27/12/2013

"A lavadora mudou a sociedade mais do que a Internet", entrevista a Ha-Joon Chang

Entrevista a Ha-Joon Chang por Marco Visscher. Tradução para SinPermiso (aqui) por Camila  Vollenweider e traduzida desde o castelhano para o galego por À revolta entre a mocidade. Ha-Joon Chang é professor de economia na Universidade de Cambridge e membro do Center for Economic and Policy Research de Washington DC. 


No seu recente livro 23 Things They Don`t Tell You About Capitalism, o economista da Universidade de Cambridge Ha-Joon Chang põe cabeça abaixo a conceção convencional sobre o livre mercado e sustenta que a lavadora foi mais revolucionária do que a Internet.


Aguarda um momento. Então a Internet não o revolucionou tudo?

Não realmente, não. Em vez de ler um jornal, agora lemos as notícias em formato digital. Em vez de mercar livros numa loja, compramo-los pela Internet. Quê é que é tão revolucionário? A Internet afetou fundamentalmente ao nosso tempo de lazer.

Então quê tem feito por nós a lavadora?

Como outros eletrodomésticos, libertou as mulheres de fazer determinado tipo de trabalho doméstico ou de fazer aborrecidas tarefas como servidora doméstica. Um século atrás, 10% da força de trabalho fazia-o em moradas alheias. Hoje, muito poucas mulheres o fazem. Exceto a Revolução Industrial, que fez decrescer substancialmente o número de camponeses, não conheço outra tecnologia que quase abolira uma profissão inteira a semelhante escala, em tão curto tempo. Em resumo, a lavadora permitiu às mulheres ingressar no mercado de trabalho com o que duplicamos a força de trabalho.


Que mais fez pela sociedade?

As mulheres começaram a ter menos filhos, ganharam maior poder de negociação nas suas relações e gozaram dum status maior. Esta libertação das mulheres fez muito mais pela democracia que a Internet. A lavadora é o símbolo duma mudança fundamental em como vemos às mulheres. Mudou a sociedade mais do que a Internet.


Nunca o pensara desse modo…

Isso é porque a gente como tu ou eu não tem memória a respeito do que foi destinar duas horas diárias a lavar a roupa em água fria. A gente sempre pensa que está no meio duma revolução enquanto tende a não reparar na profundidade duma mudança que sucedeu no passado. O telégrafo foi uma revolução, mas quem é que o vê assim hoje? O telégrafo acelerou o transporte de mensagens de longa distância enormemente. A máquina de faz fiz que fosse ainda mais rápido, e a Internet apenas o fez um pouco mais rápido - mas não tanto, na verdade-.


Porém a crença no poder revolucionário da Internet não é daninha, tem ou não tem certeza?

Não tenho certeza. A caridade funciona agora brindando acesso à Internet nos estados pobres. No entanto, não deveríamos investir esse dinheiro em construir clínicas e água potável? Não são essas coisas mais relevantes? Não é a minha intenção minimizar a importância da Internet, mas o seu impacto tem sido exagerado.
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