27/10/2013

A crise do euro, uma modesta proposição , o Waterloo da socialdemocracia e a ameaça do fascismo. Entrevista

À revolta entre a mocidade é um blogue coletivo aberto a novas incorporações feito desde posições de esquerda na Galiza. Entrevista feita por Alessandro Bianchi tirada de Sin Permiso (aqui) e traduzido por nós. Yanis Varoufakis é um reconhecido economista greco-australiano de reputação científica internacional. É professor de política económica na Universidade de Atenas e conselheiro do programa económico do partido grego da esquerda, Syriza. Actualmente ensina nos EUA, na Universidade de Texas. O seu último livro, O Minotauro Global, para muitos críticos a melhor explicação teórico-económica da evolução do capitalismo nas últimas 6 décadas, acaba de ser publicado em castelhano pela editora espanhola Capitán Swing, a partir da 2ª edição inglesa revisada. Una extensa e profunda resenha do Minotauro pode ler-se em SinPermiso Nº 11, Verão-Outono 2012.



 

Junto aos professores Galbraith e Holland, pôs você ao dia o seu "Modesta Proposição" na que indicava quatro programas de absoluto sentido comum que poderiam ajudar a que Europa encontre uma saída ao atual desfondamento. Programas, não obstante, que os países europeus do norte não têm intenção alguma de pôr em prática. Com o atual estado de coisas, não acha você que a melhor solução para os países europeus do sul seria sair da moeda única? 

Se pudéssemos voltar atrás no tempo, a melhor opção seria que os países meridionais, além de Irlanda, ficasse fora da eurozona. Indubitavelmente, o comportamento dos poderes fácticos, tanto no norte como no sul da Europa, dissipou bem deveras a fantasía, que vimos em torno do 2000, de que a eurozona evoluiria para uma entidade federal, possivelmente após que uma crise existencial ameaçasse a sua integridade. Dito sem rodeos, as nossas elites cometeram um pecado capital metendo às nossas nações periféricas em uma versão europeia do padrão ouro que, como o padrão ouro original, primeiro, deu ocasião a entradas em massa de capital nas regiões de déficit que incharam gigantescas borbulhas e, segundo,  provocou uma depressão permanente nos mesmos países de déficit uma vez que reventaron as borbulhas depois do 1929 da nossa geração (isto é, 2008).

Dito tudo isto, sair da nossa horrorosa união monetária não devolver-nos-á, nem sequer em longo prazo, onde teríamos estado se em princípio nos tivéssemos ficado fora. Uma vez dentro, pode que a fugida empurre às nossas cambaleantes economias por uma escarpada falésia. Sobretudo se faz-se descoordenadamente, país por país. A razão disso é do mais singela. A diferença da Argentina em 2002 ou Grã-Bretanha em 1931, sair da eurozona não é só questão de romper o ajuste entre a nossa própria moeda e outra estrangeira. Não temos uma moeda com a que desacoplar-nos. Dito de outro modo, teríamos que criar uma moeda (uma tarefa que leva no mínimo de 8 a 10 meses completar) com o fim de desacoplá-la ou devaluá-la. Esse atraso de 8 a 10 meses entre o anúncio de uma desvalorização e o seu efetivo cumprimento bastariam para devolver as nossas economias à Idade de Pedra.   

Por suposto, nada disto significa que a periferia europeia deva sofrer em silêncio os danos causados por uma eurozona insustentável e misantropa. Os nossos governos podem exercer os seus poderes de veto legais na próxima cimeira da União Europeia ou nas reuniões do Eurogrupo. E exigir que medidas políticas como as que propusemos na nossa Modesta Proposição, se discutam em sério e tenham a oportunidade de reconfigurar a eurozona de maneira que a façam sustentável.

O Wall Street Journal publicou nesta semana as informações (até agora) não divulgadas das declarações dos membros da junta durante a reunião do 10 de maio de 2010, que deu passo ao resgate da Grécia. Muitos prediziam a sua insustentabilidade, que permitiria unicamente a bancos e credores privados recuperar os seus investimentos e piorado a situação sócio-económica do país, sem melhorar, portanto, a tendência do rátio dívida/PIB. Desde depois, todas as previsões acertaram. À luz destas revelações, que opinião tem do comportamento da troika no seu país após três anos de trabalho?   

Passará à história como a infame Aliança Ímpia da Irracionalidade e a Crueldade. Representantes de organizações que sabiam perfeitamente bem que as medidas políticas que estavam a impor fracassariam de acordo com os critérios que eles mesmos estabelecia levaram a cabo as suas "ordens" sem escrúpulos, sem ordem nem concerto e de um modo que recorda a banalidade do mau de Hannah Arendt. O seu motivo ulterior, que se esconde depois de uma retórica de "salvar" aos nossos países, não era outra que deslocar as perdas dos livros de contabilidade do Deutsche Bank et alli  sobre os ombros dos contribuintes mais débeis da Europa (incluindo a quem na Alemanha estão a sofrer uma severa limitação do valor real dos seus salários).

Como em vários países da Europa, inclusive na Grécia somos testemunhas da união dos partidos socialistas e conservadores na defesa de um modelo económico que levou à sociedade ao colapso. Como julga a atuação do PASOK de Venizelos e daí responsabilidade atribuir-lhes-ia na atual crise?

Os partidos social-democratas decantaram-se por uma opção fundamental em meados dos anos 90: unir a sua sorte à financiarização  associar-se ao capital financeiro. Naquele momento, tinha para eles sentido. Nunca era fácil para os social-democratas extrair valor dos industriais, dos comerciantes, dos homens de negócios, dos terratenentes com o propósito de financiar o Estado do Bem-estar com o que se tinham, sem dúvida, comprometido. Era bem mais fácil, em mudança, fechar os olhos às opacas trasnadas dos banqueiros na década de 1990 e do 2000 (que, em todo o caso, nunca entenderam do todo) e, a mudança, recolher uma pequena percentagem das montanhas de rendas financeiras que conseguiram os banqueiros como resultado disso, rendas que utilizaram para financiar programas sociais (alguns dos quais valiam muito a pena).

O trágico é que em 2008 os bancos se derrubaram e as montanhas de plusvalores financeiros se converteram em profundos buracos de perdas. Nesse ponto, os banqueiros exigiram que o Estado recheasse esses imensos buracos com quantidades que tinham encomenda prestadas os contribuintes. Os social-democratas viram-se desconcertados. perdia fazia muito tanto a autoridade moral como a capacidade teórica de opor aos banqueiros e aos seus argumentações  Tanto como organizações como na sua qualidade de cidadãos particulares, vendia a sua alma a um diabo que estava agora ferido e exigia em termos que não deixavam dúvidas que eles, os social-democratas, abandonassem todas as suas prioridades e fossem em auxílio da mão que lhes tinha alimentado a eles e ao seu querido Estado do Bem-estar durante uma década. De modo que foram condescendentes com os banqueiros e dobraram-se à sua vontade. Em local de exigir um falência da dívida pública na Grécia e uma suspensão da dívida privada principal na Irlanda, os social-democratas uniram-se aos conservadores para alinhar-se junto aos banqueiros. Para confabulares com o fim de atrasar qualquer falência até que a maioria das perdas se transladassem aos ombros dos contribuintes mais débeis.

Ao longo desse processo, os membros mais leais dos partidos social-democratas sentiram-se abandonados. Tinham-se filiado e lutava durante anos para levar a cabo um verdadeiro grau de distribuição da renda dos que têm aos que não. De repente, encontraram-se com que os seus respetivos partidos social-democratas faziam parte de uma terrível aliança que, em nome de "salvar ao país da bancarrota", levava a efeito a redistribución mais brutal da renda para beneficiar àqueles cujas absurdas ações ocasionava o crac. Não passou muito tempo antes de que os social-democratas bemintencionados e para valer abandonassem os seus partidos social-democratas e ficassem estes nas sujas mãos de oportunistas que converteram estes orgulhosos partidos em feudos pessoais. Justamente o caso do PASOK com Venizelos.

Syriza é hoje o partido de oposição mais credível que se tenha enfrentado à administração dos comissionados da troika na Grécia. Acha você que chegará em algum dia ao governo? E daí pensa da "Agenda Europeia" que Tsipras anunciou recentemente no Foro Kreisky de Viena?  

O meu medo é que a vitória de Syriza chegue demasiado tarde. Que chegue após que os banqueiros, aliados com o atual governo, erijam uma Nova Cleptocracia que, para quando Tsipras seja primeiro-ministro, se tenha convertido em um Estado dentro do Estado. Pelo que respecta à sua Agenda Europeia recentemente anunciada, me parece que é um faro na atual obscuridade que representa a paisagem política europeu.

O último ponto da sua Modesta Proposição 2.0 apela ao estabelecimento de um programa de solidariedade social para garantir as necessidades existenciais mínimas de todos os cidadãos e impedir que a atual crise se converta em pretexto para a ascensão do totalitarismo. Acha você possível que se repita o que aconteceu nos anos 30? Acha você que a situação da Grécia é realmente diferente da de outros países do sul da Europa?

Sim, repetimos os erros dos anos 30 e não deveríamos, por tanto, nos surpreender de que façamos aparecer o mesmo tipo de demónios. Pode que Portugal e Espanha não veja ainda a ascensão de um partido nazista (felizmente). Mas, uma vez mais, de novo, Portugal e Espanha não assistiram à perda de 30% da renda nacional, pelo menos ainda não. Se o deterioro chegasse a tanto, não me cabe dúvida de que o extremismo nacionalista assomaria a sua feia cabeça também ali. Enquanto, crescem os partidos de extrema direita e inclinações nazistas na Dinamarca, em Holanda, na Áustria, em Escandinavia, na Hungria. Europa está a jogar com alguns fantasmas muito desagradáveis que alimenta e reforça com a cada ato de negação da natureza desta crise.

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