02/04/2012

Espanha é a maior dor de cabeça da Europa?

Marco Antonio Moreno. Artigo tirado do Esquerda.net (aqui). Espanha e a Itália entraram na zona quente, aumentando a tensão do sistema financeiro. Os líderes europeus, encabeçados por Angela Merkel, no seu afã de salvar a banca afundam não só os contribuintes (que são quem paga o resgate) mas também os próprios países. Por Marco Antonio Moreno



Há um ano advertíamos que em Espanha se travaria a batalha final pelo destino do euro e é isto que começou a acontecer. Os CDS de dívida pública aumentaram mais de 100% em doze meses, como ilustra o gráfico, e apesar de leves volatilidades, a tendência continua em alta. Tal como continuam em baixa o crescimento e o emprego, que se aproximará rapidamente dos 7 milhões de desempregados, se os ministérios despedirem 900.000 funcionários como pretende o novo ajustamento orçamental.

Ainda que tenham incansavelmente tentado confundir-nos, dizendo que o problema da dívida pública é o grande problema de Espanha, há que assinalar uma vez mais que o problema é a dívida privada e o problema da dívida privada não se resolve com cortes públicos. Os cortes públicos que o governo de Mariano Rajoy está a fazer apenas enfraquece ainda mais a economia espanhola, mergulhando-a na anemia. Com o perigo de que a economia não possa recuperar durante décadas.

 Após a falência da Grécia esperava-se que os ataques se centrassem em Portugal ou na Irlanda. Mas estes países são demasiado pequenos e não satisfazem a voracidade dos especuladores. Por isso, foram a Espanha e a Itália que entraram na zona quente, aumentando a tensão do sistema financeiro. O gráfico seguinte mostra a subida dos CDS da dívida pública italiana, que ainda que se encontrem abaixo do inferno por que passaram no ano passado, antes do LTRO de Draghi [plano de um bilião de euros de empréstimos à banca a 1%], continuam a aumentar perigosamente quando se esgotaram todos os instrumentos do arsenal de políticas monetárias.



Os CDS de Espanha e Itália são os que mais aumentaram nos últimos meses apesar da banca destes países ter sido a que sugou mais dinheiro do programa LTRO. Dos 1,023 biliões de euros injetados na banca nas operações um e dois do programa, mais de 50% (530.000 milhões de euros) foram para a banca espanhola e italiana. A Espanha obteve 27% dos recursos (275.000 milhões de euros), enquanto a Itália 25% (255.000 milhões de euros). A maior distância ficaram a banca francesa (162.000 milhões de euros) e a banca da Irlanda (100.000 milhões de euros).

As ajudas à banca, no entanto, não aliviaram a pressão do sistema e isso é o que coloca a Itália e a Espanha no olho do furacão. Os 530.000 milhões de euros não deram alívio a estes países e a tensão do sistema continua a aumentar. Que fez a banca com todo este dinheiro? O mesmo que tem estado a fazer com todas as injeções de liquidez: desalavancar-se. E isso apenas mostra o profundo problema de endividamento privado que vivem estes países.

Por isso, não deve surpreender que a imprensa estrangeira, como a manchete do Le Monde, anuncie na primeira página que Espanha é a grande preocupação da Europa ou que The Economist diga que Espanha está na primeira linha de fogo da crise. Os líderes europeus, encabeçados por Angela Merkel, fracassaram e continuam a fracassar nas suas propostas de salvamento. E no seu afã de salvar a banca afundam não só os contribuintes (que são quem paga o resgate) mas também os próprios países. Os planos da senhora Merkel estão a afundar a Europa e a condená-la a anos de escravidão.
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