14/06/2013

Coreia, a atual crise à luz da história

Rafael Poch. Artigo tirado de La Vanguardia (aqui) e publicado o 29/11/2010. Também publicado em Rebelión (aqui).
narrativa norcoreana
A narrativa norcoreana sobre a guerra: uma epopeia nacional de oitenta anos contra os impérios japonês e americano, com os colaboracionistas do Sul por trás de ambos / R. Poch-de-Feliu



O regime do Norte não pode mudar se não há distensão 

No mundo recente tinha três nações divididas pela guerra fria: Coreia, Alemanha e Iemen. Só Coreia não se tem reunificado. A sua unidade histórica é a mais sólida do trío, pois a diferença da outros Coreia tem umas fronteiras claras desde o século X, uma etnia e uma língua unificada, e uma cultura / civilização independente que foi capaz de se manter pese à vecindade do potente foco cultural chinês. Em termos históricos a divisão nacional da Coreia é um fugaz episódio e uma grande anomalia do Século XXI.

O seu conflito é anterior à guerra fria. Não se fraguó faz sessenta anos com a guerra da Coreia (1950-1953), senão faz oitenta, com a invasão japonesa da China. A história e memória destes últimos oitenta anos marcam profundamente a narrativa na Coreia do Norte e a atual situação na península, que tem três dimensões: uma intercoreana, outra com Estados Unidos no centro, e outra entre Coreia do Norte e Japão.

O 19 de setembro de 1931, Japão, que ocupava a Coreia desde 1910, invadiu o nordeste da China (Manchuria), onde criou o Estado fantoche do Manchuguo. A resistência comunista armada contra o invasor japonês em Manchuria arrancou em um ano depois, em 1932, e não foi chinesa, senão coreana. Em Manchuria os coreanos constituíam o 90% dos membros do Partido Comunista Chinês. O seu líder foi Kim Il Sung, depois fundador da Coreia do Norte. Desde 1932 ele e os seus colegas, toda uma geração de guerrilheiros norcoreanos, se enfrentaram não apenas aos japoneses, mas também a toda a legión de colaboracionistas coreanos que estes levavam consigo.

Poder hereditário

Na Ásia Oriental, não só na Coreia do Norte, o poder é hereditário. Os herdeiros, filhos, netos e sucessores daquela mistura de guerra civil coreana e luta colonial anti-japonesa iniciada em 1932, estão hoje no poder em Pyongyang, Seul e Tokio. Em Manchuria o depois ditador da Coreia do Sul entre 1961 e 1979, Park Chung hee, ou altos chefes militares como Kim Sok won, lutaram junto dos japoneses contra os guerrilheiros de Kim Il Sung. Todo o alto comando surcoreano da guerra de 1950 estava composto por colaboracionistas dos japoneses. Uma investigação oficial surcoreana estabeleceu em 2004 que mais de 90% da elite local anterior à democracia estabelecida no final dos oitenta, estava formada por famílias ou indivíduos com antecedentes colaboracionistas. Até 2004, com a chegada ao poder de Roh Moo Hyun, Coreia do Sul não teve um líder não vinculado a essa tradição. Com o atual presidente, Lê Myung Bak do direitista Grand National Party, regressou-se a ela.

No Japão o 70% dos deputados herdaram a sua cadeira dos seus pais ou pertencem a conhecidas famílias políticas com raízes diretas na ocupação da Coreia e da China. As genealogias de políticos de primeira bicha como Taro Asso, Shinzo Abe e muitos outros, podem passar desapercibidas em muitas partes, mas não na Coreia do Norte, onde a narrativa nacional, machaconamente transmitida pelo regime desde o jardim de infância, arranca com a luta anti-japonesa em Manchuria, contínua com a lembrança da guerra de 1950-1953 contra uns americanos, aliados dos japoneses, que utilizavam bases militares no Japão, e com colaboracionistas da Coreia do Sul ajudando ao agressor em ambos casos.

Essa segunda e terceira geração política de Pyongyang, Seul e Tokio não acabou a guerra iniciada pelos seus pais e avôs nos anos trinta, porque Coreia do Norte e Japão não têm padrão os seus relacionamentos, e porque o conflito de 1950-1953 não concluiu com tratado de paz com Estados Unidos e Coreia do Sul senão com um "armistício", pouco mais que um alto o fogo provisório.

Munumento a Kim Il Sun.

Continuidades

Os doze membros da Comissão Nacional de Defesa que governa a Coreia do Norte, são curtidos ex-combatentes da guerra da Coreia, uma guerra contra o maior império militar da história que foi derrotado (porque não venceu) naquele conflito. Os norcoreanos costumam dizer que eles infringiram aos estadounidenses a primeira debacle militar da sua história. Nos seus museus cita-se, com orgulho e fachenda, a declaração do Comandante das forças americanas na Coreia, General William Clark, ao termino da guerra; "tive a pouco invejável distinção de ser o primeiro chefe militar da história dos Estados Unidos que assinou um armisticio sem vitória". Para os falcoes dos Estados Unidos, Coreia sempre foi uma espécie de assunto inconcluso, como Cuba, e depois do fim da guerra fria, manifestamente. Em Pyongyang, a experiência de guerra contra um inimigo superior e melhor armado marca a biografia e a narrativa que essa elite transmite ao país.

Para a mentalidade do Norte, Coreia do Sul é uma Coreia de segunda, algo parecido a uma república herdeira de um estado fantoche do colonialismo japonês e o imperialismo americano. Enquanto eles sempre foram independentes da China e da URSS, cujas tropas se retiraram nos cinquenta do Norte, os surcoreanos ainda mantêm 30.000 soldados americanos estacionados no seu território e outros 100.000 na região com ampla capacidade nuclear. E por trás desse despliegue segue estando o Japão prestando o seu território e as suas bases ao cerco.

Na Coreia do Norte considera-se que o exército surcoreano, infinitamente mais sofisticado e potente que o do Norte, está controlado pelo Pentágono. O ex Presidente de EE.UU. Jimmy Carter, que conhece bem Coreia do Norte e tratou repetidamente com os seus dirigentes, menciona essa circunstância para explicar por que os norcoreanos insistem tanto em manter conversas diretas com Estados Unidos, ao que Washington se nega, entre outras razões porque Roma não negocia com um regime ao que não pôde vencer militarmente faz meio século e que contínua hoje pedindo um acordo de paz como condição para qualquer coisa.

China e a sua dívida com Kim Il Sung

A guerra da Coreia começou oficialmente o 24 e 25 de junho de 1950. Nem Moscovo nem Washington a desejavam. A URSS estava esgotada pela sua holocausto nacional de 30 milhões na Segunda Guerra Mundial. Estaline temia a bomba atómica que Estados Unidos utilizava fazia tão pouco contra Japão. Pelo contrário, os inimigos do Norte e do Sul queriam zurrar-se. Os combates fronteiriços eram crónicos desde maio de 1949. A sequência da guerra é conhecida: primeiro o Norte arrolhou o Sul e aos americanos até cercá-los no extremo sul-este da península, logo o desembarco americano em Inchon deu um giro total à situação e os cercados foram os do Norte, e em outubro de 1950 China interveio com os seus voluntários que salvaram ao Norte, regressando ao final à posição inicial.

China interveio na guerra porque sentiu-se ameaçada, mas também porque Mao se considerava moralmente obrigado, por causa do enorme tributo que os coreanos de Kim Il Sung pagava à Revolução Chinesa, com a sua importante participação na resistência contra os japoneses em Manchuria e na guerra civil chinesa. Oficialmente 183.108 voluntários chineses, entre eles o filho maior de Mao, Mao Anying, morreram na guerra da Coreia. A cifra divulgou-a China este outubro, ao comemorar o seu 60 aniversário com um ato no que Xi Jinping, o previsível golfinho de Hu Jintao, mencionou, "uma guerra grande e justa para salvaguardar a paz e resistir a agressão", mas os historiadores costumam manejar cifras bem mais avultadas. Em Pyongyang, a variável lembrança da ajuda chinesa, por exemplo nos museus e no cemitério de Hoechang, onde há milhares de voluntários chineses enterrados, marca como um termómetro a temperatura dos relacionamentos entre o regime e Pequim.

Extrema violência, guerra total

A guerra da Coreia foi terrível. A destruição das cidades do norte pela aviação americana, superou à destruição conhecida na Europa e Ásia na Segunda Guerra Mundial. O massacre de prisioneiros e civis foi enorme. Cálculos americanos e surcoreanos estabeleceram entre 20.000 e 30.000 as vítimas dos massacres norteñas durante a sua ofensiva no sul. Por sua vez, a cifra de masacrados no sul pelos surcoreanos desde o início da guerra, em junho de 1950, situa-se em torno dos 100.000, que se acrescentam aos outros 100.000 do período de repressões anterior à guerra, incluindo os entre trinta mil e quarenta mil mortos durante a repressão de uma revolta camponesa na ilha de Cheju. Os coreanos do sul matavam rotineiramente aos prisioneiros de guerra e torturavam sistematicamente aos que não matavam. Os americanos faziam a vista gorda e também fuzilavam civis. Os coreanos do norte eram mais seletivos na sua violência para os presos, diferença que também se deu na guerra civil chinesa, entre comunistas e nacionalistas, como está bem documentado. "Por incómodo que seja o reconhecer, as atrocidades dos comunistas foram ao redor de uma sexta parte do total e tenderam a ser mais seletivas", diz o historiador Bruce Cumings no seu último livro sobre a guerra.

Foi uma guerra total. Todas as cidades norcoreanas foram reduzidas a cinzas pelos bombardeios estratégicos americanos que arrojaram uma enorme quantidade de bombas por quilómetro quadrado e levaram a cabo experimentos de campo com armas biológicas. A destruição foi superior à conhecida por Alemanha e Japão na Segunda Guerra Mundial. Pyongyang ficou destruída em um 75%, Hamhung e Wonsan em um 80%, Chingjin um 65%, Sinanju em um 100%, Sariwon em um 95%, Hungnam em um 85%... A ameaça de um uso americano da bomba atómica esteve sempre presente. Em novembro de 1950 Truman ameaçou publicamente com ela para conter aos chineses. Em maio de 1953, em vésperas do armisticio, Eisenhower e o Estado Maior estadounidense seguiam baralhando a possibilidade. Em vítimas o balanço final da contenda foi enorme: mais de 4 milhões de mortos, dos que mais de 2 milhões eram civis. 36.940 soldados americanos mortos, 400.000 surcoreanos e 2 milhões de norcoreanos, a metade civis.

Ameaça nuclear permanente

O atual regime norcoreano, com o seu horrível historial em direitos humanos e a sua ambição nuclear, é inseparável de toda essa memória. Durante décadas, as manobras com palco de utilização de armas nucleares contra Coreia do Norte foram rotina na região. Os operativos "OpPlan 5027" e "OpPlan 5026" contemplavam o lançamento de ataques nucleares preventivos contra Coreia do Norte, com derrocamiento do seu regime e formação de um governo militar. Nixon, em 1976, e Clinton, em 1993, voltaram a formular a ameaça de um ataque militar contra o regime, mas a dissolução da URSS, com a perda da disuasoria proteção do guarda-chuva nuclear soviético, alterou o problema fundamentalmente: deixou de novo ao regime exposto a uma ameaça existencial. Na Jugoslávia e no Iraque, Estados Unidos pôde atacar porque o país concernido não tinha bomba atómica. De todos os mistérios da Coreia do Norte, o da sua ambição nuclear é o menos misterioso e o mais racional. Que não seja percebido assim pela opinião pública é um mérito dos meios de comunicação.

Na península da Coreia, na Ásia nororiental em general, a questão nuclear não é só um problema norcoreano. Como diz Gavan McCormack, da Universidade Nacional da Austrália, "o problema norcoreano nunca poderá ser entendido enquanto seja definido unicamente em termos do programa nuclear da Coreia do Norte. Esse país era objetivo nuclear muito antes de que começasse a mover para a aquisição de armas nucleares. A sua referência a uma "dissuasão" deve ser tomada em sério".

Um regime brutal que procura a mudança

Dito isto, como qualificar ao regime norcoreano? Desde os anos setenta estima-se que mantém em cárceres e campos de trabalho a uma população dentre 100.000 e 200.000 reclusos. Pelo menos 600.000 morreram nas fomes dos noventa que como o "grande salto adiante" de Mao parecem ter sido uma mistura de calamidades naturais e responsabilidades políticas. Coreia do Norte é um estado hipernacionalista e postcolonial, obsessionante pela ameaça na que sempre viveu, em que os valores confucionistas desembocaram em algo parecido a uma seita religiosa que venera ao seu pai fundador. Os seus cidadãos não são os autómatos dos desfiles e jogos florais que nos transmitem periodicamente as imagens de arquivo das televisões globais, senão gente de carne e osso, sofrida e oprimida. Tanto a sociedade como o regime desejam profundamente uma distensão que permita reconduzir os enormes potenciais do país fora da jaula militar na que se encontram. O horizonte é uma reforma à chinesa. Sem um acordo de paz e garantias mínimas de sobrevivência tal reforma é impossível. Em uma circunstância similar nenhuma ditadura asiática dos anos oitenta poderia evoluir, bem para a reforma e a abertura (China), bem para a democratização (Taiwan, Coreia do Sul).

Graças à bomba, o mundo toma-se em sério a Coreia do Norte, o regime vacinou-se contra uma invasão ou a mudança de regime induzido, e dotou-se de uma carta com a que negociar. De uma ou outra maneira, até que essa sobrevivência e reconhecimento internacional não estejam garantidos, a bomba seguirá onde está. É o seguro de vida do regime.

A ninguém lhe interessa a guerra

Alguém tão pouco suspeito de parcialidade como o ex-Presidente americano Jimmy Carter explica assim nesta semana a disposição à negociação do regime, depois da sua última visita a Pyongyang do passado julho:

"Expuseram o seu desejo de desenvolver uma Península Coreana desnuclearizada e um alto o fogo permanente. Transmiti essa mensagem à Casa Branca. Os dirigentes chineses manifestaram o seu apoio a este debate bilateral. Servidores públicos da Coreia do Norte deram a mesma mensagem a outros visitantes americanos e permitiram o acesso dos experientes nucleares a um centro avançado para o reprocessamento de urânio. Os mesmos servidores públicos deixaram-me bem claro que esta série de centrifugadoras estaria 'sobre a mesa' para as discussões com Estados Unidos. Pyongyang enviou uma mensagem coerente de que em umas negociações diretas com Estados Unidos, está disposta a um acordo para pôr fim aos seus programas nucleares e concluir um tratado de paz permanente que substitua o alto o fogo "temporal" de 1953. Devemos considerar a resposta a esta oferta".

Com respeito a China parece que o seu vínculo com Coreia do Norte aumenta mais que diminui, pese ao desagrado ocasionado pelas provas nucleares e os ocasionas tiroteios. Qual é o motivo dessa atitude? O último que quer Pequim é uma Coreia reunificada baixo influência dos Estados Unidos com a que teria fronteira direta. O declive global dos Estados Unidos já é per se muito imprevisível como para lhe abrir oportunidades no próprio pátio trasero. Uma intervenção militar da China na Coreia do Norte, comprometeria a sua imagem de grande potência "macia" e não militarista na Ásia e o mundo. Assim, o único que fica é manter a situação e trabalhar para criar as condições a uma solução negociada que não altere o equilíbrio regional. Isso é o que faz China.

Uma guerra não interessa a ninguém. Para China seria uma ameaça à sua principal prioridade desenvolventista. Para as duas Coreas significaria uma promessa de mútua destruição. Empantados no Iraque e Afeganistão, e com a energia agressiva que ainda lhe resta centrada no Irão, ao redor da primeira região energética mundial, Estados Unidos não está para mais bailes na Ásia. A negociação direta com Pyongyang é a única solução, e para recordá-lo, em um mundo com muitos outras frentes abertas e uma crise financeira no seu centro, Coreia do Norte tem que lançar de vez em quando alguns inquietantes fogos de artificio.

Postar um comentário