22/02/2011

A revolução silenciada. Quem dixo que a Islândia é pequena?

Artigo tirado de aqui. Umha crónica entranhável da luita entre Davide, a bancocracia, e Goliath, umha naçom com a populaçom da cidade olívica, nos nossos dias. A traduçom desde o castelhano corre a cargo dos gestores deste blogue. Agradecemos a Xesús Cedrón Vigo, estudante galego nesse estado, a sua informaçom.

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Recentemente surpreenderam-nos os acontecimentos de Tunes que desembocaram na fugida do tirano Ben Alí, tão democrata para ocidente até anteontem e aluno exemplar do FMI [de facto ele é Mubarack estavam inseridos na II Internacional, a da socialdemocracia de ontem e a do social-liberalismo de hoje]. No entanto, outra "revolução" que tem lugar desde faz dois anos foi convenientemente silenciada pelos meios de comunicação ao serviço das plutocracias européias. Ocorreu na mismíssima Europa (no sentido geopolítico), num estado com a democracia provavelmente mais antiga do mundo, cujas origens se remontam ao ano 930, e que ocupou o primeiro lugar no relatório da ONU do Índice de Desenvolvimento Humano de 2007/2008. Adivinhais de que país se trata? Estou seguro de que a maioria não tem nem ideia, como não a tinha eu até que me inteirei por acaso (apesar de ter estado ali no 2009 e o 2010). Trata-se de Islândia, onde se fez demitir a um governo ao completo, se nacionalizaram os principais bancos, se decidiu não pagar a dívida que estes criaram com Grã-Bretanha e Holanda por causa de sua execrável política financeira e acaba-se de criar uma assembleia popular para rescrever a sua constituição. E todo isso de forma pacífica: a golpe de cacerola, gritos e certeiros lançamentos de ovos. Esta foi uma revolução contra o poder político-financeiro ultraliberal que nos conduziu até a crise actual. Tenho aqui por que não se deram a conhecer mal estes factos durante dois anos ou se informou frivolamente e de esguelho: Que passaria se o resto de cidadãos europeus tomassem exemplo? E de passagem confirmamos, uma vez mais por se ainda não estava claro, ao serviço de quem estão os meios de comunicação e como nos restringem o direito à informação na plutocracia globalizada de Planeta S.A.

Esta é, brevemente, a história dos factos:
 - No final de 2008, os efeitos da crise na economia islandesa são devastadores. Em outubro nacionaliza-se Landsbanki, principal banco do país. O governo britânico congela todos os activos de seu subsidiária IceSave, com 300.000 clientes britânicos e 910 milhões de euros investidos por administrações locais e entidades públicas do Reino Unido. A Landsbanki seguir-lhe-ão os outros dois bancos principais, o Kaupthing o Glitnir. Os seus principais clientes estão nesse país e em Holanda, clientes aos que seus estados têm que reembolsar as suas poupanças com 3.700 milhões de euros de dinheiro público. Por então, o conjunto das dívidas bancárias de Islândia equivale a várias vezes o seu PIB. Por outro lado, a moeda desce imparavelmente e o mercado de valores suspende a sua actividade depois de um afundimento de 76%. O país está entre em falência.

    - O governo solicita oficialmente ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que aprova um empréstimo de 2.100 milhões de dólares, completado por outros 2.500 milhões de alguns estados nórdicos.

    - Os protestos cidadãs em frente ao parlamento em Reykjavik [a capital do estado islandês] vão em aumento. O 23 de janeiro de 2009 convocam-se eleições antecipadas e três dias depois, as caçoladas já são multitudinárias e provocam o despedimento do Premiê, o conservador Geir H. Haarden, e de todo o seu governo em bloco. É o primeiro governo (e único que eu saiba) que cai vítima da crise mundial.

    - O 25 de abril celebram-se eleições gerais das que sai um governo de coalizão formado pela Aliança Social-democrata e o Movimento de Esquerda Verde, encabeçado pela nova Primeira Ministra Jóhanna Sigurðardóttir.

    - Ao longo do 2009 continua a péssima situação económica do país e no ano fecha com uma queda do PIB de 7%.

    * Mediante uma lei amplamente discutida no parlamento propõe-se a devolução da dívida a Grã-Bretanha e Holanda mediante o pagamento de 3.500 milhões de euros, soma que pagarão todos as famílias islandesas mensalmente durante os próximos 15 anos ao 5,5% de interesse. A gente volta-se a jogar à rua e solicita submeter a lei a referendo. Em janeiro de 2010 o Presidente, Ólafur Ragnar Grímsson, nega-se a ratificá-la e anuncia que terá consulta popular.

    - Em março celebra-se o referendo e o NÃO ao pagamento da dívida arrasa com um 93% dos votos. A revolução islandesa consegue uma nova vitória de forma pacífica. O FMI congela as ajudas económicas a Islândia à espera de que se resolva a devolução de sua dívida.

    - A tudo isto, o governo iniciou uma investigação para dirimir juridicamente as responsabilidades da crise. Começam as detenções de vários banqueiros e altos executivos. A Interpol dita uma ordem internacional de detenção contra o ex-Presidente do Kaupthing, Sigurdur Einarsson.

     Neste contexto de crise, elege-se uma assembleia constituinte no passado mês de novembro para redigir uma nova constituição que recolha as lições aprendidas da crise e que substitua à actual, uma cópia da constituição dinamarquesa. Para isso, recorre-se directamente ao povo soberano. Elegem-se 25 cidadãos sem filiação política dos 522 que se apresentaram às candidaturas, para o qual só era necessário ser maior de idade e ter o apoio de 30 pessoas. A assembleia constitucional começará seu trabalho em fevereiro de 2011 e apresentará um projecto de carta magna a partir das recomendações consensuadas em diferentes assembleias que celebrar-se-ão por todo o país. Deverá ser aprovada pelo actual Parlamento e pelo que se constitua depois das próximas eleições legislativas.

    - E para terminar, outra medida "revolucionária" do parlamento islandês: a Iniciativa Islandesa Moderna para Meios de Comunicação (Icelandic Modern Média Initiative), um projecto de lei que pretende criar um marco jurídico destinado à protecção da liberdade de informação e de expressão. Pretende-se fazer do país um refúgio seguro para o jornalismo de investigação e a liberdade de informação onde se protejam fontes, jornalistas e provedores de Internet que alojen informação jornalística; o inferno para EUA e o paraíso para Wikileaks.

Pois esta é a breve história da Revolução Islandesa: despedimento de todo um governo em bloco, nacionalização da banca, referendo para que o povo decida sobre as decisões económicas trascendentais, encarcelação de responsáveis da crise, reescritura da constituição pelos cidadãos e um projecto de blindagem da liberdade de informação e de expressão. Tem-se-nos falado disto nos meios de comunicação europeus? Comentou-se nos repugnantes bate-papos radiofónicos de politicastros de médio cabelo e mercenários da desinformação? Viram-se imagens dos factos pela TV? Claro que não. Deve ser que aos Estados Unidos de Europa não lhes parece suficientemente importante que um povo pegue as rendas da sua soberania e plante cara ao rodopio ultraliberal. Ou quiçá temam que se lhes caia a cara de vergonha ao ficar uma vez mais em evidência que converteram a democracia num sistema plutocrático onde nada mudou com a crise, excepto o início de um processo de socialização das perdas com recortes sociais e *precarización das condições trabalhistas. É muito provável também que pensem que ainda fique vida inteligente entre suas unidades de consumo, que tanto gostam em chamar cidadãos, e temam um efeito contágio. Ainda que o mais seguro é que esta calculada minusvaloração informativa, quando não silêncio clamoroso, se deva a todas estas causas juntas.

Alguns dirão que Islândia é uma pequena ilha de tão só 300.000 habitantes, com um entramado social, político, económico e administrativo muito menos complexo que o de um grande estado europeu, pelo que é mais fácil se organizar e levar a cabo este tipo de mudanças. No entanto é um país que, ainda que têm grande independência energética graças a suas centrais geotérmicas, conta com muito poucos recursos naturais e tem uma economia vulnerável cujas exportações dependem num 40% da pesca. Também os há que dirão que viveram acima de suas possibilidades endividando-se e especulando no casino financeiro como o que mais, e é verdade. Igual que o fizeram o resto dos países guiados por um sistema financeiro liberado até o infinito pelos mesmos governos irresponsábeis e suicidas que agora se jogam as mãos à cabeça . Eu simplesmente penso que o povo islandês é um povo culto, solidário, optimista e valente, que soube rectificar  botando-lhe dous colhões, plantando-lhe cara ao sistema e dando uma lição de democracia ao resto do mundo.

O país já iniciou negociações para entrar na União Européia. Espero, polo seu bem e tal e como se estão a pôr as coisas no continente com a praga de farsantes que nos governam, que o povo islandês complete a sua revolução recusando a adesão. E oxalá ocorresse o contrário, que fosse Europa a que entrasse em Islândia, porque essa sim seria a verdadeira Europa dos povos.
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