23/03/2011

Agora que ninguém olha para o Egito

Óscar de Lis. Tirado de aqui. O autor é membro do Movimento Galego ao Socialismo (MSG), formaçom integrada no BNG e umha referência para a blogosfera da esquerda galega.

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A Líbia (#Libya) está por toda a parte. Poucas pessoas há já que pensem ainda no Egito e na Tunísia. Com a velocidade a que devoramos tudo, o que lá aconteceu parece tema passado, caducado e de novo intranscendente. Não é, porém, tanto assim: o Egito e a Tunísia aparecem no caixão do desbotado para nós – consumidores de dramas e tragédias – mas a realidade porfia e, nestes dias em que todas as olhadas se deitam sobre a intervenção militar da OTAN, os seus problemas operativos e as discrepâncias nos intestinos do seu comando, essa mesma realidade e a constatação de que o tempo avança mesmo que não estejamos diretamente a consumi-lo, impõem-nos uma pergunta incómoda: que há do Egito e da Tunísia?

No roteiro marcado polos meios de comunicação principais, que servem aos interesses económicos principais, está o elogio à transição política no Egito após a queda de Mubarak. Há apenas umas horas, o presidente Ban Ki-moon da ONU elogiou essa transição, comandada por Omar Suleiman, a pessoa que Mubarak deixou à frente do país enquanto ele se despedia de caminho à Arábia Saudita. Suleiman é agora o homem forte do Poder no Egito, talvez o país com mais agentes da CIA por metro quadrado, e a propaganda dos grandes impérios mediáticos está empenhada em apresentá-lo como parte fundamental da solução. É por isso que, seguindo o manual de bom fazer para estes casos, Suleiman aparece transformado num democrata convencido e no promotor da solução, que passa –dizem-nos– por assumir a democracia como modelo. Há só uns dias o povo egípcio votou favoravelmente a nova constituição e haverá eleições antecipadas. Para esses meios e para o modo de espremer o mundo que defendem, a existência de eleições define e verifica por si mesma a existência de democracia. De modo que antes o Egito era um aliado, depois se converteu numa ditadura e agora é já um país democrático – tudo no prazo de dous meses.

É claro que as democracias que vaia haver no Egito e na Tunísia, se é que imos poder chamá-las assim, não vão ser democráticas: todo o mais, serão como essas democracias operativas que há por toda a parte e nas que as pessoas, com independência dos seus interesses e necessidades próprias, sempre colocarão à sua cabeça um homem (um macho) chamado a velar polos interesses do capital, das empresas e do consumo – que são também (não por acaso) os interesses dos que estão a hoje a invadir a Líbia e antes invadiram o Iraque e o Afeganistão. Os novos governos que vaiam aparecer agora deverão ser ferramentas de estabilidade interna e promoção de investimentos estrangeiros – que é a folha de rota de qualquer governo bom, e devem também canalizar o descontento social para um beco sem saída com o fim de que tudo continue na mesma. Ben Ali e Mubarak serviram antes desse mesmo modo, até que a crise alimentar e energética afundiu a sua credibilidade e deu azos à oposição popular. Ora, desconfiemos deste surto de dignidade repentino, porque, como bem sabemos, com azos ou sem eles, uma revolução não se produz espontaneamente nem sem dirigentes.

Consideremos ademais algumas questões adicionais: 1) A “revolução” egípcia foi tão pacífica que, por força, a pressão contra Mubarak teve que vir de mais lugares que a própria praça Tahrir. 2) No interior, o único líder visível, El Baradei, foi levado ex professo ali para servir como referência às pessoas que se mantinham na praça Tahrir, mas não para comandar qualquer revolta; o mais longe que chegou o próprio El Baradei foi ao status de negociador. 3) A presença de El Baradei serviu para cortar a possibilidade de que a oposição politicamente organizada de partidos e sindicatos chegasse a convergir em qualquer tipo de entente cordiale com compromissos claros (mesmo que de mínimos) e uma liderança identificável que pudesse ser vista como alternativa a Mubarak. 4) A ausência de alternativa fez com que a revolta ficasse organizada arredor da exigência apenas da demissão de Mubarak, sem propor uma substituição clara, de modo que Suleiman pudesse aparecer como mudança e possível solução. 5) A transição está a ser comandada, com efeito, por Omar Suleiman, um dirigente dos serviços secretos egípcios, que mantêm uma ligação estreita com a CIA desde a queda da monarquia em 1956 e mais ainda desde que Mubarak pôs os cárceres do país ao dispor dos EUA para a luta contra Al Qaeda. 6) Finalmente, o interesse mediático apenas se centra naqueles países que já representavam mais instabilidade antes das revoltas, e não toca outros países árabes como a Arábia Saudita ou Marrocos, considerados ditaduras e onde o controlo e a força continuam a manter uma área estável para os negócios do capital especulativo.

É difícil sabermos em que medida estas revoltas foram diretamente encorajadas pola CIA ou simplesmente utilizadas e fortalecidas neste momento para evitar mais tarde uma explosão incontrolável na zona. Contudo, considerando o dito e a experiência que temos já no que diz a respeito de ataques puramente imperialistas, acreditarmos que a CIA e quem sabe que outras agências doutros países não tiveram nada a ver com esses acontecimentos é o mesmo que não querer ver.

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