no emprego e desenvolvimento social, ecológico e solidário. Deve haver uma emancipação dos povos face aos mercados financeiros e uma economia ao serviço da sociedade. É fundamental o respeito pela soberania popular e pela democracia para construir uma Europa de paz e cooperação entre os povos.

O documento aborda também a questão das eleições europeias e propõe a criação de uma frente unida contra a austeridade.
 
Segundo Marisa Matias, "A crise que poderia ter sido usada como uma oportunidade para criar um novo contrato social, foi antes usada para operar uma transformação profunda nas nossas sociedades. Mas ainda estamos a tempo de procurar construir esse novo contrato."
 
Luís Fazenda expressou a concordância geral da delegação do Bloco com o documento político apresentado, pela necessidade de se construir uma alternativa socialista para a Europa. Sendo cada vez mais evidente a ausência de respostas por parte das elites europeias e estando provado que a austeridade não é solução, é preciso ter um acordo alargado em toda a Europa que reconheça que este é um problema de todos e permita encontrar soluções comuns.

Nesta perspetiva, é preciso quebrar o enquadramento europeu para dar corpo ao mote do congresso. "Mudar a Europa" implica dizer não a esta Europa e tentar demoli-la para criar uma Europa da democracia, da paz e da justiça social.

Os culpados são o grande capitalismo e a banca, mas a Troika é neste momento a face mais visível da austeridade e o pacto orçamental é a sua concretização ao longo dos próximos anos. Defendemos a realização de um referendo europeu sobre o pacto orçamental que possa ser usado em toda a Europa para discutir a austeridade e mobilizar forças para as eleições europeias.

Para Luís Fazenda o principal e construir uma alternativa socialista para uma nova Europa.
 
Catarina Martins falou de uma Europa construída sem democracia, como uma fortaleza e ao serviço da finança. Para os povos europeus, sobretudo nos países periféricos, a promessa de uma Europa do desenvolvimento e da paz transformou-se na Europa da recessão e da desigualdade.

Esta Europa destrói as conquistas feitas pelos trabalhadores ao longo do século XX. Por isso este não é um problema de Portugal, da Grécia ou de Espanha: é um problema de todos os trabalhadores europeus.

A esquerda tem a responsabilidade de rejeitar esta Europa e de construir um novo espaço democrático e solidário. E se queremos uma Europa reconstruida, e não apenas remendada, temos de o fazer unidos. É nesse esforço unitário que podemos denunciar as instituições europeias e construir uma alternativa.

Apesar de contestarmos os tratados e instituições europeias, e de sabermos que as recém criadas candidaturas à presidência da Comissão Europeia são uma farsa que apenas serve para fingir um avanço na democracia das instituições, a delegação portuguesa apoia a ideia de uma candidatura do PEE. Este será apenas mais um caminho para dar voz à alternativa da esquerda europeia, uma voz que denuncie a falência das políticas de austeridade e a falência democrática das instituições europeias, uma voz que nos une e seja ouvida.

Neste contexto a candidatura de Alexis Tsipras é a melhor opção, porque Tsipras é a face da alternativa de esquerda que pode em breve ser governo num país europeu. As eleições legislativas gregas de 2014 podem dar à esquerda europeia o governo de que precisa. Essa oportunidade tem de mobilizar a solidariedade de todo o Partido de Esquerda Europeia. Esta candidatura dará visibilidade ao apoio da esquerda europeia ao Syriza e à sua luta na Grécia.

E, tal como aconteceu em Portugal há quase 40 anos, a mudança na Grécia trará novas possibilidades de mudança por toda a Europa.
 
Por fim, na apresentação de algumas alterações aos estatutos Renato Soeiro fez uma análise da evolução do partido desde a sua fundação, relembrando que o PEE continua a ser um processo em desenvolvimento: não está acabado nem há nenhum modelo para o fazer. O caminho faz-se caminhando e o PEE constrói-se à medida que o fazemos em conjunto.

Nesse sentido, os estatutos vão evoluindo mas ainda há muitas questões que terão de ser aprofundadas. Nelas incluem-se o alargamento do PEE a mais partidos europeus, nomeadamente os que estão fora da União Europeia e a inclusão de membros individuais no partido. A primeira questão está a ser abordada nas presentes alterações dos estatutos, procurando-se que, cada vez mais, todos os partidos europeus que se revejam nos princípios do PEE, possam tornar-se membros. No que diz respeito à adesão individual, permanecem duvidas e limitações estatutárias sobre as quais não foi possível atingir um consenso, pelo que este problema, apesar de ser reconhecido, terá de ser resolvido num próximo congresso.

No segundo dia de congresso o Partido da esquerda europeia fez uma homenagem a Miguel Portas com a apresentação de um vídeo com imagens e discursos do dirigente do Bloco que passou os últimos anos da sua vida como deputado europeu e como um dos impulsionadores do PEE.

09/12/2013

Pode Syriza mudar a economia europeia desde Grécia?

Yanis Varoufakis. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido por nós. Yanis Varoufakis é um reconhecido economista greco-australiano de reputação científica internacional. É professor de política económica na Universidade de Atenas e conselheiro do programa económico do partido grego da esquerda, Syriza. Atualmente ensina nos EUA, na Universidade de Texas. O seu último livro, O Minotauro Global, para muitos críticos a melhor explicação teórico-económica da evolução do capitalismo nas últimas 6 décadas, acaba de ser publicado em castelhano pela editorial espanhola Capitão Swing, a partir da 2ª edição inglesa revisada. Uma extensa e profunda reseña do Minotauro, em SinPermiso Nº 11, Verão-Outono 2012.

 


SYRIZA, é o nome bem conhecido do partido político que mais está a crescer na Grécia, e é um acrónimo de "Coalizão da Esquerda Radical." Para os norte-americanos, a ideia de que um partido de esquerda radical possa atingir o poder é impensável e também o era para os gregos até faz muito pouco. Mas as duras medidas de austeridade que a UE impôs a Grécia, depois do colapso económico, criaram umas condições extremas na Grécia: seis em cada dez jovens estão no desemprego, recortaram-se os salários e as pensões e o produto nacional bruto tem caido em uma quarta parte.

Europa, nestes momentos, encontra-se atrapada em um anel involucionista negativo, do que a política e os políticos tradicionais são incapazes de encontrar a saída. Desde faz três anos, uma corrente interminável de recortes de despesas e aumentos de impostos dominou a agenda do Parlamento grego. Uma vitória de SYRIZA pode ser o reativo que Europa precisa: o triunfo de um partido europeísta que pretende manter ao país, tanto na zona euro como na União Europeia mas sobretudo, um partido que, pela sua ideologia radical, este disposto a abrir o processo a nível de Conselho Europeu para que, por fim, os líderes europeus se enfrentem aos problemas que têm estado ignorando durante os últimos cinco anos. Em junho passado, em um artigo de opinião do New York Times, James K. Galbraith e eu assegurávamos que "SYRIZA pode ser a melhor esperança para a Europa" e seis meses mais tarde segue sendo certo.

Embora SYRIZA existiu, de alguma forma, desde princípios dos noventa, a sua popularidade disparou-se no meio da crise do euro, e nestes momentos mantém uma percentagem de votos entre o 20 e o 30 por cento. Desde junho, começou a tomar a deanteira nos inquéritos de opinião, ao mesmo tempo que as promessas da coalizão no governo de conseguir uma "recuperação à grega" vão-se dissipando. Não tocam eleições gerais até junho de 2016, mas o atual governo conta com uma maioria muito frágil e pode chegar a se dissolver depois de uma mais que provável derrota nas eleições ao Parlamento Europeu do próximo maio em 2014. E se convocam-se eleições gerais, SYRIZA poderia converter no partido maioritário do Parlamento grego.

Surge então a pergunta: que consequências poderia ter essa vitória sobre a mesma SYRIZA? Pode um partido radical de esquerda manter a sua coesão em um cara a cara com os banqueiros neoliberales dos bancos centrais e os seus homólogos conservadores na Alemanha, Países Baixos, Finlândia, França e Espanha? Em tais circunstâncias, qualquer governo de esquerda duraria bem pouco. Se os servidores públicos europeus e os líderes políticos antecipam-se à chegada ao poder de SYRIZA, a capacidade de negociar de SYRIZA, de forjar novas alianças e de acabar com o silêncio surpreendente que reina na sede de Bruxelas da União Europeia, pode-se ver seriamente comprometida.

Uma breve história de SYRIZA

Para falar das origens de SYRIZA devemos remontar-nos/remontá-nos a 1968, com a invasão de Checoslovaquia pelo exército soviético para aplastar a chamada "Primavera de Praga". Naquele tempo, Grécia suportava no segundo ano de uma ditadura militar de corte neofascista e os líderes do Partido Comunista encontravam-se dispersos geograficamente: a maioria escapava para os países do Leste, mas muitos outros languidecían nos cárceres gregos. A esta dispersão seguiu-lhe a divisão ideológica, já que a maioria dos líderes encarcerados opuseram-se à invasão soviética de Praga, enquanto, os que estavam no outro lado do telón de aço, apoiavam a linha dura de Moscovo. Quando a ditadura grega caiu, em julho de 1974 e o Partido Comunista foi legalizado, os dois grupos se tinham cindido e Grécia contava com dois partidos comunistas: o anti-soviético e europeísta, formado pelo Partido Comunista do Interior, cujos líderes permaneceram no país durante a ditadura, e o Partido Comunista de corte estalinista, cujo referente e contraparte se encontrava no Partido Comunista do exterior. SYRIZA é, a grandes rasgos, o herdeiro do Partido Comunista do interior.

É evidente que, desde mediados dos anos setenta, o panorama político mudou por completo. Em 1981, o Partido Socialista Grego, o PASOK, chegou ao poder, liderado pelo carismático Andreas Papandreu. A sua plataforma era bem mais de esquerdas que a de qualquer outro partido social-democrata europeu. Advogando, entre outras coisas, pela saída da Grécia da Comunidade Económica Europeia (CEE) e da OTAN, pela eliminação de todas as bases militares norte-americanas na Grécia, por um programa de socialização em massa na indústria e por incrementar a despesa pública. Os dois partidos comunistas pugnavam, então, por encontrar a maneira de posicionar-se em frente a um PASOK que ameaçava com usurpar o seu monopólio na esquerda grega.

No final dos anos oitenta, a agenda do PASOK fez água. Abandonou a ideia de sair da OTAN e a CEE e só se nacionalizaram as empresas que avariaram a raiz da recessão mundial da década de 1980. O Partido Comunista e o Partido Comunista do Interior forjaram uma aliança chamada Synaspismos (que significa "coalizão"), com a esperança de beneficiar da queda de popularidade do PASOK entre os esquerdistas gregos. As eleições gerais em 1989 deram local a um Parlamento sem maiorias, e o novo partido Synaspismos, que subia ao redor do 15 por cento nas eleições gerais, forjou uma coalizão oportunista com o partido de direita, Nova Democracia, baseado unicamente, na antipatia comum para o PASOK e Andreas Papandreou.

Esta aliança temporária durou só em uns meses, durante os quais se dedicou a arrastar a Papandreu pelos tribunais, lhe acusando de esbanjamento de fundos com provas verdadeiramente fracas. Uma vez absolvido, Papandreu reapareceu e Synaspismos começou a desvanecer nos inquéritos. Enquanto, os dirigentes do Partido Comunista dentro de Synaspismos, decidiram retirar da coalizão, causando uma nova grande divisão dentro do Partido Comunista, ao optar grande número dos seus principais membros, por permanecer em Synaspismos.

O Partido Comunista, já por separado, voltou ao seu programa anti-União Europeia. E afianzando-se assim, em torno do seu dogmático "mantra" estalinista, foi-lhe melhor que a Synaspismos, chegando a atingir uma média do 5 por cento nas eleições gerais. Pelo contrário, Synaspismos dedicava-se à introspeção permanente, tratando de alargar o seu atrativo convertendo-se em uma confederação de grupos, de todo tipo e pelagem, dentro do espetro da esquerda. O que incluía a social-democratas desencantados, verdes, eco-ativistas e grupos anti-racistas. Para atirar juntos de tão dispares e com frequência recalcitrantes, grupos, Synaspismos reconverteu-se no que eu chamo em broma 'Synaspismos Squared' ("Synaspismos ao quadrado"): embora já era uma coligação de diferentes fações (recordemos que Synaspismos significa coligação), Synaspismos coaligou-se com grupos que não queriam fazer parte de Synaspismos mas procuravam uma aliança política. Assim, em 2004, Synaspismos se transformou em SYRIZA, 'A Coalizão de Esquerda Radical". A ênfase do partido pôs-se no "radical", que proporcionava aos que permaneciam fora um pretexto para se fundir com Synaspismos. Não é para se assombrar que tais travessuras internas emocionassem muito pouco ao eleitorado e que a partir de mediados da década de 1990 e até faz muito, muito pouco, SYRIZA mal se mantivesse a flote nos inquéritos, que lhe davam uma escassa percentagem entre a ombreira mínima para assegurar a representação parlamentar (3 por cento) e o 5 por cento. Isto aconteceu, até que a crise do euro nos atingiu em 2010.

Nas eleições de outubro 2009 SYRIZA atingiu pouco mais do 5 por cento do voto popular, enquanto os socialistas do PASOK de George Papandreu, filho de Andreas, obtiveram um aplastante 44 por cento, formando o governo que  teve de supervisionar a implosão económica, em uns meses mais tarde. Em um ano após a quebra da Grécia, os inquéritos indicaram que o PASOK caía até o 10 por cento, enquanto SYRIZA era catapultada a quase o 30 por cento, entrando em concorrência pela vitória eleitoral. Quando o sistema político já não pôde evitar as eleições gerais, as eleições de maio de 2012 confirmaram esta popularidade propulsando SYRIZA ao segundo local, justo por trás da direitista Nova Democracia. Uma segunda eleição em seguida, em um mês mais tarde, em junho de 2012, deu a Nova Democracia o 29,7 por cento e o 26,9 por cento a SYRIZA.

A crise económica mantém-se, enquanto SYRIZA parece incrementar os seus apoios constantemente nos inquéritos. Que poderia significar a sua vitória para a Grécia, para a Europa, e para a mesma SYRIZA?

A ameaça sobre SYRIZA

Aos partidários e ativistas de SYRIZA preocupa-lhes que, ao igual que ao PASOK, uma vitória eleitoral pode-lhes enfrentar a compromissos que se resistem a fazer. Bem como o PASOK entrou no governo em 1981 com propósitos nobres e de esquerdas, que se dissolveram rapidamente no seu caminho, dentro do poder estabelecido, bem pudesse acontecer que a direção de SYRIZA, baixo as tensões extremas, na negociação da quebra económica da Grécia, com Berlim, Francforte e Bruxelas, tivesse que se propor abandonar a sua agenda radical de mudança social e económico na Grécia. É um temor fundado que os líderes de SYRIZA não podem se dar o luxo de ignorar.

A maioria dos partidos políticos gregos, incluídos os da atual coaligação de governo entre Nova Democracia e PASOK, estariam de acordo em que os termos e condições dos chamados "programas de resgate" da Grécia são injustos e que a Troika de prestamistas (a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional) estão a impor condições a Grécia que magoam permanentemente o tecido social do país e são impossíveis de cumprir. Um não tem que ser radical, nem de esquerdas, para reconhecer a loucura da lógica de forçar, a um governo em bancarrota, a reduzir selvagemmente o rendimento nacional como condição para obter mais créditos, (já que é uma consequência inevitável da dura austeridade durante uma profunda recessão). No entanto, a Coaligação no Governo está a atuar como um preso "modelo", obedecendo as instruções da Troika enquanto, ao mesmo tempo, suplica uma racionalização das políticas impostas, nos seus termos e as suas condições.

A posição de SYRIZA difere em dois pontos importantes.Em primeiro lugar, SYRIZA acha, penso que com razão, que a única maneira de conseguir que a União Europeia mude o tratamento da Grécia de forma razoável e deixe de propor medidas de austeridade de castigo, é levantar uma ponta de lança a favor de um replanteamento imediato do "Programa grego" através, em primeiro lugar, da suspensão unilateral das políticas exigidas pela Troika e em segundo local, através do uso ou da ameaça,  do seu poder de veto no Conselho Europeu.

Em segundo local, SYRIZA quer combinar a linha dura de negociação com uma agenda radical para a mudança social na Grécia, incluindo uma modificação importante na base fiscal  imponível, ou a re-introdução de um salário mínimo decente e o incremento dos fundos para a Segurança Social e a Previdência Pública. Acima de tudo, os ativistas SYRIZA querem um governo que rompa o íntimo relacionamento entre os operadores políticos, as grandes empresas e os tecnocratas europeus que, sobre a base dos fundos de resgate, está a desenvolver uma nova cleptocracia no país.

Neste contexto, o maior temor para os ativistas de SYRIZA é o de terminar "acomodando-se" na Europa. Temor a que, sendo consequentes com uma das linhas genéricas do pensamento de SYRIZA, o seu europeismo, este pudesse chegar a se impor a expensas de abandonar a radicalidade do seu programa nacional. Estes temores alimentam-se, de forma natural, com as tensões e divergências entre os diferentes grupos que compõem a confederação SYRIZA, alguns dos quais não aceitam plenamente, a orientação de manter a Grécia na união monetária europeia. Ao mesmo tempo que, o verão passado, os membros SYRIZA votavam, com maioria esmagadora, a favor de converter a sua coligação em um partido político unitário, a liderança de SYRIZA, no entanto, enfrentava duas tarefas que, muitos pensam, podem resultar contraditórias. Por um lado, deve evitar converter a SYRIZA no tipo de partido ao que os seus filiados atuais não queiram pertencer e por outro lado, deve atrair aos votantes indecisos em número suficiente para fazer com que ao Partido, não seja só elegível, senão que seja o suficientemente potente como para se sentar a negociar, com eficácia, em frente aos líderes europeus.

Como pode SYRIZA mudar a Europa

Se SYRIZA seguisse o conselho de alguns economistas dos Estados Unidos e de Grã-Bretanha que propunham que Grécia devia se sair da Europa e da zona euro, os seus líderes seria capazes de unir a todas as suas fações baixo a bandeira tranquilizadora da autarquia, da retirada unilateral, e a saída heroica da rede de instituições neoliberais e restrições que constituem a zona euro. No entanto, dita plataforma, que serviria para maximizar a coesão interna de SYRIZA, construir-se-ia a costa da fazer inelegível. Após tudo, a maioria dos gregos entendem que uma saída grega da Europa trairia consigo custos insuportáveis para a maioria. Por conseguinte, SYRIZA elegeu a difícil posição de manter a Grécia na zona euro, ao mesmo tempo em que prossegue a luta, para mudar as incongruências fundamentais da eurozona, desde o interior. Pode um país pequeno, em bancarrota e golpeado pela pobreza, permanecer dentro da zona euro, enquanto opõe-se a alguns dos seus princípios básicos? Pode um governo SYRIZA levar a cabo os projetos humanitários básicos que a esquerda está determinada a promulgar?

Continuar pertencendo à zona euro significa que o governo não terá capacidade para criar liquidez, em ausência de um banco central que o respalde. Os ativistas de SYRIZA afirmam que vão arrecadar dinheiro gravando com mais impostos aos ricos, mas os ricos se levaram já os seus euros a Suíça, Frankfurt, Londres e Nova York, enquanto a classe média foi à quebra e já não recebe rendimentos das suas propriedades vagas e se vê obrigada a pagar crescentes impostos sobre elas.

Enquanto, uma vitória de SYRIZA poderia agudizar a pressão da União Europeia sobre as finanças do Estado grego e o sistema bancário: Bruxelas, Frankfurt e Berlim, provavelmente, tomariam represálias, cortando o acesso do governo grego a parte dos seus rendimentos, como o dinheiro que o Banco Central Europeu contribui ao governo grego procedente dos super-ganhos que obteve, prévia e vergonhosamente, através das compras de bónus do mesmo governo grego, dos fundos estruturais da UE, etc. Ademais, essa vitória também poderia provocar uma retirada moderada dos depositantes nos bancos, que podem temer uma suspensão, por parte do BCE, das provisões de liquidez aos bancos gregos.

É provável que um governo de SYRIZA possa negociar com sucesso sobre estas pressões financeiras, durante as suas primeiras semanas no poder, mas, desde depois, não seria capaz, ao mesmo tempo, de financiar os programas sociais com os que se comprometeu. Como poderá, nessas circunstâncias, não dececionar aos seus seguidores, confirmando os temores de alguns de que SYRIZA acabará vendendo-se ante os europeus, por em cima e para além dos compromissos adquiridos? A única saída para o sucesso de um governo de SYRIZA é mudar a economia da Europa. É uma tarefa difícil, mas acho que não é impossível. De facto, não há outra alternativa para SYRIZA nem, de facto, para qualquer outro partido político na periferia da Europa que aspire a uma economia social estável.

Europa instalou-se na negação desde faz cinco anos.Durante este período, as dívidas, as perdas bancárias, o desemprego e os desequilíbrios flagrantes foram-se acumulando enquanto os líderes da Europa assobiavam ao vento. Se Londres pode usar o seu poder de veto a nível do Conselho Europeu para proteger aos banqueiros da City da regulação, seguramente Atenas pode e deve, fazer o mesmo em defesa dos seus cidadãos. Invocando a cláusula do interesse nacional, um governo de SYRIZA teria direito de veto sobre todas as decisões até que a focagem europeia sobre o programa grego fosse revisado. Tais medidas pode soltar  línguas e dar impulso a um debate que, esperamos, leve a mudanças modestas mas muito necessários para racionalizar a política europeia (em consonância com os que Stuart Holland, James Galbraith e eu temos estado abogando ). Estas medidas podem, efetivamente, permitir aos partidos como SYRIZA combinar uma linha pró-europeia com políticas internas que derrotem às velhas e as novas cleptocracias, proporcionem um respiro aos trabalhadores e, por último mas não menos importante, contribuam a restaurar a fé na democracia.

Os líderes da Itália, França e Espanha talvez ainda não se sentem o suficientemente desesperados como para romper o muro de silêncio a nível de Conselho Europeu. Mas Grécia é já tão miserável e esta tão agoniada, que o seu governo tem o imperativo moral de falar, e inclusive de atuar, no exterior. No palco político atual, só um governo liderado por SYRIZA podia fazer isso. Isto daria, aos servidores públicos portugueses, espanhóis, italianos e, o que é mais importante ainda, aos servidores públicos franceses, a oportunidade de mudar o discurso que rodeia  ao clima económico na Europa. Mas inclusive, se ninguém segue o exemplo de SYRIZA na Europa, um governo SYRIZA ainda teria poder de negociação suficiente, cortesia do seu poder de veto, não só para conseguir mudanças que podem salvar vidas no "Programa grego", senão também para obrigar à União Europeia para voltar a repensar a sua crise sistémica e com isso levar a cabo um tratamento radicalmente diferente.

SYRIZA pode ter a oportunidade de transformar a Grécia e mudar o curso da história europeia, mas esta é uma tarefa que, em comparação, levar-nos-ia a considerar a "odisseia de Ulisses" como um mero passeio pelo parque. Não lhe vai ser fácil tomar o poder sem deixar de ser fiel à sua agenda radical e manter a sua coesão interna. Fica por ver se os líderes de SYRIZA podem levar a cabo este milagre. Acho que se pode, desde que não se emitam promessas tontas antes das próximas eleições e se mantenha uma agenda verdadeiramente radical encaminhada a mudar a Europa com passo firme, propondo aos cidadãos alemães, espanhóis, holandeses, uma agenda europeia que restaure o sonho de uma prosperidade europeia partilhada.

27/10/2013

A crise do euro, uma modesta proposição , o Waterloo da socialdemocracia e a ameaça do fascismo. Entrevista

À revolta entre a mocidade é um blogue coletivo aberto a novas incorporações feito desde posições de esquerda na Galiza. Entrevista feita por Alessandro Bianchi tirada de Sin Permiso (aqui) e traduzido por nós. Yanis Varoufakis é um reconhecido economista greco-australiano de reputação científica internacional. É professor de política económica na Universidade de Atenas e conselheiro do programa económico do partido grego da esquerda, Syriza. Actualmente ensina nos EUA, na Universidade de Texas. O seu último livro, O Minotauro Global, para muitos críticos a melhor explicação teórico-económica da evolução do capitalismo nas últimas 6 décadas, acaba de ser publicado em castelhano pela editora espanhola Capitán Swing, a partir da 2ª edição inglesa revisada. Una extensa e profunda resenha do Minotauro pode ler-se em SinPermiso Nº 11, Verão-Outono 2012.



 

Junto aos professores Galbraith e Holland, pôs você ao dia o seu "Modesta Proposição" na que indicava quatro programas de absoluto sentido comum que poderiam ajudar a que Europa encontre uma saída ao atual desfondamento. Programas, não obstante, que os países europeus do norte não têm intenção alguma de pôr em prática. Com o atual estado de coisas, não acha você que a melhor solução para os países europeus do sul seria sair da moeda única? 

Se pudéssemos voltar atrás no tempo, a melhor opção seria que os países meridionais, além de Irlanda, ficasse fora da eurozona. Indubitavelmente, o comportamento dos poderes fácticos, tanto no norte como no sul da Europa, dissipou bem deveras a fantasía, que vimos em torno do 2000, de que a eurozona evoluiria para uma entidade federal, possivelmente após que uma crise existencial ameaçasse a sua integridade. Dito sem rodeos, as nossas elites cometeram um pecado capital metendo às nossas nações periféricas em uma versão europeia do padrão ouro que, como o padrão ouro original, primeiro, deu ocasião a entradas em massa de capital nas regiões de déficit que incharam gigantescas borbulhas e, segundo,  provocou uma depressão permanente nos mesmos países de déficit uma vez que reventaron as borbulhas depois do 1929 da nossa geração (isto é, 2008).

Dito tudo isto, sair da nossa horrorosa união monetária não devolver-nos-á, nem sequer em longo prazo, onde teríamos estado se em princípio nos tivéssemos ficado fora. Uma vez dentro, pode que a fugida empurre às nossas cambaleantes economias por uma escarpada falésia. Sobretudo se faz-se descoordenadamente, país por país. A razão disso é do mais singela. A diferença da Argentina em 2002 ou Grã-Bretanha em 1931, sair da eurozona não é só questão de romper o ajuste entre a nossa própria moeda e outra estrangeira. Não temos uma moeda com a que desacoplar-nos. Dito de outro modo, teríamos que criar uma moeda (uma tarefa que leva no mínimo de 8 a 10 meses completar) com o fim de desacoplá-la ou devaluá-la. Esse atraso de 8 a 10 meses entre o anúncio de uma desvalorização e o seu efetivo cumprimento bastariam para devolver as nossas economias à Idade de Pedra.   

Por suposto, nada disto significa que a periferia europeia deva sofrer em silêncio os danos causados por uma eurozona insustentável e misantropa. Os nossos governos podem exercer os seus poderes de veto legais na próxima cimeira da União Europeia ou nas reuniões do Eurogrupo. E exigir que medidas políticas como as que propusemos na nossa Modesta Proposição, se discutam em sério e tenham a oportunidade de reconfigurar a eurozona de maneira que a façam sustentável.

O Wall Street Journal publicou nesta semana as informações (até agora) não divulgadas das declarações dos membros da junta durante a reunião do 10 de maio de 2010, que deu passo ao resgate da Grécia. Muitos prediziam a sua insustentabilidade, que permitiria unicamente a bancos e credores privados recuperar os seus investimentos e piorado a situação sócio-económica do país, sem melhorar, portanto, a tendência do rátio dívida/PIB. Desde depois, todas as previsões acertaram. À luz destas revelações, que opinião tem do comportamento da troika no seu país após três anos de trabalho?   

Passará à história como a infame Aliança Ímpia da Irracionalidade e a Crueldade. Representantes de organizações que sabiam perfeitamente bem que as medidas políticas que estavam a impor fracassariam de acordo com os critérios que eles mesmos estabelecia levaram a cabo as suas "ordens" sem escrúpulos, sem ordem nem concerto e de um modo que recorda a banalidade do mau de Hannah Arendt. O seu motivo ulterior, que se esconde depois de uma retórica de "salvar" aos nossos países, não era outra que deslocar as perdas dos livros de contabilidade do Deutsche Bank et alli  sobre os ombros dos contribuintes mais débeis da Europa (incluindo a quem na Alemanha estão a sofrer uma severa limitação do valor real dos seus salários).

Como em vários países da Europa, inclusive na Grécia somos testemunhas da união dos partidos socialistas e conservadores na defesa de um modelo económico que levou à sociedade ao colapso. Como julga a atuação do PASOK de Venizelos e daí responsabilidade atribuir-lhes-ia na atual crise?

Os partidos social-democratas decantaram-se por uma opção fundamental em meados dos anos 90: unir a sua sorte à financiarização  associar-se ao capital financeiro. Naquele momento, tinha para eles sentido. Nunca era fácil para os social-democratas extrair valor dos industriais, dos comerciantes, dos homens de negócios, dos terratenentes com o propósito de financiar o Estado do Bem-estar com o que se tinham, sem dúvida, comprometido. Era bem mais fácil, em mudança, fechar os olhos às opacas trasnadas dos banqueiros na década de 1990 e do 2000 (que, em todo o caso, nunca entenderam do todo) e, a mudança, recolher uma pequena percentagem das montanhas de rendas financeiras que conseguiram os banqueiros como resultado disso, rendas que utilizaram para financiar programas sociais (alguns dos quais valiam muito a pena).

O trágico é que em 2008 os bancos se derrubaram e as montanhas de plusvalores financeiros se converteram em profundos buracos de perdas. Nesse ponto, os banqueiros exigiram que o Estado recheasse esses imensos buracos com quantidades que tinham encomenda prestadas os contribuintes. Os social-democratas viram-se desconcertados. perdia fazia muito tanto a autoridade moral como a capacidade teórica de opor aos banqueiros e aos seus argumentações  Tanto como organizações como na sua qualidade de cidadãos particulares, vendia a sua alma a um diabo que estava agora ferido e exigia em termos que não deixavam dúvidas que eles, os social-democratas, abandonassem todas as suas prioridades e fossem em auxílio da mão que lhes tinha alimentado a eles e ao seu querido Estado do Bem-estar durante uma década. De modo que foram condescendentes com os banqueiros e dobraram-se à sua vontade. Em local de exigir um falência da dívida pública na Grécia e uma suspensão da dívida privada principal na Irlanda, os social-democratas uniram-se aos conservadores para alinhar-se junto aos banqueiros. Para confabulares com o fim de atrasar qualquer falência até que a maioria das perdas se transladassem aos ombros dos contribuintes mais débeis.

Ao longo desse processo, os membros mais leais dos partidos social-democratas sentiram-se abandonados. Tinham-se filiado e lutava durante anos para levar a cabo um verdadeiro grau de distribuição da renda dos que têm aos que não. De repente, encontraram-se com que os seus respetivos partidos social-democratas faziam parte de uma terrível aliança que, em nome de "salvar ao país da bancarrota", levava a efeito a redistribución mais brutal da renda para beneficiar àqueles cujas absurdas ações ocasionava o crac. Não passou muito tempo antes de que os social-democratas bemintencionados e para valer abandonassem os seus partidos social-democratas e ficassem estes nas sujas mãos de oportunistas que converteram estes orgulhosos partidos em feudos pessoais. Justamente o caso do PASOK com Venizelos.

Syriza é hoje o partido de oposição mais credível que se tenha enfrentado à administração dos comissionados da troika na Grécia. Acha você que chegará em algum dia ao governo? E daí pensa da "Agenda Europeia" que Tsipras anunciou recentemente no Foro Kreisky de Viena?  

O meu medo é que a vitória de Syriza chegue demasiado tarde. Que chegue após que os banqueiros, aliados com o atual governo, erijam uma Nova Cleptocracia que, para quando Tsipras seja primeiro-ministro, se tenha convertido em um Estado dentro do Estado. Pelo que respecta à sua Agenda Europeia recentemente anunciada, me parece que é um faro na atual obscuridade que representa a paisagem política europeu.

O último ponto da sua Modesta Proposição 2.0 apela ao estabelecimento de um programa de solidariedade social para garantir as necessidades existenciais mínimas de todos os cidadãos e impedir que a atual crise se converta em pretexto para a ascensão do totalitarismo. Acha você possível que se repita o que aconteceu nos anos 30? Acha você que a situação da Grécia é realmente diferente da de outros países do sul da Europa?

Sim, repetimos os erros dos anos 30 e não deveríamos, por tanto, nos surpreender de que façamos aparecer o mesmo tipo de demónios. Pode que Portugal e Espanha não veja ainda a ascensão de um partido nazista (felizmente). Mas, uma vez mais, de novo, Portugal e Espanha não assistiram à perda de 30% da renda nacional, pelo menos ainda não. Se o deterioro chegasse a tanto, não me cabe dúvida de que o extremismo nacionalista assomaria a sua feia cabeça também ali. Enquanto, crescem os partidos de extrema direita e inclinações nazistas na Dinamarca, em Holanda, na Áustria, em Escandinavia, na Hungria. Europa está a jogar com alguns fantasmas muito desagradáveis que alimenta e reforça com a cada ato de negação da natureza desta crise.

14/06/2013

Atenas resiste ao encerramento da televisão pública

Tirado do portal Esquerda.net (aqui).  "As emissoras públicas só saem do ar por duas razões: invasão por forças estrangeiras ou golpe de estado", afirmou Alexis Tsipras

Os transportes e serviços públicos gregos estão paralisados pela greve geral contra o fim da ERT. Apesar da chuva, mais de 100 mil pessoas manifestaram-se em frente à sede da estação. A decisão do primeiro-ministro só conta com o apoio do seu partido e dos neonazis da Aurora Dourada. Com uma crise política à vista, o Governo ameaça agora os operadores privados que retransmitem a programação que continua a ser assegurada pelos jornalistas e trabalhadores da estação.
Mais de cem mil pessoas concentraram-se em frente à sede da ERT em dia de greve geral contra o fim da emissora pública. Foto Alexsandros Vlachos/EPA
Com o fim do sinal de transmissão da ERT, os cidadãos gregos deixaram também de ter acesso aos restantes canais emitidos através da rede de serviço público, como o canal Parlamento, mas também aos canais de informação internacionais Deutsche Welle ou a TV5 francesa. Os trabalhadores e jornalistas continuam no edifício sede da televisão pública grega a assegurar a transmissão 24 horas por dia. E contam com a preciosa ajuda da União Europeia de Radiodifusão, que através dos seus satélites permite a retransmissão do sinal pelas outras televisões e rádios regionais em solidariedade com a ERT.
O presidente da UER, Jean-Paul Philippot, afirma que o encerramento do serviço público de tv de um dia para o outro pelo Governo de Antonis Samaras representa "o pior tipo de censura", depois do governo grego  "ter mandado a polícia cortar a emissora e impedir os jornalistas de fazerem o seu trabalho". 
E de facto, as últimas palavras do Governo não escondem essa censura, com o anúncio de que todas as estações de televisão e rádio que estão a retransmitir a emissão dos trabalhadores da ERT arriscam a perder as suas licenças. O sinal da televisão 902 TV, propriedade do Partido Comunista (KKE), já foi cortado pela empresa que controla a transmissão digital na Grécia e o ministro das Finanças, que assumiu a liderança da gestão da ERT, ameaçou a Rádio Kokkino, propriedade do Syriza, com intervenção da polícia se não silenciarem a retransmissão que é feita desde o corte do sinal da tv pública.
Crise política à vista
A revolta dos gregos com o encerramento súbito do serviço público de informação provocou a greve geral desta quinta-feira, convocada pelas principais centrais sindicais, com várias manifestações a convergirem para a sede da ERT, ameaçada com uma invasão policial. Os transportes estão parados, bem como a generalidade dos serviços públicos, enquanto os controladores aéreos anunciaram uma greve parcial durante a tarde.
Os 71 deputados do Syriza decidiram organizar-se em turnos de três horas para assegurarem dia e noite a proteção da sede da televisão pública do ataque policial. "As emissoras públicas só saem do ar por duas razões: invasão por forças estrangeiras ou golpe de estado", afirmou Alexis Tsipras dirigindo-se aos manifestantes à porta da ERT.
O principal partido da oposição marcou para a próxima segunda-feira um comício pela democracia. Segundo Yiannis Bournous, dirigente do Syriza, este comício intitulado "O regresso à Praça Syntagma" assinalará "o princípio do fim deste governo neofascista". 
Esta decisão do governo de Samaras sobre a ERT conta apenas com o apoio da Nova Democracia e dos neonazis da Aurora Dourada. Os parceiros de coligação de Samaras - o PASOK e a Esquerda Democrática - dizem-se contra o encerramento da ERT, mas não avançaram com nenhum cenário de rotura do atual governo da troika. Aos seus pedidos para uma reunião urgente com o primeiro-ministro, Samaras respondeu agendando o encontro para o início da próxima semana.
Com o despedimento de quase 2700 trabalhadores da emissora pública, o primeiro-ministro grego pretende cumprir, quase de uma penada, as metas assumidas pelo governo de coligação ND/PASOK/ED com a troika sobre despedimentos no setor público. A Comissão Europeia diz que não impôs esta medida ao governo de Atenas, mas também não condenou o corte da emissão da ERT.
Entretanto, sucedem-se algumas notícias e episódios sobre a forma como o governo tem lidado com a situação. Um dia depois de anunciado o nome da futura televisão grega (NERIT), alguém registou o domínio nerit.gr, que agora retransmite também a emissão da ERT. Agora ou o Governo muda o nome da estação ou terá de registá-lo noutro domínio, se não quiser pagar uma fortuna a quem o registou primeiro… 
O blogue Keep Talking Greece refere que volta a circular na imprensa grega a lista de assessores da ERT que o Governo contratou há poucos meses. Os contratos referem-se ao período após a mudança de tutela da empresa, com o novo ministro a permitir a contratação de dezenas de assessores. Os salários acordados foram sempre acima de dois mil euros, no caso das secretárias, e de quatro mil para outros assessores. Uma situação que não é estranha numa empresa que sempre foi colonizada com os boys da Nova Democracia e do Pasok.

05/06/2013

Protesto contra a austeridade juntou mais de cem cidades na Europa

Notícia tirada do portal Esquerda.net (aqui).


Milhares de pessoas participaram nas manifestações "Povos Unidos Contra a Troika", a primeira iniciativa de convergência nas ruas do protesto europeu contra a austeridade. Em Portugal, a demissão do Governo foi outra das reivindicações dos manifestantes.
Manifestação em Lisboa: Mais de cem cidades europeias em protesto contra a troika
Lisboa, Madrid, Barcelona e Frankfurt foram as cidades onde o protesto se ouviu com mais força. Milhares de pessoas saíram às ruas para reclamar o fim da política de austeridade na Europa e da chantagem financeira sobre os cidadãos e exigindo mais democracia contra a ditadura dos mercados. Na cidade que acolhe a sede do Banco Central Europeu, a polícia atacou o cortejo da manifestação, dividindo-o e cercando uma parte dos manifestantes, o que deu origem a controntos e detenções. Uma exceção à regra das mais de cem cidades onde o protesto decorreu de forma pacífica.
Em Portugal, as manifestações juntaram milhares de pessoas em Lisboa e Porto e algumas centenas nas restantes dezoito cidades, com uma presença forte de reformados. A exigência da demissão do Governo foi unânime em todas as localidades onde o protesto ocorreu, quer nas palavras de ordem entoadas pelos manifestantes, quer nas intervenções das assembleias abertas nas concentrações, referindo também o apelo à participação na greve geral de 27 de junho.
Em Lisboa, um grupo de 20 turcos, na maioria estudantes do programa Erasmus, juntou-se à manifestação para expressar solidariedade com as vítimas da repressão policial em Istambul. Também Arménio Carlos, lider da CGTP, associou-se a esta iniciativa internacional de protesto contra a troika e pela demissão do Governo. Uma presença inesperada foi a de Mário Soares, que veio junto à sede do FMI para saudar os manifestantes.
Os coordenadores do Bloco de Esquerda estiveram presentes na manifestação de Lisboa, com Catarina Martins a destacar a dimensão europeia do protesto. "No momento em que na Europa se diz que os velhos não têm lugar e os jovens não têm futuro, é extraordinariamente importante esta responsabilidade cívica de cada um e cada uma, este movimento cidadão intenso em toda a Europa, que resgata as nossas vidas e diz não à destruição da economia e do emprego na Europa", disse a coordenadora bloquista aos jornalistas.
Madrid e Barcelona também juntaram milhares de pessoas nas manifestações "Povos Unidos Contra a Troika", um protesto que teve lugar noutras cidades do Estado espanhol. As críticas desta "Maré Cidadã" aos cortes da austeridade e ao resgate dos bancos juntaram sindicatos, associações e coletivos de luta contra os despejos ou de cidadãos burlados pelos bancos agora resgatados com dinheiros públicos. Em Madrid, os manifestantes cantaram a Grândola Vila Morena junto à representação da Comissão Europeia, uma música também entoada no protesto em Paris, convocado por iniciativa das delegações do Bloco de Esquerda, Syriza e Juventud Sin Futuro em França e apoiado por dezenas de coletivos e associações.


20/05/2013

Confesións dun marxista errático

Yanis Varoufakis. Artigo tirado de SinPermiso (aquí) e traducido por À revolta entre a mocidade. Yanis Varoufakis é un recoñecido economista greco-australiano de reputación científica internacional. É profesor de política económica na Universidade de Atenas e conselleiro do programa económico do partido grego da esquerda, Syriza. Actualmente ensina nos EUA, na Universidade de Texas. O seu último libro, El Minotauro Global, para moitos críticos a mellor explicación teórico-económica da evolución do capitalismo nas últimas 6 décadas, está a piques de ser publicado en castelán pola editorial española Capitán Swing, a partir da 2ª edición inglesa revisada. Unha extensa e profunda reseña do Minotauro, en SinPermiso Nº 11, Verán-Outono 2012. Traducción para www.sinpermiso.info: Casiopea Altisench



Intervención de Yanis Varoufakis no 6ª Festival Subversivo, Kino Europa, Zagreb, o 14 de maio pasado.

Cando fixen a miña tese doutoral, conscientemente elixín concentrarme nun método, conforme ao cal non só andaba Marx de xeito sinxelo errado, senón que era irrelevante. Cando conseguín o meu primeiro posto como lector en teoría económica en Gran Bretaña, o contrato implícito entre a miña universidade e eu era que o tipo de teoría económica que ensinaría aos nosos estudantes estaría tan afastado do marxismo como fose humanamente posíbel. Cando me trasladei a Australia en 1988, e sen eu sabelo, fun recrutado polo sector dereitista do Departamento de Teoría Económica da Universidade de Sidney, a fin de fecharlle o paso a outro candidato, cuxo director de tese tiña (fundadísima!) fama de ser un perigoso marxista. Logo trasladeime a Grecia, onde, da forma máis insensata, cheguei a ser, máis ou menos oficialmente, asesor de George Papandreu, o home cuxo goberno sería o intermediario na transición cara ao inferno uns anos despois. Cando dimitín dese cargo en 2006, consciente do desastre que se aveciñaba, pasei a ensinar na Universidade de Atenas, e a ensinar -admítoo- asuntos tan vulgarmente burgueses como Teoría dos Xogos e Microeconomía a un grande número de estudantes gregos de primeiro ciclo, quen (a diferenza dos nosos bravos e excelentemente informados estudantes de posgrao) ficaban conmovedoramente cegos ante a catástrofe que se lles viña encima. Antes, en 2002, Joseph Halevi e eu trataramos de facer soar unha alarma, mais non conseguimos resonancia. Aínda cando en 2006 fixen o que na miña man estaba para alertar á sociedade grega -e a calquera que quixese escoitar- do desastre en cernes, seguín formando parte vergoñentamente da "sociedade respectábel" en Europa, e non me botei á rúa nin unha soa vez. Cando estalou a Crise Global en 2008, que non tardou abaterse sobre a Eurozona, empecei a escribir artigos e a irromper mais ou menos atrabiliariamente nos medios, tanto do sistema como alternativos, para promover un programa de actuación fundamentalmente burgués para salvar ao capitalismo de si mesmo!  Cando, no persoal, os procesos en curso resultaron realmente duros en Grecia, migrei aos EUA, contratado pola Universidade de Texas. A día de hoxe, sigo afanado en convencer aos poderes realmente existentes para que fagan seu, e do modo máis urxente, un audaz paquete de recomendacións tendentes a previr que unha crise inexorábel tombe ao capitalismo. En suma, pois: nin unha soa das miñas publicacións académicas pode entenderse como explicitamente marxista, e as miñas enerxías orientáronse a previr o colapso do capitalismo. Con todo e con iso, emporiso, desde os meus tempos de estudante en Grande Bretaña até hoxe mesmo, a única forma  en que puiden facerme intelixíbel o mundo en que vivimos é a través dos  "ollos" metodolóxicos de Karl Marx. Este "feito" basta en por si para facer de min un teórico marxista. Sinto, ademais, o marxismo na soá cada vez que me libro a unha aventura intelectual: desde discutir a Primavera Árabe, até debater as subtilezas da arte coa artista que é a miña esposa. Polo demais, un futuro democrático, libertario e socialista é o único futuro polo que estaría disposto a loitar. Son, pois, un marxista farto singular; a cousa non ofrece dúbida. Aínda así, un marxista.