19/10/2011

O paradoxo espanhol

Artigo tirado do "Ponto de cultura" de Outras Palavras (aqui). O autor é Pep Valenzuela.

As ocupações de praças, que despertaram a atenção do mundo em maio, podem retomar com força. No entanto, a sociedade votará em peso nos sucessores diretos do franquismo


A indignação voltará de forma massiva às ruas de mais de 60 cidades do Estado espanhol no próximo sábado 15 de Outubro (15-O), uma data que já começa a fazer parte do imaginário das lutas sociais neste país. Se alguém tiver dúvida, pode, simplesmente, dar uma olhada á imprensa ou mídia em geral, que já oferece informações, opiniões e (como não?) especulações as mais variadas.

Mas, desta vez, o movimento se confronta não só com o desafio de animar as dezenas e centenas de milhares que encheram as ruas das principais cidades do país. Dos contatos que se foram tecendo ao calor das acampadas, articulou-se uma ampla rede internacional que é a que hoje promove o 15-O como jornada internacional de luta: “Unidos por uma mudança global”.

Espera-se a celebração de passeatas e concentrações em 719 cidades de 71 países (http://15october.net/pt/), desde Tokyo a Nova York, passando por Johannesburg, Buenos Aires, Santiago de Chile, São Paulo, Los Angeles, Helsinky, Copenhagen, Hong Kong, Alaska, Tijuana, entre tantas outras. A difusão do movimento é espetacular.

Porém, quem procurar um grupo de vanguarda, uma conspiração sinistra ou uma fórmula mágica por trás das ações ficará frustrado . Grupos de vanguarda não faltam; nem, para bem e para mal, conspiradores. Mas, não é isso que faz o 15 de Outubro.

Ao menos até hoje, o movimento é estado de ânimo, mais que organização. Expressa os gritos de raiva e frustração de muitos setores sociais – em especial nos países mais atingidos pela crise. O momento em que surgiu também não foi produto do acaso, nem decisão de dirigente nenhum. Foi definido pelo agravamento das dificuldades que se prolongam por mais de três anos e, na Espanha, apoiam-se num ciclo mais longo de piora da situação econômica e política.

A resposta contra essa crise ampla e profunda expressou-se nas convocatórias e palavras de ordem de maio e continua até hoje – com uma crescente inter-relação entre o movimento e bom número de organizações. Na Grécia, Portugal e Itália, as mobilizações e protestos têm presença marcante sindicatos e partidos de esquerda. Não há fórmula mágica, cada povo vai encontrar a sua via. Porém, como apontava recentemente Toni Negri, durante conversa com os indignados em Madri, a articulação internacional do movimento é indispensável para se pensar e concretizar uma alternativa concreta e real.

Os motivos são muito claros: não é imaginável algum país da Europa procurar uma saída particular ou criar qualquer tipo de autarquia. Disso, os próprios dirigentes políticos e econômicos europeus afirmam ter clareza. O ministro de Exteriores alemão declarava esta semana, para um jornal de Madri: “O decisivo é que todos os membros do euro continuem no mesmo caminho. Devemos retomar o diálogo sobre o futuro da Europa”.

Nas cidades da Espanha, a convocatória do 15-O deveria marcar um importante momento de retomada das lutas, segundo declarações e textos da maioria das pessoas e ou grupos que vêm trabalhando no e para o movimento. Esta nova rodada vai se confrontar rapidamente (em 20 de novembro), com uma data decisiva do calendário institucional. Será eleito o novo Parlamento, que por sua vez deve eleger ao presidente do governo (equivalente ao primeiro ministro). Segundo todas as pesquisas, o novo mandatário será o presidente do chamado Partido Popular (PP), Mariano Rajoy.

Daí um dos aparentes paradoxos da política espanhola. No exato instante em que os indignados retomam a luta contra as políticas de aperto fiscal e ataque aos serviços públicos, pode ocorrer a maior vitória eleitoral da direita, herdeira direta da ditadura franquista.

O fato, obviamente, não deixa ninguém tranquilo. Mas, também há consciência da dificuldade de oferecer respostas rápidas. Como dizia um dos cartazes que apareceram nos primeiros dias dos acampamentos: “Vamos devagar porque vamos longe”. 

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