03/07/2013

O noso camarada Durruti

Magnus Enzensberger. Tirado de aqui. O livro completo pode consultar-se premendo aqui. Extracto traduzido por À revolta entre a mocidade.

Magnus Enzensberger, El corto verano de la anarquía, (Barcelona, Anagrama, 2002)

A começos de 1936 Durruti vivia cabo da minha moradia, num pequeno prédio no bairro de Sans. Os empresários tinham-no posto na listagem preta. Não encontrava trabalho em nenhuma parte. A sua companheira Émilienne trabalhava como acomodadora num cinema para manter a família.

Uma tarde fomos a visitá-lo e encontramo-lo na cozinha. Levava um mandil, fregava os pratos e preparava a ceia para a sua filhinha Colette e a sua mulher. O amigo com quem fora tratou de brincar: "Mas, ouve Durruti, estes são trabalhos femeninos". Durrutir contestou-lhe secamente: "Toma este exemplo: quando a minha mulher vai trabalhar eu arrumo a casa, faço as camas e preparo a comida. Aliás, banho à nena e visto-a. Se acreditas que um anarquista tem que estar metido no bar ou no café enquanto a sua mulher trabalha, quer dizer, que não compreendeste nada".  

Para mim, o seu heroísmo não estava tanto no que contam os jornais, quanto sobretudo na sua vida cotiá. Pronto, isso sabe-o muito pouca gente, sabem-no os que o conheceram no café do corruncho, na sua casa ou no cárcere. Pelas mãos de Durrutir passaram milhões e, no entanto, vim-no remendando-se as solas dos sapatos porque não tinha dinheiro para levá-los ao sapateiro. Por vezes, quando nos encontrávamos num bar, não tinha sequer os quartos para pedir um café. 

Quando iam visitar-nos saia amiúde com um delantal posto, porque estava pelando patacas. A sua mulher trabalhava. Ele não se importava; não conhecia o machismo e não se sentia ferido no seu orgulho ao fazer as tarefas do fogar. 

Ao dia seguinte tomava a pistoal e botava-se à rua para confrontar o mundo de repressão social. Fazia-o com a mesma naturalidade com que a noite anterior lhe mudara os cueiros à sua filha Colette".
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