26/04/2012

Especulações sobre a China, à beira de nova transição


Por Ian Johnson, no New York Review of Books e tirado por nós de Outras Palavras (aqui). Tradução: Daniela Frabasile.  Ian Johnson é escritor e jornalista, vencedor de um Prêmio Pulitzer. Seus temas centrais são Sociedade Civil e Religião. Vive entre Beijing e Berlin. Mantém um blogue. Seu livro mais recente é A Mosque in Munich: Nazis, the CIA and the Rise of the Muslim Brotherhood in the West [“Uma mesquita em Munique: Nazistas, a CIA e a ascensão da Irmandade Muçulmana no Ocidente”, não traduzido em português” 

Ousado e ambicioso, Bo Xilai caiu em desgraça no PC. Mas como partido lidará com reformas que ele procurava simbolizar?

Na China, o ano é tradicionalmente dividido em períodos baseados na órbita da Lua ao redor da Terra e no trajeto do Sol no céu. Esse calendário luni-solar é carregado de mitos e celebrado por rituais que permitem que os chineses marquem o tempo e deem sentido a seu mundo.

O calendário político moderno da China segue o mesmo padrão. Ele assume sua forma em torno dos trabalhos misteriosos do Partido Comunista, que renova seus líderes a cada década, no congresso partidário, um evento que se parece com a passagem de um cometa, e impressiona os espectadores como presságio de mudança e renovação. O próximo congresso está marcado para o outono [nórdico] de 2012. É o 18º, nos 91 anos de história do Partido – e já está sendo associado a fenômenos incomuns.

O mais espetacular foi o eclipse em Bo Xilai, em meados de março. O líder da cidade-estado de Chongqing – que tem o tamanho da Áustria, mas uma população de 30 milhões, quase quatro vezes maior – foi forçado a deixar o cargo em 15 de março. Há apenas alguns meses, comentaristas diziam que Bo era sério candidato a nono membro do Comitê Permanente do Birô Político do Partido – o ápice do poder. De repente, ele desapareceu do céu. Como isso aconteceu e o que significa?

A resposta está ligada a uma constelação de famílias poderosas que ajudaram o Partido Comunista a ganhar o poder nos anos 1940 e estão tentando alinhar seus interesses antes que o grande congresso comece. O pai de Bo era Bo Yibo, um famoso general da guerra civil, que se agarrou à vida por tanto tempo – tinha 98 anos quando morreu, em 2007 – que era chamado de um dos “oito imortais” (tradicionalmente, isso se refere ao grupo de deuses taoístas; na política moderna chinesa, refere-se a um grupo específico de homens idosos, que ajudaram a construir a vida política chinesa entre 1980 e o início dos anos 2000).

Graças a seu pai, Bo cresceu rapidamente no Partido: foi prefeito de uma cidade próspera, governador de uma província, e ministro de Comércio. Mas quando o Partido se reconfigurou em 2007, o pai já havia morrido e Bo Xilai foi enviado pela Chongging – no máximo, uma mudança lateral. O prêmio de consolação foi uma cadeira no Birô Político, o que fez dele um dos doze maiores líderes do Partido. Mas ainda faltava um posto no muito mais exclusivo Comitê Permanente, uma conquistas que, segundo muitos analistas, iria se concretizar no congresso deste outono.

Tudo mudou em 15 de março, quando o governo publicou um informe na agência de notícias Xinhua, anunciando que Chongqing tinha um novo secretário do Partido, substituindo Bo. O informe não dizia que ele seria removido do Politburo, apesar de que isso provavelmente acontecerá no congresso. Conforme apontaram estudiosos da política chinesa, o informe não dizia que Bo iria ocupar um novo cargo – ling you ren yong, uma frase usada quando um líder é movido para uma nova posição. Supõe-se, portanto, que esteja liquidado.

A causa imediata para a queda de Bo foram as ações de seu chefe de polícia, Wang Lijun. Wang, que supervisionou uma brutal repressão ao crime, sob as ordens de Bo, acabou sendo investigado por corrupção. Além disso, ele também pode ter investigado a morte de um britânico, Neil Heywood, que teria vínculos comerciais com a família Bo. Sentindo-se sob pressão insuportável de Bo, Wang parece ter fugido para o consulado norte-americano na cidade de Chengdu, distante cerca de trezentos quilômetros. O que esperava conseguir não está claro. Alguns especulam que ele queria sujar o nome de seu chefe junto ao governo dos Estados Unidos, mas ninguém sabe como isso poderia ajudá-lo. Outros dizem que Wang pediu asilo, mas isso seria ingênuo, já que o governo norte-americano não teria meios de levá-lo para fora do país, mesmo que estivesse inclinado a ceder refúgio a um homem conhecido por seus métodos brutais na polícia. Ainda há quem diga que, ao fugir para o consulado dos EUA, Wang assegurou que seria preso pela segurança nacional, ao invés da polícia regional, subordinada a Bo. Talvez o mais plausível seja que ele simplesmente fugiu em pânico, sem um plano claro. De qualquer forma, um dia depois de ter entrado no consulado deixou o local e foi preso.

O comportamento embaraçoso de Wang foi provavelmente a gota d’água para Bo. Oficiais da segurança pública não devem fugir para missões diplomáticas estrangeiras – especialmente não para a do maior rival da China. Como Bo escolheu Wang a dedo, a implosão do chefe de polícia repercutiu mal para o primeiro. Mas isso leva a outra questão: por que o Partido decidiu investigar Wang? Na China, quase qualquer governante ou empresário pode ser preso por algo, já que, em um país sem regras definidas, infringir a lei é quase inevitável. Então, por que escolheram Wang?

A resposta mais provável é que voltar-se contra Wang era uma forma de castigar Bo, por ter-se recusado a aceitar seu destino, cinco anos atrás. Depois de chegar em Chongqing, Bo tentou transformar a cidade numa base para seu retorno triunfante a Beijing, no congresso do Partido deste ano, como membro do Comitê Permanente. Para isso, ele lançou um vasto pacote de reformas – e, afastando-se da prática comum para líderes do Partido, organizou uma campanha de mídia em grande escala, para veicular seu programa. Bo é alto, bonito e provavelmente o único líder chinês com um toque de carisma. Outros líderes, provavelmente, acharam sua campanha muito incômoda.

O primeiro passo de Bo foi declarar Chongqing especialmente corrupta, um ponto que pode gerar discordâncias mas é, de qualquer forma um tapa na cara de seus dois antecessores. Um deles é Wang Yang, governador de Guangdong e um provável membro do Comitê Permanente. O outro é He Guoqiang, hoje presidente da comissão de disciplina do Partido (e o homem que pode ter lançado a investigação sobre o chefe de polícia de Bo). Por alguns anos, os chineses assistiram a uma série excitante de prisões em Chongquing, cujos alvos foram supostos chefões do crime e seus patronos políticos corruptos – todos presumivelmente fortalecidos sob Wang e He.

Então Bo forçou uma série de reformas sociais e econômicas – uma para cada um dos grandes problemas vividos em todo o país. Declínio moral? Ele criou uma campanha para educação pública combinando as virtudes tradicionais com uma renovação das apresentações de antigas músicas comunistas. Desigualdades entre a cidade e o campo? Ele facilitou o deslocamento de agricultores para as cidades em Chongqing (atualmente, eles são desencorajados a fazê-lo) e a matrícula de seus filhos em escolas urbanas. Investimento externo? Ele cortejou empresas estrangeiras de uma forma que poucos antecessores fizeram. Ordem pública? Ele reforçou a força policial e aumentou o número de patrulhas a pé.

As pessoas passaram a falar sobre um “modelo Chongqing”, de maior controle estatal e ideologia esquerdista. Existia algum motivo para isso, mas as reformas de Bo ofereceram algo para quase todos. Algumas eram progressistas, como ajudar os fazendeiros; algumas estatistas, como enormes programas de trabalho público; outras pró-empresas, como cortejar os investidores. Defensores das liberdades civis ficaram descontentes por ele passar por cima das leis, com relatos de tortura de suspeitos e perseguição de seus advogados. Na última década, declinou o respeito às leis e aumentaram as detenções extrajudiciais de oponentes do governo ou líderes étnicos. As táticas de Bo podem ter sido mais draconianas, mas é difícil classificá-las como revolucionárias. Mais que isso, ele era um oportunista que usou essas táticas para sustentar sua candidatura ao Comitê Permanente.

Na verdade, o que mais foi censurado pela liderança central é fato de ele apresentar as medidas como um tipo reforma do sistema . É um pouco injusto falar que o premiê Wen Jibao e o chefe do Partido, Hu Jintao, tenham dirigido um pais estagnado, durante a década em que estão no poder. A partir dos anos 90, a China tornou-se um país de enorme atuação no cenário mundial, orgulha-se de ser a segunda maior economia, hospedou as Olimpíadas com sucesso, e mostrou maior atenção aos pobres, por meio de um sistema de saúde rural e um programa básico de bem-estar.

Mas cresce, entre muitos chineses, o sentimento de que o país precisa de uma nova rodada de reformas substanciais, similares às feitas nos anos 80 e 90. Na China, como em outros lugares, o crescimento da riqueza significa um crescimento das expectativas – especialmente por maior transparência e abertura, e menos corrupção. Tudo isso tem sido ampliado por meio das anárquicas mídias sociais do país, entre elas os microblogues. Apesar de estarem sob controle do governo, os sites criados para isso já pressionam o governo de uma forma rara no passado.

As políticas de Bo em Chongqing mostraram esses problemas de foram aberta demais. Mesmo na última entrevista coletiva, alguns dias antes de sua demissão, ele apontou que o coeficiente Gini chinês – um índice amplamente reconhecido como medida de desigualdades – é muito ruim e está piorando. A ideia de ter de lidar com alguém tão proeminente deve ter perturbado os prováveis futuros líderes: Xi Jinping (filho de outro general famoso) e Li Keqiang (que, próximo do premiê Wen, é considerado um tecnocrata interessado em economia). Como todos os líderes chineses, Xi e Li serão relativamente fracos ao assumirem a liderança. Irão adquirir poder apenas com o tempo. Se tivesse ascendido ao Comitê Permanente, Bo seria, de longe, o membro de maior visibilidade e mais conhecedor da mídia entre o grupo.

O destino de Bo é incerto. Quando o escândalo irrompeu, observadores ainda imaginavam que ele poderia ser poupado, talvez terminando como chefe de uma conferência consultiva, ou outra posição honorária. Agora, a única questão é saber se ele ou sua mulher serão acusados de corrupção. Mas sem informações confiáveis, rumores dominam os discursos em Beijing. Dizem que Bo foi preso; que está sendo interrogado; que houve disparos na casa de hóspedes em Diaoyutai; que há soldados nas ruas. A única razão para levar qualquer um destes boatos a sério é a atitude do governo: discussões sobre o caso de Bo são estritamente proibidas em microblogues, onde estão bloqueadas as buscas de termos como “golpe” e “tiros”.

Antes de despachar Bo, Wen justificou sua decisão em termos nobres, afirmando que a China precisa de reformas políticas, sem as quais “tragédias históricas, como a Revolução Cultural, poderão se repetir”. Bo, entende-se, não teria sido capaz de aprender com a História e estaria recorrendo às campanhas de estilo maoísta para conquistar apoio. Uma explicação menos caridosa é que Wen procura defender-se de sua própria dificuldade em oferecer reformas. Seu apelo a elas repete-se anualmente, mas ou ele não tem poder para implementá-las, ou sua definição de reforma política equivale apenas a tornar o sistema atual mais eficiente e atento às queixas dos cidadãos. Ao equiparar reformas robustas ao tipo de anarquia da Revolução Cultural, Wen poderia estar justificando sua cautela.

O cosmo político chinês orbita em torno do congresso do Partido. Desde o massacre da Praça Tienanmen, em 1989, os líderes valorizam a estabilidade e, contrariando muitas previsões, foram capazes de promover uma transição pacífica do poder – a de 2002, em que o líder do partido, Jian Zemin, e o premiê Zhu Rongji cederam seus postos a Hu e Wen. A mudança não foi fácil – Jiang tentou adiar sua saída e ampliar a presença de seus homens no Birô Político, o que Hu demorou anos para desfazer. Mas foi pacífica e relativamente suave.

O Partido tenta repetir o feito agora, com Hu e Wen preparando-se para abrir espaço a Xi e Li. Eles terão a companhia de outros sete, entre os quais possivelmente uma mulher, Liu Yandong – que poderia ser encarregada das relações com grupos não-comunistas na sociedade. A segurança interna ficará provavelmente a cargo de Meng Jianzhu, hoje vice do czar da segurança, Zhou Yongkang. Um posto importante na economia, o do vice-premiê executivo, poderia ficar com Wang Quishan, um ex-dirigente do Banco Central, hoje líder do Diálogo Econômico e Estratégico EUA-China (1).

O caso de Bo mostra que a nova transição será ao menos tão complicada como a de dez anos trás. Muitos dos que deverão estar no Comitê Permanente são aliados de Hu, não de Xi. Isso significa que a influência do chefe do partido que se prepara para deixar o posto vai se estender um pouco. Mas Xi será obrigado a lidar com muitos dos temas que Bo tentou focar, com suas reformas. O desaparecimento do dirigente não fez desaparecerem os problemas (2).

Neste particular, os calendários político e tradicional estão alinhados. O calendário político foi aberto em 5 de março, com o início da sessão anual do Congresso Nacional do Povo e a leitura, por Wen, de seu relatório anual – o primeiro momento do processo para a defenestração de Bo. Também em 5 de março ocorreu um festival do calendário luni-solar. Trata-se do jingzhe, o “Despertar dos Insetos”, tempo em que acordam os animais que hibernam. Dado o que ocorreu, parece muito apropriado: o início de uma nova estação e o advento de forças adormecidas.


1 Alice Miller, veterano estudioso da política chinesa, traça o cenário mais provável do Congresso, no Monitor da Liderança Chinesa, da Hoover Institution. Está disponível em http://www.hoover.org/publications/china-leadership-monitor.

2 Ler o excelente ensaio: “Bo Xilai is Gone. Now Can Beijing Keep its Balance?”, de Russell Leigh-Moses, no blogue China Real Time, do Wall Street Journal (20/3/2012)
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