26/02/2013

Vai-se Ferrín perde o galego


Artigo de Antom Fente Parada.


A demissão de Xosé Luís Méndez Ferrín como presidente da Real Academia Galega produziu reações do mais diverso, desde entusiastas mostras de alegria até outras análises que sabem ver além do estreito marco que nos impõe o mundo mediático galaico, na sua maior parte ao serviço do PP e do espanholismo mais ranço. Não é a primeira demissão de quem não comunga com os ananos que descrevia Celso Emílio Ferreiro, lembre-se a de Xosé Manuel Beiras em defesa de Caravalho Calero.

Na sua renúncia o até de agora presidente da RAG e histórico militante da FPG (Frente Popular Galega) agradeceu "a todos os membros da executiva" a sua "inteligência, superior cultura e desinteressada entrega", a que se devem "a obras, êxitos e conquistas que alcançou e conheceu a Academia no período inconcluso que remata com a redação da presente carta". Aliás, houve um especial reconhecimento para o secretário, Xosé Luís Axeitos.

Como razões para a demissão Ferrín apontou que "outros acadêmicos e acadêmicas, unidos a pessoas externas" lhe fizeram sentir que não tem "sítio na Academia", e com a melhor das retrancas galegas dize-lhes que finalmente "os seus esforços foram coronados por um sucesso completo". A missiva remata deixando claro porque é que Ferrín foi um dos presidentes mais molestos para o establishment que detenta a hegemonia no campo cultural galego: "Viva e floreza a Academia Galega! e Viva Galiza ceive!".

No entanto, desta volta os maiores ataques não procederam apenas de La Voz de Galicia e outros instrumentos da direita espanhola como o ABC, em campanha permanente contra a língua da Galiza, mas do próprio campo do nacionalismo onde, a pesar da extrema situação social que vive a nossa nação, se seguem a primar os confrontos fratricidas entre as distintas famílias que compõem o soberanismo galego. Gloria Lago pode estar satisfeita, o braseiro de Ramón Piñeiro fixo estranhos companheiros de cama para mais uma brigada de demolição.

Xosé Luís Méndez Ferrín não deixa apenas a presidência, mas também demite como membro numerário da RAG. Isto provocou que pessoas do próprio espaço nacionalista se alegraram sem levar em conta que o esperável e que aumente o entreguismo institucionalista desta instituiçãozinha e, em tudo caso, são más notícias para a língua galega. As acusações do Audi a filha e o genro, sobre as que nos deteremos a continuação, semelham tiradas do manual de estilo do PP e lembram a campanha eleitoral em que Feijoo atingiu a presidência da Junta da Galiza.

Vaia por diante que como regeneracionista que defende que o galego pertence ao mesmo diassistema linguístico do que o português nunca partilhei o furibundo antireintegracionismo de Méndez Ferrín, um dos maiores literatos do sistema literário galego, mas isso não evita a necessidade de sair ao passo duma campanha que não ataca simplesmente a uma pessoa... 

Em La Voz de Galicia, jornal entregue ao PP, lia-se o 25 de fevereiro umas declarações de Xosé Luís Axeitos que confirmam algo já vem sabido desde há tempo: a contínua ingerência do ILG e como atua este organismo, desde a sua fundação, numa linha pinheirista e letal para a língua galega. Axeitos denunciava que Ferrín, ele e outros eram o único obstáculo para evitar o controlo total da RAG por parte do ILG e do Conselho da Cultura. Não é novidade porque no eido da filologia e do estudo da língua os nomes do ILG, do Conselho e da RAG sempre são os mesmos. Esses que levam mais de 20 anos negando-lhe a Ricardo Carvalho Calero um dia das letras galegas quando é uma das grandes figuras do sistema literário galego, autor da primeira gramática moderna da língua, o primeiro catedrático de língua galega e um dos maiores bultos da crítica literária do nosso país. Isso sem termos em conta o que representa a sua concepção da língua para alguns...

Numa pequena olhada a que filólogos são membros da RAG demonstra como na sua totalidade procedem do ILG, sendo aliás os filólogos o verdadeiro grupo de poder na RAG - aliados a escritores próximos a eles-. E isto vem já desde aquele antigo pacto entre o grupo Galaxia e o ILG, que nascera ao amparo da Ley General de Educación de Villar Palasí ainda no franquismo. E lembre-se que foi alguém ligado a este campo quem recorreu desde o PSOE a obrigatoriedade de conhecer o galego que se contemplava na primeira Lei de Normalização Linguística. E nesse PSOE estavam também Carlos Casares ou Ramón Piñeiro.

Assim, mais de três décadas depois Axeitos volta assinalar um novo pacto entre ILG, Conselho da Cultura e Conselharia de Educação para que a RAG retire o recurso contra o infame Decreto de Plurilingüismo com o que Feijoo procurava o beneplácito de setores da extrema direita como Galicia bilingüe (associação criada desde o PP com financiamento das FAES - o think tank ligado ao PP e presidido por Aznar que mais subvenções públicas recebe-). O ILG sempre apostou por uma galego desnaturalizado e aproximado em extremo ao castelhano, com umas normas ortográficas que não têm em conta a história do galego-português para nada e que se fazem desde o castelhano, a língua que fagocitina o galego como dá fé a continua descida do número de falantes da nossa língua.

Portanto, sobra dizer que o ILG desde o seu nascimento pactou com o poder estabelecido em torca de numerosos subsídios e assumindo o rol de língua B para o galego. As normas do galego sempre foram na verdade as normas do ILG desde que a proposta de Carvalho Calero saíra derrotada. Uma postura semelhante a que se dava na URSS a partir de Estaline onde as línguas diferentes ao russo se lhes dava um tratamento semelhante e com o uso da ortografia cirílica (o caso romanês-moldavo ilustra bastante bem isto último). Em 30 anos a RAG foi incapaz de elaborar uma gramâtica e um dicionário convincentes quando contaram com mais ajudas do que nunca e até a presidência de Ferrín a RAG seguia a ser um instrumento que nunca erguia a voz contra os ataques continuados a língua galega que dize defender.


As acusações 

 Começaremos pelo ataque sofrido por Ferrín a conta da contratação de familiares na RAG. Em primeiro lugar, e como estudante de filologia galega na USC no seu dia, não me é difícil assinalar como esta prática é habitual: matrimônios  filhas e filhas... quando não cousas ainda muito piores. O controlo sobre congressos e publicações é total por parte desta elite que tanto sucesso está colheitando na extinção do galego. Porém, resulta que isto apenas se assiná-la no caso de Ferrín. Cumpre, contudo, dizer que não soube sair ao passo com contundência mas que na maior parte dos casos as acusações não se sustentam.

De todas as acusações apenas é questionável a contratação pela RAG de  Oriana Méndez, filha de Ferrín, como experta em sites web já que ela é filóloga. Contudo, desde o 1 de janeiro já não trabalha na academia. No resto dos casos, o genro do presidente já trabalhava na Academia com anterioridade à entrada desta diretiva e o filho do secretário da academia entrou na RAG no ano 2000, quando o seu pai apenas é membro da RAG desde 2004.

A segunda grande acusação é a do emprego dum Audi. Um argumento decalcado ao empregado pelo PP no ascenso de Feijoo à Junta contra o governo de Touriño e Quintana (a pesar de que logo se gastou muito mais novamente em mercar vários Citroën fabricados na França e não em Vigo). Porém, no caso da RAG o Audi era propriede da Conselharia de Presidência, quem cedeu o seu uso à RAG (com o que a instituição poupava quartos em taxis ainda contratando um chofer a meia jornada). Para além disto, o carro era para uso de qualquer acadêmico nos despraçamentos ligados a sua atividade na RAG.
 
No entanto, estas acusações eram simplesmente a escusa para vencer o único obstáculo que  molestava à Junta da Galiza e mais os seu parceiros no campo cultural galego: o recurso apresentado pela RAG contra o Decreto de Plurilinguismo, já que vários acadêmicos ligados ao ILG querem uma solução pactada com o PP e a RAG de Ferrín negava-se em redondo. Mais uma vitória de quem durante décadas controlaram o poder no campo cultural galego com a cumplicidade dalgumas formações políticas que se dizem soberanistas, mas que na praxe rematam por entrar em jogos que em nada beneficiam à língua galega. Um independentista e comunista não podia presidir a RAG.
 
 Assim as cousas, esta não é já a minha academia, embora seja imprescindível esta instituição para o galego. Mas assim não  E as galegas e galegos temos que lutar por ter uma RAG merecente do seu nome e não sequestrada por interesses pessoais que nada ajudam a nossa língua. A postura maniqueia e hipócrita dalgumas formações políticas também as retrata. Todos partilham a decadência e a incapacidade em quase 40 anos de desenvolver uma linguística política atinada para a promoção da língua própria da Galiza. A todas e todos, obrigado. 


 










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