09/12/2013

Ucrânia: a dobradiça entre Rússia e a União Europeia explode em protestos

Àngel Ferrero. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido por nós. Àngel Ferrero é membro do comité de redação de Sin Permiso. Este artigo está baseado em outro publicado em La Directa o 4 de dezembro de 2012. Atualizou-se e introduzido ligeiras modificações. 

 Foto: A min unha "revolución" como a que supostamente se está a producir en Ucrania -liderada por curas ortodoxos, cosacos, neonazis e tradicionalistas ultranacionalistas de todo tipo- dame algo de noxete. En calquera caso, non é unha revolución, se non mais ben unha contrarrevolución.


Os protestos na Ucrânia contra a decisão do governo de Víktor Yanukóvich de não assinar finalmente o Acordo de Associação com a União Europeia adotaram um cariz violento o passado 1 de dezembro, quando, após vários choques entre os manifestantes e a polícia em Kiev, um grupo tentou ocupar diversos edifícios governamentais no centro da capital.

No dia anterior, a Berkut -o corpo especial da polícia ucraniana, similar aos OMON russos- dissolvia brutalmente uma manifestação pacífica em Maidan, a Praça da Independência. A cena de um grupo de manifestantes encapuchados tentando romper as bichas da polícia com uma excavadora deu a volta ao mundo. A situação no país segue sendo tensa. Não só se registaram protestos em Kiev e Ucrânia ocidental -onde se localiza tradicionalmente a base de apoio pró-ocidental-, senão também em Dnipropetrovsk e outros municípios da Ucrânia oriental. Uma parte da oposição está a tratar de tumbar ao governo de Yanukóvich com todos os meios ao seu alcance: protestos de rua, ocupações
de edifícios públicos, convocações de greve e moções de censura. Tem-se rumoreado que o executivo contempla a possibilidade de decretar o estado de exceção, que o governo e Rússia têm infiltrado provocadores nas manifestações, e o deputado do conselho de Sebastopol, Serguéi Smolyanov, inclusive pediu publicamente ao presidente russo, Vladímir Putin, que enviasse os tanques para reprimir as revoltas.

Um jogo de soma zero

Ucrânia converteu-se em um jogo de soma zero entre Rússia e a União Europeia por interesses geopolíticos (veja-se "La batalla de Ucraïna", Rafael Poch-de-Feliu, La Directa, 02/12), e agora mesmo encontra-se entre a safra e o martelo. Se Ucrânia assina o Acordo de Associação com a União Europeia, o projeto russo de criar uma União Euroasiática com Kazajistán e Bielorrusia para reafirmar-se como um polo geoestratégico estável em um mundo multipolar fracassa. A União Europeia está interessada precisamente em evitar a consolidação da União Eurasiática e trata de alargar a sua esfera de influência para o Leste, integrando a estes estados na sua periferia, no sentido mais estrito do termo: como fornecedores de matérias primas -Ucrânia é, por exemplo, um dos maiores produtores de grão do mundo e um importante produtor de carvão- e mão de obra barata para a Kerneuropa.

Além de recorrer ao fornecimento de gás como arma de negociação (como fez desde o 2005 até o 2009), Rússia poderia bloquear a entrada de produtor ucranianos e deixar ferida de morte à sua economia, já que mais de 60% das suas exportações terminam na Rússia, Kazajistán e Bielorrusia. Mas ante a ameaça de uma guerra comercial com Rússia, a União Europa não só foi incapaz de oferecer nenhuma garantia ao governo ucraniano -que reclamava um crédito de 160 mil milhões de euros para levar a cabo as reformas necessárias que a UE lhe exigia para harmonizar regulamentos-, senão que exigiu o aumento de 40% das tarifas de gás e calefação, a eliminação de subsídios e barreiras comerciais e uma congelação salarial com o objetivo de favorecer as exportações para a UE. (Para mais dados sobre o Acordo, veja-se o artigo de József Böröcz nesta mesma edição de Sin Permiso.) Todo isso em um país onde o salário médio mais elevado é de 469 euros mensais (Kiev). Em um gesto arrogante, a União Europeia exigiu ademais a aprovação de uma Lex Timoshenko que permitisse à ex-primeira ministra Yúlia Timoshenko, que se encontra atualmente em uma prisão de Járkiv cumprindo condena por abuso de poder, receber tratamento médico em uma clínica alemã.

Finalmente, a UE também recusou a possibilidade de conversas tripartitas entre Ucrânia, Russa e a União Europeia.

Se segundo o cineasta russo Vladimir Bortko, todo o que lhe fica a Rússia é "exportar petróleo, gás e prostitutas", da Ucrânia pode dizer-se a grandes rasgos o mesmo, mas excluindo o gás e o petróleo. O país encontra-se à beira da recessão: a falta de investimentos durante anos na indústria e a agricultura, a emigração e uma corrupção rampante - Ucrânia ocupa a posição 144 do último índice de perceção da corrupção realizado por Transparência Internacional -fazem com que a Ucrânia precise, no mínimo, entre 20 e 40 mil milhões de dólares para reflotar a sua economia. Mas Ucrânia sofre além de graves problemas sociais: é o país da Europa oriental com um maior índice de população com HIV/SIDA (54 infeções reportadas diárias no 2012), numerosos casos de alcoolismo e tabaquismo e um sistema social que faz águas por todas partes. A pobreza empurra a muitas mulheres à prostituição, convertendo a Ucrânia em um dos destinos de turismo sexual de muitos viajantes ocidentais. Segundo dados do 2011, umas cinquenta mil mulheres exercem a prostituição na Ucrânia, mas a cifra é com toda a segurança bem mais alta.

Um Mercedes-Benz com a União Europeia

Uma das coisas que sem dúvida mais surpreendeu a muitos observadores foi a veemência com a que os manifestantes reclamam a entrada da Ucrânia em uma União Europeia em crise, inclusive se o Acordo de Associação não contempla a adesão, e a rejeição a fazer parte da União Eurasiática da Rússia. A imprensa tem areado algumas razões históricas -esquecendo-se de outras, como que Kiev foi a capital do primeiro estado russo, o Kievan Rus-, obviando claros fatores económicos. No artigo reproduzido na semana passada nestas páginas, Petro Pustova assinalava que, apesar dos vínculos com o seu vizinho, a economia russa, -baseada na exportação de matérias primas e energia, com a sua relativamente baixa taxa de crescimento da produtividade não pode proporcionar aumento dos salários dos ucranianos nem melhores resultados macroeconómicos. O giro ideológico conservador do governo russo, destinado a galvanizar a sua base eleitoral em previsão da chegada da crise ao país, é contemplado logicamente com receio por parte da classe média ucraniana.

Não convém subestimar também não o fator psicológico. No imaginário dos manifestantes -não isento da confusão entre a União Europeia e Europa, que Bruxelas provoca-, a União Europeia associa-se ao estado do bem-estar, a ausência de corrupção, uma moeda e governo estáveis e a facilidade para emigrar a um país comunitário e encontrar trabalho. O diário polaco Gazeta Wyborcza recolhia o comentário de um manifestante, um jornalista de 32 anos que assegurava que a entrada à União Europeia permitir-lhe-ia se comprar um Mercedes-Benz, enquanto em uma Ucrânia fora da UE só poderia ter um Lada. Evidentemente, a situação atual que vive a população favorece esta idealização ingénua, mas o exemplo de Bulgária e Roménia, onde a entrada na União Europeia não significou de maneira evidente nenhuma melhoria em nenhum das feições antes mencionadas -e inclusive alguns retrocessos, como na desindustrialização de muitas regiões e o desaparecimento de muitas empresas locais, incapazes de fazer frente à competição do capital alemão e austríaco- teria que vacinar aos comentaristas, tanto aos de aqui como aos de lá, contra todo o proeuropeo.

A ultradereita e o populismo saem à rua

Com o seu anúncio de "manter a porta aberta", a União Europeia anima indiretamente aos manifestantes a continuar o protesto. Mas Bruxelas conta com dois aliados no país: a União Panucraniana "Pátria" (Batkivshchyna), a formação de Yúlia Timoshenko, e a Aliança Democrática para a Reforma (UDAR), do boxeador Vitali Klitschko. Tanto Udar como Batkivshchyna têm o estatus de observadores no Partido Popular Europeu (PPE). Segundo o confidencial German Foreign Policy, Udar recebe fundos da fundação Konrad Adenauer da CDU, interessada em criar uma alternativa a Timoshenko no país. Segundo informa o Junge Welt, Klitschko não teve nenhum conserto em recorrer à demagogia, prometendo aos manifestantes em Kiev que em 15 anos Ucrânia estaria entre os países mais competitivos da União, e que o Presidente da Comissão seria um ucraniano.

Batkivshchyna e Udar cooperam a nível de rua e parlamentar com Svoboda ("Liberdade"), um partido que a imprensa qualifica eufemisticamente de "nacionalista", mas que em realidade se trata uma formação neofascista. Por recomendação da Frente Nacional francês, no 2004 desfez-se de toda a parafernalia nazista, dissolveu o seu braço armado (uma milícia conhecida como Autodefensa Nacional Ucraniana), mudou o seu nome de Partido Social-Nacional da Ucrânia (SNUP) e substituiu o seu antigo emblema, uma runa germánica, por uma mão com os três dedos estendidos, uma escura referência ao juramento que os colaboracionistas ucranianos faziam durante a Segunda Guerra Mundial. Todo isso não impediu que o partido participasse no passado mês de junho em uma homenagem a veteranos das SS em Lviv. O seu líder, Oleh Tianhybok, pediu aos seus compatriotas que se unissem na luta para a libertação de "a máfia judia em Moscovo". O deputado de Svoboda Igor Miroshnichenko qualificou no ano passado à atriz estadounidense Mila Kunis, de origem ucraniano judeu, de "zhydovka", um termo derivado do fortemente despectivo "zhid" (жид) que pode se traduzir livremente como "suja judia". Svoboda também foi chave na anulação do Desfile do Orgulho Gay de Kiev no 2012, depois que os seus militantes se dedicassem durante as semanas prévias a perseguir e a agredir homossexuais na capital. Os padrinhos ocidentais de Batkivshchyna e Udar toleram a convivência dos seus aliados regionais com esta formação que o Centro Simon Wiesenthal condenou pela sua ideologia "antisemita, antipolaca, antigitana e homófoba" e esperam -como Batkivschyna e Udar- utilizar a Svoboda como ariete contra o governo de Yanukóvich, aproveitando tanto o seu nível de organização e implantação social como a sua aspiração a entrar na União Europeia para estreitar vínculos com o resto de formações "ultras", apesar do discurso euroescéptico que estas últimas adotaram para ganhar votos.

O grande esquecido dos protestos voltou a ser a esquerda. O Partido Comunista de Petro Symonenko, que conta com 32 deputados na Rada, foi ignorado por todos os meios de comunicação. Apesar de manter, como o seu partido fraternizo na Rússia, uma linha política que não se concorda claramente com as exigências de mudança da sociedade e estar em declive, o PCU é um dos poucos partidos que critica o Acordo de Associação e, ao mesmo tempo, a situação atual da Ucrânia, em mãos de oligarcas e especuladores. Boris Kagarlitsky recordava desde o digital da esquerda russa Rabkor.ru que enquanto os meios informavam do que passava em Kíev, em Chisinau os comunistas moldavos protestavam contra a assinatura do Acordo de Associação com a União sem que nenhum médio, nem ocidental nem russo, se fizesse eco dos protestos.

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