17/02/2014

O “Sim” no referendo “contra a imigração em massa” na Suíça: Um voto racista?

Paolo Gilardi. Artigo tirado do Esquerda.net (aqui). O negrito é de nosso.  Artigo de Paolo Gilardi, membro do comité central do Sindicato suíço dos serviços públicos, publicado a 11 de fevereiro de 2014 em europe-solidaire.org Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Foram muitos os que, no final da votação de domingo passado, clamaram: é um voto racista e xenófobo. Daí, tiram a conclusão que o centro da política é o combate ao racismo. Na minha opinião, isso é errado e será sobretudo ineficaz face às atuais necessidades políticas e sociais, mesmo no país que tem as mais baixa taxa de desemprego da Europa. Algumas pistas de explicação... 
Foi o vazio sideral da dita “esquerda” que deu lugar ao discurso tranquilizador da UDC, que promete restabelecer os controlos sobre os fluxos migratórios através dos contingentes; foi aquele vazio que permitiu a captura das camadas populares.
 
Embrulhado num discurso pseudo social – os baixos salários que se generalizam, os preços da habitação que sobem – e ecológico – a sobrecarga dos comboios e das estradas -, o projeto de lei submetido ao voto no domingo passado tem as suas raízes profundas na ideologia da “luta contra a Ueberfremdung”, a suposta “sobrepopulação estrangeira”, inaugurada pelas autoridades helvéticas depois da primeira guerra mundial.

Um projeto que tem as suas raízes na xenofobia do passado

Esta é a mesma ideologia que provocou um crescimento da xenofobia nos anos 1970, em que, por quatro vezes, foram submetidas a escrutínio propostas de expulsão dos trabalhadores estrangeiros para os seus países de origem. As raízes de facto não são assim tão ideológicas, pois pode ser estabelecida uma ligação quase direta entre aqueles que iniciaram a campanha de então e os que a lançam hoje. Não há, portanto, qualquer dúvida sobre a natureza nacionalista e xenófoba do texto submetido à votação.

O seu conteúdo encontrou uma audiência natural na Suíça dos campos, ou como fizeram notar alguns analistas, aquela que se situa acima de 700 metros de altitude, enquanto a Suíça das cidades a rejeitou. Como em toda a Europa, foram as regiões que contam com menos estrangeiros – ou então que têm os clientes dos resorts de luxo – que se expressaram mais fortemente contra a “sobrepopulação estrangeira”.

Estas são as camadas que constituíram o núcleo duro do resultado de domingo, como o foram também nos últimos quarenta anos em matéria de imigração e de asilo. Mas, só elas não fazem uma maioria, eram apenas vinte mil votos.

A juventude ausente

É sobre esta base que se juntaram pelo menos dois outros fenómenos. Em primeiro lugar, é em algumas camadas da juventude que se pode constatar um ressurgimento do discurso nacionalista, de identificação com os valores “nacionais”, sendo que as outras formas de identificação, social, de classe, já muito pouco presentes na juventude deste país, estão reduzidas a um fio.

É o resultado de um longo processo de integração política e estrutural do movimento operário, político e sindical, no aparelho de Estado da burguesia suíça e da sua subordinação aos interesses do capitalismo nacional simbolizada pela prática, durante oito décadas, da política da “paz laboral”1.

Ainda que relativamente minoritário, este renascimento do nacionalismo na juventude manifesta-se nomeadamente pela emergência de jovens quadros de direita, tanto nas organizações de juventude da União democrática do centro – o mais patronal e anti-operário dos partidos burgueses – como nas do partido liberal radical.

Presentes – ainda que marginalmente, mas todavia presentes – na juventude escolarizada, estas forças jogam todo o seu peso na deslocação para a direita do epicentro do debate político. Assim, contrariamente ao que se tinha manifestado ainda nos anos 1990 – e mesmo depois – desta vez, não houve manifestações espontâneas nas escolas contra as campanhas nacionalistas. Não foi certamente o fator decisivo no resultado da votação, mas a confusão criada na juventude desempenhou provavelmente um papel. Em qualquer caso, a ausência de iniciativa pública deixou um espaço vazio, contrariamente ao que aconteceu com a outra votação do fim de semana, a do direito ao aborto.

Esta confusão foi ainda maior porque nenhum conteúdo veio da esquerda, com exceção de algumas raríssimas experiências de organização de campanhas independentes de esquerda contra a iniciativa xenófoba, mas que não tiveram grande visibilidade.

A única campanha da esquerda foi a da direita

E é justamente a este nível, que um outro estrato, representado pelo que simplificadamente se costuma chamar o “voto operário”, se veio juntar ao tradicional núcleo duro nacionalista. Voltarei ulteriormente à necessária prudência em matéria de “voto operário”, mas é forçoso reconhecer que o discurso protecionista penetrou largamente nos meios populares.

Na base deste voto, encontra-se, sem dúvida, a generalização das políticas de desvalorização salarial praticadas por um patronato que pode fazer tudo, certo de uma disponibilidade de mão-de-obra sem limites – o exército industrial de reserva, para retomar um conceito que faz sentido.

Em Ticino, por exemplo, um cantão periférico que sofre de um sub-desenvolvimento regional marcante, a exploração sem limites de uma mão-de-obra imigrada, fronteiriça, paga miseravelmente exerce uma pressão constante e até ao limite do suportável sobre as camadas populares. É neste cantão que a figura do “canalizador polaco” de outrora toma os traços do “eletricista da Reggio Emilia” pago em valores que são os … da Reggio Emilia.

Ora, face a esta situação a esquerda institucional, política e sindical foi totalmente incapaz de esboçar sequer uma resposta. Ela limitou-se de facto, na continuidade da subordinação aos interesses da indústria suíça de exportação, a retransmitir o discurso patronal explicando a centenas de milhares de assalariados, preocupados com o seu poder de compra e o seu posto de trabalho, “a importância da imigração para o nosso bem-estar” e “a necessária abertura à Europa, que garante a nossa prosperidade”.

De facto, este último aspeto era essencial para o capitalismo helvético, podendo o questionamento dos acordos com a UE significar restrições maiores ao seu acesso aos mercados europeus. Tirando o tempo em que podia pedir aos assalariados que fizessem sacrifícios, quando o capitalismo suíço queria redistribuir algumas migalhas, isto torna-se ainda mais duro quando são estas empresas que obtêm lucros multi-milionários que despedem e baixam os salários.

Beatitude culpada

Foi o vazio sideral da dita “esquerda” que deu lugar ao discurso tranquilizador da UDC, que promete restabelecer os controlos sobre os fluxos migratórios através dos contingentes; foi aquele vazio que permitiu a captura das camadas populares.

A este respeito, é também a beatitude de uma “esquerda” que, sob o pretexto do “progresso de civilização”, não quis bater-se em 2005, na altura do voto sobre os acordos bilaterais com a Europa para impor condições limitativas - extensão obrigatória dos contratos de trabalho, salários mínimos a respeitar, empenhamento dos inspetores do trabalho – à pretensa “livre circulação”, que é culpada. E enquanto ela se agarra aos “valores da abertura” sem lhe dar conteúdo social, vê uma parte das camadas mais expostas aos efeitos da mundialização mercantil procurar uma resposta nos xenófobos.


Antídotos embrionários

Ao contrário do que aconteceu nos últimos meses, nos anos 1970 as iniciativas xenófobas foram também combatidas, nas três regiões do país, por comités unitários de trabalhadores suíços e de trabalhadores imigrantes, os CUTSI. Eles conduziram a campanha na perspetiva da comunidade de interesses, de classe, entre trabalhadores, independentemente da côr do seu passaporte. Além disso, foi na luta que esta comunidade de interesses se pôde manifestar e deixar os seus traços, nomeadamente na forma de estruturas integradas de assalariados suíços e de imigrantes.

E foi aí, onde estas experiências de luta foram mais avançadas, sustentadas pela permanência de uma propaganda e agitação política anticapitalistas, que a iniciativa xenófoba de 9 de fevereiro teve os seus piores resultados, o “voto operário” a seu favor não teve o mesmo peso daqueles locais onde a esquerda institucional desertou do terreno.

Lutar em vez de estigmatizar

Por isso, é em primeiro lugar na construção de uma oposição social, de classe, internacionalista que se combate o significado de um discurso nacionalista e xenófobo, não na denúncia abstrata do “racismo” que acaba por assumir os contornos de uma estigmatização concreta daquelas e daqueles que, por falta de alternativa e por desespero, deram crédito ao discurso dos xenófobos.

Esta é uma tarefa, de longo prazo, que é imperativo enfrentar.



1 Em julho de 1937, a principal central sindical e a organização patronal da metalurgia assinaram um acordo chamado de “paz laboral” implicando a renúncia total à greve para garantir a competitividade internacional da indústria suíça de exportação. Depois da segunda guerra mundial, esta política generalizou-se acompanhada pela participação minoritária e constante – exceto durante menos de dez anos nos anos cinquenta – do Partido socialista no governo de coligação. A participação governamental estende-se para além disso aos governos cantonais e aos executivos locais, nomeadamente em algumas grandes cidades onde, tanto os verdes como a chamada “esquerda da esquerda” participam em governos de coligação.
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