05/06/2012

Por quê é que não falamos de decrescimento?

Manoel Santos. O autor é diretor de Altermundo que vem de estrenar um novo formato em papel colaborando com  a revista Tempos Novos, após o feche do único diário em galego publicado em papel, o Galicia Hoxe.



Lamuriavam-se estes dias atrás pensadores tão respetáveis como Carlos Taibo, Joan Martínez Alier ou Serge Latouche do erro que supõe pôr à cidadania na disjuntiva de aceitar ou bem ou ajustamento das disponibilidades económicas da senhora Merkel, isto é, os recortes que empobrecem todos os domínios sociais para cobrar -o que nos devem esses cidadãos malgastadores-; ou bem o crescimento do emergente Hollande, como se non existissem outras opções. E não falo, dito seja de passagem, duma suposta terceira via que non é tal, a que fala de debulhar uma estrategia que conjugue austeridade e crescimento, que talvez é o que pretendem fazer a finais de junho os "líderes" europeus a saber em que zona vermelha. Experiência sobrada temos nisso das vias terceiras.

Por nenhumas das duas -ou três- vias ou modelo de sociedade -ocidental- é recuperável, e muito menos não deserto de recursos europeu, por quanto está baseada, mais do que nada, numa exploração patológica dos recursos naturais e da biosfera por uma banda, e pela outra numa exploração indignante de que damos em chamar povos do Sul, que seguem a pagar os custes do nosso jeito de viver, por muito que esta nortenha crise elevasse uma cortina de fumaça de recorrente esquecimento.

 Sem estas duas e nocivas componentes -combinadas com o contrapeso em termos de hegemonia do socialismo real -o noso "ideal" Estado do bem-estar baseado não crescimento nunca teria chegado a ocupar o seu burato na história humana. Em palavras de Latouche: "o crescimento hodierno é apenas um assunto rendível a condição de que o peso e o preço recaiam na natureza, nas gerações futuras, na saúde dos "consumidores", nas condições de trabalho dos assalariados e, mais ainda, nos países do Sul".

 Se bem é entendível que os habitantes da cima dá pirâmide político-económica não enxerguem outro horizonte que reproduzir o sistema capitalista custe o que custar, basicamente porque a eles custar non lhes custa nada e se lhes beneficia consideravelmente; surpreende que a maior parte das novas opções políticas da esquerda transformadora que estão a xurdir na Europa, bem como as centrais sindicais, que não vem além do dia de cobrança da seguinte nômina dos trabalhadores -urgência justificável mas perspetiva suicida a meio prazo-, mal falem da opção, ou consigna, do decrescimento como um horizonte a valorizar. Mais quando o contexto atual, de evidente esgotamento planetário e em que as bilhas do Sul vão fechando por mor da emancipação social de muitos dos seus povos, fazem impossível virar a mirada para o Keynes.

O dito decrescimento não tem a ver, por suposto, coa recessão -ou se queredes o decrescimento traumático-, pois não está na lógica economicista atual. Mais bem pretende evitar essa recessão e a mais que conseguinte depressão, em que o estabelecimento dum sistema baseado na economia de guerra e o darwinismo social militarizado está mais perto do que parece. Faz teimosia, em termos gerais, na necessidade de reduzir fundamentalmente a nosa -e falo mais do que nada nos países industrializados- produção e o nosso consumo, logicamente junto com muitas medidas corretoras de mudança social, que tratariam de sacar a nossa civilização do capitalismo de jeito sereno, para adaptarmo-nos a um planeta de recursos finitos que já está mais do que explorado. É, ao cabo, um horizonte anti- ou pós-capitalista, porque como escreveu Gustave Massiah, "como todo sistema, o capitalismo non é eterno. Teve um princípio e terá um final. A sua superação está de atualidade. É necessário a partir de hoje esboçar e preparar outro mundo possível".

 Hoje existe já unha teoria bastante sólida, ou quando menos digna de ter em conta -e mesmo programas políticos decrescentistas- de como poder-se-ia abandonar esta barbárie baseada no hiperconsumo e a publicidade, na sobreprodução e a obsolescência planificada dos produtos, no crédito e no individualismo, na violência e na conculcação duas direitos humanos e planetários.

 Um projecto de decrescimento ordenado, com a drástica redução da produção e o consumo, mas também com mudanças radicais no jeito de nos organizar social e economicamente, com mais autogestão e auto-organização, com a relocalização da economia, da produção e da política, com a partilha do trabalho e a produção de bens relacionais, com a prevalência da vida social face a lógica da propriedade e do consumo ilimitado, coa reruralização e a soberania alimentar..., e evidentemente com o desenvolvimento duma vida mais frugal -se calhar dando certos passos para trás-, parece ser unha opção nada desbotável para não cairmos no que seria um decrescimento traumático, que é o que está a chamar ás portas.

Obviamente não falamos dum programa político-social que vaia resolver amanhã todos os problemas da humanidade e mais do planeta. Mais se de desenhar ou imaginar um novo horizonte, com umas ações coletivas e pessoais, sobretudo a nível local, que poder-se-iam tomar case imediatamente, e com outras que requereriam décadas de transformação. Mas sobretudo, tratar-se-ia de quando menos pôr sobre a mesa uma outra opção que pagaria a pena considerar. Um outro conceito possível do que se dá em chamar, e vaia por diante que não gosto da expressão, "altura de ambições".
Postar um comentário