13/02/2014

A atualidade de Andreu Nin sobre as nações

Teresa Carbonell e Pello Erdociain. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido por nós para o galego (o negrito é de nosso).Carbonell é militante do POUM e presidenta da Fundació Andreu Nin e Erdociain é secretário na citada fundação.



A Fundació Andreu Nin voltará a reunir no sábado 15 de fevereiro, a partir de 16 horas, no Palau da Virreina de Barcelona a praticamente toda a esquerda; para debater sobre as contribuições de Andreu Nin à emancipação das nações e o seu relacionamento com a luta pela emancipação social.

Em junho de 2013 a Fundació Andreu Nin conseguiu que toda a esquerda reconhecesse no Parlament de Cataluña os valores revolucionários e as contribuições políticas e sociais de Andreu Nin. Agora, a Fundació quer participar no apaixonante processo político que se vive em Catalunya contribuindo para as experiências e ensinos de Andreu Nin e do POUM na luta pela emancipação das nações. A jornada que convocou para o 15 de fevereiro terá duas sessões. A primeira estará dedicada à explicação das contribuições de Nin a cargo dos historiadores Pelai Pagès e Andy Durgan (ambos com numerosas publicações sobre Nin e o POUM) e de Lluís Rabell, presidente da Federação de Associações de Vizinhos de Barcelona. A segunda sessão será uma mesa na que toda a esquerda catalã debaterá sobre o direito a decidir e as suas propostas sobre Catalunya. O carácter unitário da Fundació, de reflexão de ideias e de propostas, permitirá reunir a um amplo leque; desde o professor Gerardo Pisarello, o deputado de ICV-EUiA David Companyon, representantes das CUP, ERC, CGT, bem como ao deputado do PSC Joan Ignasi Elena, que votou no Parlament a favor do direito a decidir.

Provavelmente Andreu Nin seja o marxista catalão que mais se tenha ocupado de analisar e aprofundar sobre a questão nacional no Estado Espanhol. Já em 1914 polemizaba sobre o relacionamento entre socialismo e nacionalismo. Lemos em um dos seus artigos: "O problema social não é uma simples questão de estômago. Em todo o caso, o problema exclusivamente económico será o fundamental, constituirá a alma do socialismo, sem o qual este não teria razão de existir; mas não deixa de representar mais que uma feição - claro está que o mais importante - da questão social..." Para continuar afirmando: 
"Nacionalismo e socialismo são dois termos antitéticos ao que parece, mas cujos fins se confundem e se complementam reciprocamente, existindo entre ambos uma íntima e indestrutível conexão. Um e outro ameaçam os alicerces mesmos da sociedade atual. Nenhuma doutrina tão revolucionária como elas.

Ataca o nacionalismo a organização e a estrutura dos estados, absorbentes, unitários, centralistas, tirânicos e dominadores e combate o socialismo o regime capitalista, a propriedade privada e a moderna forma da escravatura representada pelo salário.

Se o socialismo conseguisse, com o seu esforço, que se derrube completamente o único poder da burguesia, desaparecendo com ele a injustiça da desigualdade económica do que despreçativamente chamava com razão Fourier a sociedade civilizada, o nacionalismo conseguirá, pela sua ação a cada dia mais viva e mais intensa, vencer em todos os seus redutos à burguesía lhe arrebatando a sua força e o seu instrumento de opresión mais formidável: o estado
"

Estes argumentos são de completa atualidade. Segue tendo setores da esquerda que pretendem enfrentar o que chamamos a questão social à questão nacional, como se a ânsia de liberdade dos povos, neste caso o direito de Catalunya a decidir, pudesse ser contrário ao processo de emancipação social das classes trabalhadoras. Para Nin é todo o contrário, os fins da emancipação nacional e social "confundem-se e complementam-se reciprocamente... um e outro ameaçam os alicerces mesmos da sociedade atual. Nenhuma doutrina tão revolucionária como elas."

Para os revolucionários, a luta pela libertação nacional não significa que as classes trabalhadoras devam supeditar-se aos interesses da burguesia nacional. Uma coisa é um acordo pontual contra a nação opressora e outra bem diferente é confundir os objetivos. Por isso Nin  ocupa-se também nos seus escritos de definir a posição do movimento operário ao respeito. Escreve: 
"Para o nacionalismo burguês a nação é-o tudo, e à nação - burguesa, naturalmente -têm de subordinar-se os interesses das classes sociais, sem ter em conta para nada os antagonismos profundos que as dividem.


Para o marxismo revolucionário, ao invés, os interesses da revolução proletaria e a solidariedade operária internacional estão acima de tudo. Ao princípio da unidade nacional das classes opõe o da luta de classes, e no fundo considera o problema das nações oprimidas como uma feição desta luta. O operário revolucionário sente-se infinitamente mais unido aos operários de outros países e, por tanto, aos da própria nação dominadora, que às classes exploradoras do próprio país às que tem declarada uma guerra a morte. Não esqueçamos, por outra parte, que a primacía da nação acima dos interesses de classe em realidade não é, para a burguesía, senão uma bandeira que mostra aos olhos do proletariado para escurecer a sua consciência de classe. Acima de tudo põe os seus interesses de casta exploradora. Quando estes estão em perigo não vacila em aliar com os inimigos "nacionais"."

Também nos parecem de completa atualidade a tradição de pactos da burguesia catalã, através de CiU, com o PP e com o Estado Espanhol, não só na aplicação de políticas de recortes sociais senão também de submeter as necessidades de Catalunya aos seus próprios interesses; o que nos obriga a estar alerta sobre as suas verdadeiras intenções.

Apesar de ser reiterativos com as citas de Nin, resulta surpreendente ler a sua proposta de programa elaborado em setembro de 1934 e que, ao nosso entender, bem poderia representar hoje a base de um acordo das esquerdas

"E, no entanto, o movimento nacional de Catalunya, pelo seu conteúdo e pela participação das massas populares, é, no momento atual, um fator revolucionário de primeira ordem, que contribui poderosamente, com o movimento operário, a conter o avanço vitorioso da reação. De aqui deduze-se claramente a atitude que tem de adotar ante o mesmo o proletariado revolucionário:

1. Sustentar ativamente o movimento de emancipação nacional de Catalunya, opondo-se energicamente a toda a tentativa de ataque por parte da reação.

2. Defender o direito indiscutível de Catalunya a dispor livremente dos seus destinos, sem excluir o de separar do estado espanhol, se esta é a sua vontade.

3. Considerar a proclamação da República catalã como um ato de enorme transcendência revolucionária; e

4. Enarbolar a bandeira da República catalã, com o fim de deslocar da direção do movimento à pequena burguesia indecisa e claudicante, que prepara o terreno à vitória da contrarrevolução, e fazer da Catalunya emancipada do jugo espanhol o primeiro passo para a União de Repúblicas Socialistas de Iberia."

Em todo o caso, o que a Fundació Andreu Nin pretende é ser um estímulo e um veículo para o debate. Por isso, esperamos que todos e todas possam participar na jornada do próximo sábado 15 de fevereiro.


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