07/01/2012

Apenas a esquerda ou melhor todos os de abaixo?

Juan Torres López. Artigo tirado de aquí e traduzido por nós.
Imaxe tirada de aqui.

O período de perturbações financeiras e sociais que estamos a viver mostra muitas carências e frustraciones. Acho que pode dizer-se com razão, como os próprios dirigentes mais conservadores reconhecem, que o sistema capitalista está a registar uma falha de extraordinária intensidade. Poderia falar-se inclusive do seu falhanço histórico. 35.000 mortes diárias por fome e um sistema financeiro internacional que está à beira da quebra generalizada seriam suficientes para manter com fundamento essa afirmação. Mas, ao mesmo tempo, é impossível deixar de reconhecer que se produziu um falhanço paralelo das organizações da esquerda tradicional e dos movimentos alternativos à hora de impedir que a crise do sistema se tenha resolvido com um avanço substancial para a superação do capitalismo e para o maior empoderamiento das classes trabalhadoras e, em general, da população que vem sofrendo a sua incapacidade para satisfazer as necessidades básicas dos seres humanos.

É verdadeiro que este segundo falhanço tem a sua origem em uma contundente ofensiva prévia das forças do capital que não duvidou em acabar com a vida de milhares de pessoas com tal de soslayar qualquer vislumbre de mudança social que prejudicasse aos grandes poderes financeiros, económico e mediáticos. E que a derrota das forças de esquerda foi devida em grande parte às formas muito antidemocráticas ou inclusive fascistas que veio utilizando o capitalismo ultraliberal da nossa época.

E é verdade também que o falhanço não foi total se se tem em conta que a forma em que se resolve a crise está levantado uma onda planetária de indignação, uma rebeldia que se faz notar a cada vez com mais força que quiçá seja a origem não só de protestos mais ou menos pontuas e localizadas senão de um novo espaço de luta social e de sujeitos políticos de novo tipo e com muita mais capacidade de impulsionar mudanças que os tradicionais, como está a ser em Espanha o 15-M.

Mas, em todo o caso, é evidente que estes últimos se encontram ainda em fase muito embrionária e que  por enquanto não são capazes de gerar a força necessária nem para frear a ofensiva do capitalismo ultraliberal nem para constituir uma alternativa desejada, crível e à que se lhe tenha temor pelos poderes dominantes.

Por isso acho que está completamente injustificado continuar atuando desde as bichas das esquerdas como se nada passasse, alheios à impotencia efetiva que padece à hora de propor alternativas, das fazer atraentes para as maiorias sociais e de frear os contínuos a ataques ao bem-estar, à democracia e à liberdade que se vêm produzindo.

Na minha opinião este falhanço das esquerdas não tem que ver só com circunstâncias cojunturais senão que é a culminação de uma série de deficiências e limitações históricas muito graves no discurso e na prática que vimos realizando nas diferentes sensibilidades da esquerda.

Acho que estas limitações poderiam resumir em um efeito principal: a incapacidade para influir nas condições que geram hegemonía e consenso social devido a diversas circunstâncias que poderiam se resumir nas seguintes.

Os discursos das esquerdas seguem baseando-se em categorias intelectuais e formais que já não entroncan com os códigos com os que a maioria da sociedade percebe os fenómenos sociais. Pode ser verdadeiro que isso responde a um empobrecimiento dos modos de analisar o mundo e a uma banalização dos códigos de perceção e socialización mas a realidade é que a terminología, os tons, as formas e os ícones das esquerdas mais ou menos convencionais não encaixam hoje em dia com a linguagem dominante nas nossas sociedades. A prova disso é que ao mesmo tempo que as organizações mais tradicionais apegadas a este tipo de discurso se fazem a cada vez mais alheias à população outras de carácter mais aberto, de expressão mais plural e linguagem menos nominalizado, como podem ser ATTAC ou outras associações e movimentos deste tipo, como a recente Democracia Real Já no seio do 15-M, são capazes de despregar muita mais influência e capacidade de convencimiento e inclusive mobilização social.

Embora pudesse ser verdadeiro que este fenómeno seja o resultado dos ataques injustos, da demonização por parte dos grandes poderes mediáticos ou que provenha de outro muito menos plurais e democráticos, o verdadeiro é que a velha iconografía das bandeiras, das fouces e martelos ou dos discursos das grandes categorias das mecânicas social do XIX não  permitem que tenha entendimento, empatía, entre as esquerdas que se amparam neles e as gentes normais e correntes às que se apela.

Designadamente, as esquerdas tradicionais parecem seguir empenhadas em entender que as mudanças sociais se produzem através da ação de sujeitos coletivos impersonais (a classe operária, o proletariado), sem percatarse de que conquanto as classes seguem sendo a cada vez mais nítidas e reais, o mais verdadeiro é que as mudanças não os realizam as categorias sociológicas senão as pessoas.

Às esquerdas falta-lhes humanidade, no sentido mais lato do termo, falar aos olhos aos seres humanos, rozarse com eles (como, por verdadeiro, passava nas primeiras metas dos movimentos operários organizados), gozar e sofrer com eles, em local de lhes falar para chamar à ação desde a (falsa) segurança de que conhecem os seus destinos e a forma em que podem se conquistar. Isto é, fazendo-se cúmplices e não lhes dando ordens.

A maioria das esquerdas estão ancoradas ademais em discursos maximalistas que a imensa maioria da gente considera hoje em dia completamente extemporâneos, como consequência dessa espécie de disociación cognitiva entre as suas respetivas formas de ver a natureza dos assuntos sociais e inclusive nas dos expressar verbalmente.

Por outro lado, as esquerdas vêm mostrando-se completamente incapazes de governar a diversidade, inclusive a sua própria diversidade interna. Segue estando associada a depurações, batalhas cainitas, divisões, secessões e a todo o tipo de ruturas. Não por acaso senão como fruto do que acabo de assinalar. A cada sensibilidade de esquerdas se presume dona das chaves que permitem interpretar o que ocorre no mundo e o solucionar. A socialdemocracia é traidora para quem estão à sua esquerda, mas a esquerda comunista tradicional é reformista para a que se acha mais anticapitalista e esta última perfeitamente asociable à anterior para as anarquistas ou autonomistas, e assim sucessivamente. Uma patologia que à sua vez se reproduz no seio da cada uma  como se pode perceber para qualquer observador inclusive longínquo do que ocorre na esquerda.

Isso se traduz não só em uma falta de afeto da sociedade a quem assim se comporta senão também em uma desunião atrever-me-ia a dizer que visceral que impede que as respostas em frente às agressões do capital sejam eficazes.

Trata-se, ao meu julgamento, de uma herança pesada que segue fazendo com que a esquerda se deixe levar pelo mecanicismo que se transmuta em totalitarismo quando se desenvolve entre algo que tenha que ver com a partilha do poder por muito insignificante que este seja. Não só no nível operativo ou da ação senão no de acordo sobre questões básicas que é incrível que ainda não estejam resolvidas de comum acordo: o papel da presença nas instituições, do trabalho sindical, etc.

Finalmente, acho que a esquerda paga muito caro também a sua incapacidade para "adiantar" à sociedade o que lhe oferece, para antecipar de alguma forma o tipo de mundo que deseja atingir. Salvo casos muito excecionais, e precisamente pelisso muito valiosos, e sobretudo em processos dirigidos por experiências de participação popular mais que pela esquerda tradicional, mal temos entre nós experiências de novas formas de organização económica, financeira, social, urbana... salvo casos, como digo, muito singulares e excecionais. Algo muito diferente ao que ocorria nos primeiros passos dos movimentos operários organizados quando se criavam cooperativas, vínculos de solidariedade pessoal e social muito visíveis e experiências de vida em comum que permitiam que os trabalhadores comprovassem que valia a pena optar por outro modo de viver e de atuar.

Todo o anterior não pode ser alheio ao desprezo das atividades formativas, à escassa relevância que se dá à consistência intelectual da militancia de esquerdas. É tão significativo como lamentável que não existam experiências de escolas, de seminários conjuntos, de meios de comunicação partilhados, de revistas.... de esquerdas.

A questão estriba, pois, em refletir sobre se podem-se superar estas deficiências.

Ao meu julgamento não vai ser uma tarefa fácil porque se implicam muitas dimensões do problema e a muitos sujeitos e organizações mas se trata de um repto ao que estão abocadas as diferentes correntes e sensibilidades da esquerda se não querem ir desaparecendo e ficar definitivamente convertidas em resquicios de épocas passadas.

O primeiro requisito que eu acho que há que satisfazer é assumir que esta tarefa requer um esforço gigantesco e muito sincero de convergência.
É imprescindível unir forças e levar a cabo uma aproximação de análise da situação e de propostas. Há que superar a fragmentação, o ensimismamiento e o conformismo com ocupar uma trinchera própria inexpugnável em torno de princípios abstratos e a cada vez mais vazios de conteúdo.
O segundo é o de assumir também que há que pôr em primeiro plano a mobilização sócia no seu mais amplo sentido. O domínio do capitalismo ultraliberal tem o inconveniente de que é extraordinariamente agressivo e criminoso mas a vantagem, desde o ponto de vista de lhe fazer frente, que afeta a classes e capas sociais muito amplas, muitas delas alheias aos espaços aos que tradicionalmente se associou a esquerda.

Chamar hoje em dia somente às pessoas de esquerdas, apelar exclusivamente à união da esquerda, pode ser um pré-requisito mas não um objetivo final porque isto seria se limitar a querer mobilizar a uma percentagem já quase ínfimo da sociedade. Trata-se, pelo contrário, de atuar como catalisadores da resposta social mais ampla possível, de todos e todas "os de abaixo", tendo em conta que as agressões do neoliberalismo se produzem não só às classes trabalhadoras senão a pequenos e médios empresários, a autónomos ou profissionais, às classes pasivas, ou aos jovens, às mulheres, sem distinção de ideologias e inclusive de posição social.

Para isso é preciso que as esquerdas recuperem a sua capacidade de interlocução com a sociedade e que não se dediquem a falar com elas mesmas, que recuperem o sentido humano da vida política, como dizia antes, que humanicen os seus discursos os esvaziando de categorias nominalistas para os encher de fraternidade, de sentimentos e de cercania à gente que não necessariamente compartilha nem vai compartilhar jamais com ela os códigos de pensamento e linguagem.

A esquerda, ademais, deve ser consciente de que é impossível levar a cabo as mudanças sociais só com os seus próprios partidários ou fiéis lhe, ou jogando o partido "em casa", senão que há que os fazer com os vímbios que há na cada momento, com a oposição de boa parte da sociedade à que não se pode fazer desparecer e caminhando constantemente contra a corrente. Perceber que se atua em um mundo complexo e no meio de uma constante, inevitável e grande diversidade e aprender a atuar nestas condições é a grande tarefa pendente das esquerdas e sem o qual é impossível que possam sair adiante as suas propostas de mudança.

Eu acho que se avançamos nessas linhas de convergência e empatía com a sociedade será possível abordar outros passos dos que depende a quebra do sistema de domínio no que estamos: rompendo o seu legitimação, fazendo saltar os consensos básicos do ultraliberalismo, mostrando que as suas instituições não funcionam e apresentando à sociedade novas alternativas.

Os movimentos de indignados, o 15M, demonstram que são muitas as pessoas que estão dispostas a enfrentar o repto de pensar e falar de outro modo à sociedade para desvelar e combater as injustiças e a exploração. Fá-lo-ão com ou sem as esquerdas tradicionais de modo que a estas mais lhes vale pôr ao dia, se tirar as ropagens velhos e se meter nestes novos espaços da política com inteligência e humildade.
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