10/12/2013

Sobre papas, capitalismo e esquerda

Vicenç Navarro. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Inês Castilho.

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Que há de novo nas críticas de Francisco ao sistema? Por que seria tolo desprezá-las, na conjuntura complexa que vivemos?

 
Quando eu era menino, meus pais ensinaram que uma coisa são as religiões (aconselhando, a mim e a meus irmãos, ser respeitosos com os crentes, como parte do respeito devido a todo ser humano); e outra coisa são as igrejas (qualquer que seja sua cor), que reproduzem e gerenciam as religiões para benefício de seus aparatos ou hierarquias – o que explica sua constante identificação com as estruturas de poder às quais servem. Nem é preciso dizer que meus pais não nos exigiam respeito por essas estruturas.

Ao longo da minha vida, visitei muitíssimos países. E em todos eles sempre constatei que as Igrejas (e muito em especial a Católica) servem sempre às estruturas de poder, sendo a Espanha o caso mais patente. É portanto compreensível o anticlericalismo das classes populares na Espanha. Considero um sintoma de enorme frivolidade trivializar este anticlericalismo como um sentimento gratuito, resultado de ideologias estrangeiras que manipulam os povos. As classes populares não necessitavam de nenhum estímulo externo para ver e reagir ao que veem.

Este conservadorismo da Igreja Católica (hoje uma das religiões mais conservadoras) é, em parte, compreensível, dado o benefício econômico que lhe traz. A base material de sua ideologia – como diriam os materialistas históricos – são as vantagens materiais que derivam de seu servilismo ao poder. Este mesmo servilismo é o que explica sua postura anticientífica, pois sente-se ameaçada pelo conhecimento. Não por acaso só no ano de 1992 (sim, 1992) a Igreja Católica desculpou-se por haver, no século XVII, perseguido Galileu – que ousou afirmar, contrariamente ao que dizia a Igreja, que a Terra dava voltas ao redor do Sol, e não o contrário. Em 2008, o Vaticano pensou inclusive em erigir-lhe um monumento, mas decidiu adiar o projeto, porque era ainda muito cedo. Na Igreja Católica, as coisas de palácio andam meio devagar.

O que acontece no Vaticano?

É interessante, por certo, que no jornal diário do Vaticano um historiador alemão, Georg Sans, tenha escrito em 2009 um artigo louvando Karl Marx por sua introdução do conceito de alienação criada pelo capitalismo. Dizia Georg Sans: “temos de nos perguntar se Marx não estava certo, ao descrever o capitalismo como gerador de alienação…” (citado no artigo “Is the Pope Getting the Catholics Ready for an Economic Revolution? (Maybe He Read Marx)”, de Lynn Parramore). E as declarações do novo papa criticando o capitalismo estão gerando um grande rebuliço.


Há que dar-se conta de que a Igreja Católica, e concretamente o Vaticano, sempre tiveram atitudes críticas com relação aos excessos do capitalismo. Desde as encíclicas de Leão XIII (1878-1903) até João Paulo II, as críticas aos exageros do sistema têm sido constantes. Foram mais acentuadas, aliás, quando ideologias contrárias à Igreja (ainda que não contrárias à religião), como o marxismo, alcançavam grande poder de atração junto aos movimentos de trabalhares e intelectuais do mundo ocidental.

O que é novo no Vaticano é que, no documento que acaba o Papa Francisco acaba de publicar sobre a pobreza e a Igreja, parece haver uma suspeita de que se ensaia um passo adiante. A crítica não se limita aos excessos do capitalismo, mas ao capitalismo em si. Há partes do documento que parecem aproximar-se desta postura. Escreve Francisco: “o mandamento Não matarás estabelece um mandato de respeitar a vida humana. Daí que este ‘não matar’ deve aplicar-se a um sistema econômico baseado na desigualdade e na exclusão…”. Acrescenta Francisco que “tal economia mata. Daí que até que não termine o domínio absoluto dos mercados e sua especulação financeira (que Francisco indica, corretamente, ser intrínseca ao capitalismo…), e até que não se ataquem as raízes dessas desigualdades, não se encontratrá nenhuma solução aos problemas do mundo, ou a problema nenhum”.

Outro parágrafo de Francisco: “algumas pessoas (Francisco poderia ter escrito a maioria dos establishments econômicos, financeiros, políticos e mediáticos europeus e estadunidenses) continuam defendendo as teorias do ‘trickle-down‘, segundo as quais a concentração de riqueza produzida no crescimento econômico (capitalista) e em seus mercados trará inevitavelmente maior justiça e inclusão, ao aumentar a riqueza, melhorar a vida de todos e a coesão social. Essa opinião, que nunca foi confirmada por dados, expressa uma fé ingênua e crua na bondade dos que concentram o poder econômico e na eficiência sacrossanta do sistema econômico existente”. Não vi este parágrafo citado em nenhum dos meios de comunicação de maior difusão, que têm excluído sistematicamente vozes críticas ao neoliberlismo dominante.

Não é necessário dizer que a resposta foi previsivelmente hostil. Nos EUA, um país com cultura midiática dominante profundamente conservadora, já apareceram vários artigos, escritos em tom alarmante, que “Marx está inspirando o Papa”. Sarah Palin, a dirigente do Tea Party, manifestou seu choque diante das declarações de Francisco. E mais de um editorial indicou que, da mesma maneira que o papa João Paulo II contribuiu para o colapso da União Soviética, o papa Francisco pode ajudar a acabar com o capitalismo.

Essa imagem me parece exagerada. Mas seria um erro se as forças progressistas ignorassem as mudanças no Vaticano. Entendo e compartilho as reservas e o ceticismo sobre o novo papa, ceticismo estimulado por casos tão ofensivos e prejudiciais aos democratas como o silêncio de Francisco diante da homenagem aos que tombaram na Cruzada espanhola. Mas considero valiosa a existência, na Igreja, de transformações que diluam sua esmagadora oposição à mudança e ao progresso. Daí sua enorme importância. Seria um grande erro não estar ciente disso, em países onde a Igreja sempre desempenhou papel negativo em defesa da ordem econômica estabelecida e contra a expansão dos direitos humanos.
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