06/06/2012

É possível a união com radicalismo, diz fundador do Syriza

Artigo tirado de Carta Maior (aquí).

Em menos de duas semanas, a população grega dará um importante sinal que certamente ecoará dentro e fora do país. Embora o resultado das próximas eleições legislativas na Grécia, marcadas para 17 de junho, permaneça ainda bastante incerto, as pesquisas mais recentes têm mostrado vantagem do emergente partido de esquerda radical Syriza, com algo em torno de 31% de preferência do eleitorado, seguido pela tradicional agremiação (de centro-direita) Nova Democracia, com cerca de 25%. Em baixa, os socialistas do Pasok – que, juntamente com a Nova Democracia, dá suporte ao programa de austeridade ditado pelos organismos financeiros internacionais e aplicado no país – não tem obtido um suporte maior que 14% nas últimas sondagens.

Alex Tsipras, líder do Syriza, tem enfatizado publicamente as bases do “plano de reconstrução nacional (contrário ao memorando de “resgate” repleto de cortes (em salários, pensões, investimentos público que restringem a produção e as políticas sociais etc.) formulado pela troika – Comissão Europeia (CE), Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para além do giro de Tsipras pela Alemanha e pela França, militantes do Syriza circulam por diversos países europeus às vésperas do decisivo pleito para apresentar e discutir questões relativas ao atual contexto político-econômico com representantes de organizações, militantes e interessados, em geral.

O ativista grego Yorgos Mitralias, um dos fundadores do Syriza (acrônimo formado com as iniciais de Coligação de Esquerda Radical), esteve em Portugal e participou de encontros abertos que contaram também com intervenções do economista português Vitor Lima. Carta Maior acompanhou o debate organizado pela Assembleia Popular de Coimbra, no último final de semana.

Jornalista aposentado e membro do Comitê Grego contra a Dívida, Mitralias fez comentários sobre a situação dramática pela qual passa o seu país e detalhou as características, propostas e dilemas do Syriza, com ênfase na dura batalha que a esquerda radical tem enfrentado nesta reta final de processo eleitoral. Tratou também da intensa polêmica em torno da saída ou não da Grécia da União Europeia (UE), bem como de temas correlatos como o corte dos gastos militares, a nacionalização do setor financeiro e, obviamente, os rumos da dívida.

Grécia
Na visão do militante político do Syriza, o país vive uma situação parecida com a que viveu a Alemanha na década de 1930, entre a I e a II Guerra Mundial. A classe média, muito importante para a Grécia, está, nas suas palavras, “sendo destruída”. Os índices de desemprego são altíssimos (por volta de 35%, em termos gerais) e superiores a 50% entre os jovens. “Daqueles que ainda têm trabalho, cerca de 500 mil simplesmente deixaram de receber salários”, acusa Mitralias. Segundo ele, o sistema sindical de convenções coletivas está em frangalhos e os acordos pessoais se multiplicam. Há sinais de desnutrição e a fome se alastra nos principais centros urbanos. “O país já está em ruínas”.

Diante desse cenário, os cidadãos buscam soluções radicais para seus problemas imediatos, ou seja, para sobreviver. Daí a tendência de investimento nos extremos do espectro político (tanto à esquerda como à direita), coloca o filiado ao Syriza. “Como os grandes partidos sociais democratas (seja mais de centro-direita, no caso da Nova Democracia, ou de centro-esquerda, como é o Pazok) não dão respostas, as pessoas estão procurando outros”, resume.

Além da ascensão do Syriza, o militante ressalta que o partido neonazista Aurora Dourada também vem experimentando um acréscimo de apoios. Bandos têm recentemente promovido violentos ataques contra imigrantes. “Tudo é possível. Para o bem ou para o mal”, adverte. A sensação, descreve, é a de que um vulcão político-ideológico está em plena erupção. “Há ‘paisagens’ que estão sumindo enquanto outras estão surgindo”.

Eleições
Desde a queda da ditadura militar, em 1974, a Grécia era tida como um dos países politicamente mais estáveis da Europa. Juntos, a Nova Democracia e o Pazok somavam tranqüila e repetidamente uma soma de 85% dos votos. Há apenas três anos, o Pasok chegou a obter a vitória histórica de 45% da preferência nas eleições parlamentares.

Ainda em 2009, o Syriza teve apenas 4,5%. Na última disputa, realizadas no início de maio, quadruplicou a proporção para 17% do eleitorado, garantindo 52 do 300 postos do Parlamento grego. “Nossa projeção é que possamos alcançar 35% em 17 de junho“, arrisca Mitralias. Dado o peso do resultado das urnas, ele frisa que as ameaças e chantagens que visam enfraquecer a esquerda radical têm se intensificado. “Dizem a todo o momento para que os gregos votem ‘corretamente’ [contra o Syriza]. Mas as pesquisas estão mostrando que a população está disposta a votar de forma ‘errada’”. ironiza.

“Não há certezas, mas é possível que nós da esquerda radical sejamos vencedores”, projeta. As sondagens revelam uma forte adesão dos adultos (na faixa dos 25 anos a 45 anos) nas dez maiores cidades da Grécia. “Creio que conseguimos captar os anseios e dar voz à população”, diz o militante, fazendo referência à perspectiva concreta e de curto prazo para lidar com os problemas. “Mas trata-se de uma guerra. Todos os meios estão sendo utilizados [contra nós e o nosso programa]. Não podemos ser inocentes”.

O Syriza, na descrição de Mitralias, é um caso particular de “casamento” entre partidos políticos distintos e entidades da sociedade civil. Fundado há nove anos, o partido reúne ao todo 12 organizações, desde uma ala reformista de esquerda e segmentos trostkistas até grupos autônomos e de defesa de direitos como o das mulheres. Nas raízes do partido, estão inclusive articulações em torno do processo do Fórum Social Mundial. “A primeira lição é a de que é possível a união com radicalismo. Esta formação não foi sempre harmoniosa. Houve crises e muitas outras ainda virão. Há, por exemplo, algumas questões transversais que atravessam horizontalmente toda a organização, que é uma grande mescla”.

União Europeia
Para Mitralias, o dilema não é necessariamente “permanecer ou não na União Europeia (UE)”, como o mercado financeiro e outras forças políticas têm colocado, mas enfrentar o cenário de crise “com ou sem austeridade”. O grande terror alardeado por porta-vozes do poder é a de que a Grécia seja “expulsa” da UE em caso de vitória do Syriza. “Se isso vier a acontecer, haverá uma ampla reação em toda a Europa”, assinala o ativista.

A ação arbitrária de exclusão, que não está prevista nas normas do bloco, facilitaria a constituição do que ele considera ser o principal meio para enfrentar definitivamente o receituário da austeridade: um movimento de massa transfronteiriço de aliança entre organizações de base europeias com bases locais e de longo prazo. Tal proposta se combinaria com a convocação, nos próximos anos, de uma nova Assembleia Constitutiva da UE. “Alguém pode achar que eu estou falando está mais para ficção científica. Mas o que era improvável se tornou mais do que possível. Devemos estar preparados e temos de procurar dar respostas à altura [dos desafios impostos pela crise]”.

“Sair do euro seria voltar para o Estado-nação”, adiciona o militante do Syriza, que se opõe ao isolamento que enquadra a questão como “problema interno”, afastando a possibilidade de saídas conjuntas em nível continental. “Seria abandonar os companheiros dos outros países do bloco e dizer não ao movimento solidário europeu”.

Na perspectiva dele, “não é o euro que é necessariamente ruim, mas justamente a total ausência de solidariedade [por parte de quem está à frente da iniciativa transnacional]”. Mitralias realça, por exemplo, que nove estados dos EUA têm uma situação fiscal pior que a da Grécia, mas o Banco Central norte-americano atua como as estruturas financeiras europeias deveriam fazer, assegurando condições para que os mesmos sigam seus caminhos.

A “ausência de solidariedade”, complementa o ativista, ainda vem combinada com a manutenção de parte do orçamento público que favorece a indústria bélica de países como a Alemanha, a França e os EUA. “Como é sabido, a Grécia é um dos melhores clientes mundiais em termos de gastos militares. Denúncias recentes vêm mostrando indícios de corrupções milionárias envolvendo o setor. Pretendemos cortar isso drasticamente”.

O próprio Mitralias admite, porém, que o partido ainda não fechou posição definitiva acerca de algumas questões relevantes. A nacionalização dos bancos, por exemplo, com o intuito de fazer o dinheiro chegar até as pessoas para que a economia passe a funcionar, ainda permanece em aberto. A própria questão da dívida não está completamente decidida: sinalizações de possíveis renegociações sob determinadas condições se misturam com posturas que defendem a suspensão, o repúdio e a auditoria. “É impossível pagar. Para isso, teremos de optar por uma recessão monstruosa, durante anos e anos”, sustenta o militante, que critica os “moderados” instalados dentro do Syriza que preferem acordos com a banca. Os desígnios das urnas podem fazer com que essa e outras batalhas “internas” ganhem ampla repercussão não só para a Grécia como para o conjunto da União Europeia (UE).
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