29/04/2013

O mantra do "todos são iguais": indefessão apreendida, fatalismo e dissonância cognitiva

Iria Meléndez, Victoria Permuy e Sonia Alberca. Artigo tirado de Diagonal (aqui) e traduzido por À revolta entre a mocidade.



A indefessão apreendida (IA) é um fenómeno cuja consequência é achar que a nossa conduta não terá nenhuma influência sobre os resultados. Esta crença apreende-se e tem importantes consequências sobre a nossa conduta e o nosso estado de ânimo  Tecnicamente, descreveu-se como uma expectativa que produz três efeitos: a.- deficit motivacional para emitir respostas, b.- deficit cognitivo para aprender que as respostas controlam os resultados e c.- reacções afectivas de medo e depressão. 


Dizemos que uma pessoa adquiriu a condição de indefessão apreendia, quando esta apreendeu a se comportar passivamente, sem responder nem fazer nada, a pesar de existir claras oportunidade para ajudar-se a si própria. Martin Sligman, em 1975, estudou o relacionamento entre a aprendizagem instrumental e o temor condicionado. A estrutura cerebral que se relaciona com a aprendizagem é o hipocampo, de aí que diversos estudos demonstraram que certas condições ambientais, condutuais e farmacológicas promovem e/ou detêm a proliferação celular e a neuro-génese em dita estrutura. Assim, observou se em diversos experimentos que em condições de stress ambiental (exposiçao a cheiros de depredadores, a exposição perante residentes intrusos, experiências de subordinação  ou a situações de indefessão apreendida) produz-se um bloqueio na proliferação celular e na neuro-génese. A teoria da IA relaciona-se com a percepção de ausência de controlo sobre o resultado duma situação. A chave está em como nos explicamos a nós próprios por quê é que acontecem as coisas. Isto é, o optimismo ou pessimismo atribuem-se à aprendizagem e à experiência de acontecimentos passados.

Desde a neurociência mostrou-se o relacionamento entre pensamentos positivos ou negativos em algumas regiões do cérebro. Em concreto a curteza cingulada anterior e a amígdala (figura 1) mostram-se mais activas ao antecipar acontecimentos positivos. Seligman propôs um método para incrementar o optimismo que consiste em detectar e depois rebater os pensamentos pessimistas, baseado no modelo do estilo atributivo e aplicando as técnicas da terapia cognitiva. 



Até agora temos falado da  indefessão apreendida desde o ponto de vista experimental e em condiçoes de laboratório, mas que acontece quando geralizamos e o transladamos ao âmbito social?

O Fatalismo como atitude

Pois bem, no contexto social e relacionado com a percepçao ou ausência de controlo, encontra-se o "fatalismo", que foi um termo inicialmente carimbado por Martín Baró (1987), para fazer referência ao tipo de relacionamento que se estabelece entre as pessoas e um meio que apercebem como incontrolável, em rigor, este conceito de fatalismo entronca com o conceito de indefessão apreendida (IA), anteriormente descrito.

Não obstante, segundo o próprio Martín Baró, a indefessão que se experimenta a nível social não constitui apenas uma consequência tanto de discursos ou práticas de socialização que fomentam a inacção política, mas também, tanto a indefessão quanto o fatalismo subsequente à mesma, seria o resultado duma experiência reiterada de falhanço nos esforços dirigidos a controlar o meio.

Segundo De la Corte, Blanco e Sabucedo, nos seus trabalho na área da psicologia política, o fatalismo seria, portanto, uma atitude que teria um enorme poder à hora de favorecer a desmobilização política e todavia para a manutenção da situação actual ou status quo

Assim, os factores chaves que definem o fatalismo, segundo eles, seriam: em primeiro lugar, o conformismo e a submissão; em segundo lugar, uma tendência a não realizar esforços e a mostrar-se passivo; e, em terceiro lugar, uma excessiva focalização no presente à que denominam presentismo. Este último implicaria, aliás, uma falta de cor do passado e uma ausência de planeamento do futuro. O futuro seria, ademais, uma atitude que viria acompanha duma sensação de que tudo vai seguir igual.

Por este motivo, uma vez constatado o fatalismo num sector da população mais ou menos amplo  o labor dos movimentos sociais e, portanto, dos partidos políticos, mediante as suas propostas e condutas, seria a de romper o círculo vicioso que reforça estas crenças nos indivíduos. Tarefa, por outro lado, difícil já que a corrupção ferreamente instalada nos dois principais partidos da nossa areia política, dificultam a mudança das atitudes fatalistas.

Isto é, deveriam fomentar aquilo que Paulo Freire chamava "concientização" - a tomada de consciência pessoal na sua dimensão social e política- e que Martín Baró chamou mais tarde "empoderamento", o qual consistia em devolver aos cidadãos a crença de que as suas acções poderiam modificar a realidade social. Um exemplo prático seria adopta iniciativas concretas para devolver a voz à cidadania, através de processos consultivos mais democráticos (referendo).

Desde o nosso papel no âmbito da psicologia, compartilhamos a postura que adopta Martín Baró quando se fazia eco dos falsos dilemas aos que nos confrontamos. A pesar de que ele mesmo desenvolveu o seu trabalho no contexto latinoamericano, algumas das suas afirmações têm ainda vigência no nosso meio.

O dilema em questão é o de optar, nas suas próprias palavras, por uma "psicologia reaccionária" - cuja aplicação contribuiria para afiançar uma ordem social injusta- frente a uma "psicologia progressista", a que ajuda os povos a progredir, a conseguir uma realização histórica, tanto pessoal como colectiva. Neste ponto, convém enfatizar a nossa preferência pelo uso do termo "psicologia crítica".


O medo, a culpa e a inacção

Ao longo do tempo a  indefessão apreendida denominou-se de diferentes maneiras: desesperança, indefessão e até preguiça apreendida, atirando esta última uma sombra de culpa sobre a vítima. Hoje o termo indefessão está em boca de todo o mundo relacionado com as consequências mais duras da crise económica: desemprego, desafiuçamentos e pobreza. Também com os efeitos das políticas adoptadas pelos governos para fazer frente às crises caracterizados por sucessivos recortes de salário, de prestações e de direitos que recaem sobre os cidadãos que nada tiveram a ver com as suas causas, e que não entendem o que ocorre. Recortes que, ao que parece, nao poderemos evitar por muito que façamos greves ou que nos manifestemos. E, aliás, começou-se a castigar a muitos dos que protestam mediante detenções pouco justificadas e prisões preventivas de duvidosa compatibilidade com direitos humanos fundamentais. Que os de acima "tratam-nos como a cães  é verdadeiro ou, ao menos, como aos cães do experimento de Seligman: como o cão vítima do experimento de Seligman submete-se-nos constantemente a shocks.

Podemos inferir que, mediante o poder actual da mídia, é exequível induzir este estado depressivo em boa parte da população, para manter na passividade. 

A  indefessão apreendida pode-se observar em numerosos ambientes e sociedades repressivas, com populações sumamente depauperadas em contraste com o esbanjamento económico exercido pela sua classe dirigente. O poder vem-o fazendo historicamente de muito diversas formas, fazendo-nos achar que somos os únicos culpados dos nossos males; por exemplo, no Estado espanhol hoje em dia resulta um exemplo familiar a famosa mensagem "vivemos acima das nossas possibilidades" (quando a realidade era que as possibilidades, para os de abaixo, mais bem eram inferiores aos stantards duma vida digna) e na Argentina em tempos passados a mensagem "todos somos culpadas". Não devemos cair na armadilha de pensar que "a culpa desta crise temo-la nós". Autores como Vicenç Navarro assinalaram que foi precisamente a falta de recursos entre as classes populares a que foi causante do endividamento, e não ao revés.

Como diria Susan George o Reino de Espanha "converteu-se numa 'rata de laboratório' ". A questão é: quanto tempo é que toleraremos o castigo e a culpa sem nos rebelar? Como expusemos, um elemento fundamental no fenómeno da indefessão apreendida é a culpa e, portanto, o medo.

O papel da dissonância cognitiva

O ser humano tem uma inquestionável necessidade de justificar as suas acções  isto faz com que ante os demais (e antes nós próprios) precisemos sentir que somos coerentes, que guardamos equilíbrio entre o que pensamos, dizemos e fazemos. Quando isso não ocorre há uma tendência ou predisposição interna para diminuir a tensão, embora seja mínima, que estas incoerências nos possam gerar para não sentir dita incomodidade.

Este mecanismo vem descrito na teoria da dissonância cognitiva. Dita teoria considera aliás que existem pensamentos, crenças, ideias, cognições consoantes (isto é, coerentes ou consequentes entre si). O exemplo mais recorrido é o do fumo - sei que fumar é perjudicial e não fumo- e cognições dissonantes - "sei que fumar é perjudicial e, no entanto, fumo"-. Centramo-nos na dissonância ou tensão gerada pelas situações de incongruência entre atitudes e condutas, isto é, pensamos uma coisa e fazemos outra.

Para reduzir a dissonância entre cognições podemos empregar várias opções: 

1.- Mudar um dos dois elementos dissonantes: ou a atitude ("fumar não é tão mau") ou a conduta (não fumar).
2.- Agregar uma cognição para justificar ou racionalizar a incongruência entre as duas cogniçoes. Exemplo: "há fumadores que são longevos". 

Transladando e exemplificando dita teoria à prática inserida no contexto sócio-político actual no Reino de Espanha:
Primeiro a atitude, logo a conduta e, novamente, a atitude: confio em que o PP "salvará" o Reino de Espanha, criará emprego, etc. (atitude); pelo que voto ao PP (conduta), com o tempo constato o desastre da sua política (dissonância) e resolvo a tensão que me produz numa nova atitude: "todos são iguais".

O exposto explica por quê é que todos tendemos a justificar as condutas por uma disposição ou tendência a resolver as incongruências próprias. A ideia da mudança provoca-nos tal incomodidade que qualquer ordem existente nos faz sentir mais seguros. O sesgo de justificativa do sistema é pesquisado desde a psicologia social, que nos deixa alguns detalhes reveladores a respeito da lentidão da mudança, do por quê é que parecem perpetuar-se os problemas sócio-políticos dos nossos tempos. Segundo esta perspectiva, em certas condições sociais, resistimo-nos a mudança social e justificamos e protegemos o sistema social existente. Assim, encontramo-nos com as frases tão recorridas: todos são iguais e, portanto, a minha conduta não foi errónea, ou não estou de acordo com o que está a passar, mais não fica mais remédio (diminui a minha sensação de incomodidade porque há causas externas que eu não posso controlar).

Propostas para a acção

Poderemos fazer algo para não ser vencidos de todo? O valente, justo e desejável, seria enfrentar as contradições  reconhecer erros e rectificar. Isso implicaria reconhecer erros e adequar a futura conduta às atitudes. Isto é, mudar a conduta para que seja conforme, coerente e consequente com o que pensamos. Se achamos que são injustos os recortes nos serviços públicos, a conduta consequente no futuro seria não votar àqueles que impuseram ditos recortes.

Somos conscientes de que o voto não está determinado em muitas ocasiões pela identificação com um programa, senão por outros factores como a fidelidade (voto herdado), o voto cativo (como compensação) ou pela identificação com uma classe social à que se aspira e não se pertence (como os operários de direitas).

Seguindo a Martín Baró, quem como dizíamos anteriormente desenvolveu o seu trabalho em América do Sul: 
"o processo dialéctico pelo que as maiorias Latinoamericanas poderão apagar a sua atitude fatalista envolve três importantes mudanças:
a.- A recuperação da memória histórica. Só na medida em que as pessoas e grupos adquiram consciência sobre as suas raízes históricas, sobre todos aqueles factos e condições que configuram a sua realidade, poderão situar numa perspectiva adequada para avaliar a sua própria identidade. Saber quem se é supõe saber de onde se vem e de quem ou que se depende. 
b.- A organização popular. Supõe a consciência de que existe uma profunda comunidade de interesses entre todos os membros das classes oprimidas e de que imutabilidade do seu mundo é devida, em boa medida, à sua divisão e isolamento individualista.
c.- A prática de classe. Nenhum sentido teria uma consciência história que não se operativizara na busca de uma nova identidade social, ou a organização que não se materializasse em actividades em benefício para os sectores populares que rompam o círculo vicioso da sua passividade e marginação. Mais ainda, é difícil pensar em que se desenvolva uma verdadeira consciência histórica ou que se consiga uma organização popular fosse do contexto duma prática popular que por necessidade tem que ser uma praxe de classe, isto é, articulada no eixo dos interesses populares".
Em resumo, e transladado também ao nosso contexto, a superação das atitudes fatalistas passaria pela tomada de consciência, a organização e a mobilização.

Neste momento histórico e face as injustiças sociais que nos toca presenciar ou viver, há que tomar partido, situando ao lado dos que as sofrem, por um lado e, pelo outro, aumentando a concientização e empoderamento dos cidadãos  para modificar as atitudes presentes de imobilismo e passividade política. Neste sentido, conviria ter presente a Alain Badiou, quem afirmava o seguinte: "há que actuar. Porque não é a nossa acção a que deve de dobrar ao campo do possível, senão que é a própria acção a que pode abrir um novo espaço de possibilidades". Um sujeito - diz Badiou- é um ponto de uma conversão do impossível ao possível. A operação fundamental dum sujeito é estar num ponto em onde algo impossível se converte em possibilidade. Agora é quando temos a oportunidade de explorar novas formas de nos relacionar com nós próprios, com os demais e com o nosso meio. Quando podemos procurar modos de vida diferentes? Como dizia Ofélia, "o que somos, sabemo-lo; não sabemos, no entanto, o que podemos ser".


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