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17/03/2014

Ucrânia: Três perguntas incómodas aos liberais ocidentais

Yanis Varoufakis. Artigo tirado de Esquerda.net (aqui). Três perguntas incómodas aos liberais ocidentais sobre o direito de autodeterminação das minorias nacionais e um comentário sobre o papel da União Europeia. Por Yanis Varoufaki, o negrito é de nosso.
 
A maior tragédia dos ucranianos é que as suas melhores esperanças estão assentes em ombros fracos: a União Europeia! Foto de Ivan Bandura




Aceite-se – eu aceito – o princípio de que as minorias nacionais dentro de Estados assimetricamente multiétnicos têm o direito à autodeterminação. Por exemplo, a secessão de croatas e kosovares em relação à Jugoslávia, a dos escoceses no Reino Unido, a dos georgianos na União Soviética, etc., etc. Surgem então três perguntas incómodas para os liberais ocidentais.

Primeira questão incómoda: Uma vez que Croácia, Kosovo, Escócia e Geórgia conseguiram, que princípio permite negar o mesmo direito aos sérvios de Krajina, aos sérvios de Mitrovica, aos habitantes das ilhas Shetland e aos abecazes - o direito de instituírem, se assim o desejarem, os seus próprios Estados nacionais nas zonas em que constituem uma clara maioria, e somar esses Estados à lista dos novos Estados nacionais independentes?

Segunda questão incómoda: Que princípio permite aos liberais ocidentais negar o direito da Chechénia à independência da Rússia, ao mesmo tempo que defendem sem reservas o direito dos georgianos ou dos ucranianos à autodeterminação?

Terceira questão incómoda: Com que princípio se justifica que o Ocidente aceite totalmente a demolição de Grozny –a capital da Chechénia—, para não falar das dezenas de milhares de civis que ali morreram, mas responda ferozmente, ameace com sanções globais e agite o fantasma de um grande conflito reminiscente da Guerra Fria por conta da (até agora) implantação sem derramamento de sangue das tropas russas (camufladas) na Crimeia?

Coloco estas três questões, não porque ponha em dúvida a opinião de que o senhor Putin é um déspota perigoso. Não tenho a menor dúvida disso. Tenho honra em ter ficado em minoria numa reunião da direção da minha Faculdade em 2003, em que votei contra a concessão de um doutoramento honoris causa ao senhor Putin: tirei à Universidade de Atenas a oportunidade de dizer que o tinha concedido por unanimidade, o que atraiu sobre mim a ira de muitos colegas a quem o ministro grego dos Negócios Estrangeiros tinha “pedido” cortesmente que se honrasse assim o senhor Putin durante a sua visita a Atenas.

As minhas três perguntas incómodas têm dois propósitos. Recordam aos leitores a atitude do Ocidente, carente de qualquer princípio, perante as lutas e as tragédias de outros povos. E explica, em parte, por que esse comportamento sem princípios, por parte dos pretendidos campeões dos princípios democráticos, leva não só à degradação desses mesmos princípios, mas também ao reforço do poder e da influência dos Putins do mundo.

Europa e Ucrânia
Os ucranianos travaram árduas batalhas contra as forças de segurança na praça principal de Kiev para protestar contra a decisão do antigo presidente Ianukovich de desistir de um acordo de associação com a União Europeia. Porquê? Será que estão cegos e não veem as incongruências da União Europeia?

Não; não estão cegos. Os ucranianos enfrentam um tipo de problemas diferentes dos problemas com que lidam os europeus. Por muitas e duras críticas que nós possamos – com fundamento — fazer a Bruxelas, ao BCE, etc., a verdade é que os ucranianos têm outras prioridades. Por exemplo, a de se livrarem de umas forças de segurança que não respeitam os seus direitos ao ponto de torturarem e assassinarem; ou o direito de poderem viajar livremente; ou o de poderem viver num país em que os tribunais de justiça não estejam completamente à mercê da mesma máfia que impera no aparelho estatal. Para eles, o facto da democracia se encontrar em grave retrocesso na zona euro significa pouco, e para eles também pouco importa que os princípios da Europa se tornem cada vez mais num arrazoado inútil: aos olhos de muitos ucranianos, a União Europeia, por acelerada que seja a sua queda no abismo da ilegitimidade democrática, continua a parecer o paraíso.

Dito isto, a maior tragédia dos ucranianos é que as suas melhores esperanças estão assentes em ombros fracos: a União Europeia!

“Política externa europeia”: basta pronunciar estas três palavras juntas para provocar a hilaridade.

Não há tal coisa, essa é a verdade. Até o eixo franco-alemão se desfez em relação à Líbia, e muito menos podemos falar da ambiciosa ideia de uma política externa comum para a União Europeia, que pudesse atuar como um baluarte útil para a Ucrânia.

Quanto à Líbia, apesar de ser de crucial importância para os líbios, tinha uma relevância mínima para a segurança europeia, a Ucrânia é crucial, e a Europa deveria atuar com superlativa diligência. O que mais me inquieta é que a gravidade da crise ucraniana é inversamente proporcional à competência da Europa em matéria de política externa. Bruxelas estará muito entusiasmada com a expansão da sua “autoridade” para o Leste, mas está a entrar em território perigoso pessimamente equipada para lidar com as consequências.

Os EUA, o FMI, a Alemanha e a Ucrânia
A Ucrânia é – sempre foi — um terreno de batalha entre o neofeudalismo industrial da Rússia, as ambições do Departamento de Estado norte-americano e as políticas neo-Lebensraum1 da Alemanha. Vários “eurasiólogos” veem a crise em Kiev como uma grande oportunidade para promover um programa de confrontação plena com a Rússia, um programa reminiscente da estratégia anti-soviética concebida nos anos 70 por Z. Brzezinski. Veem a Ucrânia – importa ter em conta — como uma excelente desculpa para torpedear o papel dos EUA na normalização das relações com o Irão e na minimização dos custos humanos na Síria.

Ao mesmo tempo, o FMI está impaciente por entrar lá, pela parte mais vulnerável da Rússia, e impor outro “programa-estrutural-de ajustamento-e-estabilização”, o que poria sob a sua tutela toda essa zona da antiga União Soviética. A Alemanha tem a sua própria agenda, que aponta em duas direções ao mesmo tempo: assegurar, como parte da sua estratégia neo-Lebensraum, tantas zonas da antiga União Soviética quanto seja possível para a expansão para o Leste do seu espaço de mercado e industrial; e ao mesmo tempo, preservar o seu acesso privilegiado aos fornecimentos de gás da Gazprom.

Quanto à Casa Branca, é indubitável que o presidente Obama e o secretário de Estado Kerry entendem perfeitamente os limites do poder ocidental e o risco de uma atuação do tipo “falcões” nos acontecimentos da Ucrânia puder desbaratar as suas iniciativas na Síria e no Irão, num momento em que o Iraque está em plena desestabilização.

Epílogo: a União Europeia deveria deixar de imiscuir-se nos assuntos da Ucrânia
Neste contexto geopolítico, as ambições de Bruxelas deveriam cessar. A Comissão Europeia está desnorteada em relação ao desenvolvimento dos acontecimentos na Ucrânia. Quanto menos se intrometer, melhor para todos. Na realidade, os apparatchiki da UE parecem os últimos imperadores romanos, que estupidamente pensavam que o alargamento das fronteiras imperiais era tudo o que importava, quando na realidade era o próprio centro do Império que estava podre.

Artigo de Yanis Varoufakis*, publicado em yanisvaroufakis.eu a 9 de março de 2014. Tradução para espanhol por Mínima Estrella para sinpermiso.info e para português por Carlos Santos para esquerda.net

1 “Espaço vital”. Lebensraum foi um importante componente da ideologia nazi. (consultar: en.wikipedia.org/wiki/Lebensraum

* Yanis Varoufakis é um economista greco-australiano de reputação científica internacional. É professor de política económica na Universidade de Atenas e conselheiro do programa económico do Syriza da Grécia. Atualmente é professor da Universidade de Texas, EUA. O seu último livro, O Minotauro Global, é para muitos críticos a melhor explicação teórico-económica da evolução do capitalismo nas últimas seis décadas.

27/02/2014

7 perguntas e respostas sobre o golpe de estado na Ucrânia

Artigo publicado no blogue Principia Marsupia. Tradução de Luís Branco para o Esquerda.net.O negrito é de nosso. Podeis consultar todos os artigos publicados sobre Ucrânia em À revolta entre a mocidade premendo aqui.

Desde sábado a polícia e o governo de Yanukovich desapareceram de Kiev e a cidade ficou controlada pelos chamados "Comités Populares de Autodefesa". O blogger do publico.es Alberto Sicilia continua a relatar o que vê na capital ucraniana.
Com o desaparecimento da polícia, tanto o Parlamento como outros edifícios oficiais são guardados pelos "Comités Populares de Autodefesa", as milícias onde a extrema-direita assume um papel importante. Foto Alberto Sicilia
 
Espera lá, podes lembrar-me qual era a situação em Kiev antes da fuga de Yanukovich?

Resumindo bastante, foi isto que se passou em Kiev: 

1) Em novembro, dezenas de milhares de manifestantes tomam o centro de Kiev e instalam um acampamento rodeado com uma fortificação de barricadas.
2) Entre 18 e 20 de fevereiro ocorrem enfrentamentos duríssimos entre polícia e manifestantes. Pelo menos 86 pessoas morrem na praça da Independência e nas ruas adjacentes.
3) A 21 de fevereiro é anunciado um acordo entre o governo e a oposição para acabar com o protesto.
Se quiserem compreender este processo mais em pormenor, podem ler o post “¿Qué pasa en Ucrania?” e as "6 notas para compreender o que acontece na Ucrânia" (que escrevi após os confrontos de 20 de fevereiro).
 
Se havia um acordo entre governo e oposição, porque desapareceu Yanukovich?

Porque os manifestantes da praça não aceitaram o acordo.
Deixem-me contar-vos uma cena que testemunhámos. Na noite de 21 de fevereiro, os representantes da oposição vieram à praça explicar aos manifestantes o acordo a que tinham chegado com Yanukovich. Quando subiram ao palco e tomaram o microfone, as dezenas de milhares de pessoas que abarrotavam a praça explodiram num grito: "traidores, traidores, traidores". 
Todos os manifestantes com que falámos naquele dia diziam o mesmo: "Yanukovich tem as mãos manchadas com o sangue dos nossos irmãos. Já é demasiado tarde para negociar. Tem de ir embora".
No dia seguinte a polícia tinha desaparecido de Kiev e Yanukovich estava com paradeiro desconhecido.
 
E como pode o Parlamento continuar a funcionar? 

O perímetro exterior do Parlamento está controlado pelos Comités Populares de Autodefesa (tal como o Palácio Presidencial, o Banco Central e todos os ministérios e edifícios oficiais), mas continua em funcionamento.

O Parlamento aprovou no sábado - por 328 votos contra zero - a destituição de Yanukovich, que já não estava em Kiev. (Nota: o parlamento tem 450 deputados).

Mas a legitimidade dessa votação parece bastante duvidosa. Muitos parlamentares do partido de Yanukovich fugiram de Kiev e não estavam presentes. Os que ficaram votaram contra o presidente, mas mudaram as suas convicções tão de repente? Mais parece que toda a gente queria salvar o seu rabo.
 
Yanukovich era um presidente eleito democraticamente?

Sim, Yanukovich foi eleito democraticamente.

A Ucrânia tem um regime presidencialista: há eleições para eleger o presidente do governo e outras para eleger o parlamento.

Yanukovich ganhou as últimas eleições presidenciais em 2010. Obteve um milhão de votos a mais que Iulia Timochenko.

E nas últimas eleições para o parlamento em 2012, o partido de Yanukovich obteve 210 deputados. Junto com os 32 deputados do Partido Comunista e 10 independentes tinha a maioria absoluta.
 
Yanukovich era um presidente legítimo?

Os manifestantes não discutem que Yanukovich foi eleito democraticamente. O que discutem é a sua legitimidade.

Alguns exemplos que argumentam: Yanukovich assinou leis contra as manifestações e concentrações de rua, os casos de corrupção no seu governo eram numerosos e o poder judicial estava sob o seu controlo.
 
Olha lá, e é mesmo verdade que os manifestantes são todos nazis?

Há muitos grupos de ultradireita radical entre os manifestantes. (Podem ver aqui as fotos que lhes tirei). São eles que tratam da organização da "segurança" do acampamento e dos edifícios ocupados.
O seu ideário político contém unicamente dois conceitos: Deus e Pátria.

Estes grupos são também os que recebem maior atenção mediática. A razão é simples: nos confrontos com a polícia são eles que estão na primeira linha. Na maior parte das fotografias que terão visto sobre a batalha na praça, eles são a parte visível dos manifestantes.

Mas, depois de aqui passar uma semana, posso confirmar que estes neonazis não constituem a maioria dos manifestantes.

Aqui há muita gente cansada da corrupção, da falta de oportunidades profissionais, etc. e que não confiam em nenhum político, nem nos da oposição.

Interessa-lhes bastante pouco que lhes falem de geopolítica, a União Europeia, EUA ou Rússia. O que querem é um país onde possam ter um trabalho e um salário digno.
 
E agora o que vai acontecer?

Como vos contava neste post, a Ucrânia é um país profundamente dividido entre o oeste (mais nacionalista) e o leste e a Crimeia (onde grande parte da população fala russo).

Neste mapa estão os resultados das últimas eleições para o parlamento em 2012. As regiões onde ganhou Yanukovich estão a azul e a rosa as que ganhou Timochenko. A divisão é incrivelmente nítida.
Ontem o Parlamento Regional da Crimeia aprovou uma lei para deixar de pagar impostos a Kiev. 
Conseguirá alguém manter o país unido? Caminha a Ucrânia para a secessão? As próximas horas serão decisivas.

Nota: continuo por Kiev e durante todo o dia vou pondo no Twitter as situações que vou encontrando. 

26/02/2014

Ucrânia: laços indiscretos entre EUA e neo-nazistas

Max Blumenthal. Artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Max Blumenthal é um autor americano, jornalista e blogueiro. Anteriormente um escritor de The Daily Beast e Al Akhbar, ele é o autor de Gomorra Republicana: Dentro do Movimento que abalou o Partido (2009) e Golias:. Vida e Delírio em Grande Israel (2013). Blumenthal ganhou o prêmio Independent Feature a News Online da Associação para seu artigo sobre Salon.com, Dia dos Mortos 2002. Por Max Blumenthal, no Alternet | Tradução Cauê Seignemartin Ameni
 
 
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Politicas abertamente pró-nazistas do Svoboda não impediram senador americano John McCain de falar num comício do partido; nem evitaram que a secretária-assistente do Estado, Victoria Nuland, desfrutasse um encontro amigável com líder da agremiação


Quando os protestos na capital da Ucrânia chegaram a um desfecho, este fim-de-semana, as demonstrações de extremistas fascista e neo-nazista assumidos tornaram-se evidentes demais para serem ignoradas. Desde de o inicio dos protestos, quando manifestantes lotaram a praça central para combater a policia ucraniana e exigir a expulsão do corrupto presidente pró-russia Viktor Yanukovich, as ruas estavam cheias de pelotões de extrema-direita, prometendo defender a pureza étnica de seu país.

Bâners dos partidários da “supremacia branca” e bandeiras dos confederados norte-americanos [escravocratas] foram fixadas dentro da prefeitura de Kiev ocupada. Manifestantes içaram bandeiras da SS nazista e símbolos do poder branco sobre a estátua tombada de Lenin. Depois que Yanukovich fugiu do palácio estatal de helicóptero, os manifestantes destruíram a estátua dos ucranianos que morreram lutando contra a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Saudações nazistas e o símbolo do Wolfsangel tornaram-se cada vez mais comuns na praça Maiden. Forças neo-nazi estableceram “zonas autonômas” em torno de Kiev.

Um grupo anarquista chamado União Ucraniana Antifascista tentou juntar-se aos manifestantes de Maiden, mas encontrou dificuldades, com ameaças de violência das gangs neo-nazis itinerantes da praça. “Eles disseram que os anarquistas são gente como judeus, pretos e comunistas. E nem havia comunistas entre nós, foi um insulto”, ”, disse um integrante do grupo.

“Está cheio de nacionalistas aqui — incluindo nazistas”, continuou o antifascista. “Eles vieram de toda Ucrânia, e são cerca de 30% dos manifestantes.”
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Um dos “três grandes” partidos políticos por detrás dos protestos é o ultra-nacionalistas Svoboda, liderado por Oleh Tyahnybok, que clama pela “libertação” de seu país da “mafia judaico-moscovita”. Após da condenação, em 2010, de John Demjanjuk, um vigilante dos campos de extermínio que teria participado da morte de 30 mil pessoas, no campo de extermínio nazista de Sobibor, Tyahnybok propôs à Alemanha  declará-lo um herói que “lutou pela verdade”. No parlamento ucraniano, onde Svoboda detém inéditos 37 assentos, o vice de Tyahnybok, Yuiy Mykhalchyshyn cita com frequência Joseph Hoebbels. Ele próprio fundou um thinktank originalmente chamado de Centro de Pesquisa Política Goebbels. Segundo Per Anders Rudling, acadêmico especialista em movimentos neofascista na Europa, o auto-intitulado “nacional socialista” Mykhalchyshyn é o principal elo entre a ala oficial do partido Svoboda e as milícias neonazista, como o Right Sector.

O Right Sector é um grupo nebuloso, que se auto-intitula “nacionalista autônomo”. Seus membros são identificados pelo jeito skinhead de trajar, estilo de vida ascético e fascínio pela violência nas ruas. Armado com escudos e porretes, o grupo ocupou as linhas de frente das batalhas nas manifestações deste mês, enchendo o ar com seu tradicional canto: “A Ucrânia, acima de tudo!”. Em um vídeo-propaganda recente [veja abaixo], o grupo prometeu lutar “contra a degeneração e o liberalismo totalitário, pela tradição moral nacional e os valores familiares.” Com o Svoboda ligado a ums constelação de partidos neofascistas internacionais através da Aliança dos Movimentos Nacionais Europeus, o Right Sector promete levar seu exército de jovens desiludidos a “uma grande Reconquista Europeia”.

As politicas abertamente pró-nazistas do Svoboda não impediram o senador americano John McCain, de falar num comício do partido, ao lado de Tyahnybok; nem evitaram que a secretária-assistente do Estado, Victoria Nuland, desfrutasse um encontro amigável com o líder do Svoboda, em fevereiro. Ansioso para se defender de acusações de anti-semistismo, o dirigente hospedou recentemente o embaixador israelense da Ucrânia. “Eu gostaria de pedir que aos israelenses respeitassem também nossos sentimentos patriotas”, Tyahnybok observou. “Provavelmente, todos os partidos do Knesset [parlamento de Israel] são nacionalistas. Com a ajuda de Deus, deixe-nos ser assim também.”

Numa conversa telefônica vazada com o embaixador dos EUA na Ucrânia, Geoffrey Pyatt, Nuland revelou seu deseja de que Tyahnybok permaneça “do lado de fora”, mas que se consulte com Arseniy Yatsenyuk, o preferido dos EUA para substituir Yanukovich, “quatro vezes por semana.” Em 5 de dezembro de 2013, na Conferência da Fundação EUA-Ucrânia, Nuland destacou que Washington havia investido 5 bilhões de dólares para “desenvolver habilidades e instituições democráticas” na Ucrânia, embora não tenha acrescentado nenhum detalhe.
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“O movimento da praça Maiden, incorporou os princípios e valores que são os pilares de todas as democracias livres”, proclamou Nuland.

Duas semanas depois, 15 mil membros do Svoboda realizaram uma cerimônia com tochas na cidade de Lviv, em homenagem a Stepan Bandera, colaborador nazista da Segunda Guerra Mundial e então líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN-B), pró-fascista. Lviv tornou-se o epicentro das atividades neo-fascistas na Ucrânia, com os dirigentes eleitos do Svoboda liderando uma campanha para renomear o aeroporto (em homenagem ao líder fascista) e a antiga Praça da Paz. Isso, eles já conseguiram. Ela honra, agora, o Batalhão Nachtigall, rememorando um grupo, ligado à OUN-B, que participou diretamente do Holocausto. “Paz’ é um resquício dos estereótipos soviéticos”, explicou um deputado do Svoboda.

Reverenciado pelos nacionalistas ucranianos como legendário lutador da liberdade, a verdadeira história de Bandera foi infame, na melhor hipótese. Depois de participar da campanha para assassinar ucranianos que defendiam a pacificação com os poloneses, durante a década de 1930, as forças de Bandera determinaram-se a  limpar etnicamente a Ucrânia ocidental dos poloneses, entre 1943 e 1944. No processo, mataram mais de 90 mil poloneses e muitos judeus, a quem o seguidor  mais destacado de Banderas, o “primeiro ministro” Yaroslav Stetsko, estava determinado a exterminar. Bandera aferrou-se à ideologia fascista mesmo nos anos do pós-guerra, defendendo uma Europa etnicamente pura e totalitária, enquanto o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), ligado a ele travara uma luta armada sem futuro contra a União Soviética. O banho de sangue só cessou quando agentes da KGB o assassinaram em Munique, em 1959.

As conexões da Direita
Muitos membro sobreviventes da OUN-B fugiram para Euopa Ocidental e para os EUA – por vezes, com ajuda da CIA — onde forjaram silenciosamente alianças políticas com elementos da direita. “Você tem que entender, nós somos uma organização subterrânea. Nós passamos anos em silêncio, alcançando posições de influência”, disse um membro ao jornalista Russ Bellant, que documentou o ressurgimento do grupo nos Estados Unidos, em seu livro de 1988, Velhos nazistas, Nova Direita, e o Partido Republicano.

Em Washington, a OUN-B reconstitui-se sob a bandeira do Comitê do Congresso Ucraniano para os EUA [Ukrainian Congress Committee of America (UCCA)], uma organização composta por “frentes 100% OUN-B”, segundo Bellant. Em meados da década de 1980, o governo Reagan ligou-se a membros da UCCA. O líder do grupo, Lev Dobriansky, serviu como embaixador em Bahamas, e sua filha, Paula, teve um posto no Conselho de Segurança Nacional. Reagan recebeu pessoalmente Stetsko, o líder banderista que supervisionou o massacre de 7 mil judeus em Lviv, na Casa Branca, em 1983.

“Seus problemas são nossos problemas”, disse Reagan para o colaborador nazista. “Seu sonho é o nosso sonho.”

Em 1985, quando o Departamento de Justiça lançou a cruzada para capturar e processar os criminosos de guerra nazistas, a UCCA agiu rapidamente, pressionando o Congresso a travar a inciativa. “A UCCA também tem desempenhado um papel de liderança na oposição de investigações federais dos supostos criminosos de guerra nazistas, desde o início da relação entre as entidades no início, no final dos anos 1970″, escreveu Bellant. “Alguns membros da UCCA têm muitas razões para se preocupar. Elas remontam a 1930.”

Ainda hoje uma força de lobby ativa e influente em Washington, a UCCA não parece ter parece ter abandonado sua reverência pelo nacionalismo banderista. Em 2009, no 50º aniversário da morte de Bandera, o grupo proclamou-o “um símbolo de força e justiça para seus seguidores”, que “continua inspirando a Ucrânia hoje em dia”. Um ano depois, o grupo homenageou o 60º aniversário da morte de Roman Shukhevych, o comandante do Batalhão Nachtigall da OUN-B, que massacrou judeus em Lviv e Belarus, chamando-o de “herói” que “lutou pela honra e justiça…”

De volta a Kiev em 2010, o então presidente Viktor Yuschenko concedeu a Bandera o título de “Herói Nacional da Ucrânia”, marcando o ponto culminante dos seus esforços para construir uma narrativa nacional anti-russa capaz de “higienizar” o fascismo do OUN-B. (A esposa de Yuschenko, Katherine Chumachenko, atuou no governo Reagan e foi ex-funcionária da Heritage Foundation, claramente identificada com a direita “neoconservadora”). Quando o Parlamento Europeu condenou a proclamção de Yuschenko como uma afronta aos “valores europeus”, a afiliação ucraniana da UCCA no Congresso Mundial reagiu com indignação, acusando a UE de “reescrever a história da Ucrânia na Segunda Guerra Mundial”. Em seu site, a UCCA tentou rotular os registros históricos da colaboração de Bandera com os nazistas como “propaganda soviética”.

Após a derrubada de Yanukovich neste mês, a UCCA ajudou a organizar comícios em todas as cidades dos EUA, em apoio aos manifestantes. Quando centenas destes marcharam pelo centro de Chicago, alguns agitavam bandeiras da Ucrânia, enquanto outros orgulhosamente carregavam as bandeiras vermelhas e pretas da UPA e OUN-B. “Os EUA apoiam a Ucrânia!” eles gritavam.

12/02/2014

Dossier Ucrânia

 
Muito se tem falado na mídia nos últimos tempos sobre a Ucrânia. Se bem em Grécia ou em Bósnia existem protesto tanto ou mais importantes (aqui) a mídia centra-se na Ucrânia apresentando um estado ao borde da guerra civil como uma revolta cidadã pro-UE, a Eurolândia da austeridade. Ucrânia é uma dobradiça entre o imperialismo russo e o europeu (aqui) e desde Revolta Irmandinha fomos publicando diversos artigos para podermos entender com um mínimo de rigor que se passa realmente no estado ucraniano. Para além dos artigos que já incorporamos nesta apresentação do dossier recomendamos igualmente os seguintes:





Ucrânia: os neonazistas a um passo do poder

Oleg Yasinsky, tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel. O negrito é de nosso.

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Uma vez, já faz tempo, trabalhando com turismo, tínhamos que organizar um voo para uma ilha do Pacífico. Os pilotos explicaram que para obter permissão de decolagem, era preciso primeiro ter a confirmação da aterrizagem bem sucedida do avião que chegou antes, já que no caso de um acidente na pista, um segundo avião não teria onde aterrizar, e uma vez passado o ponto de não-retorno, definido pela distância e pela reserva de combustível, o avião a caminho simplesmente ficaria sem opções. Lembro-me o quanto me impressionou esse conceito de “ponto de não-retorno”, que escutei então pela primeira vez. Também me perguntei se o termo seria aplicável à historia das sociedades. Depois dos últimos acontecimentos no meu país, a Ucrânia, lembrei-me disso e voltei às mesmas perguntas.

Depois da trágica e fulminante queda da União Soviética, a Ucrânia, sua segunda república depois da Rússia em população e nível de desenvolvimento, entrou no turbulento período de sua história independente. Apesar de uma infinidade de problemas econômicos e políticos, à diferença dos seus vizinhos, a Ucrânia permaneceu neste quarto de século sob uma invejável paz social, e meus compatriotas reiteraram-me várias vezes o mito narcisista e sedutor do “caráter nacional pacífico” dos ucranianos, tão diferente do arco que vai dos bósnios aos chechenos, de gente capaz de tanta barbárie.

A partir de meados de janeiro deste ano, ninguém mais vai acreditar nesse conto. Derramou-se sangue. Desde a libertação de Kiev da ocupação nazista em 1944, a capital ucraniana não via cenas desse tipo. Os principais meios noticiosos do mundo mostraram Kiev em chamas, milhares de manifestantes, policiais, armas, bandeiras e outras figuras midiáticas, como sempre, praticamente sem qualquer contexto, entorpecendo o espectador com a sua usual anedota da luta do bem contra o mal ou da democracia contra o totalitarismo.

Sem dúvida estamos diante de um fenômeno que ainda não conseguimos entender por completo.

No território ucraniano se enfrentam hoje dois grandes predadores: o capital ocidental e o capital russo, diante dos quais os oligarcas ucranianos espreitam como chacais, à espera do momento certo para apostar no mais forte. Seguramente, no futuro vão se escrever vários livros sobre o trabalho dos serviços secretos estrangeiros na Ucrânia deste princípio de século. Desse tema já falam, e falarão ainda muito, mudando o foco de acordo com as colorações ideológicas.

Abordaremos, no entanto, outro tema, de momento menos midiático: as causas mais profundas do descontentamento popular na Ucrânia. Alguma coisa aconteceu nesse país, ainda ontem tão pacífico e tolerante, e que agora busca desesperadamente mudanças urgentes, sem distinguir os meios e as forças que hoje prometem assegurá-las.

Os protestos, cada vez mais violentos, contra um governo de direita, cada vez mais violento, são encabeçadas por grupos de ultra-direita também cada vez mais violentos. Lamentavelmente, essa ultra-direita tem agora cada vez mais aceitação social. Isso acontece porque a ultra-direita age contra um governo corrupto, que praticamente perdeu sua legitimidade frente à maioria dos ucranianos, enquanto uma outra direita, agora uma terceira, a da oposição democrática, a dos contos europeus e prantos por Yulia Timoshenkoi, não teve mérito e capacidade para encabeçar os protestos populares. Assim, melhorando os cálculos, essa guerra interna ucraniana já não seria sequer entre duas, senão entre três direitas.

Um jornalista ucraniano certa feita comparou o papel da ultra-direita nacionalista em sua luta contra o governo com o papel dos fundamentalistas muçulmanos na “Primavera Árabe”. Uma vez considerada a enorme diferença cultural e histórica entre os dois casos, a comparação parece interessante e digna de um estudo mais aprofundado.

Criticando ou defendendo o partido fascista ucraniano “Svoboda”, a mídia local usualmente ignora o fato de que, há não mais que quatro anos, esse partido não passava de um grupelho de fanáticos, cujo apoio eleitoral se expressou em tão apenas 0,12% dos votos. Ao ganhar a eleição presidencial, o atual mandatário do país, Vítor Yanukovich, pensando na sua futura reeleição, resolveu dar luz verde ao Svoboda e à sua propaganda porque, conforme seu cálculo, só poderia ser reeleito se seu futuro rival fosse um sinistro candidato fascista. Nas eleições parlamentares de 2012, o Svoboda obteve 10,44% dos votos e até o momento duplicou ou até mesmo triplicou o número de partidários.

O nível de aprovação do presidente Yanukovich, por sua vez, está em torno dos 12,6%. Se as eleições fossem hoje, com segurança Yanukovich perderia para um candidato neonazista. Entre outras coisas, essa seria uma prova a mais da destruição da memória histórica do povo ucraniano. Lembremos que na Segunda Guerra Mundial, que para nosso povo foi a Grande Guerra Pátria, morreu um de cada seis habitantes do país. Minhas congratulações às novas mídias: livres, divertidas, democráticas e anticomunistas. Uma frase típica, que ressoa nas ruas de Kiev, vaticina: “Não são fascistas, são apenas nacionalistas”. Outras parecem mais reflexivas: “Melhor os fascistas que os bandidos”. Uma das características dessa pós-modernidade neoliberal é o rápido retrocesso mental pelo qual se confunde a pátria com as bandeirinhas.

Para imaginar o pano de fundo social do drama ucraniano, tomemos em conta que os preços ao consumidor no país são similares aos da Europa Central e que a aposentadoria mínima é equivalente a 100 dólares mensais, com a média chegando a 170 dólares, que é paga com muito atraso. As aposentadorias que se pagam sem atraso são as dos ex-deputados, que, por sua vez, podem alcançar os 15.300 dólares mensais. A família do presidente Yanukovich, tal como a de Somoza na Nicarágua, controla grande parte da economia do país. Seu filho Aleksandr é a quinta pessoa mais rica da Ucrânia. Ele começou seus negócios há poucos anos, arrendando ao governo os helicópteros recém privatizados.

Na Ucrânia, fala-se bastante do seu atual presidente, que quando jovem foi um assaltante e esteve preso por roubos acompanhados de violência. Na realidade o jovem Vítor Yanukovich, criado pela avó, vivia nos subúrbios de um povoado mineiro, e aos 17 anos foi condenado a um ano e meio de prisão por pertencer a uma gangue que roubava gorros de pele dos transeuntes. Comparadas às fábricas, terras, palácios e somas milionárias do Estado roubados por tantos políticos ucranianos, as ternas lembranças de adolescência de seu presidente são uma piada que não mereceria maior atenção, ainda que a mídia assegure o contrário.

A propósito do curioso “sonho europeu” dos ucranianos, há seis meses estive na Ucrânia Ocidental, o berço do atual nacionalismo, e visitei cidadezinhas fantasmas: todos os seus habitantes se foram, para trabalhar na Europa Ocidental ou na Rússia. Pedreiros, motoristas, empregadas domésticas e prostitutas ucranianas continuam invadindo os mercados de trabalho formal e informal da Europa e do mundo. Enquanto muitos latino-americanos voltam para seus países de origem, saindo da Europa, os ucranianos não param de chegar. Em comparação com a realidade do país, a Europa para eles, mesmo em crise, continua sendo quase um paraíso. “Não tem comparação!” — dizem. Uma mulher de um povoado perto de Lvov, que tem seus quatro filhos e dois netos espalhados entre a Polônia e a Itália, me explicava: se pudéssemos ganhar aqui, trabalhando em qualquer coisa que fosse, pelo menos (o equivalente a) uns 150 dólares por mês, ninguém iria embora. Para sair do país rumo ao Ocidente, os ucranianos necessitam vistos. Os vistos para o paraíso europeu não são dados a todos. Para muitos ucranianos, essa é a verdadeira razão do misterioso desejo de que o país seja membro da União Europeia.

E o que estaria acontecendo com a esquerda ucraniana? Quase nada, porque quase não existe. O Partido Comunista da Ucrânia, que até a semana passada foi aliado do governo de direita de Yanukovich, agora, seguindo seu instinto oportunista, “se indignou com a repressão” e “rompeu com o regime”. Muitas vezes, acho que a última esquerda verdadeira do país foi, na verdade, aniquilada nos campos de concentração de Stálin. Os grupelhos da esquerda ucraniana, mais um punhado de indivíduos que organizações, estão completamente ultrapassados pela magnitude dos acontecimentos atuais. Frente aos fatos, encontram-se divididos: uns optam por “estar com o povo” e “primeiro acabar com o regime e depois ver o que se pode fazer”; outros dizem que “esta guerra não é nossa” e que a derrota do atual governo conduzirá o país a uma ditadura muito pior. Ambas as posturas são honestas e reconheço que me sinto esquizofrenicamente dividido, dando razão às duas e olhando comodamente de longe.

À microscópica esquerda ucraniana, que critica o povo por seguir as direitas, eu gostaria de recomendar que relesse o poema “Solução”, de um grande alemão e grande comunista chamado Bertolt Brecht: “Depois da revolta de 17 de junho / o secretário da União de Escritores fez distribuir panfletos na avenida Stálin / declarando que o povo havia rompido com a confiança do governo / e que só poderia recuperá-la redobrando o trabalho. / Não seria mais simples para o governo, nesse caso, / dissolver o povo e escolher outro?”

Muitos na Ucrânia falam de uma “ditadura fascista” de Yanukovich e quando tentam explicar a situação a um latino-americano, por exemplo, definem o presidente como um “Pinochet ucraniano”. Sem que eu sinta qualquer coisa de positivo com relação a essa figura, não hesito em afirmar que uma verdadeira ditadura é algo bem diferente, e significa níveis de repressão e bestialidade absolutamente diferentes, que tomara que os cidadãos da Ucrânia jamais cheguem a conhecer.

Meu amigo Andrei Manchuk, uma pessoa muito honesta, e além disso um dos poucos jornalistas ucranianos de esquerda, afirma com toda segurança que Vítor Yanukovich, sem dúvida, é um ladrão e delinquente, mas idiota não é — e jamais teria ordenado tortura e assassinato de opositores, porque realmente não lhe convém. Andrei disse que Yanukovich é um adversário débil e indeciso, e que seu governo não caiu há um mês apenas porque a “oposição” só busca o poder, mas não quer arcar com responsabilidade alguma em um país saqueado e em colapso. Os únicos que não têm medo são os neonazistas.

Vários analistas ucranianos afirmam que, pela mesma razão da debilidade do presidente, aliada a um repúdio cidadão generalizado a ele, Yanukovich deixou de representar uma solução e se converteu em um problema. Tanto Putin como vários oligarcas ucranianos (e outros atores) já teriam optado por desfazer-se dele e substituí-lo por alguém mais hábil e carismático.

Exponho a seguir um resumo de dois olhares ucranianos, que refletem bastante bem duas posturas internas, predominantes entre quem não se identifica com nenhuma das três ou mais direitas nacionais. Não se trata de una tradução literal, mas de uma síntese.

(texto 2 ucrânia)

Sem estar de acordo em tudo com essas opiniões, sinto que refletem bastante bem o sentimento geral das pessoas que não compartilham as paixões nacionalistas das novas “vanguardas” ucranianas.

Enquanto isso, em Kiev continuam circulando os rumores de todo tipo. Falam de centenas de sequestrados por órgãos de segurança, contam que o governo soltou todos os delinquentes perigosos. Das províncias chegam a Kiev, fora de horário, estranhos trens com jovens musculosos, contratados a 50 dólares por dia, para “ajudar a manter a ordem”. Desconhecidos matam um policial à paisana durante a noite. O ódio cresce e se expande. Grupos de manifestantes ocupam edifícios do governo regional e nacional. O movimento rapidamente se expande em direção ao sul e ao leste do país, territórios tradicionalmente pró-russos e politicamente mais passivos. Ao mesmo tempo, um ex-ministro da Defesa chama os cidadãos a se defender com as armas diante da violência policial. Os manifestantes anunciam a criação da “Guarda Civil”. Circulam listas oficiais com centenas de presos políticos. Uma recente investigação jornalística desmente como sendo uma falsificação o vídeo dos policiais que desnudam um manifestante; no entanto não sabemos se esse desmentido é correto ou não. Não obstante, outros mortos e torturados com certeza são reais. A maioria dos autores desses crimes são anônimos e temos muitas razões para desconfiar das “versões oficiais” de ambos os lados. Temos também, no entanto, todos os fundamentos para acreditar que os grupos econômicos que estão por trás da atual crise podem estar incentivando a divisão do país e o choque entre seus cidadãos, para, em seguida, substituir a besta Yanukovich por algum outro, mais sutil e carismático, mas talvez muito mais parecido a um ditador fascista que o atual presidente.

Concluindo, vejo entre os sinais mais dolorosos do drama ucraniano a expansão de uma epidemia galopante de cegueira e surdez completas, onde só se abre espaço à intolerância, matéria-prima para uma guerra civil.

O nome do meu país, Ucrânia, provem de duas palavras do eslavo antigo: “u kraia”, que significam “na beira”; coisa que refletia a localização geográfica de suas terras, no limite sudoeste dos territórios eslavos. Agora, o nome Ucrânia parece voltar a refletir sua localização, na historia dos tempos que correm.

i Ex-primeira ministra, proeminente figura da oligarquia do gás e petróleo e antiga líder política da chamada “Revolução Laranja”, de 2004; opositora ao atual presidente; hoje presa por conta de um polêmico processo judicial. (Nota do tradutor).


Cronologia de um desastre que se anuncia

Igor Storch, diretor de cinema ucraniano, é o autor deste artigo tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Митинг "За европейскую Украину" в Киеве

Ainda não sabemos quem são os roteiristas, mas analisando o drama, podemos ver suas diferentes etapas:

1. Em 28 de novembro o presidente da Ucrânia, Vítor Yanukovich, decide postergar a assinatura do acordo de associação com a União Européia, pelas perdas econômicas que implicaria na relação com a Rússia.

2. A oposição convoca um protesto na Praça da Independência. Em 30 de novembro, a polícia reprime centenas de manifestantes e desocupa a praça. Fica um mal-estar e decepção na sociedade, mas não mais que isso.

3. Na noite de 30 de novembro, quando os protestos dos partidários da integração da Ucrânia à Comunidade Européia perdiam intensidade, as forças especiais da polícia, de forma surpreendente, atacam um grupo de estudantes, surrando-os selvagemente. A TV mostra as imagens a todo o país, a oposição imediatamente faz um chamado ao povo e no dia seguinte, para surpresa de todos, saem um milhão de pessoas à rua em Kiev, uma cidade de 3 milhões de habitantes.

4. No dia seguinte, 1º de dezembro, um grupo de radicais falando russo (a grande maioria dos ativistas fala ucraniano) ataca com paus e correntes um grupo de alunos da escola militar e da polícia antidistúrbios. Os atacantes tratam de enredar os civis que protestavam pacificamente nos seus atos de agressão. Os policiais presenciam a situação mais de uma hora e meia sem receber ordens para reprimir, e quando ela chega, reprimem brutalmente. A maioria das vítimas é de civis inocentes. Dezenas de outros inocentes são presos. A TV russa filma tudo e imediatamente as imagens vão ao ar nos canais controlados pela oposição ucraniana. Resultado: o povo chega à Praça da Independência, se instala em barracas e cerca os tribunais de justiça. As forças policiais já pareciam seguras de que todos os manifestantes eram extremistas, e atacam prontamente, enquanto os demais já não duvidam que os policiais antidistúrbios são carrascos sanguinários, provavelmente mercenários russos vestidos como policiais ucranianos.

5. Em 11 de dezembro, quando a tensão baixa gradativamente, organizam-se “mesas redondas”, chegam muitos emissários europeus oferecendo intermediação e parece que todos estão a ponto de chegar a um acordo. A polícia ucraniana, sem maior entusiasmo, realiza uma tentativa de desocupar a Praça da Independência, e o faz com bastante cautela e sem atacar ninguém. Em resposta, por toda a cidade tocam os sinos das igrejas e o povo sai de casa às duas horas de uma madrugada gelada para defender a praça. O transporte público já não funcionava, e os taxistas levam as pessoas ao centro gratuitamente. Ao final, o povo, que já estava perdendo o entusiasmo inicial, se anima novamente e constrói barricadas de três metros. Os chefes policiais ficam incomodados porque não receberam ordens para reprimir.

6: Passa quase um mês. O Presidente Yanukovich viaja a Moscou e recebe de Putin a promessa de um crédito de 15 bilhões de dólares. Passadas as festas de Ano Novo, o povo está cansado, e na Praça nota-se uma certa desilusão e esgotamento. De repente, em 16 de janeiro, o parlamento ucraniano, violando todas as normas, aprova as chamadas “Leis da Ditadura”, que proíbem de forma estrita todas as manifestações públicas. O povo recebe a notícia e não pode acreditar. Todos novamente se despejam nas praças e no centro da cidade. A oposição política se vê cada vez mais passiva e indecisa.

Em 19 de janeiro, os mesmos jovens que foram os provocadores do 1º de dezembro (a mesma idade, os mesmos refrões e os mesmos métodos) atacam absurdamente, num domingo, o Palácio do Governo vazio, e com muita violência agridem novamente a polícia e as tropas especiais. O povo, exausto com a passividade da oposição política, cai na provocação e também participa, lançando coquetéis molotov nos representantes do poder. Começam os combates de rua, o resultado: 40 policiais e militares e centenas de civis feridos. O governo determina o uso de carros lança-água contra a multidão, mesmo com uma temperatura de 5oC abaixo de zero. Um dos líderes da oposição, o boxeador Vitali Klichko, tenta se reunir com o Presidente, que trata de ganhar tempo e não o recebe. Os ódios de ambos os lados crescem.

7. A partir desse momento, aparecem maciçamente nas ruas jovens musculosos, muitos deles com passado delitivo, contratados pelo governo para amedrontar os manifestantes. Os ativistas radicais começam a caçá-los, levando alguns deles à Praça da Independência para surrá-los, ainda que sem maior selvageria, mostrando-os à imprensa. No dia 22 de janeiro, Dia da União da Ucrânia, novo feriado do país, franco-atiradores desconhecidos matam cinco pessoas. Todos os disparos foram feitos por profissionais, diretamente no coração ou na cabeça das vítimas. Carros sem placa começam a sequestrar ativistas e transeuntes casuais, suspeitos de simpatizar com Maidan. Torturam selvagemente dezenas destas pessoas, as desnudam e as atiram na neve. Também queimam os carros de muitos ativistas. Os canais de televisão controlados pela oposição mostram os mortos e a brutalidade policial. Pela Internet, todo o país vê um vídeo que começa a circular, em que policiais, depois de torturar, desnudam na neve um ativista e, em seguida, tiram fotos com ele. Matam um conhecido líder social, doutor em ciências…

Alguém invisível parece muito interessado em dividir-nos e enfrentar-nos…

Quando a “Revolução” muda de rumos

Artigo de Aleksandr Karpets, jornalista ucraniano, tirado de Outras Palavras (aqui). Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel. O negrito é de nosso.

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Fora uma reação natural às ações autoritárias do governo, esta revolta insana foi consequência da incapacidade e da impossibilidade de resolver, de forma racional, os problemas catastróficos acumulados na Ucrânia após a desarticulação da União Soviética. Problemas que se agravaram com a chegada ao poder de Yanukovich. Por um lado, a revolta demonstrou a debilidade do seu governo e, por outro, que os líderes e as massas não têm nenhuma compreensão racional do que acontecerá depois, do mesmo modo como não sabem a que realmente aspiram, no caso de um eventual triunfo.

O problema principal está nas contradições que se acumularam no país durante quase um quarto de século: o saque dos bens nacionais por parte dos novos ricos, o aparecimento e o forte aumento da injustiça social, uma enorme desigualdade econômica e política e, como consequência de tudo isso, uma incrível decomposição moral de toda a sociedade, o que provocou a corrupção generalizada em todos os níveis.

Esse problema não tem solução nem em um protesto de rua, nem dentro dos procedimentos legais do Estado, incluindo todo tipo de negociação ou “mesas”, que servirão não mais que como válvulas de escape.

Em primeiro lugar, a solução do problema é impossível porque o atual Estado ucraniano é uma organização política da oligarquia financeira e econômica e da burocracia que representa seus interesses. O objetivo dessa organização é a exploração de outros grupos sociais, ora manipulando-os, ora reprimindo-os, para manter-se no poder. A mudança dos personagens no governo, o cumprimento formal de alguns procedimentos democráticos e inclusive a mudança de várias leis dentro de um Estado desse tipo não significam muito, já que não mudam a essência do modelo.

Em segundo lugar, a mudança fica impossível porque, com a crise econômica global, a situação degradou-se consideravelmente. Um relativo bem-estar e um boom consumista às vésperas da crise, graças ao sistema de crédito, geraram a ilusão da chegada ao “paraíso capitalista”. A crise destruiu essa ilusão, levando o país de volta à sua realidade, submergindo-o na pobreza e no desemprego. Da mesma maneira que no resto da resto de Europa, isso agudizou as contradições econômicas e sociais. A degradação rápida das condições econômicas de uma imensa maioria dos ucranianos foi acompanhada de um igualmente rápido enriquecimento dos clãs oligárquicos e de certas figuras.

Além disso tudo, chegou ao poder o grupo mais reacionário de toda a história da Ucrânia independente, grupo que instalou uma ditadura do capital de origem criminosa, e que se apóia na força da polícia e de delinquentes comuns, à semelhança de alguns regimes latino-americanos do século XX. Se o “fundador” do sistema oligárquico criminoso, o primeiro presidente da Ucrânia independente, Leonid Kuchma, compreendia e respeitava a existência de certos limites que não deviam ser ultrapassados — o que demonstrou os acontecimentos não violentos da “revolução laranja” de 2004 —, os representantes do clã de Yanukovich simplesmente não veem esses limites. Kuchma pôde aposentar-se politicamente, e agora é conhecido como mecenas, vendendo a imagem de um “avozinho generoso” que ajuda as crianças. As figuras do atual governo não podem deixar o poder, porque entendem que, se o abandonam, serão alcançados pelo castigo por aquilo que fizeram.

A construção de um regime fascistóide começou imediatamente depois da chegada de Yanukovich ao poder. Essas são algumas das etapas: a mal chamada reforma judicial, que permitiu ao governo tomar o controle total da justiça do país; um golpe constitucional no outono de 2010, que permitiu ao governo, e a Yanukovich pessoalmente, usurpar o poder, arregimentando prerrogativas excepcionais para as quais não fora eleito; a imposição de um novo Código Fiscal, contendo um ataque contra a pequena e média empresa, acompanhada da repressão policial dos seus tímidos protestos; a imposição de um Código de Trabalho abusivo e de um Código de Moradia expropriador, com o objetivo de suprimir ao máximo os direitos sociais e trabalhistas dos cidadãos; e, logo em seguida, uma série de expropriações arbitrárias de dinheiro e de imóveis em favor do capital oligárquico, que, como dissemos, é a base econômica e social do governo. A isso tudo acompanhou-se um permanente enriquecimento dos clãs oligárquicos, incluindo o mais próximo ao governo, chamado “A Família”, junto com a concentração dos bens públicos nas mãos de um pequeno grupo de novos ricos.

Antes de 19 de janeiro deste ano, os protestos se limitavam a declarações exaltadas, promessas, ameaças, festa e cantos na Praça da Independência de Kiev, que hoje é midiaticamente conhecida como Euro-Maidan (“maidan” é praça em ucraniano). Os “líderes” estavam preocupados com seus futuros ganhos eleitorais. Dava a impressão de que eles tinham medo de tomar decisões e depois ter que arcar com elas. A massa repetia o refrão delirante de uma “revolução apolítica”. A assembleia popular de 19 de janeiro, a poucas horas dos enfrentamentos, acabou com um escândalo: diante da verborreia dos “líderes”, o povo vaiou e exigiu a apresentação de um plano concreto de ações e a nomeação de um dirigente capaz de encabeçar o processo e tomar as responsabilidades.

Falou-se muito de formas não-violentas de protesto, das quais a mais forte deveria ser a greve geral. Ela foi prometida em reiteradas oportunidades, mas nunca se concretizou, por conta da mesma incapacidade organizativa e ideológica dos “líderes” “pró-europeus”.

Um dos traços mais repugnantes do atual governo é o fato que as forças da ordem pública começaram a incorporar maciçamente delinquentes e o lumpesinato na luta contra os ativistas. Os delinquentes, contratados pelo governo, realizaram vários ataques contra pessoas, bens públicos e privados, para que, em seguida, os manifestantes fossem acusados de tais fatos. A delinquência urbana aumentou enormemente. Os próprios manifestantes tiveram que organizar “guardas populares” para manter a ordem no centro da cidade.

A apoteose da reação ao governo seguiu-se, sem dúvida, à aprovação, em 16 de janeiro, da lei que proibia todo tipo de protesto cidadão. Esse foi um ato absurdo e ilegal, aprovado em poucos minutos pela unanimidade dos obedientes deputados. A mensagem parecia dizer o seguinte: somos uma elite, podemos decidir e fazer o que quisermos e o seu dever é obedecer ou ir presos. Essa atitude demonstra uma total incapacidade do poder ucraniano em ver a realidade, superestimando sua capacidade de controlar o país.

Nesses dias, muitos falam de uma aplicação na Ucrânia do sistema russo-bielo-russo, onde qualquer protesto se reprime já no seu surgimento. Mas isso não é possível. Na Rússia, o governo conta com uma potente base econômica, principalmente pela exportação de matéria-prima. A taxa de aprovação de Putin, depois de quase 15 anos de governos consecutivos com estabilidade, supera os 50%. Na Bielo-Rússia, apesar dos problemas, as empresas industriais e agrícolas funcionam, há praticamente pleno emprego, a saúde e a educação continuam gratuitas e estatais, os programas sociais, culturais e esportivos funcionam bastante bem, e Lukashenko tem o apoio da grande maioria da população. O atual governo da Ucrânia não tem forças nem meios comparáveis aos russos ou bielo-russos. Além disso, Yanukovich e seu grupo não têm o mesmo nível de aprovação cidadã que gozam Putin e Lukashenko.

Durante muito tempo, a Ucrânia, apesar da complexa situação econômica e política que se seguiu à desarticulação da URSS, se manteve em paz cidadã, à diferença de quase todos os vizinhos da região. Yanukovich e seu governo já entraram para a história como os que conseguiram quebrar essa tradição, levando o país à beira de uma guerra civil.

Causa surpresa e admiração o fato de que, em uma sociedade que há pouco parecia definitivamente sumida na corrupção, na indiferença e no individualismo, apareçam hoje tantas pessoas dispostas a lutar por uma ideia, chegando às últimas consequências.

Os protagonistas dos combates de rua são nacionalistas radicais, mas justamente eles parecem refletir agora os ânimos das massas indignadas. Durante os choques de 1º de dezembro de 2013, chamavam os ultranacionalistas violentos de “provocadores”. Agora, ninguém mais se atreve a criticá-los. O motivo dessa mudança é evidente: o poder cruzou um limite, e isso radicalizou os cidadãos. Um claro exemplo são as imagens de 19 de janeiro, durante os primeiros combates no centro: um senhor de idade, quase um velhinho, de aspecto claramente “não radical”, parecido com um operário, levantando um ferro de construção gritava: “—Basta! Vão à merda! Basta de aguentar essa corja! Agora é guerra!”

29/01/2014

Ucraína: as 10 teses da da oposição de esquerdas

Zahar Popovich. Artigo tirado de SinPermiso (aqui). Zahar Popovich pertence à Oposição de Esquerdas da Ucrânia. A Oposição de Esquerdas é um coletivo da esquerda alternativa ucraniana. O negrito é de nosso.



Em opinião dos editores de LeftEast  o presente manifesto, embora represente uma posição minoritária dentro da esquerda ucraniana, é um documento reflexivo e sério que se merece chegar a uma audiência bem ampla. Publicámo-lo para enfatizar algumas das posições expostas até agora nas nossas páginas. Os responsáveis por LeftEast estamos acostumados a debates sobre "que fazer com o movimento de protesto" que têm local na esquerda búlgara e russa, e nos colocámos em diferentes posições. (Nota do conselho editorial da revista LeftEast)

Euromaidan e o Programa da  Esquerda

O movimento de protesto espontâneo Euromaidan que levou aos cidadãos ucranianos a resistir durante tantos dias e noites na praça Europa não tem nada que ver com o processo de adesão à União Europeia. Há que procurar nos problemas socioeconómicos do país, que são bem mais agudos que os dos seus vizinhos do Leste e o oeste, o motivo e o significado do protesto. O salário médio na Ucrânia é entre 2 e 2.5 vezes inferior ao da Rússia e Belarus, e bem mais baixo que na UE. A crise económica mundial afetou a Ucrânia bem mais drasticamente que a qualquer outra economia na Europa, desde o Atlântico até os Urais. O crescimento económico desde o começo da crise quase paralisou-se e prevê-se que vai continuar assim todo o 2013. Ademais, o sistema económico ucraniano praticamente não obriga a pagar impostos aos oligarcas. Pode-se exportar legalmente minerais, metais, amoníaco, trigo e girassol por valor dezenas de biliões de dólares sem declarar nenhum benefício. Todos os ganhos se ocultam em paraísos fiscais, onde  a maioria das empresas que funcionam têm a sua sede legal. Qualquer benefício conseguido por uma empresa no país pode ser transferido legal e facilmente aos países sem controlo fiscal, por exemplo disfarçando-o de empréstimo fictício.

Surpreende a alguém que o governo ucraniano tenha sistematicamente problemas  para renovar o orçamento? Ao final do ano passado Ucrânia esteve cerca da bancarrota. Converteu-se em uma prática habitual o não pagar os atrasos aos servidores públicos e os recortes nos programas sociais. A situação exacerbou-se com a guerra comercial com Rússia, quando Gazprom quis obrigar à subida das tarifas do gás ucraniano ao mesmo preço do Leste europeu. Os oligarcas conduziram ao país a um callejón sem saída; inclusive após intermináveis discussões, não foram capazes de formular uma estratégia de desenvolvimento coerente,  renunciando a investir nas instalações e permitindo a sua deterioro. Qualquer estratégia de desenvolvimento deve controlar os seus privilegios desmesurados -deve no mínimo terminar com a fuga de capital e reforçar a carga impositiva. Mas é exatamente o que os oligarcas não querem aceitar, inclusive sabendo que se as regras do jogo não são mudadas eles mesmos conduzirão o país para a catástrofe económica, cortando o ramo da árvore onde eles mesmos têm o seu ninho.

Quando a oposição de direitas fala dos problemas económicos, centra-se exclusivamente em temas de ineficácia organizativa e corrupção. E se a conversa lhes leva à questão da oligarquía que está a saquear a nação, então limitam-se a denunciar aos executivos próximos ao Partido das Regiões, e na maioria de casos não vão além dos negócios que pertencem aos filhos de Yanukovich. Desde o ponto de vista da direita, os outros oligarcas não são um problema, porque eles têm consciência nacional.  Segundo esta lógica quando Ucrânia é saqueada por um "autêntico" ucraniano é inclusive beneficioso para a causa nacional.

Está a criar-se uma situação paradoxal. Todos os economistas conscientes (icluso alguns neoliberais como, por exemplo, Viktor Pinzenik) estão de acordo em afirmar que o sistema impositivo foi construído para permitir que as grandes fortunas não pagassem impostos. Todos podem ver que este sistema não é sustentável, mas nenhum dos políticos no parlamento se atreveram a oferecer um sistema alternativo realista e funcional. Quase ninguém se atreve a admitir publicamente que o tema mais acuciante para a Ucrânia não é a UE ou os sindicatos, senão simplesmente que os oligarcas comecem a pagar impostos. O aparelho do estado é perfeitamente capaz de obrigar-lhes a que o façam, porque os seus recursos estão todos situados na Ucrânia. No entanto, tal como  Andrei Hunko recentemente destacou, a oligarquização da política ucraniana atingiu umas proporções tais que nem um só dos partidos parlamentares pode mencionar este tema.

É muito triste que só os esquerdistas radicais falem destas mínimas e evidentes reivindicações. Faço questão de que estas demandas não têm de ser vistas como um programa da Oposição de Esquerdas, mas como os primeiros passos para a formação de políticas que podem aglutinar a todas as forças anti-oligarquia, as quais não consideram que uma ditadura fascista de ultra-direita seja nenhuma solução: o tipo de ditadura à qual o partido nacionalista "Svoboda" quer-nos/quê-nos conduzir, enquanto os líderes da oposição sentam-se apaticamente a vê-las vir.

A falta evidente de um plano de ação coerente para ajudar a Ucrânia a sair da crise é tão acuciante que inclusive as publicações liberais ou direitistas-liberais começaram a discutir nossos "Dez Pontos"- como por exemplo, Lvov's zaxid.net.


Plano pela mudança social em dez  pontos

Introdução pela Oposição de Esquerdas

Apresentamos-vos o documento titulado "Plano pela Mudança Social ", que traça algumas linhas para incrementar o bem-estar dos cidadãos e garantir o progresso social. foi escrito em parte porque a maioria das reivindicações de Euromaidan foram ignoradas. O nosso desejo é que este documento possa servir como plataforma de união  de uma  larga gama de iniciativas sociais de esquerdas e dos sindicatos. Este documento foi escrito por militantes da Oposição de Esquerdas, a organização socialista que tem como objetivo unificar a todas as pessoas pertencentes ao movimento chamado provisoriamente #leftmaidan.

Não estamos de acordo com os partidos políticos que transformam os movimentos de protesto e o dirigem para a política eleitoral; eles tentam encontrar novas vozes em local de realizar mudanças significativos do sistema. Não secundamos as ideias das estruturas liberais que advogam pela economia de livre mercado, também não aceitamos aos nacionalistas radicais que advogam por políticas discriminatórias.

A nossa esperança é que o movimento, motivado pela insjustiça social, seja capaz de cortar de raiz as causas da injustiça. Achamos que a causa da maioria dos problemas sociais está na oligarquia surgida da aliança entre capitalismo selvagem e a corrupção. É importante limitar os interesses egoístas dos oligarcas, em local de confiar na ajuda da Rússia ou do FMI, com a consequente dependência da nação. Achamos que é perjudicial acrescentar as nossas vozes à demanda de integração na Europa; pelo contrário precisamos delimitar claramente as mudanças inprescindíveis para apoiar os interesses dos cidadãos correntes, especialmente dos trabalhadores. Em várias ocasiões citamos as experiências progressistas de alguns estados europeus que tomaram medidas neste sentido.

Os nossos objetivos são relativamente moderados para que possam ser assumidos pelo maior número de organizações. Não vamos ocultar o feito com que, para nós, este plano é em menor medida uma reação aos factos atuais que um passo para a formulação de uma força política de esquerdas contemporânea - uma força que seja capaz de influir aos dirigentes no poder e oferecer uma alternativa à ordem social existente. A Oposição de Esquerdas considera este plano proposto como de mínimos para a construção do socialismo baseado nos princípios de autogestão,  socialização da indústria,  dedicação do benefício para fins sociais e a eleição direta dos cidadãos para as funções de governo 

Podem contactar connosco através do nosso Facebook ou as páginas de VKontakte para nos enviar as vossas opiniões, ou também em gaslo.info@gmail.com.

Substituir uns políticos e oligarcas por outros sem uma mudança geral do sistema não vai melhorar as nossas vidas. Em mudança, o nosso grupo de ativistas sociais e sindicais está a propor dez condições básicas para superar a crise económica e assegurar o futuro crescimento económico da Ucrânia

O coletivo de oposição de esquerdas



1. O GOVERNO PELO POVO, NÃO PELOS OLIGARCAS    

Tem que ter uma transição desde um regime presidencial à república parlamentar, na qual o poder presidencial esteja limitado a funções representativas a nível internacional.  A autoridade deve de ser transferida dos administradores estatais aos comités regionais representativos (soviets). As autoridades têm de ter o direito de cessar os delegados que não cumpram com o seu cometido; os juízes e os chefes de polícia não têm de ser nomeados mas eleitos.

2. NACIONALIZAÇÃO DAS INDÚSTRIAS PRIMÁRIAS

A metalurgia, a minaria e as indústrias químicas, junto das empresas estruturais (energia, transporte e comunicações) devem de contribuir  ao bem comum.

3. Os TRABALHADORES DEVEM DE CONTROLAR TODAS As FORMAS DE PROPRIEDADE

Seguindo o modelo dos exemplos europeus de sucesso, temos que constuir uma ampla rede de sindicatos independentes de trabalhadores que controlem a gestão e sejam garantia dos direitos laborais. Os trabalhadores têm de ter o direito à greve (a cessar de trabalhar quando não se lhes paga). Os trabalhadores devem de contar com empréstimos com garantia do empresário se o pagamento dos salários atrasa-se (como acontece em Portugal).  A contabilidade e os dados de gestão das empresas a mais de 50 pessoas, ou que ultrapassem o capital a mais de 1 milhão de dólares, têm de ser acessíveis online.

4. INTRODUÇÃO DO IMPOSTO DO LUXO

Temos que gravar um  50%  os artigos de luxo  - iates, carros de elite e outros items que valham mais de 1 milhão de gryvnas. Deve-se criar um imposto progressivo pessoal. As pessoas com rendas superiores  a 1 miliã de gryvnas devem ter uma carga impositiva de 50%,  seguindo o exemplo da Dinamarca (com este sistema Renat Ahmetov contribuiria 1.2 billion gryvnas ao orçamento federal, enquanto com um encargo de 17% só contribuiu com 400 milhões).

5. PROIBIÇÃO DAS TRANSFERÊNCIAS DE CAPITAL  A PARAÍSOS FISCAIS

As leis que permitem às empresas ucranianas não pagar impostos em um grande número de paraísos fiscais têm de ser revogadas, para evitar a fuga de capitais. Os fundos de ditas companhias devem de ser intervidos e deve-se nomear uma administração provisória  até que a legalidade dos investimentos possa ser demonstrada

6. INCOMPATIBILIDADE ENTRE EMPRESÁRIOS E CARGOS POLÍTICOS 

Os cidadãos cujas rendas excedam 1 milião de grivnas não poderão ocupar cargos estatais ou locais. Convocar-se-ão eleições estatais de acordo com este regulamento.

7. REDUÇÃO DE DESPESAS DO APARELHO BUROCRÁTICO

A despesa governamental tem de ser transparente e controlado. Devem de levar-se a cabo as reformas necessárias para reduzir o número de empregados de alto nível na administração. Na atualidade departamentos inteiros podem substituir com a gestão informatizada. No entanto nos últimos oito anos o número de servidores públicos incrementou-se em quase o 10%, mais de 372,000 pessoas (na Ucrânia há 8 servidores públicos pela cada 1000 pessoas ? Na França, há só 5 pela cada 1000!).

8. DISOLUÇÃO DO BERKUT E OUTRAS FORÇAS ESPECIAIS

A partir de 2014 terão reduções no orçamento em segurança do aparelho estatal: o Ministério do Interior, o Serviço de Segurança, o Escritório do Promotor Geral e as forças especiais da polícia. É inaceitável que o Ministério do Interior tenha de orçamento a mais de 16.9 milhões de grivnas em 2013: 6.9 milhões mais que a despesa em saúde pública!

9. ACESSO À EDUCAÇÃO E PREVIDÊNCIA GRATUITA

Fundos para esta iniciativa têm de provir da nacionalização de indústrias  e da redução da despesa no aparelho de segurança e na burocracia. Para eliminar a corrupção em educação e previdência, devemos aumentar os honorários de médicos e professores e restaurar o prestígio nas suas áreas respetivas.

10. RETIRADA DAS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS INTERNACIONAIS ABUSIVAS

Advogamos pela cessação da colaboração com o Fundo Monetário Internacional e outras instituições financeiras internacionais. Devemos seguir o exemplo da Islândia, que se negaram a pagar a dívida contraída pelos banqueiros e burocratas (com o beneplácito do governo) para o seu enriquecimento pessoal e subvenções arbitrárias não destinadas ao desenvolvimento industrial.

09/12/2013

Ucrânia: a dobradiça entre Rússia e a União Europeia explode em protestos

Àngel Ferrero. Artigo tirado de SinPermiso (aqui) e traduzido por nós. Àngel Ferrero é membro do comité de redação de Sin Permiso. Este artigo está baseado em outro publicado em La Directa o 4 de dezembro de 2012. Atualizou-se e introduzido ligeiras modificações. 

 Foto: A min unha "revolución" como a que supostamente se está a producir en Ucrania -liderada por curas ortodoxos, cosacos, neonazis e tradicionalistas ultranacionalistas de todo tipo- dame algo de noxete. En calquera caso, non é unha revolución, se non mais ben unha contrarrevolución.


Os protestos na Ucrânia contra a decisão do governo de Víktor Yanukóvich de não assinar finalmente o Acordo de Associação com a União Europeia adotaram um cariz violento o passado 1 de dezembro, quando, após vários choques entre os manifestantes e a polícia em Kiev, um grupo tentou ocupar diversos edifícios governamentais no centro da capital.

No dia anterior, a Berkut -o corpo especial da polícia ucraniana, similar aos OMON russos- dissolvia brutalmente uma manifestação pacífica em Maidan, a Praça da Independência. A cena de um grupo de manifestantes encapuchados tentando romper as bichas da polícia com uma excavadora deu a volta ao mundo. A situação no país segue sendo tensa. Não só se registaram protestos em Kiev e Ucrânia ocidental -onde se localiza tradicionalmente a base de apoio pró-ocidental-, senão também em Dnipropetrovsk e outros municípios da Ucrânia oriental. Uma parte da oposição está a tratar de tumbar ao governo de Yanukóvich com todos os meios ao seu alcance: protestos de rua, ocupações
de edifícios públicos, convocações de greve e moções de censura. Tem-se rumoreado que o executivo contempla a possibilidade de decretar o estado de exceção, que o governo e Rússia têm infiltrado provocadores nas manifestações, e o deputado do conselho de Sebastopol, Serguéi Smolyanov, inclusive pediu publicamente ao presidente russo, Vladímir Putin, que enviasse os tanques para reprimir as revoltas.

Um jogo de soma zero

Ucrânia converteu-se em um jogo de soma zero entre Rússia e a União Europeia por interesses geopolíticos (veja-se "La batalla de Ucraïna", Rafael Poch-de-Feliu, La Directa, 02/12), e agora mesmo encontra-se entre a safra e o martelo. Se Ucrânia assina o Acordo de Associação com a União Europeia, o projeto russo de criar uma União Euroasiática com Kazajistán e Bielorrusia para reafirmar-se como um polo geoestratégico estável em um mundo multipolar fracassa. A União Europeia está interessada precisamente em evitar a consolidação da União Eurasiática e trata de alargar a sua esfera de influência para o Leste, integrando a estes estados na sua periferia, no sentido mais estrito do termo: como fornecedores de matérias primas -Ucrânia é, por exemplo, um dos maiores produtores de grão do mundo e um importante produtor de carvão- e mão de obra barata para a Kerneuropa.

Além de recorrer ao fornecimento de gás como arma de negociação (como fez desde o 2005 até o 2009), Rússia poderia bloquear a entrada de produtor ucranianos e deixar ferida de morte à sua economia, já que mais de 60% das suas exportações terminam na Rússia, Kazajistán e Bielorrusia. Mas ante a ameaça de uma guerra comercial com Rússia, a União Europa não só foi incapaz de oferecer nenhuma garantia ao governo ucraniano -que reclamava um crédito de 160 mil milhões de euros para levar a cabo as reformas necessárias que a UE lhe exigia para harmonizar regulamentos-, senão que exigiu o aumento de 40% das tarifas de gás e calefação, a eliminação de subsídios e barreiras comerciais e uma congelação salarial com o objetivo de favorecer as exportações para a UE. (Para mais dados sobre o Acordo, veja-se o artigo de József Böröcz nesta mesma edição de Sin Permiso.) Todo isso em um país onde o salário médio mais elevado é de 469 euros mensais (Kiev). Em um gesto arrogante, a União Europeia exigiu ademais a aprovação de uma Lex Timoshenko que permitisse à ex-primeira ministra Yúlia Timoshenko, que se encontra atualmente em uma prisão de Járkiv cumprindo condena por abuso de poder, receber tratamento médico em uma clínica alemã.

Finalmente, a UE também recusou a possibilidade de conversas tripartitas entre Ucrânia, Russa e a União Europeia.

Se segundo o cineasta russo Vladimir Bortko, todo o que lhe fica a Rússia é "exportar petróleo, gás e prostitutas", da Ucrânia pode dizer-se a grandes rasgos o mesmo, mas excluindo o gás e o petróleo. O país encontra-se à beira da recessão: a falta de investimentos durante anos na indústria e a agricultura, a emigração e uma corrupção rampante - Ucrânia ocupa a posição 144 do último índice de perceção da corrupção realizado por Transparência Internacional -fazem com que a Ucrânia precise, no mínimo, entre 20 e 40 mil milhões de dólares para reflotar a sua economia. Mas Ucrânia sofre além de graves problemas sociais: é o país da Europa oriental com um maior índice de população com HIV/SIDA (54 infeções reportadas diárias no 2012), numerosos casos de alcoolismo e tabaquismo e um sistema social que faz águas por todas partes. A pobreza empurra a muitas mulheres à prostituição, convertendo a Ucrânia em um dos destinos de turismo sexual de muitos viajantes ocidentais. Segundo dados do 2011, umas cinquenta mil mulheres exercem a prostituição na Ucrânia, mas a cifra é com toda a segurança bem mais alta.

Um Mercedes-Benz com a União Europeia

Uma das coisas que sem dúvida mais surpreendeu a muitos observadores foi a veemência com a que os manifestantes reclamam a entrada da Ucrânia em uma União Europeia em crise, inclusive se o Acordo de Associação não contempla a adesão, e a rejeição a fazer parte da União Eurasiática da Rússia. A imprensa tem areado algumas razões históricas -esquecendo-se de outras, como que Kiev foi a capital do primeiro estado russo, o Kievan Rus-, obviando claros fatores económicos. No artigo reproduzido na semana passada nestas páginas, Petro Pustova assinalava que, apesar dos vínculos com o seu vizinho, a economia russa, -baseada na exportação de matérias primas e energia, com a sua relativamente baixa taxa de crescimento da produtividade não pode proporcionar aumento dos salários dos ucranianos nem melhores resultados macroeconómicos. O giro ideológico conservador do governo russo, destinado a galvanizar a sua base eleitoral em previsão da chegada da crise ao país, é contemplado logicamente com receio por parte da classe média ucraniana.

Não convém subestimar também não o fator psicológico. No imaginário dos manifestantes -não isento da confusão entre a União Europeia e Europa, que Bruxelas provoca-, a União Europeia associa-se ao estado do bem-estar, a ausência de corrupção, uma moeda e governo estáveis e a facilidade para emigrar a um país comunitário e encontrar trabalho. O diário polaco Gazeta Wyborcza recolhia o comentário de um manifestante, um jornalista de 32 anos que assegurava que a entrada à União Europeia permitir-lhe-ia se comprar um Mercedes-Benz, enquanto em uma Ucrânia fora da UE só poderia ter um Lada. Evidentemente, a situação atual que vive a população favorece esta idealização ingénua, mas o exemplo de Bulgária e Roménia, onde a entrada na União Europeia não significou de maneira evidente nenhuma melhoria em nenhum das feições antes mencionadas -e inclusive alguns retrocessos, como na desindustrialização de muitas regiões e o desaparecimento de muitas empresas locais, incapazes de fazer frente à competição do capital alemão e austríaco- teria que vacinar aos comentaristas, tanto aos de aqui como aos de lá, contra todo o proeuropeo.

A ultradereita e o populismo saem à rua

Com o seu anúncio de "manter a porta aberta", a União Europeia anima indiretamente aos manifestantes a continuar o protesto. Mas Bruxelas conta com dois aliados no país: a União Panucraniana "Pátria" (Batkivshchyna), a formação de Yúlia Timoshenko, e a Aliança Democrática para a Reforma (UDAR), do boxeador Vitali Klitschko. Tanto Udar como Batkivshchyna têm o estatus de observadores no Partido Popular Europeu (PPE). Segundo o confidencial German Foreign Policy, Udar recebe fundos da fundação Konrad Adenauer da CDU, interessada em criar uma alternativa a Timoshenko no país. Segundo informa o Junge Welt, Klitschko não teve nenhum conserto em recorrer à demagogia, prometendo aos manifestantes em Kiev que em 15 anos Ucrânia estaria entre os países mais competitivos da União, e que o Presidente da Comissão seria um ucraniano.

Batkivshchyna e Udar cooperam a nível de rua e parlamentar com Svoboda ("Liberdade"), um partido que a imprensa qualifica eufemisticamente de "nacionalista", mas que em realidade se trata uma formação neofascista. Por recomendação da Frente Nacional francês, no 2004 desfez-se de toda a parafernalia nazista, dissolveu o seu braço armado (uma milícia conhecida como Autodefensa Nacional Ucraniana), mudou o seu nome de Partido Social-Nacional da Ucrânia (SNUP) e substituiu o seu antigo emblema, uma runa germánica, por uma mão com os três dedos estendidos, uma escura referência ao juramento que os colaboracionistas ucranianos faziam durante a Segunda Guerra Mundial. Todo isso não impediu que o partido participasse no passado mês de junho em uma homenagem a veteranos das SS em Lviv. O seu líder, Oleh Tianhybok, pediu aos seus compatriotas que se unissem na luta para a libertação de "a máfia judia em Moscovo". O deputado de Svoboda Igor Miroshnichenko qualificou no ano passado à atriz estadounidense Mila Kunis, de origem ucraniano judeu, de "zhydovka", um termo derivado do fortemente despectivo "zhid" (жид) que pode se traduzir livremente como "suja judia". Svoboda também foi chave na anulação do Desfile do Orgulho Gay de Kiev no 2012, depois que os seus militantes se dedicassem durante as semanas prévias a perseguir e a agredir homossexuais na capital. Os padrinhos ocidentais de Batkivshchyna e Udar toleram a convivência dos seus aliados regionais com esta formação que o Centro Simon Wiesenthal condenou pela sua ideologia "antisemita, antipolaca, antigitana e homófoba" e esperam -como Batkivschyna e Udar- utilizar a Svoboda como ariete contra o governo de Yanukóvich, aproveitando tanto o seu nível de organização e implantação social como a sua aspiração a entrar na União Europeia para estreitar vínculos com o resto de formações "ultras", apesar do discurso euroescéptico que estas últimas adotaram para ganhar votos.

O grande esquecido dos protestos voltou a ser a esquerda. O Partido Comunista de Petro Symonenko, que conta com 32 deputados na Rada, foi ignorado por todos os meios de comunicação. Apesar de manter, como o seu partido fraternizo na Rússia, uma linha política que não se concorda claramente com as exigências de mudança da sociedade e estar em declive, o PCU é um dos poucos partidos que critica o Acordo de Associação e, ao mesmo tempo, a situação atual da Ucrânia, em mãos de oligarcas e especuladores. Boris Kagarlitsky recordava desde o digital da esquerda russa Rabkor.ru que enquanto os meios informavam do que passava em Kíev, em Chisinau os comunistas moldavos protestavam contra a assinatura do Acordo de Associação com a União sem que nenhum médio, nem ocidental nem russo, se fizesse eco dos protestos.