20/06/2013

Die Linke: 100% social

Luís Fazenda. Opinião tirada do Esquerda.net (aqui). Luís Fazenda é professor e deputado do Bloco de Esquerdas. Mais informação no site de Die Linke (aqui). 

Parteitag in Dresden

Em Dresden, no passado fim de semana, o centro de congressos acolheu uma assembleia de delegados com forte composição sindicalista. E dali saiu o aviso a Merkel: fim da austeridade, justiça social!
A recuperação de direitos sociais, sucessivamente reduzidos pelos governos de Gerhard Schröder e Angela Merkel, é pois o mote de campanha. E o leque de exigências é vasto: baixar de 67 para 65 a idade da reforma, garantir um mínimo de 500€ de subsídio de desemprego, subir as pensões até um mínimo de 1000€ (na Alemanha as pensões públicas equivalem ao regime do complemento solidário), revogar a legislação Hartz (nome do ministro do SPD de má memória) que liberalizou os despedimentos e precarizou o trabalho. Reclama ainda a esquerda socialista um programa extraordinário de despesa pública de 100 mil milhões de euros para relançar os serviços públicos de educação, saúde, transportes e reconversão ecológica. Este programa é naturalmente polémico para todos os adversários, de si submissos ao modelo privatizador.
Curiosamente, o candidato a chanceler pelo SPD, Peer Steinbruck, que já foi ministro das finanças no governo anterior de Merkel, pareceu mais acirrado contra o Die Linke do que as hostes da CDU/CSU. O Die Linke acompanha este programa de fomento com a intenção de uma vasta reforma fiscal anticapitalista, que lhe possa servir de financiamento, bem como o regresso ao setor público das empresas que prestam serviços de interesse geral (energia, transportes, entre outras).
Na verdade, o programa sufragado pelo congresso como plataforma eleitoral apresenta importantes bandeiras para além das que são incidentes na justiça social. Refira-se o chamado Plano B na reconversão ecológica, muito centrado na eficiência energética como projeto económico global, extirpando o nuclear e descarbonizando fortemente. Também as questões relativas à paz e desarmamento mereceram debate: o Die Linke apresenta-se como o único partido que defende a paz no Bundestag. E assim tem sido com a reivindicação da retirada das tropas alemãs do Afeganistão e o propósito de banir a venda de armas. Para além da dissolução da Nato, preconiza a extinção da Agência Europeia de Defesa a quem culpa por ser um balcão da indústria do armamento. Como se depreende, a ênfase na ecologia e paz ajuda fortemente a demarcar as posições dos "vermelhos" face aos verdes cuja prática política se afastou desses fundamentos nos quais nasceram.
A discussão que suscitou maior interesse, emoção até, foi como se previa aquela relativa à União Europeia. Consolidaram-se posições de oposição ao Tratado de Lisboa e ao tratado orçamental, e desenvolveu-se a ideia geral do Welfare State como alternativa, com um plano de investimento público muito similar ao que desenham para a própria Alemanha. Observe-se a preocupação que manifestam contra o dumping salarial, causa que une o assalariado alemão e o português ou outro qualquer.
Mas na questão europeia o debate mais cortante prendeu-se com a manutenção ou abandono do euro, da moeda dos 17. Oskar Lafontaine, ex-ministro das finanças do SPD e ex-presidente do Die Linke, tinha vindo a defender a saída da moeda única e o regresso ao marco, com base na disfuncionalidade do sistema e numa solidariedade-liberdade com os povos do sul. A direção do partido retorquiu com a tese do erro económico situado no choque da austeridade, e não propriamente na política monetária, apesar dos seus erros. Os líderes em paridade do partido, Katja e Bernd, alertaram para o perigo da desvalorização ainda mais acentuada do valor dos salários e das poupanças do povo alemão para além da escalada especulativa dos mercados de bens e capitais em toda a Europa. A posição de Katja Kipping foi bem destacada pelos media, como resposta à sugestão centrífuga. A votação foi avassaladora contra a saída do euro e a favor de concentrar o combate na política económica, sem descurar medidas de reserva monetária, incluindo a mutualização da dívida pública.
O resultado dessa votação é também um sinal importante para a esquerda europeia, concorde-se ou não, já que esse debate existe por toda a zona euro. A prática de Cameron, com a Inglaterra fora do euro, acelerando a austeridade, acaba por se tornar num argumento elaborado por aqueles que desvalorizam a questão monetária. Esta matéria de escolhas sobre o euro motivou também um espaço próprio do congresso, de reuniões separadas e simultâneas das várias tendências internas, avaliando os ecos dessa discussão no período pré-eleitoral.
Marisa Matias, falando em nome do Partido da Esquerda Europeia, foi muito aplaudida ao preconizar uma ofensiva em escala europeia para derrotar o austeritarismo, a constante defensiva é um logro, desafiando a criação de governos de esquerda, hoje inexistentes, em vários estados para poder mudar a Europa.
Vejam bem o nosso orgulho: todos e todas entoaram uma Grândola de versão alemã, talvez ainda desafinada, mas carregada de futuro, ecoando para lá do Elba.
Adjacente ao centro de congressos de Dresden, parecendo absorta na pedra, está solitária uma estátua de Dostoiévski, escorregando numa cadeira, desatento ao destino. O autor de "Crime e Castigo" parece servir de acusatório aos crimes de Merkel que clamam por castigo popular. Empreitada difícil, punir Merkel, mas não falta no Die Linke a bateria da razão social e o ritmo da luta.


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