03/09/2012

Para ler Slavoj Žižek além do mito

Slavoj Žižek. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Alexandre Pilati é professor de literatura da Universidade de Brasília e autor, entre outros, de A nação drummondiana (7letras, 2009). Para ler todos os seus textos em Outras Palavrasclique aquiÁ revolta entre a mocidade é um projeto aberto a colaborações e desenvolvido completamente com achegas de militantes ligado com o Encontro Irmandinho e com Anova Irmandade Nacionalista.  Encorajamos-vos a colaborar para podermos continuar vertendo ao galego as vozes críticas do planeta. 


Vale popularizar filósofo esloveno. Mas ao fazê-lo, certas obras tentam convertê-lo em “enfant terrible” aburguesado e sem potência. Há antídotos
Recém lançado na última Bienal do Livro de São Paulo, o quinto volume da pouco convencional série “Entendendo”, da Editora Leya, apresenta ao leitor brasileiro um pouco da filosofia também pouco convencional de Slavoj Žižek. Na primeira página da obra, escrita por Christopher Kul-Wanti¹ e ilustrada por Pieroii², o tratamento descontraído e provocativo da abordagem do pensamento de Žižek fica patente. O esloveno é apresentado como “o filósofo mais perigoso do ocidente”, seguindo a avaliação da revista New Republic (um periódico ultraconservador americano).
De fato, há muito de otimismo ao se considerar um filósofo radical como Žižek perigoso. Na verdade, os filósofos que caminham contra a corrente da tardia modernidade capitalista pouco podem fazer contra suas leis mais elementares. No mais das vezes, ocorre de o pensamento radical ser arrastado pelas corredeiras simplificadoras e brilhantes do mundo do espetáculo, que tomou conta de modo visceral da própria vida acadêmica dos grandes centros de pesquisa mundo aforaiii. O mundo do espetáculo, é perigoso para os filósofos, mais do que estes o são para aquele. Marx já enunciara no desfecho das famosas Teses sobre Fauerbach: os filósofos têm tratado de interpretar o mundo, mas é preciso transformá-lo. A transformação é perigosa, pensá-la, tantas vezes, ajuda mesmo a manter as coisas como estão. E não sejamos inocentes: o pensamento de esquerda é permitido por e às vezes até útil à manutenção da dinâmica de alienação e reprodução do alto capitalismo. Tudo está em risco de ser açambarcado pelo espetáculo que, conforme Guy Debord, é essencialmente um acúmulo de capital em tal grau que se torna imagem. Ora se o pensamento progressista se torna imagem, sua potência transformadora esvai-se também em grande medida.
Reflexões como essas podem ser provocadas pela leitura de Entendendo Žižek. Lendo a obra poderíamos imaginar uma transformação do pensamento radical de Žižek em guia que encontramos na seção de autoajuda das livrarias? Parece-me o livro da dupla Kul-Want e Piero assume esse risco com dignidade e o ultrapassa, embora deixe rastros de equações complicadas que são exigidas quando se elabora um “guia-pop” com o intuito de “apresentar” e “ajudar a compreender” um pensamento duro e tantas vezes indigesto como o de Žižek. Vamos a apenas três exemplos dessas difíceis equações, tendo em vista o livro por um lado e, por outro, a complexidade e a força política da obra do filósofo esloveno.
A primeira dessas equações tem a ver com a necessidade de tornar Žižek um filósofo palatável no Ocidente. Uma tal operação de ocidentalização do filósofo implica caracterizá-lo como um pensador que foi e é reativo às imposições de partidos e regimes comunistas com os quais conviveu ao longo de sua formação e nos primeiros anos de sua vida profissional. A recuperação e a elevação desta “rejeição fundamental ao fundamentalismo comunista”, de forma astuta, acaba por equilibrar as coisas entre comunismo e capitalismo e entregar aos comportados culturalistas da esquerda ocidental um filósofo que é “perigoso” também (e sobretudo) quando põe em xeque “as estruturas jurássicas do mundo comunista”. Todavia, quem conhece a obra de Žižek, sabe que suas “reservas” à ordem social, econômica, política, subjetiva e cultural do mundo capitalista são de uma ordem imensamente maior que aquelas que ele faz ao mundo comunista, onde se originou a sua mirada original e radical sobre nosso mundo e sobre nosso tempo. Tornar Žižek um enfant terrible é uma forma de ocidentalizar seu pensamento, aburguesando-o, fazendo dele uma espécie de Nietzsche da filosofia globalizada. Mas embora Žižek se influencie pelo pensamento nietzscheano, em sua obra não se encontra o baixo pesado do niilismo como no autor alemão. Ver a radicalidade em Žižek é ir além de sua postura pouco convencional, descortinando, no âmago desta, o anseio pela superação do capitalismo.
Já que falamos de “reservas” de Žižek ao mundo alto capitalismo, uma outra equação que sói acontecer no processo de empacotamento do pensar žižekiano para o consumo da esquerda ocidental via academia e mercado editorial é a inversão da ordem dos fatores “legado da psicanálise” x “legado marxista”. Ao contrário da lei matemática básica da multiplicação, neste caso alterar a ordem é alterar o produto. Normalmente vê-se Žižek como um filósofo que se dedica a psicoanalisar a cultura e a política do mundo capitalista. Entendendo Žižek reproduz um pouco dessa inversão. São muitas páginas em que vemos conceitos operativos fortíssimos na obra de Žižek, buscados seja na tradição marxista seja na psicanálise, esmaecerem ao serem travados numa espécie de princípio subjetivizante dos movimentos históricos e políticos. Ao contrário do que é o núcleo da obra de Žižek, quando se trata no livro de ideologia ou de “transgressão embutida”, parece que estamos vendo pelos olhos do filósofo esloveno uma sociedade que não tem corpo, mas que se configura nos moldes do clássico sujeito burguês, de alma problemática, sádica, pervertida ou neurótica; mas sempre Uma, individualizada, à mercê de um difuso embora onipresente superego. Mas atentemos bem: em Žižek não se trata de ver um mundo como um “eu”, que é, no limite, feito como você leitor (note-se o risco de degringolarmos para a auto-ajuda). Trata-se, por outra, de verificar como a topologia do espaço curvo de Lacan, a célebre “Faixa de Moebius”, (fundamental para a compreensão da ótica de Žižek acerca da contemporaneidade) tem a sua materialidade política e histórica escavada pelas reflexões radicais do filósofo esloveno. Assim, é a materialidade radical do psicanalítico e não a egotização da política que marca a relação entre tradição marxista e tradição psicanalítica no caso de Žižek. Na ordem dos fatores da equação de desmontagem da ideologia do mundo ocidental, o fator materialismo histórico vem sempre primeiro, ou seja, comanda a análise.
É nesse sentido também que Entendendo Žižek desradicaliza as abordagens de obras de arte e de cultura pós-moderna realizadas pelo filósofo ao longo de sua produtiva carreira intelectual. O livro, por exemplo, cita as análises das óperas Carmen, Don Giovanni, de textos de Franz Kafka e do filme hollywoodiano A noviça rebelde. Muito rápidas, entretanto, as menções acabam docilizando um pouco o viés crítico e a pluralidade de ilações que pode vir à tona na leitura dos textos originais de Žižek. Ao fazer referência às análises sem citar as obras onde elas se encontram em português, por exemplo, corre-se o risco de simplesmente elencar um conjunto de afirmações curiosas sobre produtos culturais de um amplo arco de origem. Pouca coisa parece ser mais agradável à dispersão da crítica no mundo do espetáculo pós-moderno do que esse tipo de ritual chistoso de elencar comentários ácidos sobre obras pops e da alta cultura. Em suas obras, Žižek faz isso a sério, no livro de Kul-Want, tudo cheira um pouco a histrionismo. E, vigilantes, somos incitados a perguntar: cadê o filósofo perigoso que estava aqui?
Como nada é imune às contradições, está lá também na obra de Kul-Want o filósofo radical. Lembrando o Nietzsche de Além do bem e do mal, Kul-Want retoma um Žižek que reflete sobre revoluções, tomando como base a revolução francesa. Lá está o sêmen radical, que areja um pouco o descontraído e bem comportado perfil construído de Žižek. Lê-se, à página 146: “Para Žižek, a existência de um excesso além de qualquer forma pré-estabelecida de moralidade ou lei é uma marca característica de uma verdadeira política revolucionária [...]. Numa revolução tudo é derrubado, incluindo a ideia de que há um modo independente de julgar o que é certo e o que é errado”. No fundo, aqui Žižek está colocando o dedo na ferida em nosso mundo saturado de conservadorismo, moralismo e, no limite, fascismo travestido de matéria pop. Esse é o filósofo radical nos provocando, como quem acerta um pontapé no peito do oponente: “Que horizonte verdadeiramente revolucionário é possível hoje, num momento em que queremos empacotar na moralidade bestial do alto capitalismo até os mais perigosos e radicais filósofos?”
Se vamos ao dicionário, entendemos que o termo efervescente refere-se a algo que ferve, que está em efervescência, que é agitado, buliçoso, convulso, excitado, irascível e tempestuoso. Žižek, como filósofo radical e não convencional nos termos ocidentais é de fato tudo isso. Entretanto, todos que já fizeram uso de uma aspirina ou de um remédio para azia sabem quem que ao ato de ferver que se dá no contato do comprimido com a água no copo segue-se a diluição. A leitura de Žižek na academia pós-moderna pode fazer o efeito pharmakon da densidade política de seu pensamento esvair-se entre os dedos do capital espetacularizado dos nossos tempos. O antídoto é: leiamos o original.


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