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26/07/2012

Uma guerra para liquidar a Síria

Robert Fisk. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Entrevista a Tony Jones, do Znet | Tradução: Hugo Albuquerque


Robert Fisk alerta: no xadrez do Oriente Médio, talvez haja potências interessadas em levar alguns países árabes ao colapso


Tudo cheira mal, na cobertura dos jornais brasileiros sobre o conflito interno sírio. Denunciam-se, de um lado, crimes reais: as tiranias do governo e os massacres cometidos pelo exército. Fala-se no avanço ora de “rebeldes”, ora de “oposicionistas”. Sabe-se, por fatos e imagens, que estão militarizados. Aparecem sempre armados de metralhadoras. Promovem atentados e assassinatos seletivos.

Mas quem são? É como se não importasse, bastando sabermos que enfrentam  um regime próximo ao do Irã e, portanto, contrário aos Estados Unidos. Combatem, portanto, um “mal”, sugere a mídia; logo, são “bons”… E estão mergulhados, segundo o mesmo raciocínio, no universo estranho e atrasado de uma religião declarada inimiga. Portanto, serão sempre bons, ainda que matem e pratiquem outros atos condenáveis…

Corrrespondente do Oriente Médio há três décadas (do “Independent” de Londres e do alternativo  “ZNet”, de Boston,  entre outras publicações), o jornalista veterano Robert Fisk acostumou-se a desconfiar deste raciocínio binário. Ele cobriu, no início dos anos 1990, a guerra civil argelina. As duas partes conflagradas — governo tecnocrático e oposição fundamentalista islâmica — cometiam atrocidades equivalentes. Porém, algumas eram omitidas e, portanto, perdoadas: as de um governo que havia anulado eleições democráticas, mas… defendia os interesses das potências e empresas ocidentais.

Na Síria, Fisk evita fazer previsões. Destaca fatos incômodos. Lembra que, embora interessados no fim da ditadura chefiada por Bashar Assad, os EUA evitam apoiar explicitamente a oposição. Sabem que é um aglomerado caótico, integrado inclusive, tudo indica, pela Al-Qaeda. 

Fisk acredita que o regime despótico cairá. Mas teme: não surgirá em seu lugar um governo libertário, ao contrário do que gostariam muitos dos que torcem pelo fim da ditadura. Nas atuais condições, o país está arriscado a mergulhar numa sequência de conflitos entre etnias e seitas, podendo entrar em colapso como nação.

Haverá, no Oriente Médio, poderes interessados em que este tipo de desfecho se torne comum? É uma dúvida legítima, que vale expressar e que pode guiar a leitura dos próximos acontecimentos. Talvez a entrevista que Robert Fisk concedeu a Znet, no início de julho, ajude a precisá-la. O diálogo vem a seguir (A.M.)

Depois do massacre em Houla, você afirmou que estamos diante de um ponto de inflexão no horror da Síria. Qual é a sua conclusão sobre o que aconteceu?
Robert Fisk: Eu acho a palavra “ponto de inflexão” de forma  um pouco cínica, porque jornalistas e acadêmicos gostam de usá-la. Eu não estou certo — devido à quantidade e ao alcance dos tentáculos que o Partido Baath, do presidente Bashar Al Assad, têm em solo sírio que vejamos seu regime cair tão rápido quanto Obama, Hillary Clinton e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, desejariam. Penso que esse processo ainda vai continuar por um bom tempo. Há uma grande quantidade de apoiadores do regime do Partido Baath, não apenas entre os membros da comunidade xiita alauíta, os cristãos ou os druzos, mas também, e particularmente, entre a burguesia síria e as classes médias. Creio que será uma guerra terrível e muito sangrenta. Subitamente Hillary Clinton disse que o confronto é terrível e Obama falou em algo horrendo. Isso sugere que o estamos caminhando para o fim da guerra, infelizmente.
Você escreveu que há precedentes históricos sombrios, no Oriente Médio, de regimes repressivos que tentam manter-se às custas da morte de centenas de milhares de pessoas. É isso que pode acontecer na Síria?
Robert Fist: Sim. Como você sabe, cobri a guerra da Argélia de 1991 a 1998, quando foram realizadas eleições livres por lá. Os fundamentalistas islâmicos iriam, claramente, vencer o segundo turno das eleições. Elas foram, então, interrompidas pelo “governo”, com o apoio do Ocidente. E começou uma guerra civil terrível, com vilarejos destruídos, crianças e mulheres tendo suas gargantas cortadas, homens fuzilados, tropas do “governo” sitiando cidades, numa intensidade muito maior do que está acontecendo na Síria hoje. E tudo isso com o Ocidente plenamente satisfeito com o fato de o “governo” ter impedido os islamistas de tomar o poder. Hoje, nem mesmo pensamos mais sobre aquilo.
É um precedente muito terrível e creio que Bashar al Assad vai levá-lo em consideração, porque seu pai, Hafez, destruiu mais de 20 mil vidas, quando liquidou Hama em 1982. E depois daquela batalha, quando os argelinos ainda tentavam descobrir como vencer sua própria guerra contra seus fundamentalistas, enviaram uma delegação militar a Damasco, com intuito de descobrir como os sirios o fizeram. Aplicaram as lições que aprenderam contra seus próprios inimigos, na Argélia. Enfim, há toda uma série de causas-consequências e precedentes por conta dos quais creio que a guerra na Síria não vai terminar agora; que al Assad não vai cair tão logo.
No precedente argelino, ambos os lados, militares e fundamentalistas, massacraram um número monstruoso de civis, de maneiras terríveis. Você teme que o mesmo tipo de coisa ocorra na Síria, onde nós sabemos muito pouco sobre as milícias e forças rebeldes que estão emergindo?
Robert Fisk: Bem, é o que já está acontecendo na Síria. Estive num subúrbio de Argel chamado Bentalha, onde houve um ataque de fundamentalistas contra moradores que eram, eles mesmos, muçulmanos. Centenas de pessoas foram mortas, inclusive bebês que tiveram suas gargantas cortadas. Vi os corpos desses bebês e de seus pais. E do telhado de suas casas, eu conseguia enxergar tremulando a bandeira argelina, em barracas do exército próximas. É o tipo da situação que estamos assistindo na Síria, em lugares como Houla, Hama e suponho, com pesar, também em Aleppo.
O que sabemos sobre o “Exército Livre da Síria”, cujo comandante, o coronel Riad al Assad, está tentando retomar os ataques?
Robert Fisk: Eu não levaria a sério qualquer coisa que ele diz. porque todas as vezes fui à fronteira e tentei ver seu exército, ouvi três ou quatro versões diferentes a respeito. O fato de relevo é que a oposição síria, a oposição armada a Bashar al Assad, é o dividida que o pode ser considerada uma única única facção. O precisamos compreender — e aqui está uma das razões pelas quais Obama e Hillary, além de todos os outros fanfarrões e mentirosos, estão dizendo o que dizem — é que o sabemos quem é essa oposição.
E como o sabemos, o único que podemos — e por “nós”, leia-se o Ocidente — é expressar ultraje contra Bashar al Assad e seu regime. Não podemos dar apoio a essa oposição, porque ela pode incluir até mesmo membros da Al Qaeda em suas fileiras e ter envolvimento no massacre de Houla. Não sabemos ainda. Não estou dizendo, com isso, que Assad seja um mocinho. Ele não é.
Mas os Estados sunitas do Golfo Pérsico têm armado os rebeldes anti-governo e presumivelmente vão continuar a fazê-lo.
Robert Fisk: Claro que sim!
O que seria necessário para eles realmente derrubarem o regime?
Robert Fisk: Seria preciso que, nas forças blindadas sírias — ou seja, as divisões de tanques e as unidades anti-aéreas — houvesse um número suficiente de oficiais dispostos a enfrentar o regime. Mas isso ainda não aconteceu, nem creio que veremos em um futuro próximo. A hierarquia militar síria tem permanecido leal à Presidência. E enquanto isso perdurar em uma cidade estratégica como Damasco, e em outra mais ou menos estratégica como Aleppo, Assad não cairá, por mais que Obama, Hillary Clinton ou David Cameron queiram o contrário.
Há alguma possibilidade de aplicação, na Síria, de uma doutrina como a da “responsabilidade de proteger”, usada na Líbia?
Robert Fisk: Bem, estou certo que muitos líbios pediriam: “Por favor, Deus, não use isso contra nós ou contra neles”. Como você deve saber, a “responsabilidade para proteção é um clichê midiático que matou um número assustador de pessoas inocentes. Acho que o número de pessoas assassinadas na Síria, particularmente pelo regime, já é suficiente. A ajuda da OTAN pode ser dispensada.
O que precisaríamos ver é uma nova Síria emergindo daquilo tudo que compõem seu povo — isto é, sunitas, xiitas, alauítas hoje no comando, cristãos, druzos e assim por diante. Mas, infelizmente, é mais fácil dizê-lo na TV australiana do que fazê-lo.
Você vê alguma possibilidade de isso acontecer? Porque muitas das pessoas-chave da Primavera Árabe sentem-se traídas. Suas revoluções pacíficas foram traídas pelo armamento das forças de oposição, e quando vo os vê sendo mortos pelo regime, dá vontade de lhes encher de armas.
Robert Fisk: Bem, eu vivo no Líbano e em Beirute, de onde falo agora, este argumento é muito repetido. Meu entendimento — e fui à Síria dezenas e dezenas de vezes — é que lá há armas demais. As famílias, tribos e organizações têm um monte de armas. Se eles realmente precisassem ter o que você e eu chamamos de guerra civil, ela teria começado — e haverá quem nos diga que ela já começou.
Mas a única coisa que eu poderia dizer, pois muitos sírios vivem no Líbano, é que os poderes ocidentais decidiram lá atrás, há quase cem anos, que sírios e líbaneses eram povos diferentes. São o mesmo povo. Meus amigos daqui, a quem aconteceu de nascerem sírios, poderiam ser libaneses. Eles têm um país e querem ser leais a ele, mas não desejam viver sob uma ditadura. No final das contas, acho que haverá uma revolução na Síria. A questão é: será do tipo que você, eu e todos nós, pessoas legais do Ocidente, gostariam que fosse? Uma revolução de caráter, ideias e pensamentos libertários? Ou será uma revolução corrompida e, suponho, terrivelmente pintada com as cores do sectarismo e das diferenças religiosas?
o posso deixar de notar tristeza em sua voz. Há sinais preocupantes de que a guerra na Sìria poderia se espalhar pela fronteira com o Líbano, onde você armou sua tenda. Eu quero dizer, você está realmente preocupado com isso, não?
Robert Fisk: Sim, estou preocupado com isso. Durante a guerra civil no Líbano, entre 1975 e 1995, na qual morreram entre 150 mil e 200 mil pessoas, no mínimo, muitos libaneses enviaram suas crianças para a Europa, Canadá, Austrália, América, para serem educados. Eles voltaram e não quiseram viver sob um estado marcado pelo sectarismo. E uma das razões pelas quais a “guerra civil” não se espalhou da Síria para o Líbano é porque os jovens do Líbano o querem viver numa sociedade sectária e dizem isso a seus pais isto. Sejamos justos, eles estão certos. Eu creio que esta é uma sociedade mais bem-formada e diplomática — digo isso no sentido mais interessante e não-ocidental da palavra. Ela ensina que você não nem deve dirigir seu país de acordo com as maiorias, seja a maior religião, a maioria xiita, muçulmana, alauíta, druza, o que quer seja. Creio que essa é a razão pela qual o Líbano ainda não se tornou parte da guerra síria. Mas a guerra síria, como todo conflito entre seitas é algo que pode ser projetado além-fronteiras. Temo que o governo de Damasco, infeliz e vergonhosamente, poderá fazer uso disso.

10/03/2012

A democracia en entredito

Cándido Marquesán. Artigo tirado de El Períodico de Aragón (aquí) e traducido por nós. O autor é profesor de instituto.



Que estamos inmersos nun dos momentos máis complexos e difíciles da Historia recente da Humanidade, é claro. Todo iso produto do triunfo humillante das políticas neoliberais. Un conxunto de valores e principios políticos, sociais, económicos e culturais, que considerabamos intocábeis, ao redor dos cales organizabamos a nosa convivencia e que nos proporcionaban certas doses de seguridade á nosa existencia, están a ser cuestionados. Parece coma se se abrise un laño baixo os nosos pés, polo que todo é desacougo, incerteza e medo. Estamos nunha auténtica encrucillada. Ante este mundo cada vez máis inxusto e desigual, non se presentan alternativas críbeis, e as que o son, gozan de escasa relevancia, ao non permitir a súa difusión a maioría dos medios de comunicación.

 O Estado do Benestar, unha das maiores conquistas sociais nas sociedades occidentais, está a rachar en anacos, coa coartada da consolidación fiscal.

A economía de mercado liberada de control político e rexida exclusivamente pola procura do beneficio material, está a xerar cada vez máis desigualdades. A partir dos anos 70 do século pasado iniciouse o que Paul Krugman chamou "a gran diverxencia", o proceso polo cal se produciu un enriquecemento considerábel do 1% dos máis ricos e o empobrecimiento de todos os demais. A confianza nun irreversíbel progreso para humanidade desvaneceuse. 

 As cuestións expostas teñen a suficiente miga. No entanto, quero determe noutra non menos importante, como é o descrédito actual da democracia e o seu consecuente perigo de extinción, causado pola subordinación da política aos poderes económicos. Segundo Boaventura de Sousa Santos, que cualifica o sistema actual de auténtico fascismo financeiro "O capitalismo, na súa versión neoliberal, concibe á democracia como un instrumento de acumulación; e se é preciso, redúcea á irrelevancia e, se atopa outro instrumento máis eficiente, prescinde dela (o caso de China). Observamos impasíbeis como a instancias dos poderes financeiros execútanse cambios dos gobernos, modificacións substanciais constitucionais, sen contar para nada coa opinión da cidadanía, depositaria da soberanía nacional". Os programas, as eleccións, os mitins ou os debates electorais son unha farsa. De acordo con Josep Fontana, Robert Fisk nun artigo recente "Os banqueiros son os ditadores de Occidente", díxonos: Os partidos políticos, entregan o poder que recibiron dos votantes "aos bancos, os traficantes de derivados e as axencias de avaliación". Michael Hudson, profesor da Universidade de Missouri, denuncia o que chama "a transición de Europa da socialdemocracia á oligarquía financeira". Xuízos non desatinados. Está a producirse unha simbiose entre gobernantes e o sector financeiro ou empresarial a través do que no mundo anglosaxón coñécese como "porta giratoria": directivos do sector financeiro ou empresarial ocupan postos políticos clave e, en paralelo, algúns gobernantes que afrontaron a crise incorpóranse ao mundo das finanzas ou das empresas. No noso país os exemplos son numerosos. O actual ministro de Economía, Luís de Guindos, tras ser o Secretario de Estado de Economía durante dous anos en 2006 foi nomeado conselleiro para Lehman Brothers. Rodrigo Rato, actual presidente de Bankia foi ministro de Economía. Os expresidentes do goberno, Felipe González e José María Aznar fichados polo multinacionais Gas Natural e por Endesa, respectivamente. Zaplana expresidente da Generalitat valenciana e antigo ministro, contratado para a dirección de Telefónica. Este fenómeno non é novo. En USA, Lewis Powell xa en agosto de 1971 nun Memorándum confidencial recomendaba "O mundo dos negocios debe aprender a lección que hai tempo aprenderon os sindicatos e outros grupos de intereses. A lección de que o poder político é necesario; que este poder debe cultivarse asiduamente e que, cando conveña, hai que usalo agresivamente e con determinación". As organizacións empresariais non só deben participar nas campañas electorais a través de Comités de Acción Política, senón tamén de formas diversas pagando os seus servizos aos políticos, entre elas a de asegurarlles unha compensación cando deixen a política. Que conseguiu o mundo empresarial con este asalto ao poder? "As marxes de beneficio chegaron a niveis que non se viron desde hai décadas", e que "as reducións de salarios e prestacións explican a maior parte desta mellora"; "a diminución das súas contribucións ao sostén do Estado". Como dixo Stiglitz, "Os ricos están a usar o seu diñeiro para asegurarse medidas fiscais que lles permitan facerse aínda máis ricos. En lugar de investir en tecnoloxía ou en investigación, obteñen maiores rendementos investindo en Washington". Outro beneficio foi a desregulación das leis que controlan aspectos da actividade empresarial, unha das causas craves da crise do 2008.

 No Estado español esta subordinación da política á economía, explícanos medidas como: as reformas das pensións, a laboral e a financeira; os rescates dos bancos, as durísimas políticas de axustes fiscais que recaen sobre os traballadores. Todo é lóxico.

13/12/2011

Os banqueiros são os ditadores do Ocidente

Robert Fisk. A tradução do artigo para Outras Palavras (aqui) é de Vila Vudu.

Escrevendo da região que produz a maior quantidade de clichês por palmo quadrado em todo o mundo – o Oriente Médio –, talvez eu devesse fazer uma pausa e respirar fundo antes de dizer que jamais li tal quantidade de lixo, de tão completo e absoluto lixo, como o que tenho lido ultimamente, sobre a crise financeira mundial.

Mas… que seja! Nada de meias palavras. A impressão que tenho é que a cobertura jornalística do colapso do capitalismo bateu novo recorde (negativo), tão baixo, tão baixo, que nem o Oriente Médio algum dia superará a acanalhada subserviência que se viu, em todos os jornais, às instituições e aos ‘especialistas’ de Harvard, os mesmos que ajudaram a consumar todo o crime e a calamidade.

Comecemos pela Primavera Árabe – expressão publicitária, grotesca, distorcida, que nada diz sobre o grande despertar árabe/muçulmano que está sacudindo o Oriente Médio – e os escandalosos, obscenos paralelos com os protestos sociais que acontecem nas capitais ocidentais. Fomos inundados por matérias sobre os pobres e oprimidos do Ocidente que “colheram uma folha” do livro da “Primavera Árabe”; sobre manifestantes, nos EUA, Canadá, Grã-Bretanha, Espanha e Grécia que foram “inspirados” pelas manifestações gigantes que derrubaram regimes no Egito, Tunísia e – só em parte – na Líbia. Tudo isso é loucura. Nonsense.

A verdadeira comparação, desnecessário dizer, ficou esquecida pelos jornalistas ocidentais, todos ocupadíssimos em não falar de rebeliões populares contra ditaduras, tanto quanto ocupadíssimos em ignorar todos os protestos contra os governos ocidentais “democráticos”, desesperados para separar as coisas, dedicados a sugerir que o Ocidente estaria apenas colhendo um último alento dos estertores das revoltas no mundo árabe. A verdade é outra.

O que levou os árabes, às dezenas de milhares e depois aos milhões, às ruas das capitais do Oriente Médio foi uma demanda por dignidade: a recusa em aceitar os ditadores e famílias e claques de ditadores que, de fato, viviam como se fossem donos de seus respectivos países. Os Mubaraks e os Ben Alis e os reis e emires do Golfo (e da Jordânia), todos acreditavam que tinham direitos de propriedade sobre tudo e todos. O Egito pertencia à Mubarak Inc.; a Tunísia, a Tunisia à Ben Ali Inc. (e à família Traboulsi) etc. Os mártires árabes, das lutas contra as ditaduras, morreram para provar que seus países pertencem a eles, ao povo.

E aí está a real semelhança que aproxima as revoluções árabes e ocidentais. Os movimentos de protesto que se veem nas capitais ocidentais são movimento contra o Big Business – causa perfeitamente justificada – e contra “governos”.

O que os manifestantes ocidentais afinal entenderam, embora talvez um pouco tarde demais, é que, por décadas, viveram o engano de uma democracia fraudulenta: votavam, como tinham de fazer, em partidos políticos. Mas os partidos, imediatamente depois, entregavam o mandato democrático que recebiam do povo, do poder do povo, aos banqueiros e aos corretores de ‘derivativos’ e às agências ‘de risco’ – todos esses apoiados na fraude que são os ‘especialistas’ saídos das principais universidades e think-tanks dos EUA, que mantêm viva a ficção de que viveríamos uma ‘crise de globalização’, e não o que realmente vivemos: uma falcatrua, uma fraude massiva, um assalto, um golpe contra os eleitores.

Os bancos e as agências de risco tornaram-se os ditadores do Ocidente. Exatamente como os Mubaraks e Ben Alis, os bancos acreditaram – e disso continuam convencidos – que seriam proprietários de seus países.

As eleições no Ocidente – que deram poder aos bancos e às agências de risco, mediante a colusão de governos eleitos – tornaram-se tão falsas quanto as urnas que os árabes, ano após ano, eram obrigados a visitar, décadas a fio, para ‘eleger’ os proprietários deles mesmos, de sua riqueza, de seu futuro.

Goldman Sachs e o Real Banco da Escócia converteram-se nos Mubaraks e Ben Alis dos EUA e da Grã-Bretanha, cada um e todos esses dedicados a afanar a riqueza dos cidadãos, garantindo ‘bônus’ e ‘prêmios’ aos seus próprios gerentes pervertidos. Isso se fez no Ocidente, em escala infinitamente mais escandalosa do que os ditadores árabes algum dia sonharam que fosse exequível.

Não precisei – embora tenha ajudado – de Inside Job, de Charles Ferguson, essa semana, na BBC2, para aprender que as agências de risco e os bancos nos EUA são intercambiáveis: o pessoal que lá trabalha muda-se sem sobressalto, dos bancos para as agências, das agências para os bancos… e todos, imediatamente, para dentro do governo dos EUA. Os rapazes ‘do risco’ (a maioria, rapazes, claro) que atribuíram grau AAA aos empréstimos e derivativos podres nos EUA estão hoje – graças ao poder vicioso que exercem sobre os mercados – matando de fome e medo os povos da Europa, ameaçando-os de ‘rebaixar’ os créditos europeus, depois de se terem associados a outros criminosos do lado de cá do Atlântico, associação que já se construía desde antes do crash financeiro nos EUA.

Acredito que dizer menos ajuda a vencer discussões, mas, perdoem-me: Quem são esses seres, cujas agências de risco metem mais medo nos franceses hoje que Rommel [1] em 1940?

Por que os meus colegas jornalistas em Wall Street nada me dizem? Como é possível que a BBC e a CNN e – ah, santo deus, também a Al Jazeera – tratem essas comunidades criminosas como inquestionáveis instituições de poder? Por que nada investigam – Inside Job já abriu o caminho! – desses escandalosos corretores duplos?

Fazem-me lembrar o modo igualmente acanalhado como tantos jornalistas norte-americanos cobrem o Oriente Médio, delirantemente evitando qualquer crítica direta a Israel, imbecilizados por um exército de lobistas pró-Likud, dedicados a explicar aos leitores e telespectadores por que devem confiar no “processo de paz” norte-americano para o conflito Israelo-Palestino, porque os ‘mocinhos’ são os ‘moderados’ e todos os demais são os ‘bandidos terroristas’.

Os árabes, pelo menos, já desmascararam todo esse nonsense. Mas quando os manifestantes contra Wall Street fazem o mesmo, imediatamente passam a ser “anarquistas”, os “terroristas” sociais das ruas dos EUA que se atrevem a exigir que os Bernankes e Geithners sejam julgados pelo mesmo tipo de tribunal que julga Hosni Mubarak. Nós, no Ocidente, com nossos governos eleitos, criamos nossos ditadores. Mas, diferente dos árabes, ainda mantemos intocáveis os nossos ditadores – intocáveis.

O chefe da República da Irlanda (em gaélico irlandês Taoiseach), Enda Kenny, solenemente informou ao povo essa semana que seu governo não é responsável pela crise em que se debatem todos os irlandeses. Todos já sabiam, é claro. O que ele não contou ao povo é quem, então, seria o responsável. Já não seria mais que hora de ele e seus colegas primeiros-ministros da União Europeia contar o que sabem? E quanto aos nossos jornalistas e repórteres?

Notas

[1] Erwin Johannes Eugen Rommel (Heidenheim, 15 de Novembro de 1891 – Herrlingen, 14 de Outubro de 1944), conhecido popularmente como A Raposa do Deserto, foi um marechal-de-campo do exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Foi um dos maiores responsáveis pela conquista da França pelo exército nazista em 1940.

02/05/2011

Robert Fisk: morte irrelevante do ícone da Al Qaeda

Artigo tirado aqui.


Para o jornalista, o que importa hoje, no mundo árabe, são os levantes populares laicos contra os ditadores

[A entrevista de Fisk, concedida a uma emissora de TV neozelandesa está aqui]
O jornalista veterano Robert Fisk, que entrevistou Osama Bin Laden em três ocasiões, afirmou que a morte do ícone da Al Qaeda é muito menos importante que os levantes populares no mundo árabe. “Já afirmei algumas vezes pensar que sua possível morte é muito irrelevante”, disse o correspondente no Oriente Médio do jornal britânico The Independent.

“Ele acreditava ter fundado a Al Qaeda e via existência da rede como sua conquista”, lembrou Fisk. No entanto, o jornalista premiado afirmou que Osama Bin Laden não estava em condições de dirigir de fato as operações da rede terrorista: “Ele não sentava numa caverna com um teclado de computador dizendo ‘apertem o botão b, esta é a operação 52′”. Fisk, que no momento cobre a revolta popular na Síria afirma que o mundo mudou de distintas maneiras, desde 11 de setembro.

“Nos últimos meses, assistimos ao despertar árabe, no qual milhões de muçulmanos superaram suas próprias lideranças”, diz Fisk. “Bin Laden sempre quis livrar-se de Hosni Mabarak, Ben Ali e Gaddafi, afirmando que eram inféis trabalhando para os Estados Unidos. Mas na verdade, fracassou. Foram milhões de pessoas comuns que, mais ou menos de forma pacífica – ao menos no Egito e na Tunísia – acabaram com as ditaduras.”

“É preciso lembrar que estes regimes afirmaram, por anos, que os norte-americanos deveriam apoiá-los, pois, do contrário ‘a Al Qaeda iria tomar o controle’. Mas isso nunca ocorreu. É importante notar que, uma semana após a queda de Mubarak, no Egito, a Al Qaeda emitiu uma convocação pela sua derrubada. Foi patético”, continua Fisk. Ele afirma que as comemorações nos Estados Unidos, em favor da morte do terrorista, tem pouco significado.

“Penso que Osama perdeu relevância há bastante tempo. Se os Estados Unidos tivessem matado Bin Laden um ano ou dois depois de 11 de Setembro, um pouco da emoção que estão vivendo seria importante. Todos estes punhos no ar, celebrando vitória, são boas imagens, mas não têm muito sentido”, prossegue o jornalista. “O que importa no momento, no mundo, é o despertar doa árabes, para livrar-se de seus ditadores”.

Como os Estados Unidos criaram Bin Laden

António Martins. Artigo tirado de aqui.


A história proibida da aliança entre Washington e o homem que ordenaria os ataques de 11 de setembro



A ordem formal para detonar o último esconderijo de Bin Laden foi dada por Barack Obama na manhã de sexta-feira, informou nesta manhã (2/5) o New York Times. Antes de rumar para o Alabama, onde acompanhou o socorro às vítimas de tornados violentos, o presidente determinou que forças especiais da central de inteligência dos EUA – a CIA desencadeassem o ataque. Instalado numa casa em Abbottabad, a apenas 50 quilômetros da capital do Paquistão, o líder da Al Qaeda teria resistido ao comando que o localizou. Segundo fontes norte-americanas, foi ferido na cabeça e em seguida, estranhamente, sepultado no mar. As circunstâncias exatas da operação ainda são desconhecidas.

Ironicamente, a CIA, encarregada de conduzir a operação que liquidou Bin Laden, está estreitamente associada ao surgimento do terrorista. Pouco se falará a respeito, nos próximos dias, mas tanto o homem de barbas longas e olhar calmo quanto a própria Al Qaeda forma conscientemente criados pelos Estados Unidos, no contexto da disputa contra a União Soviética, na “guerra fria”

Os fatos estão estão disponíveis em algumas publicações alternativas norte-americanas, entre as quais destacam-se, o site Z-Net, a revista The Nation. Para esta escreve Robert Fisk, um repórter veterano e especializado em questões de Oriente Médio. Ele escreve fala com a autoridade de quem se encontrou várias vezes, na condição de jornalista, com Bin Laden. 

A última delas, conta, foi em 1997, nas montanhas do Afeganistão. Avistou o saudita na pose e nos trajes em que aparece costumeiramente na imprensa ocidental. Roupas afegãs tradicionais, refestelado em sua caverna, ar tranqüilo. Bin Laden aparentou um conhecimento muito superficial sobre a situação do mundo. Atirou-se sobre o jornal que Fisk tinha consigo. Deu a entender que a leitura lhe trazia muitas novidades, mas abandonou a atividade depois de meia hora. Preferiu falar sobre sua crença na proteção que lhe seria assegurada por Alá. Relatou os muitos episódios em que, ao enfrentar os ocupantes soviéticos do Afeganistão, salvou-se porque os foguetes que foram atirados sobre seus esconderijos deixaram de explodir. Afirmou não temer a morte, porque “como muçulmano, acredito que, quando morremos em combate, vamos para o Paraíso”. Mas não deixou, nem por um instante, o abrigo em que se encontrava. Fisk registra: era “uma relíquia dos dias em que combateu os soviéticos: um nicho de oito metros de altura escavado na rocha, à prova até mesmo de ataques de mísseis”.

Em nome da vitória sobre os soviéticos, acordo com os extremistas

Num outro texto — um artigo analítico assinado por Dilip Hiro, intitulado “O custo da ‘vitória’ afegã” The Nation revive as circunstâncias da aliança que acabaria envolvendo Washington e Bin Laden. O cenário é o Afeganistão; a época, a última fase da Guerra Fria. Em 1979, um golpe militar havia levado ao poder grupos ligados à União Soviética (URSS). Anticomunista fervoroso, Zbigniew Brzezinsky, assessor de Segurança Nacional do então presidente Jimmy Carter, vislumbra uma oportunidade de passar da defesa ao ataque. Não quer apenas reinstalar em Kabul um governo aliado ao Ocidente. Pretende disseminar, entre as populações muçulmanas da URSS, um tipo de pensamento religioso capaz de incitá-las ao máximo contra o governo de Moscou. The Nation frisa: havia alternativas, mesmo para os que, como o assessor de Segurança Nacional, estavam empenhados em promover a Guerra Fria. Exitiam no Afeganistão “diversos grupos seculares e nacionalistas opostos aos soviéticos”. Ao invés de apoiá-los, no entanto, a Casa Branca parte para o que julga ser uma cartada genial. Impulsiona as organizações afegãs mais fundamentalistas, reunidas, desde 1983, na Aliança Islâmica do Mujahedin Afegão (IAAM, em inglês).

Os instrutores valorizam ao máximo a guerra santa (Jihad) contra Moscou. A Casa Branca quer matar dois coelhos com uma só paulada. A suposta defesa do islamismo contra os ateus soviéticos serve para consolidar, no Paquistão, o poder de Zia ul-Haq, fiel aliado do Ocidente. O terceiro elo da coalizão é a Arábia Saudita, onde outro governo pró-americano, embora muito rico, necessita de reforço ideológico. Ao longo de alguns anos, os príncipes sauditas serão convidados a “doar” 20 bilhões de dólares para a cruzada da IAAM. Através da CIA, os Estados Unidos comparecerão com mais US$ 20 bi. Os rios de dinheiro verde servirão para recurtar e formar guerrilheiros fanatizados e armá-los até os dentes. Fazem parte de seu arsenal mísseis anti-helicópteros que serão decisivos para enfrentar e vencer tanto o governo pró-URSS quanto as próprias tropas soviéticas, que, em favor de seu aliado, ocuparam o país em 1979.

Um milionário saudita adere a estranhos “lutadores da liberdade”
 
É esse clima de extremismo e intolerância suscitado por Washington que atrairá o saudita Osama bin Laden ao Afeganistão. No início dos anos 80, quando chegou ao país, ele era apenas o jovem herdeiro milionário de uma família de empresários do ramo da construção. Estava fascinado pela jihad patrocinada pelos EUA. Foi o primeiro saudita a aderir a ela, e levou consigo, ao longo do tempo, pelo menos 4 mil compatriotas. Tornou-se líder dos “voluntários” no Afeganistão. Aproximou-se dos dirigentes do IAAM, que, graças ao apoio recebido da Casa Branca, constituiriam anos depois o governo Taliban. Construiu abrigos reforçados para depósito de armas, participou de ações guerrilheiras. Jamais lhe faltou apoio moral do Ocidente. O repórter Robert Fisk relata: “Estava no Afeganistão em 1980, quando Laden chegou. Ainda tenho minhas notas de reportagem daqueles dias. Elas recordam que os guerilheiros mujahedin queimavam escolas e cortavam as gargantas das professoras, porque o governo tinha decidido formar classes mistas, com meninos e meninas. O Times de Londres os chamava de ‘lutadores da liberdade’. Mais tarde, quando os mujahedins derrubaram (com um míssil inglês Blowpipe) um avião civil afegão com tripulação e 49 passageiros, o mesmo jornal os chamou de ‘rebeldes’. Estranhamente, a palavra ‘terroristas’ nunca foi usada para qualificá-los”

A partir de 1989, com o colapso do governo pró-soviético no Afeganistão e da própria União Soviética, os “voluntários” começaram a voltar a seus países. Ao retornarem ao mundo árabe, explica Dilip Hiro, formaram um grupo à parte, que se tornou conhecido como os “afegãos”. Tinham marcas muito características. A intolerância e o desprezo pela vida humana eram os mesmos cultivados sob comando e por determinação consciente dos Estados Unidos. Haviam adquirido, nos anos da luta anti-soviética, alta capacitação em práticas terroristas. Eram, contudo, menos inexperientes do ponto de vista político. Passaram a observar que países como a Arábia Saudita e o Egito eram governados por elites tão submissas aos Estados Unidos quanto era subordinado aos soviéticos o governo afegão contra o qual lutaram.

A cobra volta-se contra o ninho em que se criou

A guerra do Golfo os voltou de vez contra Washington. Encerrada a campanha contra o Iraque, em 1991, a Casa Branca descumpriu a promessa de retirar da Arábia Saudita — país onde estão as cidades sagradas de Meca e Medina — as bases militares e os milhares de soldados mobilizados contra Saddan Hussein. Bin Laden e seus liderados lembraram que isso contraria a Sharia , lei islâmica. Em 1993, o rei Fahd, talvez o mais fiel aliado dos EUA no mundo árabe, ainda cortejou o milionário, chegando a ponto de nomeá-lo para um Conselho Consultivo real. Em 94, depois de novos desentendimentos, Bin Laden foi expulso da Arábia Saudita. Em 96, declarou uma jihad contra a presença norte-americana no país. Afirmou então que “expulsar do ocupante americano é o mais importante dever dos muçulmanos, depois do dever da crença em Deus”. Dois anos depois, uma declaração conjunta assinada por uma frente de organizações fundamentalistas formada por Bin Laden exortava: “A determinação de matar os americanos e seus aliados — civis e militares — é um dever individual para todo muçulmano que possa fazê-lo em qualquer país onde isso for possível, com objetivo de libertar de suas garras a Mesquita de Al-Aqsa [em Jerusalém] e a Mesquita Sagrada [Meca]. Isso está em consonância com as palavras de Deus todo poderoso”.

Em seu relato para The Nation, Robert Fisk lembra que Bin Laden não é o primeiro aliado com quem a Casa Branca se relaciona intimamente durante certo tempo, para mais tarde, quando já não necessita de seus serviços, acusá-lo — com ou sem motivos — de terrorista. Ele cita os casos de Saddan Hussein, visto como herói quando atacou com armas químicas o Irã; ou de Iasser Arafat, considerado “super-terrorista” quando liderava a luta pela libertação da Palestina e mais tarde “respeitável homem de Estado”, ao firmar com Israel acordos de paz jamais cumpridos.

Bastaria olhar para a América Latina para encontrar outros múltiplos exemplos de relações privilegiadas entre Washington e terroristas, praticantes de golpes de Estado, governantes tirânicos, corruptos, torturadores. Num outro sentido, menos direto, porém mais ameaçador, a aliança com o terror está, aliás, sendo reeditada neste exato momento. Bin Laden usa a opressão dos EUA e de Israel contra o mundo árabe como pretexto para justificar sua intolerância e atos criminosos. Todas as declarações dos governantes norte-americanos feitas após os atentados de 11 de setembro indicam que a Casa Branca pretendem apoiar-se no risco real do terror para desencadear uma ofensiva militar e política que, se não for barrada, transformará o planeta num local muito mais violento, antidemocrático e desigual. Talvez por isso, as sociedades tenham o direito de dizer que, contra a barbárie dos extremistas e do Império, a única saída é a construção de um mundo novo.

01/02/2011

Egito, uma ditadura na agonia da morte

Robert Fisk. Artigo tirado de aqui.

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Subi eu também sobre um tanque de combate, e só conseguia pensar naqueles maravilhosos filmes da libertação de Paris. A apenas algumas centenas de metros dali, os guardas da segurança de Mubarak, nos uniformes pretos, ainda atiravam contra manifestantes perto do ministério do Interior. Foi celebração selvagem de vitória histórica, os tanques de Mubarak libertando a capital de sua própria ditadura.

No mundo de pantomima de Mubarak – e de Barack Obama e Hillary Clinton em Washington –, o homem que ainda se diz presidente do Egito deu posse a um vice-presidente cuja escolha não poderia ter sido pior, na tentativa de aplacar a fúria dos manifestantes – Omar Suleiman, chefe-negociador do Egito com Israel e principal agente da inteligência egípcia, 75 anos de idade e muitos de contatos com Telavive e Jerusalém, além de quatro ataques cardíacos.

Não se sabe de que modo esse velho apparatchik doente conseguiria enfrentar a fúria e a alegria de 80 milhões de egípcios que se vão livrando de Mubarak. Quando falei a alguns manifestantes ao meu lado sobre o tanque, da nomeação e posse de Suleiman, houve gargalhadas.

Os soldados que conduzem os tanques, em uniforme de combate, sorridentes e às vezes aplaudindo os passantes, não fizeram qualquer esforço para apagar das laterais dos tanques os graffiti ali pintados com tinta spray. “Fora Mubarak! Caia fora, Mubarak!” e “Mubarak, seu governo acabou” aparecem grafitados em praticamente todos os tanques que se veem pelas ruas do Cairo.

Sobre um dos tanques que circulavam pela Praça da Liberdade, vi um alto dirigente da Fraternidade Muçulmana, Mohamed Beltagi. Antes, andei ao lado de um comboio de tanques próximo de Garden City, subúrbio do Cairo, onde as multidões subiram aos tanques para oferecer laranjas aos soldados, aplaudindo-os como patriotas egípcios.

A nomeação ensandecida e sem sentido de um vice-presidente [o primeiro, em 30 anos, e nomeação que significa que Mubarak desistiu de nomear o filho para substituí-lo no poder (NTs)] e a formação de um ‘novo’ Gabinete sem poder algum, constituído só de velhos conhecidos dos egípcios, evidenciam que as ruas do Cairo viram e veem o que nem os estrategistas e políticos dos EUA e da União Europeia souberam ver: que o tempo de Mubarak acabou.

As frágeis ameaças de Mubarak de que empregará repressão violenta em nome do bem estar dos egípcios – quando já se sabe que a sua própria polícia e suas milícias são responsáveis pelos ataques mais violentos dos últimos cinco dias – só geraram ainda mais fúria entre os manifestantes, vítimas de 30 anos de ditadura várias vezes muito violenta.

Crescem as suspeitas de que os piores ataques da repressão foram executados por milícias não uniformizadas – inclusive o assassinato de 11 homens numa vila do interior do país nas últimas 24 horas –, tentativa de dividir o movimento e criar suspeitas contra as intenções democratizantes das manifestações contra o governo de Mubarak. A destruição dos centros de comunicações por grupos de homens mascarados – que se suspeita que tenha sido ordenada por alguma agência da segurança de Mubarak – também parece ter sido obra das milícias não uniformizadas que espancaram manifestantes.

Mas o incêndio de postos policiais no Cairo, Alexandria, Suez e outras cidades não foram obra daquelas milícias. No final da 6ª-feira, a 40 milhas do Cairo, na estrada para Alexandria, havia grandes grupos de jovens em torno de fogueiras acesas no meio da estrada e, quando os carros paravam, eram assaltados; os assaltantes exigiam dólares, sempre muitos, em dinheiro. Ontem pela manhã, homens armados roubavam carros, de dentro dos quais arrancavam motoristas e passageiros, no centro do Cairo.

Infinitamente mais terrível foi o vandalismo contra o Museu Nacional do Egito. Depois que a polícia abandonou o serviço de segurança do museu, houve invasão de saqueadores e vândalos, que roubaram ou destruíram peças de 4 mil anos, múmias e peças de madeira esculpida de valor inestimável – barcos, esculpidos com todos os detalhes e a tripulação, miniaturas magníficas, feitas para acompanhar os faraós na viagem pós-morte.

Vitrines que protegiam trajes milenares foram quebradas, os guardas pintados de preto arrancados e depredados. Outra vez, é preciso registrar que há boatos de que os próprios policiais destruíram o museu, antes de fugir na 6ª-feira à noite. Lembrança fantasmagórica do museu de Bagdá em 2003. Bagdá foi pior, a destruição foi mais total, mas mesmo assim foi terrível o desastre do museu do Cairo.

Em minha jornada noturna da Cidade 6 de Outubro até a capital, tive de diminuir a velocidade várias vezes, porque a estrada está cheia de restos de veículos queimados. Havia destroços e vidros quebrados pela estrada, e muitos policiais armados, com rifles apontados para os faróis do meu carro. Vi um jipe semidestruído. Os restos do equipamento da polícia antitumulto que os manifestantes expulsaram da cidade do Cairo na 6ª-feira. Os mesmos manifestantes que, ontem à noite, formavam círculo gigantesco em torno da Praça da Liberdade para rezar. Gritos de “Allah Alakbar” trovejavam pela cidade no ar da noite.

Há também quem clame por vingança. Uma equipe de jornalistas da rede al-Jazeera encontrou 23 cadáveres em Alexandria, aparentemente assassinados pela polícia. Vários tinham os rostos horrivelmente mutilados. Outros onze cadáveres foram encontrados no Cairo, cercados por parentes que gritavam por vingança contra a polícia.

No momento, Cairo salta em minutos da alegria para a mais terrível fúria. Ontem pela manhã, andei pela ponte do rio Nilo e vi as ruínas do prédio de 15 andares onde funcionava a sede do partido de Mubarak, que foi incendiado. À frente, um imenso cartaz pregava os benefícios que o partido trouxe ao Egito – imagens de estudantes formados bem sucedidos, médicos e pleno emprego, promessas que o governo de Mubarak sempre repetiu e jamais cumpriu em 30 anos – emoldurados pela fuligem, semiqueimados, pendentes das janelas enegrecidas do prédio. Milhares de egípcios andavam pela ponte e pelos acessos laterais para fotografar o prédio ainda fumegante – e muitos saqueadores, a maioria velhos, que tiravam de lá mesas e cadeiras.

No instante em que uma equipe de televisão escocesa preparava-se para filmar as mesmas cenas, foi cercada por várias pessoas que disseram que não tinham o direito de filmar os incêndios, que os egípcios são povo orgulhoso que não roubaria nem saquearia. O assunto foi discutido várias vezes ao longo do dia: se a imprensa teria ou não o direito de divulgar imagens sobre essa “libertação”, que veiculassem ideias menos dignas do movimento.

Mesmo assim, os manifestantes mantinham-se cordiais e – apesar das declarações acovardadas de Obama, na 6ª-feira à noite – não se viu nenhum, nem qualquer mínimo sinal de hostilidade contra os EUA. “Tudo que queremos, tudo, exclusivamente, é que Mubarak vá-se daqui, que haja eleições que nos devolvam a liberdade e a honra” – disse-me uma psiquiatra de 30 anos. Por trás dela, multidões de jovens limpavam o leito da rua, removendo restos de veículos e barreiras postas nas intersecções e esquinas – releitura irônica do conhecido ditado egípcio, de que os egípcios nunca varrerão as próprias ruas.

A alegação de Mubarak, de que as atuais demonstrações e atos de delinqüência – a combinação foi tema do discurso em que Mubarak declarou que não deixaria o Egito – seriam parte de um “plano sinistro” é evidentemente o núcleo de seu argumento, na tentativa de não perder o reconhecimento mundial.

De fato, a própria resposta de Obama – sobre a necessidade de reformas e o fim da violência – foi cópia exata de todas as mentiras que Mubarak sempre usou para defender seu governo durante 30 anos. Os egípcios riram de Obama – inclusive no Cairo, depois de eleito – quando exigiu que os árabes abraçassem a liberdade e a democracia.

Mas até essas aspirações sumiram completamente quando, na sexta-feira, Obama assegurou seu desconfortável e incomodado apoio ao presidente egípcio. O problema é o de sempre: as linhas do poder e as linhas da moralidade em Washington jamais convergem quando os presidentes dos EUA têm de lidar com o Oriente Médio. A liderança moral dos EUA cessa de existir quando há confronto declarado entre o mundo árabe e Israel.

E o exército egípcio, desnecessário lembrar, é parte da equação. Recebe de Washington mais de 1,3 bilhão de dólares de auxílio anual. O comandante desse exército, general Tantawi – que casualmente estava em Washington, quando a polícia tentava esmagar os manifestantes – sempre foi muito amigo, pessoal, íntimo, de Mubarak. Não é bom sinal, parece, pelo menos no futuro imediato.

Assim, a “libertação” do Cairo – onde houve notícias, ontem à noite, de saques no hospital Qasr al-Aini – ainda tem a andar, até a consumação. O fim pode ser claro. A tragédia ainda não acabou.