07/01/2012

Hungria caminha para o fascismo

PAOLO FLORES D'ARCAIS. Artigo tirado de El País (aqui) e traduzido por nós.




A Hungria democrática chama-nos; a Europa institucional faz ouvidos surdos e dá longas, cheia de hipocrisia. No entanto, embora os Governos europeus queiram perder o tempo em burocracias e procedimentos paralizadores e irresponsáveis, é necessário que os cidadãos europeus façam de "a questão da Hungria" um problema seu, uma batalha sua. Uma batalha que já é inapraçável.
 
O Governo de Viktor Orban impôs uma nova Constituição que pisotea os direitos democráticos mínimos que Europa considera vinculantes e irrenunciáveis para qualquer país que deseje aderir à Comunidade. Modificou-se a lei eleitoral sob medida para facilitar ao partido de Orban futuras vitórias, tem-se amordazado à imprensa e a televisão, os magistrados estão submetidos à vontade do Executivo, o Banco Central perdeu qualquer margem de autonomia, e o nacionalismo e o racismo converteram-se no aglutinante popular deste autêntico fascismo pós-moderno.

Se a Hungria de Orban solicitasse hoje a entrada na Europa, encontrar-se-ia com a rejeição, porque não cumpre os mínimos requisitos democráticos. Mas o artigo 7 do Tratado de Lisboa especifica que um país membro da União Europeia deve perder o seu direito de voto quando viola esses requisitos. Por tanto, é necessário que o Parlamento de Estrasburgo, a Comissão de Bruxelas e os Governos europeus de forma individual se mobilizem de imediato para aplicar dito artigo com uma intransigencia absoluta. Qualquer tendência a esperar, de deixá-lo em mãos da diplomacia, de atuar "gradualmente", serviria só para animar ao Governo de Orban a seguir pela via que de forma tão arrogante empreendeu e que ameaça com o contágio antidemocrático de toda a comunidade política continental.

Dobrar-se à prepotencia dos poderes antidemocráticos, com a desculpa do "mau menor", é uma tentação eterna das classes dirigentes e privilegiadas. Um exemplo de trágicos protagonistas aquejados desta síndrome de vileza (que se converte em lei do silêncio) esteve em Munique, em 1938, nos mornos democratas Chamberlain e Daladier, que cederam ante uns antidemócratas coerentes, Hitler e Mussolini. Se a Europa de Merkel, Cameron e Sarkozy cede hoje ante Orban, se limita-se a olhar para outro lado ou a aprovar umas sanções de fachada, estaria a repetir, a escala reduzida, a infamia do 38. E, faz favor, que não citem a Marx, que, a propósito de Napoleón III, disse que a história se repetia sempre, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Às vezes ocorre assim, mas, às vezes, a nova tragédia, embora em formato pequeno, é para quem a vive tão devastadora como a anterior. Com o agravante de que a Alemanha de Hitler era uma potência militar e económica que equivalia, por si só, ao resto da Europa, enquanto o Governo de Orban se vê obrigado a pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional com a gorra na mão e, se se lhe encerrasse em um cordão sanitário europeu eficaz, teria que acabar se indo (igual que fez o amigo Berlusconi). Isto é, a vileza de Merkel, Cameron e Sarkozy seria uma vileza ao quadrado. Seria cumplicidade.

Não é causalidad que Orban sempre assinale a Putin e Berlusconi como modelos, correspondendo com isso a um ardente apoio por parte deles (Berlusconi declarou faz 10 anos em Budapeste: "Os nossos programas e as nossas políticas são idênticos, existe entre nós uma sintonia extraordinária"). É uma prova de que a praga do fascismo pós-moderno, manso só em aparência, é uma força estendida e com um crescimento amenazador, da que Marine Lhe Pen e a direita holandesa na maioria de Governo não são mais que outras pontas de icebergue inquietantes.

Se queremos evitar o contágio, é necessário que tratemos aos apestados como apestados. Europa cometeu um grande erro ao não intervir contra Berlusconi durante quase 20 anos e, se não intervém contra Orban, preparará o seu suicídio. Porque sancionar a Orban, privar do voto nas instituições europeias, significa apoiar à república húngara, aos cidadãos democratas húngaros, que saíram às ruas cantando o Hino à alegria de Schiller e Beethoven, esse hino adotado por Europa como próprio. O nosso hino, se não queremos que Europa seja só a dos mercaderes (com os seus ouvidos surdos), os banqueiros (com os seus valores tóxicos construídos com bonus milionários) e uns Governos democratas mas mornos (com o seu vileza e cumplicidade).
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