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17/02/2014

O “Sim” no referendo “contra a imigração em massa” na Suíça: Um voto racista?

Paolo Gilardi. Artigo tirado do Esquerda.net (aqui). O negrito é de nosso.  Artigo de Paolo Gilardi, membro do comité central do Sindicato suíço dos serviços públicos, publicado a 11 de fevereiro de 2014 em europe-solidaire.org Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Foram muitos os que, no final da votação de domingo passado, clamaram: é um voto racista e xenófobo. Daí, tiram a conclusão que o centro da política é o combate ao racismo. Na minha opinião, isso é errado e será sobretudo ineficaz face às atuais necessidades políticas e sociais, mesmo no país que tem as mais baixa taxa de desemprego da Europa. Algumas pistas de explicação... 
Foi o vazio sideral da dita “esquerda” que deu lugar ao discurso tranquilizador da UDC, que promete restabelecer os controlos sobre os fluxos migratórios através dos contingentes; foi aquele vazio que permitiu a captura das camadas populares.
 
Embrulhado num discurso pseudo social – os baixos salários que se generalizam, os preços da habitação que sobem – e ecológico – a sobrecarga dos comboios e das estradas -, o projeto de lei submetido ao voto no domingo passado tem as suas raízes profundas na ideologia da “luta contra a Ueberfremdung”, a suposta “sobrepopulação estrangeira”, inaugurada pelas autoridades helvéticas depois da primeira guerra mundial.

Um projeto que tem as suas raízes na xenofobia do passado

Esta é a mesma ideologia que provocou um crescimento da xenofobia nos anos 1970, em que, por quatro vezes, foram submetidas a escrutínio propostas de expulsão dos trabalhadores estrangeiros para os seus países de origem. As raízes de facto não são assim tão ideológicas, pois pode ser estabelecida uma ligação quase direta entre aqueles que iniciaram a campanha de então e os que a lançam hoje. Não há, portanto, qualquer dúvida sobre a natureza nacionalista e xenófoba do texto submetido à votação.

O seu conteúdo encontrou uma audiência natural na Suíça dos campos, ou como fizeram notar alguns analistas, aquela que se situa acima de 700 metros de altitude, enquanto a Suíça das cidades a rejeitou. Como em toda a Europa, foram as regiões que contam com menos estrangeiros – ou então que têm os clientes dos resorts de luxo – que se expressaram mais fortemente contra a “sobrepopulação estrangeira”.

Estas são as camadas que constituíram o núcleo duro do resultado de domingo, como o foram também nos últimos quarenta anos em matéria de imigração e de asilo. Mas, só elas não fazem uma maioria, eram apenas vinte mil votos.

A juventude ausente

É sobre esta base que se juntaram pelo menos dois outros fenómenos. Em primeiro lugar, é em algumas camadas da juventude que se pode constatar um ressurgimento do discurso nacionalista, de identificação com os valores “nacionais”, sendo que as outras formas de identificação, social, de classe, já muito pouco presentes na juventude deste país, estão reduzidas a um fio.

É o resultado de um longo processo de integração política e estrutural do movimento operário, político e sindical, no aparelho de Estado da burguesia suíça e da sua subordinação aos interesses do capitalismo nacional simbolizada pela prática, durante oito décadas, da política da “paz laboral”1.

Ainda que relativamente minoritário, este renascimento do nacionalismo na juventude manifesta-se nomeadamente pela emergência de jovens quadros de direita, tanto nas organizações de juventude da União democrática do centro – o mais patronal e anti-operário dos partidos burgueses – como nas do partido liberal radical.

Presentes – ainda que marginalmente, mas todavia presentes – na juventude escolarizada, estas forças jogam todo o seu peso na deslocação para a direita do epicentro do debate político. Assim, contrariamente ao que se tinha manifestado ainda nos anos 1990 – e mesmo depois – desta vez, não houve manifestações espontâneas nas escolas contra as campanhas nacionalistas. Não foi certamente o fator decisivo no resultado da votação, mas a confusão criada na juventude desempenhou provavelmente um papel. Em qualquer caso, a ausência de iniciativa pública deixou um espaço vazio, contrariamente ao que aconteceu com a outra votação do fim de semana, a do direito ao aborto.

Esta confusão foi ainda maior porque nenhum conteúdo veio da esquerda, com exceção de algumas raríssimas experiências de organização de campanhas independentes de esquerda contra a iniciativa xenófoba, mas que não tiveram grande visibilidade.

A única campanha da esquerda foi a da direita

E é justamente a este nível, que um outro estrato, representado pelo que simplificadamente se costuma chamar o “voto operário”, se veio juntar ao tradicional núcleo duro nacionalista. Voltarei ulteriormente à necessária prudência em matéria de “voto operário”, mas é forçoso reconhecer que o discurso protecionista penetrou largamente nos meios populares.

Na base deste voto, encontra-se, sem dúvida, a generalização das políticas de desvalorização salarial praticadas por um patronato que pode fazer tudo, certo de uma disponibilidade de mão-de-obra sem limites – o exército industrial de reserva, para retomar um conceito que faz sentido.

Em Ticino, por exemplo, um cantão periférico que sofre de um sub-desenvolvimento regional marcante, a exploração sem limites de uma mão-de-obra imigrada, fronteiriça, paga miseravelmente exerce uma pressão constante e até ao limite do suportável sobre as camadas populares. É neste cantão que a figura do “canalizador polaco” de outrora toma os traços do “eletricista da Reggio Emilia” pago em valores que são os … da Reggio Emilia.

Ora, face a esta situação a esquerda institucional, política e sindical foi totalmente incapaz de esboçar sequer uma resposta. Ela limitou-se de facto, na continuidade da subordinação aos interesses da indústria suíça de exportação, a retransmitir o discurso patronal explicando a centenas de milhares de assalariados, preocupados com o seu poder de compra e o seu posto de trabalho, “a importância da imigração para o nosso bem-estar” e “a necessária abertura à Europa, que garante a nossa prosperidade”.

De facto, este último aspeto era essencial para o capitalismo helvético, podendo o questionamento dos acordos com a UE significar restrições maiores ao seu acesso aos mercados europeus. Tirando o tempo em que podia pedir aos assalariados que fizessem sacrifícios, quando o capitalismo suíço queria redistribuir algumas migalhas, isto torna-se ainda mais duro quando são estas empresas que obtêm lucros multi-milionários que despedem e baixam os salários.

Beatitude culpada

Foi o vazio sideral da dita “esquerda” que deu lugar ao discurso tranquilizador da UDC, que promete restabelecer os controlos sobre os fluxos migratórios através dos contingentes; foi aquele vazio que permitiu a captura das camadas populares.

A este respeito, é também a beatitude de uma “esquerda” que, sob o pretexto do “progresso de civilização”, não quis bater-se em 2005, na altura do voto sobre os acordos bilaterais com a Europa para impor condições limitativas - extensão obrigatória dos contratos de trabalho, salários mínimos a respeitar, empenhamento dos inspetores do trabalho – à pretensa “livre circulação”, que é culpada. E enquanto ela se agarra aos “valores da abertura” sem lhe dar conteúdo social, vê uma parte das camadas mais expostas aos efeitos da mundialização mercantil procurar uma resposta nos xenófobos.


Antídotos embrionários

Ao contrário do que aconteceu nos últimos meses, nos anos 1970 as iniciativas xenófobas foram também combatidas, nas três regiões do país, por comités unitários de trabalhadores suíços e de trabalhadores imigrantes, os CUTSI. Eles conduziram a campanha na perspetiva da comunidade de interesses, de classe, entre trabalhadores, independentemente da côr do seu passaporte. Além disso, foi na luta que esta comunidade de interesses se pôde manifestar e deixar os seus traços, nomeadamente na forma de estruturas integradas de assalariados suíços e de imigrantes.

E foi aí, onde estas experiências de luta foram mais avançadas, sustentadas pela permanência de uma propaganda e agitação política anticapitalistas, que a iniciativa xenófoba de 9 de fevereiro teve os seus piores resultados, o “voto operário” a seu favor não teve o mesmo peso daqueles locais onde a esquerda institucional desertou do terreno.

Lutar em vez de estigmatizar

Por isso, é em primeiro lugar na construção de uma oposição social, de classe, internacionalista que se combate o significado de um discurso nacionalista e xenófobo, não na denúncia abstrata do “racismo” que acaba por assumir os contornos de uma estigmatização concreta daquelas e daqueles que, por falta de alternativa e por desespero, deram crédito ao discurso dos xenófobos.

Esta é uma tarefa, de longo prazo, que é imperativo enfrentar.



1 Em julho de 1937, a principal central sindical e a organização patronal da metalurgia assinaram um acordo chamado de “paz laboral” implicando a renúncia total à greve para garantir a competitividade internacional da indústria suíça de exportação. Depois da segunda guerra mundial, esta política generalizou-se acompanhada pela participação minoritária e constante – exceto durante menos de dez anos nos anos cinquenta – do Partido socialista no governo de coligação. A participação governamental estende-se para além disso aos governos cantonais e aos executivos locais, nomeadamente em algumas grandes cidades onde, tanto os verdes como a chamada “esquerda da esquerda” participam em governos de coligação.

São já 15 os mortos por tentar entrar em Ceuta

Tirado do Esquerda.net (aqui).

Mais um cadáver foi localizado em águas territoriais espanholas na costa de Ceuta este sábado. Governo reconheceu que a Guarda Civil disparou balas de borracha e bombas de efeito moral quando, no dia 6, mais de 250 imigrantes nadavam para a praia em Ceuta.
 
O espigão que impede o acesso de imigrantes a Ceuta.
 
A Guarda Civil de Ceuta encontrou em águas territoriais espanholas, este sábado, o corpo de mais um jovem africano que terá morrido na tentativa de entrar no enclave de Ceuta a nado, contornando uma espigão fronteiriço. Com isso, são já 15 as vítimas da tentativa levada a cabo no dia 6 de fevereiro por um grupo de 250 africanos, que foram recebidos pela polícia com balas de borracha e bombas de efeito moral quando estavam na água.

A tragédia está a provocar uma crise política em Madrid e já levou a própria Comissão Europeia a questionar a ação das forças de segurança do Estado espanhol.

Governo espanhol disse e desdisse

Num primeiro momento, foram o delegado do governo de Ceuta e o diretor da Guarda Civil que negaram que a Guarda Civil tivesse disparado sobre imigrantes que nadavam em desespero, apesar de todos os dias aparecerem mais cadáveres. No dia 13, porém, o ministro do Interior, Jorge Fernández Díaz, mudou a versão e reconheceu que de facto fora feitos disparos quando os imigrantes estavam na água, apesar de afiançar que as balas não foram na sua direção e sim para o ar, na tentativa de fazê-los voltar para trás.

Alguns dos imigrantes sobreviventes, ouvidos pelo diário El País, negam essa afirmação e garantem que os guardas dispararam sobre eles como se fossem galinhas. Seja como for, parece absolutamente claro que o pânico provocado pelas bombas e tiros provocou o afogamento de muitos.

Apesar das evidências, o governo espanhol continua a defender que a atuação das forças de segurança foi “proporcionada”.

26/07/2012

"Creouse algo novo que é o extremismo de centro"

Tariq Ali. Artigo tirado de SinPermiso (aquí) e traducido por Revolta Irmandiña. 23/07/12. Tariq Ali é membro do consello editorial de SEN PERMISO. Un dos seus últimos libros publicados é The Duel: Pakistan on the Flight Path of American Power [hai tradución castelá en Alianza Editorial, Madrid,2008: Paquistán no punto de mira de Estados Unidos: o duelo].



 


A nosa colaboradora Corina Tulbure entrevistou a Tariq Ali para Sen Permiso durante o Congreso Marx is Muss, que tivo lugar en Berlín do 7 ao 10 de xullo. Tamén transcribiu e traduciu a entrevista.

Como ves os países de Europa do Leste? Por unha banda son parte da Unión Europea, pero doutra banda, os seus traballadores son tratados como man de obra barata dunha colonia.

Durante un longo período de tempo, os Estados de Europa do Leste queixáronse por ser Estados satélites da antiga URSS, detalle que, en certo xeito, non dista demasiado da verdade. Con todo, na miña opinión, pasou algo peor: estes países deron un salto e, de satélites da URSS, chegaron a ser satélites dos EEUU. Considero que se trata de países sen unha verdadeira independencia, simplemente transitaron dunha esfera de influencia a outra. Por que a actual influencia sería por defecto mellor que a anterior? Como mínimo, durante a época anterior, refírome ao período socialista, existían vivendas subvencionadas polo Estado, unha saúde pública de acceso universal, unha educación de carácter universal e a diferenza na distribución da riqueza entre a xente do montón e as persoas que pertencían ao aparello burocrático quedaba patente, pero non era unha diferenza tan elevada como a data de hoxe. Cando pensamos en como vivía un membro da cúpula política daqueles momentos, no canto de vivir nun piso cun dormitorio, habitaba un piso con catro dormitorios. Pero iso é nada en comparación coa desigualdade dos nosos días. E a xente esqueceuse deste pasado, pero a antiga xeración aínda o mantén na súa memoria. Por iso considero que o cambio, para moitos dos países de Europa do Leste, non todos, foi un desastre. Desde o punto de vista económico, as condicións de vida da grande masa de xente empeoraron, os prezos en xeral aumentaron e os prezos das propiedades saltaron polo aire. Desde o punto de visto económico son Estados colonizados pola UE, ou, para ser máis preciso, por Alemaña

Pensas que o mesmo proceso pódese identificar nos países do Sur de Europa? Asistimos a unha paulatina "colonización económica" mediante as medidas impostas tras os rescates?

Se miramos a Grecia e Italia, os banqueiros europeos deciden quen vai gobernalos. Finalmente estes países están gobernados basicamente polos banqueiros nomeados pola UE co visto e prace do Goberno alemán. Que é entón a democracia se os banqueiros, os culpábeis da crise, se converten nos nosos mandatarios? España é un país que está en bancarrota e as condicións de vida empeoran a diario. A data de hoxe, en caso de convocar un proceso electoral, o elixido Goberno de dereitas estaría fóra. O Partido Socialista capitulou ante todas as mediadas de austeridade tomadas pola dereita, así que a esquerda debe construír unha nova organización. Esquerda Unida en España, aínda que sexa unha boa opción, debe empezar a actuar, abrirse ao movemento dos indignados, construírse un novo discurso, non enquistarse na antiga forma de facer as cousas. Así que os problemas a afrontar son inmensos, mais tamén existen novas posibilidades para contraatacalos.

Cal é o papel dos partidos políticos a data de hoxe? Moita xente pensa que a votación é un xesto sen efectos. Como te sitúas: deixar de votar, como forma de protesta, ou "ocupar" o político?

Os movementos de ocupación das prazas, dos espazos públicos son moi importantes, mais trátase dun xesto simbólico. Ocúpase un espazo público, mais a política segue por detrás o seu rumbo anterior, por iso o movemento Occupy non formula unha oferta concreta para a xente, unha alternativa, e niso radica o problema. A ocupación das prazas en si simboliza o xesto dun profundo descontento. Tras os masivos movementos de ocupación das prazas de España que pasou? Non tiveron ningún impacto nas eleccións, dado que a maioría da xente nova afirmou que non ía votar, actitude que entendo, mais como mínimo votasen por calquera dos partidos de esquerda que valla a pena. Por suposto que non se trata de votar polos socialistas ou pola dereita, senón votar por partidos de esquerda que mostren unha alternativa válida, é un compromiso cun mesmo, vale a pena levalo a cabo. A data de hoxe non existe unha alternativa que non implique os votos, e aínda non se creou ningunha outra alternativa dentro do político.

Que significa a socialdemocracia actualmente?

A data de hoxe, a socialdemocracia non é nada. Significa ser parte do centro, do centro político, que fundamentalmente non mostra diferenzas esenciais cos conservadores. Significa apoiar as guerras de EEUU e a ocupación de terceiros países e as medidas de austeridade en casa. En consecuencia, cal é a diferenza? De feito, o que vemos é que se degrada e se corrompe o sistema de democracia parlamentaria. E este resultado é unha responsabilidade das políticas de centro, o centro-dereita e o centro-esquerda. Creouse algo novo que é o extremismo de centro. O centro actúa como un bloque cando nota que algo lle pode debilitar.

Ante un problema xeneralizado de degradación das condicións laborais, como se pode reaccionar? Emigrar a outro país, ou quedar no lugar e loitar por cambiar a situación?

É difícil atopar unha solución agora, porque cada un dos países da UE está en crise e os inmigrantes están moi golpeados pola crise. En cada un dos países, a dereita e a extrema-dereita sitúanse contra os inmigrantes, é unha situación clásica nunha crise económica grave. Os traballadores autóctonos de países como Grecia, España, Italia ou Francia deberían unirse cos inmigrantes pobres, porque a situación destes inmigrantes non dista da situación que eles mesmos viven ou vivirán. Todo o contrario, os traballadores nativos destes países serán as seguintes vítimas desta precariedade laboral. Por desgraza, non existe unha resposta potente dos traballadores contra o capitalismo que vivimos hoxe.

Cal sería o papel dos sindicatos nun mundo globalizado? Defender ao traballador local ou optar por unha consolidación dos sindicatos a nivel internacional?

Evidentemente que estaría moi ben conseguir un movemento dos traballadores a nivel internacional, mais debemos empezar polo nivel nacional. A insuficiente maneira en que os sindicatos integraron entre as súas filas aos traballadores inmigrantes é unha mostra da debilidade da súa loita. Á fin e ao cabo, os traballadores inmigrantes van a outros países para facer os traballos que os autóctonos non queren facer, e iso queda patente. Grecia, por exemplo, un país pobre, fomenta a chegada de inmigrantes. En Grecia traballan uns centos de milleiros de traballadores paquistanís, padecendo agresións por parte  dos movementos de extrema dereita e sufrindo ataques ás súas vivendas, nos portos de Atenas. E por que van a Grecia? Para conseguir un traballo, porque existe un tipo de traballo para eles, é dicir as faenas que os traballadores gregos xa non queren realizar, como o facían antes.

Falando da discriminación, crees que a propaganda que existe a data de hoxe en Europa contra os musulmáns ten similitudes coa propaganda desenvolvida pola extrema dereita antes da Segunda Guerra Mundial?

É moi similar, moi parecida a aquel tipo de propaganda. Aínda máis, os mesmos argumentos que se usaron contra os xudeus escóitanse a data de hoxe, en toda Europa, contra os musulmáns: o seu día de oración é diferente, teñen unha alimentación que non nos gusta, visten de maneira estraña, falan unha lingua diferente, en fin, non son parte do noso mundo. Nos tempos pasados aos xudeus considerábaselles "bolxeviques" e agora aos musulmáns táchaselles de "terroristas".


21/05/2012

Alemaña perante o espello da emigración

Àngel Ferrero. Artigo tirado de SinPermiso (aquí) e traducido por Revolta IrmandiñaÀngel Ferrero é membro do Comité de Redacción de SinPermiso.



«Veñen quitarnos o traballo», «hai demasiados», «non se integran»... Todo isto ouvinllo dicir aos alemáns dos turcos, rusos e españois, aos españois dos latinoamericanos, romaneses e árabes e aos árabes dos africanos. A inmigración é as máis das veces unha matrioshka onde sempre hai alguén por baixo de ti. Ou por encima. Que llo pregunten aos alemáns, que desde hai unhas semanas levan as mans á cabeza coas declaracións de Natalie Rickli, un destacada político do Partido Popular Suízo (SVP). Nunha cadea de televisión local, Rickli queixouse de que en Suíza hai demasiados alemáns. Xa antes descolgouse no diario Sonntags-Blick afirmando que «cando nas montañas suízas hai soamente Serviertöchter (camareiras) alemás e médicos alemáns que só atenden a pacientes alemáns, entón deixo de sentirme coma se estivese no meu propio país.» Segundo Rickli, os inmigrantes alemáns supoñen unha carga para o estado e a sociedade suíza en todos os seus aspectos -desde o mercado laboral, as escolas e as universidades até o transporte público e os alugueres- e non só desprazan dos seus postos de traballo aos traballadores autóctonos, senón tamén aos en Suíza estimados traballadores croatas ou serbios. «Quen, como alemán, queira saber que sente un traballador emigrante ao non ser ben recibido no estranxeiro, debería mudarse a Suíza», escribe o respectábel semanario Spiegel, e engade: «para ser máis exactos, á zona xermanofalante do país. Alí un nada desdeñábel 36% da poboación opina que na súa fermosa república alpina viven demasiados alemáns.» [1]

Estes traballadores alemáns que fan as súas malas para marcharse a Suíza fano buscando, como todos, mellores salarios e condicións laborais. Son a razón inmediata, probabelmente por diante das tendencias demográficas do país, da cacarexada carencia de man de obra cualificada que atraeu nos últimos dous anos a miles de cidadáns españois, gregos e italianos a Alemaña. O empobrecimiento dos países do sur de Europa e Europa oriental, que tensa as relacións europeas entre centro e periferia, serviu en última instancia para crear un enorme exército industrial de reserva disposto a aceptar os postos de traballo que non queren desempeñar os alemáns e a facelo tanto por peores condicións laborais -salarios máis baixos a cambio de xornadas de traballo máis longas- como pola ausencia, na práctica, de toda protección sindical.[2] Peor aínda: se os alemáns ven forzados algún día a retornar de Austria ou de Suíza non só se atoparán con que as súas anteriores prazas de traballo foron ocupadas por outros, senón cun mercado laboral moito máis deteriorado. E que lección aprenderon os alemáns de todo isto? Pois absolutamente ningunha. Os alemáns do Leste non reciben máis que varazos dos seus compatriotas do Oeste -o último, o feche de varias fábricas produtoras de placas solares en Mecklemburgo-Pomerania Occidental, que devolveu á rexión a unha segunda desindustrialización- e unha vez máis fan as malas para atopar mellor sorte no Oeste, no que supón un fluxo migratorio interno silencioso, mais constante. Suficiente teñen co seu como para protestar polos demais. Se este é o trato entre alemáns, que lles cabe esperar aos estranxeiros? Este é o Modell Deutschland para Europa, versión 2012: a este retorno á extracción de plusvalía absoluta máis crúa, sostido por un exército industrial de reserva constantemente desprazándose por Europa -o que obstaculiza, por suposto, toda unidade dos traballadores-, co que Alemaña tenta manter custe o que custe a súa posición de nación exportadora fronte á crecente competencia dos países emerxentes, interponse con todo a complexidade do idioma e a falta do que os sociólogos alemáns dan en chamar "unha cultura de benvida", produto da irregular historia do país. En Alemaña un emigrante nunca sente como na casa. E quizais o obxectivo sexa precisamente ese: non por casualidade as autoridades de Alemaña occidental acuñaron na década do cincuenta o termo "Gastarbeiter", que significa, literalmente, "traballador invitado". E que convidado queda a vivir para sempre na casa do seu anfitrión? 

Se non se liquidan estes problemas que se arrastran durante lustros, o resultado ameaza con ser explosivo. Por unha banda, a crecente alienación dos países do sur de Europa do proxecto europeo, capitalizado polas elites franco-alemás para o seu propio beneficio. Pola outra, unha crecente división social en Alemaña que vén acompañada doutra segregación, máis perigosa aínda se cabe, de tipo racial, tanto no ámbito educativo e laboral como no urbano, coa aparición de barrios onde a poboación de inmigrantes pobres é xa maioritaria. E xa sabemos polo ocorrido no Reino Unido no oitenta e nas banlieues francesas no noventa onde conducen estas polvoreiras sociais. A cousa sería xa grave se non fose porque algúns partidos políticos comezan a facer cóxegas perigosamente a glándula do nacionalismo alemán buscando votos nun sistema de partidos cada vez máis fraccionado. E non só, como cabería esperar, a extrema dereita e os conservadores.[3] Entrevistado o diario Bild, o socialdemócrata Peer Steinbrück declarouse en contra da expulsión do partido de Thilo Sarrazin polas súas teses racistas baseadas en teorías seudocientíficas («á parte do último capítulo, apenas pode dicirse nada en contra da maior parte da análise de Sarrazin») e engadiu que quen emigre a Alemaña «debe achegar coa súa calificación unha plusvalía e non ser unha carga [para o Estado]» [4] Se dunha virtude non carece Steinbrück esa é a claridade de expresión. Peer Steinbrück, que foi ministro de Finanzas no anterior goberno de Merkel («o multiculturalismo morreu», lembren), será probablemente o próximo candidato á cancillería do SPD, un partido que, se non recordo mal, nunha ocasión estivo por algo así como o socialismo e mesmo moito antes polo socialismo sen máis.

Alemaña, terra de emigrantes?

Por iso seica conveña recuperar un artigo de Michael Bodemann aparecido o outono pasado no Blätter für deutsche und internationale Politik sobre os emigrantes alemáns en Estados Unidos que mereceu maior atención e que é -ou debería de ser- unha chamada á humildade. [5]

Como o seu autor lembra ao comezo do artigo, no século XVIII e XIX os alemáns chegaron a constituír nalgunhas zonas dos EUA a comunidade de inmigrantes máis numerosa, o que xerou o rexeitamento frontal dos colonos anglosaxóns. Así, a mediados da década do cincuenta do século XVIII, a administración e a igrexa de Pensilvania esixiu -mais non conseguiu- o establecemento de matrimonios forzosos entre alemáns e anglosaxóns así como a prohibición de falar o alemán en público. Os mismísimos Founding Fathers Thomas Jefferson e James Madison temían que a relixión e o réxime absolutista do que procedían os alemáns acabase supondo unha ameaza á neonata república estadounidense. Benjamin Franklin foi máis lonxe aínda e afirmou nunha carta que «quen chegan até aquí son polo xeral do tipo máis ignaro e estúpido da súa propia nación... e dado que poucos dos ingleses entenden o idioma alemán, non poden dirixírselles desde a prensa ou o púlpito, facendo practicamente imposíbel eliminar os prexuízos que puidesen ocuparlles... Non estando afeitos á liberdade, non saben facer un uso modesto da mesma... Aínda recordo cando modestamente declinaron toda intromisión nas nosas eleccións, mais agora chegan en masa, e traen a todos consigo, excepto nun ou dous condados... En poucas palabras, o fluxo da súa importación debería dirixirse desta a outras colonias, como vostede xuizosamente propón, pois pola contra pronto nos superarán en número de tal modo que todas as vantaxes que temos non seremos na miña opinión capaces de preservalas, sexa a nosa linguaxe, e mesmo o noso goberno.» E noutro lugar, e en tons abertamente racistas, preguntábase: «Por que Pensilvania, fundada polos ingleses, debería converterse nunha colonia de estranxeiros, que deica pouco serán tan numerosos que nos germanizarán no canto de anglificarlos nós a eles, e que nunca adoptarán o noso idioma e costumes como non poden adquirir a nosa complexión física. O que me leva ao seguinte comentario: que o número de xente puramente branca no mundo é proporcionalmente moi pequeno. Toda África é negra ou morena (tawny). Asia principalmente morena. América (excluíndo aos recentemente chegados) tamén o é por completo. E en Europa, os españois, italianos, franceses, rusos e suecos son polo xeral o que denominados de complexión atezada (swarthy); como tamén o son os alemáns, coa excepción dos sajones, quen, xunto cos ingleses, constitúen o corpo principal de xente branca sobre a face da Terra.» [6] Tal era o medo á presenza dos alemáns que, até o día de hoxe, EUA carece de lingua oficial, pois temíase que calquera votación conducise á vitoria do alemán -un idioma que, polo demais, unía aos inmigrantes alemáns, austriacos e suízos independentemente da súa confesión relixiosa (protestante, católica ou xudía)- por encima do inglés.

O primeiro fluxo migratorio, do século XVII até 1815, compúxose de menonitas, huteritas e outras confesións anabaptistas perseguidas en Europa, e deixou paso segundo Bodemann a un segundo período que se estende desde o Congreso de Viena de 1815 até o comezo da Primeira Guerra Mundial. Durante este período foron os exiliados da fracasada Revolución de marzo de 1848 quen deixaron unha maior pegada nos Estados Unidos. Os alemáns, escribe Bodemann, «concentrábanse en "Little Germanies", como ocorreu en Nova York, Milkwaukee, Baltimore, St. Louis e Filadelfia. En Chicago, entre 1850 e 1914, entre o 25 e o 30% da poboación era de orixe alemá.»

Durante todo este espazo de tempo os alemáns constituíron o que hoxe se coñece como unha "sociedade paralela": «Os inmigrantes, tamén na segunda xeración, seguían falando alemán, lendo periódicos alemáns, levando aos seus fillos a escolas alemás, atendendo misa en lingua alemá, celebrando festividades alemás, acudindo os fins de semana durante o verán aos Biergarten e no inverno consumían o seu tempo, nunha economía comunitaria, nos seus propios clubes de caza, sociedades obreiras ou coros e teatros en lingua alemá.» Os seus costumes seguiron sendo durante moito tempo -por estraño que nos pareza agora, cando os conservadores cren fundir a diversidade cultural europea nas supostas "raíces cristiás" (ou mesmo "xudeocristiás") de Europa- alleas á poboación estadounidense. Así, mentres para os puritanos era «o domingo un día de reflexión, de recollemento na parroquia e no fogar, para os alemáns, independentemente de se eran protestantes, católicos ou socialistas, era un día para pasar coa familia facendo pic-nique ou nos Biergärten, con cervexa e cancións.» Tanto rexeitamento xeraban os alemáns que «a contratación de alemáns foi percibida como un signo de deslealdade na nova nación de orientación anglosaxoa, e nalgúns lugares tentouse por medio da lexislación obstaculizar a apertura e o funcionamento das escolas alemás.» Os alemáns foron, xunto aos irlandeses, o grupo étnico máis discriminado en Estados Unidos. Unha noticia do Christian Examiner de 1851 comezaba coa seguinte advertencia apocalíptica: «dúas razas apareceron para desafiar o predominio dos ingleses [...] falamos por suposto dos irlandeses e dos alemáns.»

A poboación anglosaxona miraba con inquedanza e desconfianza aos recentemente chegados. Era a súa intención como súbditos do káiser fundar un imperium in imperio nos Estados Unidos? Ou traían consigo algo aínda peor? Michael Bodemann lembra que «ao redor de 1850 [os alemáns] constituían máis do 80% da forza de traballo, e aínda en 1900 dous terzos da mesma.» Do oito acusados nos sucesos de Haymarket en Chicago -a orixe da celebración do Primeiro de Maio-, por exemplo, seis eran de orixe alemá e os carteis chamando á manifestación imprimíronse en inglés e en alemán. O Chicago Tribune publicou a seguinte e reveladora crónica: «os máis entusiastas de entre o público eran os alemáns. Entre as súas filas había igualmente un enorme número de polacos e bohemios (Böhmisch), xunto a persoas de aspecto estadounidense que se achegaron a observar que ocorría.» Ao que Bodemann comenta con acerto: «alemáns como participantes entusiastas, americanos como espectadores pasivos. Aquí vemos como se alza o dedo acusador que di: "como inmigrantes non anglosaxóns estades obrigados a atervos ás normas estadounidenses existentes, e o voso socialismo non pertence a elas".»
Os xermano-americanos foron obrigados a asimilarse por completo e renunciar á súa identidade na Primeira Guerra Mundial, aproveitando as hostilidades co Segundo Imperio que desataron unha onda de xermanofobia por todo o país. Do sentimento como tales -a diferenza de afroamericanos, asiático-americanos, etc.- non queda nin rastro. Pero por outra banda, a súa tradición cultural enriqueceu a cultura estadounidense (cuxo melting pot é, sen dúbida, o produto máis valioso): as icónicas hamburguesa e hot dog -ou, se o prefiren, frankfurts ou wieners- son, como non é difícil deducir, de orixe alemá, como o son o abeto do Nadal ou Santa Claus. Os alemáns trouxeron consigo a cervexa, unha bebida que favorece o consumo social fronte ao individualista whisky. «Hoxe -conclúe Bodemann- expómonos a cuestión de se o pasado xermano-americano na época da Primeira Guerra Mundial é un espello do noso propio futuro en Alemaña ou se a sociedade alemá -como ocorreu, polo menos parcialmente, nos Estados Unidos antes da Primeira Guerra Mundial- está disposta a seguir aceptando o multiculturalismo.»

Alemaña mírase ante o espello da emigración e non se recoñece.

Notas:

[1] "Schweiz: SVP-Politikerin Rickli sieht Masse der Deutsche als Problem", Spiegel, 29 de abril de 2012.

[2] Jörn Boewe, "El nuevo ejército industrial de reserva", Sin Permiso, 24 de xullo de 2011. 

[3] A comezos do mes de marzo a ministra Ursula von der Leyen anunciaba a exclusión das axudas Hartz-IV para os cidadáns de 14 países de Europa, Noruega, Islandia e Turquía que non traballasen en Alemaña. Véxase: "Arbeitsmarkt: Regierung will Hartz-IV für EU-Zuwanderer stoppen", Spiegel, 9 de marzo de 2012; Rafael Poch, "Alemania se vacuna contra la emigración oportunista del sur de Europa", La Vanguardia, 10 de marzo de 2012. 

[4] "Steinbrück gegen Auschluss von Sarrazin aus der SPD", Bild, 10 de febreiro de 2011.

[5] Michael Bodemann, "Der deutsch-amerikanische Bindestrich. Eine Lektion in Multikulti aus der Geschichte der USA", Blätter für deutsche und internationale Politik, n. 7/2011, 111-120.

[6] "Ben Franklin on 'Stupid, Swarthy Germans'", Dialog International, 5 de febreiro de 2008.

03/05/2012

A disco rusa

Ángel Ferrero. Artigo tirado de SinPermiso (aquí) e tirado por nós.

George Grosz

«Os camiños dos estranxeiros que aterran en Alemaña son inescrutábeis», escribe Wladimir Kaminer en paráfrase bíblica. «Coñezo a compatriotas -continúa- que chegaron a Alemaña como buscados informáticos, outros foron recoñecidos como fuxitivos políticos. Moitos chegaron como rusos alemáns (Russlanddeutsche), como parte da consolidación da política de sangue e chan (Blut und Boden), e uns cuantos chegaron ufanándose de que investirían un millón na industria alemá e recibirían como pago o pasaporte.» Jawohl, en Alemaña viven máis de dous millóns de ex-cidadáns da Unión Soviética, moitos dos cales son fillos daquela emigración que teñen xa o alemán -que falan sen rastro do marcado acento eslavo- como primeiro idioma. Son a segunda xeración da última das sucesivas ondas migratorias procedentes de Rusia: «a primeira onda foi a garda branca durante a revolución e a guerra civil; a segunda onda emigrou entre 1941 e 1945; a terceira compúñase de disidentes expatriados a partir do sesenta; e a cuarta comezou cos xudeus que chegaron no setenta a través de Viena. Os xudeus rusos da quinta onda [fixérono] a comezos do noventa», escribe Wladimir Kaminer, el mesmo ruso xudeu. Con esta quinta onda chegaron, como xa se dixo, moitos dos descendentes dos alemáns do Volga -campesiños e artesáns, pero tamén enxeñeiros e traballadores cualificados que se asentaron no país veciño a mediados do século XVIII a proposta de Catarina a Grande (nada na cidade alemá de Stettin, hoxe Szczecin, Polonia)-, duramente represaliados por Stalin durante e inmediatamente despois da Segunda Guerra Mundial. Calcúlase que nunha década, entre os anos 1990 e 2000, inmigraron máis de dous millóns deles, tomando a nacionalidade alemá que lles ofertaba a República Federal como "repatriados tardíos" (Spätaussiedler). Unha decisión non exenta de polémica, pois a maioría deles non fala alemán, coñece superficialmente a cultura e historia alemás e en ocasións o seu parentesco con Alemaña remóntase dúas xeracións, sendo os pais rusos ou mesmo kazakos.

Hoxe existen comunidades rusas en practicamente todos os barrios de Berlín, mais especialmente en Marzahn-Hellersdorf -onde A Esquerda reparte pasquíns en campaña electoral tanto en alemán como en ruso- e Charlottenburg, distrito que, hoxe como onte, volve ser coñecido popularmente co nome de "Charlottengrad". Todos estes datos volveron a estar máis ou menos presentes nos medios de comunicación debido ás recentes protestas en Rusia e, agora, pola adaptación cinematográfica de Russendisko -hai tradución española: A disco rusa (DeBolsillo, 2003)-, que se estreou o pasado 29 de marzo.

Rusia e Alemaña: unha historia de amor-odio

As relacións xermano-rusas darían, como se di, como para encher un libro e, de feito non só existen varios, senón que hai todo un museo dedicado á cuestión: o Deutsch-Russisches Museum en Berlin-Karlshorst, aloxado nun antigo casino de cadetes da Wehrmacht onde en 1945 asinouse a capitulación da Alemaña nazi e que até 1994 foi coñecido oficialmente como "Museo da capitulación incondicional da Alemaña fascista na Grande guerra patriótica".

A particular posición xeopolítica da nación alemá, no corazón de Europa como bisagra entre Occidente e Rusia, alimentou desde fai máis de douscentos anos a dualidade cara ao veciño na súa conciencia nacional. Por unha banda, como un inmenso país do que procedían invariabelmente as hordas invasoras -bárbaros, cosacos ou bolxeviques dispostos a esmagar a revolución ou provocala, dependendo do momento histórico-, pola outra, como lugar de investimento e fonte de inxentes recursos naturais cos que manter a dinámica industria alemá en funcionamento. O II Imperio soubo axitar intelixentemente a pantasma da invasión rusa -nas forzas de progreso seguía vivo o recordo da Santa Alianza- e atraerse aos socialdemócratas para obter o seu plácet á Primeira Guerra Mundial. Nos anos trinta esta dualidade polarizaríase aínda máis: por unha banda, a Ostorientierung, que impregnaría non só á esquerda comunista, senón tamén a unha parte da dereita e aínda a extrema dereita que cría nunha alianza con Rusia como forma de protección contra Occidente. Pola outra, o temor dos conservadores á extensión, por contaxio ou invasión, do comunismo, do que a URSS representaba a súa "fortaleza". Nada disto experimentou moitos cambios tras a Segunda Guerra Mundial coa división de Alemaña: para a RDA a URSS era oficialmente o "irmán maior" que ofrecía protección e do que había que aprender -"Aprender da Unión Soviética significa aprender a vencer" (Von der Sowjetunion lernen, heißt siegen lernen) dicíase-, mentres que para a RFA era o bastión da ideoloxía inimiga a derrotar -incluíndo a socialdemocracia, á que o CDU atacou co infame cartel "Todos os camiños do marxismo conducen a Moscova" (Alle Wege deas Marxismus führen nach Moskau)-. A propaganda oficial distaba con frecuencia de ser efectiva, mais contribuíu en calquera caso a enraizar moitos dos tópicos, por inocentes, positivos ou negativos que fosen.

A mesma dualidade manteñen os rusos con respecto aos alemáns: a pesar da desconfianza cara á proverbial laboriosidade, superioridade técnica e frialdade emocional do veciño -que, convenientemente esaxeradas, servían para atizar e galvanizar ao nacionalismo ruso-, a admiración cara aos alemáns, non sempre polos motivos adecuados, foi constante. Sabido é que o primeiro ministro ruso zarista Piotr Stolypin tentou implementar o Sonderweg do II Imperio alemán -unha fórmula pola cal o país se modernizou en moi poucos anos sen alterar as súas autoritarias estruturas sociais-, atraendo a numerosos investidores alemáns. Incluso os propios bolxeviques estaban fascinados pola eficacia do estado e industria alemáns -«mentres en Alemaña non se aviste o "nacemento" da súa revolución, é a nosa tarefa aprender do capitalismo de estado dos alemáns, adoptalo con todas as súas forzas, non deixarnos asustar polos seus métodos ditatoriais», escribiu célebremente Lenin (as súas palabras materializáronse en certo xeito coa colaboración entre ambos os países tras o Tratado de Rapallo en 1922, que beneficiou a unha URSS necesitada de modernización e a unha Alemaña necesitada de socios comerciais tras o illamento tras a Primeira Guerra Mundial)-, e non era seica o socialismo científico un produto do proletariado alemán, o teórico do proletariado segundo Marx e Engels no movemento obreiro internacional? 

Esa ambivalencia, tanto nuns como noutros, mantense até o día de hoxe. Kaminer comenta con punzante sarcasmo o chamado "escándalo de visados" de 2005 en Meine russischen Nachbarn  (Goldmann, 2009): «O medo procedía de que Alemaña é un país pobre, permanentemente ameazado e explotado polos receptores das axudas sociais, os parados, os islamitas, os predicadores do odio, os traballadores ilegais e agora, ademais, por millóns de criminais e prostitutas ucraínos, que chegaban a Alemaña cun inmaculado visado para cometer aquí os seus fechorías. "Cada ano concédense até 2.000 visados ao día en Kíev", informaban os diarios. "Se iso fose certo, os invasores saquearían xa o país por completo", pensaba. Pero a maioría tragábase este tipo de noticias.» E ao contrario: nun inquérito que se realizou na Federación Rusa no 2001, o 64% dos participantes tiña unha imaxe positiva do país. Agora ben, cando se lles pediu que sinalasen as características que máis definen aos alemáns, un 13% respondeu «a meticulosidade e a disciplina», un 11% «a puntualidade e a pedantería», un 7% subscribiu a afirmación «os alemáns son traballadores» e un 2% a de que «os alemáns son limpos e aforradores». Un 4% sinalou mesmo que o que define aos alemáns é «a súa crueldade» e subscribiu a frase de que «os alemáns son xente sádica.»

A disco rusa

Cando, procedentes de Moscova, Wladimir Kaminer e os seus amigos chegaron a Alemaña poucas semanas antes á disolución da RDA animados polo pai do autor -«sodes novos e non tedes nada que perder: Alemaña é o voso»-, o goberno alemán proporcionaba aos inmigrantes rusos unha renda de 180 marcos alemáns (DM), coa que Kaminer e os seus compañeiros de desventuras tentaron facer negocio viaxando até un Aldi en Wedding onde compraban latas de cervexa por 43 pfenning para logo revenderlas por 1'20 DM na estación de Lichtenberg xunto a unha parella de saxóns que tentaba gañarse a vida na Alemaña reunificada vendendo cogumelos da súa rexión natal. «Entón -escribe Kaminer- o capitalismo aínda non alcanzara este distrito, nós eramos practicamente os seus precursores.» Como todas as historias de emigrantes, esta, como ven, tamén ten algo de sobrevivencia e picaresca. Kaminer aprendeu alemán de maneira autodidacta cun libro de texto publicado na Unión Soviética, Deutsches Deutsch zum Selberlernen, cuxos cómicos exemplos remitían invariabelmente aos komsomol, os koljoses e a historia do partido e que empezaba co seguinte prólogo: «En alemán, "a nova rapariga" (dás junge Mädchen) é neutro, mentres que a pataca (die Kartoffel), en cambio, non o é. "Os peitos" (Der Busen) é masculino e todos os substantivos comezan con maiúsculas.»

Os mozos abríronse paso aqueles primeiros anos como puideron, pasaron de vivir nun asilo con vietnamitas -que descubriron rapidamente os inxentes beneficios que proporcionaba o contrabando de tabaco-, albanos e xitanos de Europa oriental en Marzahn a ocupar unha vivenda abandonada en Schönhauser Allee, no cambiante Prenzlauer Berg de comezos do noventa, onde Kaminer finalmente estabeleceu a súa residencia xunto á súa muller Olga. Ademais de como escritor, Wladimir Kaminer é famoso por organizar a disco rusa do título -cuxo nacemento reproduce a película-, un encontro musical que ten lugar dúas veces ao mes no Kaffe Burger da Torstraße, e no que colaboran, picando música rusa contemporánea, a súa muller e o ucraíno Yuriy Gurzhy, membro da banda de música Rot Front. A primeira velada tivo lugar con todo no clube Zapata xunto á celebérrima casa Tacheles -hoxe baixo risco de demolición- un 6 de novembro. O cartel anunciaba «unha noite tola de baile salvaxe para conmemorar o aniversario da grande Revolución de Outubro» e a súa popularidade iría en aumento desde entón. A idea de fondo era mellorar a imaxe dun termo cargado de connotacións negativas, pois entón coñecíase como "Russendisco" (sen "k") as discotecas e festas organizadas polos inmigrantes dos países da extinta Unión Soviética -especialmente rusos alemáns- onde se picaba música contemporánea rusa e que, percibidas como unha sorte de sociedade paralela, coparon os medios de comunicación a mediados do noventa polos altercados, os excesos de alcol, o consumo de drogas e a exclusión de asistentes que non tivesen unha orixe rusa.

A pesar de que a repartición enteiramente alemán resta algo de credibilidade á película -que ás veces bordea algúns dos lugares comúns do "carácter ruso", popularizados en Alemaña polas comunidades de emigrantes do vinte e trinta que o explotaron en espectáculos de folclore como forma de subsistencia-, merece a pena prestar ouvidos, como non, á banda sonora de Russendisko, onde se mesturan o klezmer, o ska e as versións de clásicos do folclore ucraíno e inclúe "B-Style" de Rotfront, "Super Good" de Leningrad, "You took the piss out of me" de VV -unha versión do a popular canción ucraína Ti x mene pidmanula (Ти ж мене підманула)-, "Marusya" de Svoboda -unha actualización así mesmo do clásico ucraíno "Marusya" (Маруся)-, "Moldavaneska" de Dr. Baixan, "Son (Der Traum)" de Amsterdam Klezmer Band ou "Odessa" de Golem.

Porén en Russendisko -e agora refírome ao libro, non a película- Kaminer tamén recolle, con ese sentido do humor característicamente eslavo en que se mesturan a ironía e algo de melancólico, as historias doutros rusos nesta traxicomedia chamada emigración. Historias como a de Wladimir, que montou un restaurante que foi inmediatamente castigado co nome de "local da mafia rusa" (die Russenmafiapuff); o arqueólogo ruso que terminou traballando en Berlín ante unha máquina de coser recompondo vestidos; o asistente de teatro francés que se namorou dunha actriz rusa cuxa historia terminou mal e terminou afundíndose nunha depresión severa. E quen sabe que outras historias quedaron no tinteiro. Historias de inmigrantes nunca faltan. Menos aínda nesta cidade, onde seica todo se reduza, como di Kaminer, a verse «non como parte da comunidade turca, rusa ou etíope, senón como parte da grande comunidade de estranxeiros de Alemaña.»

12/04/2012

Portugal, um ano nas mãos da troika

António Barbosa Filho. Tirado de Outras Palavras (aqui). Antonio Barbosa Filho é jornalista e escritor, autor de A Bolívia de Evo Morales e A Imprensa x Lula – golpe ou sangramento? (All Print Editora). Em viagem pela Europa, acompanha as consequências da crise financeira pós-2008 e da onda corte de direitos sociais (‘políticas de austeridade’) iniciada em 2010. 



LISBOA: Bem longe de qualquer comemoração, Portugal completou em 11 de abril o primeiro ano do acordo de “ajuda” que recebeu da troika [1] (Comissão Européia, Banco Central Europeu e FMI), no valor de 78 bilhões de euros. Pouco antes daquela data, o então priimeiro-ministro socialista José Sócrates anunciara que o governo só tinha recursos para pagar o funcionalismo público até maio, mas ainda resistia a um pedido formal de ajuda externa.

“Entre nós e o FMI, há dez milhões de portugueses”, ele declarou, para dias depois desmentir-se: “É preciso dar este passo. Não tomar esta decisão acarretaria riscos que o país não deve correr”. Quando o governo viu rejeitado pelo Parlamento o seu Programa de Estabilidade e Crescimento, contendo as linhas de combate à dívida pública e ao endividamento privado, aqui englobados os bancos, as famílias e as empresas, perdeu as condições de administrar a crise.

As reações no Parlamento fizeram com que Sócrates entregasse seu cargo ao presidente Cavaco e Silva. As eleições, em 5 de junho do ano passado, trouxeram de volta a direita ao poder. Sob um gabinete liderado desde então por Pedro Passos Coelho, numa coligação CDS-PP, a troika já procedeu a três avaliações sobre o desempenho do programa acordado, e tem aprovado o seu cumprimento, sempre exigindo um ou outro ajuste: o salário-desemprego, por exemplo, já foi reduzido de 38 para 26 meses, mas a troika pretende que o limite seja de 18 meses.

Ao analisar o processo econômico deste ano de ajustes, as opiniões variam bastante, havendo apenas um ponto comum: os portugueses estão se sacrificando ao máximo para obedecer as imposições das autoridades financeiras europeias e do FMI. Como afirmou Nuno Magalhães, o líder parlamentar do bloco conservador CDS-PP, há um “cumprimento escrupuloso do programa por parte do governo português (…) Isso não é mérito só, nem sequer principalmente, do governo, mas sobretudo mérito e mobilização dos portugueses”

O que o deputado governista chama de “mobilização” do povo traduz-se em alguns números. Taxa de desemprego (oficial) de 15%, um recorde histórico; 1050 empresas falidas no primeiro bimestre deste ano, o que dá a média de 17,5 empresas por dia – há um ano eram 11,8; corte de 200 milhões de euros nos contratos entre governo e hospitais, obrigando os usuários a pagarem até 100% mais, em consultas e urgências em hospitais e centros de saúde; e até queda na taxa de natalidade.

Crise nas ruas: Os economistas e políticos debatem os grandes números e sempre apresentam previsões otimistas que, aos poucos, o tempo afasta. Os cortes dos subsídios de Natal (uma espécie de 13º salário) e de férias dos servidores públicos surgiram como uma emergência para 2012, mas já se admite que irão até 2015.

Por essas e outras prorrogações nas medidas de austeridade, o ministro das Finanças, Vitor Gaspar, foi chamado de “mentiroso” na Assembleia da República. Como disse o deputado comunista Honório Novo, ao interpelá-lo: “O senhor veio desmentir e contrariar o primeiro-ministro? Ou veio dizer que foi enganado pelo primeiro-ministro? Ou vem-nos recordar que 2015 é ano de eleições?” Muitos portugueses acham que o governo está forçando as medidas recessivas além do necessário para poder afrouxá-las quando as eleições estiverem próximas e colher os votos da população aliviada.

O que se ouve nas ruas é um misto de lamento e revolta. O trabalhador comum tem uma renda de 600 euros por mês, em média, insuficiente para a manutenção sequer de um casal sem filhos. No ano passado, o PIB caiu 3,0%, e o próprio governo prevê queda um pouco maior neste ano, provavelmente 3,6%. A população vê tais prognósticos como um sinal de que nada vai melhorar a curto prazo.

Daí o êxodo, que em 2011 levou 150 mil portugueses a saírem do país (número aproximado), boa parte para o Brasil e Angola. Gastos básicos como a energia elétrica estão sendo reduzidos pelas famílias: queda de 7,3% em março. O tráfego de veículos caiu em dezembro entre 18 e 30% nas principais vias interregionais – culpa direta dos frequentes aumentos de preço da gasolina, hoje na média de € 1,78 o litro, outro recorde.

A venda de automóveis despencou pela metade em março, e a de telefones celulares caiu 17% no último trimestre de 2011. Mais grave: o consumo de alimentos reduziu-se em 2% no primeiro trimestre, especialmente o de carnes e peixes. A ida a restaurantes tornou-se um item supérfluo no orçamento doméstico. Nos acolhedores cafés da Alfama ou do Chiado, ouve-se vários idiomas, mas o português é só dos turistas brasileiros, em número crescente. Maior número de portugueses está levando comida de casa para o trabalho.

Nas ruas de Lisboa, encontra-se um “homem-estátua” a cada 100 metros, um músico tocando saxofone ou guitarra a cada 50 metros, todos em troca das moedas dos turistas estrangeiros. Vê-se gente dormindo nas ruas, um quadro que não era comum na Lisboa dos anos 90 ou até quatro anos atrás. Há quem diga por aqui que a culpa é dos governos que gastaram mais do que deviam gastar, e agora chegou a hora de pagar a conta. Isso viria desde a entrada de Portugal na zona do euro, mas ninguém acredita que seria melhor deixá-la, ao contrário. Fala-se que houve muita corrupção com os fundos europeus recebidos durante o processo de integração, e que deixou-se enfraquecer as atividades econômicas próprias, como a agricultura, a pesca e a indústria. O cidadão comum não vê por onde deva começar uma recuperação.

O sentimento popular dominante, pela menos na capital, é aquele sintetizado pelo deputado do PCP, Pedro Filipe Soares, nesta semana de infausto aniversário: “Todos os maus presságios que se anunciavam, vemos que se tornaram realidade, porque há aqui um fanatismo pela austeridade que está a destruir a economia do país e a criar um desemprego nunca visto em Portugal”.

[1] Troika – o apelido que os europeus deram ao trio de organizações multilaterais citadas, é também uma óbvia alusão aos governos autoritários e burocráticos que, formados por três dirigentes principais, dirigiram a União Soviética, após 1956.

26/03/2012

A máquina de combate humana

Ángel Ferrero. Artigo tirado de SinPermiso (aquí).


Foi hai unhas semanas. O fume do tabaco calaba a roupa, as mesas, as cadeiras, as paredes do bar de Neukölln, o vello barrio proletario de Berlín, hoxe lugar de residencia de moitos dos inmigrantes turcos e libaneses da cidade, cada vez máis empuxados ao sur, ao norte e ao oeste da cidade a medida que a xentrificación vai gañándolles terreo. Hoxe retransmiten o combate de Wladimir Klitschko contra Jean-Marc Mormeck e mellor cerco que este non había. Sorpréndanse: en Alemaña o boxeo segue sendo un deporte popular. E poida que o nome de Klitschko teña algo que ver. Ou quizá non: historicamente o boxeo foi un deporte moi estimado polos traballadores antes de que a corrupción, a dopaxe e a falta de respecto polas normas rebaixáseno á categoría de espectáculo violento para o lumpenproletariado con televisión por cable, que é o que lle dá a súa mala fama actual. Non sempre foi así e mesmo na primeira metade do século XX movementos de vangarda como o dadaísmo e o futurismo interesáronse polo boxeo, atraídos pola plasticidad do cru enfrontamento físico -que deixa pouca marxe ás veleidades intelectuais- e o seu carácter indiscutibelmente popular. Arthur Cravan, Francis Picabia ou Serguéi Eisenstein interesáronse por este deporte e Bertolt Brecht planeou escribir en 1925 unha biografía do boxeador Paul Samson-Körner -que tamén foi retratado por Jakob Steinhardt-, que había de titularse A máquina de combate humana (Der menschlische Kampfmaschine) e que nunca chegou a terminar, ademais dun relato curto titulado O uppercut (Der Kinnhaken). Suhrkamp publicou en 1995 estas notas co título Der Kinnhaken und andere Box- und Sportgeschichten. Estas cousas aprendinas xustamente preparando unha tesina sobre Brecht que non interesou absolutamente a ninguén -"demasiado histórica", "demasiado política"- e que moi probabelmente entregarei á crítica roedora dos ratos. Se é que dentro de tres anos seguen as universidades españolas en pé.

Wladimir Klitschko é desde logo un tipo interesante. A súa historia recóllea un documental recente, titulado, sinxelamente, Klitschko (Sebastian Dehnhardt, 2011). Nacido en 1976 en Semipalatinsk, entón República soviética de Kazajistán, onde estaba destinado o seu pai -un militar das forzas aéreas do Exército Vermello que máis tarde colaboraría nas tarefas de limpeza de Chernóbil-, Wladimir Klitschko fala con fluidez catro idiomas (ucraíno, ruso, alemán e inglés), é un afeccionado declarado do xadrez e desde o 2001 posúe o título de doutor pola Universidade de Kíev. Moitos boxeadores pregúntanse de feito por que os irmáns Klitschko -pois o seu irmán, Vitali, tamén é boxeador- se enfundaron as luvas podendo dedicarse a calquera outra cousa. Tras a desintegración da Unión Soviética, cando moitos deportistas de elite e membros das forzas de seguridade pasáronse simplemente á mafia, os Klitschko emigraron a Alemaña. En Hamburgo enfrontáronse a todos os obstáculos que se interpoñen na vida de calquera inmigrante e reconduciron a súa carreira deportiva -desde entón Wladimir utiliza a transliteración alemá do seu nome-, unha das máis exitosas de toda a historia desta disciplina: na categoría dos pesos pesados, Wladimir Klitschko subiuse 60 veces ao cuadrilátero e gañado unhas 56, 49 veces por KO. Klitschko prometeu esta noite tombar a Mormeck e conseguir o quincuaxésimo nocaut da súa carreira. A pesar dos seus indiscutíbeis logros, o estilo do ucraíno -segundo din, un dos últimos representantes do boxeo clásico- non gusta aos estadounidenses, para os cales é demasiado "técnico" e "lento" (sloppy). Klitschko ten afouteza, non se deixa dominar por accesos de cólera nin se ensaña co seu adversario, a maior parte do tempo mantén a distancia co adversario cos brazos e o seu forte é un jab fóra do común. Nada espectacular, polo menos a ollos dos norteamericanos. Quizá sexa máis ben a envexa que xeran as súas conquistas románticas: as actrices Yvonne Catterfeld, Alena Gerber e Hayden Panettiere e a modelo checa Karolína Kurková.

Cincuenta mil acodes reuníronse hoxe no Düsseldorf Area para ver o combate. Todas as apostas van con Klitschko. Jean-Marc Mormeck, francés nado en Guadalupe, é máis baixo e menos pesado, aínda que tamén por iso máis áxil, o que podería complicarlle nun momento dado as cousas a Klitschko. Mormeck caracterízase por un estilo agresivo, que lle reportou éxitos no pasado: 36 vitorias (21 por KO) e só 4 derrotas. Mormeck, calzón negro, é o primeiro en entrar. Séguelle Wladimir Klitschko, albornoz e calzón vermello, soa "I can't stop" de The Red Hot Chili Peppers. Aquí termínanse as especulacións. Let's get ready to rumble. Soa a campá, primeiro asalto. Mormeck tenta achegarse todo o posíbel a Klitschko, golpearlle desde preto e desde abaixo, o lóxico para un boxeador do seu tamaño contra alguén como Klitschko, que o mantén baixo control, e aí está Klitschko, o emigrante ucraíno, pelexando contra Mormeck, o emigrante antillano, e aquí estou eu, o emigrante catalán, rodeado de emigrantes turcos e árabes e outros que non logro identificar, que imaxe, dándolle voltas ao vaso de cervexa, dándolle voltas a todos os asuntos que me preocupan. Segundo José Ignacio Wert, os que andamos por aquí nin sequera somos emigrantes, senón latinoamericanos que nos nacionalizamos españois grazas a (todo cadra!) a Lei de Memoria Histórica. Un amigo meu asegúrame que, se as cousas seguen así, se volvemos farannos fusilar por alta traizón. Unha grande perda, desde logo, parece que non somos. Catro fogonazos mal contados nos medios de comunicación hai uns meses e xa ninguén se acorda de que existimos. Como emigrante non interesas a case ninguén: no país de acollida ninguén se interesa aínda por ti, no país que abandonaches ninguén se interesa xa por ti. Somos homes e mulleres sen patria, nación española a efectos meramente administrativos, deambulando por Europa como "brazos de aluguer": hoxe Alemaña, mañá Austria ou Suíza, pasadomañá quen sabe. Como ter amigos así, como ter parella así, como fundar unha familia así, unha noticia pasaxeira, un titular simpático que remite a unha película tardofranquista e desdramatiza toda a experiencia. Xa non somos o seu problema, agora somos o problema doutros.

Alzo a vista. Segundo round. Non parece que a velada vaia a durar moito. A maioría de combates de Klitschko terminan antes do sexto asalto. Agora Klitscho toma a iniciativa, Mormeck resiste bastante ben. Berlín. Todos a vistes nos suplementos de cultura e tendencias. Pero seguramente non ao bosníaco que recolle cabichas en Alexanderplatz, nin os receptores do Hartz IV na porta do meu supermercado bebendo cervexa e vodka barato ás dez da mañá. Tampouco á muller turca co nariz roto dunha puñada do seu marido que se asoma con medo á xanela nin ás putas de Europa do Leste que se apostan nos portais de Hackescher Markt todos os fins de semana. As súas historias tampouco interesan aos medios de comunicación. Son os perdedores da historia, nós recentemente acabamos de pornos na cola. Na amoralidade do capitalismo as alternativas como emigrante practicamente redúcense ao cinismo ou a melancolía. Vesche obrigado a facer cousas que pesarán sobre a túa conciencia, quizá durante anos, non dicir toda a verdade, dicir media verdade, mentir, á túa familia, aos teus amigos, ao teu caseiro, ás autoridades, a quen sexa, porque, como emigrante, non tes moitos puntos de apoio. A túa familia, os teus amigos, están fóra. Os españois non constitúen ningunha comunidade de emigrantes. Os turcos, os rusos, os xudeus, os gregos, os chilenos e os ingleses teñen aquí os seus propios clubs, cafés, asociacións culturais, emisoras de radio. Editan os seus propios xornais. Os españois miran toda esta actividade asociativa por suposto con soberano desprezo: eles viven das súas glorias históricas pasadas e as súas glorias futbolísticas presentes e non necesitan máis. E compran El País e El Mundo. O baleiro éncheno habitualmente con alcol, drogas, xogo, prostitución, de maneira máis ou menos aberta ou máis ou menos escondida, o que sexa para manter a mente ocupada até o seguinte día de traballo que nos dea algo de diñeiro para ir tirando. Peor quen quere ler estas historias? Deprimen. Non interesan aos xornalistas que terían que escribilas, nin aos medios de comunicación que terían que publicalas nin aos lectores que terían que lelas. Mellor mostrar a mozos profesionais liberais de avultado currículo -que logo, cando coñeces, descobres que dese cinco idiomas que din falar catro fano, como di o meu pai, a alpargatazos, e o propio con faltas gramaticales e de ortografía-, deses que sempre quedan ben na fotografía, que nunca tiveron problemas lumbares nin xaquecas, bohemios dixitais, chámanos agora, que triunfaron alén e agora -lino no País- valoran "a meritocracia" social e desexan importala canto antes. E nin sequera se consideran inmigrantes. Klitschko non perdoa e dunha puñada fai que Mormeck cambaléese e caia. Mormeck levántase, a pelexa continúa. Terceiro asalto.

A cousa anímase. Todo o que Mormeck pode facer é aguantar coma se fose un saco de ladrillos os golpes de Klitschko, por arriba, no costillar, un, outro, outro máis, como emigrante, a maior parte da semana pasas dun sentimento a outro totalmente oposto. Hai días que soñas (mellor devandito: anelas) unha vida nova, romper con todo, unha segunda oportunidade. En calquera caso, alégrasche de non estar alí. Eu mesmo recordo a todos os que me complicaron a vida na universidade, profesores, bolseiros e até persoal administrativo (onde estarán agora?), xente sen ningún mérito, oportunistas na súa maioría, imaxino a súa situación actual e penso: Schadenfreude. Mellor ti que eu. É así, todos aquí pensan nalgún momento algo semellante, por mezquiño que sexa. Mormeck enfádase, reacciona nerviosamente. Hai días que preferirías quedarte na casa de puro desalento. Os tópicos sobre o sur de Europa, o racismo cotián no Bürgeramt, no Finanzamt, as miradas fulminantes no metro, pola rúa, a idea de non poder axudar á xente que deixaches atrás, que segue alí pelexando por saír adiante. Klitschko aprovéitase dos baleiros que vai deixando Mormeck. Mormeck fraquea. The end of the affair, como di o locutor de viva voz, está preto. Hai unhas semanas unha voluntaria dunha ONG, non lembro cal, que pedía diñeiro en Alexanderplatz sorprendeuse de que non me rascase o peto e contribuíse cunhas moedas porque, a pesar de vir dun país en crise, segundo ela a cousa non tiña que irnos do todo mal vendo o meu aspecto e, á fin e ao cabo, sempre hai alguén que está peor que ti. Quizá a troika teña que rebaixarnos ao nivel de pobreza de Liberia para que sexamos dignos de compaixón da esquerda liberal do mundo industrializado. Quizá até nos boten unhas moedas nun peto, que é como se quitan rapidamente de encima a mala conciencia de non facer nada o resto do ano, nin sequera informarse correctamente do que sucede ao seu ao redor. Con todo, Alemaña é unha sociedade tolerante aínda que non aberta, todo o contrario que España, que é unha sociedade aberta pero non tolerante. Non fomos unha xeración afortunada. Hai quen di que cando as cousas volvan ir ben (cando?), chamaránnos para que volvamos. Pero, por que deberiamos facelo? É difícil explicar a mestura de rabia, frustración e impotencia. Quen non vive na desesperación vive na falta de esperanzas. León Felipe escribiu, no exilio, aquilo, moi lembrado agora, de «Tuya es la hacienda / la casa / el caballo / y la pistola. / Mía es la voz antigua de la tierra / y me dejas desnudo y errante por el mundo. / Más yo te dejo mudo... ¡Mudo! / ¿Y cómo vas a recoger el trigo / y alimentar el fuego / si yo me llevo la canción?» Nós, levámonola/levámosnola? Tiñámola antes? Se a tiñamos, seica importaba a alguén? E impórtalle a alguén agora que nola levemos? Que imos facer con ela, se é que podemos facer algo? Escribir, dicía Adorno, é enviar mensaxes nunha botella, o océano chámase hoxe Internet. Quen sabe. «Sinto que as miñas forzas espirituais han alcanzado a súa plena madurez, que agora serei capaz de facelo...» Escribiuno Pushkin no desterro, antes de terminar Boris Godunov e Eugen Onegin. Por outra banda, Heiner Müller escribía obras de teatro sen público, á espera dun público que aínda non existe. Non chegará demasiado tarde? Porén é que a alguén lle interesa todo isto, a estas alturas? Todo é igual e todo é diferente. Todo é en calquera caso confuso, porque as cousas non me van mal, pero tampouco me van ben, e desde logo vanme mellor que a moitos dos que quedaron alá, e agora aquí estou eu, en Berlín, e aí están Klitschko e Mormeck, en Düsseldorf, Cataluña, Ucraína, Guadalupe, o mundo enteiro polo medio, o tres en Alemaña, eu aquí sentado, pensando en escribir cousas que seguramente ninguén lerá, en se vale a pena escribilas, en se alguén as le, e alá Klitschko, todo músculo e puro esforzo físico e nada máis, tentando tombar a Mormeck, e nesas rompe o seu defensa, jab, dous, tres golpes, todo moi rápido, Mormeck non pode máis, cae, é historia: 50 nocaut para o boxeador ucraíno. Ben por Klitschko. Apuro a cervexa, pago, póñome o abrigo, saio á rúa. Mañá será outro día. Caes, levántaste. A loita continúa.

14/02/2012

O custe das bolsas

Tirado de El País (aquí). O autor do texto prefere manter o seu anonimato.



Estudei toda a miña vida con bolsas. Iso, dito así, parece unha frase feita, mais non. Estudei toda a miña vida con bolsas, que significan -entre outras cosas- diñeiro de todos os contribuíntes. Con 14 anos, o estado empezou a pagarme 14.000 pesetas anuais a modo de bolsa para materiais. Teño 31 anos, así que falamos de 14.000 pesetas do ano 1993. Desde os 17 becáronme con 32.000, co cal para cando acabei o instituto o Estado ingresara na miña conta 92.000 pesetas contantes e sonantes.

Entrei na Universidade e tamén tiven bolsas, nunca tiven que pagar nin unha soa matrícula. A unha media de, poñamos, 75.000 pesetas por curso, iso fan 375.000. Ademais, recibín unha bolsa escolar que, de media, eran unhas 150.000 pesetas anuais: 750.000 no cinco anos. En quinto de carreira tiven, ademais, unha bolsa de colaboración do meu Departamento. Supúñase que era para aprender investigar, mais o único que me ensinaron foi a cargar carretillas de papel para a fotocopiadora, facer funcionar a fotocopiadora e cambiar o tóner da fotocopiadora. Pagáronme 23.000 pesetas ao mes, dez meses. Total até aquí 1.447.000 pesetas. Uns 8700 euros.

Recibín catro bolsas diferentes para facer o doutoramento. A primeira que aceptei era dunha fundación que me pagaba cando lle parecía oportuno, non me daba recibos do pago e, ademais, meteume en leas con Facenda. En calquera caso, seis meses a 600 euros, 3600 euros. Pouco tempo despois recibín outra con patróns que me estafaron en menos aspectos. Non me contrataron, mais fixéronme asinar dedicación completa. Traballei para eles baixo a miserábel forma dunha bolsa: dei clases, publiquei en revistas, fixen estancias de investigación... mais días cotizados, cero. 800 euros ao mes, 36 meses, 28.800 euros en total. A iso hai que sumar tres estancias de investigación en prestixiosos centros do estranxeiro, a digamos 1200 euros de subvención cada unha. Isto xa parece o 1, 2, 3... 41.100 euros de todos os españois. O último ano, por fin, os bolseiros de investigación conseguimos que se nos fixese un contrato. Á hora de asinalo, dábanche un papelito onde tiñas que asinar que renunciabas á túa baixa maternal, en caso de quedarte embarazada. Iso si que son políticas de conciliación e o demais contos. Dábannos, por primeira vez, paga extra. Levoulla Facenda, mais súmoa igual. Doce meses, catorce pagas, a 1100 euros, 15400 euros, 56.500 en total.

Agora vén o pinchacarneiro. Despois de seis anos traballando para a Universidade, cotizara un ano. Cobrei o paro e enviei currículos. 630, a miña nai lémbrao ben. Durante o meu dezaseis anos no mercado laboral español tiven os empregos máis diversos ademais da Universidade: guía turística para a terceira idade, tradutora de manuais deportivos, profe particular, manufactureira -que non deseñadora- de bolsos e abelorios, dobradora de anuncios de radio... Que non se diga que non o tentei en varios campos.

Tenteino con todas as miñas forzas. Agarreime á terra de Asturias con pés e mans. Estiven un ano no paro, cunha carreira, un máster, un doutoramento, catro idiomas e disposta a traballar do que saíse... mais non saíu nada. Nuns estaba demasiado formada, noutros non daba, literalmente, a talla -até para dependenta de tenda de roupa de adolescentes presenteime-, así que decidín emigrar. O camiño fóra de Europa non é sinxelo: vexo aos meus pais por Skype, a miña presenza empeza a borrarse dos recordos das miñas amigas -"aínda vivías aquí cando pasou iso?"- e suplico ás alturas que o señor de inmigración non quede coa miña barra de turrón de Suchard e as miñas latas de bonito en aceite cando volvo, sempre antes de Reis, a incorporarme ás miñas clases nunha estupenda Universidade da soleadísima costa estadounidense do Pacífico. O máis triste é que son feliz aquí, a pesar de que vexo a tristeza inmensa nos ollos dos meus pais.

En resumo, España investiu en min, directamente, case dez millóns de pesetas, ademais da formación universitaria, e agora estao aproveitando outro país: un lugar onde sinto un membro útil e produtivo da sociedade. O problema máis grande é que o meu caso non é único. Do meu quince compañeiros do doutoramento, só dous están a traballar en España, en condicións lamentábeis, iso si, na Universidade. Só en nós, só no noso pequeno rinconciño da sala de bolseiros coas súas pombas aniñadas nunha xanela, o Estado español tirou ao lixo 130.000.000. Cento trinta millóns de pesetas que estabamos a desexar reverter á sociedade naquilo para o que nos formamos, mais non nos resulta posíbel. Traballamos un tempo de balde, moito tempo sen contrato, moitas máis horas que unha xornada estándar, sen sanidade, sen dereito a baixa maternal, sen dereito a paro e, sobre todo, sen dereito a queixarnos. Porque eramos uns privilexiados, a creme da creme da intelectualidade que ía levar a España a cotas nunca antes coñecidas. E iso último é o único certo. Somos a xeración que vai levar ao Reino de España a cotas nunca antes coñecidas de desesperación, de frustración, de angustia, de parturentas idosas, de avós que van ter que aprender chinés ou inglés para preguntarlle aos seus netos -por skype- de que cor é a bici que piden aos Reis Meigos en casa dos avoíños e que lles vai a chegar por correo.

25/12/2011

A diferença entre emigrar e sair a formar-se

Ângelo Pineda. Artigo tirado de Petiscos de Sociologia (aqui).

Pirámide da população da Galiza
Vem isto? É a pirâmide de população da Galiza estimada em janeiro de 2010, também conhecida como "problema". A moda, o número mais grande de galegos e galegas têm 33 anos. Se descermos apartir dessa idade o perfil da pirâmide encolhe de maneira drástica. Isto significa que a gente nova não sobra precisamente...

Por quê falo nisto? Porque segundo a conselheira Mato, se forem certas as cifras do BNG sobre a emigração juvenil, não ficaria já nenhum galego... Pois bem, Galiza já se está a vaziar. Não é um problema de agora e certamente, o bipartido não soube pôr remêdio. Um político inteligente poderia dizer isto e aludir a que se está a trabalhar em medidas para inverter a tendência. Mas não havia político inteligente nenhum, tratava-se de Beatriz Mato. Na incontinência verbal de quem tem maioria absoluta e pensa que Galiza é a sua leira a conselheira disse coisas como que a gente nova não emigra por falta de oportunidades, senão para formar-se. Comentou que não se trata de verdadeira emigração, porque são situações transitórias e que também vem muita gente de outras comunidades. Acabou dizendo que os dados apresentados pela oposição estavam enviessados e que não concordavam com os da Conselharia. Pois muito bem.

Estes que vem, são os dados das pessoas jovens que entraram e sairam de Galiza por motivos laborais em 2010 procedentes ou em direcção a outras comunidades autónomas. Entraram 7022, não está mal, não é? Estaria melhor se não tivessem saído 9759; quer dizer, 2737 de diferença. Podem não parecer muitas, mas acontece duas coisas: o ritmo de entrada de trabalhadores e trabalhadoras na Galiza manteve-se mais ou menos constante durante a década; no entanto, o ritmo de saída desceu em 2010 até um nível comparativamente baixo. O qual, como disse nalguma outra ocasião, não é mérito do atual governo, senão da crise. De fato, logo da importante queda no número de saídas desde 2007 (ano no que saíram perto de 50000 trabalhadores), desde 2009 adverte-se um ligeiro esfreio. Por outro lado, se olharmos as coisas com uma certa distância; por exemplo desde 2006, as cifras começam a ter uma dimensão significativa:


Já são 15207 jovens de difereça. Se continuarem alargando o periodo, a cifra medra porque na Galiza sempre entram menos dos que saem.

Não se devem fazer predicções para evitar o risco de errar, mas tenho a impressão que a emigração volverá a subir singelamente quando a gente nova veja que com a crise, todo o mundo vai mal mas sensivelmente melhor que no país. Neste senso, o panorama ilusório descrito pela senhora Mato não tem muito a ver com a realidade:

O balanço detalhado do saldo migratório com outras comunidades deixa Galiza claramente de perdedora. Claro que há alguma comunidade com a que o saldo é possitivo. Por exemplo Andaluzia ou Extremadura. Mas supõem uma proporção muito pequena dessa troca e também deveriamos considerar que existem 1541989 andaluzes novos e apenas 429795 galegos nessas franjas de idade. A deputada Pontón comparou a situação com uma verba orçamentária da Xunta para o aeroporto do Prat. A comparação é desafortunada: seria como uma verba orçamentária para o aeroporto de Barajas.

Sobre a transitoriedade da emigração... Enfim, é difícil ser tão idiota. A emigração não se define por carácter permanente, desse jeito seria impossível sinalar algum movimento como migratório porque a priori não sabemos se quem emigra vai voltar ou não. Mas basta ver a diferença constante na série temporal entre o montante de quem marcha e de quem entra para deduzir que essas "estádias por formação" não são tão transitórias como a senhora conselheira quer fazer ver e, seja como for, obrigariam-na a revisar a qualidade dos diferentes níveis de ensino no país.

É claro, formação... O pior não é que intente enganar à opinião pública, o pior é que pretende reduzi-la ao estado de inteligência vegetal. Como vão marchar por formação se os dados de mobilidade que própria conselheira empregou para acusar à deputada do BNG pela emigração em 2007 são de mobilidade laboral? São os dados do Instituto Galego das Qualificações. Não são os meus dados, também não são os da senhora Pontón... são os seus!

15/12/2011

Existe a esquerda a outra beira do Oder?

Ángel Ferrero. Tirado de SinPermiso e traduzido por nós.
 



A pergunta não é ociosa. Um detém-se perante o Óder ou o Neisse -a fronteira natural da Alemanha com Polónia-, enxerga o horizonte e, de não se deixar embelesar pelo seu exuberante paisagem, o que vê em toda Europa oriental resulta descorazonador: em todos os países a direita governa, a esquerda carece de importância e a extrema direita experimenta um auge preocupante. De facto, uma das primeiras coisas que se vêem -porque é muito difícil não a ver- é a estátua de Cristo Rei em Swiebodzin, a maior do mundo com os seus quase 73 metros de altura e 440 toneladas de importância. "Sem novidade no Leste", titulou a Fundação Rosa Luxemburg de Berlim a conferência com Kamil Majchrzak desta tarde (7 de dezembro). Kamil Majchrzak é redator da edição polaca de Le Monde Diplomatique e colaborador ocasional do semanário Freitag. Antes de começar pede faz favor não ser fotografado: no seu país está ameaçado pela extrema direita. Uma boa mostra do estado de coisas.

O 15 de setembro outro polaco também fez uma conferência em Berlim sobre a situação no seu país. O palco era a Fundação Schwarzkopf-Jovem Europa -no 2009 teve de mudar o nome quando se descobriu que o seu fundador, Heinz Schwarzkopf, pertencia às SS- e o polaco em questão não era outro que o embaixador Marek Prawda. A conferência foi, como se podem imaginar, muito diferente. Até o último estagiário -essa subespecie académica domesticada e inofensiva- ficou surpreendido pelo conteúdo da conferência. Polónia, segundo o altavoz de Varsóvia, capeia o temporal da crise financeira graças à sua política ultraliberal. Curiosa formulação que se assemelha a algo bem como administrar a um doente a mesma substância que causou a sua envenenamiento. Ter preservado o o złoty, a sua moeda oficial, permitiu a Polónia sem dúvida escapar da jaula dourada do euro, mas aí termina-se a coisa. Embora os preços estão ao nível da República Federal Alemã, o rendimento médio da maioria de lares polacos ronda os duzentos euros; uma quarta parte da força de trabalho fá-lo em condições e com salários precários e, em qualquer caso o salário mínimo legal é de 320 euros. Muitos trabalhadores do setor industrial terminaram baixo as rodas da carroça da mundialização: se nos noventa as multinacionais transladaram as suas plantas de produção a Europa oriental atraídas pelos baixos salários, agora essas mesmas multinacionais se levam pela mesma lógica e peça a peça aquelas fábricas a Bangladesh, Índia ou Turquia. A pobreza na velhice duplicou-se nos últimos dois anos, a assistência aos comedores sociais e ao Bar mleczy -as antigas cantinas criadas pelas autoridades comunistas onde se servem pratos tradicionais polacos a preços populares- multiplicou-se. [1] O muito pregonado descenso do desemprego na Polónia ao 10% explica-se, entre outros motivos, pela emigración dos seus jovens trabalhadores qualificados para o Reino Unido, França, Alemanha e Escandinavia, uma fórmula à que também se apontaram neste último ano os gregos, os italianos e espanhóis. Uma lástima para os economistas marianos: não existe nenhum "milagre polaco". Ou melhor dito: os "milagres económicos" -quantificados sempre com a vara de medir do crescimento- sempre ocorrem a costa da imensa maioria em benefício da imensa minoria.

Uma esquerda à defensiva

Ingar Solty assinalou a particular contradição da esquerda europeia de pós-guerra: ali onde, como na França ou na Itália, partidos comunistas fortes foram o motor da resistência antifascista, estes não fizeram valer a sua força, subordinados como estavam às diretrizes que lhes marcou a política exterior moscovita. Enquanto, em toda Europa oriental, onde o antifascismo teve um componente nacionalista e os partidos comunistas jogaram um papel marginal, se implantaram desde os exterior regimes modelados a imagem e semelhança da União Soviética -menos na Jugoslávia, o que permitiu a Mose Pijade, a eminencia cinsenta do Partido comunista jugoslavo, declarar orgulhosamente que o resto de dirigentes «chegaram aos seus respetivos países libertados em avião e com a pipa pendurando dos lábios [...] durante quatro anos, em mensagens radiofónicos, chamaram em vão às massas a tomar as armas, enquanto nós conquistamos a nossa liberdade as empunhando nós mesmos»?.[2] Os motivos que levaram à criação destes dois blocos antagónicos são ainda hoje motivo de disputa: embora é sabido que Stalin julgava a Alemanha como uma batata quente que comportaria -como os seus sucessores descobririam não muito depois- problemas à URSS e favoreceu a ideia de uma Alemanha unificada, neutra e desmilitarizada, não menos verdadeiro é que a inclusão de Checoslovaquia, Polónia, Hungria e Bulgária na esfera de influência soviética permitia ao "irmão maior" da família socialista beneficiar da sua indústria sobrevivente (sobretudo nos dois primeiros casos) ao mesmo tempo que lhe proporcionava um "para-choques" em caso de hipotética agressão militar.
 
Este "pecado original", como não é difícil de supor, converteu-se em um lastre para a esquerda depois da desintegração da União Soviética e a dissolução dos regimes dos seus países satélite. Embora politicamente repressivo e economicamente ineficaz como todos os sistemas inspirados no modelo soviético, a República Popular da Polónia conseguiu ao menos elevar a qualidade de vida dos polacos bem como generalizar a educação e a assistência médica ao conjunto da população. O estancamento em todas as frentes que produziram as políticas de Leonid Brezhnev -especialmente a partir de 1970, quando o crescimento económico se freou em seco e começou a descer- gerou um amplo descontentamento cidadão para o sistema. Na Polónia explodiram as famosas greves de Solidarnosc em Gdansk e outras cidades, na Alemanha fê-lo com as manifestações das segundas-feiras (Montagsdemonstrationen). Todo isso contribuiu ao desgaste do socialismo real e eventualmente ao seu fim entre 1989 e 1991. Os manuais de história detêm-se neste ponto, com o triunfo ilusorio do "fim da história". Depois da queda do Muro de Berlim, os focos apagaram-se e correram-se os telões para uma função que começava por trás das estruturas. E em não poucas ocasiões os protagonistas trocaram as suas máscaras.

A "terapia de choque" (que na Polónia se baptizou com o nome do seu criador, se chamando Plano Balcerowicz) administrada para acelerar a conversão a uma economia de mercado gerou uma inflação galopante, desatou uma onda de bancarrotas e disparou o desemprego a taxas próximas ao 20%. Os polacos emigraram ao Reino Unido e Alemanha, onde se integraram no exército industrial de reserva, que teve a sua imagem mais desafortunada no "canalizador polaco". Ironicamente, este plano -que teve de ser detido para evitar, como afirmou Joseph Stiglitz, que Polónia corresse a mesma sorte que Rússia- foi aplicado pela antiga elite de apparatchiks -uma prova mais da dudosa fiabilidade do antigo sistema- com o assessoramento dos Wunderkinder das escolas económicas anglosajonas, o que gerou desconfiança para as ideias da esquerda e o desprestigio total do marxismo. [3] Quem aterraram nos partidos social-democratas saídos da nada a aprovaram tácita ou explicitamente com fins puramente eleitoralistas e para se distanciar do seu próprio passado. Todo isso explica a passividade da população ante as consequências das reformas, bem como os pobres resultados encadeados pela esquerda social-democrata, que na Polónia está representada pela Liga da esquerda democrática (Sojusz Lewicy Demokratycznej, SLD). Na Europa oriental estabeleceu-se um consenso ultraliberal que resulta difícil de avariar, pois ademais em estados como Polónia se teceu com fibras nacionalistas. A esquerda foi arrinconada a posições defensivas, quando não ficou enclausurada nos salões intelectuais e gavinetes académicos, falta de arraigo social, ancoragem com os sindicatos e tecido associativo. A situação é comparável no resto de países da Europa oriental, com a exceção da antiga Alemanha oriental, onde no SEJAM se formou uma sólida corrente reformista inspirada na perestroika de Mijaíl Gorbachev que mais tarde fundaria o PDS (Partido do socialismo democrático), um dos pilares do atual partido da Esquerda (Die Linke).

Polarização social sem expressão política

Em uma situação assim, o descontentamento se articula politicamente por outros cauces. No caso polaco trata-se de Ruch Palikot (Movimento Palikot), o qual, empunhando a bandeira do laicismo, a legalização do aborto e das drogas macias e a defesa dos homossexuais (causas punzantes em um país abrumadoramente católico), conseguiu converter-se na terceira força política do país. Apesar das aparências, Ruch Palikot não é um partido de esquerdas. A formação -que como o seu nome aponta, foi antes um movimento cidadão- foi registada no 2001 por Janusz Palikot, um empresário metido a político que amassou a sua fortuna como co-proprietário de Ambra S.A. (produção, distribuição e importação de vinhos) e Estoque Polska S.A. (produção de vodka). A agenda económica de Ruch Palikot é ultraliberal. A questão da propriedade dos meios de produção brilha pela sua ausência o mesmo no seu discurso que no seu programa. E se alguma lição legou-nos o governo de José Luis Rodríguez Zapatero no Reino de Espanha é que o social-liberalismo tem as patas curtas. Os partidos que se limitam a livrar batalhas culturais têm sucesso por algum tempo, mas se desploman como um castelo de naipes assim que lhes salpica uma crise económica. Ter introduzido o primeiro deputado homossexual (Robert Biedroń) e a primeira deputada transsexual (Anna Grodzka) no Sejm (parlamento polaco) está bem, mas uma política de gestos não basta. 

No outro extremo do espetro político encontra-se a extrema direita, que graças à sua anticapitalismo elementar e a sua antisemitismo -«o socialismo dos tontos», segundo descreveu-o August Bebel-, repunta ligeiramente em militantes, mas sobretudo em um alarmante recurso à violência. Não só na Alemanha, onde aumentaram as agressões neonazis nos novos estados federados, senão também na Polónia, onde o passado 11 de novembro o neofascista ONR (Obóz Narodowo-Radykalny, Campo nacional-radical) tentou tomar a festa nacional (coisa por outra parte não muito difícil, pois comemora a proclamação do estado polaco a cargo do marechal Józef Piłsudski, que levou a cabo uma feroz política anticomunista e terminou como ditador do país depois de um golpe de estado). Na praça da Constituição de Varsóvia a manifestação terminou em uma batalha campal com os militantes antifascistas, entre eles um contingente chegado da Alemanha, o que serviu aos meios de comunicação polacos para avivar a germanofobia e desviar a atenção dos fascistas checos que foram a secundar aos seus homólogos polacos. [4] A extrema direita checa converteu-se também em puntal da alemã, à que ajuda nas suas campanhas eleitorais, apesar de que o NPD denuncia repetidamente a "invasão polaca" da Alemanha. Este absurdo, habitual no fascismo em matéria de política internacional, se desculpa aludindo à construção de "Europa das nações", cujo programa é tão extenso como a expressão que lhe dá nome.

BCE + extrema direita

Quando no final de setembro Peer Steinbrück reclamou «uma nova narrativa sobre Europa» no Bundestag, alguns se lembraram de repente que Europa chega até o extremo oriental do Mar Báltico. Melhor fosse lembrar-se antes. No 2009, o primeiro-ministro húngaro, o socialista Ferenc Gyurcsány, demitia depois de vários escândalos políticos e por não ter sabido dar respostas firmes à crise económica que afetava ao seu país. Györgi Gordon Bajnai assumiu o cargo em março e dirigiu um efémero governo de tecnócratas que tendeu, segundo o taz, «o tapete vermelho à extrema direita». [5] Jobbik, o partido neofascista que chegou a contar com uma milícia própria -"a guarda húngara" (Magyar Gárda)- para dar surras a esquerdistas e gitanos, não entrou finalmente no governo, mas se converteu na terceira força do país (16'67% dos votos, 47 cadeiras), graças ao desplome dos socialistas, que com a perda de nada menos que 131 cadeiras, ficaram com 59 assentos e o 19'30% dos votos. Hungria parecia ficar bem longe então. O passado 11 de novembro -no mesmo dia em que se manifestavam os fascistas polacos pelas ruas de Varsóvia- os ministros do governo de unidade nacional de Lucas Papademos assumiram as suas carteiras. Entre eles Makis "o martelo" Voridis, o flamante novo ministro grego de Infraestruturas e Transporte e deputado no Parlamento pela formação neofascista LAOS. Voridis, um homem sem mérito nem talento conhecido e ao que média Grécia toma por um rústico, se dedicava nos oitenta a perseguir a estudantes esquerdistas no campus da Universidade de Atenas armado de um garrote (daí a sua alcunha); nos noventa fundou a Frente Helénico, que no 2005 fundir-se-ia com LAOS, o partido de extrema direita fundado por Georgios Karatzaferis -alias "Karazaführer"- quem declarou, por citar um só exemplo, que Auschwitz e Dachau eram «um mito». O irreverente jornalista estadounidense Mark Ames resumiu a situação como "austeridad e fascismo: a verdadeira doutrina de 1%". La Vanguardia Andy Robinson fez o próprio como "Grécia tem o governo do futuro: BCE mais extrema direita". [6] Albrecht von Lucke qualificou no Blätter für deutsche und internationale Politik a estes governos de tecnócratas (que ninguém votou) de "ditaduras comisarias" dos mercados financeiros e adverte das tentações autoritarias dos futuros governos da periferia europeia. [7] Hungria já não fica tão longe. O tapete vermelho está tendida. Agora começa em Lisboa, cruza o Mediterráneo e termina em Atenas.

Notas: 
[1] Ulrich Krökel, "Polen: Dorota und die Meerjungfrau", Freitag, 28 de agosto de 2011. 
[2] Citado em Tony Cliff, "Background to Hungary", Socialist Review, julho de 1958.
[3] Rafael Poch descreveu bem este processo na grande transição: Rússia, 1985-2002 (Barcelona, Crítica, 2003)
[4] Jens Mattern, "Polen: Herrenlose Pflastersteine", Freitag, 19 de novembro de 2011.
[5] Ralf Leonhard, "Der Rücktritt von Ungarns Regierungschef ist keine Lösung: Roter Teppich für Rechtsextreme", die tageszeitung, 23 de março de 2009. 
[6] Mark Ames, "Austerity & Fascism in Greece: The Real 1% Doctrine", naked capitalism, 16 de novembro de 2011; Andy Robinson, "Grécia tem o governo do futuro: BCE mais extrema direita", La Vanguardia, 12 de novembro de 2011. 
[7] Albrecht von Lucke, "Souverän ohne Volk: Der Putsch der Märkte", Blätter für deutsche und internationale Politik, n. 12, dezembro de 2011, p. 8.